Perchance

21 Vertigem


Notas iniciais
Nota 1: Quanto maior for a vertigem, maior será o tombo, digo, o capítulo. Nota 2: Stroke of luck or gift from God? Hand of fate or devil's claws? From below or saints above? You come to me now...

SÃO PAULO — 20 MESES E ALGUNS DIAS ANTES

Ali, encolhida do frio na poltrona mais reservada do saguão, os olhos cansados por trás das lentes observando o vai e vem dos poucos passantes, Marina suspirava sua frustração ao olhar para a tela do celular novamente, esperando uma resposta que não vinha, relendo pela décima vez o pequeno texto que enviara minutos atrás.

Tinha prometido que estaria em casa para o jantar, mas o advogado que deveria vir ao seu encontro quando desceu há uma hora ainda estava por dar às caras e já passavam das cinco e meia da tarde. Ele pelo menos teve a decência de lhe enviar uma mensagem, só para avisar que o trânsito estava um caos por causa da tromba d’água lá fora e que provavelmente atrasaria mais uma meia hora, no mínimo.

Desde cedo chovia muito na capital paulista e era quase certo que seu voo também não saísse no horário. Nesse entremeio, tentara ligar várias vezes para Clara para avisá-la, mas o sinal estava péssimo e, mesmo quando conseguia linha, o telefone só chamava e chamava, ninguém atendia. Conexão com a internet era outra dor de cabeça que não precisava nesse momento. No fim, tinha optado por uma mensagem de texto mesmo e, quatro tentativas depois, o sinal finalmente parecia estar colaborando, só que Clara não havia respondido até agora.

Talvez ela nem tivesse visto ainda, talvez tivesse ido buscar Ivan e esquecido o celular em casa...

Ajeitou os óculos num gesto irrequieto, de repente se sentindo desconfortável na própria pele e não parecia ser só por causa do frio. Resolveu então se aconchegar um pouco mais na poltrona e deixar seus pensamentos vagarem por outros terrenos menos férteis.

Havia passado a noite anterior e parte dessa manhã no seu quarto luxuoso de hotel – cortesia de Diana Grimaud, claro – debruçada sobre uma pilha de livros e papéis. Dedicara-se arduamente na leitura dessa cópia da proposta de sociedade que o tal advogado havia enviado para o hotel antes da sua chegada. O homem, de nome Leonel Henriques, assinava o extenso documento onde se autodenominava representante legal de uma companhia internacional chamada CG Enterprise e que Marina nunca tinha ouvido falar na vida, embora suspeitasse que esse fosse apenas mais um dos muitos empreendimentos sigilosos nos quais a família Grimaud estava envolvida desde muito antes de ela sequer sonhar em nascer. Depois de analisar as quase duzentas páginas povoadas com imagens das suas três últimas exposições, as quais foram pinceladas por referências artísticas e históricas das mais variadas, além de algumas dezenas de alíneas contratuais, tivera como prêmio uma enxaqueca daquelas. Mas não podia reclamar, estava mesmo com o ânimo renovado porque sentia que sua previsão tinha tudo para se cumprir ainda naquela noite.

É, essa reaparição da 'Mecenas de Nantes' realmente não poderia ter acontecido em momento mais propício da sua vida.

Se tudo ocorresse dentro do esperado nessa conversa, tinha certeza que em pouco tempo a sociedade seria concretizada no papel. E, claro, já tinha tudo planejado para comemorar a ocasião. Ia levar Clara para a sua ilha reduto, um jantar, e lá a surpreenderia com a notícia.

E se tudo desse errado? Bem, ainda teria aquele presente de seis meses de casamento esperando-a para o momento, “Afinal, uma noite ou outra regada a champanhe francês, boa música e na companhia de quem se ama nunca matou ninguém, não é?”, a fotógrafa relembrou as palavras bem humoradas da esposa, quando Marina havia prometido esse retorno especial a Angra nas próximas semanas.

Seus pensamentos então retornaram para a manhã do dia anterior, para aquele rápido e entrecortado telefonema que recebera.

Do outro lado da linha, de algum café na cidade de Praga, Diana lhe dizia ter acompanhado e se encantado ainda mais por seu trabalho nos últimos anos, além de se mostrar especialmente impressionada com a mais recente das suas exposições. Ela também lhe falou num tom pouco casual que estaria de passagem por São Paulo para fechar uma negociação importante e que, na oportunidade, se Marina estivesse disponível, teria um par de horas livres à tarde para um chá e uma conversa informal no hotel onde se hospedaria para aquele dia. Tinha percebido o riso na voz dela quando a francesa ventilou que um dos seus advogados iria contatá-la via e-mail para acertarem os ‘detalhes surpresas’ desse encontro.

E que ‘detalhes surpresas’ foram esses...

A proposta de sociedade era a carta de alforria que Marina ia ter todo o prazer de esfregar na cara de Branca. Além de lhe proporcionar o reencontro mais que almejado com suas tão preciosas e roubadas horas de ócio criativo, o mais importante era o que essa associação com Diana representaria para o seu futuro; um passaporte certo para a estabilidade financeira que tanto precisava garantir nessa nova fase da sua vida.

E quem sabe esse não será o começo de uma longa e bem sucedida parceria, mon chéri”, ela lhe dissera num tom misterioso antes de se despedir, o eco daquele grave íntimo e aveludado na voz dela demorando a se dissipar no seu ouvido.

Muitos anos atrás, o mero soar da voz de Diana teria feito Marina estremecer em antecipação.

E por um triz não fizera ali.

Porém, não podia negar que essa ligação inesperada havia remexido naquela gaveta secreta dentro dela, onde guardava essa excitação estranha, melancólica, uma saudade daquele tempo em que era jovem demais para saber o que era sentir tanto por alguém, mas que ainda assim havia sentido, mesmo sem ter como, nem por que.

Afinal, não tinha precisado de outro motivo a não ser ela, simplesmente porque ela era a mão do destino, ou talvez as garras do diabo, que sempre iam puxá-la para mais perto, mesmo estando tão longe.

É, por Diana havia sentido quase de tudo, mesmo.

Só faltava sentir nada...

Mas sentir nada? Por essa mulher?

Marina sabia ser impossível.

Porque ela era como uma insígnia marcada a ferro em brasa na sua pele interior, cicatriz invisível que carregava até hoje, profundamente escondida, enraizada em sua alma. E quando tocava nela, nas raras vezes que ousou tentar, aquela dorzinha distante sempre pulsava um tanto mais que um pouco no seu peito.

Só que, por golpe de sorte ou dádiva divina, finalmente havia encontrado o bálsamo para essa e todas as outras dores de sua curta e incauta existência até ali.

Um sorriso apaixonado tocou seus lábios enquanto se deixou perder na lembrança do toque curador e íntimo das mãos dela, dos lábios que sempre beijavam para longe todos os medos e sombras do seu passado...

Há cinco meses viviam assim, e parecia não ter fim essa lua de mel com a tal felicidade alegre que Clara lhe falara certa vez.

E Marina estava tão mais contente e satisfeita em se deixar seduzir por essa sensação de leveza pesada que ela lhe causava... Sentia-se mesmo a mais sortuda das criaturas por ter uma mulher como Clara ao seu lado, tão generosa, sensível, casada com as coisas boas da vida e amante das não tão puras.

Só podia ser sorte demais, se a vida fez por bem de uni-la ao que a maioria das pessoas passava a existência inteira buscando e tantas vezes fadavam-se a não encontrar...

E era amor o que sentia por Clara, sim.

Mas era mais que isso, muito além.

Era essa cumplicidade, profunda ciência que tinha das diferenças entre elas, que alimentava sua aquiescência voluntária a um ego que não era o seu próprio.

