Perchance

23 Encontros


Notas iniciais
Nota 1: Pensaram que iam se livrar de mim assim tão fácil? Nah! Nota 2: Hm, prefiro que tirem suas próprias conclusões... as always. Nota 2: "You trick your lovers that you're wicked and divine. You may be a sinner, but your innocence is mine..."

Marina sorriu nas suas palavras.

E não satisfeita com isso, ela ainda teve a audácia de rir daquele jeito baixo e cínico que sempre fazia seu coração pular uma batida ou duas, esquecido de si.

“Senhorita yoga, é?”, ela sussurrou e foi se inclinando mais perto, “Estou começando a gostar dessa...”

“Marina...”, apontou-lhe um dedo em aviso, mas já era tarde demais.

Ela veio com aquele sorriso safo que um instante depois se derretia em luxúria nos seus lábios, devorando-os assim como a todo pensamento contrário que ousasse fazer caminho até a sua boca.

“Calada”, ela rosnou no beijo, muitos segundos depois, “Você me fez esperar horas aqui, sua bandida”, e então era toda lábios e dentes e mãos que se enroscavam nos cabelos da sua nuca para forçá-la onde queria, dedos ansiosos que ora repuxavam as alças da regata solta que usava, ora o biquíni por baixo dos shorts, estressando tecido e marcando sua pele na caça frenética por mais contato.

Desnorteada por esse súbito e intenso assédio da fotógrafa ao seu corpo, Clara foi se deixando levar pela sensação gostosa do pulsar em seu sexo, pelo arrepio extasiante que se espalhava por sua pele a cada toque mais firme, a cada carícia mais atrevida que, para sua crescente frustração, sempre desviava de onde ela mais precisava no último segundo. Mas aí, quando deu por si, Marina já a tinha outra vez sob o peso leve dela, uma coxa pressionando entre suas pernas e aquela língua quente que lambia despudores no vale entre seus seios, vagarosa por toda a extensão do seu pescoço, até fazer morada no céu da sua boca...

Não saberia dizer quanto tempo se passou enquanto estavam ali, envoltas pelo brilho fosco e azulado que emanava da água na piscina, sob as últimas réstias alaranjadas de luz do sol, personagens daquela mesma cena imprópria de mais cedo que continuavam a ensaiar e ensaiar... Até que, em algum lugar entre o paraíso e inferno que entorpeciam seus sentidos, sua mente vagamente registrou o eco de passos se aproximando...

“Ei, vocês duas aí! Muito bonito, hein?”, uma voz conhecida, seguida por um riso espirituoso que também lhe soava familiar, ressoou embaraçosamente alto nos seus ouvidos e no segundo seguinte seus olhos piscaram abertos, o grunhido de frustração que deixou escapar na boca da fotógrafa atraindo a mulher para fora daquela névoa lúbrica em que sempre se perdia nesses seus momentos juntas.

Virou a cabeça devagar na direção da piscina, seus olhos enfim recuperando o foco nas figuras das duas mulheres ali paradas do outro lado, mas ao que parecia Marina ainda estava um tanto aquém da realidade.

“Que foi agora?”, ela murmurou, mordiscando-lhe a orelha de uma maneira que quase roubou seu último fiapo de compostura.

Clara resmungou alguma coisa que Marina não conseguiu compreender de imediato, mas aí alguém limpou a garganta enfaticamente muito perto dali e seus olhos machucados se estreitaram por uns três segundos, então se arregalaram quando a fotógrafa finalmente reconheceu aquela voz que havia flutuado muito distantemente por seus ouvidos instantes atrás.

“Vocês não acham que ainda tá muito cedo pra isso, não?”, Helena emendou a fala da mãe no mesmo tom jocoso, seguida de perto por Chica enquanto ambas contornavam o canto da piscina, “Ainda por cima desse jeito? À céu aberto, senhoras?”, a insinuação da irmã sobre a sua posição não passou despercebida e logo aquela atmosfera erótica e ruidosa começou a dar lugar a um gorado e silencioso constrangimento, que foi pesando no ar até arrancar outra risada arteira de Helena e aquele sorrisinho pretensioso de Marina.

Pretensão essa que não durou muito, porque logo em seguida a fotógrafa sentia uma beliscada nada leve no seu lado e voltou sua atenção para a mulher embaixo dela.

Clara cerrou os dentes num sorriso exageradamente largo ao sibilar, “Você e eu, mais tarde. Sem mais desculpas, entendeu?”

Já ciente de que esse ‘você e eu, mais tarde’ de Clara sempre degringolava para os cenários mais imprevisíveis, Marina suspirou sofregamente e meneou a cabeça em resignação. Dessa vez não tinha como escapar... Ou tinha? Queria mesmo era rir da sua própria sina, mas seu embaraço era bem maior que a sua autoindulgência naquele momento, enquanto tentava desentrelaçar seus membros dos da companheira. Pelo menos conseguiu manejar um sorriso amarelo para sogra e cunhada durante o desajeitado processo, o que ainda lhe rendeu umas boas gaitadas das duas mulheres.

É, ia ter que ser mais... incisiva da próxima vez. Mas a verdade era que nunca tinha enfrentado um desafio mais impossível que essa mulher. Tentar fazer Clara mudar de ideia sobre alguma coisa era mesmo o mais doce dos martírios. Só que como nunca foi de desistir fácil, ia tentar distraí-la o quanto possível dessa aparente obstinação que a sua companheira tinha em arrastá-la para essa conversa que, Marina não tinha dúvidas, iria comprometê-la em mais áreas do que apenas a sua tão estimada paz de espírito.

Bom, pelo menos alguma diversão com certeza ela ia conseguir tentando persuadi-la...

Quando enfim Clara se lembrou para que serviam suas pernas, riu de nervoso e aí tentou dar algum decoro às suas roupas. “Nossa! Eu, hum, nem percebi quando vocês chegaram”, ela falou toda eufórica, ainda rindo daquele jeito engraçado.

Helena olhou para Marina, notando os cabelos que lhe escapavam da trança bagunçada e o estado ainda ofegante da mulher, então lançou um brilho satírico para a irmã mais nova. “Ah, jura? Por que será, né, Clarinha?”

Clara abriu a boca para retrucar, fazendo aquela cara de indignada, mas seus olhos dançavam humorados quando ela puxou a irmã para um abraço repentino.

Enquanto isso ali do lado, Chica também já estava expulsando o restinho de ar fora dos pulmões da fotógrafa num abraço de mãe-ursa. “Ô, Marina, minha querida. Desculpa aparecer assim sem avisar, viu?”, a mulher se afastou um pouco, segurando-a pelos ombros ao completar com um sorriso consciente, “E ainda bem na hora do jantar, hm?”

Marina respondeu-lhe no mesmo tom jovial, “Mas que cerimônia é essa agora? Você sabe que é bem-vinda nessa casa a qualquer hora, Chica. Sempre que quiser”, ela levou suas mãos até os antebraços da sogra, enfatizando suas palavras com um aperto afetuoso neles.

“Ah, minha linda...”, Chica suspirou baixo e Marina sentiu a postura da mulher endurecer minimamente quando ela continuou, “Deixa eu te contar, a gente veio visitar uma amiga minha aqui no bairro, mas aí do nada me bateu uma sensação esquisita, sabe? Uma saudadezinha assim, meio dolorida de você...”, ela concluiu enquanto lhe afagava os ombros daquele jeito maternal dela.

Abraçada de lado com a irmã, Helena observava a troca entre nora e sogra e resolveu palpitar na conversa. “Eu falei pra ela que você tá ótima. Mas sabe como são esses pressentimentos malucos de mãe, né?”, ela riu um pouco, ganhando um aperto brincalhão de Clara.

“Por isso mesmo eu insisti em vir”, Chica resmungou ao estreitar um olhar repreensivo na filha mais velha, “Queria comprovar mesmo que ela está bem, que tá sendo tratada com todo carinho que merece”, e aí foi a vez da filha mais nova receber aquele mesmo olhar, “Não é, dona Clara?”

A mulher em questão franziu o nariz, um pouco confundida por esse tom sisudo da mãe ter sido dirigido a ela. Seus olhos então estreitaram em Helena, que se fez de distraída, mas antes que Clara pudesse dar voz as suas suspeitas, Marina interviu naquele instante para o bem de todas.

“Eu agradeço sua preocupação, Chica”, disse-lhe com um sorriso sincero, “Mas, como pode ver, eu estou pronta pra outra”, nessas palavras a sogra a repreendeu em nome de todos os santos imagináveis, o que fez Marina e as outras mulheres rirem, “Ah, e a Clara tá cuidando muito bem de mim, sim. Fica tranquila, sogrinha”, ela provocou a companheira com a verdade, dando-lhe um olhar que, ainda que não pudesse distinguir com precisão, tentava transmitir toda a gratidão que sentia, no que Clara a retribuiu com o sorriso mais apaixonado.

Helena só balançou a cabeça, segurando o riso enquanto Chica sorria feito boba na cena romanesca.

“Mas olha só pra você... Tá tão magrinha, meu Deus”, a matriarca chamou sua atenção instantes depois, “E um pouco pálida também. Não acha, Helena?”, quando a mulher grunhiu sua concordância, Chica disparou num tom mais sério, “Você tá seguindo a dieta que a sua médica passou direitinho?”, e aí voltou-se para a outra filha enquanto gesticulava enfática, “O que foi que eu te falei, Clara? Tem que pegar cenoura, beterraba e laranja, e bater tudo bem passadinho no liquidificador. E é pra fazer ela beber toda manhã, pra ganhar uma corzinha e repor essas energias”, então para a nora, “Ah, e se quiser dá pra variar. Pra não enjoar, né? Pede pra ela fazer aquele de abacaxi com hortelã que você gosta. É ótimo pra aumentar a imunidade também”

“Mas eu sempre faço”, Clara reclamou baixo no ombro da irmã, que mastigava o canto do lábio para não rir da cara dela.

