Perchance

22 Familiar


Notas iniciais
Nota 1: Oi. Não me taquem pedras, pessoas. o/

Mal havia colocado o copo de lado na mesa e levantado da poltrona quando foi parcialmente arrancada de seu estupor pelo som daquela passada serelepe que invadia o estúdio.

Estava um pouco alta e um tanto mais surpreendida pelo que acabara de ouvir de Cadu, mas não teve tempo para processar aquilo porque no momento seguinte ele deixava a sala e no outro ela se encontrava envolta pelos braços magricelos do menino.

“Mamãe! Poxa, até que enfim você acordou!”, ele a cumprimentou com um riso que era um misto de alívio e euforia.

Voltando da cozinha, onde tinha ido se limpar da bebida que respingara em sua camisa, Cadu parou no meio do passo quando deu de cara com a cena que fez seu sangue ferver nas veias instantaneamente.

Ainda sem se dar conta da presença do chef, Ivan franziu as sobrancelhas ao notar a expressão aérea da fotógrafa, “Mamãe? Tá sentindo alguma coisa? Quer que eu chame–”, mas aí o menino sobressaltou ao ouvir a voz ríspida do pai o chamando.

“Ivan”, repetiu num tom pouco equilibrado, o que só fez o garoto se encolher ainda mais perto da mulher, “Vem aqui”, ele rangeu a ordem ao dar um passo intimidante à frente.

Marina tentou acompanhar a movimentação brusca do chef pela sala, sua mente ainda procurando fazer algum sentido das palavras que ele havia lhe despejado não cinco minutos atrás, mas então sentiu o aperto nervoso do menino em sua cintura e finalmente piscou para a realidade embaçada que a cercava.

“Vai lá falar com seu pai”, ela sussurrou-lhe com um aceno vago um instante depois, forçando-se a sorrir enquanto suas mãos afagavam-no de leve nas costas e no rosto.

Assim de perto, conseguia distinguir melhor a expressão do garoto e, julgando pela forma como ele se agarrava nela, sabia que Ivan estava apreensivo com alguma coisa, o que muito provavelmente tinha a ver com o tom áspero do pai.

Marina suspirou baixo, tentando encará-lo nos olhos o mais fixamente que podia por um instante. “Tá tudo bem, eu não vou sair daqui”, ela murmurou a promessa contra os cabelos claros do garoto antes de beijar-lhe o topo da cabeça e deixá-lo ir.

Ivan, que apesar da pouca idade nada tinha de bobo, já havia percebido a garrafa meio vazia na mesa ali perto, assim como o ar meio embriagado do pai e um arrastado esquisito na voz da fotógrafa. Sentia que alguma coisa de errado estava se passando entre aqueles dois e que isso vinha de muito tempo, mas aprendeu que o melhor a se fazer nessas horas era ‘calar e obedecer’, então suspirou sua anuência e bambeou nos pés para encurtar a distância dos poucos passos que o separava do pai.

Quando o chef lhe abraçou, o menino ouviu-o murmurar em seu ouvido, “Senti sua falta, filho”, antes que Cadu se afastasse um pouco para olhá-lo gravemente por um momento, até que a repreensão que temia veio num sussurro enfático do pai, “Eu já não te falei pra não chamá-la assim? Vai ver que ela nem gosta...”, notou os olhos negros dele desviando por um segundo para Marina, que permanecia na sala ainda que preservasse a distância entre eles, então se estreitarem nos seus novamente, “Você já tem uma mãe, não precisa de outra. Entendeu?”, Ivan ainda reinou de abrir a boca para contestar, mas ao receber aquele brilho severo do pai, só meneou a cabeça e baixou o olhar, castigado.

“É isso que você anda ensinando pro seu filho, Carlos Eduardo?”

Sentiu uma incômoda palpitação no peito quando a voz da ex-mulher reverberou subitamente pela sala.

Cadu olhou por cima do ombro a tempo de ver Clara passando por ele numa passada dura, até que a mulher parou bem na sua frente, braços cruzados para encará-lo com aquela expressão neutra no rosto que rivalizava o fervor nas suas palavras.

“Eu disse alguma mentira?”, o chef provocou-a com aquele sorrisinho descarado, usando a proximidade que mantinha com o menino para girá-lo até que Ivan encarasse a mãe, “A não ser que você tenha se tornado uma mãe relapsa, é claro. O que acha disso, Ivan? Tem notado sua mãe assim... meio distraída, desatenta contigo esses dias?”, ele insistiu ao fazer uma ligeira pressão nos ombros do garoto, que primeiro se mostrou confuso ao acenar que sim, mas logo em seguida meneou a cabeça negativamente.

Clara estreitou os olhos ao notar o gesto enervado do menino, então lançou um brilho frio para o chef, que continuava encarando-a com aquele ar presunçoso, antes de retornar sua atenção para o filho e falar num tom calculadamente calmo, “Bom... Já que o seu pai ainda parece ter dúvidas, eu, sua mãe, estou te dizendo que não vejo problema algum em você chamar a Marina assim também. Ou de mamãe, como você prefere. É até bom que a gente não se confunde, hm?”, ela sorriu um pouco na cara encabulada que Ivan fez, “Me deixa muito, mas muito feliz mesmo saber que você a ama dessa forma tão pura e bonita, filho...”, Clara enfatizou ao gesticular com as mãos e teve que rir quando o garoto escapou uma olhadela tímida para a fotógrafa, quem havia retornado para o seu assento enquanto discretamente acompanhava a troca entre os três, “E eu tenho certeza que ela te ama dessa forma também”, nessa, ela enquadrou o ex-marido com os olhos por um segundo antes de conspirar baixinho para o filho, “Mas você já sabia disso, não sabia?”, e deu-lhe uma piscadela que dessa vez fez Ivan menear a cabeça todo feliz, “Agora vai ficar um pouco com a Vanessa lá no alpendre enquanto seu pai e eu batemos um papo, tudo bem?”, ela pontuou seu pedido com um carinho na bochecha dele e um sorriso que Ivan, agora visivelmente mais relaxado, lhe devolveu agradecido antes de disparar feito uma flecha pela sala.

Cadu, que até então mantivera uma expressão educada naquele velho cinismo chauvinista dele, seguiu o menino com os olhos até que ele desapareceu pela porta, aí virou para a ex-mulher e abriu os braços com um suspiro irritado, “Tá vendo? É isso! É essa sua atitude que precisa mudar, Clara!”, ele lhe apontou o dedo em riste e no ato a mulher bateu sua mão para longe, mas o chef não se deteve com isso, “Você desdiz tudo que eu falo pro garoto, e o que é pior, na frente de qualquer um como se eu fosse invisível, um zero à esquerda!”, então começou a andar de um lado para o outro enquanto gesticulava rispidamente, “Porque agora é assim, é só o Ivan fazer beicinho que você já se derrete toda. Ele falta na escola por pura manha e o que você faz? Passa a mão na cabeça do moleque e como prêmio pelo mal feito ainda o leva pra passar um fim de semana na praia! Olha que lindo isso!”, ele jogou as mãos no ar com uma risada de deboche, até que por fim lhe esputou as palavras na cara, “Me diz, que tipo de homem você acha que ele vai se tornar desse jeito, hein? Sempre grudado na barra da saia da mãe feito um... um fracote mimadinho, um maricas–”, sua tirada venenosa foi cortada pelo ruído estalado que retinia pelo estúdio.

Ruído esse que fez Marina saltar da poltrona e dar uns três passos meio trôpegos na direção deles, até que parou com uma mão hesitante no ar enquanto seus olhos machucados tentavam discernir entre o que eram sombras e o que era sólido pelo caminho.

Mesmo depois que o eco do tapa se dissipou, os segundos ainda se demoravam num silêncio carregado que pairava no ambiente.

Até que...

“Eu realmente não sei qual é o seu problema...”, ouviu-a sibilar as palavras e foi se guiando cautelosa pela rouquidão descompassada na voz dela, “... mas escuta bem o que eu vou te falar. Da próxima vez que sequer passar pela sua cabeça se referir ao meu filho dessa maneira baixa, preconceituosa e tão indigna de um pai, lembre-se desse dia... porque eu juro por Deus, Cadu... você não vai querer sentir o peso dessa mão de novo”, nesse instante seus dedos alcançaram-lhe o ombro direito e Marina pôde sentir o músculo rígido ali praticamente vibrando quando a mulher respirou profundamente, mas então, três segundos depois, o tom dela atenuou naquela nota lacrimejante, estranha, que fez fotógrafa inclinar a cabeça em atenção, “Não pense que vai conseguir qualquer... diálogo comigo tentando me intimidar, me constranger... Aquilo que você fez no telefone quinta passada foi a gota d’água, Cadu. Eu não vou mais permitir que você use o Ivan como desculpa, tá me entendendo? Porque se era isso que você pretendia quando ‘permitiu’ que ele viesse morar aqui? Se você achou que ia ganhar pontos comigo assim... Lamento, mas você se equivocou. Só que pelo visto ainda não pegou a dica, não é? Continua insistindo em tirar a minha paz, a paz da minha família...”, ela se demorou numa pausa tensa e, quando o chef continuou sem emitir um fiapo de ruído ou mover um músculo, Marina sentiu a postura dela cedendo num suspiro longo e cansado, “Não percebe que agindo assim só afasta as pessoas de você? O seu filho, Cadu... Ele tá diferente, ele... Meu Deus, o Ivan tá com medo de você, de ficar perto de você! Eu... eu sinceramente não entendo. Não sei aonde você quer chegar com... tudo isso”, a voz dela foi se abafando em agonia, e no fim era de uma frustração que, até aquele momento, Marina nunca tinha presenciado.

Foi tão impactante que a fez recolher sua mão e recuar um passo quase que imediatamente, de repente sentindo como se fosse uma intrusa ali, em sua própria casa, entre os dois, sensação essa que não havia experimentado nem quando Clara ainda era casado com Cadu.

