Perchance

25 Entreato


Notas iniciais
Nota 1: Ah, tem sido um longo, turbulento e necessário tempo... *bate a poeira* Alguém em casa? Nota 2: Pra quem ainda interessar seguir nessa jornada louca, este é um capítulo mais curto e... "tramático". Um flerte com certo "final feliz". Cronologicamente, se trata daquela mesma tarde quente de outono nos céus boêmios de Santa Teresa. Nota 3: Dia 14. Sinestesia II. Nota 4: Já ia esquecendo. Não descrevo detalhes, mas algum fato ou outro poderá ser um tanto desconfortável de se ler para algumas pessoas. Então, releia os avisos. o/

A bordo de um barco sem timoneiro a cruzar um mar de enigmas profundos e suspeitas revoltas.

Foi assim que iniciou sua jornada até o momento presente.

Já a sensação de estar nesse lugar depois de tanto tempo?

Ah...

Por mais inacreditável que pudesse parecer, era a de reviver um passado que se confundia com o seu próprio; conhecido, como se tivesse aberto aquele baú velho e empoeirado onde guardava a doçura amarga de certas lembranças da sua infância, e ao mesmo tempo forasteiro, como se essas lembranças pertencessem a outros rostos e lugares, memórias vítreas borrando o seu eu mais oculto.

Poderia olhar nos orbes dessas muitas de si por horas, submergida como se encontrava nessa calma azul a ondular diante dos seus olhos; refrações de vidas secretas que a liquidez confinada detrás dessa enorme tela mágica lhe revelava, uma após a outra, num efeito cascata sem fim.

Não que estar ali tivesse sido tão confortável assim no começo.

Intermináveis, os primeiros vinte minutos foram passados na sua velha pilha de nervos, até que por fim havia conseguido relaxar um pouco na companhia leve de Roseline, quem, depois de oferecer-lhe o chá com biscoitos que Clara não teve coração para recusar, sabiamente escolhera deixá-la a sós com a turba de seus pensamentos.

O que acabou não sendo tão sapiente assim da parte da jovem francesa, já que a esfinge de todos os dilemas voltou a tomar forma no espelho de sua mente assim que a moça se ausentou das suas vistas.

E foi nesse entremeio que seus membros inquietos começaram a vagar pela ampla sala onde ainda aguardava a chegada da sua insigne chefe, o olhar beirando o paranoico saltando de canto em recanto do ambiente na esperança de encontrar um indício de conforto que fosse.

A verdade era que essa foi, de fato, a primeira vez que seus pés haviam cruzado além da antessala desse lugar, resultado desses dois anos de convivência mais ou menos forçada com a mulher que, até não muitas semanas atrás, Clara acreditava ser o pináculo dos seus problemas domésticos.

Ora, depois de tudo que viu e ouviu nesses derradeiros dias? Nada poderia estar mais longe da verdade.

Ainda assim, mesmo com tudo que Diana havia lhe confidenciado depois daquela última conversa que tiveram na Galeria, as motivações da francesa ainda lhe mistificavam profundamente.

E essa mistificação agora se fazia concreta diante dela, nos traçados e ângulos enviesados dessas paredes, nos contornos ébrios e retorcidos das estatuetas e telas que as decoravam.

Realmente, havia uma coisa ou duas a se dizer sobre esse lugar.

Tal como o complexo da mansão, o apart-hotel onde Diana residia ficava em um dos pontos mais elevados de Santa Teresa. O pujante edifício de vinte andares, assim como a cobertura inteira, passara por reformas estruturais a fim de anexar os demais flats nos dois últimos pisos numa única e soberba morada, o que possivelmente tornou-a não a mais modesta dentre as dezenas de joias arquitetônicas que a herdeira Grimaud possuía espalhadas ao redor do mundo. E sendo um dos imóveis mais bem localizados do bairro, a vista que o lugar proporcionava, especialmente ao entardecer, era mesmo um espetáculo à parte; além de deslumbrante, era estratégica para os propósitos de sua proprietária. Também era praticamente impossível não sentir certa acrofobia num local desses, com suas laterais leste e oeste dominadas por vidraças semitransparentes que se estendiam do teto ao chão como gigantescas faces espelhadas. Já nos interiores, além dos portais e das robustas paredes erigidas em posições pouco convencionais, o ocasional par de colunas brancas sustentava os arcos elegantes que davam forma ao teto, sob o qual reinava uma atmosfera de intensos contrastes de cores, obscuridades e claridades. Posterior à antessala, esse salão octogonal também fazia o turno de sala de estar, onde um espaço mais reservado havia sido destinado para abrigar uma comprida mesa de jantar ladeada por cadeiras estofadas em púrpura. Ali, aquelas maciças transparências foram suavizadas por persianas e longas cortinas índigo que filtravam a luz natural, deixando-a ao tempero desse brilho levemente amarelado provido pelas luminárias e pelo lustre de cristal que pendia do centro abobadado do teto. Esse toque neoclássico na composição dos ambientes aliado ao aspecto moderno da decoração revelava uma sobreposição de estilos que, além de harmonizar surpreendentemente bem, revelava muito sobre quem vivia ali.

Numa ocasião ou outra, Marina havia tentado lhe descrever os primorosos padrões de arquitetura e design utilizados na concepção daquele espaço. Mas, obviamente, por pretextos que agora já não pareciam tão importantes, Clara nunca tinha dispensado muita atenção aos relatos sempre tão entusiasmados da esposa. Suspeitava mesmo que aquele arrebatamento todo pouco tivesse de fundo artístico. Todavia, a julgar pelo que pôde ver do lugar até aquele momento, já não era de se considerar um exagero dizer que Diana habitava um palacete labiríntico com ares de Monte Olimpo.

Por outro lado, dentre todas as peculiaridades que disputavam sua cautela nessa eternal vertigem em forma de habitação, talvez a mais intrigante fosse esse estranho objeto que, exceto pela evidente ausência de seres aquáticos dentro dele, guardava fortes semelhanças com um aquário ornamental. Assim imenso e encrustado na parede mais recuada do salão, tal forma cúbica poderia ser descrita melhor como uma peça de arte que, muito provavelmente, havia sido esculpida dali mesmo, diretamente daquele grande bloco feito de algum tipo de rocha esbranquiçada que emergia do piso do flat, atravessando-o bem ao meio como se fosse uma espécie de coluna cardinal para a sustentação das demais estruturas da edificação.

