Perchance

14 Latente


Notas iniciais
Nota 1: Não olhe, não olhe, não olhe... Nota 2: “E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.”

Aprendera com sua mãe enxadrista o valor da paciência e a arte da estratégia. De seu pai português, herdara a inclinação para as artes, assim como o temperamento colérico e sedutor.

Era o que o seu pai lhe dizia, que se um dia seu pequeno raio de sol conseguisse se equilibrar entre esses dois pesos, teria um mundo de oportunidades aos seus pés.

E ela tinha conseguido. Mais que isso, desde muito jovem havia suportado e vencido a guerra entre os dois lados do tabuleiro antes que enfim ele se quebrasse e as peças desmoronassem sobre sua cabeça. Nunca culpou a mãe por ter deixado seu pai, mas foi só com a morte dela que Diana teve a real dimensão de quem era aquele homem. E sua mãe não a deixou desamparada no fim, o que lhe garantiu aquele mundo dos tantos azos. Já o quanto pôde desfrutar dele? Era outra história. Nem tudo em sua vida foi tão fácil como se costumava divulgar nos tabloides, afinal.

A verdade é que, com a rara exceção de um movimento mal calculado aqui e ali, Diana Grimaud ia até as últimas consequências para conseguir o que queria.

Chegou lá todas as vezes.

E estava tão perto de um xeque-mate agora...

Não seriam alguns óbvios momentos de intimidade entre as duas que iria tirá-la do caminho que havia traçado.

Era de se esperar que, depois de tudo o que Marina passou recentemente, ela se reconectasse dessa maneira com a mulher com quem então dividia sua cama.

Não, esses pequenos tropeços no caminho não a abalavam.

Pelo menos não tanto quanto Clara gostaria...

Diana sorriu maliciosamente nesse pensamento, enquanto seus dedos giravam a pequena colher vagarosamente, o azul gelado de seus olhos acompanhando o movimento das lasquinhas de chocolate que se diluíam na mistura fumegante e mentolada dentro da xícara.

Sua conexão com Marina era bem mais profunda que isso, ia muito além do mero desejo carnal.

Ela não teria permanecido no Brasil se assim não fosse...

E ambas, Clara e Diana, sabiam disso, tanto quanto sabiam controlar suas pulsões mais controversas quando se tratava da fotógrafa.

Diana não admitiria isso em voz alta, obviamente, mas admirava Clara por ter conseguido domar em Marina o que ela havia demorado tanto tempo pra laçar.

Mas aquelas foram outras estações, outros ventos, eram tão jovens...

Sim, Clara tanto sabia disso que, exceto naquela ocasião do beijo à beira da piscina, e mesmo quando visivelmente se contorcia por dentro ao saber ou mesmo pensar nelas juntas, não cedia assim tão fácil às provocações da francesa. Só que, como todo bom, porém inexperiente oponente, a mulher acabava por cantar sua jogada em certas rodadas. Ora deixaria transparecer que não subestimava a força dessa estranha ligação entre Diana e sua companheira, ora assumiria o risco de sua crença ingênua na declarada devoção da fotógrafa a ela, devoção essa que supostamente teria o poder de proteger a relação das duas, de superar qualquer passo desviante que pudessem dar fora daquela rota para o “final feliz” que sua outrora pupila havia apontado, e que Clara seguia sem olhar para trás...

Mas e o que dizer do inesperado relance para o lado? Aquele que talvez não tivesse sido deixado para trás?

Pensando bem nisso, aquela conversa com o tal Cadu foi bastante elucidante, pra não dizer... um tanto revigorante.

Mas poderia mesmo haver uma rota para o revés ali? Ou um desvio muito mais perigoso se ocultava sob aquela fachada de “felizes para sempre”?

Talvez, e a francesa estava ciente de que era só um talvez, esse seu palpite tivesse raízes sólidas no solo fértil da realidade de Clara.

Talvez houvesse mesmo uma explicação diferente para toda aquela história que ele contou, para esse passo em falso da carioca.

E, para tirar a prova, para forçar Clara a sair do seu lugar trancado e seguro de onde ela sempre observara tudo acontecer a seu favor, seria preciso içar velas na mesma exterioridade profundamente transparente e perigosa em que ela navegava.

Diana sabia o que fazer, só lhe faltava a oportunidade certa...

Não costumava atirar num escuro tão claro assim, mas, se esse fosse o caso, de uma coisa estava certa, era uma roleta russa das mais letalmente prazerosas e intoxicantes essa que estavam jogando ali. O tipo de duelo em que, no fim, sobrevive quem é capaz de suportar o peso mais pesado, de ceder e deixar que cedam ao algoz mais cruel que é a vida deixada por viver...

