Notas iniciais
O desenho é meu e reflete Laly e Iury na fuga. Ele foi feito no dia 12 de agosto de 2011, quando a trama estava sendo exibida pela primeira vez no FB, mas não vale olhar aquela porque esta aqui é a versão atual e melhorada. Espero que estejam gostando e que estejam prontos para as fortíssimas emoções dos próximos capítulos. ♥

Terceira pessoa off/Laly on

Amar é se permitir ser livre, regozijar com a felicidade do outro, ainda que seja a custo de suas lágrimas.

Na teoria.

Era difícil de crer que Iury superaria o término muito antes que minhas olheiras diminuíssem. Aceitaria que meu ex-namorado trilhasse o caminho que bem entendesse e fosse feliz acima de qualquer coisa.

Até a data oficial do casamento ainda precisaria cumprir minhas funções no salão de D. Emília e o fiz ainda que não possuísse forças nem mesmo para rezar e pedir uma concreta direção.

Mayra Sanches era a minha melhor amiga e apenas com um olhar sabia se eu estava bem ou não.

― Saiu mais cedo ontem, né, safada? Sentiu saudades do noivinho, é? ― Mayra tentava me fazer cócegas porque adorava me ver sorrir.

― Não fala do Gustavo.

― Por que você está chorando, Laly? ― Mayra sentou-se comigo no sofá do salão. ― Eu falei algo que te magoou?

― Não.

― Foi sim, Laly. Eu acho que sei por que você está assim.

Tentei negar até o limite, mas estava óbvio: se Iury fosse mesmo parte do passado, eu não desmoronaria ao vê-lo com outra garota. Por mais Iury me odiasse, eu ainda o amava. Com o pouco de entusiasmo e garra restantes, ainda o amava demais para permitir que saísse com aquela ruiva espalhafatosa.

Chorava a ponto de soluçar e desejar chorar mais ainda. Emília, que estava conversando ao telefone, uniu-se a nós e sem entender por que eu me lamentava, ralhou com Mayra:.

― A senhorita não está fazendo fofoca, né, Mayra? ― Emília detestava que a filha falasse pelos cotovelos, porque não queria em nenhum momento se indispor com meus pais.

― Eu, hein, manhê. Não está vendo que a Lalinha está com mal de amor?

― Mal de amor? ― Emília franziu o cenho, desentendida. ― Como assim? ― Ela me trouxe um copo de água com açúcar para ficar a par do assunto, suspeitando do óbvio.

― Lembra-se do que eu te disse, mãe? Ela ainda ama o Iury.

― E por que não fala com ele? ― perguntou Emília, interessada pelo babado que movimentava o salão antes mesmo de ser aberto para o público.

― Porque ele já está namorando uma ruiva assanhada. Eu os vi aos beijos.

Aquele beijo quente de Iury e Aimée era uma prova mais do que concreta da superação dele.

― Tem certeza de que era ele? ― investigou D. Emília novamente erguendo as sobrancelhas.

― Como se eu não conhecesse o Iury...

― Minha querida, eu acho que você é muito nova pra carregar todo esse peso nas costas. Por que não é sincera com Gustavo e desfaz esse noivado?

― Não posso.

― Claro que pode... Ainda tem tempo...

― Se eu fizer isso, meu pai vai me odiar para sempre e eu sei que Gustavo pode fazer algo contra Iury...

― Ameaça...

― Vocês não sabem do que ele é capaz...

― Fala isso por ciúmes, para te amedrontar, mas na realidade jamais faria isso.

― É o que vocês pensam.

― Mãe, o vestibular dela é por esses dias. Por que a senhora não dá umas férias a ela? Eu não ligo de substituí-la...

― Não precisa, May. Eu nem sei mais se vou fazer vestibular. ― abanei a cabeça, lembrando-me que não tinha nem sequer ânimo para revisar meus propósitos de estudo.

― Por favor, Lalinha. Nem pense nisso! Você estudou o ano inteiro e vai sim fazer essa prova. Não só vai fazer essa prova como vai passar e ser jornalista. Além do mais, está de férias...

― Mas e...?

― Não tem nada de "mas". Vá lavar esse rosto, se recompor e seguir a vida. Homem nenhum merece lágrimas de mulher. Além do mais, se esse homem fosse realmente o cara, jamais te faria chorar.

Que D. Emília estava coberta de razão eu sabia, mas como dizer isso a mim mesma e com naturalidade acreditar que Iury estava me perdendo e não o inverso?