Era um artefato bastante exótico, para dizer o mínimo.

Talvez fosse algum tipo de máquina de projetar ilusões? Sim, porque essas formas e lampejos que então nadavam bem ali na sua frente só podiam ser mesmo obra de algum tipo de ilusionismo.

Clara balançou a cabeça, rindo baixo do absurdo que acabara de pensar.

Se bem que, em se tratando de Diana, tal possibilidade parecia estar mais próxima da realidade do que ela poderia supor.

Tanto era assim que seus olhos, ainda que conscientes desse fato, sequer piscavam de tão cativos que estavam desse ponto quase invisível a oscilar vagarosamente, de um lado para o outro, como se acalentado por aquele azul cristalino, enquanto essa dormência intoxicante continuava a nublar seus sentidos para fazê-la enxergar imagens difusas que se espalhavam na superfície frontal do objeto.

E assim os minutos foram dimanando sem pressa...

Já não tinha certeza de quanto tempo havia se passado até que aquela sensação repentina de estar sendo observada lhe sobreveio. De momento, não conseguiu desviar o olhar daquela face jovial refletida no vidro espesso. Somente quando seus ouvidos detectaram um ruído distinto, como o de um pigarrear baixo vindo de algum ponto à sua direita, o feitiço finalmente se quebrou e Clara piscou, virando-se meio atordoada na direção do som.

Era Roseline, com aquele sorriso boa praça de sempre estampado no rosto.

“Perdoe-me por interromper sua... introspecção, senhora Fernandes”, a moça começou devagar, seu forte sotaque francês enroscando-se com as palavras, “É que madame Grimaud acabou de chegar, e como a senhora parecia um pouco distraída...”, ela fez um gesto reticente com a mão para o artefato atrás de Clara, sorrindo-lhe com a mesma gentileza de quando se viram pela primeira vez.

O que fez Clara piscar de novo, então rir um pouco embaraçada no que lançou um olhar duvidoso pelo cômodo. “Hum. Acho que eu estava mesmo... pra não ter percebido ela entrar”, comentou vagamente, tentando disfarçar seu súbito nervosismo com um sorriso que, a julgar pela expressão divertida de Roseline, não convenceu muito.

Sempre observante, a moça retribuiu-lhe com um aceno esperto enquanto assistia Clara espalmar uma mão na testa e soltar uma risada boba, visivelmente desconsertada com a situação toda.

Era esse estranho ar de sabedoria serelepe que Roseline emanava, um que alguém no auge dos seus poucos vinte anos de idade supostamente não deveria possuir, que lhe deixava mais que um tanto hesitante ao redor dela. Sentia como se sua mente estivesse sendo esquadrinhada contra sua vontade toda vez que olhava nos olhos cinzentos da jovem francesa, a quem conhecia há tão poucos dias. Não era uma sensação lá muito reconfortante, embora Clara notasse que era mesmo uma habilidade espontânea da moça, essa de praticamente conseguir ler a alma das pessoas com o mais fugaz dos olhares.

Discrição, sim, era um traço bastante apreciável e Roseline parecia estar bem ciente disso. Tanto que, se ela havia percebido qualquer mudança no clima entre as três mulheres durante sua passagem pela mansão noites atrás, quando tinha presenciado Diana dividindo um mesmo cômodo com Clara e Marina pela primeira vez, a moça optara por não demonstrá-lo.

E verdade seja dita, aos mais distraídos o cuidado que Diana demonstrava com Marina até podia se passar por uma ligação fraterna, mas bastava um olhar mais atento para perceber que a convivência entre elas se baseava numa dualidade profunda de intenções. Duplicidade lúbrica essa que, ao menos para Clara, quase sempre foi palpável no ar. Já com ela, a francesa sempre tinha agido sob sete véus, como se patinasse sobre gelo fino, ao mesmo tempo em que não poderia ter sido mais cortante do que essas lâminas a lhe riscar a pele, devagar e sempre, tão explícita quanto um espinho lhe picando o dedo. Uma relação que, aparentemente, tinha começado como um quebra-cabeças pronto e acabado, mas que aos poucos Clara foi aprendendo a gostar de desmontar. Peça por esfíngica peça.

Mas que as aparências eram terra de ninguém, disso Clara sempre havia tomado nota.

E Roseline, ela havia descoberto ainda naquela mesma ocasião, estava longe de ser um mero ninguém na vida de Diana.

“... mas eu não tinha como saber, não é mesmo?”, o soar animado da voz da moça a trouxe de volta ao momento presente, fazendo Clara suspirar um pouco sobressaltada, enquanto ela continuava falando toda risonha, “Ah, no meu primeiro dia nessa casa já deu pra perceber que madame Grimaud raramente usa portas como nós, meros mortais, costumamos usar”, sua testa franziu no gracejo enigmático da moça, o que pareceu ter humorado Roseline ainda mais no que ela apontou um indicador para o teto e ilustrou com uma piscadela, “Lá em cima”, então gesticulou para que Clara a acompanhasse e, ainda que um tanto confundida, a mulher o fez, seguindo sempre a dois passos cautelosos atrás da jovem francesa.

E nesses passos se pôs a pensar...

Até aquele dia na Galeria, onde havia flagrado aquela tensa e mais que verbal conversa entre Diana e Raquel, nunca poderia ter previsto o desenrolar dos acontecimentos que a trariam até esse momento, a esse lugar que, de tão alienígena, estava se tornando mais e mais familiar a cada segundo que permanecia ali.

Tinha sido pega de surpresa com aquela proposta de trabalho para lá de tentadora, era bem verdade, e enquanto subia no rastro de Roseline através desse conjunto espiralado de degraus que pontilhava o caminho para o que ela imaginava ser o cimo do edifício, Clara se deixou regressar ao cenário completamente desnorteador que Diana foi descortinando diante dela nos dias que se seguiram.

Essa moça, de traços delicados e fala mansa, talvez fosse mesmo a única personagem a se mover com certa naturalidade nessa paisagem nebulosa e erma que era o passado da Mecenas de Nantes.

