Ele costuma lá estar, no canto do olho. A sua figura pálida contrasta com a escuridão do cenário. Os lábios vermelhos, o seu sorriso rasgado. Os olhos salientes, as órbitas prestes a saltar. Eu imagino-o. Não o vejo porque não existe. Mas sinto-o. Na minha cabeça, pelo menos.

Fui eu que o criei. Na minha mente, construí esta criatura, este humano deformado capaz de tudo o que bem desejar. Coloquei-o no papel, descrevi a sua figura e a aura de terror puro que dele emana. No fundo, ele sou eu, e ele assombra-me

Nos corredores, nas extremidades ou no fundo em plena luz ou escuridão, nas escadas, fitando-me. Ele nunca faz nada e eu sei disso. Ele nunca me tocaria. Apenas me faz sofrer, olhando-me com aqueles olhos redondos, sorrindo abertamente. Aquele sorriso, aquele sorriso branco. Os cabelos negros pendendo-lhe sobre os ombros nus. Não veste roupa, nem precisa dela. Nunca ouvi falar de um demónio que visite lojas de roupa. Este não é exceção.

O espírito persegue-me. Não se move, não se mexe. É tanto omnipresente como omnipotente. Cometi o erro de o criar assim, numa noite em que estava só, envolvido no meu ódio e desejo de vingança.

Passaram-se anos e anos desde o dia do seu nascimento. Entretanto, casei com a minha adorável esposa e juntos demos génese a um novo ser, muito menos odiável, o meu filho. Este filho, meu verdadeiro filho, tornou-se na maior alegria da minha vida. Mas a alegria, esse efémero estado, sempre foi inconstante, indo e vindo. Isto porque o monstro sempre lá estaria, sempre permaneceria ao lado do seu criador. A minha criação, minha querida personagem fictícia.

Um dia, o meu filho brincava num parque infantil quando, de súbito, se aproximou de mim, chorando. Perguntei-lhe o que se passava. Nenhuma das outras crianças que brincavam com ele me soube explicar a razão daquelas lágrimas. Não me parecia magoado. Para além disso, estive a vigiá-lo o tempo todo. Ele, o meu querido filho, explicou-me o motivo dos seus temores: vira uma pessoa aterrorizadora, de pele branca como a neve, sorrindo-lhe de forma ameaçadora, perseguindo-o com os olhos.

De início, pensei tratar-se de uma simples coincidência. Contudo, aquela foi só a primeira vez. A experiência deu-se mais vezes, cada vez de forma mais frequente, nos mais diversos locais e situações. Percebi que não só me havia amaldiçoado a mim como a toda a minha família, toda a minha linhagem.

Procurei relaxar. Aquele ser não era real. Só o imaginei, nunca o senti realmente. Nunca o vi apesar de o meu filho dizer que sim. Só poderia ser uma fantasia, uma forma estranha de "amigo imaginário" ou uma possível doença do foro mental. Levei-o ao médico. Sem resultados conclusivos. Receitou apenas alguns remédios. Nada conclusivo.

Porém, foi hoje, ainda há pouco, que o pior se deu. Era uma noite, uma noite completamente ordinária. Até ouvir o meu filho soluçar à distância. Abri a porta do meu quarto, preocupado, e corri à casa de banho. Ele tem andado com graves dores de cabeça e, por isso, fui buscar os medicamentos adequados, pois previ que se tratasse disso. Quando abri a porta e me dirigi ao quarto, vi-o. No canto do meu olhar, de pé sobre um degrau das escadas. Os olhos redondos, quase saltando, sangrando levemente. O sorriso enorme, dilacerando os cantos dos lábios. A pele pálida, isenta de calor, alheia à vida. Mas aquele corpo, o corpo era do meu filho.

Sem pensar, corri para o quarto da criança. Já não era meu filho. Fora tomado pelos meus demónios. Consigo ouvir neste momento a criatura, o meu "filho", a minha querida criação, arranhando a porta, desejando-me. Ele quer-me. Sempre foi este o seu objetivo. Mas ele só viverá enquanto eu permanecer vivo. Registo aqui, neste papel, tudo o que sei, toda a verdade. Não o deixarei tocar na minha esposa. Não o deixarei fazer-lhe mal. É tudo o que me resta, o meu grande amor. Hoje, acabarei com tudo. Pai e filho, morreremos ambos. Aqui. Hoje mesmo. Com esta tesoura que outrora o meu querido filho usou, terminarei a minha vida. Cortarei o meu pescoço. E ele nunca a poderá magoar. Nunca mais magoará ninguém.

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