Mas, ainda assim, precisava ter a cautela necessária nesse destemor pelo desencanto.

Se havia uma coisa que aprendera com sua falecida mãe, essa foi a lição mais ética e vital: a de que nós, humanos, somos tão atraídos para o proibido quanto a faísca é para o oxigênio.

O fato inescapável era que Diana também tinha essa veiazinha fina sob a pele pálida em seu templo e, toda vez que aqueles pensamentos calorosos sobre a mãe queriam flutuar para derreter o mar gelado de sua mente, o sangue do pai sempre pulsava mais espesso e turvo nela para fazer sua cabeça latejar e empedrar novamente...

La douce illusion d’amour...”, murmurou para si mesma com um suspiro pesado, então seus olhos azuis se fecharam brevemente quando provou do líquido quente e levemente adocicado.

“A senhora disse alguma coisa?”, Sônia perguntou cautelosa enquanto ajeitava-se desconfortavelmente na cadeira do outro lado da mesa, a xícara intocada entre as mãos.

“Nada, mon petit”, a francesa sorriu de canto e continuou bebericando seu chá calmamente. Seu olhar desfocado fitava a moça vez por outra, perdendo-se por alguns instantes nos trejeitos simples porém encantadores da empregada, até que Diana notou o desviar rápido dos seus olhos escuros e riu em chiste quando Sônia quase engasgou na própria saliva ao voltar a encará-la de olhos arregalados.

“Ah, quando ela fala ‘mon petit’, ainda tem como escapar...”, uma voz conhecida soou da entrada da cozinha atrás dela e os lábios de Diana se espalharam mais felizes pela borda da xícara, “Mas no dia em que ela te chamar de ‘mon chéri’? Aí, Soninha, você tá perdida”.

Quando a empregada só fez um ruído baixo na garganta e apertou ainda mais a xícara entre os dedos tensos, Diana colocou seu chá de lado na mesa e girou em seu assento.

O azul gelado nos seus olhos, o riso irônico na sua garganta, tudo derreteu no espaço de um segundo.

E não, a espera não teria sido menos arrebatadora...

Ali, parada sobre o umbral da passagem entre os cômodos, um ombro nu recostado na quebra da parede, o corpo brilhando no leve suor por baixo daquela camisa longa e escandalosamente desabotoada, os cabelos negros e selvagens contrastando com o tecido vermelho amarrotado, Marina mais parecia uma fera recém solta da jaula.

Diana piscou devagar, as sobrancelhas arqueando ligeiramente, e teve mesmo que engolir contra a repentina salivação em sua boca.

Não, não era o sexo pelo sexo, mas em momentos como esse em que se tornava quase impossível não se deixar enfeitiçar pela energia lúbrica que exalava dela... Não tinha como negar a essência do que sempre sentiria por Marina.

Do que qualquer mortal no seu lugar sentiria por essa mulher...

Foi só quando Marina deu um passo e sorriu de canto, movimento esse que relevou aos olhos das outras duas mulheres o que ainda restava da inocência naquele momento, que Sônia finalmente conseguiu a presença de espírito necessária para se levantar da cadeira com um grunhido nervoso.

“Ah, dona Marina... Fico feliz que a senhora esteja assim, hum... tão bem disposta depois de... tudo... e...”, já que as palavras teimavam em frustá-la, Sônia gesticulou bruscamente na direção da porta atrás dela antes de balbuciar, “E acho que é melhor eu cuidar do meu serviço, agora. Com licença”, a moça lançou um último olhar esgueiro para a francesa, que ainda parecia transfixada pela visão do pecado que agora se sentava do seu lado na mesa, então balançou a cabeça no sorridente “Obrigada, Soninha” da patroa como se tentasse afugentar um pensamento abelhudo, até que por fim desapareceu pela porta dos fundos a passos rápidos.

“Como você faz isso?”, perguntou segundos depois, meneando a cabeça vagamente.

Marina sorriu faceira. “E o que seria 'isso', exatamente?”

Diana franziu as sobrancelhas, o olhar então seguindo os dedos da fotógrafa que deslizavam pela mesa, até que encontraram a bandeja com as frutas frescas que Sônia sempre deixava ali no centro.

Isso...”, a francesa gesticulou para o ar, “Você se move por toda parte como se não estivesse...”, o som molhado da mordida que Marina deu na maçã a distraiu por um instante, o suficiente para que a fotógrafa se adiantasse.