Na noite do mesmo dia em que chegara ao Brasil, Roseline havia acompanhado a francesa e sua filha até a mansão para o que acabou se tornando uma incomumente longa e reveladora visita.

Aconteceu que, durante aqueles poucos mais de trinta minutos em que se viu a sós com Diana no estúdio, Clara foi outra vez surpreendida pela francesa quando assim, tão repentinamente, numa voz baixa e compenetrada, a mulher lhe confidenciou que Roseline nunca havia sido apenas uma simples babá para sua pequena Céci.

Rose, como Diana carinhosamente a chamava, era na verdade uma órfã de pai e mãe que não tinha parentes próximos que pudessem acolhê-la. Durante sua infância perdida em Lyon, quando não estava mofando em algum abrigo público, a garota pulava de emprego em emprego ou sobrevivia nas ruas, enfrentando circunstâncias que já seriam degradantes para qualquer ser humano, quanto mais para um tão jovem e ainda marcado por tamanho trauma. Foi então que, noutro desses trágicos chascos da vida, Roseline acabou sendo violentada por um estranho a quem tinha oferecido do pouco alimento e asilo que tinha. E assim, ela teve sua breve e flagelante estada nas ruas interrompida por uma gravidez indesejada, condição essa que determinou seus passos até a soleira da porta de uma casa clandestina de prostituição da cidade, onde ela enfim encontrou humilde, porém verdadeira guarida com as outras moças que lá viviam.

Seria nessa situação desesperadora que, meses depois, seu destino iria se cruzar com o de madame Grimaud.

Era uma madrugada fria de domingo. Diana, na altura dos seus quase imperceptíveis cinco meses de gravidez, encontrava-se sozinha, ferida e em fuga para qualquer lugar que não fosse o literal inferno do qual havia acabado de escapar. E um bordel de beira de estrada, se um tanto suspeito assim na calada da noite, lhe pareceu ser um lugar suficientemente limpo e mais do que adequado para alguém tão desesperado quanto ela descansar por pelo menos uma ou duas horas sagradas.

Mas não foi bem isso o que aconteceu.

Ainda naquela mesma alva, ela teve que assistir um bebê raquítico não resistir a um nascimento doloroso enquanto a mãe, devastada e jovem demais para sangrar até a morte daquele jeito, lhe implorava para que salvasse o filho. Já no fenecimento da agonia, depois de jurar pela vida da sua filha ainda no ventre que providenciaria um funeral digno para o natimorto, Diana finalmente conseguiu convencer a pobre moça a entrar num táxi para acompanhá-la até uma clínica privada, onde deixou ordens para que Roseline tivesse o melhor tratamento que o dinheiro pudesse pagar.

Foi o que pôde fazer para ajuda-la naquele momento tão infausto de suas vidas.

Sucedeu que, semanas depois do ocorrido em Lyon, uma carta chegou ao endereço de um dos seus escritórios em Paris. Nada fora do comum até aí, uma vez que muitas instituições e outros tantos indivíduos contatavam suas agências diariamente, e nem sempre optando pela cômoda maneira eletrônica.

Contudo, aquela carta era diferente.

‘Madame Grimaud’, estava escrito no verso do envelope azul pálido e simplório. Dentro dele, havia essa folha sem pautas feita de papel machê que espargia um cheiro suave de jasmim, e com mãos trêmulas, reverentes, ela foi desdobrando aquele afeto em forma de mensagem até que seus olhos cansados se depararam com duas palavras solitárias, assim escritas no centro do papel, sorrindo-lhe com tão tristonha gratidão.

As mesmas palavras solitárias que uma garotinha de olhos tão cinzentos e inocentes quanto os daquela moça que salvara em Lyon sempre lhe repetia...

Merci, maman.

E assim foi que, muitas madrugadas frias depois de postar aquela carta, Roseline Charlery recebeu uma ligação que mudou seu destino radicalmente.

Tendo sido convidada para passar uns dias no antigo Condado de Flandres, ela então passou a residir na região sob a proteção de madame Grimaud, que lhe deixou a cargo do pequeno exército de empregados responsável por manter sua palaciana casa de campo em perfeito funcionamento. Ali, enquanto seu seio amamentava a frágil criaturinha de pele rosada e olhos da cor do mar que ela aprendeu a amar como se fossem seus, Roseline também cuidou de uma mãe igualmente arrasada por um parto cheio de complicações e que, graças a sua devotada companhia, teve um final bem mais feliz que o seu próprio havia tido.

Agora, ao rememorar sua reação – para não dizer falta dela – ao tomar conhecimento da história dessa moça a quem Diana em sigilo adotara como filha, Clara sentiu uma pontada amargosa de culpa. Lembrou-se de como havia permanecido em silêncio cético pelo tempo que havia durado a confissão da francesa, observando-a com desconfiança mal disfarçada enquanto o semblante da mulher se abatia a cada palavra pronunciada, mais ainda na parte final do relato.

Mas seu desconforto foi se aplacando no vislumbre que a tomou quando alcançou o último degrau para o exterior da cobertura, e logo um sopro de brisa fresca uniu-se às cores quentes e soturnas do entardecer que se estendia sobre a cidade para suavizar sua expressão.

Assim, enquanto seguia a passada cadente de Roseline através de um corredor assoalhado, seus pensamentos regressaram para o momento em que aquele mar de suspeitas se fez revoltoso pela última vez, quase como um presságio.

Ainda tentava assimilar o que Diana havia acabado de lhe revelar sobre a moça de Lyon, quando vagamente registrou o peso de uma pasta preta dessas executivas sendo depositado em suas mãos. “Leia quando ela estiver dormindo”, a mulher lhe dissera com um sorriso pequeno e, tal como surgiram, aquelas marcas de exaustão foram desaparecendo do rosto dela, o significado daquele inesperado monólogo da francesa, pontuado por profundo enigma como ficou, pesando no ar que se fez ainda mais elétrico entre elas no momento em que Marina retornou ao estúdio de braço dado com uma nada tímida Roseline. As duas eram tudo sorrisos e sussurros, seguidas de perto por Ivan que trotava todo orgulhoso pelas pegadas da fotógrafa, sua miniatura de Diana como sempre empoleirada nas costas, cachinhos balançando no ar.

