Perchance

24 Sinestesia I


Notas iniciais
Nota 1: Oooi! =D Nota 2: Hiatos acontecem. A vida também. Aí tudo pode (des)acontecer em espirais. Outra coisa, sou péssima com prazos. Não me julguem. Ah, e antes que eu esqueça, Feliz 2015! ahahahah' Ok. Acho que vão odiar essa prévia, acho que será - parafraseando alguns de vocês - cansativo pelo conteúdo (e pelo tamanho, talvez?), e acho também que não vão mais querer a parte final, então já vou me despedindo por aqui com os infiéis. U_U Brincadeira, amo todxs vocês, infiéis ou não. Sim, nesse ponto sou Team Marina desde criancinha. Nota 3: "If you just walked away, what could I really say? Would it matter anyway? Would it change how you feel?"

Por baixo do tecido amarrotado que pouco cobria da nudez quente e macia estendida sobre a sua, as pontas de seus dedos traçavam padrões preguiçosos na pele bronzeada das costas de Clara, os lábios sussurrando doces nadas nos cabelos da mulher que tinha a cabeça aninhada em seu peito, enquanto seus pensamentos, ermos e saciados, vagavam no durar das carícias que suas palavras e mãos ainda trêmulas faziam no corpo dela.

Não pela primeira vez desde que havia sido acordada daquela forma tão carnalmente deliciosa por ela, Marina desejou ter o poder de parar o tempo só para segurá-la em seus braços assim, para sempre...

E levou esse sempre de minutos para que um sorriso lhe tocasse os lábios, os movimentos de suas mãos pausando brevemente quando uma cena lampejou na névoa densa que agora lhe encobria a visão.

Era ela, com aquele sorriso cativante e olhos que brilhavam tal como os luminares no firmamento, ofuscando tudo e todos ao redor, esse anjo que caiu de uma manhã de sol na sua madrugada escura.

Se tivesse sido ontem, não ia parecer como se cem anos atrás...

No exato momento em que a viu cruzar aquele salão de mãos dadas com alguém não tão importante agora, Marina havia pressentido que essa solidez que a presença de Clara emanava um dia iria preencher cada um dos seus despedaçados vazios. Bem assim, como o imprevisto da tinta fresca que respinga numa tela em branco, ela foi o profundo vibrante das cores para suas superfícies acinzentadas. E para todos esses assuntos mundanos que nunca fez questão de mensurar, ela foi essa pitada de mística que se tornou uma constante.

E desde então ela se fazia insubstituível, ocupando todos os espaços, assim despretensiosa e inspirante, a libra de alegria que faltava para equilibrar seu espírito melancólico...

Mas era fato, Clara estava mudando.

Sim, que ela ficava mais linda a cada dia que passava, era inegável. Mas essa transformação interior vinha sendo especialmente notada e apreciada por Marina.

Antes de se casarem, Clara era de um peso quase sempre confuso, escorregando por entre seus dedos com uma urgência tão morosa que deixava tudo ainda mais amargo. Nos seus primeiros meses juntas e depois com a relação já oficializada, ela foi um brilho só, transitando entre a calmaria da rotina de casal tão conhecida e a euforia de estar vivendo-a pela primeira vez ao lado de uma mulher. Recentemente, mesmo com todas as adversidades que vinham enfrentando, Clara foi uma presença devota e ao mesmo tempo insondável, de um pesar suave como uma pluma a flutuar entre as nuvens, tenuemente firme como se presa por um fio invisível ao chão. Ainda que essa gravidade no semblante dela, uma que Marina recordava bem e que às vezes doía só de tocar, não fosse algo que percebera na companheira nos seus primeiros meses de casamento, pelo menos não antes do que aconteceu entre ela e Cadu, e da subsequente vinda de Diana para o Rio de Janeiro. Mas, apesar e por causa de todas aquelas noites e manhãs de paixão desesperada que se seguiram a esses golpes do acaso, Marina também se lembrava com clareza de uma intensidade diferente no olhar dela, dessa agressividade temperada nos gestos e na voz quando faziam amor, uma espécie de anseio que Marina fingia não entender naquela época, mas que sempre teve o poder de entorpecer seus sentidos ou de incendiá-los num estalar de dedos...

Momentos que sempre traziam nos seus rastros uma revelação.

Tal como quando ela lhe deu essa tela no seu último aniversário, presente esse que passou a decorar a parede de fundo desse quarto, para onde seu olhar encapuzado agora mirava; ou pelo menos tentava, já que forçar a mínima melhora que havia experimentado nessas últimas semanas não surtia tanto efeito no fim.

Ainda assim, mesmo que não pudesse distinguir as nuances tão bem como antes, Marina se deixou perder por alguns momentos mais no silêncio daquelas pinceladas surrealistas enquanto segurava Clara junto ao seu peito, seus olhos e mãos procurando pelos ângulos e curvas que conhecia de cor, o traçado tão íntimo na tela e no corpo dela que era o deleite e o acalmo dos seus dias, o antes e o depois daquele entardecer de domingo em que a escuridão veio encontrá-la...

Outro golpe do acaso, esse quase letal.

É, lembrava-se daquele dia com uma espécie de obscuridade assustadora agora.

Podia ouvir o soar das buzinas e sirenes, os gritos apavorados, conseguia distinguir o branco nauseante das sombras claustrofóbicas ameaçando engoli-la de uma vez, o metálico do sangue e o salgado das lágrimas que se misturavam em sua boca...

Por um instante ou quase isso de tortura, a voz de Vanessa se sobressaiu ao caos de algum lugar muito próximo e nunca perto o suficiente. O chamado desesperado dela foi a única companhia familiar que teve.

Depois se seguiram um e outro momento de dolorosa consciência, o trepidar dos aparelhos e o frio dentro da ambulância, uma cacofonia confusa de vozes e comandos que se misturava àquela luz cegante e ao branco nas paredes.

Então vieram as dores de verdade.

E só muito depois delas as horas roubadas da total inconsciência, passadas na agonia de não saber exatamente o que estava acontecendo, que lugar era aquele, qual dia era qual, de quem eram aquelas vozes, por que não podia enxergar...

Nunca em sua vida havia experimentado uma solidão tal como naqueles dias. E embora que nos seus raros momentos de lucidez se sentisse cercada de presenças conhecidas, ainda assim a sensação era a de que estava tão completamente só, transitando entre uma dor ausente e o nada sufocante, que podia ouvir até mesmo o ranger de seus próprios órgãos trabalhando.

Ou eram as máquinas trabalhando por eles?

Lembrava-se também do antes, do beijo que Diana havia lhe dado à beira da piscina, das ligações perdidas de Cadu, tudo que culminou na discussão com Clara, a mesma que a fez sair de casa daquela forma completamente desnorteada, nauseada com o mundo e pelo efeito dos comprimidos que havia engolido às pressas no banheiro, ferida pelo que acreditava ser mais um abandono sofrido, atormentada pelo que parecia ser o caminho sem volta para o fim do seu casamento.

Seu cérebro brincava com ela, misturando sensações, da melodia triste tocando à voz de Cadu falando e falando no seu ouvido enquanto dirigia pela rodovia, do embrulhar no seu estômago até aquela queimação em seus olhos, das suas roupas encharcadas do que parecia ser uma combinação de gasolina, sangue e alguma coisa fina e áspera, desse fel na boca e de um único pensamento em sua cabeça...

Só queria que um buraco se abrisse ali mesmo e lhe tragasse de vez da existência terrena, daquele amontoado de ferro contorcido, estilhaços de vidro e pedaços do seu coração.

O quanto teria lhe custado simplesmente sumir naquele perfeito segundo?

Alguém se importaria?

Se apenas desaparecesse...

Se apenas milímetros a separassem da passagem final...

Mas então, por um milésimo de segundo que durou uma vida inteira, a dor, o medo, a dúvida, o tempo, tudo parou.

Os contornos de um rosto foram se delineando tão íntimos, um sorriso emergindo das sombras que perfuravam seus olhos, tão radiante nos lábios que lhe sussurravam palavras que seus ouvidos ensurdecidos não conseguiam compreender, mas que sabiam ser de carinho, de cuidado...

Alguém se importava.

No final, alguém sempre se importava.

Outro estalo. Seu olhar se estreitou na pouca luz do quarto quando as linhas de um desenho puxaram-na de volta para o presente.

Clara havia lhe dito que ele estaria sempre lá, esse farol aceso em imponência solitária, brilhando no horizonte distante e anoitecido para guiar aquela pequena nau perdida na imensidão do mar.

De volta para o porto seguro.

De volta para ela.

E Marina sempre voltava.

Embora não a mesma, porque nunca foi de repetir uma versão de si.

E novamente porque, assim como Clara, Marina também estava mudando.

Era bem verdade que nem todas essas mudanças foram planejadas ou almejadas, mas como sempre o destino, essa força indomável e misteriosa que se divertia abrindo precipícios sob nossos pés, nunca agia por outra vontade que não a sua própria; se os caminhos que o relacionamento delas havia trilhado até ali não fossem o maior reflexo disso, dessa metamorfose irretornável que ambas vinham experimentando, os novos e imprevisíveis desvios que estavam por tomar certamente seriam.

A ironia maior era que foi justamente uma crise no casamento, a primeira e quase fatalmente última, desencadeada por emoções e razões que até então Marina não havia considerado dignas de nota, que a fez perceber a real profundidade do sentimento que tinha por Clara, o que de mais humanamente puro a unia a essa mulher. Um afeto que se desdobrava em infinitos outros, tão viscerais e tão idealizados, e do qual não poderia haver expressão mais sincera que essa cumplicidade que, apesar de todos os apesares, só cresceu ao longo dos anos entre elas, tornando-se uma espécie de sexto sentido para ambas. Um laço que foi desgastado, sim, como tudo que era demasiado humano corria o risco de ser, porém que se provou inquebrável, instintivo.

E se tinha alguma coisa para continuar aprendendo com Clara era exatamente esse passo a passo arrastado da rotina, esse andar demorado rumo à derradeira aceitação das diferenças mútuas que, ambas sabiam, foram muitas e desafiadoras desde o começo da relação.

Mas de pelo menos outra coisa Marina estava certa. Onde quer que as levasse, no final dessa jornada a visão de algo sublime as aguardava.

A visão de uma história que era só delas, que se consumava em cada trivialidade, no mais singelo dos gestos e na ausência mesma das palavras, vivida e revivida nos dias em que amar era o que menos podiam e tudo o que tinham. Porquanto, e a despeito do que terceiros pudessem pensar, Marina sentia isso pulsando em cada fibra do seu ser, que era amor, sim, o que elas estavam a construir, tijolo por pequeno tijolo. Um amor que amadurecia por dentro e recrudescia por fora, ensimesmado na experiência do desconhecido e enraizado nesse terreno árido do rotineiro, pequenas afeições que se manifestavam em meio às loucuras cotidianas.

Amor, sim. Essa brisa morna e gentil que as guiava através desses descaminhos ladrilhados de saudades e melancolias, como se quisesse provar-lhes o improvado ou fazê-las andar em círculos por mero capricho. Dissabores que só realçavam a ternura nos seus olhares quando se cruzavam na distância que por vezes fazia-se necessária, e que no fim só aguçavam o agridoce do sexo nos seus paladares toda vez que se degustavam por pura e simples força do hábito.

Ah, essa parte Marina adorava... E conhecia tão intimamente quanto conseguia distinguir esses contornos bronzeados pelo cheiro, pelo tato, como costumava dizer para ela. Contornos que agora lhe falavam sem palavras para abraçá-los ainda mais perto, vales e abismos feitos de carne e osso que lhe sussurravam coisas feitas de corpo e profunda alma, de tudo que tiveram que destruir para reedificar juntas, das dificuldades que foram muito pouco para subtrair da história delas, e mais, muito mais para somar nos planos e sonhos que compartilhavam.

E daí se não funcionavam direito?

Nunca escondeu de ninguém essa sua queda monumental pelo lado errante de tudo. Aliás, estar certa nunca foi um item na sua lista de prioridades nessa vida. Ah, mas só Deus sabia o quanto havia se esforçado para tentar fazer essa tal coisa certa que todos falavam, especialmente com Clara.

Ele tanto sabia que o resultado disso foi quase a morte para Marina...

Que ele fique com os tediosos certos, se assim desejar.

Estava determinada. Se não funcionavam direito era porque não queriam e nem precisavam de um jeito assim.

Porque a verdade era que toda vez que se afastava de Clara por medo de cometer algum acinte, esse querer ficar longe era apenas um impulso momentâneo, só fazia com que todo o resto turvasse numa tempestade de tristeza sem fim.

Porque com ela sempre foi mais fácil suportar as trovoadas do mundo lá fora.

Porque ainda que essa chama escura dentro do seu peito de quando em quando lhe palpitasse um ‘talvez se’, que conspirasse com seus olhos traiçoeiros para atraí-la para longe dos contornos dela, mesmo que seu coração continuasse a ser esse caçador inveterado dos mistérios de outrem, Marina nunca se deixava levar por completo.

Nem se quisesse.

Tinha esses e muitos outros porquês para não ceder às tentações que não foram poucas. E o principal deles estava bem ali, acalentado entre seus seios, entregue em seu abraço.

Era precisamente essa a parte mais difícil de estar casada com Clara. Porque o mistério dela estava sempre presente, nu e desvendado, debaixo do seu nariz, montado nos seus quadris, tremendo por seu toque.

Inquietantemente decifrável.

Ah, esse mais difícil...