Porque ela era como aquela brisa morna de verão que adorava sentir soprando contra suas pálpebras, que ao mesmo tempo acalentava seu espírito irrequieto e faiscava nessa frieza do seu interior ansiando pelos dias mais quentes. Ela era o laço dos laços, o único que foi capaz de reatar até mesmo os fios mais pequeninos e quebrados na sua mente por tanto tempo insensata...

E, no fim, foi esse encontro de almas que lhe disseram para não esperar, mas que, teimosa, a esperança de um dia tê-lo se mantivera ali, debelada, acrítica, uma fagulha sempre quente e altiva em sua timidez, rivalizando aquela chama escura que tremulava em algum canto gelado do seu coração.

Tão precocemente partido...

“Os óculos são novidade”, e parecia que teria que recolher esses pedaços mais uma vez, porque aquele canto gelado do seu coração continuava a lhe falar de coisas proibidas, “Já o sorriso continua o mesmo, sempre pretensioso, o mais lindo de todos...”

Marina foi sacudida fora do seu quase devaneio quando ergueu seu olhar quando no soar inconfundível daquele português afrancesado vibrando e vibrando em seus ouvidos.

Lá estava ela, meros passos a sua frente e se aproximando naquela passada felina que sempre atraía todos os olhares. Sentiu seu pulso saltar na garganta e, por um instante, tudo se resumiu àquele velho frio na barriga que lhe consumia todos os sentidos.

Ela, essa visão que a roubou da calma por boa parte da sua adolescência e que a roubaria ainda por um, talvez muitos e infinitos segundos...

Até que sem perceber já estava se levantado, seus pés meio trôpegos a levando ao encontro dela, até os braços que a esperavam sempre abertos mesmo depois de tantos anos de raro contato pelas distâncias oceânicas que as separavam.

“Vou rogar a Deusa Mãe pra que eu possa ser o motivo desse sorriso de novo. Nem que seja só por um segundo...”, ela sussurrou-lhe no ouvido, trazendo-a ainda mais junto a si, até que um momento demorado depois a deixou ir.

Dessa vez, olhando bem fundo no azul dos olhos dela, só por um segundo...

Marina estremeceu.

“Ah, eu... Nossa, eu nem esperava que você viesse mais...”, expeliu as palavras com um riso curto e eufórico, ainda atordoada pela aparição repentina da mulher.

Diana estava mesmo ali, diante dela?

“Foi uma gafe terrível, eu sei. Mas eu juro que não foi minha culpa”, a francesa lamentava enquanto tomava-lhe as mãos nas dela, levantando-as bem próximo ao rosto ao explicar, “Esse tempo horroroso me fez perder horas no aeroporto e eu acabei tendo que cancelar todos os meus compromissos da tarde. Quer dizer, quase todos... Uma pena que eu não tenha mais tempo, no máximo duas horas, mas não podia vir ao Brasil e partir sem te ver... Me perdoa pelo atraso?”, ela então lhe beijou suavemente os nós dos dedos da mão direita, em seguida os da esquerda, os olhos fixos nos da fotógrafa.

Marina se deixou perder naquele azul quase transparente por uns instantes a mais, até que balançou a cabeça com um riso nervoso, “Não tem o que perdoar. Meu Deus, você veio! Está aqui... Eu quase... não acredito”, soprou as palavras enquanto gesticulava animadamente, não conseguindo disfarçar sua agitação agora que estavam tão perto.

“Eu disse que viria, não disse?”, ela sorriu-lhe de canto, então lhe ofereceu uma mão ao pedir, “Vem comigo?”

Marina franziu as sobrancelhas, hesitou um pouco, mas por fim aceitou o convite e foi se deixando guiar pela outra mulher, até que um pensamento lhe ocorreu, “Mas... e o advogado?”

“Ele sabe onde me encontrar”, assegurou enquanto seguiam para um largo corredor saindo da recepção do hotel, então embarcaram no elevador mais próximo.

Minutos de silêncio nervoso e alguns olhares velados depois, elas saltavam do elevador e agora caminhavam por outro corredor, esse no décimo piso do edifício, só que Diana a guiava na direção oposta da que o quarto de Marina ficava, levando-a até uma porta que ficava na ala final no andar.

“Quantos anos desde aquela vez em Tóquio?”, Diana perguntou-lhe meio distraída, enquanto deslizava um cartão pela fenda no dispositivo afixado na parede. Um segundo depois e a porta estava destravada.

Marina desviou o olhar por um segundo quando a mulher lhe deu um brilho quase ansioso antes de entrar no quarto, sinalizando para que ela a seguisse.

“Quatro”, murmurou ao cruzar o limiar, seus olhos atentos à silhueta da francesa ainda parada pela porta.

“Parecem cem...”, ela suspirou, fechando a porta em seguida, e aí se virou para encará-la com uma expressão no rosto que misturava curiosidade e hesitação, “E aquela gata arisca, a ruiva que sempre sai contigo nas fotos? Ainda agarrada no seu calcanhar, aposto”, disse num tom pouco sério e foi invadindo seu espaço sem pedir licença, “Só espero que não seja o de Aquiles...”

“Ah...”, Marina fez uma pausa, engolindo em seco no que Diana parou a centímetros de se tocarem, “A gente tá... bem. Na verdade, ela vem me surpreendendo de uns tempos pra cá. E eu acho que foi a Flavinha, sabe? Ela deve ter descoberto algum botão secreto na Vanessa, porque eu nunca vi aquela gata mais mansa”

Diana sorriu sugestivamente. Não sabia quem era essa tal de Flavinha, mas fez uma nota mental para se lembrar de... agradecê-la. Depois. Porque agora seu olhar compenetrado examinava a fotógrafa bem de perto, catalogando cada nova e minúscula linha de expressão no rosto dela, até que por fim meneou a cabeça e falou, “Você parece mesmo feliz”

“Não só pareço...”, a fotógrafa exalou as palavras, aí seu fôlego sumiu por um instante quando sentiu o fantasma dos lábios dela subindo pela curva da sua mandíbula, “... como estou feliz. Muito”

Nessa, a francesa parou por um segundo, então mudou de assunto sem quase não mudar. “Hm, de fato as notícias do seu casamento se espalharam tão rápido quanto fogo de palha...”, ela murmurou a ironia no seu pescoço enquanto Marina tentava manter sua respiração controlada, ciente de que o menor dos movimentos ali podia significar uma queda vertiginosa e sem volta, “E eu também soube, e essa foi por fontes bastante seguras, que a sua parceira foi casada antes com um... simpático cozinheiro? E ainda tem um filho com ele, que interessante...”, ouviu-a rir daquele jeito debochado dela, as próximas palavras causando um arrepio na pele sensível debaixo da sua orelha esquerda, “Me deixou bastante intrigada com essa sua... escolha, mon chéri”, e pontuou a provocação com um beijo suave no canto da sua boca, o que fez suas pálpebras pesarem por um segundo perturbador.

Marina nada disse ou fez em troca da carícia, nem pela insinuação. Ainda assim, como um apetite antigo e mal saciado, seus olhos seguiram a mulher pela sala enquanto ela se afastava no passo cadenciado de sempre, indo na direção do sofá que ficava mais ao fundo do espaço amplo, até que lá ela se sentou com as pernas calculadamente cruzadas para matar aquela sua fome.

