Notas iniciais
Nota 1: Some of them want to use you, some of them want to get used by you…

Respirou fundo antes de engolir contra a bile que subiu em sua garganta.

Tentava manter a expressão neutra, mas a verdade é que sua compostura era reduzida a fiapos quando essa mulher estava por perto. A frieza afiada no olhar dela, a mordida no tom grave e maledicente da voz, aquela mão que segurava a de Marina sempre tão intimamente...

Clara não saberia dizer exatamente o porquê, mas sentiu um leve suor frio se espalhar por seu corpo quando Diana lhe questionou sobre a mensagem que havia enviado na tarde anterior.

Mas agora isso pouco importava.

Havia algo que lhe incomodava muito mais que a estranha insinuação da francesa. Era esse silêncio prolongado de Marina diante do que a sócia acabara de fazer e que não podia ser mais preocupante, especialmente depois de tudo o que aconteceu na madrugada passada, do que ainda acontecia há poucos momentos nessa manhã...

Embora sentisse que estava no seu limite, sabia que mesmo a menor demonstração de insatisfação com o que presenciara ali poderia significar muitos passos atrás nessa tortuosa caminhada para reconquistar a confiança da sua companheira. Além do que, de onde Clara pôde ver a cena dessa vez, Marina provavelmente tinha sido tão surpreendida quanto ela pelo ardil de Diana.

Ou assim ela queria acreditar.

Mas o que mais poderia fazer naquele momento a não ser jogar conforme as regras da francesa? O que lhe custaria se não apostasse no subterfúgio?

Nada que já não tivesse perdido uma vez, mas era tudo o que não estava disposta a arriscar novamente.

Então, quando finalmente aqueles olhos machucados voltaram-se na sua direção, Clara teve sua resposta.

Ela só não sabia se seria assim tão boa jogadora para provocar o destino, mas com a graça de um anjo caído foi se aproximando, uma cadência no passo descalço que fazia as barras da calça de moletom clara que usava se arrastar pelo chão da cozinha como um sibilo venenoso. A regata branca colada em seu torso evidenciava a tensão nos músculos e o bronze na pele, embora o cabelo preso num rabo de cavalo bagunçado lhe desse um ar mais leve e juvenil.

É, talvez não fosse assim tão astuto e elegante demônio quanto Diana, mas quando suas mãos foram para os lados do rosto de Marina, seus lábios descendo até os dela para provar daquela exótica mistura de licor, cacau e frutas na língua que se demorava no beijo, seus ouvidos captaram dois ruídos distintos e reveladores.

Um suspiro trêmulo da francesa e o gemido baixo que a fotógrafa deixou escapar entre seus lábios.

Se não compreendeu tão bem o significado daquele primeiro, mas o tomou como um pequeno triunfo para si, o segundo, ah, esse som ela sabia interpretar como ninguém.

Esse som traduzia o doce sabor da reconquista em sua boca...

Quando enfim interrompeu o contato entre seus lábios, Clara subiu vagarosa para sua altura e se colocou de pé ao lado da cadeira em que a fotógrafa estava sentada, então escorregou sua mão esquerda para a nuca dela para que seus dedos pudessem massageá-la atrás das orelhas. Marina se derretia e ronronava como uma felina doméstica quando era afagada ali.

Clara baixou o olhar por um instante e sorriu satisfeita ao ver aquela expressão adoravelmente desnorteada no rosto da esposa.

Seu sorriso cresceu mais faceiro ao confirmar que Diana já não segurava a mão da fotógrafa, a mesma mão que agora era uma garra de dedos que apertavam a barra da camisa sobre a coxa nua, enquanto a maçã mordida foi esquecida entre os dedos bambos em cima da mesa.

“Só a sua sócia mesmo pra te fazer demorar tanto pra voltar pro quarto, não é, amor?”, indagou a companheira com leveza praticada na voz, embora seus olhos castanhos não deixassem os azuis da mulher que agora a encarava com uma expressão inescrutável.