Foi sempre assim. Roupas sendo arrancadas sem pudor, farpas trocadas entre soluços de prazer, gemidos e rosnados abafados pelos lençóis suados.

Desse jeito cruelmente doce que só ela sabia fazer.

Despretensiosa, essa sua Clara. Divinamente, doloridamente humana Clara...

Enquanto existissem, as divergências eram sanadas ali mesmo, estranguladas nessa cama, no chão, na mesa, na grama... E se outra rusga surgisse no dia seguinte? Ela a matava na unha, afogada na saliva, com dentes e mãos e estocadas raivosas.

Pensando bem, era até justo desistir da sua paz de espírito de vez em quando, porque não havia sensação mais viciosamente calmante do que estar tão pele na pele com ela assim, dentro e ao redor das cavidades e dobras saborosas dela, envolta no calor desse abraço que a amava de todas as maneiras que alguém pode ser amado...

Sim, ela era todas as nuances do amor, desde a mais sombria até a mais vívida, expressas no toque sufocantemente prazeroso que apaziguava aqueles seus medos pueris, um por um. E muito embora seus olhos fossem duas lentes quebradas agora, Marina sabia que podia sempre contar com Clara para ler o mundo com ela. Que por mais que seu corpo e sua mente estivessem marcados por essas cicatrizes adormecidas e ainda cometessem um lapso aqui e outro ali, era ela a causa maior de suas memórias estarem enfim flutuando de volta para a superfície, emergindo de suas profundas e turbulentas inconsciências para ganhar mais cor e nitidez a cada momento passado ao lado dela.

E de novo e de novo Marina voltava para ela, para sua...

“Clara”

Quem aparentava não ter uma preocupação nesse mundo agora? Ali, toda espalhada em sua seminudez, deleitando-se no cheiro de puro sexo que exalava desse corpo tão macio e tão completamente nu sob o peso equilibrado do seu, o pulso vibrando na mesma batida constante desse coração que nem sempre era assim.

Ela, que demorou uns segundos a mais para registrar o som familiar da voz de Marina flutuando pelo quarto, até que sentiu o peito da mulher subir e descer no que parecia ser uma risada abafada. Um instante depois, o eco baixo do seu nome oscilava novamente sob a orelha que mantinha pressionada no seio esquerdo da fotógrafa.

Podia vislumbrar o sorriso que se demorava naquela voz arranhada de sono dela, nos lábios que agora lhe selavam um beijo suave no topo da cabeça. De olhos fechados onde permanecia, sentiu aquela carícia tão simples lhe aquecer o coração instantaneamente, imaginando aquele olhar semicerrado acompanhar o movimento das palmas que circulavam vagarosas por suas costas, fazendo artes nada sacras debaixo do linho vermelho que pouco servia para afugentar o ar frio da antemanhã da sua pele.

O toque de Marina tinha essa mistura de gentileza e energia que era como bálsamo dos deuses para os seus músculos esgotados, trazia-lhe essa paz inquietante, uma completude que só experimentava durante momentos como esses, entremeados de lassidão, ela, paroxismo, ela..

“Mmm...”, foi o que conseguiu murmurar instantes depois, ainda luxuriando-se na maciez insanamente erótica que era essa mulher.

“Seu cérebro tá funcionando já?”

Com um sorriso dengoso se espalhando no rosto, sua voz enrouquecida arrastou-se na resposta, “Acho que sim. Por quê?”

“Porqueee...”, ela delongou-se na palavra e Clara teve que morder uma risada, “... eu preciso te contar uma coisa, mas primeiro você tem que me prometer que não vai ficar brava”, ouviu-a remendar num tom exageradamente solene.

No espelho da sua mente, Clara podia ver perfeitamente aquele sorrisinho culpado se esgueirando na cara mais deslavada possível, só que a voz de Marina tinha soado tão grosada que não conseguia sentir outra coisa por ela naquele momento a não ser encantamento.

“Ah, depende”, começou naquele mesmo tom sério, mas sem se mover um milímetro do seu achego quentinho entre os seios dela, “O que mais você andou aprontando?”

Marina sentiu aquele famigerado raspar de unhas nos seus ombros e foi se atropelando com as palavras, “Eu? Hum, fora ter... quebrado seu vibrador preferido?”, não demorou muito para que uma jura nada casta fosse mordida na curva do seu seio direito, os braços dela lhe apertando as costelas com força para completar o castigo, o que só a fez ofegar uma risadinha zombeteira.

“E você me fez acreditar que tinha sido eu, sua cretina!”, Clara continuava punindo seu seio com mordiscadas, como se fosse ele o bandido da história.

A fotógrafa, como sempre, não soava um pingo de vergonha na voz, mas fez parecer que tinha na cara quando resmungou, “Ué, mas a culpa foi toda sua mesmo. Você me deixou subindo pelas paredes e ainda me obrigou a dormir naquela sala fria e solitária”

“Alto lá, mocinha!”, ela retrucou toda indignada e já foi se erguendo nos cotovelos para lhe apontar um dedo no nariz, mas sua carranca foi logo se arruinando quando notou a careta vesga que Marina fazia para um lugar que Clara suspeitava fortemente não ser o seu indicador, “Era você quem ficava me olhando e me tocando o tempo todo. Provocava, provocava só pra depois me deixar na mão!”

“Literalmente”, a fotógrafa arrematou com um sorriso furtivo ao inclinar a cabeça como se concentrada nas suas palavras, mas aquele olhar muito vidrado sob as sobrancelhas baixas denunciava sua verdadeira mira.

O que Clara fingiu não perceber enquanto continuava sua tirada, “Caramba, Marina... Duas semanas inteiras! Eu já estava quase– ei, meus olhos estão aqui em cima, safada!”, e de repente aquele dedo foi multiplicado por quatro bem plantados na face direita da fotógrafa, que piscou no estalido do tapa e finalmente voltou esse par de olhos arregalados para os seus, “E tá reclamando de quê mesmo? Só por que passou uma horinha roncando naquele sofá enorme de confortável?”, estava tentando se impor ali, mas no fim já não conseguia mais controlar o riso na voz.

E a cara de ofendida que Marina estava bancando também não ajudava muito na tarefa.

“Uma ova que eu ronco! E não foi só uma hora, não. Foram sessenta e nove minutos e oito segundos, que eu contei, tá?”, uma pausa, “Será que esse foi meu recorde?”, divagou, franzindo o nariz daquele jeito manhoso dela.

Clara riu ao acenar que sim, então levou suas mãos até os lados do rosto de Marina, as pontas dos dedos coçando atrás das orelhas dela enquanto lhe falava num tom muito convencido, “Eu lembro a primeira vez que te mandei pra lá. Não passaram quinze minutos e você já veio correndo se enfiar debaixo dos meus lençóis de novo”

Nossos lençóis, não se esqueça disso”, a fotógrafa ressaltou ao lhe dar um meio sorriso conspiratório que Clara retribuiu com um dos seus.

Mas aí notou esse vinco entre as sobrancelhas de Marina se aprofundando e decidiu não agir nas suas outras intenções por enquanto. Apenas educou a expressão e esperou que a companheira nomeasse a causa dessa repentina mudança de humor.

“Sério agora”, ela enfatizou após um momento, então pontuou uma hesitação com esse suspiro pesado, “É que eu... depois desse acidente...”, parou de novo, contrariada porque a eloquência sempre lhe fugia nessas horas, tanto que podia até sentir seu rosto se contorcendo noutra tentativa frustrada, o silêncio prolongado enfim forçando uma exalação apreensiva de Clara que serviu para incentivá-la a recomeçar, “Acho que acabei te sobrecarregando com tudo que aconteceu e...”, baixou o olhar um instante antes de voltar a encará-la com uma expressão contrita, “... só queria que soubesse que eu sinto muito pela maneira como te tratei”, seus dedos nervosos foram tateando por mechas do cabelo dela, porque havia lembrado que brincar com elas sempre ajudava a aliviar seu estresse, “Prometo que vou me esforçar mais pra amenizar essas... variações de temperamento e... É, eu posso fazer isso. Com a sua ajuda, eu sei que sim...”, não parecia tão certa quando concluiu, exalando uma risada fraca, meio deslocada, e por isso resolveu calar tudo que sentia naqueles olhos castanhos que a fitavam tão atentos, quase perto demais.

Neles, Marina sabia que sempre encontraria refúgio.

Enquanto Clara só meneou a cabeça para o eco das palavras desajeitadas da companheira e sorriu ao lhe acariciar o rosto afetuosamente, as pontas dos seus dedos agora tentando suavizar as linhas de desconforto que sulcavam a pele ao redor daqueles olhos tão machucados, tão lindos.

Procurando disfarçar a lágrima na sua voz, Clara disse após um demorado silêncio, “Você sabe que nada disso foi culpa sua, não sabe?”, e no que Marina ansiou numa respiração, balançando a cabeça como se negasse suas palavras, ela a segurou firme pelos lados da cabeça e a olhou bem nos olhos enquanto lhe falava num tom que não deixava espaço para argumento, “Marina, qualquer pessoa que passasse pelo que você tá passando correria o risco de... perder o rumo. Eu sei, não estou na sua pele, mas imagino que não deva ser nada fácil ter que se readaptar a tudo assim, e ainda conviver com essas incertezas que eu também sei que andam rondando essa sua cabecinha de borboleta”, sorriu-lhe uma pausa, seus olhos buscando algum assentimento nos dela ao que revelava, “Mas aí eu olho pra você, encarando cada dificuldade com essa lucidez, tão cheia de vida, e só consigo sentir orgulho e alívio e te amar ainda mais. Porque é preciso ter muita força aqui...”, ela ressaltou ao pousar uma de suas palmas brevemente entre os seios da fotógrafa, em seguida juntando sua mão aquela outra no rosto de Marina para lhe massagear as têmporas com os dígitos dos seus polegares, “... e aqui, pra se superar assim”, completou com um sorriso que era um misto de reverência e espanto, notando que as pálpebras semicerradas da companheira começaram a pesar no seu gesto calmante, mas então, quando uma exalação longa e trêmula fez a pele ao redor dos olhos dela se contrair num mínimo espasmo, a mandíbula enrijecendo num aperto que só podia ser doloroso, Clara balançou a cabeça com um suspiro resignado.

Marina sempre fazia essa coisa enervante, agarrando-se com todas as forças ao silêncio do que precisava ser vocalizado e nunca foi.

Os segundos foram tilintando no relógio e a fotógrafa permanecia de olhos cerrados, emudecida, a respiração espaçada e a expressão em branco, até que Clara não se aguentou mais e, já quase em lágrimas, desafogou, “O pior... Nossa, nem sei dizer o que foi pior... Se era não saber o que estava acontecendo dentro de você, na sua cabeça, ou não poder fazer nada, qualquer coisa que fosse pra aliviar seu sofrimento... Mas eu nem conseguia– eu pensei... Meu Deus, eu cheguei a pensar que ia ter perder pra sempre, Marina”, foi quando os olhos de Marina se abriram e Clara os viu brilhar com as lágrimas que só então rolaram deles, “Juro que se pudesse trocar de lugar contigo, eu faria sem hesitar”, afirmou sincera ao tocar-lhe o rosto com os polegares delicadamente, secando os rastros úmidos ali enquanto seu olhar se segurava no dela pelo que pareceu uma eternidade, o eco das suas palavras transmitindo essa verdade que somente seu coração podia contar.

Já Marina sentia sua boca tão seca que a voz lhe falhou na primeira vez, mas quando enfim conseguiu um bom reflexo do castanho naqueles olhos, seu pedido soou com uma seriedade quase tétrica, “Não fala isso nunca mais. Nem de brincadeira, Clara”

Mas Clara não parecia escutá-la naquele momento, uma outra verdade estrangulada saindo assim, num sussurro igualmente assombrado, “Eu teria feito qualquer coisa... Mas você me tratava com tanta frieza depois que deixou o hospital que eu não sabia como agir. E isso me enlouquecia de uma forma que eu não sei explicar, porque você mal falava comigo e tudo que eu queria era só... que me deixasse ficar perto de você...”, seu desabafo repentino fez Marina piscar rápidas vezes numa tentativa pouco eficaz de conter essa espiral de emoção que as tomava, os lábios se partindo sem encontrar um som para socorrê-los, visão essa que urgiu Clara a se repreender mentalmente.

Por que tinha sempre que expressar suas angústias assim? De maneira tão abrupta e impensada?

Quando abriu a boca pronta para se desculpar, Marina selou seus lábios com um beijo hesitante, quase no susto.

“Desculpa...”, soprou contra os lábios de Clara, tentando engolir esse nó amargo que crescia em sua garganta, o desapontamento consigo mesma, pelo que tinha feito a pessoa que mais amava nesse mundo passar, por suas muitas fraquezas, e foi tudo que Marina conseguiu repetir entre soluços, “Me desculpa, me desculpa...”, suas mãos então trilharam pelos ombros até o pescoço da companheira, puxando-a mais perto, para outro beijo que foi mais um abandono de si que uma carícia nela, que tinha gosto de sal e de todas as coisas que não sabia colocar em palavras, não achava que merecia dizer.

E quando enfim o ar se tornou uma necessidade, Clara se afastou o suficiente para sussurrar-lhe contra os lábios ainda trêmulos, “Shh... Não tem o que desculpar, amor. Não foi culpa sua, não foi culpa de ninguém”, dessa vez foi ela quem iniciou o contato, esse nem tanto agressivo, mas não menos urgente, o degustar de uma absolvição final que, no fundo, ambas sabiam que precisavam receber uma da outra.