Ela duvidava que naquela altura o chef tivesse a presença de espírito para captar qualquer outra coisa além daquele eco de mágoa antiga na voz de Clara, mágoa da qual seu orgulho ferido ainda se alimentava, mas aquele tremor resignado na voz dela ainda reverberava por cada centímetro da sua pele, fazia seus tímpanos doerem, fundindo-se a essa realização tão inescapável quanto o sentido daquelas palavras enigmáticas do chef que agora repercutiam como flashes dentro da sua cabeça...

Você acha que é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo? Ou é como dizem, que a gente só ama pra valer mesmo uma vez na vida? Eu não costumava pensar assim, mas... isso não significaria que todos os nossos outros amores seriam apenas... sombras? Daquele único que um dia vivemos, ou ainda vamos viver...

Era mesmo gritante, claro demais para não ter notado antes.

Talvez Vanessa estivesse certa quando lhe disse que só tinha se negado a... enxergar os sinais que sempre estiveram ali, esse tempo todo.

Bem na sua frente.

Ah, as ironias do destino...

E agora, diante do impronunciável que se fazia ouvir no silêncio que se prolongava entre os três, durante esses infindos segundos...

Doeu demais.

Queria tanto não doer, autocomiseração nunca fez sua cabeça.

Mas, finalmente, as peças começavam a se encaixar.

“Onde eu estava mesmo?”, Cadu disse de repente, seu tom baixo e compenetrado como se finalmente retornasse do transe para o qual o efeito combinado do álcool e da bofetada lhe havia induzido, “Ah, é... Na parte que eu desci pra te procurar porque você tinha... saído no meio da noite”, ele fungou um pouco, os olhos negros desfocados, mirando algum ponto do rosto da mulher que agora o encarava com uma expressão descrente, “Você estava na frente do prédio, embaixo da marquise. Eu tentei te proteger da chuva que respingava, mas você não deixava... Mesmo que tremesse tanto de frio que mal podia andar depois...”, então baixou o olhar numa pausa antes de exalar as palavras trêmulas, “Aí, do nada, você disse que... que ainda me amava... e me beijou”

Seus olhos piscaram rápido, uma, três vezes seguidas, enquanto sua cabeça meneava e seu semblante retorcia em confusão, “Mentira. Isso não... isso é mentira”, tinha que contestar, mesmo se quase engasgasse com as palavras.

Mas Cadu ignorou sua reação e continuou falando. “Depois que consegui te convencer a voltar pro apartamento, eu te ajudei a tirar suas roupas molhadas e te enrolei nas cobertas. Eu ia voltar pro sofá, só que... quando te ouvi me chamando...”, fez uma pausa pensativa, “Você disse, ‘Deita aqui comigo, não me deixa sozinha’. E eu? Eu não podia deixar... Deitei do seu lado, te ouvi enquanto você ria e falava de coisas sem sentido, do passado, da Marina, de alguém que ela tinha ido ver em São Paulo... Essa Diana, eu acho. Ah, e sabe o que você me disse mais? Que a culpa do nosso casamento ter acabado foi minha, que eu podia ter sido menos... egoísta, possessivo, que se eu não tivesse me precipitado daquele jeito todo mundo podia ter tido o que queria no final”, e nessa o chef soltou uma risada fraca, sem emoção, “É, você estava muito louca naquela noite. Rum sempre demora a fazer efeito em você, mas quando faz... Não é só a sua língua que se solta, Clara”, então sua expressão ficou séria quando ele a encarou bem nos olhos, “Mas você não se lembra de nada disso, não é? Foi essa a desculpa que deu pra ela também?”, seu olhar magoado trilhou para a fotógrafa por um instante, notando que ela havia se afastado mais, então voltou a encarar a mulher na sua frente.

Clara só conseguia balançar a cabeça em negação. Estava completamente emudecida, horrorizada.

O chef pareceu tomar aquela expressão no rosto dela como ofensa e logo se colocou na defensiva. “E não me olha com essa cara, porque eu não encostei um dedo em você sem permissão”, e lá estava aquele sorriso cínico dando o ar da graça novamente, “Ah, sim... Foi tudo muito consentido ali, Clara”, uma pausa, então sua expressão suavizou um pouco, “Por um momento era... como se nada tivesse mudado. Não tinha Verônica, nem Marina, ninguém. Só nós dois. Mas aí de repente você apagou e eu... eu não conseguia parar. Você estava ali, tão perto, e eu estava tão–”, ele foi interrompido por uma voz estrangulada.

“Chega”, Marina repetiu mais firme dessa vez, “Já ouvi o suficiente”

O som da voz dela trouxe Clara de volta a si e, reunindo o pouco de pensamento coerente que lhe restava, ela girou nos calcanhares para ver a fotógrafa reclinando-se com uma mão no recosto da poltrona.

“Marina...”, ela apressou-se na direção da companheira e um instante depois a segurava pelos ombros, “Você tá tremendo”, foi quando enfim notou a garrafa e os copos na mesa próxima, “Estava bebendo? Meu Deus! Você sabe que não pode beber por causa dos remédios, Marina!”, exclamou enquanto tentava fazê-la se sentar, mas a mão dela empurrando contra seu ombro a deteve.

“Estou bem”, Marina replicou vagamente ao se afastar um passo.

Clara engoliu em seco ao notar que a fotógrafa evitava sequer mirar os olhos na sua direção, então se forçou a falar contra o nó de angústia que crescia em sua garganta, “Você sabe que não é verdade, não é? Nada do que ele falou é verdade, Marina”, e nessas palavras o riso do chef ecoou irônico pela sala, ao que ela lançou-lhe um olhar fulminante por cima do ombro antes de voltar-se para a companheira novamente, “Ele tá inventando essas coisas, não tá vendo?!”, contestou sem pensar e arrependeu-se no segundo seguinte por tê-lo fraseado dessa forma.

Marina teve que rir baixo, um deboche de si, por toda essa situação que não podia ser mais ridícula.

“Não, eu não estou vendo nada, Clara”, ela silvou-lhe as palavras entre os dentes.

“Eu só– me desculpa... Me expressei mal, eu sei”, suspirou exasperada, não sabendo onde se agarrar com as mãos, se em Marina, se nos próprios cabelos, se no pescoço de Cadu, “Desculpa...”, murmurou por fim, assistindo impotente enquanto a fotógrafa a circulava sem dizer uma palavra e foi tateando seus passos pela sala na direção da porta.

Já Cadu cruzava o mesmo espaço tranquilamente, mãos nos bolsos e os ombros relaxados, até que parou pela mesa, serviu-se de mais uma dose, e foi virando a bebida quando de repente o copo sumiu da sua mão.

“Não acha que já causou estrago demais por uma noite?”, ela sibilou de raiva ao colocar o copo de volta na mesa com mais força que o necessário.

O chef abriu-lhe aquele sorriso de charme exagerado. “Ué, mas eu ainda nem cheguei na melhor parte da história”

“Guarde pra você, cortesia da casa”, rebateu-lhe com a mesma expressão fingida.

Cadu balançou a cabeça, dando-lhe um olhar condescendente. “Na verdade, eu confesso que fiquei um pouco, digamos... receoso?”, ele então aumentou a voz para que Marina o ouvisse de onde havia parado pelo limiar da porta, “Vai que a sua esposa decidisse cumprir mesmo a ameaça de chamar aqueles brutamontes lá fora pra sumir comigo do mapa. Sabe como é, eu tenho uma família pra sustentar...”

Marina virou devagar para encará-lo naquelas palavras, a face da calma quando ironizou da sua distância turva, “Ah, não me diga...”

O chef não perdeu uma batida. “O quê? O quanto a sua querida esposa aqui sente falta de... hm... sabe?”, ele riu debochado e, já que estava ali mesmo, resolveu tripudiar só mais um pouco, “Não, acho que não sabe mesmo”, então se voltou para a ex-mulher, “Por que não conta pra ela, Clara? Vai, fala pra Marina que conversa era aquela que você queria ter comigo, no mesmo dia em que ela–”, mas nessa Clara já avançava nele com punhos e dentes cerrados.

“Você não ouse, tá me ouvindo?!”, ela tentou golpeá-lo no peito, mas Cadu, antecipando seu movimento, agarrou-lhe pelos pulsos e a puxou, segurando-a firme contra seu corpo.

“Ah, diz se não é o que sempre acontece quando você perde o controle e a gente tá assim, bem pertinho um do outro...”, ele insinuou-se ainda mais perto dela, rindo da cara indignada que a ex-mulher fazia, aí lançou um brilho maldoso para a fotógrafa, “É isso aí mesmo que você tá pensando, Marina. Ela me beijou. Outra vez”, seus olhos negros trilharam para Clara novamente e ele então injetou a última gota do veneno, “E teria feito muito mais se aquela sua amiga francesa, a loira gostosona lá, não tivesse aparecido pra estragar o momento”

Sem forças para revidar contra o aperto dele em seus antebraços, a mulher só conseguiu murmurar num tom nauseado, “Meu Deus... Como? Quando foi que você se tornou essa pessoa tão... amarga... cruel?”

“Venho me fazendo essa mesma pergunta desde aquela noite”, ele rangeu as palavras ao soltá-la de uma vez, mas seus olhos não miravam os dela quando Clara tropeçou e quase esbarrou na figura parada atrás dela.

Virou-se e deu de cara com Marina, ali imóvel, tão silenciosa quanto uma felina selvagem, seus olhos machucados bem abertos como se ela estivesse lhe examinando, como se estivesse enxergando algo nela pela primeira vez.

“Isso é mentira, Marina. É tudo mentira desse louco!”, sussurrou-lhe quase em desespero, então se agarrou aos lados da cabeça da fotógrafa e a encarou nos olhos ao falar, “Me escuta, não foi assim que aconteceu. A gente vai terminar aquela nossa conversa e eu te explico tudo, tá bem?”, mas pela cara que a mulher fazia não estava nada bem e Clara começou a sentir seu mundo ruir junto com a expressão da companheira.