Nessa, a boca da fotógrafa pendeu ligeiramente aberta, como se esperasse que as palavras certas a socorressem, mas logo se fechou com um grunhido baixo assim que Marina sentiu um não tão sutil raspar de unhas na pele detrás do seu pescoço.

Diana não deixou de notar o embaraço da fotógrafa com a situação, o que fez o canto da sua boca curvar minimamente enquanto seus dedos começaram a tamborilar maquinações no mármore frio da mesa.

“Ah, e bom dia pra você também, Diana. Não te esperava tão cedo”, cumprimentou a francesa segundos depois, abrindo um sorriso bem humorado demais pra ser genuíno quando acrescentou, “Você pode, hm...”, fez um gesto pro lado com o polegar da mão livre, “... esperar só um minutinho lá na sala?”

Diana segurou seu olhar por mais uns enervantes dez segundos, sem dizer uma palavra ou mover um músculo, até que por fim olhou de relance para o relógio retrô que ficava na parede ao fundo. Os ponteiros marcavam exatas oito horas.

Inspirou levemente ao se levantar da cadeira, movendo-se devagar como quem nada anseia da vida. Então na altura dos seus saltos, o olhar da francesa se tornou mais intenso sob os cílios pesados, o vermelho fechado em seus lábios cheios se espalhando em um sorriso lascivo.

Clara piscou, tentando mascarar a confusão que a súbita mudança na linguagem corporal da outra mulher lhe causou. Quando então Diana deu um passo curto à frente e inclinou ligeiramente a cabeça para lhe dar aquele olhar de soslaio característico dela, mensurando-a de cima a baixo como faria a uma peça de carne, ou talvez a uma obra de arte, Clara se pegou engolindo em seco.

Em silêncio a francesa fitou-lhe os olhos castanhos uma última vez, em silêncio virou para deixar a cozinha na passada demorada e gatesca que Clara há tempos aprendeu a associar àquela da sua fotógrafa favorita...

Balançou a cabeça para espantar o pensamento traiçoeiro, então voltou sua atenção para Marina que continuava sentada e calada, os olhos semicerrados mirando vagamente o rastro invisível deixado por Diana.

Levou suas mãos para o recosto da cadeira, segurando firme para que pudesse virá-la com o peso de Marina só um pouco mais na sua direção, então balançou a cabeça para aquele sorriso cheio de intenção que se esgueirou no rosto da fotógrafa quando se sentou no colo dela.

Logo em seguida já sentia um par de palmas quentes subirem pelo algodão grosso que cobria suas pernas, deslizando até seus quadris, então eram dedos espertos que se infiltravam pela barra inferior nas costas da sua regata.

Dali não passou.

Suas mãos seguraram os antebraços da fotógrafa, impedindo qualquer avanço.

“Ah- Ah...”, vocalizou com um riso rouco, apertando-lhe os pulsos com certa força enquanto diminuía a distância entre seus rostos até que pudesse sussurrar contra os lábios entreabertos, “Você tá de castigo, mocinha”.

Nessa, Marina se encolheu um pouco, fazendo a cara mais inocente do mundo. “De castigo? Por quê?”

Clara queria estapeá-la ali, mas só conseguiu rir da atitude virginal que a fotógrafa bancava na sua cara deslavadamente. Meneando a cabeça, repreendeu-a num tom brincalhão, “Essa carinha de santa aí não me engana, não... Mas nem por um segundo!”.

“Mas eu juro que não fiz nada”, murmurou naquele tom manhoso, o mesmo que fazia Clara morder o canto do lábio em antecipação, “... não dessa vez”, e lá estava ele, o sorrisinho culpado.

“Sinceramente, viu? Não sei onde eu estava com a cabeça quando aceitei me casar com a primeira fotógrafa linda, famosa e cara de pau que vi pela frente”, Clara resmungou sofregamente para o sorriso safo que se delongava no rosto da outra mulher.

Sorriso esse que se desmanchou naquele riso baixo e cínico que encheu seus ouvidos de deslumbre e inquietação.