Instantes, talvez infindos mais tardes, suas bocas se separaram entre suspiros e sorrisos. Marina aproveitou o durar dessa pausa boa para reajustar os travesseiros atrás dela e se fazer mais confortável por ali, enquanto Clara deitava-se do seu lado para reclinar a cabeça no seu ombro esquerdo, os braços dela retornando para os aconchegantes arcos da sua cintura e ombros num aperto mais relaxado.

Passado um momento nessa posição, ela murmurou no seu pescoço, “Acho que só foi difícil assim porque eu não estava acostumada com essa Marina”

A mulher em questão sorriu preguiçosamente, piscando para o borrão de manhã azul alaranjada que se filtrava pela claraboia. “Qual Marina?”, sua pergunta, assim como suas mãos vagando distraídas pelas costas dela, nada tinha de inocente e Clara, mais que sabia, sentia isso.

Essa. Tão sensível e ao mesmo tempo tão blasé”, sua voz era um pouco mais que um sussurrar quando completou num tom brincalhão, “É, parece que essa pancada aí que você tomou na cabeça meio que... acentuou certos traços seus que eu pouco conhecia. E talvez tenha sido por isso mesmo que eu não soube lidar com as suas fases de apatia no começo... como a Diana soube”, um silêncio profundo, embora não pesado, instalou-se no quarto depois dessa menção à francesa.

Enquanto demoravam-se nele, os dedos de Clara brincavam pela curva delicada do seio de Marina, até que por fim ela suspirou com as palavras, “Me custa admitir isso, mas... pelo menos a gente se dava uma trégua quando ela vinha pra te fazer companhia. Você ficava tão mais à vontade com ela que eu simplesmente não podia mandá-la embora, e em troca ela me deixava em paz... por uns cinco minutos”, a fotógrafa ouviu o riso baixo dela se emendando noutra pausa, mas nessa, estranhamente diferente de todas as outras que envolviam o nome ‘Diana’, Marina sentiu o que parecia ser um sorriso roçando no duro da sua mandíbula, o que foi confirmado logo em seguida nessa nota destoante de tão alegre na voz quente que lhe soprava, “Sabe que eu até sinto uma invejinha dela nessas horas? Porque é como se ela conhecesse todos os seus caminhos de cor, enquanto eu ainda engatinho por esses seus cantos impossíveis”, e nessa ela sentiu uma beliscada no seu mamilo que fez seus lábios se curvarem num sorriso rosado e muito maldoso, mas o que Marina não havia percebido, de olhos fechados para o teto como estava, era que Clara olhava para ela naquele exato momento.

“Isso é um sorriso na sua cara?”, a mulher se fez de pasma ao balançar a cabeça, mas a verdade era que a malícia mal disfarçada de Marina sempre a incitava, “Mas é uma cafajeste mesmo!”, Clara ralhou entre risos, o que lhe tirou toda a moral para reclamar qualquer coisa.

A fotógrafa ria toda mole, com aquele ar que era uma mistura de astúcia e inocência que só ela conseguia emanar, então ergueu um pouco a cabeça para sussurrar nos lábios da esposa, “E se eu te disser que esse seu ângulo é o meu preferido?

“Qual exatamente?”, Clara devolveu no mesmo tom provocante, fazendo um show de virar o rosto assim, como se posasse para as lentes dela.

Marina sorriu na própria artimanha. “Esse. Com você engatinhando nos meus cantos impossíveis”, suas mãos espertas foram empurrando nos ombros dela até que a tinha bem onde queria, laçada entre suas pernas, “Agora me chupa gostoso, vai...”, e essa lhe rendeu um tapinha nada leve na coxa direita, o que só a fez rir daquele jeito cínico que Clara adorava detestar.

“Você... é incorrigível...”, sentiu mais que ouviu o timbre rouco dela se abafando no seu sexo e Marina aproveitou a ocasião vantajosa para retribuir aquele tapa com esse puxão nos cabelos que sempre levava Clara à loucura, segurando a cabeça dela entre suas coxas por um momento mais só para apreciar a vista dali, antes de puxá-la de volta para um beijo que deixou ambas ofegantes em menos de dois tempos.

Até que o ar se tornou necessário novamente...

“E por falar na sua sócia...”, ela mordiscou-lhe as palavras nos lábios.

E Marina teve que pagar a sutileza na mesma moeda. “Que tem a minha sócia?”

Nessa, Clara suspirou e se apoiou um pouco nos cotovelos. Mais que isso, ela não fez ou disse.

Mal interpretando esse silêncio por desconforto, já foi logo emendado, “Se for o que estou pensando... Clara, eu não quero que se sinta forçada a nada. Essa nunca foi minha intenção, você sabe disso”

A mulher meneou a cabeça, hesitou numa pausa, e por fim suspirou as palavras que se tropicavam na sua garganta, “Eu só queria... Se, hum... Vocês chegaram a conversar– sei lá, sobre essa possibilidade... alguma vez?”, foi quando notou aquele sorriso torto se esgueirando nos lábios da fotógrafa e Clara teve que se segurar para não estapeá-la de novo.

Não era desconforto, afinal.

Era nervosismo.

E Marina nunca por um milhão de dólares que ia desperdiçar a oportunidade de atiçar os nervos de Clara com um tema desses...

Ménage à trois? Bien sûr que non, mademoiselle”, ela pronunciou cada sílaba vagarosa com uma lascívia que quase pingava da boca.

E Clara sentiu a ironia por trás daquele francês sem vergonha dela em lugares bem mais ao sul do seu corpo...

“Marina, não me provoca...”, porque era exatamente isso que ela estava fazendo agora, com aqueles dedos se fincando nos seus quadris e aquele lábio se mordendo no canto da boca.

Mas aos poucos aquela devassidão no semblante dela foi derretendo até dar lugar a uma leda condescendência. “Tá. Primeiro que eu não converso com a Diana sobre a nossa intimidade. Se ela imagina ou sabe de qualquer coisa nesse sentido, deve ter intuído por conta própria. E quanto àquela noite...”, suspirou baixo, “... eu já te expliquei. A gente tinha bebido, e no fim acabou virando uma sessão pra afogar as mágoas mesmo. Do tipo ‘relembrando os velhos tempos’, sabe?”, a fotógrafa riu mais que um pouco esquiva e, no que Clara estreitou um olhar suspeito nela sem achar muita graça nessa historíola toda, Marina concluiu mais gravemente, “Ela também pouco fala de você pra mim, e quando faz é basicamente sobre trabalho e não é nesse sentido ruim que a senhorita deve pensar, não”

Clara arqueou uma sobrancelha contrariada. “Eu tenho meus motivos pra pensar assim, e você sabe quais”

“Eu sei e não tiro sua razão”, aquiesceu com um suspiro exasperado, “Só quis dizer que, pra mim, ela nunca fez intriga. Nunca ouvi um comentário sequer da sua querida chefe que fosse com o intuito de me envenenar contra você”, e nessa a fotógrafa balançou as sobrancelhas sugestivamente, o que lhe rendeu um sopapo daqueles.

“Hm. Não parece a mesma Diana... pra mim”, replicou pouco irônica, rindo do bico que a esposa fazia.

Depois da manha, Marina fungou antes de palpitar naquele tom entediado, “Pois é. Sempre notei que a língua dela fica bem mais afiada quando você tá por perto, mon chéri”, ela deixou a insinuação dançar no pouco espaço entre seus rostos.

Indireta essa que causou a queda pilhérica do queixo da esposa. “Ah, sempre notou, é? E por que nunca fez nada, hein?”, Clara picou-lhe as costelas com um dedo mandão.

A fotógrafa se espremeu toda contra os travesseiros, tentando se proteger de outros dois seguidos cutucões, aí murchou as orelhas e fez uma cara de cão abandonado que não convencia nem o mais piedoso dos franciscanos quando murmurou, “Diplomacia ainda é a melhor forma de resolver as coisas, sabia?”

Clara gargalhou caçoada e de novo apontou aquele dedo atrevido na cara dela. “Seeei! Você gosta é de ver o circo pegar fogo, isso sim, sua sem vergonha!”

E essa foi a vez de Marina rir toda faceira. “Mm, só um pouquinho”, deu um estalinho rápido de lábios na ponta do dedo de Clara, então levou as mãos para os lados da cabeça dela, traçando-lhe as maçãs do rosto com as pontas dos seus polegares enquanto falava num tom nada menos sugestivo, “Então... Quando você pretende deixar a minha sócia, que também acontece de ser sua chefe, saber que você tá... aberta à possibilidade?”

Já sentia suas pálpebras pesando no toque hipnotizante dela, para o que seus lábios se derramaram num sussurro insinuante, “Ansiosa, senhorita yoga?”

Marina não deixou passar uma batida. “Curiosa. É bem diferente”

“Sabia que você não presta nem um pinguinho assim?”, ela fez aquele sinal universal com o polegar e o indicador que, um segundo depois, usava para dar uma beliscadinha no nariz da fotógrafa.

Quem fez uma careta quando Clara finalmente resolveu soltar essa sua muita necessária parte corpórea. “E de quem é a culpa mesmo, hm?”

“Toda minha”, devolveu aquele estalinho nos lábios dela e foi se levantando de cima da fotógrafa, “Agora me deixa ir tomar minha chuveirada que tá quase na hora de levar o Iva– aah!”, soltou o ar numa risada surpresa quando a mulher lhe puxou de volta repentinamente, “Marina! Pára, Marina!”, ralhou uma e outra vez com a dona do nome, quem usava dos braços e das pernas para prendê-la contra o corpo convidativamente quente e muito nu.

“Nada de ‘Marina’ pra cima de mim”, ela começou num tom sisudo demais para ser genuíno, “Também venho notando que você anda trabalhando demais. Administrando essa casa, o estúdio, cuidando de mim e do Ivan, tudo praticamente sozinha. E ainda tem seu expediente na Galeria e com a exposição chegando você mal tá tendo tempo de respirar, Clara”, agora que a fotógrafa parecia mesmo estar falando sério, teve que morder a réplica que já pendia da ponta da sua língua ao perceber essa nota de preocupação na voz da companheira, “Eu sei que as meninas estão te auxiliando no que podem, mas mesmo assim. Você entrou nessa agora de querer carregar o mundo nas costas e depois fica aí, caindo pelas tabelas de tão exausta. O que, aliás...”, Marina enfatizou com um aperto até fortinho na sua cintura, aí continuou naquele tom suspeitosamente gozador, “... me lembra que já passou da hora de contratar uma companhia fixa pra Soninha. Vou falar com ela sobre isso hoje e não vou ouvir uma objeção dessa vez. Nem sua, nem dela. Entendido?”, e pontuou a tirada com aquele olhar por baixo dos cílios que sempre fazia sérios estragos à sua compostura.

Previsivelmente, o sorriso que abriu só não foi mais largo por falta de espaço quando assentiu toda apaixonada, “Sim, senhora”

Marina retribuiu-lhe o sorriso com um safo dos seus. “Ótimo. Agora vem cá me dar um beijo”, e enquanto tinha seu pedido demoradamente atendido por uma boca muito solícita, ela sussurrava, “Eu te amo muito. Sabe disso, não sabe?”, no que Clara só meneou a cabeça com aquele ‘Mmmm...’ distraído, positivamente ocupada tentando cobrir cada centímetro de pele em seu pescoço com aqueles beijos indecentes, a fotógrafa teve que lhe dar um puxãozinho nos cabelos para que enfim tivesse a atenção dela, “E espero que também saiba que eu não te recrimino pelo que você sente. É só que... quando tem a ver com certas pessoas do seu passado, sei lá, meio que bate essa insegurança e– me deixa terminar, por favor?”, pediu ao silenciá-la com um beijo suave, um selar das coisas que tanto queria, mas ainda temia dizer assim tão de perto, “É completamente estúpido e irracional da minha parte, eu sei, mas é mais forte que eu. Por isso, mesmo que matasse por dentro, eu tinha que me afastar às vezes, entende? Porque eu me conheço, eu teria dito e feito coisas piores que só iam te ferir, mais que a distância. E eu não posso, não quero ser essa pessoa com você, Clara. Nunca com você”, encarou-a o máximo de tempo que pôde para que aquelas palavras significassem, durante instantes que foram pequenos demais até que seus olhos embotaram novamente e foi forçada a fechar suas pálpebras contra esse incômodo ardor neles.

Clara a observava em silêncio, odiando as marcas de dor que via surgir nesse rosto que tanto adorava, o ligeiro tremor nas pálpebras pálidas dela que tentou aliviar com o toque gentil dos seus lábios, primeiro no olho esquerdo, depois o direito.

Quando enfim Marina suspirou profundamente e voltou a abrir os olhos, Clara teve que engolir em seco para a vermelhidão que encontrou neles; uma que lhe falava de lágrimas sufocadas e de cicatrizes da fatalidade.

“Eu sei que você precisa da sua solidão”, disse-lhe num sussurro um momento depois, tentando controlar esse fiozinho de culpa que ainda insistia em lhe estrangular a voz, “Eu entendo isso, Marina, e jamais seria capaz de negar algo tão vital pra você. Mas eu também não consigo deixar de sentir sua falta”, sorriu numa pausa melancólica, “Tem vezes que... que chega a doer fisicamente, sabe? De tanto que eu sinto...”, sua voz já arranhava no fim, quando disfarçou seu inesperado embaraço com um beijo em cada uma das bochechas da companheira.