“Mas nada, mocinha”, Chica apontou-lhe um dedo de repente, fazendo Clara arregalar os olhos tal uma criança flagrada em desobediência, em seguida se dirigindo a nora toda sorridente de novo, “Vem comigo. A gente vai conversando mais enquanto eu te preparo um suco bem caprichado”, e já foi arrastando a fotógrafa pelo braço para a rota mais rápida, aquela pelos fundos da cozinha.

Clara esperou até que as duas adentraram a porta e aí se virou para a irmã com as mãos nos quadris. “Você ouviu aquilo, não ouviu?”, a mulher não bateu um cílio na sua questão implícita, então Clara apontou-lhe um dedo acusador ao desfechar, “Helena, Helena... O que foi que você andou falando pra nossa mãe, hein?”

Mas Helena, quando lhe convinha, era toda inocência. “Eu? Não falei nada, ué. Agora a culpa é minha se você fica aí dando sopa pro azar?”, a mulher deixou a indireta flutuar no ar e, no que Clara lhe deu um brilho estreito, ela tentou aplacar a irmã no humor costumeiro, “É, maninha. Melhor se conformar de uma vez, porque com a dona Chica vai ser sempre assim. Aos genros e noras, o venha, venha. E ao reino das filhas? Nada”

Clara a olhou em silêncio desconfiado por uns instantes mais, até que espalmou uma mão no rosto e ambas terminaram rindo uma da outra.

“Ai, Leninha”, ela suspirou antes de olhar ao redor para confirmar que estavam a sós, aí fitou a irmã com olhos eufóricos e lhe conspirou, “Nem te conto o que eu acabei de descobrir”

Helena deu um passo mais perto, os olhos se arregalando e um sorriso esgueirado no rosto. “Ah, mas agora vai ter que me contar, sim”, e quando a irmã demorou-se nos próprios pensamentos por uns segundos a mais, ela a urgiu num tom pouco paciente, “Vai! Desembucha, menina!”

“A Diana...”, ela começou devagar, aí olhou bem nos olhos dela com um sorriso indiscreto, “Ela tem uma filha

Filha?!”, seu alarde foi tal que ouriçou até os seguranças, dois deles que passavam pela cerca viva lançando-lhes olhares confusos.

E Clara teve mesmo que tapar a boca dela quando a mulher ameaçou usá-la de novo, “Shh! Fala baixo, sua doida!”, repreendeu-lhe entre risos.

“Mas como assim ela tem uma filha? Filha de onde?!”, Helena continuava com as perguntas mais ridículas e naquele mesmo tom, o que fez Clara fez agarrá-la pelo pulso e puxá-la para perto de uma das pilastras do alpendre enquanto ria da cara embasbacada da mulher.

Só depois de um momento ela conseguiu recobrar a serenidade necessária para encarar a irmã a fim de explicar-lhe, “Filha, filha dela, ué. Ela chegou hoje de viagem. Apareceu aqui do nada, sem avisar, acredita? Agora tá lá dentro com a menina”, fez uma pausa para respirar, “Nossa. Você tem que ver a garota, Helena. É a cara encarnada e esculpida da mãe”

E essa foi a vez de Helena divagar por uns instantes, até que de repente ela lhe deu um olhar arregalado ao estalar os dedos no ar. “Ah! Taí o motivo dessas escapadelas secretas da francesa, será?”

Nessa, Clara estreitou os olhos e fez um ruído baixo na garganta. Realmente, não teve tempo pra pensar nisso antes, não com Marina se atirando pra cima dela daquele jeito, mas bem que fazia sentido...

“Hm. Pode ser”, concordou vagamente.

“Gente, mas como ela conseguia ficar tanto tempo assim longe da filha?”, Helena murmurava mais consigo mesma, mas aí olhou para a irmã com uma expressão confundida no rosto, “Ainda mais se for criança pequena... É?”

“Segundo ela, a menina fez quatro anos domingo passado...”, ela confirmou ao franzir as sobrancelhas, sentindo uma repentina pontadinha de simpatia pela francesa, mas, no que a irmã lhe lançou um olhar desconfiado, ela remendou, “É, eu estou tão curiosa quanto você, mana velha”, uma pausa e seus olhos se estreitaram, “Ah, mas Marina que me aguarde, viu? Acredita que ela sabia e escondeu isso de mim esse tempo todo?”

Helena revirou os olhos em condescendência. “Mas tá na cara que ela sabe mais do que diz, né, Clara?”

“Ah, sim. Disso eu já desconfiava...”, ponderou por um instante, “Mas também não podia imaginar que a 'toda-poderosa' fosse me aparecer com uma dessas, né? O que mais me espanta mesmo é ela ter conseguido manter essa menina longe dos holofotes esses anos todos...”, então balançou a cabeça com um riso irônico, “E é claro que ela ia tentar livrar a barra da Marina nessa, dizendo que pediu pra ela guardar segredo sobre a criança porque tem coisa de família envolvida e sei lá mais o quê”

“Coisa de família? Deve ser sério, então”, Helena ofereceu, pensativa.

Clara assentiu com a cabeça, mas não parecia tão convencida assim. “Só sei que achei essa história muito mal contada, viu? Mas deixa. Hoje a Marina não me escapa. Mas nem que eu tenha que arrastá-la na marra e algemá-la naquela cama, ela vai ter que me explicar tudo e com riqueza de detalhes!”, e nessa, a outra mulher soltou um risinho malicioso, o que fez Clara revirar os olhos na implicação, “Ai, não começa, Leninha...”, ela riu também, castigando a irmã com um cutucão nas costelas.

“Tá, mas e a Marina tá melhorando das crises de amnésia? Tem que ir com calma aí pra não acabar revivendo certas memórias, você sabe... desagradáveis”, Helena acautelou a irmã mais nova, que lhe deu um olhar cético, “Não esquece o que aconteceu da última vez em Angra”, ela concluiu ao lhe retribuir com um olhar consciente dos seus.

“É, eu sei”, suspirou reflexivamente, meneando a cabeça, “Mas eu tenho meus métodos”, emendou ao lhe jogar uma piscadela, fazendo a irmã rir.

Foi quando de repente Helena olhou para baixo, uma expressão um tanto deslocada no rosto.

“Ué, e vocês tem um gato agora?”, ela a questionou enquanto olhava com certa cautela para a bola de pelos brancos e arrepiados que se esgueirava toda sinuosa entre suas pernas, “Ou é uma gata?”

Clara se abaixou um pouco, investigou daqui e dali, e por fim concluiu com um riso, “É uma menina, sim, mas não é nossa. É da Cécile, acho”

Ao ouvir o nome da menina, a gata angulou suas orelhas pequeninas e pontudas para cima, olhando fixamente para Clara com aqueles olhos redondos e azuis, então virou e seguiu na direção da casa naquele andar digitígrado e pretensioso característico dos felinos, o tintilar do sininho pendurado em seu pescoço flutuando pelo ar até que cessou completamente quando o animal cruzou o limiar da entrada principal.

As duas mulheres ficaram ali em silêncio por um momento, de olhos magnetizados no rastro invisível que a felina havia deixado, até que Helena piscou e agarrou o braço da irmã ao falar animadamente, “Ai, vamos entrar logo que eu quero conhecer essa criança misteriosa!”, e já foi puxando-a, os passos apressados por sua curiosidade crescente.

***

Elas tentaram, mas não conseguiram conter o riso por muito tempo ao se deparar com aquela cena para lá de inusitada na antessala do estúdio.

Ivan, que havia pulado o fim de semana com o pai para fazer um trabalho importante da escola, estava sentado de pernas cruzadas no chão, tentando equilibrar o peso extra se segurando precariamente com as mãos na felpa do tapete. O pobrezinho forçava aquele sorriso corajoso no rosto, fazendo-se de durão, enquanto Cécile, que tinha o queixo apoiado no cocuruto dele, apertava-o com seus braços e pernas que de alguma maneira ela havia conseguido esgueirar em volta do pescoço e tronco do garoto. Indiferente à chegada das duas mulheres, a menina lá continuava, balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto cantarolava uma melodia em francês que, de tão alegre, nada combinava com a expressão contrita do filho.

Um momento mais desse pequeno calvário e Ivan arfou meio sem jeito, “Ela não quer me soltar. O que eu faço, mãe?”

Helena lançou-lhe um olhar pilhérico por cima do ombro ao se aproximar deles, no que Clara balançou a cabeça humorada e foi sentando-se no sofá de frente para os três.

“Ih, já era, cara”, ela nem tentou consolar o filho, que grunhiu todo desgostoso com a vida, “Agora vai ter que bancar a babá pelo resto da noite”, e nessa Ivan quase soluçou de tédio, fazendo a mãe franzir o rosto e sorrir ao mesmo tempo, um reflexo da simpatia que tinha pela situação do garoto, embora fosse engraçado vê-lo interagir com a menina assim.

“Meu Deus... Que coisinha mais fofa é essa menina, Clara”, Helena dizia maravilhada, passando a mão pelos tufos de cabelos loiros e encaracolados de Cécile. Clara não estava exagerando, afinal; a menina era mesmo uma perfeita miniatura da sua mãe francesa.

Mas a única reação que teve de Cécile foi um olhar vago por baixo dos cílios antes que a menina voltasse para sua cantoria inócua. Confundida ao perceber essa estranha fleuma numa criança de tão pouca idade, Helena olhou para a irmã esperando uma explicação.

“Ela tem Asperger”, quando a irmã só piscou daquele jeito alheio, ela acrescentou, “É uma forma de autismo”

“Ah...”, Helena arqueou as sobrancelhas ao fitar a garotinha, enxergando-a sob uma nova luz agora.

Já Clara franziu as suas na ausência prolongada da francesa. “Cadê a Diana?”, perguntou ao filho um instante depois.

Ivan suspirou. “Ela me pediu pra ficar um pouco com a Cécile enquanto pegava umas coisas lá em cima”, fez uma pausa, aí emendou com um olhar arregalado, “Você sabia que a Diana tinha uma filha? Ainda mais uma assim tão pirralha?”