Até que a noite chegou e com ela a esperança. Eu já estava pronta para dormir quando Mayra me telefonou. Edílson e Eleonora inventavam pretextos para circular pelo recinto, o que obrigou minha melhor amiga a resumir a ligação em poucas frases, estas que tiveram o poder de me fazer sonhar de novo, ver uma luz no fim do túnel que estava.

Querida Laly,

Há algumas semanas eu jurava que nós dois ficaríamos juntos para sempre.

O destino nos separou, ou melhor, usou Gustavo para nos distanciar e eu sei que à medida que tentamos nos entender, mais e mais estamos nos perdendo um do outro.

Estou sofrendo muito com o término abrupto do nosso namoro e ainda te amo. Aliás, te amo muito, muito mais do que sei entender e sentir.

Minha vida tem seguido atalhos estranhos e num desses desencontros, conheci Aimée, a tal ruiva que beijei naquela festa. A verdade é que foi curtição, um jeito de te fazer ciúmes. Achei mesmo que você havia ficado com o Gustavo para me provocar e senti raiva de você, o que sei que foi um grande vacilo, pois você não merece isso.

Não precisa me perdoar se não quiser, mas se quiser, retorna essa carta. Eu tenho uma proposta a lhe fazer e queria poder dizer tudo olhando dentro de seus olhos...

Sabe, é radical e vai ser difícil para ambos, porém o destino não nos deixou alternativa... Sendo curto e grosso: QUER FUGIR COMIGO?

Carinhosamente,

De seu eterno amor,

Iury.

Eu nem mesmo me preocupava com vestibular, o que iria levar de bagagem, até porque o amor me incentivava a recomeçar, desapegar, tentar. A resposta da carta se resumiu a um beijo e um encontro na rodoviária à meia-noite, quando todos já estivessem dormindo. Além de nós, Mayra e Nilton sabiam e nos davam inteiro apoio.

Nilton por amar Naira suportava viver ao lado da amada sem ser notado e Mayra porque queria me ver sorrir mais do que qualquer outra coisa no mundo.

O ditado popular "alegria de pobre dura pouco" aplicou-se perfeitamente àquela noite. Gustavo resolveu jantar lá em casa. Para meus pais, um prato cheio. Se Edílson mal me cumprimentava em um dia comum, diante do idolatrado genro ia mais longe e me tratava com adjetivos que me soavam tão falsamente quanto à bondade de Eleonora.

A toalha estampada dos domingos estava estendida na mesa de jantar e essa era a maior formalidade que poderíamos oferecer. Os pratos e talheres eram um pouco antiquados e simples, porém era o que poderia ser oferecido, gostasse o ricaço ou não e, aliás, se pudesse fazer com que mudasse de ideia, certamente empenharia todo meu suor na causa, se bem que a fuga ainda estava em aberto e tudo correndo como o esperado, no raiar do dia seguinte eu seria novamente livre.

Uma travessa com macarrão ao molho de tomate e almondegas seria servida ao filho de Jordano Figueira Antares que muito possivelmente costumava sair para comer e ainda assim foi cínico o bastante para saborear como se fosse um prato dos deuses.

À sua frente havia quem o enaltecesse a ponto de montar um altar e rezar para ele. Papai poderia passar horas a fio ouvindo cada anedota de Gustavo, o bajulando em alguns intervalos e evitando até piscar para não perder nenhum trejeito de seu futuro genro. Planejavam em meu nome como se eu estivesse de acordo com as loucuras que pretendiam fazer. Encomendar um filho, abandonar os estudos, me prender a uma droga de sobrenome composto e alguns cifrões.

Faltando quinze minutos para as 22h00min, Gustavo bocejou e despediu-se dissimulando pesar ao me deixar só, prometendo céus e terra até enfim entrar no carro e partir. Papai e Eleonora costumavam se deitar cedo. Aguardei mais 15 minutos até que pegassem no sono e então pulei a janela e encontrei-me com Mayra:

― Eu volto para ver você, mas quando tudo se acalmar... ― prometi dando as mãos para a minha melhor amiga.

― Volta mesmo?

― Não vou me esquecer de você...

Mayra estimava muito um colar com um pingente de estrelas, o suficiente para tirá-lo e me presentear.

― Assim você não se esquece de mim nunca.

Com ou sem estrelas, eu jamais me esqueceria de Mayra Sanches.

Iury estava me esperando no local em que previamente combinamos. Em nossas mochilas carregávamos apenas o estritamente necessário. Com uns trocados que Nilton nos presenteou, venceríamos batalhando por pão, teto e realização.

Até que uma bofetada os separe.