Os lábios de Marina sorriram numa curva rara e tímida no gesto da esposa, então deslizaram para roçar vontades no canto da boca dela, “É pra me beijar aqui...”

E Clara fez, bem onde ela pediu. Beijou-a com todo desejo, saudade e afeto. E a beijou outra vez e de novo, com toda a paixão que só conseguia invocar quando estava assim, nos braços dessa mulher.

Durante esse momento e no tão cálido depois, sentiu aquele familiar formigamento nos olhos avisando que seu coração finalmente podia pulsar livre de todo e qualquer vestígio de culpa ou mágoa. E essa realização lhe encheu de tamanha e inominável emoção, que teve que esconder-se dela e de si mesma na curva do ombro de Marina enquanto segurava-se na companheira como se sua vida dependesse disso.

E dependia, só Deus sabia como dependia.

Era assustador e ao mesmo tempo não, esse comover-se com tão pouco e tão rápido, essa avalanche de sentimentos que Marina conseguia desencadear dentro dela com a sutileza de uma pecadora.

Talvez fosse o peso dessa nova liberdade, essa leveza carregada de humanidade que só sentia nos braços dela.

Mas qualquer que fosse a causa, Clara não tinha dúvidas de que essa era a melhor sensação do universo inteiro.

“Tá, já passou. Chega desse dengo...”, a fotógrafa brincou ao lhe dar uns tapinhas nas costas.

Um riso meio choroso e muitos segundos a contragosto depois, Clara foi deixando a morada quentinha que era o abraço dela, “Banho, banho!”, ela salpicou-lhe um beijo sorridente na ponta do nariz antes de saltar da cama numa azáfama que falava volumes.

Marina riu da pressa da mulher, reclinando um pouco as costas na cabeceira da cama para que pudesse apreciar melhor o rebolado de Clara pelo quarto.

“Não sei o que seria de mim sem você”

Ao som dessas palavras quase sussurradas, seus passos pararam no limiar para o banheiro. Clara virou-se devagar, então apoiou um ombro no estrado da porta enquanto cruzava os braços numa maneira lassa, o sorriso que se desenhava em seu rosto igualmente despretensioso e não menos provocante que o cair do tecido enxovalhado sobre suas curvas bem torneadas.

“Ah, mas eu sei. Você continuaria sendo a mesma cabecinha de borboleta de sempre, desfilando essa sua beleza criminosa por aí só pra matar todo mundo de inveja”, essa arrancou uma risadinha sacana de Marina, para a qual Clara concedeu indulto ao balançar a cabeça humorada, “Ainda seria a fotógrafa mais talentosa e mais absurdamente sexy de todos os continentes, e, é claro, essa entusiasta arrasadora de corações. Porém...”, ela ressaltou ao soprar um beijinho no ar para Marina, esse sim cheio de pretensão no que demorou-se no giro do passo e foi para sua entrada triunfada no banheiro, “... não ia ter esse corpinho aqui a sua disposição”

“Bandida”, ela resmungou com o olhar estreito no borrão da porta que se fechava ao som da risada maléfica de Clara.

Os minutos foram passando enquanto Marina, em toda sua preguiça nua como estava, fez nada além de sentar ali, ouvidos atentos ao barulhinho de água que vinha do banheiro, as mãos cruzadas atrás do pescoço e os pés a se distrair com os debruns dos lençóis alvos enroscados em suas pernas.

Um momento depois que ouviu mais que viu a porta se abrindo novamente, o arrastar de passos pelo chão seguido de um silêncio com cheiro de lavanda fresca, Marina sorriu consigo mesma.

“Você tá fazendo aquilo de novo”

“Fazendo o quê?”, uma voz rouca soou de algum lugar não muito longe da cama.

O sorriso de Marina se espalhou ainda mais safo. “Me olhando desse jeito”

“E que jeito é esse?”

“Cheio de defeitos...”, ela piscou numa pausa lânguida, virando a cabeça na direção da voz da esposa, “... de companheirismo, amor e todas as coisas que só você sabe o nome”, foi ouvindo aqueles passos até que se tornaram essa presença sólida pela borda da cama, esse sorriso deliciado que se aproximava da sua boca, então o sussurro de um beijo no canto dos seus lábios que falavam suspirosos, “Nunca se esqueça disso, que você significa o mundo pra mim”, nessas palavras Clara se afastou um pouco, como se surpreendida pelo que acabara de ouvir, e Marina completou com um sorriso daqueles raros, “E obrigada de novo, por não desistir de nós”

Clara lhe devolveu o sorriso, então sua expressão ficou mais solene quando prometeu, “Nunca”, ela lhe beijou os lábios uma última vez antes de sussurrar neles, “Vou me trocar, tá? Se comporta, mocinha”, e saiu na ponta dos pés em busca das roupas para substituir o roupão que jogava em cima da cama um instante depois.

“Com essa vista?”, murmurou para si mesma no que voltou a relaxar contra os travesseiros, o olhar encapuzado seguindo uma silhueta desnuda e molhada a passear pelo quarto, “Muito difícil...”, foi quando assim, do nada, essa lembrança antiga lampejou diante dos seus olhos e as palavras foram deixando sua boca com uma vagueza quase lúcida, “Não devia ter escolhido uma tão bonita...”

Clara, que agora estava mexendo numa gaveta ali perto, perguntou fingindo distração, “Disse alguma coisa, amor?”

“Hã?”

“Fala como se estivesse arrependida de ‘ter escolhido uma tão bonita’, hm?”, a mulher lhe lançou um brilho conspiratório que Marina pouco distinguiu.

Foram nessas palavras que a fotógrafa piscou como se voltasse daquele lugar distante. “Ah, não... É que eu lembrei de uma vez que encontrei com o Cadu no shopping. Acredita que ele me pediu uma ‘mãozinha’ pra escolher seu presente de aniversário? Bem no dia que eu–”, sua rememoração foi interrompida pelo ruído de uma maçaneta sendo puxada.

Não demorou e a coroa de uma cabecinha loira seguida por um murmurinho sonolento se revelou pela fresta, “Maman? Já acordou?”

Enquanto isso, Clara ficou tentando se encontrar entre o porquê de não ter trancado essa bendita porta, a fascinação com o que Marina havia quase acabado de lhe contar e o sobressalto que a aparição repentina de Cécile lhe causou.

“Hum, quase. Só um instantinho...”, a fotógrafa abafou uma risada enquanto repuxava os lençóis sobre os seios e gesticulava para que a outra mulher vestisse logo esse roupão, “Pronto, pode entrar”, disse toda sorridente quando enfim Clara se refez da afobação.

Vestida num pijaminha azul celeste seriamente amarrotado, Cécile bambeou nos pés para dentro do quarto, mas do meio do caminho não passou, seus olhos azuis fixando-se numa Clara ainda um tanto boquiaberta por ali. E foi só então fazendo sua presença visível que Ivan seguiu atravessando o piso de madeira a passos cautelosos, já que carregava uma bandeja que parecia bastante recheada de café da manhã. Um momento depois e notavelmente quieto, o menino se sentava pela beirada da cama depois de ter repousado a bandeja no colo de Marina.

Cécile, que agora tinha sua bochecha grudada no exterior da coxa direita de Clara, os bracinhos muito bem atracados na perna da mulher, foi balbuciando entre bocejos, “Pra você e pra Clarinha”

E foi nessa que as sobrancelhas de Clara fizeram um arco tão cômico que quase atingiram a linha capilar. Outra reação além daquele olhar emudecido para Marina, seu cérebro ainda não conseguia engatar naquele momento.

Já a fotógrafa não demonstrou qualquer sinal de surpresa, ou talvez só estivesse mesmo mais interessada em atacar aquele pudim que estava chamando pelo seu sempre generoso apetite pós-sexo, “Parece caprichado, hein? Deixa só provar um pouco e...”, ela experimentou do doce uma e outra vez, então suspirou toda satisfeita ao cumprimentar os dotes da cozinheira, “Mmm, nossa... Muito bom. Soninha se superou nesse”

“Hum. Foi a mama que me ajudou a preparar”, a menina lhe informou enquanto se deixava ser graciosamente arrastada na direção da cama pela perna de Clara, que finalmente parecia ter recuperado suas capacidades motoras.

Dessa vez quem deixou transparecer alguma confusão foi Marina, “Uh...”, mas logo em seguida ela começou a soprar beijinhos entre uma garfada e outra da iguaria cremosa, “Um merci pra você então, vou ficar devendo o da sua mama pra daqui a pouco”, aí deu um empurrãozinho de ombro em Ivan, “Ah, e não pode faltar o desse garotão charmoso aqui”, a fotógrafa jogou uma piscadela para o menino, que soltou uma risadinha encabulada e olhou para sua outra mãe que no momento tentava se empoleirar na borda da cama com uma Cécile ainda muito atada a sua perna.

“Ó, mas essas aqui fui eu que colhi”, Ivan apontou um canto da bandeja, agora todo sorrisos e entusiasmo, “As vermelhas são pra você e essas brancas são pra mãe”

A cena se passava sob o olhar encantado de Clara, que acariciava os cachinhos amassados de Cécile com uma das mãos enquanto a outra alcançava o buquê que Ivan havia destinado a ela, quando Marina deu estalinho na bochecha dele antes de fazer o mesmo com suas flores, “São lindas, filho. Obrigada”, ela levou as pequeninas pétalas até o rosto para cheirá-las novamente e sorriu sua gratidão para o menino, mas então sua testa franziu em vaga apreensão, “O que Diana veio fazer aqui tão cedo? Ela te falou se aconteceu alguma coisa?”

Ivan fungou um pouco, surrupiando uma das uvas ainda sem dono no que explicou num tom despreocupado, “Ah, não. Ela dormiu aqui com a Cécile”

Nessa, Marina olhou para Clara, que olhou para algum ponto indistinto entre as flores próximas ao rosto e o colchão, como se alheia ao que havia sido dito ali.

“Dormiu, é?”, sua pergunta retórica foi mais dirigida a Clara do que a Ivan, embora o menino, como era de se esperar, não parecesse ciente disso.

“Hmhum. Ainda deve tá tomando chá na cozinha”, ele ilustrou entre mastigações relaxadas, até que fez uma cara conspiratória ao se inclinar num cochicho, “Já repararam como a Soninha olha pra Diana de um jeito engraçado? Parece que tá sempre com medo dela, né?”, em sua inocência, Ivan ria que os ombros chacoalhavam, enquanto Clara pigarreou audivelmente ao se levantar da cama com uma Cécile capenga de sono nos braços e Marina coçava o nariz repetidas vezes por falta de coisa apropriada para dizer.

Por outro lado, ainda que ingênuo para certas coisas, Ivan não deixava de notar quando suas mães se comunicavam assim, com olhares enfáticos como esses que Clara lançava para Marina agora, o que fez seus olhos curiosos se estreitarem em suspeita primeiro nela, depois na fotógrafa, quem só meneou a cabeça para ele com aquele sorrisinho fácil demais.

O impasse não durou mais que alguns segundos, até que se dissipou completamente quando Ivan deu de ombros e voltou a mascar suas uvas sem maiores preocupações.

Respirando um pouco mais aliviada, Clara depositou o pinguinho de gente numa poltrona encostada na parede em frente à cama e, com cuidado para não acordá-la, fez seus passos silenciosos de volta para o banheiro.

Sim, era muita informação para tão pouca hora do dia e precisava de um espaço para processar tudo isso.

Uns dez minutos mais tarde, ao retornar para o quarto depois de muito martelar sua cabeça com pensamentos vagamente frutíferos, viu que Cécile continuava cochilando na mesma posição em que a deixara, enquanto Marina e Ivan estavam bastante engajados no café da manhã, conversando meio sussurrado e rindo baixinho.

Colocando as mãos nos quadris, Clara fingiu contrariedade no que falou num tom severo demais para lhe darem crédito, “Você ainda tá aqui? Cai fora do meu quarto agora, seu moleque metido!”, mas então sua fachada de durona foi desmoronando quando a fotógrafa agarrou-se com o filho e fez aquela cara ‘Eu te protejo’ de supermãe dela, “Ah, dois contra um, é?”, não intimidada pelas proporções, a mulher fogueteou pelo quarto e dentro de segundos havia tirado a bandeja da cama, pulado em cima deles, e iniciado um impiedoso ataque de cócegas enquanto travesseiros já voavam para todo lado, “E você também, sua preguiçosa. Levanta já dessa cama! Xô, xô!”, repreendeu entre risos ao encher as costelas da fotógrafa de cutucões, só que Marina, que nunca fazia a mocinha da história tão bem como nessas horas, lá permaneceu, mordendo-se de rir e se espremendo toda entre eles, seu único cuidado era manter sua nudez sob os lençóis enquanto a guerra das guerras era travada bem acima da cabeça dela.

“Eu me rendo! Eu me rendo...”, o garoto arquejou entre risadinhas minutos depois, “Pô, mãe. A gente estava levando um papo sério aqui e você vem atrapalhar!”

“É, seríssimo...”, a fotógrafa arfou do seu lugar derrotado, toda esparramada no colchão.

Clara fez cara de brava. “Ah, é? E que papo tão sério é esse? Posso saber?”

Marina foi se erguendo nos cotovelos com exagerada dificuldade, a face da intriga quando palpitou, “Parece que um certo ‘monstrinho loiro’ anda deixando nosso pequeno gentleman aqui um pouco... confuso”, ela acenou com o queixo na direção da poltrona, onde Cécile continuava imperturbada em seu sono.