Teve que rir na inocência do filho, meneando a cabeça ao falar simplesmente, “Sabia, sim”, então se levantou, acenando para chamar a atenção de Helena que ainda olhava encantada para a menina empoleirada nas costas do sobrinho.

“Ah, Ivan. Pega aqueles bloquinhos pra ela brincar”, instruiu o garoto enquanto foi andando de costas para a cozinha, sendo seguida por Helena, “Aposto que ela deve adorar montar e quebrar coisas tanto quanto você, rapazinho”, ela riu da cara encabulada que Ivan fez antes de se levantar com certa dificuldade do chão, carregando uma Cécile cantante demais para o seu gosto e tão grudada nas suas costas que mais parecia um casco de tartaruga.

***

Chica sorriu toda contente quando viu as filhas entrarem na cozinha. “Ah, eu estava aqui ensinando a Sônia como se faz um bom fortificante natural”

Ao que a moça em questão cruzou os braços e arrebitou o nariz, “Não, senhora. A gente estava trocando receitas, o que é muito diferente”, ela retrucou indignada, o que fez Marina rir do seu assento no outro lado da mesa.

Chica balançou a cabeça no resmungo dela enquanto foi circulando a ilha com um copo na mão até parar pela borda da mesa. “Prova um pouco, Marina”, disse ao oferecer o copo à fotógrafa, que nesse instante sentiu uma presença familiar às suas costas, os braços dela envolvendo seus ombros num abraço sempre tão protetor.

Enquanto acariciava o antebraço de Clara, Marina bebericou um pouco do suco, então mais um pouco, os olhos estreitando em apreciação, até que ela abriu aquele sorriso charmoso para a sogra. “Hm. Esse tá no ponto, Chica”

Nessa, a matriarca se virou para Sônia e lhe apontou um dedo mordaz. “Viu só? Eu te falei que você colocava açúcar demais, mocinha”, ela ouviu Sônia resmungar um tanto mais enquanto foi caminhando até a ilha para pegar a jarra cheia da mistura que havia preparado, em seguida indo para depositá-la num canto da geladeira, “Agora deixa essa daqui separadinha... que amanhã é só servir”, aí virou para a nora com as mãos nos quadris, “Ah, e nada de outras bebidas, tá ouvindo? E nem pensar em pular refeições também. Eu sei que você vai dizer que tá bem e essas coisas, mas não é bom abusar da sorte. Estamos entendidas, dona Marina?”

“Sim, senhora”, a fotógrafa concordou no ato, o que lhe rendeu um aperto não tão sutil daqueles braços em volta do seu pescoço.

Satisfeita com essa resposta da nora e percebendo a comunicação silenciosa entre ela e a filha, Chica logo procurou focar sua atenção no ambiente ao redor.

“Ih, mãe. Soninha não gosta que se metam com os temperos dela, não, viu?”, Clara alertou a matriarca da família num tom humorado, mas a mulher só murmurou alguma coisa incompreensível e continuou fuçando os compartimentos do armário que a empregada destinava para guardar seus condimentos especiais.

“Eu avisei, mas fui solenemente ignorada”, Marina ouviu Sônia retrucar e disfarçou um sorriso matreiro atrás do copo. Já Clara não foi assim de tanta consideração e riu abertamente, no que a moça acenou um ‘Deixe estar’ atrevido para ela.

Helena, que havia acompanhado a troca inteira enquanto circulava pelos quatro cantos do cômodo, nesse momento estava se tornando íntima das panelas no fogão. “Nossa, mas isso aqui tá com um cheiro muito bom, hein? O que é?”, ela perguntou já enfiando um dedo por ali.

Soninha se materializou do lado dela no instante seguinte. “Salmão com batatas e jerimum ao molho de manga, receita minha”, ela explicou toda orgulhosa, mas aí foi notando aquele assalto cada vez mais afoito ao seu prato, “Eu garanto– Ei, tira a mão daí!”, repreendeu já espantando a mulher de lá sem a menor cerimônia, “Que nenhuma de vocês faz um peixe melhor que o meu”, a moça completou com um sorriso faceiro, ao que Helena levantou as mãos já cantando sua derrota. Chica deliberadamente se absteve de responder em favor de continuar sua inspeção minuciosa dos temperos de Sônia.

Sabendo que Marina era carta mais que fora desse baralho, Clara se viu sozinha nessa pugna. “Tá me desafiando, é, Soninha? Olha que você perde pro meu bacalhau à portuguesa, mas perde bonito. Fala pra ela, amor”, ela incentivou a companheira com um daqueles seus ‘apertinhos’ que de leveza pouco tinham.

Marina grunhiu baixo, tinha que sobrar para ela no final.

“Ah, eu acho as duas deliciosas...”, uma pausa, “As iguarias, eu quis dizer”, ela remendou um segundo depois, abrindo aquele sorriso torto para Sônia que balançou a cabeça e riu de nervosa no flerte brincalhão da patroa. E com essa desculpa providencial, Sônia considerou aquele o momento perfeito para fazer sua saída estratégica e foi preparar a mesa na sala de jantar.

Helena pigarreou audivelmente na cena e aproveitou que Sônia já não estava para retornar a sua conversa com o salmão da empregada.

Clara, estranhamente, não aparentou qualquer sinal de desconforto com o comentário nada discreto da companheira, ao que ela se abaixou um momento depois para plantar-lhe um beijo na bochecha e sussurrar no seu ouvido, “Nem um pouco espertinha você, hm?”

Sentindo-se mais aliviada que lisonjeada com aquelas palavras, a fotógrafa murmurou num tom leve, “Só o necessário”, então virou um pouco o rosto para selar um beijo suave nos lábios da esposa antes de perguntar, “E a Céci, cadê?”

Foi ali que ela notou certa hesitação, quando a mulher lhe respondeu num tom baixo, “Tá brincando na sala... com o Ivan”

Marina sorriu na grata surpresa. “Sério?”

“Hmhum”, dessa vez Clara beijou-lhe nos lábios e mais firme antes de murmurar no canto da sua boca, “Agora já pra mesa que eu vou preparar seu prato”

***

A sala de jantar estava excepcionalmente cheia naquele começo de noite. Havia também muito mais comida e conversa que o normal, tanto que até Soninha dispensara seu horário para se juntar a farra.

Já Marina, Clara notara com certa preocupação, mantivera-se calada durante a maior parte da refeição. Na verdade, desde o acidente ela havia criado esse hábito de escutar bem mais que falar sempre que estava cercada por muitas pessoas. Era enervante às vezes, mas compreensível, afinal. Era esperado que ela tivesse que readaptar os demais sentidos para não sofrer tanto com o prejuízo de um. Prejuízo esse que, Clara pedia todos os dias nas suas preces silenciosas, não fosse permanente.

Naquela noite, porém, e especialmente depois da chegada de Diana com a filha, a fotógrafa havia ficado mais retraída, quando não distraída de si ou aquiescente demais. Prova disso foi aquele momento na cozinha. A deferência imediata que ela fez a Chica e depois aquela desfaçatez com Sônia; o que provavelmente não tinha sido de caso pensado, apenas escapulido dela. Em circunstâncias normais, Marina teria teimado antes de obedecê-la ou mesmo acatado à sogra com algum dizer chistoso, também teria se desculpado caso achasse que havia constrangido Clara, Sônia, ou demais presentes com algum flerte ou cantada mais explícita. No fim, concluiu que talvez tivesse sido mesmo o efeito combinado do regresso repentino da francesa, desse primeiro encontro com Cécile e da visita tão maternal de Chica que acabou por deixar a companheira um tanto perdida.

Marina podia ser tão incrivelmente sagaz, mas também tão adoravelmente boba às vezes...

Era com esses pensamentos, deitada de bruços na cama como estava com o queixo apoiado nas mãos, que Clara sorria e divagava consigo mesma.

“Sabe o que eu acho engraçado?” a voz de Helena, que há tempos estava espiando ali pela janela do quarto, trouxe-a de volta da sua digressão, “É que você vive falando pra mim que se morde de ciúmes, reclamando que só marido traído que mesmo sabendo do 'Ricardão', continua lá, firme e forte a cada pulada de cerca da mulher”, nessa, Clara fez aquela cara de ultraje e foi abrindo a boca para contestar, mas se conteve quando a irmã mais velha levantou um dedo no ar para que ouvisse calada, “Aliás, tá mais do que evidente que você só tem esse ciúme todo da Marina com a Diana, né? Mas mana, olha pra isso”, ela gesticulou enfaticamente com as mãos para o vidro da janela.

Franzindo a testa em confusão, Clara levantou-se de um pulo da cama e foi ver o que tanto a irmã estava apontando lá fora.

Viu sua mãe sentada num sofá ao lado de Diana, visivelmente animada com qualquer que fosse o assunto que estavam conversando, enquanto Marina, Ivan e Cécile, os três sentados entre as almofadas no chão a poucos metros das duas mulheres, estavam bastante entretidos com a metade de um castelo de blocos que pareciam determinados a terminar de construir.

Embora incomum, a cena não lhe parecia nada demais.

E Clara sorriu melancólica na visão da companheira ali, tão despreocupada e à vontade entre as crianças. Lembrara-se dessa vez que Marina havia lhe confessado ter um fascínio por esses brinquedos de montar, porque sua mãe sempre iria lhe trazer os mais variados tipos deles quando ela era pequena só para depois ter uma desculpa para fazer bagunça com ela...

“Pra quê, exatamente?”, suspirou as palavras depois de um momento, seus olhos fixos na cena lúdica que se passava no alpendre.

Helena piscou, confundindo a expressão saudosa da irmã com resignação. “E você ainda pergunta? Essa mulher entra e sai daqui a toda hora, inclusive nesse quarto que você já me contou, sendo que você, que a dona do território e a esposa número um...”, nessa, sim, ela conseguiu chamar a atenção da irmã, que lhe deu um olhar maléfico e forçou Helena a morder um riso, “Tá, esposa oficial. Melhor agora?”, os olhos da mulher se estreitaram ainda mais, o que ela fingiu não notar enquanto continuava num tom mais humorado, “Mas o que quero mesmo dizer é que, fora do ambiente de trabalho, você mal conhece essa mulher, mana. Não acha essa liberdade toda dela com vocês no mínimo contraditória, não?”