“Eu sei onde...”, sussurrou-lhe contra os lábios e moveu-se como se fosse beijá-la, mas então Marina flexionou e girou os pulsos repentinamente, soltando-se do seu aperto. Depois disso, não houve tempo nem vontade de reagir, já sentiu uma mão firme na sua nuca, puxando-a para baixo e mais perto, enquanto a outra capturou sua mão direita, arrastando-a para baixo pela barriga chapada, seus dedos deslizando no espaço apertado entre elas, entre a calcinha e a pele macia, até que se curvaram instintivamente no sexo encharcado da fotógrafa que gemeu, “... bem aqui”.

E foi ali, sempre na pele, no toque, onde os papéis se invertiam com uma facilidade avassaladora entre elas, que Clara se viu encurralada em sua própria armadilha, caçadora e presa de si, dela...

Suspirou tremulamente quando seus lábios foram forçados a engolir a inocência fingida daquela língua sedenta que perseguia a sua num frenesi molhado e quente. Aqueles dedos espertos, que agora se esgueiravam por baixo do tecido elástico da sua regata, arrancavam arrepios da pele aquecida em suas costas, e não demorou até que aquela umidade ardente que sugava sua língua fizesse outra ainda mais insistente começar a pulsar entre suas pernas.

“Hm, você e eu...”, ofegou no beijo, pressionando os dedos em círculos mais rápidos, o que fez Marina sibilar na sensação e arquear contra seu corpo, “... vamos ter uma conversa...”, gemeu baixo quando aqueles dentes afiados mordiscaram-lhe o queixo, “hmm, muito, muito séria...”, a fotógrafa mordeu seu lábio inferior e Clara murmurou, rendida, “... mais tarde”.

“Já estamos conversando... sério... agora...”, exalou as palavras erráticas, já se rendendo aos efeitos do seu orgasmo iminente, “Não para...”

Nem se quisesse.

Aquela sensação eletrizante do escondido, do marginal e pecaminoso a tomava, fazia seu corpo inteiro vibrar naquele momento.

Não conseguia pensar em nada que fosse comparável a excitação causada por esse irresistível proibido feito de carne e osso, a essa vitalidade impura e insana que parecia ter possuído Marina e a arrebatado junto com ela, aos prazeres mais cruamente simples que estava redescobrindo ao lado da sua companheira.

Não, não queria, nem sentia como se pudesse parar.

E, minutos depois, quando a sentiu estremecer em seus braços, os dentes se amolando e os lábios se derretendo na curva dura da sua mandíbula num gemido abafado e trêmulo, Clara teve a certeza absoluta de que não havia nesse mundo como comparar.

Segundos depois que sentiu um último tremor arrepiante subir pelas costas da fotógrafa, a ouviu murmurar num beijinho em seu pescoço, “Vai pra Galeria hoje?”

Suspirou. Marina não tinha soado tão blasé assim na noite passada...

Mas resolveu ignorar o pensamento por ora, afastando algumas mechas errantes do rosto da fotógrafa antes de acalentá-lo entre suas mãos, os polegares desenhando círculos vagarosos nos templos da companheira.

“É, tenho uma reunião pendente com alguns dos expositores que não posso mais adiar. E depois vou dar uma passada na dona Chica pra matar a saudade do meu filhote. Vou apertar tanto ele, mas tanto, que o bichinho só vai querer me ver daqui a um mês...”, sua voz embargou no fim, mas tentou disfarçar com um riso, ainda que melancólico.

Marina franziu as sobrancelhas na menção do garoto, tentando focar naquele borrão de olhos castanhos que a fitava de tão perto, “Sei que era pra ser só por uns dias, e que você achou melhor assim, por causa da mudança na nossa rotina depois do acidente e... esse meu problema de memória, mas...”, um suspiro pesado deixou seus lábios, enquanto seus braços se apertaram em volta da cintura da companheira ao falar seriamente, “Essa é a casa dele, Clara. Não tem por que ele não estar aqui com a gente”.

Clara piscou, surpreendida. “Sério? Quer dizer, tem certeza que não... sei lá, que não vai te atrapalhar nem nada?”, perguntou-lhe rápido num tom esperançoso, embora Marina também tivesse percebido uma nota de receio na voz dela.