Naquele instante, ficara óbvio para Clara que Marina havia mantido um expressivo, embora talvez esporádico contato com Roseline durante o conturbado período que foi o pós-parto de Diana, fato esse que a própria fotógrafa lhe confirmara mais tarde naquela mesma noite. E essa descoberta acabou por iluminar um segundo fato, esse ainda mais intrigante, se um pouco dúvida perturbadora.

Estava claro que Diana havia contado uma versão incompleta a Marina dessa parte tão importante do passado dela. Mas por quê?

Clara estava certa de que os motivos da francesa, fossem eles quais fossem, envolviam muito mais do que o provável tormento que foram os primeiros meses de maternidade para Diana. E essa certeza inquietante passou a pulsar em suas têmporas desde então, trazendo com ela uma sensação antiga que sua mãe Chica havia lhe ensinado a não ignorar.

Não importava se auspiciosos ou não, pressentimentos sempre faziam sua cabeça latejar.

Mas, estranhamente, a dor não tinha vindo dessa vez.

Talvez isso fosse um bom sinal...

Já que, até onde Clara pôde sondar entre carícias sonolentas e outras mais vigorosas no começar daquela madrugada, sua esposa parecia mesmo acreditar que Roseline era uma simples e pacata babá. E que, embora ela também notasse o quanto a moça era querida por Cécile e pela própria Diana, em nenhum momento Marina havia demonstrado estar ciente do ocorrido em Lyon. Assim, para ela, Roseline era basicamente uma funcionária paga e muito bem para fazer seu trabalho. Como foi o caso, daquela vez a fotógrafa realmente não aparentava estar sendo evasiva sobre o passado da sua paixão de adolescência como tinha sido até então, logo Clara não hesitou em depositar todas as suas fichas nessa sua forte intuição de que o tal ‘Don Solano’ era mesmo a razão principal para Diana nunca ter entrado em detalhes com Marina sobre o que tinha acontecido com ela nos meses que antecederam o nascimento de Cécile.

Mesmo assim, essa sua conclusão não parecia se encaixar muito bem com o que a própria Marina já sabia a respeito do pai de Diana.

Que ele devia ser mesmo um ‘homem muito perigoso’, como noites antes a fotógrafa havia insinuado, disso Clara já não duvidava. Tinha até mesmo mencionado com a esposa essa imagem que vinha entretendo, a de um gangster muito poderoso, de gostos extravagantes como os da filha se mostravam ser, algum figurão da máfia ou coisa parecida. E quando Marina só lhe forçou um sorriso, preferindo calar-se no seu comentário espirituoso e fingir mais sono do que sentia ao lhe dar um beijo demorado de boa noite, antes de virar para o lado dela da cama e lá ficar pelo que restava da escuridão noturna, Clara finalmente captou, se não a exata, pelo menos uma pálida e preocupante dimensão do dano que esse homem podia ser capaz de causar.

Do sofrimento que ele provavelmente já tinha causado a Diana e até mesmo a Marina.

Mas foi somente depois que os ouvidos da fotógrafa sucumbiram para o silêncio daquela madrugada que os nós em sua cabeça começaram a se desatar...

Cheia de interrogações e certezas pouco reconfortantes, Clara havia se reclinado em sua larga poltrona que ficava no canto do cômodo, próxima a de Marina. Ali, sob a luz fraca de um abajur, durante imprecisos minutos ela permaneceu em silêncio enquanto contemplava a esposa então adormecida na cama.

Finalmente, ela exalou sua inquietação crescente e decidiu abrir a pasta que a francesa havia lhe confiado horas antes, já conformada que estava em passar o remanente da noite folheando páginas e mais tediosas páginas de estatísticas e números infinitos.

Por Deus...

Nada poderia tê-la preparado para o que encontrou no lugar deles.

Foram assim, trêmulas naquela completa ausência de pensamento coerente, que as pontas dos seus dedos deslizaram pela textura encouraçada e envelhecida de uma capa, os olhos fitando aquelas duas letras douradas primorosamente bordadas no centro da face amarronzada do livro.

“CG...”, sussurrara para a quietude do quarto, admirada, e foi então que um alento de pensamento lhe ocorreu, palpitando em seu ouvido que talvez aquele objeto corroído pelo tempo pudesse lhe segredar mais dos mistérios que ainda cercavam a dona de certo sobrenome.

Mas a questão permanecia. Estava mesmo preparada para descobrir o que esse ‘mais’ camuflava?

Sua mente dizia que sim, já seu corpo estava pouco disposto a colaborar com sua curiosidade. Estava tombando de exausta. E como Diana não havia imposto uma data específica para aquela leitura, Clara resolveu colocar o objeto de volta na pasta, guardando-a cuidadosamente na sua gaveta, até que por fim seus membros trôpegos cederam ao chamado das cobertas.

Ou quase isso, já que mesmo repousando num travesseiro, sua cabeça nunca lhe dava o sossego necessário para dormir assim, feito uma pedra como sua esquiva esposa parecia conseguir. Para dificultar ainda mais sua situação, olhar para Marina nesse estado de profunda lassidão, na proximidade tão distante e despida dos sonhos, sempre fazia seus pensamentos correrem selvagens...

Mas, enfim, seu desejo ia ter que esperar até que seu físico estivesse devidamente descansado.

E enquanto suas pálpebras foram pesando e pesando, seus pensamentos foram se derretendo num mundo de oníricos azuis...

Lá, onde aquele tomo antigo lhe revelaria um tanto mais sobre a menina Cécile, cuja existência, até semanas atrás desconhecida pelo vulto da sociedade, começava a ser noticiada como a de uma ‘misteriosa criança’ que do dia para a noite se tornou ‘a única herdeira do patrimônio impublicável de Diana Grimaud’. Patrimônio esse que a própria Diana, em toda a sua aclamada competência para geri-lo, simplesmente havia decidido confiar logo a ela, uma virtual desconhecida com quem, para todos os efeitos, a francesa nunca havia se dado muito bem fora do ambiente de trabalho.