Clara revirou os olhos, exasperada. “Você sabe muito bem por que ela tem essa ‘liberdade toda’ aqui, Helena”, ela resmungou ao cruzar os braços, seu olhar agora se estreitando naquela silhueta loira toda cheia de dedos e toques para cima da sua mãe, de todas as pessoas.

“Ah, não me vem com essa de dizer que é por causa da Marina, ou que aqui também é local de trabalho, que não cola mais”, ela espelhou a postura agravada da irmã mais nova, seus olhos também trilhando para o cenário lá embaixo, “Venhamos e convenhamos, né? A mulher é linda de morrer e eu não duvido que fosse capaz de seduzir até o Papa...”, fez uma pausa ao lançar um brilho cauteloso para a irmã, mas Clara só fez um ruído vago de assentimento, absorta em pensamentos como estava, então ela retomou seu raciocínio, “... mas só beleza e sedução não bastam. Acho mesmo que ela só fica em cima desse jeito porque nunca encontrou resistência de verdade, nem da sua parte e muito menos da parte da Marina, óbvio”, Clara continuava sem bater um olho ou dizer uma palavra, no que Helena por fim suspirou contrariada, “Sem falar nessa coisa... incestuosa. Tá, eu até entendo que elas conviveram muito tempo assim, como irmãs e depois... sei lá. Mas que essa relação delas é meio esquisita, ah, isso é. Não acha, não?”, olhou para a irmã na expectativa, mas sua resposta só viria um longo momento depois quando a mulher finalmente retornou de onde quer que a sua mente a tivesse levado.

“Esquece isso, Helena. Eu mesma já desisti de tentar entender faz tempo”, ela suspirou com as palavras, sua expressão compenetrada quando fitou os olhos da irmã de relance e então refez seus passos até a cama, sentando-se ali pela beirada.

Helena a observou por um momento, aí começou devagar, “Seja sincera comigo, Clara”, a mulher levantou o olhar para encará-la enquanto ela movia-se para se sentar ao lado dela na borda do colchão, “Esse ciúme todo que você sente é mesmo só por causa dessa intimidade que elas têm? Ou existe algum outro motivo mais... pessoal?”, ela instigou a irmã com um olhar.

Só que, aparentemente, Clara sempre ia demorar um pouco mais que a maioria para captar certas coisas. “Pessoal? Como assim?”

Helena tentou de novo, o mais naturalmente possível para evitar mal-entendidos desnecessários. “Você sabe que pode me contar tudo, não sabe?”, no aceno da irmã, ela continuou, “Pois então. Será que não aconteceu algo assim... de incomum entre você e a Diana? Alguma provocação explícita dela que possa ter levado a uma discussão mais... acalorada. Física, talvez?”

Nessa, Clara fez uma cara pensativa, as mãos se apertando no colo como se tentasse encontrar as palavras certas, ou esconder as erradas, até que ela mordeu um pouco o lábio e por fim murmurou para as próprias palmas, “É... A gente discutiu, sim”

“E?”, Helena pressionou.

“Ela me beijou”, saiu assim no susto mesmo.

E pela segunda vez naquela noite ela não podia crer nos seus ouvidos, “Ela fez o quê?”

“Exatamente o que você ouviu”, resmungou ao fitar os olhos arregalados da irmã, “Foi umas duas, hum... três semanas atrás? É, quase isso...”, ela meio que gaguejou, então esfregou as mãos nos lados do rosto, rindo da sua própria falta de jeito para essas coisas.

Helena precisou de um momento mais para processar a informação, então silvou baixo em perplexidade, “Caramba...”, uma pausa, então aquele brilho de intriga que Clara conhecia bem piscou nos olhos dela, “Mas e a Marina tá sabendo disso?”

“Eu tinha que falar pra ela, né?”, suspirou pesadamente antes de continuar seu relato, “Contei tudo mesmo. E sabe o que ela fez? Nada. E continua assim, fingindo que está tudo na mais perfeita ordem...”, no risinho maroto da irmã, decidiu extravasar um pouco dessa tensão toda com humor também, “Ai, mas se ela soubesse a vontade que me dá de estapear aquela cara lisa dela, viu?”

A outra mulher balançou a cabeça, divertida. “Mana do céu... Olha, eu vou te dizer uma coisa. Você tá muito é da encrencada com essas duas”, concluiu com um sorriso que falava volumes.

Clara piscou. “Encrencada por quê?”, pelo visto ela tinha perdido muitas páginas daqueles volumes também.

“Sua sina, esqueceu?”, quando a mulher só olhou para ela com aquela cara de pasto, foi a vez de Helena revirar os olhos em exasperação, “Ai, Clara. Até a nossa mãe, que só presenciou vocês juntas, sei lá, umas três vezes desde que essa francesa se mudou pro Rio, já percebeu o jeito que ela olha pra você”, teve que se segurar para não rir da expressão chocada no rosto da irmã, no que a incitou, “Ah, vai me dizer que nunca notou?”

“Eu– o que?”, quase engasgou nas palavras, “Err, às vezes... Mas eu, hum, sempre achei que, hum– Ah, ela olha desse... jeito pra praticamente todas as mulheres, Helena! E pros homens também, fique você sabendo!”, ela concluiu toda esbaforida, fazendo a irmã soltar de vez a gargalhada que vinha tentando controlar já sem muito sucesso.

Seu riso foi se abatendo na carranca desgostosa que Clara fazia, até que conseguiu se recompor o suficiente para falar mais séria, “Ah, isso é verdade. Bem ao estilo Marina de ser, hm? Quando mira num alvo, nem Deus pra acudir...”, a mulher lhe deu aquele olhar maligno de novo, no que Helena rebateu com humor, “E nem me olha assim, não. A ideia de casamento, essa vontade de formar uma família e embarcar nessa vidinha doméstica pode até ter sido atraente pra ela no começo, uma novidade. Mas aquele encantamento todo tá passando, Clara. Se é que já não passou...”, ela suspirou antes de concluir sabiamente, “E a verdade é que ninguém muda tanto assim em tão pouco tempo. Sua Marina não me parece ser a exceção à essa regra, não, maninha”

“É isso aí...”, ela jogou as mãos no ar com aquela cara de cão abandonado, “Ah, e muito obrigada mesmo por fazer eu me sentir ainda mais segura do que já sou, tá?”, ironizou com um polegar para cima e um sorriso forçado, fazendo a outra mulher rir ao puxá-la para um abraço grudento e demorado, Clara resmungando o tempo todo entre risos no peito da irmã.

Helena a soltou momentos depois, esperando que a mulher se recompusesse antes de lhe falar com aquele ar de malícia dela, “Mas é, ué. Se eu, que nunca na minha vida pensei em transar com uma mulher, não sei se resistiria a tentação com uma deusa grega dessas me cercando o tempo todo, imagina o que não se passa na cabeça da Marina... ou na sua, né, irmãzinha?”, ela lhe cutucou no lado e Clara riu, ainda que um pouco contrariada, “Mas sejamos justas aqui, sua esposa é mesmo uma mártir do amor porque eu acho quase impossível encontrar um cristão pra dizer não a essa Diana, viu? E, pelo que você me conta, ela não só disse um, mas vários nãos”, quando viu a irmã menear a cabeça com um fungado baixinho e aquele sorriso apaixonado se espalhando no rosto, não conseguiu resistir a sua inclinação natural para infernizá-la, “Quer saber mesmo? A sua sorte é que a Marina beija o chão que você pisa, porque se não fosse isso, ó...”, fez um gesto obscenamente sugestivo com a mão e a provocação deliberada lhe rendeu um safanão daqueles, mas ela pouco se importou. A cara que a irmã caçula fez naquele momento mais que recompensava um hematoma ou outro.

“Qual é, Leninha?”, Clara ralhou com ela, mas seu tom era mais brincalhão quando continuou, “Um minuto atrás você estava dizendo que a Marina não era ‘exceção à regra’ e não sei o quê lá, e agora tá aí defendendo ela por quê, hein?”

Helena sorriu-lhe em exagerada empatia. “Só tentei me colocar no lugar dela, mana. Com esse passado intenso que ela compartilha com a Diana, e essa tensão sexual toda que, Nossa Senhora, dá pra sentir até daqui...”, ela concluiu toda ladina, se abanando com as mãos para enfatizar o sentimento.

“Ah, cala essa boca”, ela deu-lhe outro safanão, rindo no descaramento da irmã.

Mas claramente a mulher não lhe dava ouvidos e continuava lhe apoquentando, “Diz que você não teria se jogado nos braços da francesa na primeira oportunidade, se tivesse visto o que a Marina viu?”, ela se demorou numa pausa enquanto a irmã parecia ponderar suas palavras, “Clara, ela teve que amargar uma traição em silêncio porque–”, mas então foi interrompida.

“Opa, espera um pouquinho aí”, retrucou defensivamente, “Você sabe que não foi bem assim, Helena”, ela enquadrou a irmã com um olhar que era mais uma dúvida que uma certeza.

É, se Clara queria mesmo insistir nesse jogo de esconde-esconde com a verdade, talvez por medo de se revelar demais ou de ferir a companheira, Helena ia ter que dar o pique por ela.