“Cega?”, disse a palavra como se fosse uma trivialidade qualquer, arrancando outro pedaço da fruta suculenta em seguida, "Fala como se eu não conhecesse a minha própria casa... Eu projetei e montei todos esses espaços, Diana. Sei onde fica cada rachadura e tábua solta nesse lugar", Marina murmurou, rindo um pouco entre mastigações distraídas.

Diana suspirou, resolvendo deixar por isso mesmo, “Você entendeu o que eu quis dizer...”, falou num tom mais manso, deslizando as costas de sua mão pela coxa nua onde a mão direita da fotógrafa repousava, até que as pontas dos seus dedos encontraram uma palma quente e se aninharam ali.

A mandíbula de Marina continuava se movendo, metódica e vagarosamente, enquanto aqueles dedos acariciavam e incitavam faíscas na sua pele. Era incrível que depois de tanto tempo, e mesmo agora que não podia ver a francesa, ainda fosse capaz de perceber até a mais sutil mudança na respiração dela, de reconhecer a intenção por trás de cada nota daquela voz, de distinguir o perfume natural e tentadoramente feminino que Diana exalava...

Mordeu a maçã com mais força dessa vez, mas de outra forma Marina não se moveu em seu assento, os olhos semicerrados voltados vagamente para a outra mulher.

Um tanto contrariada pela aparente distração da fotógrafa, Diana suspirou antes de pegar um dos cubos de chocolate de dentro da pequena caixa decorada que havia deixado na mesa meia hora atrás. Olhou-o por um segundo ou dois e então o colocou delicadamente na mão que agora acalentava na sua.

A fotógrafa encolheu os dedos devagar para sentir o que havia sido depositado em sua mão, as sobrancelhas franzindo levemente, até que um sorriso fácil se espalhou em seu rosto.

“Mon Chéri”, seus olhos encapuzados se alargaram por um instante, brilhando na lembrança de uma outra manhã, essa ensolarada e muitos anos atrás.

Diana sorriu, satisfeita com a reação da fotógrafa dessa vez, então acenou com a cabeça embora soubesse que Marina não veria, “Ainda é seu favorito?”

“Hmhm...”, e lá estava aquele sorriso safo fazendo sua aparição novamente, “É meu favorito, sim, junto com aquele caseiro delicioso que você faz... Como você chamava, mesmo? Ah! Mon Petit!”, e nessa Diana a castigou com uma tapinha estalada no braço, fazendo Marina rir baixo com aquele ar ainda mais zombeteiro.

“Dia desses eu vou abrir a minha própria franquia internacional de chocolates, e a marca vai ser um sucesso, sim, senhorita. Aí eu quero só ver se você vai rir da minha cara quando eu for o dobro mais rica e poderosa”, a francesa brincou enquanto insinuava seus dedos entre os de Marina de novo. Depois que conseguiu surrupiar o chocolate da fotógrafa, ela o desembrulhou do papel vermelho cintilante e o levou entre polegar e indicador até os lábios dela, pressionando a iguaria de leve ali até que a outra mulher abriu a boca, “Me diz se nota a diferença...”

Diana sentiu aquele primeiro raspar de dentes afiados e o roçar dos lábios macios em partes definitivamente mais baixas e sensíveis do seu corpo, mas o destino foi generoso com ela naquele momento, porque as pontas dos seus dedos não eram o único recurso que tinha para canalizar as sensações a seu favor ali.

Uma oportunidade assim era o que precisava.

Não podia ser desperdiçada ou mal calculada.

Sorriu quando a fotógrafa fez menção de morder o chocolate entre seus dedos outra vez, então afastou sua mão do rosto dela num movimento que ao mesmo tempo inclinou seu corpo mais perto da outra mulher.

Marina pareceu pressentir sua aproximação repentina e virou o rosto no último instante, mas não o suficiente para evitar que os lábios de Diana lhe tocassem o canto da boca brevemente.

Clara, que acabara de descer as escadas e se aproximava da entrada do outro cômodo com uma expressão curiosa no rosto, também não foi poupada da cena e na distância em que vinha seus passos pararam de uma vez.

Virou a cabeça ao afastar-se de uma Marina ainda silenciada na surpresa, seu olhar era fogo azulado quando capturou o castanho empalidecido que a fulminava da entrada da cozinha.

Diana sorriu, maliciosamente fria. "Ah... Bom dia, mon chéri. Recebi sua mensagem e vim assim que pude. Então? Que assunto urgente é esse que precisa tratar comigo?"

Notas finais
Eu disse pra não olhar... *volto já, já*