Marina suspirou baixo, desviando o olhar por um instante antes de falar num tom seco, “Nossa conversa, Clara?”, seus lábios se curvaram numa pausa triste, “Acaba aqui”, e com um último olhar vago para o chef, Marina se foi do seu domínio.

Ainda sentia os cabelos dela deslizando por entre seus dedos quando murmurou para as costas da fotógrafa, “Marina, não faz isso...”, e no instante seguinte já a puxava de volta para si pelo antebraço ao exclamar, “Você tem que me ouvir, caramba!”

“Eu não tenho que te ouvir porcaria nenhuma!”, retrucou sem bater um cílio enquanto tentava em vão se desvencilhar da mulher, “Clara, larga o meu braço agora”, enfim sibilou em frustração.

Mas Clara, atenta a única oportunidade que se apresentava ali para tentar mudar o quadro a seu favor, lhe deu um puxão que trouxe seus corpos ainda mais perto, então teve que educar sua expressão para não sorrir quando Marina visivelmente estremeceu no seu atrevido, “Não”, sussurrado tão perto dos lábios dela.

Não na frente dele”, a fotógrafa sussurrou-lhe de volta, meio perdida na névoa do álcool e completamente embriagada pela proximidade viciante entre elas.

Já nem sabia mais o que queria, o que não pensar ali. Sua cabeça girava num tumulto insano de pensamentos, dos mais coléricos aos menos castos, mas tentou manter uma expressão minimamente indiferente. Só que a verdade era que, por mais que se esforçasse, sabia que seu corpo era uma entidade separada da sua mente e, naquele exato momento, estava mais propenso a revelar do que a segredar o que se passava com ela, entre elas.

Deus, precisava sair dali o quanto antes...

“Me deixa ir, por favor...”, quando suspirou naquela sensação familiar que começava a lhe pesar as pálpebras, sentiu a mão dela provocando um leve arrepio ao deslizar por seu braço, alcançando a sua para entrelaçar-se com seus dedos por um breve instante, até que enfim a soltou.

Em silêncio, Clara observou enquanto a fotógrafa tateava seu caminho entre os poucos obstáculos, seguindo o rastro conhecido para a porta antes de desaparecer pelo vão entreaberto instantes depois.

Não esperou mais que outro instante para virar e marchar até o outro ocupante da sala que, pelo sorrisinho malicioso que ele agora escondia por trás do copo, devia ter achado a cena bastante entusiasmante até ali.

“Por que? Por que não falou a verdade pra ela, que foi você quem me agarrou a força, seu cretino?!”, a mulher sibilou sua raiva cética na cara do chef.

“Vai me dizer que não gostou?”, ele deu-lhe aquele olhar conspirador por cima da borda do copo, os lábios se espalhando preguiçosos antes do gole final.

Clara lhe retribuiu o olhar com um estreito dos seus, mas não se dignou a respondê-lo. “Sai daqui, Cadu. Só... vai embora”

Quando o chef só lhe arqueou uma sobrancelha cínica e a encarou com aquela mão despreocupada no bolso e a outra brincando com o copo, ela esfregou as suas próprias nos lados do rosto antes de exclamar exasperada, “Sai daqui!”

Sem tirar os olhos dela, Cadu depositou o copo na mesa ao lado, então deu um passo mais perto. “Não sem antes me despedir do nosso filho, ou você já se esqueceu disso também?”, provocou-a naquele tom de voz meio melancólico, meio lascivo que soprava contra seu rosto a cada respiração pesada dele.

Resignada, Clara balançou a cabeça com um sorriso pequeno, quase nostálgico.

“Sabe que eu costumava pensar, até me vangloriava por isso quando me perguntavam e eu respondia, sem pestanejar, que não podia ter escolhido um homem melhor pra ser o pai do meu filho”, suspirou pesarosa, então murmurou com um riso fraco, “Agora eu vejo o quanto estava enganada...”

Para o que ele só acenou com um piscar lento de olhos. “Hm. Deixe-me adivinhar. Você encontrou esse... ‘homem melhor’ e fez ‘dele’ seu amante, não foi assim?”

“Ah...”, baixou a cabeça por um instante, sorrindo consigo mesma em realização antes de voltar a encará-lo com um olhar pouco discreto, “Você não faz ideia”

“Como eu disse, você bêbada é um poço de sinceridade”, o chef soprou-lhe num tom baixo, pouco humorado.

Clara notou o olhar perdido do ex-marido, fitando-o por baixo dos cílios quando o incitou, “Mudou alguma coisa? Saber disso agora?”

“Não, só confirmou o que eu já sabia”, ele murmurou com um fungado baixo, então levou aquela mão que estava no bolso até seu rosto e roçou a ponta do médio levemente contra seus lábios selados, “Que você é a vagabunda mais honesta que eu conheço”, e por um instante tudo que Clara viu foi aquele sorriso torto se espalhando, se misturando a outro em sua cabeça, tão adorado quanto, ainda que de formas diferentes, até que Cadu fez uma cara séria como se fosse falar algo muito importante, mas aí baixou a cabeça e se foi, coçando a nuca e bambeando nos pés rumo à saída.

***

Sobressaltou quando ouviu o som de passos se aproximando e logo retornou sua atenção para as frutas e hortaliças espalhadas pelo mármore escuro da ilha da cozinha. Um momento depois a mulher parava do outro lado com um suspiro cansado, os dedos tamborilando nervosamente ali pela borda quando Sônia levantou o olhar para encará-la; a expressão aflita no rosto da patroa era uma que jamais tinha visto antes, chegava a dar dó.

“Ela passou por aqui?”, indagou vagamente.

Sônia hesitou por um instante, mas por fim franziu o nariz e despejou tudo, “Olha, a dona Marina não tá boa, não. Ela pegou um vinho na adega e subiu pra sacada, agora tá lá enchendo a cara”

Clara espalmou uma mão na testa em exaustão ao resmungar, “Só vinho? Nada pra comer?”

“Eu até ofereci, mas a senhora conhece a peça”, a moça replicou balançando a cabeça mais que um tanto contrariada, então voltou para o seu serviço.

Permaneceram em silêncio por um momento demorado, Clara assistindo enquanto Sônia fatiava as bagas com movimentos rápidos e praticados, até que...

“Você ouviu aquilo?”

Nessa, a empregada lhe deu um olhar que falava volumes.

Clara exalou pesadamente. “Também acha que eu sou a pior vadia desse mundo, não é?”, sua testa franziu em receio quando ela esfregou as mãos nos lados do pescoço num gesto frustrado, “Porque a Marina tá achando isso, eu tenho certeza que ela tá...”, soprou as palavras como se tentasse convencer a si mesma de que não eram verdadeiras.

A moça a observou com uma expressão duvidosa por uns segundos, aí colocou a faca de lado e limpou um pouco as mãos no avental antes de apoiá-las na borda do mármore.

“Eu, hum... Posso ser sincera contigo, dona Clara?”, no aceno da patroa, Sônia fez uma pausa como se para realizar algum cálculo difícil na cabeça, então recomeçou num tom compenetrado, “Eu não acho que a senhora seja assim, não. Vai fazer um ano que eu convivo com vocês, quase todo santo dia, e eu confesso que nunca vi alguém mais dedicada, mais apaixonada que a senhora pela dona Marina... e ela pela senhora. Vocês duas se amam de uma forma tão... de vocês. Dá até uma invejinha assim, sabe?”, seus olhos cor de âmbar se arregalaram um pouco no que ela emendou, “No bom sentido, claro! Mas é verdade... Tudo que eu presenciei aqui nessa casa até hoje foi amor. E esse sentimento que vocês têm uma pela outra, dona Clara? Não é todo mundo que consegue entender, não. Porque se já é difícil de encontrar, imagina pra manter, né? Mas eu confio que vocês duas vão conseguir, sim”, a moça concluiu com um sorriso simpático.

“Ai, Soninha...”, choramingou enquanto circulava a ilha e já foi puxando-a para um abraço apertado que Sônia correspondeu meio sem jeito, “Só você pra levantar meu astral agora, viu?”, ela deu-lhe um beijo estalado na bochecha, rindo da cara embaraçada que a moça fazia, “Obrigada, de verdade”

“Deixa disso, dona Clara”, ela murmurou para o ar com um encolher de ombros, “Não falei nada demais. Só, hum... fui sincera mesmo”

Clara afastou-se um pouco ao perceber a inquietação da moça, então sorriu esgueira quando ela pareceu respirar bem mais aliviada com a distância.

“Hm. Acho que eu vou te dar uma folga extra por isso”, disse humorada ao surrupiar uma fatia de maçã para mordiscar.

E nessa Sônia se animou, recuperando toda sua graça. “Eita que desse jeito eu vou aconselhar a senhora toda vez se for pra me render umas horinhas a mais na praia!”

Já estava a caminho da saída quando lhe sorriu por cima do ombro, “É só escolher o dia”, e foi seguindo pelo rastro invisível de Marina.

***

Vanessa avistou-a se aproximando e logo se levantou do seu assento no sofá ao lado de Ivan, quem permaneceu no lugar com um ar pensativo.

“Bom, pela sua cara já vi que a coisa desandou de vez”, a ruiva resmungou assim que se viram frente a frente.

Mas naquele momento Clara estava sem um pingo de disposição para o seu costumeiro ‘morde e assopra’ com a ruiva. “Vanessa...”, suspirou esgotada, lançando um olhar cauteloso na direção do filho antes de enquadrar a mulher com um brilho repreensivo.