Limpou a garganta antes de murmurar nervosamente, “Foi mais acidente que escolha... no começo”, quando Diana só lhe deu um ruído vago como resposta e então tateou o veludo azulado do sofá num sinal para que ela se aproximasse, Marina se viu obedecendo mais uma vez, “Pode até soar piegas da minha parte, mas é que não encontro termo melhor pra descrever o que aconteceu comigo e com a Clara”, a fotógrafa falava enquanto sentava-se ao lado da francesa, aí olhou bem dentro daqueles olhos ao finalizar, “Ela é... minha alma gêmea”

Um tanto pega de surpresa pelas palavras dela, Diana franziu o nariz e balançou a cabeça como se confundida. “Não, espera um segundo. Você disse... alma gêmea?”, ela pressionou um indicador contra os lábios selados, mordendo o canto da boca em um aparente esforço para não rir alto do que Marina Meirelles, de todas as pessoas nesse mundo, acabara de lhe dizer. Segundos depois um sorriso desviante se espalhava em seu rosto, fazendo com que suas feições angélicas se contorcessem em diabrura quando ela apontou-lhe aquele mesmo dedo e disparou, “Quem é você e o que fez com a minha Marina?”

Marina riu pouco envaidecida, mas então baixou o olhar por um instante, parecendo embaraçada quando falou mais para si mesma, “É, acho que aquela Marina foi definitivamente, irrevogavelmente... domesticada”, enfatizou a última palavra com um gesticular sugestivo das mãos, o que fez Diana rir no chiste, então concluiu com um suspiro dramático, “Essa aqui que você tá vendo é só um reflexo bobo e feliz dela”

“Ah, um reflexo tão piegas quanto sólido, então. Muito sólido...”, e nessa a francesa foi deslizando para perto dela, apoiando o cotovelo direito no encosto do sofá e o queixo na mesma mão, enquanto os nós dos dedos da outra traçavam a linha delicada da mandíbula da fotógrafa, “E é curioso você ter falado dessa coisa de almas gêmeas... Uma vez eu li em algum livro de mística, e não me pergunte qual porque não vou lembrar agora, que em certas culturas antigas as pessoas acreditavam que podiam ter mais de uma...”, fez uma pausa, um pouco mais perto, “Parentes, amigos, amantes... Não importa, cada uma delas pode e vai desempenhar um papel único na formação da nossa anima ou animus interior... ou algo assim”

Sua testa franziu no olhar engraçado que lançou para a francesa. “Isso é psicologia reversa que você tá usando comigo? Ou tá inventando isso tudo só pra tirar um sarro da minha cara?”, questionou-lhe num tom humorado, dando um empurrãozinho de ombro na loira, que retribuiu o gesto na mesma intensidade.

E já pondo aquela máscara de inocência que era tudo de teatral, ela lhe replicou, “Inventando? Marina, você sabe que eu jamais faria uma coisa dessas. Ainda mais se tratando de um assunto assim... tão sério... científico até”, a fotógrafa teve que rir da cara exageradamente sisuda que ela fez, mas o humor logo foi cedendo espaço para outra coisa, mais primitiva e perigosa, quando enfim percebeu a situação em que havia se metido.

As pernas da francesa, agora dobradas em cima do sofá e deixadas praticamente nuas pelo tecido solto do vestido vermelho escuro que usava, já estavam meio deitadas no seu colo. Sentia o calor da respiração dela soprando-lhe os cabelos, a pele do rosto, contrastando com o toque inebriante e quase gélido daqueles dedos que teimavam em escorregar para onde não deviam, tanto que Marina começou a duvidar se realmente estava ali, num quarto de hotel em São Paulo, com Diana, numa posição que comprometeria até mesmo o monge mais casto, de tão flagrantemente íntima.

Era como se todos aqueles anos de distanciamento nunca tivessem existido entre elas. Era muito surreal.

“Mas, olha. Pensa comigo...”, ela continuava falando despreocupadamente, enquanto os dedos longos e delicados ora acariciavam-lhe os cabelos, ora contornavam-lhe as linhas do rosto, “Essa alma gêmea que falam por aí pode ser simplesmente alguém que foi ou é muito importante na nossa vida, com quem dividimos ou de quem escondemos nossos segredos mais devastadores, nossos clichês mais bobos. Assim, cada uma das que encontramos pelo caminho é como se fosse uma peça desse grande quebra-cabeças que é a vida, hm? Então... você vai esbarrando em uma peça aqui, movendo outra dali, até que o mosaico se completa e finalmente essa charada que chamamos de amor é decifrada... para o bem ou para o mal”

Marina franziu as sobrancelhas, refletindo por um momento nas palavras da mulher, então um sorriso pequeno suavizou sua expressão quando capturou a mão sorrateira que descia pelo linho claro da sua camisa, insinuando-se entre seus seios, “Ou não”, e dessa vez capturou o olhar da francesa com um brilho penetrante do seu, “Talvez o amor não deva ser decifrado como uma... equação, mas interpretado, como um livro. Talvez só aspire ser sentido, fazer sentido pra quem se dispõe a senti-lo, puro e simples como é nas suas muitas e inacabadas versões. Porque, no fim, amar é essa... rendição total do ego. Não precisa de motivos certos... ou errados...”, uma pausa reflexiva, “E não é isso o que mais desejamos? Encontrar esse nosso reflexo, esse encaixe perfeito... imperfeito? E não é engraçado também que seja exatamente disso que a gente tenha tanto medo? Ver nossos defeitos e fragilidades espelhados em quem amamos?”, concluiu com um suspiro melancólico, seu polegar inconscientemente acariciando os nós dos dedos da mão que agora repousava em seu colo, enquanto Diana a fitava por baixo dos cílios em profundo silêncio.

Silêncio esse que perdurou entre elas por um longo momento.

“Ora, ora... Parece que esse tempo longe de mim lhe acrescentou muito em... sabedoria”, ela deu-lhe um sorriso esgueiro e Marina balançou a cabeça, retribuindo com um dos seus.

Diana então recolheu sua mão devagar e se inclinou um pouco para alcançar um bloco de papéis que repousava sobre o vidro fosco da mesa de centro. Com um sorriso pequeno ela lhe estendeu o que Marina só então percebeu ser um caderno de desenhos. Intrigada, a fotógrafa retribuiu o sorriso da francesa e logo se pôs a folheá-lo.

Cada página revelava uma forma em grafite, com datas e faces distintas, algumas delas por finalizar e outras um tanto minimalistas, mas a maioria dos desenhos era tão realista que mais pareciam fotografias.

Havia se esquecido do quão excepcional era o talento de Diana.

Sentia os olhos dela lhe observando enquanto continuava sua apreciação silenciosa dos desenhos, até que virou uma página e suspirou no que viu ali.

Diana notou quando a fotógrafa discretamente deslizou a ponta do indicador pela margem inferior da folha, sobre o canto direito onde as iniciais de um nome e uma data recente marcavam a origem do retrato distinto.

“Essa data... É o aniversário dela, não é?”

O sorriso que Diana lhe abriu naquele momento foi dos mais lindos e radiantes que vira na vida. E de sorrisos lindos e radiantes Marina entendia como ninguém, tinha uma coleção deles direcionada especialmente para ela todos os dias agora.

“Você lembra...”, a francesa suspirou admirada, tentando disfarçar o súbito tremor na voz, mas aquele brilho de lágrima fazia o azul dos olhos dela ainda mais límpido.

Diana nunca era tão transparente assim, a não ser em raros momentos como esse com Marina, que se viu obrigada a desviar o olhar por um instante. Não conseguia encarar essa devoção expressa no rosto dela, não assim tão de perto.

Não depois de Clara...

Mas podia sorrir de volta, ainda que meio chorosa, confirmando que lembrava com um menear de cabeça antes que seus olhos trilhassem para o desenho novamente, “É lindo, Diana... Ela é linda. Aliás, como tudo que você faz”, fungou um pouco e riu da sua própria nostalgia enquanto acariciava aquele rosto delicado eternizado no papel.