“Monstrinho loiro? Tá falando da Cécile?”, quis confirmar porque a discrição pediu, mas seu tom foi nada menos que chistoso na cara desgostosa que o filho fazia.

“Ééé!”, Ivan jogou as mãos no ar e continuou cochichando todo exasperado, “Por que ela não me deixa em paz? Ontem ficou o tempo todo no meu pé, querendo que eu a carregasse pra lá e pra cá. E quando eu falava que não, ela fingia que não escutava! Agora de manhã do mesmo jeito!”, aí cruzou os braços com um ar pouco apaziguado, “Bem que ela podia ser mais parecida com a mãe, viu? A Diana é sempre legal comigo, me dá até presente de vez em quando”, sim, ela dava mesmo, e esse era um dos motivos pelos quais Ivan nunca queixava a presença praticamente diária da francesa na mansão, o outro era sua quedinha quase secreta pela loira. Quase, porque só havia contado a Marina desse seu pequeno deslize, claro.

Depois de trocar outro daqueles olhares com a esposa, a fotógrafa sentou um pouco e virou para o garoto. “Deixa eu te falar uma coisa, filho”, ela começou nesse tom paciente e maternal que, para a eterna mistificação de Clara, sempre operava o milagre de fazer Ivan suspirar em aquiescência, “Céci não é uma criança como as outras da idade dela. Ela é... diferente. Incrivelmente esperta pra umas coisas, só que muito distraída pra outras também. Por isso às vezes vai parecer que ela tá ignorando a gente de propósito, mas não é verdade. É só o jeito dela”, Marina concluiu com um sorriso que o garoto retribuiu, ainda que um pouco malcontente.

Fazendo uma cara pensativa, Ivan mordeu o canto do lábio antes de questioná-la, “Hum. Diana me disse que ela é uma aspie. O que é isso?”

“Quer dizer que, hum, como eu posso explicar... Que ela raciocina um tantinho mais rápido que a maioria de nós. E sempre concentra numa coisa de cada vez. Daí o motivo de ela ser assim, caladinha, introspectiva, porque fica lá, viajando no mundo da imaginação. Confuso mesmo, né?”, a fotógrafa tocou com o indicador no meio da testa do menino, que riu baixo daquele jeito meio encabulado dele.

“Caraaa...”, quase mordeu a língua quando Clara lhe deu aquele brilho severo, “... ca!”, ele emendou um segundo depois, fazendo as mães rirem.

Para o que Marina bagunçou o cabelo dele e completou, “É isso aí”

“Mas como é que ela raciocina mais rápido?”, o menino perguntou um instante depois, agora parecendo genuinamente interessado.

“Por exemplo. Eu sei que a Céci é ótima com números, ela revolve problemas de matemática rápido assim, ó!”, Marina estalou os dedos de súbito na frente dele e Ivan arregalou os olhos, sua surpresa arrancando uma gaitada de Clara, “Ela também adora desenhar e quando o assunto é música essa pequerrucha domina como ninguém. Inclusive, eu já vi um vídeo dela num piano. Céci toca divinamente bem”, ela concluiu ao lançar um olhar afetuoso para o pequeno borrão azul e dourado todo encolhido na sua poltrona.

“Mesmo com dedos tão pequenininhos?”

“Hmhum”

Ivan meneou a cabeça em espanto. “Nossa... Nossa! A gente vai se atrasar!”, ele saltou da cama de repente e bateu com as mãos animadamente no colchão, “Anda, mãe! Termina de se vestir logo!”

“Ah, agora você lembra que eu existo, né, sabichão?”, Clara resmungou do seu lado da cama, mas Ivan não comprou a cara de abandono dela e foi passeando numa pressa até a poltrona.

Com certo esforço e muito cuidadoso, ele foi levantando a menina em seus braços magricelos, “Vem, Céci. Eu te levo, vem”, e quando enfim ela se aninhou no seu ombro, murmurando sonolências que Ivan não conseguia compreender, o garoto seguiu para a porta com aquele sorrisinho traquino no canto da boca, “E bom dia pra vocês também, dorminhocas”, ele enfatizou antes de deixar o quarto carregando um muito adormecido ‘monstrinho loiro’ no colo.

Com a saída das crianças, o silêncio voltou a reinar no quarto.

Mas então...

“Clara?”

“Oi?”, ela foi se levantando da cama.

Marina sorriu que era só dentes. “Você quer me explicar?”

“Hum?”, já estava com uma perna dentro do seu jeans preto.

Clara

“Ah, ééé!”, ela fez essa delonga com a voz que muito se assemelhava a que Ivan fazia quando aprontava uma, “Eu, hum, ofereci a Diana pra passar a noite aqui. É que eu vi a Cécile lá, a bichinha caiu no sono toda encolhidinha do seu lado junto com o Ivan, aí me deu uma dó de ter que acordar...”, fez uma pausa para respirar, aí a outra perna foi também, “Aliás, vocês fizeram uma bagunça do cão ontem naquele alpendre e ainda deixaram tudo ao léu como sempre, né, espertinha?”, deu uma olhada de esguelha só para confirmar essa cara de brisa que sabia que Marina estava fazendo.

Um momento depois...

“Erm... desculpa?”, ela sorriu de canto e Clara revirou os olhos em exasperação.

“Caramba, acabei esquecendo que o Ivan tinha essa apresentação hoje”, a mulher resmungava enquanto literalmente escavava todas as gavetas que encontrava pelo caminho.

Marina só ria, tentando acompanhar as rezingas e o gesticular apressado da esposa que perambulava pelo quarto. “Cuidado aí, mulher”, depois de um longo silêncio, o tilintar das chaves dela foi sua única resposta, o que fez com que insistisse num tom mais firme, “Clara, pode deixar. Eu vou com ele”

Foi quando a silhueta já vestida da esposa foi se fazendo mais nítida no que ela se aproximou para lhe sapecar um beijinho rápido demais para o seu gosto.

“Não acho que seja uma boa ideia, Marina. O auditório vai tá lotado assim de gente e–”, seu raciocínio foi engolido pela boca esfomeada que devorava a sua, obliterado pelas mãos apertando sua nuca num gesto que falava de impaciência e possessão.

Um minuto mais disso e estaria realmente atrasada.

Só que aí Marina resolveu ter compaixão dela. “E você, senhorita workaholic...”, ela sussurrou-lhe um sorriso nos seus lábios partidos, “... precisa descansar ou vai acabar tendo uma síncope”

“Mas amor–”, agora foi interrompida por uma mordida no queixo, essa com direito àquele puxãozinho nos cabelos que fazia Clara bamba dos joelhos. Ainda bem que já estava meio sentada no colo dela, porque não era só o risco de embaraçar-se nos pés que corria.

Assim, depois de lhe incentivar fora das pernas dela com um tapa muito sem vergonha, Marina fez sua subida gloriosamente nua dos lençóis, os pés descalços tocando o chão com uma leveza assombrosa no que ela trilhava seus passos até o limiar do banheiro, sempre sob esse olhar feito zonzo da esposa.

“Marina, espera...”

A fotógrafa girou na passada para encará-la e num estalo Clara lembrou que ela não havia lhe contado o desenlace daquele tal encontro com seu ex-marido.

“Você disse que ajudou o Cadu a escolher um presente pra mim. Quando foi isso?”

“Quando foi o quê?”, ela franziu as sobrancelhas ao sorrir, a face esculpida da confusão.

“Antes da Cécile chamar na porta, você estava me contando...”, sua voz foi mirrando até que sumiu, "Deixa pra lá, não é nada", sim, era um tudo, ainda que Marina provavelmente nem lembrasse mais.

Ela, quem agora preenchia a reticência de Clara ao lhe assegurar num tom paciente, “Amor, não se preocupa. Eu sei me virar”, então soprou um beijo no ar para a esposa e girou no calcanhar, logo em seguida desaparecendo pela porta do banheiro que dessa vez não fez questão de fechar.

Clara suspirou sofregamente ao murmurar para o aroma inconfundível que Marina deixou no quarto. “Disso eu não tenho a menor dúvida”

Não muitos segundos depois disso, quando ela levantava da cama...

“Ah, amor. Eu já ia esquecendo de perguntar”, uma pausa, aí o rosto sorridente de Marina apareceu pelo vão da porta, “Gostou da lingerie que eu escolhi pra você?”

Mal aquela voz zombeteira flutuou por seus ouvidos e Clara já tinha um sorriso de orelha a orelha estampado no rosto, seus passos apressados a guiando de volta para a dona daquele timbre arranhado.

Ah, esses cinco minutinhos de atraso iam valer muito a pena.

***

Acabou que precisaram de mais que cinco minutos para resolver o tal assunto no banheiro. Já eram pouco mais das sete horas da manhã quando, depois de se vestirem como mandava o decoro, elas desceram as escadas trazendo em seus rostos os últimos vestígios de um café da manhã muito bem aproveitado nas formas de sorrisos saciados.

Sendo quem portava a bandeja, Clara foi atravessando a sala em direção à cozinha e, na passada em que ia, poupou uma olhada àquela outra silhueta familiar demais parada ali num canto, perto da estante de livros.

Diana, tão compenetrada como estava em sua conversa ao telefone, devolveu-lhe o brilho vago no que Marina passou por ela e seguiu direto para o borrão azulado que era Cécile, agora muito desperta e procedendo em sua tarefa preferida de montar nas costas de Ivan enquanto o menino equilibrava-se no braço do sofá.

Marina selou os lábios nos tufos loiros da menina, rindo da cara conformada que Ivan fazia e da gata Leo que se espreguiçava toda bem debaixo do bumbum de Cécile, então virou a cabeça na direção da francesa para perguntar, “Era o Leonel?”, ela tinha ouvido uma quieta menção de Diana ao advogado, mas quis confirmar mesmo assim.

“Ele acabou perdendo o voo”, a mulher assentiu com um suspiro baixo.

“Mas chega ainda hoje?”

Diana foi se aproximando até que parou a um passo dela, seu olhar insone fitando a mão de Marina que acariciava os cabelos de sua filha antes de retornar para o rosto bem disposto da fotógrafa. Pelo visto, essa madrugada tinha sido daquelas.

“Provavelmente não”, seu timbre grave e aveludado tinha aquele viço costumeiro, mais ainda porque Diana vinha se esforçando para soar o menos cansada possível na frente de Marina.

“Hm...”, essa curva sutil, tão imperceptível para qualquer um exceto a quem era devido entender, sorriu no canto dos lábios da fotógrafa no que ela arriscou um pedido, “Eu posso levar a Céci comigo? É que o Ivan tem uma apresentação hoje e aí a gente podia...”, sua animação foi um tanto atenuada quando a francesa sinalizou com uma mão para que ela esperasse.

“Apresentação?”, demorou-se na questão enquanto seus olhos azuis alternavam entre os de Ivan e os de Marina.

Ao que o garoto palpitou todo sorridente, “É, com a fanfarra da escola. Vai ser irado!”

E Marina acrescentou cautelosa, “Tito vai com a gente, é completamente seguro”

A força do hábito impedia Diana de acreditar que fosse assim. Porém, no exato momento em que o som de passos tornou audível o retorno de Clara à sala e ficou evidente que ela tinha pegado o final da conversa pelo olhar de soslaio que lançou para a francesa, e esse sorriso que era um misto de paraíso e perdição tocou os lábios de Marina... Pronto, o laço estava armado.

Entre essas duas, não lhe restava muita alternativa a não ser conceder sua benção.

“Tudo bem”, seu olhar passou por Clara, que sorria sutilmente na cena, Ivan, que sorriu encabulado para ela, Cécile, que continuava toda saltitante nas costas dele, então Marina, com quem trocou um brilho que falava da íntima e antiga confiança que partilhavam, “Só toma cuidado com esse sol, ela não está acostumada”

***

Faltavam quinze minutos para o meio dia daquela segunda-feira e o edifício estava praticamente vazio quando Clara, tendo cruzado com uma Vanessa pouco esbaforida pelo corredor instantes antes e sido informada pela ruiva de que sua presença ainda era requisitada, redirecionou seus passos rumo à sala mais ampla daquele andar da Galeria.

Sua mão estava indo para a maçaneta da porta, uma que raramente era de se encontrar ligeiramente aberta assim, no que ouviu uma voz feminina que conhecia bem falando de algum lugar do outro lado da madeira espessa e seu movimento refreou-se instintivamente.

Tudo em ordem na escola”, uma pausa, “E eu que pensava que a fotógrafa tinha sido a primeira a saber sobre o seu pai...

Clara estava mais do que ciente de que não era nada decoroso ouvir conversas atrás de portas, mas naquela sonora menção a uma escola seguida da veladamente ressentida alusão à profissão da sua esposa, vindo de quem vinha e para quem foi destinada, sua curiosidade acabou vencendo seu senso de ética e naquele momento seus pés a fincaram ali.

***

De olhos fechados para o teto como estava, costas reclinadas no braço lateral do seu luxuoso divã e pernas relaxadamente estendidas sobre as coxas da sua secretária, Diana inspirava e expelia o ar refrigerado da sua sala como se nada urgisse dos incomuns quase quarenta graus de outono que fazia lá fora.

“Estou esperando uma oportunidade surgir”, admitiu após um momento, “Entre o acidente e a recuperação foi tudo muito complicado pra Marina, não sobrava tempo nem espaço pra iniciar uma conversa desse tipo com ela”, a francesa suspirou numa pausa, gesticulando vagamente para que a moça parasse a massagem que fazia na sua panturrilha, “Também não acho que seja adequado tocar nesse assunto agora”

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“Mas a essa altura ela já deve ter juntando as peças...”, Raquel ponderou enquanto seu olhar esverdeado vagueava com intento pela silhueta meio despida da chefe.