“Tá, entendi. Foi mal”, ela levantou as mãos em sinal de paz antes de continuar resmungando, só que agora num tom mais baixo, “Mas só pra te avisar, caso você não tenha notado, o Cadu saiu daqui tropeçando nos próprios pés de tão bêbado. Ainda falei pra ele deixar o carro aí e ofereci uma carona, mas o cara só jogou um ‘pfft’ pra mim e foi lá, parecia um cachorro que caiu da mudança, coitado. Deu até pena...”, balançou a cabeça com um suspiro contrariado, relembrando a pontada de simpatia que pela primeira vez havia sentido pelo ‘ex-marido mais marido da história’.

“Mais essa agora...”, Clara coçou a testa irrequieta, sentindo os primeiros sinais de uma enxaqueca poderosa começar a lhe embaçar os pensamentos.

E Vanessa continuava falando, agora mais consigo mesma, “Veio aqui chorando todas as pitangas que podia e não podia, depois apertou tanto o Ivan que eu achei que... Sei lá, que ele nunca mais fosse voltar pra ver o garoto”

Foi quando os olhos da outra mulher capturaram os seus com um brilho definitivamente preocupado, “Você pode me fazer um favor?”, no sinal positivo da ruiva, ela lançou outra olhadela discreta para o menino e então lhe solicitou em voz baixa, “Liga pra minha irmã Helena e, hum... diz que eu pedi pra ela dar uma checada no prédio do Cadu e me retornar mais tarde... só por precaução”

Vanessa achou o pedido da mulher um tanto estranho, mas por fim assentiu. “Tudo bem”, mas aí fez numa pausa, franzindo um pouco o rosto como se de repente recordasse de um detalhe que não podia ter deixado passar, “Ah, você se importa se eu ligar do caminho pra casa? É que acabei de lembrar que, hum... que esqueci a vidraça da janela aberta! E, hum, com esse tempo mudando toda hora desse jeito nunca se sabe, né?”, ela concluiu com um riso meio distraído.

Clara lhe deu um olhar suspeito, reconhecendo aquela expressão hesitante de longa data, mas achou melhor não cutucar a ruiva naquele mérito, “Pode ser, claro. E obrigada, por ter ficado com o Ivan”, acenou para o filho ao lhe oferecer um sorriso cansado, porém lhano.

“Não por isso. Esse menino é um amor, apesar dos pais que tem”, a ruiva brincou ao lhe retribuir o sorriso, aí pisou de um pé para o outro meio sem graça e, a despeito de si mesma, murmurou-lhe as palavras sinceras, “Espero mesmo que vocês fiquem bem”, e com essa ela virou-se para jogar um beijinho no ar na direção de Ivan. Quando o menino lhe acenou de volta com um sorriso tímido, ela trocou um brilho empático com Clara, titubeou um tanto por ali, até que enfim puxou a outra mulher para um abraço incomumente demorado e apertado.

“Cuida dela por mim”, Vanessa sussurrou em seu ouvido antes de soltá-la, então seus olhos úmidos trilharam para a distância onde uma silhueta se movia pela sacada pouco iluminada, de volta para Clara com um suspiro final, e aí partiu para o primeiro dos muitos passos que tinha pela frente.

Sua única esperança era a de que já não fosse tarde demais para reatar os laços da sua própria sina amorosa.

***

Depois de conversar um pouco com Ivan no alpendre e se certificar de que o garoto estava mesmo bem, Clara orientou o filho para que ele esperasse no quarto que logo o jantar seria servido.

Acompanhou com os olhos enquanto o menino trilhava seus passos desembaraçados pela grama e, somente depois que cruzaram o limiar da porta, ela seguiu para a escada espiralada que ligava a área frontal do jardim à varanda no segundo piso da casa.

Foi subindo os degraus devagar, cada passo pontuado por um recomeço diferente para tudo o que queria dizer, para o que precisava explicar a Marina, a si mesma, mas ainda não sabia como.

Seus pés mal tocaram o piso ladrilhado quando o timbre arrastado da voz dela soprou-lhe das sombras.

“Você me ama?”

Clara estreitou o olhar na direção do som e lá estava ela, num canto próximo ao parapeito gradeado, vestida naquele linho preto agora amarrotado e desabotoado, as pernas longas, uma estirada pelo chão e a outra dobrada no joelho que servia de suporte para a mão que segurava a taça quase vazia, deixadas praticamente nuas naqueles jeans tão curtos.

“Você sabe que sim”, afirmou num tom baixo um instante depois, aproximando-se com certa cautela no andar.

“Depois de hoje? Não tenho certeza de mais nada...”, ela continuava falando com o rosto voltado para as réstias da luz exterior filtrada pela grade, “É como se aquela mulher que eu conhecia, a quem amei e dediquei tudo de mim desde o início, não existisse mais...”, então inclinou a cabeça minimamente na sua direção antes de murmurar, “Talvez nunca tenha existido”

“Tudo mesmo, Marina?”, disparou ao parar na frente da fotógrafa, sabendo que podia soar como provocação, mas não conseguindo controlar o impulso imediato de se defender.

Do seu lugar, sentada no chão frio, Marina agora a encarava daquela maneira quase ausente. “Eu te dei tudo o que sei de mim, Clara”, ela começou com uma nota de fleuma na voz, “Você mesma é a prova viva de que certas partes de nós se perdem quando são divididas com outros, e sempre haverá outros antes de nós...”, suspirou numa pausa, tomou um gole vagaroso do seu tinto seco, então continuou num tom um pouco raspado, “Eu nunca menosprezei o seu passado com o Cadu e você sabe disso. Também nunca questionei a relação de vocês depois que nos casamos, porque eu sempre soube... o lugar que ele ocupa na vida do Ivan, na sua vida...”, Clara teve que desviar o olhar por um instante, cruzando os braços ao pisar de um pé para o outro, mais inquieta a cada sílaba melancólica que deixava os lábios da fotógrafa, “Aliás, o que você sente ou deixa de sentir por seu ex-marido só diz respeito a você. Eu não posso mudar isso e, mesmo se eu pudesse, que quisesse... ainda não teria esse direito. Mas talvez eu tenha sido... tolerante demais?”, ela ponderou consigo mesma numa pausa para outro gole, antes de concluir com um suspiro cansado, “É, acho que superestimei o meu papel nessa história toda”

“Nossa história, Marina. Minha e sua”, ela enfatizou enquanto se abaixava devagar no espaço entre as pernas da fotógrafa, sentando-se nos calcanhares ao deslizar um pouco mais para frente, então levou sua mão esquerda até o joelho erguido dela e a acariciou ali, “Você prometeu me ouvir. Não importa o que aconteça, lembra?”, mas engoliu em seco quando Marina baixou o olhar para sorver um gole indiferente, franzindo as sobrancelhas ao murmurar incerta, “Disse... Você disse que me perdoava”

“Então você admite”, Marina disparou friamente, ainda que os lábios se curvassem por trás da taça.

Ao que ela já foi rebatendo exasperada, “Não estou admitindo nada!”

“Sempre na defensiva...”, sorriu-lhe a ironia dessa vez e, enquanto Clara se forçava a encará-la, Marina continuava a bebericar seu vinho tranquilamente entre as palavras, “Quando eu cheguei tarde naquela noite e o porteiro me falou que você não estava em casa, pra onde tinha ido e o motivo... Eu senti. No mesmo instante, Clara. Essa... coisa dentro de mim dizia que eu tinha que te ver imediatamente. E eu fui até lá, mas aí... eu vi vocês dois”, nessa a fotógrafa soltou um riso fraco, esvaziado de humor, “Eu lembro tão nitidamente agora. É como se eu estivesse revendo aquela cena aqui, bem na minha frente, você o puxando pra perto, você o beijando...”, com um suspiro ela reclinou a cabeça na parede, baixou o olhar para o espectro da taça que agora aninhava entre as mãos em seu colo, e por fim fitou aquele borrão que era o rosto da companheira ao lhe indagar numa voz pequena, “Por quê?”

Só então percebeu que seus olhos haviam se fechado assim que a revelação começou a deixar os lábios da fotógrafa. Se ao menos tivesse uma resposta, uma verdade estrangulada, um conforto inútil que fosse, mas não...

“Porque sou a mais... estúpida das mulheres?”, tinha que rir do absurdo tão honesto que foram suas próprias palavras, mas então suspirou pesadamente, “Eu não sei...”

Marina parecia digerir aquilo por um momento, sua mandíbula se movendo como se o que quisesse dizer amargasse demais em sua língua, até que ela murmurou quase inaudivelmente, “Você ainda... sente...”

“Não”, pelo menos disso, e com tudo que aconteceu durante e depois daquela última vez que se encontraram, Clara estava convicta. Nenhum interesse, não sentia mais nada que fosse remotamente carnal ou romântico por Cadu.

“Eu não te satisfaço, é isso?”, ela a inquiriu secamente.

Clara piscou, pega de surpresa pela pergunta desconcertante da fotógrafa. Mas aí mordeu um sorriso ao notar aquela cara de falso tédio que ela sempre fazia quando precisava se proteger do incerto.

“Depende”, cheirou o ar como se fizesse pouco caso, antes de provocar num tom sussurrado, “De quê ou de quem você tá falando, exatamente?”

Marina rangeu sua frustração nos dentes, “Você entendeu muito bem o que eu quis dizer”

Clara a observou em silêncio por um momento, lembrando-se da reação da fotógrafa a sua proximidade quando estavam na sala momentos antes, então decidiu testar aquelas águas outra vez.

Foi deslizando sua mão para trás do joelho elevado dela, pela panturrilha firme, puxando devagar enquanto se movia para frente e no mesmo movimento fluido retirava a taça das mãos da fotógrafa e a colocava de lado no chão, até que se fez confortável no colo de Marina, quem continuava fitando-a por baixo dos cílios com aquela expressão entediada no rosto. Instigada pelo fato de a companheira não ter oferecido qualquer resistência até ali, Clara foi enroscando seus dedos nos cabelos dela, chegando mais perto, tão perto que podia sentir aquela respiração quente e adocicada pelo vinho pesando contra seus lábios. Ainda assim, a fotógrafa permanecia imóvel, as mãos frouxamente entrelaçadas entre elas, como se a espera de tudo, mas não ousasse demonstrar sua necessidade.