Sim, porque a tal proposta para supervisionar seus negócios desse lado do Atlântico correspondia apenas a uma parte do que Diana planejava para ela.

O que acabou por se tornar manifesto no dia seguinte...

Tendo dormido tão poucas horas na noite anterior, Clara havia optado por aproveitar o conforto quente dos seus lençóis por mais um tempo e depois tirou o finzinho daquela manhã com Marina para relaxar na piscina.

Já passado um tanto do meio dia, o chefe de segurança do complexo, um tipo forte de meia idade chamado Tito, esgueirou-se até a mesa onde elas almoçavam com Ivan no alpendre e, após murmurar um pedido de desculpas pela intromissão enquanto tentava manter aquela carranca sisuda que sempre fazia a fotógrafa rir, o homem lhe entregou um pacote pequeno e maciço que ostentava apenas um ‘Confidencial’ por remetente, escrito à mão e numa caligrafia elegante que, assim como ela, Marina reconhecera no ato.

E como era do feitio de sua escorregadiça esposa, sempre que se tratava da sua relação com a francesa, Marina iria bancar a espectadora alheia só para depois entrar na dança naquele passo manso de malícia que era próprio dela. Não deu outra. A cara lisa dela durou até Ivan se retirar da mesa, e foi só o intervalo daqueles doces e silenciosos cinco segundos para que Clara tivesse que ouvir toda sorte de palpite sobre o possível conteúdo da tal encomenda. Do mais casto ao mais impudente.

Ah, mas não que a desfaçatez de Marina tenha ficado impune. Clara cobrou cada uma das apostas perdidas da sua safa esposa, o que acabou lhe rendendo mais três noites seguidas de sono postergado e dores em partes do seu corpo que nem sabia que existiam.

Bom, também não estava prestes a reclamar. Era mesmo uma dádiva ter uma parceira que a conhecia assim tão... profundamente bem.

E quanto ao que tinha no tal pacote?

Pois bem, nada como uma verdadeira bomba na forma de um insuspeito HD contendo gigas e gigas de dados para levantar o ânimo da sua enxaqueca. E como se isso não bastasse, boa parte dos famigerados arquivos estava criptografada, o que lhe tomou o resto daquela tarde e o dia subsequente inteiro para tornar legível.

Diana e essa enervante mania que ela tinha de testá-la. Era a ideia dela de piada, ao que parecia. E uma muito sem graça, até onde o seu senso de humor negro ousava ir.

Mas, ora, dizer que esses arquivos em particular fizeram extremo jus a palavra que a francesa escolhera para nomeá-los seria mesmo de uma redundância risível, e ainda assim Clara jamais poderia ter mensurado o impacto desfigurador que certas informações contidas naquele hardware causariam a imagem que ela havia construído de Diana.

Essa mesma imagem de uma alma petrificada que foi se erodindo enquanto sua mente processava o que os seus olhos liam naqueles dossiês, cartas, fac-símiles, reportagens, fotografias...

Estavam todos lá.

Rostos conhecidos e outros nem tanto.

Marina, Diogo e a mãe da fotógrafa, Marília. Leonel, Cécile e Roseline. Até capturas suas com Ivan tinham numa das páginas de negativos. De um homem alto de cabelos grisalhos e olhos esverdeados que, pelas descrições nada honrosas, só podia ser o pai de Diana. Também havia uma fotografia antiga de uma mulher loira muito bonita com uma criança de colo. Porém, ao contrário das fotos desse tal Solano de Lancastre, aquela não exibia quaisquer legendas, nem mesmo um primeiro nome. Não que fosse necessário, já que as flagrantes semelhanças físicas entre essa mulher e a sua chefe, especialmente os olhos cerúleos e penetrantes, deram a Clara a exata noção de quem e do que aquela pessoa significava na vida de Diana.

É, ter sido escolhida como confidente de tais coisas havia lhe dado mesmo uma séria pausa, e esse fôlego foi o que ultimamente impulsionou a autorreflexão que, até aquele momento, Clara nunca havia se preocupado em fazer.

Tudo que ela acreditava saber sobre a francesa, o que imaginava ter sido o passado dela com Marina, foi simplesmente se desfazendo diante dos seus olhos. E assim também foi se partindo toda uma cadeia de outros motivos, aqueles que desde o princípio a fizeram julgar essa mulher com maus olhos.

Justo como sempre tentou ser, seu olhar acabou se provando tão míope...

Mas, afinal, os traços dessa pintura começavam a ganhar mais nitidez, muito embora o pano de fundo da história descrita nela ainda aparentasse ser a pior das armadilhas.

O fato era que nunca houve crise alguma na CG Enterprise.

A companhia, que era o carro-chefe de uma divisão do Grupo Duon, conglomerado empresarial para derivados da indústria farmacêutica fundado em Portugal pela avó de Diana, estava indo tão bem das finanças quanto qualquer grande fabricante de componentes eletrônicos poderia ir nesses dias. As incongruências numéricas, a auditoria, o interesse em lhe repassar certas atribuições legais que, para o seu grande espanto, além da tutela de Cécile incluía ainda a curatela de bens no nome de Marina, Roseline e terceiros significantes, isso tudo fazia parte de uma manobra perigosamente oficiosa da francesa que tinha por objetivo sangrar aos olhos públicos um esquema criminoso de proporções internacionais. E nessa teia hedionda onde se enredavam alguns dos associados mais poderosos da divisão, figuravam os mais variados tipos de fraudes e violações como tráfico de pessoas, de influência, espionagem industrial, venda ilegal de armamento e até manipulação de agentes biológicos em zonas de conflito.

Ah, se tinha uma coisa que Clara nunca foi nessa vida, era ingênua.

Quando viu aquele par de olhos verdes marcantes olhando de volta para ela, delineando a expressão de um rosto conhecido estampado na primeira das dezenas de páginas pontilhadas com informações acerca de uma tal Gabriela Torres e suas ‘muitas faces’, ela imediatamente matou a charada sobre o verdadeiro papel que Raquel representava nessa trama toda. De certa forma, descobrir que a secretária de estimação de Diana era na verdade uma agente federal infiltrada não havia lhe surpreendido tanto mais que o fato de que a francesa não só sabia disso, com tinha realizado um finíssimo trabalho despistando a inteligência brasileira até ali.