A francesa fez um show de olhar ao redor, então cheirou o ar com a cara mais presunçosa ao falar num tom grave, “Bem, eu devo concordar com você nisso”, aí torceu o nariz como se lembrasse de algum detalhe desgostoso, “Mas nesse caso eu admito que tive, hm...”, fez um sinal sugestivo com o polegar e o indicador da mão direita antes de voltar a apoiar o queixo nela, “... uma pequena ajudinha”

E essa foi a vez de Marina torcer o nariz, “À moda antiga?”

“Quase isso”, e sorriu-lhe com toda a desfaçatez que lhe era peculiar.

Nessa, Marina franziu o rosto em desgosto, aí balançou a cabeça e riu com as palavras, “Ai, Diana... Você não existe, sua maluca”, seu tom era leve, mas o olhar era compenetrado quando ela fechou o caderno e o colocou do seu lado no sofá.

“É, pra maioria dos banqueiros e governantes desse país, com certeza não. E eu prefiro que continue assim”, ela brincou, mas então sua expressão foi mudando, ficou mais séria quando ela a encarou nos olhos e falou numa voz pequena, “Mas e pra você? Eu ainda existo?”

“Sempre”, respondeu sem bater um cílio, porque era a verdade. Diana sempre existiria para Marina não importava quanto tempo passasse, ou quantas pessoas tivesse amado depois dela. Mesmo a existência de Clara não podia apagar o significado, a importância que essa mulher teve e ainda tinha na sua vida.

E era aí onde o perigo de Diana morava.

Porque ela sabia disso tanto quanto Marina.

Só que, ao contrário da fotógrafa, Diana não se importava em esperar.

E ela sempre sabia o que fazer.

Como dominar...

Quando ceder...

Enfeitiçar...

E os lábios dela estavam tão perto agora, tão ligeiramente partidos, rosados e apetitosos...

“Entra”, ela disse de repente, sorrindo assim, diabólica como só ela tinha a permissão divina para ser.

Marina piscou, enfim voltando a si.

Alguém estava chamando do outro lado da porta e ela nem sequer ouvira da primeira vez, tão hipnotizada estava pela mulher que agora a encarava com aquele ar convencido de ‘eu sei que sou irresistível, não é culpa sua se sentir assim’.

Ajeitou os óculos, mais que um pouco desajeitada. De repente era como se tivesse voltado no tempo, para o auge dos seus vinte anos, o coração se quebrando em mil pedaços dentro do peito ao vê-la entrar naquele avião e voar para longe, levando aqueles lábios infernais junto com ela, e dessa vez para sempre...

Não foi para sempre, mas parecia que tinha sido.

Até teria rido da situação, se não soubesse que era ela mesma a peça mais cobiçada e por isso mesmo a mais vulnerável nesse tabuleiro de dois.

Também não teve tempo para processar o que quase havia acontecido ali, porque segundos depois um homem jovem de traços ligeiramente semitas, sua compleição alta e atraente bem vestida num terno justo preto, adentrava a sala segurando uma pasta de igual cor.

“Ah, você deve ser a senhorita Meirelles. Leonel Henriques, a sua disposição”, o advogado, de sotaque português acentuado e barba cerrada, a cumprimentou com um aceno curto antes de suspirar baixo, “Peço desculpas pelo atraso... Em dias normais já é praticamente impossível encontrar rotas alternativas nessa cidade, e quando chove assim, então? Nem se fala...”, ele concluiu mais consigo mesmo, então se dirigiu a francesa, “Aquela moça do Rio já chegou, acabei de cruzar com ela na recepção. Aviso pra mandarem ela subir, ou vocês vão precisar de mais... tempo?”, os olhos vagamente familiares do advogado trilharam para os seus e, por um instante, Marina pensou ter notado um brilho de mágoa neles, mas aí o homem educou a expressão e retornou sua atenção para Diana.

A francesa, ciente do que transpirava no comentário do advogado, arqueou uma sobrancelha mordaz para ele com um sorriso que a fotógrafa tentou, mas não conseguiu decifrar.

“Eu mesma avisarei quando for o momento”, uma pausa, “Enquanto isso você pode nos esperar... lá no quarto”, ela praticamente ronronou as palavras.

Foi nessa que as sobrancelhas de Marina ergueram-se quase comicamente, o olhar arregalado em contrariedade alternando entre os outros dois ocupantes da sala; não estava gostando nem um pouco do rumo aparente que essa ‘conversa informal’ estava tomando.

Sem dizer mais uma palavra, o advogado lhe lançou um último brilho estranho, então assentiu com um aceno demasiado cortês antes de deixá-las a sós novamente.

Diana então lhe abriu um sorriso, a face da doçura quando sussurrou perto demais da sua boca, “Onde estávamos, mesmo?”

***

“Acha que ela vai demorar muito?”

Vanessa sorriu que era só dentes quando seus pés alcançaram o último degrau da escada, trazendo Sônia no rastro dela.

“Boa noite pra você também, Cadu querido”, ela cantarolou enquanto foi se aproximando do centro da sala, até que reclinou o quadril na borda da mesa e cruzou os braços numa maneira despreocupada, “Vejo que continua o mesmo grosso de sempre”, a ruiva expeliu num tom baixo, falso humorado.

A uns cinco passos dela, Cadu parou seu vai e vem ansioso perto do sofá, retirando as mãos dos bolsos para colocá-las nos quadris ao retrair os ombros desafiadoramente, “Se a sua língua fosse um pouquinho menos comprida, eu até poderia me esforçar pra não pisar nela”, o chef rebateu acidamente, ao que Vanessa fez aquela careta ‘levei uma’ dela para a empregada, quem agora balançava nervosamente nos calcanhares ao lado da ruiva.

Inabalada pelo comentário do chef, a ruiva resolveu cutucá-lo só para ver até onde ele ia. “Olha que ter uma língua grande pode ser bem, hm... vantajoso”, e nessa Cadu estreitou um olhar venenoso nela, mas Vanessa fez-se de desapercebida e acenou com um ombro para a moça parada ali perto, “Fala pra ele, Soninha”, ela insinuou com um arquear sugestivo de sobrancelhas.

Sobressaltada, Sônia piscou no gracejo. “Hã? Falar o quê?”, ela então lhe deu esse olhar tão arregalado que Vanessa teve que morder o canto da boca para não rir na cara dela, “Ah, sai pra lá, dona Vanessa. Eu, hein!”, ela finalmente resmungou baixo ao captar a implicação da ruiva, então cruzou os braços sobre o peito com uma careta emburrada. Observadora que só ela, Vanessa não pôde deixar de reparar que Sônia não tinha se afastado, nem de fato pareceu ofendida pela brincadeira, o que muito a instigou. Depois ia querer algumas respostas da empregada sobre isso. Ah, se ia.

“Você não tinha dito que a sua patroa estava de cama?”, a voz grave de Cadu ecoou irônica pela sala.

Sônia o fitou pelo canto do olho e percebeu que o olhar dele agora estava voltado para o topo das escadas. Um segundo depois ela sentia mais que ouvia o suspiro longo e pesado de Vanessa que jogou as mãos no ar do lado dela, a face da frustração porque a fotógrafa tinha ignorado suas ordens de ficar no quarto e deixar que ela lidasse com o ‘bonitão destemperado’.

“Eu posso ter exagerado... um pouco”, ela replicou-lhe com um fungado desdenhoso, fazendo Vanessa rir baixo em deboche e o chef revirar os olhos em irritação.

Marina descia as escadas sem pressa enquanto Cadu a observava por baixo dos cílios. Na verdade, foi um tanto surpreendido pelo que notou da aparência da fotógrafa. Ela estava mesmo bem para quem tinha sofrido um mal súbito e passado o dia acamada, segundo a empregada havia lhe informado assim que ele cruzou a soleira da porta. E ainda muito melhor do que ele tinha previamente suposto quando, semanas atrás, ficou sabendo por Helena que Marina havia deixado o hospital.