Quando os lábios se tocaram, sutis e tão breves, o arrepio ardente que essa simples carícia causou no seu corpo, no corpo dela, foi inegavelmente perceptível mesmo na pouca luz que as cercava, sentido vividamente nas palmas de suas mãos que agora deslizavam pelo pescoço enrubescido da companheira, fazendo esse sorriso envaidecido se espalhar em seu rosto quando lhe sussurrou no canto da boca, “Preciso mesmo te responder isso?”

Marina engoliu em seco, sua voz pouco firme quando falou, “Me deixa sozinha”, e demorou-se nos lábios dela uns segundos mais antes de virar-lhe o rosto.

“Marina...”

“Eu quero ficar sozinha, Clara”, ela insistiu ao baixar o olhar, a mandíbula cerrando no esforço que fazia para não voltar atrás e tê-la ali mesmo.

Clara suspirou sofregamente, um tanto contrariada por ter sido batida tão cedo. “Mas você não comeu nada desde que acordou. E nem adianta negar porque assim que eu cheguei a Vanessa já foi me passando a ficha completa”, ela deu-lhe uma leve sacudida nos ombros, mas a fotógrafa continuava se fazendo de difícil, “Vem comigo? Soninha fez aquela salada que você gosta, amor...”, outra sacudida e nada de Marina ceder, o que começou a preocupá-la de verdade, “A gente janta com o Ivan e depois... continua essa conversa no nosso quarto, hm?”, concluiu num tom leve, sugestivo, mas suas sobrancelhas franziam em frustração com a insistência da fotógrafa em não correspondê-la.

“Vai”, quando ela enfim lhe encarou, foi com aquele olhar penetrantemente frio que, se Clara não soubesse melhor, podia jurar que a enxergava muito além do que o naturalmente possível, “Fica um tempo com seu filho. Ele quem tá precisando de você agora, não eu”, e com essa Marina voltou a bebericar o seu vinho como se nenhuma preocupação nesse mundo a afetasse.

É, nesse jogo de cartas marcadas, Marina Meirelles não era assim tão fácil de bater.

Com um suspiro resignado, Clara fez o que lhe foi pedido.

Não era muito, afinal.

Mesmo que lhe custasse admitir, e a despeito de todas as dificuldades que enfrentaram até ali, deixá-la sozinha era a mais branda das penas que podia suportar.

Teria que esperar.

Por Marina, esperaria todo o tempo do mundo se fosse preciso.

Sem se dar conta dos minutos passados enquanto se perdia no labirinto de seus pensamentos, deparou-se com Sônia na cozinha falando pelos cotovelos ao telefone.

“Hmhum, dona Marina já acordou, sim. Ela tá, err... tá bem! As duas estão. Claro. Pode deixar que eu aviso, seu Diogo”, a moça fez uma pausa para lhe jogar uma piscadela brincalhona, aí sorriu toda faceira, “O senhor vai ficar no hotel? Ah! Negócios, sei... Mas vem cá, e não volta pra se despedir da gente, não, é? Olha que a sua filha vai ficar muito chateada se o senhor não vier, viu? Hm... Tá que eu acredito! Até amanhã, então. Boa noite pro senhor também”, ela colocou o aparelho de lado e já foi lhe dando um brilho receoso, “E aí? Conversaram?”

“Ela quer ficar sozinha”, murmurou com um encolher melancólico de ombros.

“Ô, dona Clara... Não fica assim, não”, a moça foi chegando mais perto e, meio sem jeito, lhe deu umas tapinhas no braço ao tentar confortá-la, “Logo, logo essa raiva dela passa. A senhora vai ver”, ela concluiu com aquele sorriso jovial que lhe era peculiar.

Clara só meneou a cabeça e tentou retribuir a simpatia da moça, “Eu... vou chamar o Ivan pra jantar e... Ah, fala com um dos rapazes pra te levar em casa, tá? Já passou da sua hora e não é bom andar... sozinha por essas ruas desertas”, ela gesticulou vagamente e então foi saindo, cabisbaixa.

Atrás dela, Sônia suspirou consigo mesma, “É por essas e outras que... Ah, deixa pra lá”, e nessa tomou o rumo da saída.

DUAS SEMANAS DEPOIS

Clara observava enquanto fazia maquinações das mais endiabradas em sua cabeça.

Eram quase onze da manhã e ela estava ali, de frente para uma Marina largada no sofá do alpendre, o nariz pendendo dentro do meio copo de whisky que aninhava entre as mãos enquanto a boca murmurava incoerências para a brisa fria dos meados de outono.

Remexeu uns segundos mais sem sair do lugar e então fez seu movimento, coagindo o copo das mãos inertes da mulher enquanto plantava-lhe uma tapinha não tão leve no rosto, fazendo-a sobressaltar fora do seu cochilo embebedado.

“Aaah, nããão! Me devolve isso aqui!”, protestou num tom arrastado demais para aquela hora do dia, enquanto tentava em vão alcançar o objeto do seu desejo que agora Clara escondia por trás das costas.

“Não”, retrucou num tom firme e apontou-lhe um dedo, “Agora é você quem vai me ouvir, Marina Meirelles”, e assim que depositou o copo na mesa detrás de si, ela já foi despejando tudo na cara da fotógrafa, “Eu não tenho como te provar o contrário de todas essas besteiras que você tá pensando aí nessa sua cabeça dura, nem como fazer você acreditar na minha palavra e... também nem acho que ela esteja valendo muita coisa depois de tudo”, fez uma pausa para reaver o fôlego, reorganizando os pensamentos no entremeio, “Mas, se você fosse só mais um pouquinho compreensiva, se tivesse mesmo respeito por mim, por nós, você ia perceber que tá sendo muito injusta!”, no fim suas mãos tinham ido parar nos quadris, um evidente sinal de contrariedade que Marina mal distinguiu considerando o estado em que estava.

Ela só lhe deu aquele olhar entediado ao resmungar baixo, “Diz que você não me acordou na melhor parte do sonho pra isso”

Clara revirou os olhos, a face da frustração quando sibilou entre os dentes, “Marina, por favor... Estou tentando fazer as coisas funcionarem aqui, porque desse jeito não dá pra ficar!”, exalou pesadamente ao esfregar uma mão na testa, “Não acha que gente merece uma conversa decente, hein? Fala pra mim”, suas sobrancelhas franziram sob sua palma quando murmurou aflita, “Outra chance, Marina. É só o que te peço...”

Mas o cérebro da fotógrafa, no momento afogado em álcool e na autocomiseração que tanto abominava, não parecia muito disposto a negociar uma trégua.

“Hmm. Compreensão e respeito, você disse?”, ela se demorou nas palavras meio emboladas, “Foi só o que tive esse tempo todo... Ops! Menos de você, que pena, né?”, seu riso bêbado não durou mais que um instante, porque no outro seu semblante escureceu na ironia, “Mas vamos lá de novo, a pergunta de um milhão de dólares: por que a Clarinha anda se encontrando com o ex-marido às escondidas?”, aí fez aquele show de gesticular com as mãos na frente dela, “Ah, é! Não seria segredo se contasse pra alguém, hm? Tão óbvio...”, e nessa ela alcançou a garrafa que tinha jogado no canto do sofá, retirou a tampa do gargalo, então lhe abriu aquele sorriso torto, “Tá servida?”, murmurou antes de sugar um gole longo dali mesmo.

“Já acabou?”

“Hum?”, pigarreou um pouco no travo da bebida, “Ah, não... Esse aqui... é dos bons. Você devia, hum, tentar um pouco...”, concluiu com um fungado engraçado.

Apesar de si mesma, teve que se segurar para não rir da cara que a fotógrafa fazia. “Pela milionésima vez, Marina. Não. Teve. Encontro. Nenhum. Caramba!”, enfatizou ao jogar as mãos no ar em crescente consternação, “Foi ele que ligou pra mim depois da reunião com os expositores. Eu estava no carro, a caminho de casa, e a gente meio que discutiu porque o Ivan tinha faltado na aula. Aí ele praticamente exigiu que eu o recebesse na Galeria no outro dia. Mas, lógico, como eu preferi muitíssimas vezes mais ir pra Angra com você a ter que ficar ouvindo as reclamações dele, ele veio aqui inventar aquelas mentiras todas! Entendeu agora?”, ela finalizou com um suspiro exacerbado.

“Que você é a única contando mentiras aqui? Ah, sim. Entendi perfeitamente!”, Marina apontou-lhe um dedo atravessado, “Você só... mente, mente e mente o tempo inteiro. Devia se envergonhar disso, sabia?”, e lá se foi outro gole exagerado.

“Mas o que...”, começou a protestar, mas aí um pensamento lhe ocorreu, “Você tá me punindo, não é? Tudo bem, eu já entendi o recado. Só que agora já deu, tá? Chega!”, ela então foi se abaixando para os joelhos entre as pernas da companheira, seu tom de voz mais dócil quando lhe pediu, “Amor, me escuta... Eu só não te falei porque sabia que isso ia te aborrecer. Você estava tão feliz com o Ivan e o seu pai aqui, com a viagem e tudo... Poxa, o que queria que eu fizesse, me diz?”

Por um momento, Marina a encarou daquele jeito elusivo dela, até que piscou os olhos devagar e lhe falou tão baixo que seus lábios quase não se moveram, “Parar de esconder coisas de mim já seria ótimo pra começar”

“Não estou escondendo nada de você...”, suspirou irrequieta porque sabia do seu esforço consciente para não tocar no assunto ‘dia do acidente’, tema que ainda era bastante delicado para Marina, “Eu já disse, só quis evitar que se preocupasse...”