Sem dúvidas, a situação deve ter se complicado ainda mais quando a relação de interesses conflitantes entre Diana e a suposta Raquel se confundiu com essa atração avassaladora que elas visivelmente sentiam uma pela outra, o que agora tornava completamente imprevisíveis as circunstâncias desse 'disfarce'. Por outro lado, não parecia como se Diana estivesse jogando com os sentimentos da jovem policial, embora tudo levasse a crer que sim. Principalmente porque se a moça resolvesse dar com a língua nos dentes e algo dessa magnitude viesse à tona antes que Grimaud pudesse dar sua cartada final, tanto o legado ético quanto o patrimônio material das suas matriarcas correriam sérios riscos de serem esfacelados irrevogavelmente. E, de acordo com aquelas informações, tampouco a reputação e as posses dos Meirelles sairiam ilesas dessa.

Mas como, em nome do sagrado, Clara poderia ter imaginado um cenário desses?

Nem em seus sonhos mais loucos...

Muito menos teria vislumbrado qualquer circunstância onde a Mecenas de Nantes, conhecida como era por suas muitas extravagâncias envolvendo dinheiro, álcool e descasos amorosos, fosse alguém que financiasse essas ONGs e outras tantas iniciativas solidárias além do universo dos aspirantes das artes.

Era óbvio que Diana tinha a influência e os recursos mais que necessários para fazê-lo se assim quisesse, só que essa não era nem de longe a questão ali. E por mais comovida que ela tivesse ficado com a história de Roseline, isso ainda não seria o bastante para explicar a motivação e a duração de tais ações. Além do que, sua experiência com gente como Diana – podre de rica, prepotente e de moral duvidosa – havia lhe ensinado a sempre desconfiar das boas intenções por trás desse tipo de fomento, já que as chances de quantias tão altas assim serem dispensadas para o benefício de empreendimentos que não visassem lucro imediato, que dirá lucro nenhum, eram praticamente inexistentes e...

“Espera. Mas o que é...”, quase engasgou com a própria saliva e, atordoada com o que acabara de ler, olhou para os lados do atelier para se certificar de que Marina não estava por perto, antes de voltar sua atenção para a tela do notebook, “Meu Deus, isso... Não, isso não pode estar certo...”

Mas estava.

E se tomar conhecimento do que Diana secretamente fazia com sua fortuna havia lhe chocado, saber disso então foi como se seu mundo de repente tivesse se transformado em cinzas...

Tão secas e amargas em sua garganta que mal conseguia engolir.

Não, um achado daqueles não podia ser obra do acaso. Uma casualidade qualquer não teria o poder de lhe deixar naquele absoluto vácuo emocional que perdurou por horas e horas seguidas, até que tudo passou a fazer sentido e ao mesmo tempo não.

Como podia fazer sentido?

Ali, listada entre balanços e gráficos financeiros, exposta daquela maneira tão crua, impessoal, como se fosse apenas mais um dado qualquer de contabilidade, estava uma página fria demais para um diagnóstico.

Uma notícia dessas...

Devastaria Marina por completo, disso não lhe restava a menor sombra de dúvida.

O pior de tudo era que desde então aqueles termos não pararam de girar e se contorcer dentro da sua cabeça, letais como um enxame de abelhas prestes a atacar a pessoa que, ao lado de Ivan, era quem Clara mais amava e tanto queria proteger das crueldades desse mundo.

Mas duas madrugadas depois...

Lá estava ela de novo, sentada em sua poltrona sob o brilho pálido de uma lâmpada, o velho tomo repousando sobre suas pernas tensas.

Depois de tudo que vira naqueles arquivos, enfim Clara havia tomado a forte dose de coragem alcoólica que lhe faltava para encarar essa outra face do seu destino que atendia pela graça de uma entidade mitológica.

Ou, mais precisamente, a face igualmente angélica de alguém relativo, pois com uma semelhança tão fora do comum assim esses contornos que os nós dos seus dedos então traçavam só podiam ser mesmo de um ente da família de Diana.

E enquanto seguia folheando página por página daquela forma livresca, sua dedução inicial de que ela poderia lhe revelar o que ainda restava de oculto no passado de Grimaud foi sendo paulatinamente transformada.

Percebera, não com pouco assombro, que o que então possuía em suas mãos não era um simples caderno detalhando cifras e contos cotidianos quaisquer.

O volume era na verdade um diário que pertencera a ninguém menos que a mãe de Diana.

Claire Grimaud.

Teria rido dessa irônica coincidência de nomes, se ela não tivesse lhe roubado a substância do som por muitos e reveladores minutos.

Até que ouviu aquela vozinha sonolenta flutuar pelo quarto, um balbucio do seu nome entre resmungos manhosos, e então seu riso retornou com força renovada.

Só sua Marina para fazer de uma experiência tão nonsense dessas, como falar dormindo, a coisa mais encantadora do mundo.

Ela, entregue ao silêncio da noite como estava, a nudez envolta no manto casto do sono, não fazia ideia do peso que acabara de tirar da sua consciência com esse gesto tão inconscientemente... vivo.

Assim breve, o momento foi de uma vulnerabilidade tão forte, de uma doçura tão ímpar que...

Clara não sabia dizer se as lágrimas que brotaram em seus olhos foram de alívio ou desespero.

***

Com uma saudação curta e aquele sorriso lampeiro de costume, Roseline havia se retirado praticamente no mesmo minuto em que pusera os pés no último piso do edifício. Foi só o tempo de alertar sua madame Grimaud para a presença de Clara, dar meia volta e sumir como a aparição traquina que ela era.

Da distância em que Clara havia parado, dava para ver o contorno brioso do perfil de Diana, que estava sentada numa cadeira acolchoada posicionada sob o limiar da marquise. À esquerda delas, essa área coberta se conectava a outro espaço mais marmóreo e livre de parapeitos, que oferecia à vista o extenso espelho cianótico de uma piscina panorâmica. Seguindo para a direita estava o heliponto, de onde um enorme pássaro negro de metal acabara de alçar novo voo.