Vê-la assim, para todos os feitos e efeitos viva, de certa forma aliviou esse peso na sua consciência pelo fato de ter ligado para a fotógrafa naquela tarde e provavelmente ter sido o causador da distração dela no trânsito. Lembrava-se daqueles dias vividamente, das notícias que invadiram os telejornais e a internet após o acidente; algumas delas eram definitivamente de mau gosto e sensacionalistas, mas as mais chocantes foram aquelas que exibiam o carregamento de matéria-prima para fibra de vidro ainda tombado na rodovia, as marcas de frenagem indicando que o carro de Marina havia derrapado poucos metros no asfalto antes de colidir contra a carroceria, a viga de ferro que trespassava pela janela do motorista vindo do meio do pára-brisa desacoplado pelo impacto...

Foi perturbador demais, até mesmo para ele.

Marina realmente tivera muita sorte...

É, vê-la assim tão altiva, inatingível depois de tudo que aconteceu, de fato abrandava sua culpa, mas ao mesmo tempo o enervava profundamente, já que, agora, diante do viço corando a pele dela, aqueles cuidados e mimos todos de Clara com a fotógrafa não pareciam fazer tanto sentido.

Para acrescentar ainda mais ao desconforto que esse lugar lhe trazia, foi irritantemente arrepiante quando ela apareceu daquele jeito, como se do nada, na plataforma encompridada acima deles. Cadu não tinha reparado tão bem da última vez que esteve ali, mas as adaptações que fizeram na casa desde que Ivan veio morar com elas deram ao estúdio pelo menos dois novos acessos internos; o primeiro era por essa mesma estrutura metálica que agora também conectava as escadas a parede oposta, onde havia uma segunda porta para o quarto delas no segundo piso, já o outro acesso ficava mesmo no térreo, sob a armação da escadaria, e dava entrada ao quarto do menino. Tinha que admitir que a intenção por trás da reforma foi, para além de prática, bastante... maternal, uma vez que encaixava os espaços naquela parte da casa para que os quartos, mesmo que ainda separados pela ampla área interna do estúdio, ficassem de frente um para o outro e assim virtualmente próximos.

“Olá, Cadu”, o tom firme da voz dela o trouxe de volta de seus pensamentos.

“Marina...”, cumprimentou-a vagamente quando ela alcançou o piso carpetado do estúdio, “Você parece... bem”, enfatizou ao lançar um brilho irônico para Sônia, que só deu de ombros e em seguida se retirou para a cozinha naquele rebolado dela, já Vanessa não se moveu um centímetro do lugar.

Os segundos foram passando e ela continuou lá, reclinada na lateral da mesa, de braços cruzados e olhos fixos nele, até que...

“A eterna leão de chácara...”, Cadu alfinetou-a com uma risada baixa, pouco humorada.

A ruiva permaneceu impassível.

Suspirando, Cadu balançou a cabeça de maneira condescendente antes de se deixar desmoronar na poltrona preferida de Marina, espalhando-se todo por ali como se fosse o dono do pedaço. Ele provavelmente não fazia ideia que esse era o lugar onde a fotógrafa costumava relaxar, mas Vanessa fazia, e como fazia...

E foi essa postura debochada do chef que finalmente deu nos nervos da ruiva.

A mulher se ouriçou tal qual uma onça encurralada e partiu na direção dele, um dedo erguido para disparar a tirada ferina já na ponta da língua, mas aí uma mão no seu ombro a fez parar no meio da passada.

“Deixa que eu resolvo isso, Van”, Marina falou num tom baixo, só para ela ouvir.

Vanessa buscou os olhos machucados dela e os encontrou mirando vagamente na direção de onde ouvira a voz de Cadu.

A ruiva cerrou a mandíbula por um instante, então lhe perguntou no mesmo tom de voz, “Tem certeza?”, e de novo aquela questão dentro da questão.

Quando Marina suspirou, meneando a cabeça em convicção, Vanessa enfim cedeu e lhe deu um aceno tão curto que provavelmente a fotógrafa não distinguiu.

Marina então foi seguindo para a antessala enquanto Vanessa lançava adagas com os olhos bem no peito de Cadu.

O escrutínio da ruiva era tão malévolo que o chef até se endireitou um pouco na poltrona, embora continuasse olhando para Marina com aquele ar de superioridade irritante.

Por ora, Vanessa decidiu que deixaria Marina carregar essa mala sozinha. A verdade era que a intromissão, a imaturidade desse... Cadu já estavam passando de todos os limites toleráveis e, se a fotógrafa ou a esposa dela não dessem um jeito nessa situação logo, não queria nem imaginar onde tudo isso ia terminar. Aliás, sempre soube que ia terminar, só não tinha tanta certeza dessa vez se ainda estaria lá para recolher os cacos de Marina quando tudo desmoronasse.

“Estou na cozinha, caso precise de alguma coisa”, disse secamente e saiu sem olhar para trás.

Fez-se silêncio.

Marina estava tateando pela garrafa do whisky que sabia que seu pai havia deixado por ali, em algum lugar.

Até que a encontrou.

Podia sentir o olhar pesado do chef sobre ela, mas continuou executando seus movimentos como se a visão não lhe falhasse, como se essa pontada no seu peito não a inquietasse.

Ela então se serviu uma dose e ofereceu outra a Cadu.

“Estou dirigindo”, ouviu-o recusar num tom indiferente, “Estranho... Pelo que ouvi, sua visão tinha sido comprometida no acidente, não?”, ele escolheu frisar-lhe o incômodo, talvez confuso já que a mulher aparentemente não dependia de ajuda alguma para se locomover sozinha pela casa.

Marina suspirou, colocando o segundo copo de lado, então se sentou na outra poltrona, de frente para ele.

“Como pode ver, as pessoas exageram”, comentou alusivamente, aí tentou recomeçar pelas amenidades, “Mas e você, como vai?”

“Hm, podia estar melhor se a sua... esposa tivesse me recebido na sexta, como combinamos”, uma pausa, um riso fraco, “Mas, claro... é bem mais conveniente pra ela fingir que eu não existo”

Decidiu ignorar a última parte do comentário dele, tomando um gole cheio da bebida. “Ah, vocês marcaram de se ver?”, ela perguntou casualmente, forçando o ranço do ciúme goela abaixo junto com o travo do álcool.

Por que Clara não havia lhe falado desse encontro com Cadu?

“É, mas aí vocês acharam por bem improvisar umas férias na praia, assim, do nada...”, exalou as palavras amargamente, pausando por uns segundos antes de disparar, “Tem muita coisa acontecendo por aqui que eu não concordo, a começar por esse... comportamento libertino das suas amigas. Eu não quero meu filho exposto a isso”

Marina apenas sorriu de canto, murmurando consigo mesma por trás do copo. “Ai, essa veio direto da Idade Média”

Sem notar a ironia, Cadu continuou despejando suas dores, “Aliás, vocês dispensaram o garoto na primeira dificuldade, não é? Típico...”

“Se refere a Ivan ter ido passar uns dias com a avó?”, a fotógrafa o inquiriu entre um gole e outro.

“Também”, ouviu-o replicar num tom impaciente.

“Hmhum”, foi sua única resposta.

Silêncio pesado se prolongou novamente entre eles.

Enquanto os segundos foram passando vagarosos, Marina continuava a bebericar seu whisky despreocupadamente, até que um ruído constante e característico começou a ecoar no estúdio.

Era o pé nervoso de Cadu batendo no chão.

A forma como a fotógrafa olhava sem olhar para ele estava começando a lhe dar nos nervos. Mas foi só quando Marina, aparentemente absorta em si mesma, começou a murmurar as notas de uma melodia muito semelhante à mesma que ele ouvira tocando do outro lado da linha no dia do acidente, que o chef não se conteve mais.