“Por que eu deveria me preocupar? A não ser que exista algo pra se preocupar, eu não vou. Existe?”, sua língua arrastou-se com as palavras, no que franziu o nariz para sua própria redundância.

Nessa, Clara não conseguiu segurar o riso, mas logo teve que se recompor quando Marina direcionou aquela máscara de tédio para ela de novo.

“Claro que existe. Tudo, Marina”, tentou remendar seu deslize, “E outra, sua exposição tá aí às portas, você sabe. A abertura já é daqui a quinze dias e a sua querida Diana fez o favor de sumir do mapa sem me delegar autoridade pras coisas que precisam ser adiantadas. Nem a Raquel, que é a mão direita, esquerda, ouvidos, o corpo dela todo naquela Galeria, sabe pra onde ela foi, pode? A mulher não manda notícia, nem um e-mail, sinal de fumaça, nada!”, aí mordeu o lábio numa pausa pensativa, “Você sabe onde ela tá, não sabe? Ela te ligou?”

Marina arqueou as sobrancelhas na sua pergunta, como se surpreendida por um pensamento, seus dedos traquinos encontrando no gargalo da garrafa uma desculpa para não tamborilarem por aí ociosos demais.

“Hum... não”

Clara estreitou um olhar suspeito nela por uns segundos, até que suspirou sôfrega, “Ai, por que você tem que ser assim tão... impossível, hein?”, e nessa, suas mãos foram subindo, deslizando sorrateiras por baixo do linho amarrotado da camisa dela, mas a fotógrafa só continuava a encará-la como se vagamente interessada no que elas estavam aprontando ali, “Poxa, não faz assim... Senti tanto sua falta, amor. Vem comigo lá pra cima agora, vem?”, tentou persuadi-la com um beijo, do qual Marina se esquivou sutilmente.

“Foi só onde você sentiu minha falta? Na cama?”, ela sussurrou contra seus lábios.

“Quer saber? Eu desisto, você venceu”, recostou sua testa por um instante no ombro dela, reconfortada por pelo menos não ter sido empurrada de lá, então voltou a encará-la com um ar resignado, “A gente vai fazer assim, a partir de agora eu vou te contar absolutamente tudo, cada coisinha mais desimportante, tediosa e trivial do meu dia. Tá bom pra você?”

Ela fungou um pouco, a face da indiferença quando retrucou, “Tanto faz”

Clara balançou a cabeça, nem um pouco convencida dessa frieza toda que a fotógrafa estava bancando. “Sabia que eu acho uma fofura quando faz essa cara de quem tá nem aí, mas por dentro tá se descabelando de ciúmes?”, e pontuou suas palavras com uma carícia mais que provocante nos seios nus da companheira.

“Ha, ha. Sério que você acha isso?”, ironizou enquanto tentava retirar as mãos de Clara do seu peito, mas aparentemente lhe faltava a coordenação motora necessária, “Que gentil da sua parte, muito obrigada por notar!”, enfim resmungou, optando por voltar a degustar sua bebida já que não ia conseguir fazê-la sair de cima mesmo.

“Ah, pára com essa birra boba, amor... Vamos ficar de bem de novo? Por favor?”, ela foi se aproximando com o intuito de roubar-lhe um beijo, mas a fotógrafa parecia entretida demais com outros pensamentos, “E deixa isso– larga essa droga de garrafa, que saco!”, e arrebatou a garrafa da mão da mulher, fazendo-a cuspir todo o whisky que tinha na boca em cima de ambas, “Meu Deus do céu! Como pode ser tão teimosa desse jeito? Você sabe que não pode beber com essa medicação que tá tomando, Marina!”, repreendeu a companheira enquanto tentava limpar a bagunça que ela tinha feito.

A fotógrafa silvou. “Nossa, como tá chaaata demaaais!”, resmungou enquanto espantava a mão que Clara esgueirava no seu peito com a desculpa de secá-la da bebida, “Você anda muito mandona, sabia? E por falar em mandona, onde tá a Vanessinha quando eu preciso dela, hein?”, ela virou a cabeça na direção da casa para chamar mais alto que o necessário, “Ô, Soninha! Vem aqui, mulher!”

“Já saiu faz tempo”, replicou e nessa Marina estreitou um olhar suspeito nela, o que a fez sorrir satisfeita, “Estava devendo uma folga mais que merecida pra ela, ao contrário de certas pessoas que não estão fazendo por merecer”, ironizou ao picar-lhe no lado com um dedo atrevido.

Mas a fotógrafa se fez de desentendida. “Ai, não. Jura que ela já foi? Mas que Soninha mais malandra! Me promete uma massagem e depois sai assim de fininho sem avisar, aquela safa...”, ela suspirou exageradamente e se espalhou ainda mais no sofá, toda desgostosa com a vida.

Clara piscou contrariada. “Como é que é? Que estória é essa da Soninha te fazendo massagem?”

“Hum?”, ela nem se dignou a olhá-la.

“Marina...”, seu olhar tinha aquele brilho censurador quando a fotógrafa começou a se levantar.

“Que foi?”, resmungou ao se esquivar dela e seguiu tropeando pelas almofadas jogadas por ali.

A mulher estava nua, exceto pelo linho solto e quase transparente da peça de mangas longas que usava e que mal fazia para lhe cobrir as curvas tentadoras.

“Marina, volta aqui!”, sibilou ao agarrá-la pelo pulso e puxá-la de volta, fazendo-a trombar contra seu corpo, “Os rapazes estão fazendo a ronda. Pirou de vez, é?”, tentou repreendê-la num tom firme, mas essa proximidade toda não ajudava muito sua moral.

Para piorar sua situação, quase tonteou na mistura de álcool e luxúria que a mulher exalava agora tão perto. “Vai você, então. Liga pra Vanessinha e diz pra ela que eu estou precisando muito de uma companhia mais... animadinha por aqui”, ela foi chegando mais perto até que as bocas estavam ao toque, suas pálpebras pesando na embriaguez das palavras que sussurrava contra seus lábios, “Ela conhece uma stripper que conhece uma stripper e, hum, daquelas sabe?”, riu faceira numa pausa demorada, “Nossa, eu ainda lembro da... música! Era mesmo muito... boa, hm... boa de se ouvir, bem agradável mesmo”, a fotógrafa finalizou com aquele sorriso torto espalhado no rosto.

Clara precisou de uns segundos a mais para recuperar sua compostura, mas por fim estreitou-lhe um olhar ao incitá-la, “Ah, então você quer uma stripper?”

“É, uma que saiba fazer massagem”, uma pausa, “Tailandesa, por favor”, ela acrescentou espertamente.

“Não seja por isso...”, num único e rápido movimento ela tinha Marina a sua mercê, jogada de volta no sofá com um de seus pés posicionados no estreito espaço entre as pernas dela, “Fecha os olhos pra mim?”

Só para não perder o hábito, Marina quis protestar, “Err, não acho que vá fazer muita diferença, não...”

“Se não obedecer já sabe”, falou num tom sério e, quando a mulher arqueou uma sobrancelha mordaz, mas por fim aquiesceu ao fechar os olhos vagarosamente, Clara girou um pouco o corpo para alcançar o copo que tinha colocado na mesa, em seguida sugou um pouco do líquido travoso que manteve na boca enquanto escorregava a ponta do pé sugestivamente pela coxa nua da fotógrafa, então trouxe seu rosto mais perto do dela ao se abaixar naquele mesmo joelho, tão perto, até que engoliu a bebida num beijo molhado que fez a fotógrafa estremecer em antecipação, “Aproveita teu uísque, porque é a única companhia que vai ter pra te esquentar”, sussurrou-lhe contra os lábios e um segundo depois Marina sentia a mordida fria do líquido derramado no topo da sua cabeça escorrer pelos lados do seu rosto, “Ah, e o ‘sofá’ é todo seu, tá, amor?”, disse-lhe com um sorriso que era só dentes antes de virar as costas e sair pisando duro.

Marina ficou ali sentada em silêncio por um longo momento, até que um ganido baixo ecoou detrás do sofá oposto ao seu.

Ela deslizou um dedo pela bochecha e levou até a boca. Esse whisky era realmente muito bom.

Outro ganido, dessa vez mais alto.

“Você ri, né?”, resmungou e o cachorro latiu em resposta, “Acha que peguei pesado com ela?”, ouviu dois latidos e suspirou sofregamente.

Resignada, abriu os braços em convite e um instante depois aquela montanha de pelos e baba que era seu pastor alemão de estimação pulava em seu colo todo dengoso. “Você é um péssimo conselheiro, Brutus. Mas eu te amo mesmo assim”

É, Marina Meirelles não era assim tão imbatível, afinal.

***

Tarde da noite, naquele mesmo dia, a fotógrafa se pegou levantando do sofá da sala, atraída pelo som de uma melodia conhecida que parecia vir de algum lugar no segundo piso da casa.

Meio grogue e mais que um tanto intrigada, resolveu investigar.

Foi tateando seus passos devagar pela escada, pela plataforma até a porta do quarto, testou a maçaneta, encontrou-a destravada.

Mais alguns passos e estava de frente para a fonte do canto da sereia.

A caixinha de música, a que havia dado de presente a Clara muitos meses atrás, estava aberta sobre o gaveteiro ao lado da cabeceira da cama.

Enfeitiçada pelas lembranças que aquela melodia melancólica lhe evocava, não se deu conta de que estava sendo observada até que a mulher, já sob os lençóis, chamou seu nome em questão.

Marina pigarreou, mais que um pouco sem graça. “Só vim pegar um cobertor”, murmurou e já foi circulando a cama sob o olhar de esguelha da companheira que voltou para o seu travesseiro sem nada mais dizer.

Clara ouviu um remexer na gaveta por ali, depois o arrastar sonolento dos passos descalços dela pelo piso de madeira, o ruído da maçaneta girando, o estalido baixo da porta sendo fechada duas vezes seguidas, até que de novo aquela passada arrastada voltou a circular a cama.