“Ah, sim. Marina é esperta...”, Diana sorriu o nome da fotógrafa e a secretária revirou os olhos nem um pouco satisfeita, “Além do mais, ela sabe que eu não arriscaria trazer a Céci pro Brasil se a situação com ele não estivesse... definitivamente resolvida”

A secretária sorriu com solícita maledicência. “É, parece que a sua querida Marina não te conhece assim tão bem como ela pensa”

Pelo que durou alguns longos instantes Diana nada disse, mas então suspirou pesadamente e apoiou-se nos cotovelos para lhe lançar aquele brilho cianótico que sempre lhe gelava a espinha. Os olhos dela sempre pareciam escurecer dez tons de malignidade toda vez que Raquel implicava qualquer coisa sobre Marina, até mesmo num silêncio consciencioso.

Mas, afinal, não era culpa sua se Diana a preteria em favor de uma mulher casada e muito bem por sinal. Também não tinha como deixar de se sentir assim por ela, de querer um pouco mais de atenção. Só isso. Mas esse ‘só isso’ sempre foi demais para pedir de Diana.

E em seu ciúme mal dissimulado Raquel sempre se excedia, não se preocupando em domar palavras ferinas que deviam ser tudo, menos isso. “Hm. Aposto que não conversaram sobre aquele outro assunto também”, ela retribuiu o olhar da francesa com um petulante dos seus.

Nessa, Diana levantou-se com uma rudeza rara e já foi fechando os botões da manga longa branca que vestia enquanto falava sem desperdiçar um olhar sequer para a outra mulher, “Aposta vencida. Está feliz agora?”, seu tom mordaz cortou o ar gélido da sala como um gume incandescente, fazendo Raquel se arrepender por uns dois ou três segundos dessa sua língua afiada em demasia.

Mas o fato é que Diana precisava de um choque de realidade de vez em quando. E se Raquel tivesse mesmo que ser a única a suportar o bruto desse desastre anunciado, então que tudo se danasse para o inferno. Porque não podia mais só sentar ali, toda e cada maldita vez, sendo obrigada pela pessoa que amava a assistir de mãos atadas enquanto ela ruía por dentro.

Em silêncio. Tão precoce e terminalmente...

Tinha que tentar alertá-la de certas verdades, por mais inconvenientes e dolorosas que pudessem ser.

Antes que fosse tarde demais.

“Quer mesmo saber o que eu acho, Grimaud?”, Raquel levantou e pegou-a pelo braço com força, virando-a para que pudesse encarar aquela expressão de mármore no rosto da francesa, essa postura impenetrável que nunca fez muito para intimidar sua incauta rebeldia, “Ou você é muito estúpida ou muito prepotente se espera mesmo que a Clara, provavelmente a mulher que mais te odeia nesse mundo, aceite te ajudar com isso. Meu Deus, por que não entende de uma vez por todas? Ela e essa fotógrafa que você tanto adora estão pouco se lixando pro que acontece contigo!”, em algum lugar muito profundo dentro de si, Raquel tinha plena consciência da crueldade do que havia acabado de dizer, mas, naquele momento, essa única parte boa dela não conseguia enxergar além do vermelho do despeito que fervia em suas veias.

Surpreendida pelo tom vicioso e desesperado daquelas palavras que ainda ecoavam pela sala, Diana permaneceu calada por um longo momento, um amargamente ausente de qualquer ruído ou som, sufocando com essa certeza corrosiva que até então somente elas compartilhavam. A revelação que fora como um tiro à queima roupa no peito de Raquel; havia descoberto por acaso durante a mais recente de suas buscas confidenciais, essas que tomava a liberdade de fazer à revelia da francesa.

Mas sua chefe, como sempre, não demonstrava qualquer pressa, nenhuma afetação.

Talvez porque ela soubesse que não tinha muito tempo.

Então, no que voltou do seu transe dolorido, Diana abriu a boca num sussurro sem voz, como se relutasse em dar a resposta que Raquel tanto esperava quanto sabia que merecia.

Só que nesse exato momento uma batida na porta deteve o desfecho iminente.

“Com licença”, Clara solicitou ao pisar pela entrada calmamente, anunciando o motivo da sua aparição num tom praticado na neutralidade, “Vanessa me disse que você queria falar comigo”, ela evidentemente se dirigia a Diana, embora seus olhos estivessem mais preocupados em sondar os contrariados verdes da terceira ocupante da sala.

Impossivelmente, o clima no lugar ficou ainda mais carregado.

Foi então que viu Diana levar uma mão ao rosto e usar as pontas do polegar e do médio para pressionar os cantos internos dos olhos, gesto que beirava um quase descontrole e que, em todo o tempo convivido entre o trabalho e a mansão, Clara nunca havia presenciado a francesa demonstrar.

Enquanto isso, Raquel tomava o rumo da saída sem tirar os olhos dos dela.

“Raquel”

Clara evitava olhar diretamente para a secretária quando ela parou bem na sua frente, suspirou, então girou no calcanhar para atender o chamado seco da chefe.

“Pois não, senhora”

“Providencie um carro com motorista pra buscar Roseline no aeroporto. O voo dela deve chegar dentro de uma hora e meia”, a francesa instruiu numa fleuma tal que era como se toda a cena anterior nunca tivesse acontecido.

“Será feito. Com licença”, foi tudo que a secretária disse antes de virar, no olhar agora um brilho magoado, e passar por Clara como se também nunca tivesse estado ali.

É, se algum dia havia duvidado do envolvimento dessas duas quando mesmo as paredes sabiam – e especialmente elas sabiam –, sua descrença foi devidamente sanada com o que acabara de presenciar. Clara ainda só não compreendia muito bem o tipo e a que profundidade chegava essa suposta ‘relação profissional’ delas, principalmente no que dizia respeito ao real papel que Raquel exercia nisso tudo. Verdade seja dita, tinha motivos até para suspeitar que esse não fosse o verdadeiro nome dessa moça; que Raquel nunca tinha sido apenas uma mera secretária para Diana, estava mais que comprovado desde a primeira vez em que a morena colocou os pés na Galeria, nesse pouco mais de um ano de contrato.

Depois que Clara ouviu a porta se fechar atrás dela e o ambiente por fim se tornou menos dramático, Diana se dirigiu até a sua mesa e sem mais delongas retirou um invólucro particularmente maciço de dentro de uma pasta vermelha. De onde podia dizer, agora com certeza, foi esse o objeto que viu nas mãos da francesa na noite anterior. E foi quase sem querer também que esse lampejo de lembrança, ainda tão vívido e incitante, provocou aquela mesma sensação arrepiante nos seus braços e nuca, trazendo-lhe iguais partes de receio e excitação que Clara prontamente se dedicou a mascarar.

“Senta”, a loira instou-a calmamente ao lhe oferecer o conteúdo da pasta.

Sentiu sua testa franzir no que brevemente hesitou em aceitar o volume. Parecia ser alguma espécie de documento ou dossiê, o que prensado assim, nesse bloco único, não pesava tanto. Contudo, se seu golpe de vista não estivesse errado, pelo menos umas duzentas páginas deviam estar seladas a vácuo naquele plástico.

Como lhe foi dito para fazer, ela sentou-se numa das cadeiras estofadas em frente à mesa, enquanto Diana se reclinou casualmente pela borda polida do móvel robusto, de braços cruzados e olhos bem focados nela. E assim transcorreu que, após desembrulhar e folhear com cuidado uma parte das centenas de páginas que de fato compunham relatórios de estatística, rendimentos e outros dados fiscais similares, Clara enfim levantou o olhar e exalou um pouco contrariada.

“Mas essa não é a função da sua...”, fez uma pausa, arqueando uma sobrancelha cavilosa ao completar, “... secretária de estimação?”

Diana não bateu um cílio. “Teria remetido a ela, se fosse”, ela demorou-se num silêncio em que parecia examinar a expressão relutante da outra mulher, então suspirou baixo com as palavras, “Preciso de uma segunda opinião. Uma de alguém que seja especialista no assunto e, é claro, de confiança”

Pouco convencida de que essa era a única motivação da francesa, ela teve que alfinetar por direito de resposta, “Desde quando eu faço parte da sua lista de ‘especialistas confiáveis’?”

E, novamente, a loira não deixou passar uma batida. “Desde que Marina conseguiu me convencer de que você é uma. E então?”

Sorriu de canto no embuste claro da francesa, pouco envaidecida como sempre. “Hm. Vou precisar de uns dias pra analisar esses relatórios, mas o que dá pra adiantar é que alguns desses números realmente não estão batendo”, aí folheou umas páginas que haviam lhe chamado atenção, no que foi falando entre relances para Diana, “Esse advogado, Leonel Henriques. Ele é seu representante legal em outras companhias além da CG Enterprise, não é?”, e quando a francesa se demorou em sinalizar que sim, Clara lhe deu um olhar que falava volumes.

“Você tá achando que...”, a mulher balançou a cabeça e riu ao lhe gesticular a impossibilidade com as mãos, “Mon Dieu, Leonel não seria capaz de me roubar. Aliás, o que eu pago a ele já é mais que suficiente pra comprar a vida de um sultão em qualquer lugar desse planeta”, então suspirou numa pausa sôfrega, “Pena que ele não use aquele charme todo pra incluir um harém nas despesas altíssimas que me dá. Quem sabe assim ele não... desapegava um pouco”, e pontuou suas palavras com aquele característico olhar de obliquidade dela, o que a essa altura da coexistência Clara já não queixava tanto.

Seus dedos agora raspavam numa outra página e de novo o olhar de Clara enfatizou tudo que não precisava dizer, mas disse mesmo assim, “É, com certeza você o conhece bem melhor que eu”

Humorada, a francesa arqueou-lhe uma sobrancelha. “Esse espanto todo é porque somos casados? Bem, vejamos... Para todos os efeitos Leonel é o pai da Céci. Assim, nosso vínculo legal é uma forma de protegê-la também”, e no que a outra mulher franziu a testa como se tivesse perdido o fio da meada, a francesa complementou num tom demorado e indulgente, “A cláusula ‘separação total de bens’ não te diz nada, mon chéri?”

“Foi uma exigência dele?”, e de novo sua curiosidade conquistava-lhe a discrição.

E pelo menos dessa vez Diana não parecia querer enredá-la, quando a olhou no olho e lhe explicou com uma expressão mais compenetrada, “Clara, Leonel é das contadas pessoas nesse mundo a quem eu posso virar as costas sem esperar um punhal cravado nelas. Antes de ser meu parceiro nos negócios, ele foi e continua sendo meu parceiro na vida, um amigo fiel e dedicado”, fez uma pausa reflexiva, então retomou com aquela curvazinha irônica no canto da boca, “É, ele pode até ser pegajoso às vezes, mas tem caráter e é extremamente cortês, o que em si se tornou uma raridade nos homens... e nas mulheres de hoje em dia”, e Clara teve que concordar com a francesa nisso porque, embora tivesse dividido o mesmo espaço com o tal advogado em duas ocasiões apenas, e tirando um ou outro olhar estranhado que ele havia trocado com Marina, Leonel realmente demonstrou ser essa encarnação de um lorde inglês que Diana continuava a descrever, “Além de Roseline, ele foi o único com quem pude contar pra cuidar da Céci quando as circunstâncias não me permitiam estar com ela. Só isso já me faria ter uma dívida de gratidão eterna com ele, não acha?”

Nesse ponto ela suspirou sua anuência, “É, acho que sim...”, daí remexeu um pouco nos papéis, coçou a testa, pigarreou sua ligeira hesitação, então mudou sem de fato variar de assunto, “Esses cálculos aqui são referentes ao último semestre, certo?”, no aceno condescendente da loira, Clara continuou num tom mais cauteloso, “Só que desfalques desse tipo costumam ser muito bem maquiados. E provavelmente vêm acontecendo há muito mais tempo que isso também”

... E... O que de mais óbvio você não notou?”, enquanto a pontinha da língua da francesa fazia aquela coisa irritantemente erótica no canto da boca, Clara usava de todo o autocontrole que possuía para não levantar daquela cadeira e nunca mais voltar, tão exasperada e ansiosa e excitada e já não sabia o mais o que sentir naquele momento.

Deus, a leviandade dessa mulher podia superar até a de Marina...

Mas afinal esse era só um palpite; vinha segurando a pulso tão firme as rédeas curtas daquela fotógrafa escorregadia que assim ficava difícil de prever.

Ah, e com obviedade mesmo? Só entendeu que isso não passava de mais um daqueles testes de competência – ‘do caramba!’, sua mente lhe supriu – que Diana sempre fazia com ela. E já que não tinha como fugir disso, resolveu bailar essa valsa do seu lugar minimamente trêmulo, sentada como estava sob a luz baixa dessa sala congelada.

Frio esse que não parecia afetar um centímetro sequer dessas pernas longas e torneadas que não deviam estar numa saia tão justa assim...

Foi quando a realidade dos fatos piscou na sua frente novamente e teve que pigarrear de leve entre as palavras, “Eu... aconselharia uma auditoria interna. E sigilosa, obviamente”, quando o sorriso de Diana se tornou tão sugestivo quanto uma obscenidade jamais proferida, Clara respirou um pouquinho menos tensa no que acrescentou, “Não acredito que a situação seja crítica, mas em todo caso é bom se precaver”

Sempre delicados em demasia, os dedos da francesa beliscavam as pontas de suas longas madeixas solares enquanto ela replicava com aquele ar altivo, “E o que você sugeriria com relação ao controle das finanças?”