“Escuta, eu vim pra falar com a Clara. Não precisa ficar fazendo sala pra mim”, remoeu as palavras entre os dentes.

“Bobagem, não é incômodo algum. Estou bem aqui”, ela replicou calmamente, o copo sempre perto da boca.

O chef riu fracamente enquanto observava a fotógrafa virar o copo e se servir de mais uma dose. “Não acha que deveria preservar mais suas energias?”, ele alfinetou, “Quem sabe assim a Clara não teria mais tempo pra cuidar do filho”

“Ivan sempre foi muito bem cuidado pela Clara e por mim. Você sabe disso, Cadu”, estreitou o olhar ao ouvir o chef exalar pesadamente no seu tom incisivo, “Então por que não acabamos com as pretensões de uma vez e não fala logo o que tem pra me dizer?”

Mas, dessa vez, o chef se fez de desentendido. “Só acho que você já tem muito com o que se preocupar no momento...”, ele demorou-se numa pausa, “Além do mais esse é um assunto de pais, entre a Clara e eu. Portanto, não te diz respeito”

“Engano seu”, colocou o copo um pouco de lado para falar num tom firme, mas plácido, “Se é sobre o Ivan, eu tenho todo o interesse em saber, sim. Você pode duvidar disso, Cadu, mas não muda o fato de que eu amo aquele garoto como um filho...”, teve que parar por um momento na lembrança do menino, então respirou fundo e continuou numa voz mais controlada, “Você... Não, acho que você não faz mesmo ideia do tamanho do meu sentimento por ele... Mas saiba que independente do que aconteça entre a Clara e eu, independente de você, o meu afeto por ele nunca vai estar em questão”

“Francamente, Marina...”, o chef balançou a cabeça em exagerada condescendência antes de frasear suas próximas palavras com um riso grave e maledicente, “Não quero parecer indelicado, mas não vejo como o Ivan poderia... te interessar tanto assim. Você não é mãe e, obviamente, nunca vai saber o que é ser pai, então...”, deixou a indireta maldosa pesar no ar.

E nessa Marina arqueou uma sobrancelha, mais curiosa que afetada pelo tom rançoso e mal velado do chef. “Por que essa hostilidade toda, afinal?”

Cadu riu baixo, debochado. “Hostilidade? Tá falando sério?”

“Muito sério”, disse ao estreitar seus olhos na figura borrada a sua frente, “Você se abalou do Leblon até aqui pra quê? Tenho certeza que não foi só pela emoção de peitar meus seguranças e destratar minhas amigas. E se realmente quisesse falar a sós com a Clara não teria vindo aqui, na casa que divido com ela”, seus lábios então se curvaram minimamente na imitação de um sorriso quando continuou serenamente, “Se isso não for ser hostil, então me explica o que é. Porque, até onde consta, você nunca foi essa pessoa tão mesquinha. Ou pelo menos não costumava ser...”

Pego desprevenido pelas palavras equilibradas da mulher, o chef calou por um longo momento, até que...

“Eu... Me desculpa, Marina”, Cadu murmurou numa voz que, por um instante, soou embargada nos ouvidos dela, “Só estou cansado e... ando muito estressado com um monte de coisa aí, é isso”

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, o chef se levantou bruscamente e foi até a mesinha redonda que ficava ao lado da poltrona onde Marina se sentava. Lá, ele virou aquela dose que havia rejeitado antes e acrescentou mais umas duas ou três no copo, então retornou na mesma passada ríspida para o seu lugar.

Um gole depois, a fotógrafa arqueou-lhe uma sobrancelha retórica. “Você não disse que estava dirigindo?”

Cadu só meneou a cabeça, seus olhos negros se fechando por um segundo antes que ele lhe suspirasse as palavras amarguradas, “É irônico, não é? Nós dois aqui, sentados na sala da sua casa, bebendo esse uísque que deve ter custado uma nota...”, riu numa pausa sem humor, “... tendo essa conversa depois de... tudo”

Na verdade, não tinha muito o que fazer ou dizer daquelas palavras dele, ao que a fotógrafa apenas assentiu-lhe com um ruído baixo na garganta e voltou-se para o próprio copo.

Minutos se passaram e assim se foi mais um silêncio demorado naquele começo de noite, mas então...

“Quer saber o que eu acho... mesmo? Que isso aí que aconteceu com você? Foi castigo... de Deus, por você ter acabado com uma... família... tão bonita... e feliz... e sem um pingo de remorso...”, ele fungava entre as palavras embargadas.

E agora Marina não tinha dúvidas, Cadu tinha mesmo lágrimas na voz.

Mais que lágrimas, ele já tinha uma boa quantidade de álcool no sangue para administrar também e, provavelmente, os começos de uma enxaqueca mais que merecida para a manhã seguinte.

“Pode até ser”, relevou a fraqueza momentânea dele, aí sorriu meio safa pela borda do copo, “Mas... com quem ela está agora?”

Cadu riu da sua própria decadência, “É...”

“O que aconteceu naquela noite?”, e a pergunta saiu assim de repente, tão implícita quanto inebriada.

O chef grunhiu em resignação, fez bem em ter virado aquela dose de uma vez. “Acredite, você não quer saber”, ele murmurou já meio embaçado dos olhos, antes de virar o restante da bebida num trago só.

“Ah, mas eu quero...”, fez uma pausa para outro gole, “Você não iria querer?”, e fitou-lhe o rosto borrado por baixo dos cílios.

Cadu pigarreou um pouco antes de raspar num tom ainda mais grave, “O problema não está no querer, mas no gostar ou não do que se vai ouvir”

Marina balançou a cabeça devagar, sorrindo de canto. “Eu tenho seguranças”

“Isso é uma ameaça?”, suspirou ao reclinar-se no braço da poltrona, o queixo apoiado na mão esquerda enquanto a outra pendia para o lado segurando o copo vazio.

“Só estou dizendo...”, deu de ombros, então resolveu se servir só mais um pouco. Tinha que conceder isso ao seu pai, ele realmente tinha um gosto impecável para destilados. E por falar no velho mafioso, onde ele tinha se metido que não tinha dado às caras até agora?

“Ah, quem está sendo hostil mesmo?”, a inflexão na voz dele foi quase uma revelação.

Ela riu baixo, cínica. “Touché

E nessa, Cadu ergueu o queixo da mão e reclinou a cabeça no encosto da poltrona, seu tom de repente muito sóbrio quando pronunciou, “Não confunda isso aqui com um papo entre amigos, Marina, porque não é. Nunca vai ser”

“Eu sei”, concordou com um suspiro final, aí tateou pela mesa até topar na garrafa, “Outra rodada?”

***

Das prateleiras, pegou tudo o que precisava e o que não precisava também.

Agora, quase nas pontas dos pés de ansiedade, Clara aguardava na fila do caixa enquanto seus dedos nervosos tamborilavam nas alças do carrinho de feira, os olhos alternando entre o relógio no seu pulso e o perfil do filho ao lado dela.

Ivan estava muito quieto desde que saíram de casa, pouco mais de trinta minutos atrás. No começo, Clara tinha atribuído o silêncio do menino ao fato de ele ter ficado bastante confuso e aflito depois do que aconteceu em Angra com Marina, mas agora, observando-o mais de perto, dava para perceber que havia algo mais por trás da postura acabrunhada do garoto.

Só que aquela não era a hora nem o lugar para falar sobre o que realmente estava a incomodar o filho.

Já seus pensamentos, indomáveis como sempre, continuavam arrastando-a de volta para os últimos acontecimentos, em particular o mal súbito sofrido pela fotógrafa.