“Claro que não, sua boba”, balançou a cabeça com um riso, então lhe perguntou numa voz pequena, “Você não quer que o Ivan volte a morar aqui? Como era... antes?”

Como era antes.

Sentiu uma alegria tão imensamente pura ao ouvir essas três palavras da boca de Marina que até desculpou o tom casual que a fotógrafa usou instantes antes.

Um sorriso apaixonado iluminava o rosto de Clara agora, seus olhos castanhos tinham um brilho de lágrima quando sussurrou, “Como era antes...”, ecoando as palavras da companheira, “É o que eu mais quero, Marina,” uma pausa, então seu sorriso mudou, ficou mais maternal, “Nosso menino vai ficar tão feliz... Só não mais feliz que eu em saber que... que você se lembra de nós assim, como uma família”, confessou-lhe sincera, enquanto seus dedos reverentemente acariciavam o rosto e os cabelos da esposa.

Marina meneou a cabeça com um sorriso singelo e nada mais foi dito.

Palavras eram desnecessárias ali, quando ambas compreendiam muito bem o significado do silêncio que perdurou sobre Ivan durante os dias em que Marina se recuperava do pior de suas lesões físicas.

Silêncio esse que durou semanas e persistira até instantes atrás.

Não que Clara não soubesse o quanto a presença do filho era importante e querida por Marina. Sabia que a fotógrafa suportava calada a falta que sentia dele, mas ao mesmo tempo temera e ainda temia que o menino, mesmo que sem querer, acabasse por evocar na sua companheira memórias que não podiam ser trazidas à tona sem o cuidado necessário.

Mais alguns momentos se passaram em que ambas permaneceram caladas, um silêncio mais leve embora profundo em pensamento, até que Clara fungou baixinho e murmurou, “Bom, então... Eu vou me trocar e...”, suas sobrancelhas franziram no lapso, então espalmou uma mão no rosto, “Ah, é... Antes eu preciso acertar uns detalhes de, hum... logística com a sua sócia”, e nessa Marina sorriu de canto, notando o tom ligeiramente debochado da esposa.

Clara revirou os olhos em exasperação antes de lhe apontar um dedo acusador que Marina mal viu, “E você ainda tá de castigo!”

A fotógrafa riu na cara dela, ainda mais debochada, “Sim, senhora. Mas eu posso saber qual vai ser a minha punição dessa vez?”

Clara cheirou o ar, fingindo indiferença, “Ainda não sei, vou pensar no seu caso”.

“Ah... Eu ia sugerir algemas, salto agulha, um chicote e...”, aquele sorriso malicioso fez Clara estreitar os olhos em suspeita, uma que se confirmou logo em seguida no sussurro que fez seus lábios formigarem levemente, “... muito champanhe francês”.

“Ha, ha, ha! Engraçadinha, você”, Clara espalmou uma mão no rosto da fotógrafa e empurrou daquele jeito delicado dela, fazendo Marina rir e beijar a pele sulcada ali, “Pode ir tirando seu cavalinho da chuva, porque isso não vai acontecer. E se você quer mesmo saber? Não faço a menor questão de me dar bem com ela. Se ainda engulo o seu querido ‘champanhe francês’ se derramando toda pra cima de você é porque têm lá suas vantagens no fim”, nessa, a fotógrafa fez um ruído de choque fingido e Clara riu apesar de si mesma antes de continuar sua tirada, “É a verdade, ué. Nossa relação sempre se restringiu ao trabalho e, por mim, vai ser assim até o dia em que ela resolver comprar uma passagem só de ida pra essa tal de Flandres que ela tanto fala”, uma sobrancelha irônica arqueou sobre um olho encapuzado, mas Clara fez que não viu, “E se Deus quiser, e ele vai querer, ela tira férias permanentes por lá e deixa a administração da Galeria nas mãos mais que competentes da sua esposinha aqui”, seu tom agora vangloriado só atiçou ainda mais a curiosidade da fotógrafa, mas essa seria uma conversa para outro momento.