“Ah, foi traição, sim, senhora”, sabia que estava sendo dura ali, mas tinha que forçar a irmã fora dessa zona de conforto dela, “Você lembrando ou não dos detalhes, que tenha ido até o fim ou só cometido um deslize momentâneo por causa da bebida, insegurança ou o que fosse, o fato é que você deixou o Cadu se aproximar de você naquela noite porque ainda sentia alguma coisa por ele, sim. Vai negar agora?”, notou a respiração da irmã descompassando quando ela se encolheu um pouco, visivelmente acuada, mas Helena não lhe deu trégua, “Você sabe que essas coisas são diferentes pra nós mulheres, Clara. Que pra gente a pior traição não é o sexo pelo sexo. É aquela que envolve sentimento, emoção. E pra piorar tudo você não deu uma explicação a Marina, nem uma desculpa esfarrapada qualquer durante meses e ainda continuou indo lá no apartamento do Cadu, deixar e buscar o Ivan sempre que ele ligava dizendo que não podia vir por isso, por aquilo, e sabe-se lá mais o quê vocês faziam nessas visitas, né?”, ela concluiu ao lhe dar aquele brilho censurador que muito se assemelhava ao de Chica, o que sempre lhe roubava todas as justificativas quando era adolescente.

“Eu...”, balançou a cabeça numa tentativa de clarear as ideias, “Por que você tá me dizendo essas coisas agora? Helena, eu nunca, sequer conversei com o Cadu sobre outra coisa que não fosse o Ivan. Não depois do que aconteceu, você sabe disso”, ela murmurou atônita, custando a assimilar essa súbita frieza da irmã.

“Mesmo assim. Não foi justo, Clara”, a mulher insistia, esperando por uma resposta e, na ausência de uma, Helena meneou a cabeça ao esboçar um sorriso pequeno, “E tem mais, maninha. Você já parou pra pensar que a Diana pode mesmo amar a Marina de verdade? E aí se ela quiser voltar a ser ‘não exclusivista’, como antes? Ou pior, se descobrir que nunca deixou de amar–”, mas nesse instante Clara recuperou toda a sua verve.

“Não”, disse com firmeza, embora sua expressão pouco passasse a intensidade do sentimento, “Ela não quer, eu sei que não”

Dando-se por satisfeita com essa resposta por enquanto, Helena incentivou a irmã a continuar com um sorriso agora mais acolhedor.

Finalmente entendendo o que a irmã estava tentando fazer com que ela enxergasse esse tempo todo, Clara suspirou pesadamente e então olhou a outra mulher bem nos olhos ao lhe revelar, “Engraçado... Desde a primeira vez que eu vi o rosto da Diana estampado naquela fotografia... alguma coisa ali, no olhar dela, me perturbou... e ainda me perturba, Helena”, suspirou numa pausa, “Mas o mais irônico é que se a gente tá assim, cara a cara, eu não consigo ler nada na expressão dela. Nunca dá pra saber qual é a intenção por trás de uma atitude, de um gesto, a não ser quando a Marina tá por perto, claro...”, riu baixo na contrariedade e esfregou uma palma na testa, sentindo-se desconfortavelmente exposta naquele momento, mas respirou fundo e se determinou a continuar, “Mas mesmo assim é tudo sempre muito dúbio, sabe? E... meu Deus, como ela gosta de me provocar! É tão... irritante, e sutil, só que ao mesmo tempo não é. Entende o que quero dizer?”, olhou para a irmã quase em súplica, na ânsia por uma compreensão que não sabia se era possível, muito menos merecida.

Mas Helena entendia, sim. E como entendia. Só que como também sempre gostou de uma boa intriga, a vontade de atiçar os nervos da irmã num momento desses era mais forte que ela. E foi exatamente isso que ela fez.

“Hm, só essa parte no fim que me deixou um tantinho confusa aqui...”, aí lhe deu um olhar daqueles endiabrados ao enredá-la, “Você quis dizer que na verdade não te irrita, ou que ela não é assim tão sutil quando dá em cima de você?”

Clara piscou umas três vezes naquelas palavras, de repente voltando àquela velha lentidão de sempre, mas aí balançou a cabeça com um grunhido frustrado. “Ah, não. Chega desse assunto”, resmungou decidida, então seu rosto franziu como se alguma coisa imprópria estivesse prestes a lhe escapar, o que ela disfarçou com uma dose do humor costumeiro, “Você que tá me confundindo ainda mais, sua chata!”, concluiu ao dar um empurrãozinho daqueles no ombro da irmã.

Nessa, Helena soltou uma risada pouco ingênua e começou a contar nos dedos feito criança planejando uma travessura, “Tá, vamos lá. Primeiro alguma coisa nela te perturba, depois você sente muita raiva dela, ciúmes demais, daí agora essa curiosidade toda...”, aí deu duas tapinhas de leve na bochecha da mulher enquanto meneava a cabeça e falava daquele jeito indulgente, “É, maninha. Acho que estou começando a captar melhor esse seu lance aí com essa francesa”

Mais que um pouco exacerbada pela insinuação descabida da irmã, Clara espantou a mão dela para longe do seu rosto e lhe apontou um dedo ao contestar, “Pode ir desmanchando esse sorrisinho malicioso, que não é nada disso que você tá pensando, não!”

Helena ergueu as palmas com aquele ar de singeleza exagerada, “Eu não estou pensando nada... Mas você pelo visto está”, e no que Clara foi para agarrar o travesseiro mais próximo, ela riu e se jogou na frente da irmã, tentando abrandá-la em seguida, “E quem sabe não foi por isso que a Marina não interferiu nessa ‘guerra fria’ de vocês até agora, maninha? Pra que você tivesse a chance de descobrir por si mesma quem é a mulher por trás do feitiço daqueles olhos azuis?”, ela balançou as sobrancelhas sugestivamente.

Clara parecia refletir por um momento, seus olhos estreitos nos da irmã tentando capturar algum sinal de reprovação na expressão dela e, encontrando nenhum, ela assentiu com um suspiro pesado, “Sabe o que eu acho às vezes? Que desse jeito torto dela, tudo que a Diana fez até hoje foi, talvez... pra tentar se convencer de que eu não sou a pessoa certa pra Marina...”, concluiu numa voz pequena, seu olhar se perdendo em algum lugar não tão distante dali.

Mas aí Helena lhe deu um cutucão no ombro, chamando sua atenção de volta para ela. “Ah, mas confessa que você sente um prazerzinho sádico assistindo de camarote enquanto a francesa leva foras e mais foras da Marina”, e lá estava aquele brilho de intriga nos olhos dela novamente.

“Nossa. Também não é assim, né, Leninha?”, uma pausa, aí um sorriso endiabrado espalhou-se nos seus lábios, “Tá, só um pouquinho”, as duas trocaram um brilho conspiratório e, três segundos depois, se jogavam para trás no colchão, tomadas por um surto de risadas que durou por alguns instantes mais, até que Helena se virou para irmã, sua expressão mais suavizada.

Sentindo-se nostálgica, a mulher mais velha suspirou audivelmente. “Ai, ai... Só sei que esse tal de amor é uma coisa estranha mesmo, maninha. Ele abre os nossos olhos pra muitas coisas, sim, só que quanto mais esse danado desse bichinho cresce aqui dentro, parece que menor fica o nosso discernimento da realidade... das pessoas cá do lado de fora...”, ela demorou-se numa pausa, acariciando o rosto da irmã que retribuiu o carinho com um sorriso, “A gente se torna mais generosa, se doa o que pode e o que não pode quando ama, e tem toda essa coisa hormonal que vira nossa cabeça e a gente pensa que tá ficando louca, né?”, Clara meneou a cabeça nas suas palavras, rindo baixo no que ela continuava mais quietamente, “Isso vai fragilizando a gente também, nossas virtudes, como se diz. E aí o que acontece? Nossos piores defeitos vêm à tona... Sabe essa tendência que as pessoas têm pra cometer os acintes mais absurdos e egoístas? Fica cem vezes maior quando tem paixão envolvida, essa é que é a verdade”

“Pior é que eu acho que você tá certa, mana”, murmurou depois de um momento, pensativa.

“Vai por mim, eu sei do que estou falando”, Helena riu um pouco, aí seu tom serenou outra vez, “É aquela velha história... Começa com um ciumezinho aqui e ali, assim despretensioso, que a gente acha até bonitinho, mas que vai gerando cobranças do mesmo jeito. Na gente, e no outro. Só que, com o passar do tempo, a gente descobre que aquilo que se espera do outro não é exatamente aquilo que se tem pra dar, aí nossa autoestima vai lááá pro fundo daquele poço cheio de açúcar e gordura, e enfim...”, ela suspirou toda dramática antes de concluir sua tirada, “Já sabemos onde isso tudo termina”

Clara riu da cara desgostosa que a irmã fazia. “Ai, Leninha... Ainda bem que eu tenho você pra me distrair com essa psicologia barata que eu sei que você tira daqueles livretos de autoajuda lá, os que você cata no jornaleiro da esquina”, mal havia terminado de falar quando a mulher começou a cobri-la de sopapos.

“Ah, sai pra lá, Clara!”, ela riu enquanto simulava sufocá-la com um travesseiro, mas a irmã caçula sempre fora bem mais forte que ela e em dois tempos se desvencilhou da sua armadilha emplumada.

E no mesmo movimento em que escapou Clara também pegou um relance do relógio no seu pulso, notando que os ponteiros marcavam exatas nove horas e meia da noite, “Caramba, a hora passou e eu nem percebi”, ela arfou com uma risada e num pulo só se empoleirou pela beirada da cama de novo.

“Ih, já tá me expulsando, é?”, ela levantou-se e atirou o travesseiro em Clara, que logo o arremessou de volta na irmã desprevenida, acertando-lhe bem na cara, “Tudo bem, já entendi”, a mulher fungou como se ofendida antes de cutucar aquele nervo da irmã uma última vez, “Vou lá chamar a dona Chica pra gente dar o fora daqui antes que essa francesa seduza até a única hétero convicta dessa família”, e girou nos calcanhares logo em seguida, deixando o quarto com um sorriso zombeteiro enquanto ignorava os resmungos atrás dela.

“Ha, ha, ha. Tá toda cheia de gracinha você, né?”, Clara viu a irmã parar já do lado de fora do cômodo só para lhe jogar uma piscadela infame, “Chispa logo daqui! Cai fora!”, ela ralhou entre risos e atirou outro travesseiro na direção dela, mas esse acabou colidindo com a porta fechada um segundo antes.