Quando olhou para Marina e se deparou com aquele respingo de sangue descendo do nariz pelo queixo dela, o corpo já desfalecendo nos seus braços em mais um delírio febril, Clara jurou ali mesmo, naquele segundo desesperado, que nunca mais iria se deixar distrair daquele jeito. Nem por Marina e sua terrivelmente deliciosa mania de seduzi-la fora da razão, nem por Diana e sua ainda mais forte e irritante tendência para tirá-la do sério, nem muito menos por Cadu e sua aparente necessidade de reouver coisas que para começar nunca foram dele.

Suspirou pesadamente, recontando os muitos passos errados que dera ao longo desses últimos quase dois anos.

Se não tivesse ficado tão insegura com aquela viagem de Marina, se não tivesse bebido demais naquela noite no apartamento de Cadu, se não tivesse omitido a quase nenhuma memória que tinha do que aconteceu depois, se não tivesse deixado Diana se aproximar tanto por medo de perder Marina de vez para ela, se não tivesse ligado para o ex-marido após aquele episódio surreal à beira da sua piscina, se não tivesse esquecido o celular no quarto e se distraído na cozinha tempo demais, se a fotógrafa não tivesse flagrado as chamadas retornadas dele...

Se nada disso tivesse acontecido...

Se, se, se...

“Ô, mãe!”, quase saltou fora das peles quando Ivan puxou com força o debrum da sua blusa, “É a terceira vez que te chamo, pô! Tá no mundo da lua de novo, é?”, o menino parecia irritado, mas Clara, ainda um tanto absorta em si mesma, demorou uns segundos a mais para determinar o motivo exato.

Aí olhou para a fila de cabeças a sua frente e suspirou. “Desculpa, filho. Sua mãe anda meio fora de órbita esses dias, mesmo”, disse-lhe com um sorriso pequeno, ao que Ivan grunhiu baixo antes de bambear nos pés na direção do caixa, distraindo-se com o celular novamente.

Clara exalou seu cansaço, passando uma mão impaciente pelos cabelos ao notar o tamanho da serpente de gente rastejando a passos lentos até o guichê. Pelo visto já haviam tomado sua frente pelo menos umas quinhentas vezes, mas podia estar exagerando no palpite também.

Por sorte, a operadora do caixa era rápida; uns dez minutos depois suas compras já estavam sendo depositadas no porta-malas do carro.

Assim que Ivan se sentou do seu lado e fechou a porta do carro, foi logo se afundado no banco e colocando o cinto sem que Clara precisasse instruir-lhe uma vírgula, os fones plugados nos ouvidos prevenindo a mãe de perscrutar os pensamentos confusos que fervilhavam na cabeça dele.

Passaram-se alguns segundos mais de silêncio, ela olhando para o menino com uma expressão agoniada no rosto, sem saber o que dizer ou fazer, enquanto Ivan fingia não perceber, até que Clara suspirou sua frustração e decidiu dar a partida no carro.

O supermercado não ficava muito longe, no máximo uns outros dez minutos de carro do complexo onde moravam, mas essa volta para casa em particular parecia que ia demorar uma vida inteira.

É, pelo menos a visita da médica havia lhe dado um pouco de alento...

A neurologista, ou simplesmente Tereza, como ela disse preferir ser chamada, tinha se mostrado bastante solícita, considerando que a mulher teve que se deslocar até Santa Tereza em pleno domingo à tarde depois de antecipar seu retorno do interior, onde fora passar o fim de semana com o marido e os dois filhos.

Clara sorriu na memória da sempre simpática profissional, quem também lhe fazia lembrar Ana, a jovem enfermeira que aparentemente tinha desenvolvido uma paixonite incurável por Marina, segundo Tereza havia lhe conspirado entre risos.

Mas, o mais importante mesmo era que ela havia lhe explicado que os sintomas que Marina apresentara em Angra muito provavelmente foram uma combinação da estafa tanto física quanto mental, junto com o choque que a fotógrafa sofreu ao se lembrar de parte do que aconteceu no momento e no dia seguinte ao acidente. Já o sangramento nasal, apesar de geralmente alarmar as pessoas, Tereza afirmara que podia ter tido várias causas; desde as mais prováveis, como o spray antialérgico que Marina vinha usando, ou as mudanças abruptas do clima na ilha, até mesmo algo mais grave, embora a médica tivesse minimizado essa última possibilidade já que, aproveitando a oportunidade da visita, ela tinha lhe antecipado os resultados dos últimos exames da fotógrafa e todos sinalizavam para bons prognósticos. Ela ainda lhe assegurou que, uma vez que o trauma era muito recente, e considerando que Marina havia passado praticamente três semanas no hospital entre o coma induzido e o leito após a delicada cirurgia para retirada dos fragmentos de vidro dos olhos, seria mesmo uma questão de tempo para que essas crises de amnésia fossem cada vez menos frequentes até que se extinguissem, mas para isso o sono e a alimentação deveriam ser mantidos bem regrados, assim como a medicação prescrita.

Quando tocaram no assunto da cegueira de Marina, a médica pareceu ter percebido sua ansiedade e, cautelosa, lhe perguntou se a fotógrafa já havia decidido pelo transplante de córneas, ao que Clara respondeu vagamente remetendo ao fato de a esposa não se mostrar tão segura dessa possibilidade naquele momento. Tereza havia lhe confirmado que esse sentimento era bastante comum nesses casos, até brincado ao recomendar, “Só mais um pouquinho de paciência com essa cabeça dura, Clara. Pensa no depois. Ela vai ter que te mimar muito pra compensar essa trabalheira toda”, e concluiu que em breve tudo isso seria apenas uma lembrança de uma fase complicada, mas que as uniria ainda mais no final.

Antes de se despedir, a mulher ainda se prontificara a ajudar no que fosse preciso e ainda lhe passou o contato de uma oftalmologista de confiança dela e que era especialista em casos como os de Marina, a quem Clara prometeu consultar assim que a exposição passasse.

Deus, tanta coisa de uma vez...

“Mãe? Você e a m... Marina vão se divorciar também?”

E como se sua cabeça já não latejasse o suficiente...

Clara só não bateu o carro na pergunta descabida do filho porque já estava parada no sinal. Era a segunda vez naquela noite que o menino a assustava fora dos seus pensamentos assim.

Exalou tremulamente e, depois de um momento, encarou a expressão pensativa do menino ao soprar numa voz quase controlada, “Claro que não, filho. De onde você tirou isso?”

Ivan encolheu os ombros um pouco. “É que vocês andam meio... esquisitas, sei lá”, ele fungou baixo, tirando os fones dos ouvidos, “Igual como você e o pai ficaram quando estavam perto de se separar”

Clara fechou os olhos por um segundo e inspirou profundamente antes de murmurar, “Não, Ivan. Dessa vez não é igual...”, hesitou numa pausa, “A Marina ainda tá muito machucada, ela sofreu um acidente grave e precisou ficar mais sozinha por um tempo, pra sarar... Você não entendeu quando eu te expliquei antes, foi isso?”

“Ah, essa parte eu entendi, sim”, ele mastigou o lábio, então lhe deu um brilho ansioso, “Mas é que tem outra coisa... que o pai pediu pra eu não te contar, então não vai falar pra ele depois, promete?”

Clara engoliu em seco nessas palavras do menino, mas meneou a cabeça afirmativamente. “Tudo bem, sem fofoca depois. Promessa”, ela cruzou os dedos ao consentir com um sorriso pequeno, que Ivan retribuiu.

O sinal abriu e Clara seguiu para uma rotatória, fazendo o retorno para o complexo da mansão enquanto Ivan falava, “É, hum...”, ele tentou olhá-la nos olhos, mas aí coçou a nuca num gesto que lembrava muito o pai, parecendo embaraçado quando enfim balbuciou para as próprias mãos, “Por que você e o pai estavam deitados juntos na cama dele, naquela vez que eu fiquei doente e o tio Felipe foi me ver?”

Então era isso.