Aparentemente alheia ao girar ruidoso das hélices cortando o céu, Diana tinha o rosto voltado para a cidade entardecida e meia taça de uma bebida avermelhada pendulando nos dedos da sua mão esquerda. Ela parecia tão concentrada em algum ponto indistinto do firmamento que começava a se colorir de laranjas e róseos, o semblante contornado por aquela aura de realeza que lhe era característica, embora sua postura tivesse mudado quase que imperceptivelmente, tornando-se sutilmente mais rígida assim que Clara foi introduzida ao ambiente.

Coisa de uns cinco longos e enervantes minutos atrás...

E, bem, não era exatamente assim que vinha planejando iniciar essa conversa, mas após tantos segundos encarando nada além desse silêncio sepulcral da francesa, Clara já não conseguia mais conter sua ansiedade.

Teve que quebrar essa afonia angustiante dos dias passados. “Como espera que eu esconda... isso da Marina?”, ela pontuou sua questão retórica com um passo brusco na direção da outra mulher.

O silêncio perdurou por mais alguns segundos, até que Diana inspirou levemente. “Não se trata de esconder, mas de ganhar tempo”, replicou num tom impassível, o olhar cerúleo ainda fixo no horizonte.

Nessa, Clara balançou a cabeça e soltou uma risada curta, um ruído seco que nada tinha a ver com contentamento. “E é assim que você pretende ‘ganhar tempo’?”, gesticulou rispidamente para a cadeira onde a francesa continuava despreocupadamente sentada, e foi exatamente essa atitude blasé dela, o tanto que refletia a de Marina naquele momento, que inflamou ainda mais a beligerância com que Clara costumava se dirigir à Diana, “Nem devia estar bebendo pra começo de conversa”, repreendeu-a ao dar outro passo impaciente, esse lhe levando a uma parada nervosa bem do lado daquela mão segurando a taça.

Diana só inclinou a cabeça minimamente no movimento, a voz traindo nada do estado de agitação interior em que se encontrava, “Ah, esse? Não é alcoólico, chérie”, ela explicou naquele tom entediado que sempre fazia o sangue de Clara espessar nas veias.

Tanto que a boca já foi se abrindo para resmungar sua descrença, mas por um momento Clara não conseguiu articular som algum, pega desprevenida que foi pela forma como Diana havia lhe chamado. Se tinha sido intencional ou não, não tinha como dizer pelo tom neutro da francesa. Mesmo assim, vindo de quem veio, o termo de afeto ecoou de forma estranhamente deslocada nos seus ouvidos.

Talvez porque já estivesse habituada a excentricidade dos gêneros trocados com que Diana sempre parecia se dirigir a Marina. Por vezes mesmo a ela.

Mas enfim exalou essa estranheza que sentia para extinguir o que restava de distância entre ela e a chefe. “E... seu pai?”, Clara indagou meio hesitante, os olhos procurando por algum sinal de desconforto na expressão da mulher e encontrando nenhum.

Diana, que mal havia lhe batido um cílio até aquele momento, tomou um gole de sua bebida antes de confirmar, “Don Solano está fora de cena”, então fez uma pausa para outro hausto sem humor, “Por enquanto”

Sentiu seus ombros pesarem em desapontamento. “Por enquanto? Isso não soa definitivo pra mim”, sua mandíbula foi se moendo com as palavras no que Diana lhe lançou um brilho gélido, “E quanto aos arquivos? Você fez parecer que era definitivo neles”

A francesa tardou-se em respondê-la, mas Clara não pôde deixar de notar que a sua reação impertinente fizera o colorido de um sorriso agraciar os lábios de rubi dela, essa curva felina e zombeteira que lhe dizia ‘Não somos tão diferentes assim’, e que se tornava mais oblíqua em momentos como esses, quando elas estavam a sós.

“De fato... eu fiz parecer, não fiz?”, a mulher por fim murmurou como se para si mesma e, após outro instante reflexivo, ela fixou-a com aquele olhar indulgente ao asseverar, “Foi justamente por isso que eu te escolhi, Clara. Você é uma mulher... unicamente perspicaz, dedicada, extremamente leal e convicta nas suas relações. E o mais importante, tem a confiança e o afeto incondicionais da Marina. O que faz de você a pessoa certa pra manter as coisas em ordem quando eu não estiver mais...”, os olhos dela baixaram numa pausa seca, então trilharam novamente para o entardecer no que a boca sorveu um gole e suspirou, “... disponível”

Silêncio.

Foi exatamente assim, silenciosa e cauta até o último fio de cabelo, que Clara moveu-se para tomar assento num sofá que ficava na perpendicular à relíquia em forma de mobília de onde a francesa observava cada movimento seu por baixo de cílios pesados, ainda bebericando o tal drink supostamente abstêmio dela.

E antes que essa ausência de palavras se prolongasse ainda mais, sua voz enfim conseguiu articular a pergunta que há dias vinha lhe tirando o sono. “Esse tratamento. Você acha que vai... Acha que pode funcionar?”, Clara forçou as palavras contra o nó inexplicável que se formava em sua garganta.

Enquanto considerava a questão, Diana reclinou-se mais relaxadamente em seu assento e pousou sua mão com a taça agora quase vazia sobre o braço aveludado da cadeira.

“Até onde fui informada, existe uma... mínima possibilidade. Praticamente nula”, ela ponderou, e no que a outra mulher visivelmente enrijeceu no sofá, Diana prosseguiu num tom mais compenetrado, “Clara, eu posso morrer amanhã, daqui a dois meses ou dois anos. Aliás, o fato de eu estar aqui hoje, respirando, pode ser considerado mesmo um milagre. Mas o que isso importa no fim das contas?”, no que falava, a ponta do seu dedo médio circulava pela borda da taça, um gesto reflexivo que atraiu um olhar hesitante de Clara e espalhou-se na forma de um sorriso melancólico no rosto da francesa, “Não... Não é da morte que eu tenho medo. A essa altura, não existe muito desse mundo que eu não esteja disposta a encarar por uma chance de... permanecer nele. Bom, pelo menos até que Cécile tenha amadurecido o suficiente pra ter lembranças minhas que não sejam apenas fotografias...”, nessa, olhos de um castanho líquido a fitaram sob um cenho franzido, para o que ela arriscou um pouco de leveza, “Eu já enganei o destino uma vez, chérie. E se tiver que fazer de novo? Que ele me perdoe então, porque eu não tenho a menor intenção de me mudar pro paraíso tão cedo”, o riso grave e baixo com que rematou suas palavras pareceu perturbar ainda mais a outra mulher, então Diana foi serenando até que por fim suspirou, “A verdade é que... eu tenho razões inestimáveis pra querer continuar vivendo”

“Quais razões?”, e saiu assim, embargado com essa emoção estranha e sufocante que não conseguia definir direito, mas que agora se infiltrava com tanta facilidade em suas veias, evocada pelo simples pensar nessa mulher.