“Ah, quer saber do que mais? Esse é o meu quarto, minha cama, e vou dormir bem aqui”, e não fez cerimônia ao se deixar cair do seu lado do colchão, enfiando-se debaixo dos lençóis enquanto resmungava, “Você se quiser que procure outro lugar, já que a minha presença te incomoda tanto assim”, nessa, ela virou-lhe as costas e, depois de resmungar por uns segundos mais consigo mesma, finalmente aquietou-se por ali.

Marina estranhou a mulher não ter protestado uma vírgula sequer, mas achou tanto melhor assim. Estava com sono, cansada e sua cabeça doía demais para outra rodada de whisky a essa hora da noite.

Foi então que, minutos, talvez horas mais tarde, ela sentiu um cutucão nas costelas. Era o cotovelo de Clara.

“Hm?”

“Seu braço”, veio o murmurinho sonolento.

Também nem estava tão acordada, talvez só um pouco. “Que tem meu braço?”

“Em cima de mim, tira...”

“Ah...”, suspirou ao rolar para o seu lado frio da cama, o que não lhe impediu de cair no sono logo em seguida.

Passaram-se uns minutos, não muitos...

“Marina”, ouviu-a sibilar seu nome na meia luz.

Quê?”, fungou irritada no pescoço da mulher.

Deus, por que ela não a deixava descansar? Só queria dormir, nada mais que isso. Só dormir.

“Tá fazendo calor e você tá muito perto. Não consigo dormir assim, afasta um pouco aí”

Pensou ter ouvido um tremor na voz dela, mas podia ser só impressão também.

“Mas você nunca reclamou do calor antes”, resmungou sem se afastar um centímetro.

E dessa vez ela lhe deu um cutucão mais forte. “Vai pro seu canto e fica quieta”

Marina grunhiu sua frustração e virou de uma vez, puxando os lençóis com ela em retaliação.

Um momento depois...

“Ainda tá encostando em mim”

Hunf!”, e foi para o mais longe que podia sem cair da cama.

Enquanto isso, do seu lado da cama, Clara afundava o rosto no travesseiro tentando abafar a gargalhada que ameaçava borbulhar de sua garganta.

Alguns instantes mais se passaram, até que...

“Clara?”

“Hum?”

“Tá dormindo?”

“Estou”

“Mentirosa”

Rolou nas suas costas e jogou as mãos no ar em exasperação. “Ai, fala logo o que você quer de uma vez e me deixa dormir!”

Marina pareceu hesitar um pouco, seus olhos machucados voltados para o teto, então suspirou pesadamente com as palavras, “Só queria saber se...”, uma pausa, virou o rosto para que pudesse olhá-la, enxergá-la o mínimo que fosse quando lhe disse baixinho, “Se você quer continuar sem final feliz comigo”

Um sorriso pequeno tocou os lábios de Clara. “Posso te responder quando meu cérebro estiver funcionando? Porque eu acho que não entendi direito”

Como se pudesse distinguir sua expressão confusa, ela lhe sorriu de volta ao replicar no mesmo tom, “Prefiro assim mesmo, sem funcionar, sem ser direito”

Sentiu aquele familiar formigar nos olhos nessas palavras da esposa, e só então seus ouvidos perceberam a melodia ainda flutuando pelo quarto.

Marina não havia tirado a corda da caixinha, só baixado o volume.

Clara foi se aproximando até que estavam respirando o mesmo ar. “Não vai me dar alternativas?”, seu sussurro buscava os lábios dela, enquanto a ponta do seu dedo deslizava pelo nariz da fotógrafa numa carícia que já lhe era instintiva.

Marina mordeu o canto do lábio, encurtando o mínimo espaço entre seus corpos quando lhe segredou de volta, “Sim. Claro. Pra sempre. Todas as anteriores estão corretas”

Sorriu na denguice da fotógrafa. “Hm, deixa eu pensar...”, fez uma cara contemplativa e, não um instante depois, seus lábios trilhavam pela mandíbula dela até que sorriram-lhe palavras no ouvido, “Que tal se...”, e seu sussurro se perdeu no gemido obscenamente longo que deixou os lábios da companheira.

“E depois eu é que sou a pervertida”, rosnou baixo na curva do pescoço dela, sugando um beijo possessivo da pele aquecida ali antes de reverter suas posições num piscar de olhos.

“Só quando bebe demais”, ela riu baixo enquanto os lábios e dentes da mulher atacavam-lhe o pescoço sem piedade, “Coisa que você não deveria estar fazendo, sua teimosa”, mas a fotógrafa não estava interessada em lições de moral naquele momento, montada em seus quadris como estava, ela simplesmente se livrou da peça noturna que usava e começou aquele ritmo conhecido do qual havia privado a companheira por duas longas e excruciantes semanas, “Mas nem pense, hmm... que vai escapar da bronca, não... porque eu já preparei uma lista com todas que você aprontou esses dias...”, com um suspiro trêmulo, deixou que Marina guiasse suas mãos até a cintura dela e, uma vez ali, seus dedos fincaram-se na carne macia e ardente da esposa, “... pra entregar a Tereza na próxima visita dela...”

Da cadência do seu movimento, Marina riu cinicamente, “Se conseguir sair desse quarto sem andar daquele jeito engraçado, fique a vontade pra me dedurar

“Mas que vadia descarada!”, deu um tapa estalado nela que lhe arrancou um gemido involuntário, no que Marina agarrou seus pulsos e os prendeu cada um de um lado da cabeça da sua cabeça, contra o travesseiro.

“E já adianto que eu também serei obrigada a revelar tudo a minha querida médica, incluindo isso que você acabou de sussurrar no meu ouvido...”, e nessa ela aumentou a pressão dos seus movimentos, fazendo a mulher grunhir e se contorcer embaixo dela enquanto lhe beijava as palavras nos lábios entreabertos, “Ah, e pra Aninha também, claro. Tenho certeza que ela, hm... vai adorar saber”

“Você não presta”, rosnou ao tentar capturar o lábio dela entre os dentes, mas a fotógrafa se esquivava bem até demais quando queria, “E eu te amo assim, sem tirar nem pôr uma grama”, brincou na alusão ao peso leve e gostoso dela que ondulava sempre tão agilmente rumo ao paroxismo.

“Mesmo?”, arfou contra seus lábios.

Clara sorriu. “Mesmo”

“Mas e se eu quiser mudar?”

Nessa, sentiu tanto o ritmo dos quadris quanto o aperto dela em seus pulsos diminuírem, aí aproveitou o momento para deslizar suas mãos livres e levá-las até o rosto da companheira para acaricia-la ali.

“Como assim?”, perguntou cautelosa, tentando encará-la nos olhos, mas Marina manteve o olhar baixo.

“Eu... quero voltar a ser como era antes”, demorou-se numa pausa e, enquanto Clara esperava pacientemente que ela continuasse, ela tentava forçar a pouca melhora que sentiu nesse tempo para tentar distinguir a expressão da esposa na luz rarefeita, mas por fim suspirou sua frustração e lhe confessou numa voz pequena, “Quero te ver de novo”

Clara franziu as sobrancelhas em breve confusão, “Me ver? Tá dizendo que...”

“Eu vou fazer o transplante”, ela suspirou as palavras em seus lábios antes de tomá-los nos seus com um fervor que, Clara suspeitava, foi tanto para calar as muitas perguntas na sua língua que agora ela sugava viciosamente, quanto para calar-lhe o próprio medo nessa sensação inebriante que o beijo lhe causava.

E assim também o ar frio da noite foi calado no gemer das peles e das bocas quentes que perdurou pelo quarto até o amanhecer.

***

Curvou-se um pouco para sussurrar no ouvido dela, “Sentiu saudades?”

Sorriu de canto, abrindo os olhos devagar. “Vem aqui que eu te mostro”, e de repente Clara se viu com as costas no tapete, rodeada pela maciez das almofadas e presa dos dentes de uma fera faminta.

Quando enfim sua boca conseguiu se esquivar da dela, riu mais que um pouco sem ar, “Você não tá muito assanhadinha, não? Pra quem estava meditando um minuto atrás?”

“Culpa sua. Quem manda ser tão...”, arfou antes de mordiscar a palavra na orelha dela, “... apetitosa...”

“Hm, me deixa ir beliscar alguma coisa na cozinha, vai”, ela gemeu as palavras, aí lhe ocorreu que estavam protagonizando uma cena bastante inapropriada ali na beira da piscina e tentou distrair Marina, “Estou morta de fome, meu Deus... Sério, sabe o que a minha querida irmã fez? Me obrigou a correr quase, sei lá, uma meia maratona na areia e eu não tive tempo de comer nada a tarde toda, amor...”, quando a fotógrafa só lhe arqueou uma sobrancelha sugestivamente antes de voltar a atacar seu pescoço com ímpeto renovado, Clara se viu obrigada a usar a força, empurrando-a firme nos ombros até que a mulher lhe encarou visivelmente contrariada, “Não faz essa cara...”, beijou-lhe suavemente, “Eu volto daqui a pouco, tá? Só uma salada, prometo. Aí coloco um biquíni e você me mostra essa energia toda na piscina, senhorita yoga”, concluiu com um sorriso faceiro, beijando-lhe a pontinha do nariz dessa vez antes de deslizar fora dos seus braços, deixando uma fera frustrada e ainda mais faminta sentada lá no mesmo lugar que a encontrou, a única diferença era a carranca nada zen que agora resmungava no rosto dela.

***

Seus olhos piscaram vagarosos e um sorriso lânguido tocou seus lábios quando sentiu um peso leve montando na sua perna.

Tinha até cochilado e o sol já havia praticamente ido embora, mas ainda dava tempo de gastar essa energia toda na piscina.