“Nada esperta, hein, senhora Fernandes Meirelles?”, murmurou com um sorriso torto, antes de lhe mordiscar os lábios suavemente.

“Hmhm, nem um pouco...”, e como não queria sair do aconchego do colo de Marina com a imagem frustrante daquele sorrisinho irônico afrancesado latejando na sua cabeça, Clara puxou-a para um beijo ardente que a fotógrafa correspondeu com a mesma intensidade, e então, segundos, talvez minutos depois, as bocas se separaram com um estalinho molhado.

Clara levantou sem pressa, segurando as mãos de Marina nas suas, mãos que então viraram dedos, as pontas se tocando, deslizando umas entre as outras, até que a distância entre elas se tornou chão sólido.

Por ora, aquele proibido irresistível teria que ser suspendido no ar e na faísca.

Foi andando de costas, até que parou pelo umbral entre os cômodos.

“Mais tarde, então?”, ouviu Marina dizer, enquanto os dedos dela alcançavam a maçã mordida esquecida na mesa. Depois que arrancou um pedaço da fruta carnosa, a fotógrafa lançou um sorriso mastigado e brincalhão na sua direção, os olhos semicerrados tentando encontrar mais traços de uma silhueta conhecida na névoa densa que lhe cortinava a vista.

Clara suspirou profundamente, então sorriu. “Mais tarde...”

***

Sua testa franziu ao notar que a francesa não estava onde deveria estar.

Olhou pelas venezianas nas janelas e não havia sinal dela na área externa também.

Será que foi embora? Clara deu de ombros.

Mas aí reparou que a porta da sala estava ligeiramente aberta.

Curiosa, seguiu por ela, mas seus pés hesitaram quando passou pelo pequeno corredor que dava acesso ao set externo. Voltou no meio da passada por ali e então viu que uma porta estreita na parede lateral estava aberta. Estranhou, porque Sônia não costumava ir nessa parte da casa. Marina, em acordo com Vanessa e Flavinha, sempre preferiu que o arquivo fosse organizado e cuidado por elas mesmas já que se tratava de um lugar onde guardavam os registros e materiais, além dos instrumentos mais frágeis e sofisticados de trabalho.

O espaço havia sido construído recentemente, uma parte ficava em solo, conjugada ao próprio set externo, e a outra, mais protegida, acessava o segundo piso da casa.

Encontrou uma segunda porta que ficava embaixo do conjunto de escadas em espiral destravada, abriu-a devagar, então olhou dentro, ao redor. Mas o cômodo estava pouco iluminado e vazio, exceto pelas fileiras de estantes e caixas empilhadas pela parede ao fundo.

Com um suspiro apreensivo, resolveu subir os degraus.

A porta para o segundo piso do arquivo também estava destrancada, e Clara teve um súbito pressentimento de que não deveria entrar ali.

Balançando a cabeça, decidiu deixar o pensamento de lado e entrou de uma vez.

Cercada por sombras, entre o par de longas estantes, pairava uma silhueta familiar. Tinha curvas sinuosas que eram abraçadas pecaminosamente pelo chumbo frio do conjunto nem tanto formal que usava. Estava de costas para ela, em pé atrás de uma mesa onde o equipamento de projeção rodava uma série de fotografias antigas que se refletiam como um filme num grande painel retangular ao fundo.

Desde quando Diana tinha as chaves do arquivo?

Respirou fundo antes de recostar a porta.

Foi adentrando a penumbra no ambiente com um olhar estreitado, a pouca luz e os flashes projetados no painel à frente fazendo suas pálpebras pesarem por um momento.

Clara então parou do lado da francesa e cruzou os braços. Uma cadeira metálica era o que as separavam ali, pelo menos fisicamente. Já o abismo emocional era outra história, uma melhor deixada por contar.

“Desde quando...”, começou devagar, sem olhá-la, “... você tem acesso a esse lugar?”