Dessa parte, Clara entendia bem. “Cortar gastos com secundários é o primeiro passo”, uma pausa, “Um segundo seria cumprir o mínimo das metas estipuladas no que se refere à compra e venda de ações dessas empresas rentáveis em curto e médio prazo. Focar nelas pode até ser o caminho mais oportuno... numa perspectiva imediatista, e é exatamente isso que torna esse tipo de investimento menos seguro”, no que Diana acenou reflexivamente, Clara continuou sua explanação, “Acho que o principal a se fazer nesse momento é pisar no freio, porque se surgirem eventuais baixas nos rendimentos das outras companhias, você precisa estar respaldada ou vai ter que colocar em prática medidas mais severas de corte de gastos e...”, o som crescente da risada da loira fez sua língua titubear por um segundo ou dois, “... talvez um aumento ajuizado de participação nos lucros fosse uma opção pra manter os ânimos dos... sócios... mais aquecidos...”, seus olhos enleados perderam-se na intensidade daqueles azuis e de repente a sala já não parecia mais tão fria, não enquanto Diana ficou lhe encarando assim, com esse brilho no olhar capaz de derreter até o metal mais imperfurável.

E aqueles dedos que agora brincavam com o pêndulo do medalhão oculto sob a seda da blusa. “Hm. Dê a eles um par de asas maior e vão querer alçar voos mais altos...”, a francesa arrazoou sem tirar os olhos dela.

Clara limpou a garganta ligeiramente antes de reafirmar seu ponto de vista, “Eu entendo que rearranjar os termos de uma sociedade é complicado numa situação assim, mas de qualquer forma é um risco que se corre mutuamente. Além disso, seus investimentos são suficientemente sólidos. Você tem margem e credibilidade no mercado pra atacar se quiser, mas de momento vai precisar equilibrar isso com uma defesa menos... ofensiva”

Fez-se um silêncio.

Que foi se estendendo, até que...

Já estava prestes a cair da cadeira tamanha era a ansiedade em que se encontrava, quando enfim a francesa exalou baixo, dando-lhe um último e pouco sutil brilho daqueles olhos azuis antes de virar e ir circulando a mesa naquela passada calculadamente felina dela.

Após se fazer confortável em sua cadeira, uma que era estofada num cobalto vibrante e que contrastava assustadoramente com a infinita transparência das vidraças atrás dela, com esses chumbos da estratégica mobília no ambiente feito de paredes em gradientes leves de azuis e fortes tonalidades de púrpura, assim decorado com esses quadros, livros e esculturas tão valiosos e ancestrais quanto pareciam ser, Diana apoiou os cotovelos no verniz escuro da mesa e cruzou os dedos embaixo do queixo numa maneira quietamente intensa, todo o tempo fitando-lhe por baixo dos cílios.

“Você vai cuidar disso pra mim”, ela disse passado um momento, assim de repente.

E Clara imediatamente retraiu os ombros, estreitando um olhar desconfiado na francesa. “Mas... e o Leonel?”

Diana sorriu-lhe em condescendência. “Ah, meu consorte é muito competente no que faz, sim, mas infelizmente ele é só um, e veja no que isso deu...”, suspirando numa pausa delongada, a loira foi relaxando mais no recosto da cadeira, os dedos indo para tamborilar distraidamente nos apoios de braço no que prosseguiu, “Sem falar que distâncias oceânicas nem sempre são cobertas em tempo hábil, não é? De qualquer maneira, eu preciso dele supervisionando meus negócios na Eurásia e, como você pôde ver nos relatórios, meus números na América aumentaram consideravelmente esse ano. Isso significa que também vou precisar de alguém aqui desse lado do Atlântico pra desempenhar a mesma função. Uma mão de ferro... numa luva de pelica”, e nessa a francesa sorriu toda preguiçosa, o que fez a suspeita de Clara, assim como os tais números, crescer exponencialmente, “Sua mão”, ela ronronou as palavras como se quisesse comê-las em vez de falá-las.

Clara engoliu em seco. “Espera um pouco...”, teve que pedir, para se ajeitar e respirar, pelo bem da sua postura e dessa sua libido temperamental também, “Diana, meu trabalho é dirigir a contabilidade da Grimaud Meirelles. Isso que você tá propondo vai muito além das minhas competências”

Os olhos da francesa piscaram vagarosos uma vez e então era a frieza em pessoa que lhe ratificava, “Eu não teria feito o convite se não tivesse certeza de que você está apta pra assumir todas as responsabilidades e vantagens que o cargo oferece”

Então foi isso que Raquel quis dizer? Que Clara não ia querer ‘ajudar’ Diana com isso? Porque, realmente... Assumir um posto desses estava muito, mas muito longe de ser uma simples ajuda. Não, mesmo. Essa proposta, e principalmente por ter sido feita por uma figura que era reconhecida mundialmente por seus sucessos empresarias – sigilados ou não –, era o tipo de promoção que qualquer profissional ficaria deslumbrado em receber. Mais ainda realizado em aceitar. Mas a verdade era que o problema não residia exatamente em suas competências para o cargo, as que Clara de fato acreditava ser capaz de aperfeiçoar com o tempo.

O grande ‘porém’ seriam os possíveis e impossíveis efeitos que a decisão de aceitar esse desafio poderia acarretar na sua vida pessoal.

Como isso afetaria essa estranheza familiar, essa excitante dinâmica que começava a surgir com Diana.

E, especialmente, como isso tudo se encaixaria na sua relação com Marina.

Mas a julgar pela forma séria com que a francesa lhe encarava agora, ela não parecia nem uma vírgula preocupada com tais frivolidades, apenas esperando em silêncio por sua reação, fosse ela qual fosse.

“Você... nossa...”, Clara balançou a cabeça com um riso que falava de toda a confusão que essa mulher lhe causava, “Olha, eu agradeço e me sinto honrada pelo voto de confiança. De verdade, Diana. Mas eu reitero o que te falei antes, não acho que eu tenha cacife pra um cargo desses. É isso”

De expressão resoluta, Diana já antecipava essa negativa inicial da parte dela e agiu com parcimônia para mitigá-la no arrasto do seu português afrancesado, “Pra que se precipitar quando se pode negociar, hm? Mas você está certa, uma decisão como essa não pode ser tomada assim, no calor do momento. Por isso vou te dar até o fim desse mês pra pensar no caso...”, ela foi deslizando os antebraços pela borda da mesa até que se reclinou evocativamente neles, aí abriu aquele sorriso que desarmava qualquer cristão, “... mas desde já saiba que eu estou esperando um sim”

Clara piscou uma, três vezes, aí sorriu meio sem graça. “Hum...”, demorou-se num pausa, “Vai precisar de mais... alguma coisa?”

“Não. Está dispensada”, ela lhe deu um relance de olhos enquanto discava o ramal no telefone, então voltou a relaxar em seu assento quando uma voz conhecida atendeu do outro lado, “Na minha sala agora”, outro relance daqueles e essa foi a deixa para Clara.

Mas, quando estava a um passo de alcançar a maçaneta, um pensamento que vinha martelando em sua cabeça havia algum tempo a fez parar e dar meia volta.

“Diana?”

Oui?”, a mulher consentiu sem abrir os olhos.

“Eu... queria te agradecer pelos esforços que você vem mobilizando pra realizar essa exposição”, no soar dessas suas palavras, notou um mínimo movimento nas pálpebras da francesa que tomou como incentivo para seguir, “Tenho certeza que esse trabalho será um divisor de águas na carreira da Marina. Não só pela qualidade de sempre, que é inegável, mas por tudo que ela passou pra chegar a esse momento e... enfim”, Clara não tinha percebido o quanto sua garganta estava seca até que sua voz foi arranhando, “Obrigada”

Dessa distância entre elas, Diana abriu os olhos para sorrir-lhe ligeiramente. “Aprecio sua iniciativa, mas não há necessidade de me agradecer”, um suspiro, “Sempre tive os melhores destinos em vista quando o assunto é dinheiro e o mecenato, claro, continua sendo meu passatempo favorito”, ela finalizou num tom lasso, suas pálpebras pesando novamente assim como o ar gelado da sala.

Um clique metálico.

“Mesmo assim...”, saiu tão baixo que duvidava que Diana tivesse ouvido.

E a porta que se abriu atrás dela foi fechada, transformando-se numa silhueta feminina esquivando a sua.

“Pensei que meus serviços não fossem mais requisitados por hoje”, ouviu a secretária dizer faceiramente enquanto encurtava os passos até a mesa da chefe, o tom e o andar despreocupados, como se o fato de Clara ainda estar ali e escutando tudo não fosse importante.

Raquel, Raquel, Raquel...”

Foi a última coisa que seus ouvidos conseguiram captar no que recostava a porta devagar, esse mistério de madeira para o qual ficou olhando por uns bons dez segundos, ainda tentando processar o que havia sido dito e, ainda mais significativo, o que havia sido silenciado dentro daquela sala.

Enfim recolhida sua compostura, Clara deu cinco passos pelo corredor deserto até que se demorou no sexto, no sétimo, e no seguinte, seus olhos atraídos para essa frestinha de nada que uma parte das persianas não conseguia ocultar.

Nenhum encaixe era perfeito, afinal.

Não para ouvir um alfinete caindo no chão, mas para visualizar todo o interior da sala dali? Ah, isso dava.

E, ironicamente, também dava para ver o que essas paredes sempre souberam.

***

“Sem dúvidas você é a guarda-costas mais deliciosa que eu poderia ter contratado”, gemeu as palavras na boca da mulher mais jovem, puxando-a para o seu colo, “Mas como massagista você morreria de fome, mon petit

“Assim você parte meu coração...”, seus dedos hábeis desabotoavam-lhe a blusa sem pressa, lábios rosados sorrindo contra os escarlates dela, “Sabe que posso te ajudar a relaxar de outras formas, é só me dizer onde e quando”

Hic et nunc”, mordiscou-lhe o dizer no canto da boca.

“Aqui e agora”, traduziu aquele feitiço, porque eram em momentos assim, roubados na pressa das horas e no calor do instinto, onde não existiam Marina, Leonel ou Clara, que Raquel sabia.

Sentia que Diana era só sua.

E de ninguém mais.

DIAS DEPOIS

Era quase uma hora da tarde, o sol brilhava com uma fúria nos céus boêmios de Santa Teresa e onde ela estava agora?

“Ah, é. Bem aqui...”, num estacionamento que era mais uma fornalha de tão escaldante, resmungando sua ansiedade para a brisa ingrata desses fins de outono quentes demais, enquanto tentava travar a porta do seu carro como toda a fleuma que não tinha.

Com esse calor que andava fazendo no Rio, só podia vir temporal bravo por aí...

Apesar e por causa do tempo, minutos depois seus passos trepidantes a guiavam por um espaçoso corredor no terceiro andar desse antigo complexo de apartamentos que dava abrigo a um em especial.

Vanessa forçava paciência nos seus pés, pisando numa placa laminada de piso de cada vez, e seguia repetindo mentalmente os três ‘mantras’ que Marina havia criado especialmente para a sua situação.

Primeiro, ande e fale devagar. Segundo, não pense duas vezes, mas aja com cautela. Terceiro, se precisar fazer uma cena, faça

O objetivo deles, segundo a fotógrafa lhe zombeteou, era dar aquele ‘empurrãozinho básico’ para que finalmente a ruiva saísse da espiral de inércia em que havia se enfiado e pudesse encarar de peito aberto essa calamidade em que sua vida amorosa havia se transformado.

A verdade era que a tal ladainha não parecia lá muito coerente, nem favorável ao seu carma até onde Vanessa podia dizer. Mas pelo menos estava ajudando a distraí-la. Um pouco, o mínimo possível, mas estava.

E agora, olhando para aquele ‘9’ na porta do apartamento, Vanessa só queria correr dali...

Suas mãos, por outro lado, sempre foram bem mais corajosas que ela e resolveram tomar as rédeas da situação.

Abriu a porta com as chaves que fingia não precisar devolver, mas da soleira seus pés não passaram.

Ficou ali por um longo momento ou quase isso, ainda tentando se reconciliar com o que seus olhos viam, aí respirou fundo, deu um primeiro passo, girou no segundo, fechou a porta.

O apartamento de Flávia era o exato oposto do seu, que era bem menor, mais iluminado, e planejado em cada detalhe. Já esse ambiente era uma espécie de salão banhado em noite eterna, atravessado por tímidos feixes de luz artificial; um lugar que, somente a depender da hora do dia, clareava-se naturalmente com os raios de sol que se filtravam pelos vitrais coloridos no topo da parede de fundo. Na verdade, muitas décadas atrás esse galpão funcionara como uma oficina de costura e depois fizera as vezes de palco para uma trupe de atores locais. Não tinha divisões internas, e as metades de paredes ainda de pé, tendo sido restauradas com esmero, eram salpicadas de fotografias, recortes de jornais, pôsteres de bandas antigas e livros enfileirados lado a lado com cabides de roupa e outros objetos de decoração. Uma legítima definição de bagunça organizada, e bem diferente daquela imagem da Flavinha profissional que todos conheciam, sempre pontual, inquieta quando os fatos não estavam nos seus devidos lugares.

Ah, e os fatos definitivamente estavam fora dos seus devidos lugares por aqui...