***

Clara desceu alguns minutos depois para se despedir da mãe e da irmã apropriadamente. Mas, ao notar o quanto Chica parecia mais que um pouco fascinada depois de passar horas conversando com a francesa, ela achou melhor encurtar as despedidas naquela noite.

Agora, um sorriso suave tocava seus lábios enquanto observava em silêncio reverente a cena diante dela.

Marina tinha a cabeça reclinada numa almofada, sua respiração meio arrastada e os olhos fechados em sono profundo. Ivan estava deitado do lado esquerdo da fotógrafa, um braço lasso jogado sobre o meio dela e a cabeça recostada no ombro da mulher, enquanto Cécile se aninhava no espaço entre o braço e lado direito de Marina, também adormecida.

“Parecem tão confortáveis juntos”, a francesa falou baixo ao parar do seu lado, cruzando os braços numa maneira relaxada.

Clara a olhou de canto.

“É... Parecem, sim”, murmurou um momento depois.

E ficaram ali, na companhia silenciosa uma da outra por mais alguns instantes até que Diana caminhou na direção deles e foi se abaixando perto da filha.

“Ah, não acorda ela, não”, sem perceber sua mão já estava no ombro da mulher, que olhou para ela como se esperasse ser golpeada a qualquer segundo, no que Clara apressou-se para esclarecer seu intento, “Eu... imagino que tenha sido uma viagem longa e, hum... que a Cécile não esteja acostumada com tanta atividade assim”, ela piscou um pouco aturdida, recolhendo sua mão devagar.

Diana continuava olhando para ela daquela maneira estranha quando assentiu cautelosamente, “Foi muito cansativo pra ela mesmo”

“Podem ficar aqui por essa noite, se quiser”, disse com um aceno curto, mas a francesa só retraiu os ombros nas suas palavras e estreitou um olhar duvidoso nela, o que fez Clara suspirar e, antes que se arrependesse da sua decisão, concluir um tanto relutante, “O quarto de hóspedes é mantido limpo, mas tem lençóis extras no gaveteiro, caso prefira trocar”

Sem dizer uma palavra, Diana a encarou por outro momento demorado, enquanto Clara se forçava a não desviar do escrutínio intenso dela.

Quando foi que as regras do jogo mudaram assim? Era melhor nem pensar nisso...

“Clara?”

Piscou na voz grave e aveludada da mulher a chamando.

Diana já havia pegado a filha no colo e dado alguns passos na direção da casa, mas Clara sequer tinha notado quando a mulher saiu do seu campo de visão, tão absorta estava em si mesma.

Ou talvez nela...

Um tanto sobressaltada, virou para encarar a francesa.

Ela lhe disse um “Obrigada” cortês e então saiu com sua pequena Cécile acalentada em seus braços.

***

Depois de cutucar Ivan até o menino acordar, Clara havia guiado o filho sonolento até o quarto dele, esperado para ter certeza que ele escovaria os dentes por pelo menos um minuto, então lhe beijado a testa de boa noite.

Minutos depois, enquanto fazia seus passos pelo jardim de volta para o alpendre, ela notara a luz do quarto de hóspedes acesa e o passar de uma sombra pelas persianas, confirmando que Diana já havia se instalado lá com a filha. Já Marina não estava mais onde ela havia deixado, mas a bagunça que a fotógrafa tinha feito com as crianças permanecia intacta no lugar. Almofadas e blocos coloridos, as peças e um tabuleiro de xadrez, uma bandeja com copos vazios num canto perto do sofá menor, tudo espalhado pelo chão só esperando alguém para colocá-los em ordem.

Ela havia dado um trato rápido por ali e então retornado pelo mesmo caminho, esperando encontrar Marina pelo estúdio, o que não aconteceu. Quando cruzava a antessala, o som de uma batida abafada seguida de um grunhido sibilante vindo do seu quarto a fez parar no meio da passada e franzir o nariz em simpatia. A julgar pela altura do ruído e pela jura nada feliz da fotógrafa, esse esbarrão com certeza ia deixar marcas.

Ao entrar no quarto, deparou-se com uma Marina vestida só numa calcinha branca que pouco deixava à imaginação, toda esparramada na cama com o rosto enterrado num travesseiro e os braços largados por ali de qualquer jeito. É, parecia que não ia ter sua explicação naquela noite mesmo, não com Marina bêbada de sono assim.

Como ainda era um pouco cedo para ela, resolvera passar um tempo no atelier e adiantar alguma papelada da exposição. Uma hora depois, quando voltava para o quarto, percebeu que a face rolante da porta principal estava ligeiramente aberta e resolveu checar, deduzindo que Diana talvez tivesse descido para pegar alguma coisa no carro ou procurar pela tal gata branca que havia sumido das vistas.

Tinha olhado pela vidraça fosca, mas até onde podia ver a área externa estava tão silenciosa quanto vazia. Ainda assim, Clara retornara para o quarto com uma sensação esquisita.

E ali ela havia ficado na mesma posição pelo que pareceram horas, olhando pela janela para lugar nenhum, pensando em coisas que não sabia exatamente o que eram enquanto aquele aperto só crescia em seu peito.

Era como se aquele castelo de cartas dentro dela fosse desmoronar a qualquer momento...

Mas do que tinha tanto medo, afinal?

“Clara?”

Estremeceu no arrepio que o som da voz dela lhe causou.

Mas aí seus olhos se estreitaram num vulto escuro se movendo na noite...

Havia alguém lá fora.

“Hum?”, murmurou distraída.

Marina bocejou um pouco, então ajustou seu olhar na silhueta embaçada perto da janela.

“Que tá fazendo aí?”, suspirou as palavras daquele jeito meio sono, meio dengo dela.

“Pensando”, foi sua resposta vaga.

Não muito tempo depois ouvia um arrastar de lençóis na cama, dos pés descalços pelo chão, até que o som se tornou o roçar de seios nus nas suas costas, através daquela camisa vermelha de estimação da fotógrafa que Clara havia vestido para a noite. A sensação dos braços dela em volta da sua cintura, daquela respiração quente que soprava em seu pescoço fez seus joelhos fraquejarem por um instante vertiginoso...

“Tá chateada por eu não ter te contado sobre a Céci?”, ela murmurou numa voz meio raspada, suspirando nas palavras seguintes, “Amor, você ouviu o que a Diana falou... Ela me pediu segredo”

“De mim?”, teve que relutar, porque seus olhos ainda seguiam aquela figura de preto caminhando vagarosa pelo jardim, “E por que... diabos ela escondeu esse tempo todo que tinha uma filha? Isso não é um acontecimento qualquer da vida que pode ser esquecido, ou mantido em segredo assim, como se fosse... errado, um pecado...”, sua voz foi falhando no fim quando os braços e mãos da fotógrafa foram traçando suas curvas mais firmemente, trazendo seu corpo ainda mais perto do dela.

“Só o que precisa saber é que... o pai da Diana é homem muito perigoso...”, ela disse entre um selar de lábios na curva da sua mandíbula e suas pálpebras vibraram na sensação da voz dela provocando seu ouvido, “Eu sinceramente não quero te envolver nisso, e apreciaria muito se você não insistisse em saber mais dessa história. Será uma complicação a menos pra nós, acredite”, a essa altura aqueles dedos espertos já haviam desfeito metade dos botões, e então eram unhas que apertavam seus seios com uma avidez que lhe tirou o fôlego por alguns segundos.

“Entendi...”, suspirou com um tremor, esquecendo-se de si no calor do abraço dela, começando a se perder naquele feitiço azul e gelado que a chamava para fora...

“Hm, boa garota”, a fotógrafa tinha aquela nota de sarcasmo na voz, “Não imaginava que o fato da Diana ter uma filha fosse te incomodar... tanto assim”, e empurrou até que seu tórax encostou no vidro da janela, fazendo-a sibilar na sensação daquela mordida fria em seus mamilos. Era absurdamente excitante.

“Não me incomoda. Só não gosto... de surpresas”, arfou contra o vidro, então virou o rosto para que pudesse lhe dar um olhar que, em outras circunstâncias, teria sido mais reprovador, “Não desse tipo de surpresa”, tentou enfatizar, mas mal conseguiu sufocar um gemido quando Marina escorregou uma mão entre suas pernas, bem onde ela mais precisava.

Esse demônio de mulher...

Que sorriu de canto, praticamente ronronando no seu ouvido, “Ainda tá chateada comigo?”

“Não estou chateada com você”, rangeu as palavras porque não conseguia articulá-las de outra maneira, “Não é isso...”, seu olhar trilhou novamente para aquela silhueta conhecida que agora estava sentada de frente para sua janela, o que parecia ser uma pasta vermelha em uma de suas mãos sendo posto de lado enquanto a outra levava um copo até os lábios, degustando...

“Me diz o que é, então...”, aquela voz cheia de intenção sussurrou no seu ouvido e a atraiu de volta, “Quem sabe eu não posso te ajudar... a relaxar, hm?”, e dessa vez ela não conseguiu parar o gemido que lhe escapou quando os dedos da outra mão dela a invadiram por trás, sem preparação ou romance, só força e instinto.

E Marina continuou a estocá-la, com aqueles dentes afiados que mordiam arrepios no seu pescoço, que se fincavam no seu ombro enquanto grunhia e rosnava e gemia feito um animal que há muito tempo não comia e agora se fartava nas delícias do seu corpo...

E Clara, que não desejava estar em outras garras que não fossem as dela, assim tão suas e de ninguém mais, sentiu suas pálpebras começarem a pesar, sua respiração ficando mais ofegante e errática, condensando no vidro frio. Faminta, uma dessas garras arrastou-se como um chama incontrolável por seu abdômen, atiçando-lhe o seio esquerdo ao se demorar por ali, até que se fechou no seu pescoço, forçando dedos na sua boca por um momento que foi todo gemido no seu ouvido antes que os lábios dela devorassem os seus num beijo desnorteante.