Os segundos foram passando e Diana nada esboçava por resposta. Ela apenas a olhava daquele jeito desconsertante, a expressão quase inumana de tão imóvel. Até que, finalmente, depois de anos regados a muita indiferença e alguma farpa, Clara se viu diante do impossível.

Sim, tinha visto Diana abalada antes. Aquela única vez no hospital, quando havia recebido a notícia da condição crítica em que Marina se encontrava. Mas tal ocasião foi o mais perto que chegara de notar qualquer vestígio de lágrima nos olhos gelados dela.

Agora, nesses quase enlouquecedores quinze segundos que antecederam o momento, ela esperava uma miríade de coisas para acontecer, menos ver aquelas duas pequenas gotas rolarem pela tez pálida e inexpressiva de Diana.

Foi de uma crueza, de um amargor na boca presenciar tão repentino tumulto de emoções num único e solitário olhar direcionado a ela, que teve que se segurar com força nas bordas do sofá para não se levantar e fugir dali, para não virar o rosto e simplesmente... negar-se a ver.

Até que assim, do vazio como veio, o caos nos olhos dela se foi. Um instante depois Diana secava o rosto discretamente e se erguia do seu assento, vagarosa e hipnotizante tal como uma felina selvagem preparando o bote. Passos depois e a taça vazia havia desaparecido da mão dela, aqueles olhos marejados agora já tão próximos dos seus que Clara podia sentir a respiração quente e levemente adocicada dela vibrando contra seu rosto.

Como era possível alguém estar sob a iminência da morte e exalar tanta vida, tanto calor?

Clara não fazia ideia. E muito menos entendia como Diana conseguia encarar um fado cruel desses assim, de maneira tão... conformada.

Ou talvez ela só desejasse a proteção da indiferença.

Ainda assim, naqueles instantes roubados do tempo, enquanto o calor dela se aproximava do seu, tão fluido e femíneo, eliminando o último dos vazios frios entre elas, não podia conceber qualquer centelha de razão para explicar tamanha injustiça.

Porque era injusto e sempre seria.

E por mais que o de Diana nunca tivesse sido um jogo limpo, a verdade era que com essa mulher não existia páreo possível.

Essa não era uma competição que podia vencer.

Porque, lá no fundo, Clara sempre soube.

Não foi contra Diana que lutou esse tempo todo.

Foi contra si mesma.

E ainda lutava, remava contra a maré.

Era o que lhe restava, afinal.

Mas, ah, como era fácil e prazeroso resistir a ela...

“Quais, Diana?”, dessa vez não passou de um sussurro, um que logo foi engolido em seco quando os nós dos dedos dela, sempre tão delicados, traçaram o desenho forte do seu queixo.

“Você...”, ela surpreendeu-lhe com um beijo suave nos lábios, então se afastou apenas o bastante para olhá-la no olho e venturar, “... gostaria de ser uma delas?”

Xeque-mate.

Seu. Dela.

Não sabia dizer de quem, também não importava mais...

Até tentou falar, mas falhou gloriosamente. Só conseguiu menear que sim, queria muito ser uma das razões dessa mulher. Queria ficar assim por um longo, longo tempo, embriagada com a proximidade dos corpos, e ainda sóbria o suficiente para tentar decifrar o que parecia ser um último mistério flutuando naquele olhar azure tão triste e incitante quanto um certo amendoado que Clara adorava.

Foi aí que Diana sorriu, e as mãos dela foram como um veludo deslizando por seu pescoço no que a boca suspirou contra seus lábios, “Então seja”

“Só... por enquanto?”, sua voz tremeu só um pouco no gracejo, o que, no grande esquema das coisas, Clara considerou uma enorme vantagem.

E se esse mel de sorriso que se derramava pelos cantos da boca escarlate dela era qualquer indicativo, seu cintilo de ousadia divertira a francesa imensamente.

“Vem”, a mulher instou-lhe numa voz docilizada pelo riso ao se colocar de pé na sua frente, mão direita estendida em convite e olhos azuis faiscando nos últimos resquícios de luz solar, “Eu tenho uma coisa pra te mostrar”, claramente, sua não tão sutil insinuação também surtiu sérios efeitos nos humores mais úmidos de Diana.

E quando olhou para aquela mão, notando certa palidez na pele e as linhas mais profundas que sulcavam a forma de um ‘M’ na palma pequena, por fim de volta naqueles olhos que eram um par de fendas azuladas a devorá-la, Clara teve a certeza.

É, dizem que quem brinca com fogo acaba se queimando.

Mas ela não era a única prestes a se queimar ali, embora a sua situação fosse bem mais atordoante. Porque era essa a sensação que os dedos de Diana evocavam, movendo-se assim como chamas delgadas, estranhamente frias, lambendo sem quase tocar a palma da sua mão esquerda que pairava sobre a dela.

Ela pacientemente a esperava, esse precipício feito em carne e osso que sempre a assombrou e a atraiu em iguais partes.

E por ela ser esse diabo tão angelical, Clara não conseguia encontrar falta nessa mulher. Não mais. Não quando ela se oferecia assim, como um abraço tenebroso de asas divinamente rasgadas pelas garras dessa vida sem pudores e violenta que Diana levava.

Bem, se essa era a sua oportunidade para despedaçar aquelas asas por inteiro...

Nem que fosse por uma única e última vez...

Clara iria abraçá-la com todas as suas forças.

Notas finais
"Waiting for the end to come..." https://www.youtube.com/watch?v=qBYc0XVU7Qw