Viu de relance o sorriso de canto da outra mulher, “Desde quando Marina não te deve satisfações para quem ela dá as chaves da casa dela”.

Clara fechou os olhos por um segundo e engoliu em seco, agora encarando o perfil loiro da mulher quando silvou venenosamente, “Você só pode tá de brincadeira...”

“E se você quer saber mais”, Diana virou o rosto ligeiramente para que pudesse antecipar qualquer reação da carioca, “... sua fotógrafa favorita vem me dando... acesso a muitos lugares de uns dois meses pra cá”.

Foi o tiro mais certeiro que poderia ter disparado nesse escuro tão claro.

Num único movimento brusco, a cadeira foi arremessada para o chão em direção à porta. O ruído estridente do metal sendo arrastado contra o piso ladrilhado soou como música nos ouvidos da francesa, que num piscar de olhos tinha uma mão em garra no seu pescoço e um antebraço empurrando contra seu peito, as costas colidindo desconfortavelmente no metal frio da estante atrás dela, e um par de olhos castanhos raivosos a encarando de baixo, mas tão de perto que, ela tinha absoluta certeza, se pudesse já a teria desintegrada no segundo seguinte.

Mas Diana não planejava ceder a esse doce suicídio assim tão cedo. Queria, mais que isso, precisava saber até onde seu palpite tinha fundo na realidade claramente oculta que era essa mulher.

Com certa dificuldade, Diana engoliu contra o aperto visceral que Clara mantinha em sua garganta antes de murmurar, “Você... é uma mulher... estranha, Clara...”

Da altura dos seus saltos, viu aquele par de olhos se estreitar na luz rarefeita quando os lábios da mulher se curvaram capciosamente, “Defina ‘estranha’...” uma pausa, então ecoou como uma maldição, “Diana”.

E lá estava, o convite para o irresistível proibido.

Até que ponto Clara estava consciente dos seus atos ali, Diana ainda estava por descobrir. Não conseguira sondar assim tão profundamente na rapidez com que as coisas escalaram para esse momento.

Mas não importava. As consequências não seriam mais suas do que de Clara para mensurar. Estava ali para jogar, permanecera na casa certa por instinto, e agora iria até o fim dessa partida, como sempre foi.

Perdendo ou ganhando, no final do jogo, as peças seriam guardadas ou atiradas fora, o tabuleiro quebrado ou esquecido em algum baú de coisas velhas que já não teriam tanta importância quanto as lembranças que deixaram.

Levantou uma mão cautelosamente, então seus dedos longos e delicados se curvaram ao redor do bronze na pele aquecida do antebraço da outra mulher que piscou na sensação inesperada.

Quando no rosto da francesa se esboçou aquele sorriso que era pura malícia, um que a fez lembrar vagamente de outro lugar, de outro par de lábios vermelhos e lascivos, Clara sentiu um arrepio subir por sua nuca e sua visão embaçou por uns dois, talvez três, talvez muitos segundos.

O leve formigar quente no seu braço se tornou mais cadente, então irradiou insuportavelmente rápido por seu colo, pescoço e face. A sensação era de que estava sendo marcada a ferro em brasa, uma que agora via faiscando no abismo de fogo azul gelado que a consumia naquele momento.

Mas não viu ou soube quando, nem tinha como ou por que.

Só sentiu aqueles lábios vermelhos, aquele mesmo sabor exótico de frutas, cacau e licor e... algo mais, diferente. Um toque de plumas que varreu todo pensamento de sua cabeça num segundo, fazendo seu pulso acelerar vertiginosamente no pescoço, entre suas pernas...

E tão inesperada como veio, a sensação passou, o momento quebrado pelo som do seu próprio nome ecoando nos seus ouvidos como uma maldição ainda pior.

“Clara?", chamou uma voz familiar de algum lugar próximo, "É você que tá aí?”

Quando se recuperou do choque e o foco da sua visão retornou completamente, a primeira coisa que viu foram os lábios vermelhos que sorriram maledicentes ao sussurrar muito perto dos seus entreabertos, “Estranha assim”.

Notas finais
Essa Dia...ba.