Foi então que aquela viscidez quente que escorria do seu sexo por suas pernas transbordou nos dedos que a penetravam, ambas se deixando consumir por completo pela força voluptuosa que tomava seus corpos, e Clara só teve mesmo o impulso de tentar se segurar na pouca aderência da vidraça, arqueando contra o material transparente enquanto sua visão escurecia, depois explodia em cores, em muitos e demorados segundos de gozo...

Por um longo momento depois, enquanto o calor do corpo dela se fundia ao seu pelo tecido suado que grudava em suas costas, suas respirações acalmando aos poucos, Marina a segurou junto ao peito num abraço cheio de desejo e de todas as coisas que não precisavam ser ditas em voz alta, até que Clara finalmente conseguiu abrir os olhos.

E talvez... Eles nunca estiveram fechados mesmo.

***

Seu corpo todo acordou sorrindo, de olhos ainda fechados para os primeiros e tímidos vestígios de luz solar que se filtravam pelas claraboias. Estava com uma sede infernal e o peso do braço de Marina jogado por cima do seu peito era um doce lembrete de horas passadas muito acordadas na cama, depois daquela... surpresa que a fotógrafa lhe aprontou na janela. Com cuidado, ela foi se esquivando do abraço adormecido da companheira, cobrindo a nudez dela com os lençóis para protegê-la do ar ainda um tanto frio, então sentou um pouco para ajeitar a camisa amarrotada que mal chegava até a decência do meio das suas coxas enquanto procurava suas rasteiras pelo chão com as pontas dos pés.

Instantes depois ela descia os degraus numa passada macia que a levou direto para o seu destino, a geladeira. Bebeu sua água devagar, sentindo seus músculos relaxarem na sensação do líquido vital que lhe refrigerava a garganta e os pensamentos.

O céu ainda mudava de breus turvos para laranjas sutis lá fora quando Clara colocou o copo na pia e virou para fazer seus passos de volta para o quarto, mas então uma brisa repentina passando por seus cabelos fez um calafrio subir por sua espinha.

Lembrou-se daquela sensação estranha que sentira na noite passada enquanto seus pés cautelosos a guiavam até a porta dos fundos, por onde a cozinha dava acesso à lateral da área alpendrada da mansão. Parou ao notar que a janela basculante próxima da porta estava aberta, fechou-a com um mínimo ruído, em seguida foi para a porta e testou a maçaneta uma e outra vez para confirmar que estava mesmo travada.

Quando girou o corpo devagar no recuo do passo, seu coração quase saltou pela boca.

Deus!”, sibilou no susto, instintivamente acuando de costas contra a porta.

Aqueles olhos redondos piscaram amarelos e luminescentes na penumbra de novo e ela teve que rir baixo da situação que teria sido cômica, se não fosse pelo estado de nervos em que a deixou. Ainda um pouco atordoada, se aproximou da ilha da cozinha onde a bichana sorrateira estava sentada nas patas traseiras, a cauda felpuda arrastando-se feito um pêndulo preguiçoso pelo mármore escuro, para lá e para cá.

“Ei, gatinha. Quase me matou de susto”, brincou ao coçar atrás das orelhas pontudinhas dela, encantada pelo ronronar dengoso da felina, “Você tem nome, hm?”, estreitou os olhos numa plaquinha dourada que pendia da coleira vermelha, lendo a gravação que encontrou ali em voz alta, “Leo”, ela sorriu na alusão a esse desapego incomum que a francesa demonstrava pelas normas de gênero, então conspirou humorada para os ouvidos atentos da gata, “Apostava uma grana que foi a Diana que te deu esse nome”

“Ia apostar pra perder, mon chéri

E dessa vez seu coração foi mesmo parar na boca, mas não por medo.

É, tinha um pouco de medo envolvido, sim. Talvez muito, e não pelas mesmas razões de antes. Tanto tinha que a única reação que conseguiu esboçar foi virar de uma vez, depois só ficou ali parada com cara de brisa, os olhos zerados na mulher de preto que praticamente havia se conjurado no ambiente, tão silenciosa foi sua aproximação.

E esse silêncio começou a se prolongar indefinidamente, até que Diana deu um passo mais perto ao revelar num tom sugestivo, “Foi uma bela visão...”, outro passo e agora ela estava quase perto demais, “... a que você me deu o prazer de apreciar mais cedo”, aí sorriu de canto, parando a uns dois passos dela.

Foi quando Clara piscou, enfim voltando ao presente.

“Não era exatamente a você a quem eu queria dar o prazer, mas...”, deixou que o ar frio do alvorecer mitigasse sua indireta ousada, mas então seu olhar foi atraído para um objeto brilhante que pendia do pulso esquerdo da mulher.

“Hm...”, o sorriso da francesa só se alargou quando lhe deu aquele olhar demasiado apreciativo dela, acenando devagar com a cabeça e, tendo percebido aquele relance para sua mão, ela levantou-lhe o artefato na altura dos olhos, “Gosta?”, perguntou com o que parecia ser genuíno interesse.

Clara a encarou fixamente. “Eu não entendo muito... de joias”, murmurou um pouco incerta, seu olhar desviando por um segundo quando a gata fez um ruído entre um miado e um silvo atrás dela.

“Mas gostou dessa”, a francesa arqueou uma sobrancelha, instigada, em seguida, num movimento fluido e inesperado, pegou a mão direita de Clara e depositou o medalhão na palma da mão dela.

Após alguns segundos passados da ligeira surpresa, seu olhar baixou para o objeto enquanto o manuseava de uma mão para a outra, testando-lhe o peso, tentando decifrar o idioma das minúsculas inscrições gravadas nas bordas, até que enfim seus olhos trilharam de volta para aquela expressão curiosa no rosto da loira.

“É uma peça muito bonita, sim”, concedeu com um leve suspiro, “Delicada e... de muito bom gosto. Parece ser ancestral também”, ela concluiu ao oferecer-lhe o medalhão, mas Diana não fez qualquer menção de pegá-lo.

“Você tem um bom olho. Essa peça é mesmo antiga, de origem celta”, sua expressão então ficou mais solene quando explicou, “Está na minha família há gerações, passada de mãe pra filha. Mas eu... nunca usei”

“Algum motivo em especial?”, indagou-a com um olhar desconfiado, cruzando os braços numa postura desafiadora.

Diana baixou o olhar por um instante, como se pega numa memória distante, então lhe deu um brilho humorado. “Reza a lenda que uma Grimaud só deve usar esse medalhão depois que for mãe. Caso contrário, uma maldição cairá sobre ela e toda a sua descendência”, ela demorou-se noutra pausa, a ponta da língua passando brevemente pelo canto dos lábios num gesto reflexivo que, em qualquer outra boca, não teria sido tão erótico.

Clara riu pouco crédula e dessa vez nem tentou disfarçar o lapso de foco dos seus olhos. “Maldição?”

“Hmhum”, a mulher deu um último passo curto a frente e sorriu-lhe as palavras irônicas, “Uma vida longa e tediosa, sem paixões arrebatadoras ou o conforto de um amor verdadeiro”

“Soa melodramático demais pra mim”, murmurou com uma exalação, começando a se sentir intranquila com essa proximidade toda da mulher.

Diana a encarou bem nos olhos quando admitiu com um suspiro, “Na verdade, é uma charada sobre o elo que une todas as mulheres numa só”, e nessa Clara franziu as sobrancelhas, ainda dando pouco crédito ao que a mulher estava lhe dizendo, “Mas quem sabe... agora que a Céci está comigo, eu finalmente não seja digna de usá-lo”, ela deu um puxãozinho de leve na corrente fina enroscada nos seus dedos, olhando-a por baixo dos cílios ao instigá-la, “O que acha?”

“Eu acho...”, sua língua travou no momento em que a francesa foi virando, a seda preta do robe que ela vestia deslizando-lhe pelos ombros nus que, depois de suportar os pesos mais pesados dessa vida, apenas pediam-lhe em silêncio por um que fosse mais leve e só dela, “... que nem toda mulher é digna de ser mãe”, notou a postura dela enrijecendo nas suas palavras, mas, quando as pontas dos seus dedos roçaram na pele de porcelana para lhe afastar os cabelos de lado, seus braços a envolvendo brevemente no que suas mãos separavam as extremidades da corrente em volta do pescoço escultural, os ombros de Diana relaxaram outra vez, “Mas... parece que mulheres como você sempre têm o benefício... da dúvida”, Clara completou o fecho com um suspiro um tanto trêmulo, o movimento que fazia para trás na tentativa de criar algum espaço entre elas esbarrando na borda gelada do mármore que se projetava na baixa das suas costas.

Quando Diana virou-se devagar para encará-la novamente, agora com aquele brilho predatório no olhar, e o medalhão que pendia entre as curvas dos seios escandalosamente à mostra sob o robe ainda abaixado, Clara se viu engolindo em seco.

“Sabe que eu venho te observando faz algum tempo?”, disse-lhe segundos depois, sua voz baixando para um quase sussurro quando ela sorriu na implicação, “E devo confessar... eu gostei bastante do que vi”

Clara lhe retribuiu o sorriso com um irônico, seu tom mais confiante do que ela se sentia no que replicou curtamente, “Imagino”

Foi então que, assim do nada, a mulher moveu-se para beijá-la e, no choque, Clara não conseguiu evitar que os lábios macios dela lhe roubassem por uns três, talvez cinco segundos a mais da sua razão, até que enfim recobrou o senso do perigo e afastou o rosto bruscamente.

“Você parece um pouco tensa, mon chéri”, ela constatou o óbvio, enquanto seus olhos azuis, aparentemente mais preocupados que maliciosos naquele momento, procuravam os da outra mulher.

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Clara forçou toda uma frieza que não possuía em si para retrucar, encarando a francesa no olho, “Impressão sua”

Mas Diana, muito consciente do que tinha provocado nela, apenas sorriu de canto.

Embora se esforçasse muito, Clara sabia que sempre deixava transparecer seu próprio tumulto interno em situações assim, extremas. Transparecia ainda mais quando o assunto era uma certa fotógrafa e, ao que parecia, quando se tratava de uma certa francesa também...