Enquanto caminhava com cuidado pelo que seriam a sala de estar e uma pequena cozinha conjugada, seu olhar e mãos passavam pelas bordas das caixas vazias e outras nem tanto espalhadas pelo chão, as pontas dos dedos deslizando pelas lonas que cobriam esse sofá do qual tinha as melhores recordações e o que de pouca mobília ainda restava no lugar.

Sentia seu pulso saltando nos ouvidos a cada passo que a levava mais perto daquele canto isolado onde, detrás de uma cortina pouco translúcida, um chuveiro lagrimava água na banheira.

Sempre essa sensação inquietante.

E sempre por causa dela...

Que estava ali, parada de frente para a penteadeira, os cabelos presos num coque solto e o corpo enrolado naquela toalha branca. Parecia mesmo um anjo, alheia a outra presença mundana que não a do silêncio quebrado apenas pela balada tocando num rádio retrô, que repousava por ali no piso ladrilhado.

“Flávia?”

No que virou de uma vez, a fotógrafa quase derrubou um frasco de perfume que tinha na mão, sua expressão um pouco empalidecida quando sibilou, “Caramba, Vanessa. Tá querendo me matar?”

“Eu... desculpa...”, foi se apressando na passada, mas aí se lembrou das palavras de Marina, “Ande e fale devagar”, murmurou para si mesma, notando o relance confuso que Flavinha lhe lançou.

“Não foi minha intenção te... assustar, eu só...”, suspirou irrequieta, “Devia ter avisado que vinha”, lamentou mais que um tanto sem graça, então tentou outro passo e um seguinte, parou, falando numa voz mais hesitante que controlada, “Hum, o que é aquilo na sua sala? Aquele monte de caixa?”

Dando-lhe as costas, Flávia voltou sua atenção para o móvel antigo e começou a afastar uns vasilhames por ali. “O que você acha?”, retrucou acidamente.

O que fez Vanessa ansiar num suspiro, já sentindo os inícios de uma enxaqueca lhe agravando o raciocínio, “Também não precisa me tratar assim...”, tentou replicar num tom mais manso, mas quando Flávia não fez menção alguma de que tinha lhe ouvido, a ruiva esfregou uma mão muito exasperada na testa e foi logo despejando, “Escuta, eu sei que a gente combinou de dar um tempo e–”, mas nessa, o som do seu nome sendo evocado pelo timbre grave da fotógrafa ressoou alto demais no quieto apartamento.

“Essa história já deu o que tinha que dar”, ela acrescentou severamente um instante depois, embora não tenha passado despercebido por Vanessa como os ombros de Flavinha se encolheram no que a mulher baixou a cabeça e apoiou as duas mãos na beirada da penteadeira.

Não pense duas vezes, mas aja com cautela”, dessa vez Vanessa foi repetindo o mantra sem voz enquanto encurtava a distância entre elas.

Quando parou a um passo de tocar aquele ombro do qual tanto sentia falta, ela não pensou duas vezes antes de cautelosamente pousar-lhe a mão direita, sentindo uma ligeira contração do músculo sob a pele morna, esse movimento involuntário que não falava de rejeição, mas resguardo.

“Você ainda não respondeu minha pergunta”, insistiu com um sorriso pequeno, seus olhos atentos ao perfil da fotógrafa, e no durar daqueles poucos segundos em que Flavinha virou e olhou-os bem no fundo, Vanessa quase acreditou que nada havia mudado entre elas.

Mas aí esses mesmos olhos se estreitaram, impassíveis de novo. “Que pergunta?”

Apesar de si mesma e de tudo enfim, Vanessa teve que rir. “Ai, Flavinha...”

A fotógrafa não pareceu achar a situação engraçada, mas logo pegou o sentido retórico que Vanessa quis fazer dela, “Não é óbvio? Estou de mudança”, ela exalou com as palavras e já foi rumando para o centro daquele losango que podia ser considerado a área do banheiro, levando nas mãos o xampu e o sabonete que procurava antes.

Foi então que a ruiva galhofou alto, incrédula do que lhe soou como a piada do século. “Mudança...”, ecoou o chiste, mas no que Flávia fez um ligeiro arco de corpo para lhe piscar aquele brilho escuro e irônico, sua risada foi murchando assim como sua expressão, “Espera aí. Você tá falando sério?”

“Eu sempre falo sério”, resmungou sem a olhar.

De repente, seus olhos começaram a formigar. “Mas como assim? Pra onde você vai?”

“Gisele...”, a fotógrafa disse como se isso explicasse tudo, sempre com as costas viradas para Vanessa enquanto foi desfazendo o fecho na cortina e por fim o meio nó da sua toalha que jogou no recosto de uma cadeira próxima, até que reconsiderou com um suspiro, “Ela enviou meu portfólio pra uns amigos do meio que fez em Nova Iorque. Os caras gostaram do que viram e entraram em contato comigo umas semanas atrás”, ela olhou furtivamente por cima do ombro e viu uma Vanessa meio boquiaberta, o que não impediu que continuasse sua explicação metódica do caso, “Eles disseram que tinham essa ideia pra uma mostra conjunta só com fotógrafos latinos, mas aí surgiu a oportunidade de fazer algo maior com meu trabalho, de expor individualmente mesmo. Pra encurtar os detalhes, eles sondaram alguns patrocinadores e acabaram decidindo por Grimaud”

Vanessa riu debochada ao ouvir aquele sobrenome, recordando-se da suposta conversa que a fotógrafa havia tido com a ‘Mecenas de Nantes’ no arquivo da mansão e da qual Flávia nunca lhe contou os pormenores, apesar da sua doce insistência.

“Ah, claro. Tinha que ter o dedo daquela francesa de araque nisso...”, a ruiva resmungou ao balançar a cabeça pouco aborrecida, para o que Flavinha só deu de ombros.

Não fazia gosto algum nessa parceria da sua ‘pretensa chefe’ com sua ‘quase ex não namorada oficial’, embora também não pudesse negar a pontada de orgulho que sentiu pelo reconhecimento merecido do trabalho que Flavinha vinha fazendo com a fotografia.

Sem melhores alternativas ao seu dispor, Vanessa exalou sua crescente frustração com o rumo dessa conversa e tentou outra aproximação, “Mas... por que você não me falou disso antes?”

Nua como veio ao mundo, Flávia já estava pisando dentro da estrutura tubular que era sua banheira quando se esquivou da questão com seu característico humor seco, “O que interessa é que estão apostando alto no meu taco”, fez uma pausa para deixar que a água escorresse por seu rosto, esfregando as palmas de leve nele antes de acrescentar num tom vago, “Mas pras coisas acontecerem de fato, eu vou ter que passar uma temporada por lá”

Nessa, Vanessa piscou confundida. “Por lá você diz nos Estados Unidos? Mas é uma temporada de quê? Dias? Semanas? Meses?”, e lá se foi atropelando tudo pelo caminho, do primeiro mantra a todos esses passos de distância que já não sobravam mais entre elas.

No que abriu os olhos, Flávia deu de cara com Vanessa parada ali, a meros centímetros do círculo onde a água respingava fora da banheira, o olhar tão arregalado e fixo no seu rosto como sempre ficava quando ela estava prestes a chorar...

Visão essa que sempre fazia Flávia inquieta. “Ainda não sei”, admitiu curtamente, então voltou a focar seus sentidos nessa torrente fria que lhe beijava o corpo.

Precisava se concentrar no banho, afinal. Tinha hora marcada para sair, estava muito quente lá fora e muito sufocante ali dentro para distrações assim.

“Quando você vai?”, ela continuava com as perguntas prolixas.

“Depois da abertura da exposição”

Notou quando Vanessa baixou o olhar por um instante e jurou o dia em que não tirou aquelas malditas chaves dela...

“Daqui a dois dias...”, a mulher murmurou como se em dor, num passo a mais que fez com que as gotas começassem a orvalhar nas madeixas ígneas dela, “Meu Deus, Flávia... Você ia mesmo sair do país sem me falar nada?”, e foi essa nota ferida na voz dela que fez par com aquele brilho de lágrima nos olhos para acabar de vez com sua dignidade. Tanto foi assim que, naquele momento, Flávia só pôde recorrer a toda essa frieza que sabia possuir em si, mas que andava aos farrapos exatamente por causa dessa mulher, em favor de contestar qualquer tentame da ruiva para fazê-la se sentir culpada de faltas que ela nunca havia cometido.

“Eu não te devo satisfações da minha vida, Vanessa. Não mais”, ela rebateu à sua melhor maneira calculada, “Agora se me der licença, eu preciso terminar meu banho”, levou as mãos para as laterais da cortina e foi puxando enquanto emendava, “Ah, e tranca a porta quando sair. As chaves... você pode deixar no lugar de sempre”, e assim se fechou no seu pequeno casulo de lágrimas estranguladas.

Flávia se via nelas, escorrendo por esse ralo, tornando-se uma com essa água gelada, usada, desperdiçada.

E esse tempo, e essa agonia que nunca passava...

De tão ausente de si que estava, não notou a cortina se abrindo, não sentiu quando aquelas palmas quentes deslizaram por seus ombros até que elas agarraram-se com força nos lados do seu rosto.

“Foi pra isso que você veio?”, sua voz soava amarga demais em seus próprios ouvidos, mas ainda tinha esse restinho de orgulho que a fazia continuar, “Pra fazer essa cena toda?”

Vanessa não perdeu uma batida. “Acertou em cheio”

Foi aí que aquele fiapo, já quase um nada de orgulho, perturbou alguma coisa no peito de Flávia, fazendo com que suas pernas se inquietassem num movimento que não chegou muito longe, apenas essa meia-volta em que se viu no mesmo lugar e segura pelo aperto nunca tão forte de Vanessa.

“Você não vai sair daqui”, ela respirava água e calor contra sua boca e Flávia só conseguia tremer, imobilizada nesse abraço do qual tanto sentia saudade, que nunca foi verdadeiramente seu, “Não sem antes ouvir o que eu tenho pra dizer”

“Não pode me obrigar...”, foi tudo que conseguiu balbuciar.

Vanessa sorriu e a água fez essa curva engraçada pelo nariz dela. Flávia queria tanto rir de tudo isso, mas não podia.

Não quando ela a olhava tão no olho assim...

“Não... Mas uma vez você me perguntou do que eu tinha medo”, sua voz era um pouco mais que sussurrada no que se afastou o mínimo possível, “Olha pra mim. É disso que eu sempre tive medo, Flávia. De ficar assim com você, desarmada, vulnerável, nua por inteiro, de corpo e de alma...”

Mal conseguia engolir contra o nó em sua garganta, “Sai daqui agora”, esse mesmo nó para quem não conseguia olhar mais.

“Flávia, olha pra mim”, pediu num quase soluço, “Por favor...”

Sabia que estaria perdida se olhasse.

E, para ser honesta, sempre soube que não devia.

Que o coração de Vanessa era uma forma arredia demais para que suas lentes pudessem capturar.

Mas seus olhos, tão desobedientes e curiosos, nunca desistiam desses ângulos estranhos, proibidos, difíceis de clicar.

E de novo iam clicar por ela...

Quando deu por si, já estava olhando e tão fundo quanto seus dedos dentro dela. Não havia mais água caindo sobre suas cabeças, só o deliciosamente impuro, quente e molhado friccionar de seus corpos enquanto ela se equilibrava na borda da penteadeira, nua e completamente aberta ao seu toque que não intentava ser assim possessivo, mas era, aos seus beijos que não deviam ser tão vorazes, mas quase sempre foram.

Quase, porque muitas vezes doía ser de Vanessa.

E quando não doía, era esse inferno de lábios e unhas e dentes na sua carne. Sugando sua paixão que deslizava pelo céu dessa boca, arranhado sua alegria que precisava apenas desse sorriso, arrancando sua paz que se enroscava nos cabelos rebeldes dela...

Foi rápido demais e nem de perto o que tinha para durar, quando a sentiu estremecer em seus braços, o gozo mordido e gemido na curva do seu pescoço, úmido e dolorido.

Nas inúmeras outras vezes com ela, bem assim, entregue, como nunca foi tão sua...

Muitos momentos depois, enquanto calçava-lhe o outro par da sapatilha, ambas já vestidas para o dia que entardecia, ouviu-a chamar seu nome de onde se sentava naquela cadeira, o tom baixo e compenetrado como numa prece.

“Não achei que fosse mais possível, não pra mim... Mas você me mostrou que eu podia. Você me ensinou a te amar, Flávia”

De sua posição ajoelhada no chão, levantou seus olhos para encontrar os dela sorrindo esperançosos em sua bonita melancolia.

E apesar e por tudo que viveram juntas, Flávia teve que lhe retribuir aquele sorriso. “Eu acreditava mesmo que a gente podia... sei lá, dar certo”, demorou-se num silêncio, porque precisava reunir as forças dele para o que estava prestes a dizer, “Só que eu não consigo mais continuar nessa espera, nesse eterno meio termo”, então tomou as mãos trêmulas dela nas suas e respirou fundo, “É isso. Tudo o que a gente deu uma a outra foram meias palavras... Mas um amor não pode sobreviver com tão pouco a ser dito, pode?”, e ali, pega como estava na armadilha dessas mesmas meias palavras, Vanessa não conseguiu pronunciá-las, só olhá-las no fundo dos seus olhos quando Flávia balançou a cabeça e lhe sorriu com tristeza, “Sinto muito”.

Notas finais
Hasta la vista, babies. ô/