Ah, sim. Clara ia pagar por tê-la feito esperar tanto...

Maman?”

Marina piscou, agora totalmente alerta. Essa não era a voz que esperava ouvir.

Levantou um pouco a cabeça, estreitou o olhar naquele vulto de cabelos loiros esvoaçantes a sua frente, e teve que piscar de novo.

Até que sorriu, ainda que um tanto deslocada. “Mas quem é essa menininha tão linda?”, perguntou para a brisa ao se erguer um pouco nos cotovelos, as sobrancelhas franzindo em confusão quando a menina continuou atada a sua perna e a olhando com uma expressão séria demais para uma criança tão... pequena.

“Fala oi pra sua maman, bebê”, ouviu aquele sotaque inconfundível vindo de trás dela e olhou por cima do ombro, sobressaltada.

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Deu de cara com Diana, que lhe sorriu muito convencida. Não era todo dia que conseguia pegar Marina Meirelles tão desprevenida da vida assim.

Ainda abobada, a fotógrafa virou para o pequeno borrão loiro que aparentemente tinha criado raízes na sua perna.

“Oi, maman”, a menina sorriu-lhe minimamente.

Nessa, Marina pigarreou de nervoso e então tentou uma aproximação mais cautelosa, “Não quer vir me dar um abraço aqui em cima, não?”, para o que a menina lhe deu um olhar suspeito, mas aí foi rastejando pelo corpo dela até que seus bracinhos a envolveram pelo pescoço num aperto até forte, “Ai, que abraço mais gostoso, meu Deus!”, admirou-se com a menina que agora acalentava em seus braços, girando no tapete para encarar a francesa, mas aí sentiu uma presença peculiar atrás dela, “E esse gatinho fofo, é seu?”, perguntou no que a forma peluda roçava-se insistentemente nas suas costas, “Qual é o nome dele?”, ela incentivou a pequena a se sentar na sua perna.

“Leo é uma menina, igual a você”, a criança murmurou enquanto afagava a cabeça da felina branca.

“Ah, é?”, Marina trocou um olhar vago com Diana antes de voltar sua atenção para menina, “Leo. Que bonito esse nome. Foi você quem deu?”

“Hum, por causa do papa”, a menina afirmou e fungou um pouco, aí de repente se levantou e foi para o canto do tapete, onde se sentou com sua gata que aparentemente havia sido atraída por alguma coisa que viu ali.

Não entendendo exatamente o que se passava, Marina estreitou o olhar no rosto de Diana, que então foi deslizando mais perto até que estava lado a lado com a fotógrafa.

“Sabia que ela ama essa gata mais que qualquer coisa nesse mundo?”, a francesa riu um pouco antes de emendar, “Ah, tirando o piano, claro...”

“Ela tem seus olhos, dá pra notar”, disse vagamente, seu olhar agora fixo na pequena figura borrada a poucos metros dali.

Nessa, Diana lhe deu um brilho curioso. “Leonel acha que são da minha mãe”

“Ele veio com vocês?”, Marina indagou sem a encarar.

Ouviu a francesa suspirar antes de lhe confirmar num tom elusivo, “Hmhum, mas ficou em São Paulo pra fechar uma parceria. Vai pegar o voo da madrugada pra cá, acho”

“Então vocês estão... juntos?”

“Sim”, nessa a fotógrafa a encarou fixamente, ao que a loira sorriu de canto e acrescentou, “E não”

“Entendi”, foi sua única resposta.

“Ciúmes?”

“Nenhum”

Mas Diana percebia coisas em Marina que só ela, e talvez Clara, conseguia compreender. E por isso ela deslizou mais perto, o suficiente para que pudesse sussurrar no ouvido da fotógrafa, “Sentiu minha falta?”

Quando abriu a boca para respondê-la, ouviu a voz aveludada da francesa flutuando no ar, mas dessa vez para longe dela.

“Ah, Clara, mon chéri...”, cumprimentou a outra mulher num tom descontraído, “Como tem passado esses dias?”

“Ótima...”, Marina ouviu os passos da companheira se aproximando até que ela parou na sua frente, curvou-se para lhe selar um beijo suave nos lábios, e então retornou o cumprimento da francesa numa voz um tanto incerta, “E você? Como foi de viagem?”

“Não poderia ter sido melhor”, Diana sorriu-lhe sugestivamente, o que fez sua inquietação aumentar ainda mais, até que se viu surpreendida por um par de braços abraçando o lado da sua perna esquerda, “Ah, ma petite ange...”, Clara ouviu a francesa chamar a criança num tom estranhamente maternal, mas custava a acreditar nos seus ouvidos quando a mulher virou para Marina, “Ora, se não é uma raridade essa sua esposa, Marina...”, aí novamente para ela, “É uma demonstração de confiança, quer dizer que ela gosta de você. Sinta-se privilegiada, mon chéri

Clara olhou para a menina, que olhava para ela com aqueles olhos redondos e azuis, então de volta para Diana, “Ela, hum... Ela é...”, tropeçou na própria língua, ainda sem saber o que fazer do pequeno tamanho de gente agarrada na sua perna.

“Minha filha, sim”, a francesa anunciou, visivelmente tentando controlar o riso na voz.

Clara piscou maravilhada. “Nossa...”, foi a única coisa que conseguiu articular naquele momento.

Je m’apelle Cécile”, a menina repetiu, puxando o debrum da sua blusa para lhe chamar a atenção.

“Em português. Como a mama te ensinou, oui?”, Diana instruiu a menina com um sorriso sereno que Clara nunca tinha visto ela esboçar antes.

A menina lhe deu um sorriso pequeno, um tanto estranho. “Me chamo Cécile. Hum, e você?”, acenou para que ela se abaixasse.

E assim o fez, agachando-se para que pudesse encarar a menina nos olhos. “Clara...”, disse-lhe cautelosa, retribuindo o sorriso quase na mesma estranheza que a menina.

“Clara”, Cécile repetiu como se testasse o nome para decidir que era bom, aí enroscou seus dedos pequeninos nos cabelos da mulher e se aproximou para cochichar em seu ouvido, “Eu gosto do seu cabelo. É macio e cheira a lavanda, igual ao do papa

Riu meio sem graça, não sabendo bem como processar aquela informação, mas tentou passar a mesma espontaneidade quando assentiu, “Ah, obrigada... O seu cabelo também é muito bonito, assim todo cacheadinho”, sorriu na cara encabulada que a menina fez antes de sair correndo pelo alpendre e se sentar ao lado de um gato branco e felpudo, que só então Clara notou camuflado no meio das almofadas.

Fez-se silêncio por um longo momento, até que...

“Eu... não sabia que você tinha uma... filha”, Clara soprou ao lançar um brilho espantado para a francesa, sentando-se do outro lado da fotógrafa que até então acompanhava a troca toda sem dizer uma palavra, “Como é que você não me fala uma coisa dessas?”, ela sibilou ao dar uma cutucada de cotovelo no lado da companheira, que se dignou apenas a lhe retribuir com aquele sorrisinho culpado de sempre.

Agora entendia o porquê daquele mistério todo que a mulher fazia sempre que lhe perguntava sobre essas viagens secretas da francesa. Sim, porque não era a primeira vez que loira sumia desse jeito. Mas, pelas suas contas, essa foi a mais longa desaparição de Diana até então.

A francesa aparentemente também havia captado o tom do seu cicio para a fotógrafa, já que um instante depois ela lhe dirigiu a palavra naquele sentido, “Na verdade, eu pedi a Marina que mantivesse isso em segredo até agora devido a certas... questões que envolvem o passado da minha família. Mas enfim, isso não vem ao caso”

“Hmhum. Caramba, vocês são muito parecidas...”, Clara murmurou distraidamente, seu olhar agora fixo na menina que, ela notava, falava e gesticulava para o gato como se conversasse com uma pessoa, só que de uma maneira muito séria para uma criança da idade que Cécile aparentava ter, “Quantos anos ela tem?”

“Fez quatro no último domingo”, a loira respondeu ao lhe dar um olhar incerto, aí retornou sua atenção para a filha.

Quando Clara lhe devolveu o brilho duvidoso e Diana, absorta, não pareceu perceber, Marina tomou a oportunidade para lhe explicar, “Cécile é uma aspie*. É um espectro mais leve do autismo, como se costuma dizer”

Nessa, Clara voltou a fixar seus olhos na menina, agora entendendo um pouco melhor o comportamento dela.

De repente, a menina apontou para o gato e se levantou, logo em seguida veio saltitando nos pés até que parou do lado da mãe para sussurrar-lhe alguma coisa no ouvido.

O que quer que a menina tenha lhe dito fez Diana sorrir de uma maneira tão radiante que os olhos de Clara arregalaram-se quase comicamente; sua confusão com essa nova faceta da mulher que estava presenciando só não era maior que a sua inquietação com o ar distante de Marina.

“Então?”, a voz da francesa a trouxe de volta de seus pensamentos, “Vai ser servido jantar nessa casa hoje ou vamos ter que pedir pizza? Porque eu já estou me convidando e a Céci também, não é, meu bebê?”

Cécile meneou a cabeça nas palavras da mãe e estendeu uma mãozinha para ela, que Diana tomou na sua ao se levantar.

Em silêncio, Clara assistiu enquanto a francesa acalentava a filha nos braços e fazia seus passos tranquilamente até a entrada da mansão.

Só quando a mulher cruzou o limiar da porta e ela se viu a sós com a companheira sob o ocaso daquele domingo, Clara lançou-lhe um brilho definitivamente enciumado que Marina não teria distinguido se não fosse pela nota de ironia na voz quando ela falou, “Você ainda tem muito o que me explicar, senhorita yoga”

Notas finais
* Vagamente inspirado no caso da Iris Grace. Ah, para o caso de alguém ter ficado curiosx sobre o tema musical que toca na caixinha: https://www.youtube.com/watch?v=FnzHOsiaJns