“Por que fez isso?”, questionou-a um momento depois, seu tom demasiado neutro.

Sem recuar um milímetro, a loira não deixou passar uma batida. “Só te ofereci uma pequena... prova do que você finge que não, mas sempre desejou”, então levou sua mão até o rosto rígido da mulher e com a ponta do indicador foi traçando a curva da mandíbula dela enquanto falava, “Esse anseio, essa luxúria pelo proibido que Marina sempre teve e que você consegue sossegar nela, usar a seu favor...”, demorou-se num suspiro, aí lhe abriu um sorriso que era um abismo tão cheio de malícia que quase se viu caindo nele outra vez, “Eu sei que ela sente isso toda vez que olha pra mim, mesmo agora, mal enxergando...”, os olhos dela acompanhavam a mão que foi baixando, as pontas dos dedos tocando sutilmente, arrastando vertigens por seu pescoço, “... e você também sente...”, pelo vermelho amarrotado da camisa, até que repousou sobre seu seio esquerdo, “... bem aqui, pulsando...”, e segundos depois, quando aqueles olhos azuis trilharam para os seus novamente, havia um brilho quase familiar neles, “Controle... É isso que você quer, Clara. E eu estou disposta a ceder...”, finalizou com um suspiro, seu tom calmo como se soubesse de coisas indizíveis.

E se isso fosse mesmo uma barganha? Precisava saber até onde sua contraparte esticaria essa corda...

Clara olhou para aquela mão, aqueles dedos longos e delicados ainda repousando em seu peito, tão parecidos com os que ela tanto adorava e não ao mesmo tempo, então de volta nos olhos dela...

“Sempre tem um 'mas'...”, ela provocou a francesa, que lhe sorriu toda solícita.

Não, isso nunca foi uma barganha. Mas Diana não precisava saber disso, precisava?

“Eu quero...”, meneou a cabeça no lapso, “... espero a mesma disposição da sua parte”, aí se aproximou até que suas bocas estavam a centímetros do toque, “Uma troca justa, não acha?”

Até poderia ser...

Só que dessa vez Clara não se deixaria intimidar pela sedução que Diana tanto possuía, como não tinha sequer um pingo de vergonha de usar para seu próprio benefício, sem nunca medir consequências ou se preocupar com os estragos que isso podia causar nas reputações e, ainda pior, nos relacionamentos alheios.

Cheia de falsa bravata, encurtou o mínimo que pôde da distância entre seus rostos e disparou, “Troca justa? Acha mesmo que eu não sei o que você quer, Diana?”, ao notar que as pálpebras da mulher tremeram minimamente nas suas palavras, ela se muniu de toda a calma que não tinha para continuar num tom mais confiante, “Se tem uma coisa que eu aprendi convivendo com a Marina esses anos, é que não se pode possuir o amor de alguém como se possui um objeto qualquer. Que por mais que uma pessoa queira e se esforce, não dá pra ser tudo na vida de quem se ama”, fez uma pausa no que a mão em seu peito foi deslizando para baixo, até que deixou seu corpo completamente, “Mas no que depender de mim? Pode ter certeza que ela nunca mais vai precisar dividir nada disso aqui com você”, bateu no próprio peito ao ecoar as palavras que Marina havia lhe dito semanas atrás, talvez não com toda essa segurança que queria mostrar, mas o significado delas estava lá assim mesmo.

Só que Diana era... Bem, Diana. E ela estava ficando boa demais em interpretar os sinais do seu corpo para o seu gosto.

Tanto era assim que a reação dela foi encará-la olho no olho para dizer-lhe simplesmente, “Eu não tenho pressa”

“Então senta...”, rebateu pouco irônica ao mover-se para sair, mas alguma coisa dentro dela a fez parar no meio da passada, inclinando-se para sussurrar no ouvido da francesa, “... e aproveita a vista”, e com essa ela deixou a cozinha.

Diana baixou a cabeça um instante, mordendo um sorriso no lábio, então notou aquele par de olhos azulados na primeira luz da manhã observando-a com curiosidade.

Ela tocou o focinho gelado da felina com a pontinha do dedo ao conspirar-lhe num sussurro deliciado, “Tal mãe, tal filha”

***

Seus passos silenciosos a levavam para ela, sempre no rastro dela.

Seus olhos só procuravam por uma presa, e ela estava bem ali, tão adormecida e quase tão nua se não fosse pelos lençóis enroscados nas suas pernas delgadas, deliciosas...

Não queria romance quando subiu naquela cama, quando montou numa daquelas pernas e passou a outra por cima da sua coxa direita, pressionando seu sexo latejante no dela e suas pálpebras vibraram no prazer cru que isso lhe deu, seu corpo curvando sobre o dela, sua mão esquerda se fechando no pescoço longo e tão convidativo, a outra caçando os seios hipnotizantes e apertando...

Só queria mesmo...

“Hmmm, amor...”, ela gemeu ao piscar os olhos devagar, sorrindo toda manhosa, “Adoro quando me acorda assim”

“Eu quero saber”, rangeu as palavras, aumentando a força nos seus movimentos, “E eu quero saber agora

Marina já estava tão perdida, sua mente transitando pelas brumas do sono para as chamas do sexo, que parecia mesmo não ouvi-la. Ela só se encontrou um longo momento depois, quando sentiu aqueles dedos em sua garganta flexionando ansiosamente.

“Tão impaciente...”, essa lhe rendeu outro aperto, um que dizia que a companheira não estava para amenidades, então ela murmurou entre suspiros, “Já ouviu falar... do lema napoleônico? Divide ut regnes?”

Foi quando Clara surgiu na sua frente, rosnando numa voz que lhe causava todos os tipos de arrepios deliciosos, “Vai continuar brincando comigo? Explica”

“Dividir pra conquistar... É assim que a mente dela funciona, e não é só pros negócios...”, mas a mulher ainda não parecia nem um pouco convencida ali, já que o aperto em sua garganta ficava cada vez mais intenso, dificultando sua respiração no que ela continuava, “Eu sei disso... porque eu também costumava pensar dessa forma, muito graças a ela. Mas aí... você apareceu... e devastou todas as certezas que eu tinha, menos uma...”, respirou fundo numa pausa, “... a de que um dia você ia ser minha... mesmo que eu tivesse que te dividir... com ele...”, estava quase tão delirante pela falta de ar que já nem sabia se o que falou tinha feito algum sentido.

Quando Clara lhe sorriu daquele jeito endiabrado e Marina sentiu seus pulmões finalmente se encherem de ar outra vez, ela sorriu de volta, trêmula e agora ainda mais perdida do que antes.

Sentido aparentemente tinha feito, mas aquele fogo ainda estava lá, queimando no castanho vivo dos olhos dela que, ainda que não pudesse enxergar mais assim, Marina lembrava muito, todos os dias, tão nitidamente como na primeira vez...

Deus... Como tinha vivido tanto tempo sem amar essa mulher?

“Ainda faltam dois”, ela sussurrou contra a sua boca ofegante, diminuindo o ritmo dos seus corpos para uma cadência não menos prazerosa, ainda mais enlouquecedoramente excitante.

E como não conseguia negar nada a essa mulher, não assim, não quando ela fazia essas coisas proibidas com seu corpo, Marina cedeu mais uma vez, “Ela queria te testar, pra ver até onde você iria”

Clara estreitou um olhar cínico nela, deslizando a ponta do seu polegar no lábio inferior da companheira enquanto falava, “Hm. E é claro que isso nada tem a ver com uma certa madrugada que você chegou em casa de porre, depois de passar a noite fazendo o diabo sabe lá o quê com ela”

“Eu estava magoada, me sentindo traída. Bebi demais e acabei desabafando mesmo... sobre tudo”, e nessa a fotógrafa roçou a pontinha da língua no dedo dela, sugando-o em sua boca por um momento e fazendo-a sibilar na sensação daqueles dentes afiados, até que soltou sua presa com uma provocação nos lábios molhados, “E não, eu não me arrependo de quase ter ido pra cama com ela depois”

Aquelas últimas palavras mal deixaram sua boca e ela já sentia os dedos de Clara flexionando quase insuportavelmente dessa vez, quando a mulher mordeu um rosnado nos seus lábios abusados, “O último motivo, Marina. Eu quero saber o último”, mas sua resposta ia ter que esperar, porque outros dedos agora roubavam toda sua eloquência naquele momento.

O ângulo em que seu corpo estava não era dos mais confortáveis, com sua perna flexionada assim sobre o ombro da companheira que agora forçava o peso dos quadris contra a mão que estimulava seu sexo, mas estava tão bom desse jeito...

Enquanto ela estivesse fazendo exatamente isso, estava mais do que perfeito...

Alguns minutos mais disso, só mais um pouco...

Quando a tomou momentos depois, seu orgasmo deixou-a completamente surda por uns maravilhosos trinta segundos.

Com um sorriso preguiçoso e satisfeito se espalhando no rosto, ela enfim revelou num sussurro, “Esse você já começou a descobrir sozinha”

Sentiu os lábios dela sorrindo na curva do seu pescoço, “É isso que você quer, não é?”

“Só se você quiser também”, foi sua resposta sonolenta.

Clara sugou um beijo do seu ombro antes de morder a palavra ali, “Louca”

“Não tão louca quanto você...”, e puxou-a para um beijo quente e demorado, rindo quando a mulher gemeu um pedido na sua boca momentos depois, para que ela a deixasse fazer esse rastro de beijos por seu corpo até onde o seu gosto era mais forte, mas não menos delicioso.

“Bom aí?”, perguntou-lhe de olhos fechados para o teto, definitivamente apreciando a atenção.

Ela surgiu na sua frente um minuto depois, a evidência do quanto sempre foi bom espalhada nos seus lábios e queixo. “Hmhm. Tem sabor de minha. Conhece?”

Marina enroscou os dedos nos cabelos bagunçados de Clara, puxando-a para si, seus olhos bem abertos quando lhe beijou as palavras nos lábios, “É o meu favorito”.

Notas finais
"Sinestesia" vem aí.