Lançou um olhar apreensivo para o menino antes de voltar sua atenção para a avenida, que já não era tão movimentada assim adentrando o bairro.

“Você viu isso? Ou foi seu pai quem te contou?”, perguntou-lhe com cautela.

“Eu vi... de manhã”, o menino fez um ruído na garganta, o olhar mais contemplativo quando continuou, “Você não, mas o pai estava acordado quando eu abri a porta do quarto, ele até fez ‘shh’ pra mim”, e nessa Ivan riu um pouco, “Aí, depois que você tinha saído, ele me pediu pra não te falar nada. Nem pra Marina”

Clara franziu as sobrancelhas, um tanto cismada. “Hm, entendi... Escuta, filho”, chamou a atenção do garoto e ele a olhou como se esperasse um carão daqueles, mas aí ela lampejou-lhe um sorriso e Ivan visivelmente relaxou, “Eu não tive como te trazer pra... nossa casa naquela noite porque chovia muito e também não podia sair com você febril daquele jeito. Acho que acabei adormecendo no sofá depois do jantar e...”, tentou forçar a lembrança a partir dali, só que nada, nem uma fagulha de memória lhe ocorria, então suspirou e decidiu remendar um pouco, “... o que aconteceu foi que seu pai deve ter me visto lá toda desconfortável e ficado com dó, sei lá, aí resolveu me levar pra dormir junto com ele no quarto, como a gente fazia quando você tinha pesadelo, lembra?”, concluiu ao lançar um olhar expectante para o menino, mas, pela cara dele, suas palavras não pareceram fazer muito sentido.

Foi só quando, longos segundos depois, Ivan balançou a cabeça e esboçou um sorriso pequeno, que Clara respirou aliviada.

Ou quase.

“Tá tudo bem? Você entendeu o que te falei?”

Ivan suspirou, apertando os dedos nervosamente. “Sim, só estou preocupado com a mamãe...”

Nessa, Clara piscou um tanto confundida. “Qual delas?”, perguntou num tom humorado.

“Ah, eu... hum...”, o menino gaguejou, corando em embaraço.

Teve que morder o canto da boca para não rir do olhar arregalado dele, então cutucou o filho nas costelas ao provocá-lo, “Desde quando você chama a Marina assim, hein?”

“Ah, sei lá!”, Ivan cruzou os braços ao resmungar, fazendo uma cara tão atrevida que, Clara suspeitava pela semelhança, só podia ser fruto da convivência prolongada com uma certa fotógrafa, “É que você é mais mandona, sabe? Por isso te chamo só de mãe. E a Marina eu chamo de mamãe porque ela é menos mandona que você”, ele soltou um risinho maroto quando a mãe abriu a boca com aquela expressão de indignação exagerada no rosto, então foi contando sua tirada nos dedos da mão, “Ah, e ela sempre compra os games mais irados pra mim também, me deixa tomar sorvete antes e depois das refeições, e ela sabe jogar futebol melhor que você, rá! E eu gosto mais quando ela me ajuda na lição de casa porque ela é engraçada e–”

“Opa, opa! Espera aí, mocinho!”, Clara exclamou toda dramática, “Eu faço todas as suas vontades e as dela, toda vez, e eu é que sou a mandona no fim, é isso mesmo?”, o menino lhe deu um sorrisinho culpado, o que fez Clara revirar os olhos em exasperação, “Aliás, você tá me saindo um belo de um interesseiro, seu moleque!”

“Que interesseiro o quê? As mães são pra isso, mesmo. E eu tenho três!”, ele retrucou com um riso todo faceiro, mas aí foi ficando mais quieto de novo quando murmurou, “Sabe, mãe? Eu amo vocês duas assim, igual, de verdade mesmo. É só que a Marina... ela me entende melhor que você às vezes, melhor que o pai até...”

Clara já estava manobrando o carro na entrada para o complexo quando olhou para o filho e sorriu-lhe a pergunta, “E você acha isso bom ou ruim?”

Ivan não esperou uma batida. “Eu acho ótimo, porque aí eu posso contar as coisas pra ela e ela não fica me enchendo o saco depois”

“Olha essa língua, mocinho”, apontou-lhe um dedo.

“Tá vendo?”, ele cheirou o ar, ainda mais convencido de que estava certo, “Você sempre me enche o saco, a mamãe não”

Clara suspirou morosamente e olhou para o filho com uma cara de cão abandonado, “Já vi que essa eu perdi, né?”

Ivan só fez rir e balançar a cabeça.

Um minuto depois, ela estacionava o carro na vaga de sempre, ao lado do de Marina.

Sua mão estava no destrave da porta quando sentiu o filho tocar-lhe o ombro e virou para encará-lo.

Ivan a olhou bem nos olhos por um momento e enfim suspirou. “Eu não quero que vocês se separem”, ele disse-lhe num tom baixo, compenetrado.

Sentiu um aperto no peito nas palavras do menino, mas revestiu-se de toda calma que pouco tinha para respondê-lo com um sorriso, “A gente não vai se separar, filho”

“Muito bem, porque eu gosto das coisas assim”, o menino balançou a cabeça satisfeito e começou a contar nos dedos novamente, “O pai, a Verônica e o Max. Você, a mamãe e eu. Juntos”, concluiu com um sorriso de orelha a orelha.

“Ai, mas é muito fofo...”, Clara riu e fungou baixinho, tentando disfarçar a nota lacrimejante que se infiltrava na sua voz quando bagunçou os cabelos do filho, “Tão lindo esse meu menino, meu Deus”

Ivan resmungou nas palavras melosas da mãe, mas riu todo contente antes de abrir a porta e sair fogueteando pelo pátio na direção da casa, parando um instante para falar com Vanessa que vinha ao encontro deles pela trilha das pedras.

Clara saiu do carro rindo da troca de cutucões entre os dois, até que seus olhos se estreitaram num outro carro estacionado na distância, um tanto afastado da área principal da garagem.

Foi então que uma lembrança repentina a arrebatou de si.

Estavam em Angra, dançando na varanda sob o brilho pálido da lua. Quando a melodia enfim se fundiu em outra e o ritmo dos passos cessou, deitaram-se lado a lado no chão, entrelaçando as mãos entre seus corpos enquanto castanhos e amendoados visitavam em silêncio reverente o brilho distante das constelações na vastidão sombria do firmamento. Longos minutos depois, Marina levantou-se, nua como estava, e lhe pediu que a esperasse ali. Em poucos instantes ela retornava com um pequeno objeto nas mãos e sentava-se no chão a sua frente, suspirando ao olhá-la bem dentro dos olhos. Pareceu hesitar por um, dois segundos, mas por fim ela lhe disse num tom sussurrado, “Pra você, por nosso primeiro... meio ano de casamento”, e lhe entregou a caixinha de madeira avermelhada finamente ornada com motivos dourados e florais. Marina baixou os olhos por um instante e riu daquela maneira quase tímida que sempre lhe causava um friozinho bom no estômago, mas foi aquela nota de melancolia no riso dela que Clara teve que engolir junto com seu próprio riso surpreso quando abriu a aba delicada e um tema musical começou a ecoar no silêncio noturno. A mesma então melancolia que passou a acompanhá-la, nota por nota, embolada em um nó de culpa na sua garganta que, Clara sabia, só iria crescer ainda mais depois daquela noite.

Com um estalo, voltou a si ao mesmo tempo em que Vanessa parou na sua frente, o rosto da mulher agora torcido numa máscara de raiva mal contida.

Clara engoliu em seco quando a ruiva confirmou com a cabeça que sim, Cadu estava na sala.

Conversando com Marina.

E lembrou-se que nunca mais dançaram depois daquela vez...

Notas finais
Sobre minha ausência: esse foi o meu "touché" para a vida. _ô)