Era só o que me faltava, ser insultada em público, chutada durante o caminho. Meu pai foi me buscar pessoalmente na rodoviária e não era para abençoar o casal. Aquela bofetada que me jogou contra a calçada e me tirou à força da fila de embarque, sinalizou o fim, dessa vez sem recomeço. O desastre do meu plano B.

Faltava tão pouco para eu dar meu primeiro passo significativo rumo à liberdade. Perante a lei eu era maior de idade e já me responsabilizava por mim mesma bem antes de completar dezoito verões.

Depois que Ingrid me abandonou na terra dos viventes, aprendi a contar com o meu próprio apoio porque esperar que Edílson me socorresse era pedir para ser desprezada com palavras, o que ele já havia feito a partir do momento em que a memória de minha mãe foi desrespeitada.

― Eu posso explicar tudo, seu Edílson.

Iury brigava por uma causa perdida. Bofetões substituíam palavras.

― Não faz isso, seu Edílson. A Lalinha não merece isso... ― Iury implorou a clemência de Edilson, colocando-se de joelhos na calçada de paralelepípedos.

― Não me diga como eu devo agir com a minha filha, seu imundo desgraçado.

Por pouco Iury não foi espancado também e nada lhe sobrava a não ser ir para casa e chorar, pois me arrastando pelos cabelos, Edílson me trazia de volta à realidade.

― Eu deveria expulsá-la de casa por conta desse vexame. Não sabe que teu noivo está muito decepcionado com isso?

Quem poderia ter dedurado nossos planos se apenas Mayra e Nilton tinham conhecimento? E como em tão pouco tempo Gustavo já estava sentado no sofá "consolando" Eleonora?

― Eu não vou me casar. ― Após ser chutada e atirada contra a parede, berrei impondo pela primeira vez a minha vontade que se opunha aos interesses superiores.

― Se você não se casar, não entra mais nessa casa.

― Seu Edílson, por favor, mais calma. ― Gustavo tentava inutilmente apaziguar o tenso clima entre pai e filha.

― Eu não me caso, não me caso. ― reiterei tentando matar Gustavo com os olhos.

― Se não se casar, abra essa porta e vá embora, mas te aviso que você não é mais minha filha. Você não é mais minha filha. ― Edílson, completamente colérico, passaria por cima de quem fosse para manter aquele casamento.

― Edílson, por favor. Laly está apenas exaltada. Dê um tempo para que se recomponha. ― Gustavo, o psicólogo de araque, com suas teorias furadas.

― Eu não vou me recompor. ― apanhei Gustavo pelos braços, abri a porta principal e o empurrei para fora, fora da minha vida e mente.

Edílson apanhou um porta-retratos do balcão e atirou em minha direção. Por não conseguir acertar o alvo, me encurralou, tirou o cinto e impiedosamente em espancou, destilando ódio e revolta a cada chibatada.

Gustavo, do lado de fora da casa, gargalhava com meus gritos.

― E agora mesmo você vai pedir desculpas para Gustavo. ― ordenou Edílson fazendo menção de me surrar caso o contrariasse

― Não vou pedir.

Edílson arrancou minha blusa e empenhou tanta força braçal a ponto de fazer minhas costas sangrarem, latejarem e mesmo que urrasse de dor a ponto de acordar aos vizinhos, em nenhum momento se arrependeu do que fez.

― Magoar um sujeito tão bondoso como Gustavo é imperdoável. ― bradava Eleonora, agindo no papel da sogra protetora. Quem a visse me sufocando com lições de moral, diria que se tratava de uma pretendente recalcada. Acredito que ela desejaria minha própria morte para sair com Figueira Antares, da maneira como a ele se referia era mais do que uma simples admiração, do que o tal "partido perfeito" para a enteada problemática e ingrata.

Ela era secretamente apaixonada por ele.

― O moço tem boas intenções com você, está se desdobrando para fazer esse casamento acontecer e você faz isso com ele? ― questionou Edílson, jurando que sua violência atroz sobre mim era a solução para comprar meu silêncio.

Já rendida e sem mais argumentos, proferi o necessário, o que talvez pudesse significar alguma coisa a meu progenitor.

― Vocês não sabem o monstro que ele é...

― Monstro é você... E não dirija mais a palavra comigo... Se eu ouvir sua voz mais uma vez que seja, não respondo por mim... ― Edílson não fazia questão de me ouvir, ver ou amar.

― Um monstro faz o que você está fazendo com o Gustavo. O cara te dá tudo, te oferece o mundo, te trata que nem uma princesa, e você retribui isso o traindo com aquele maldito maloqueiro que não tem nem onde cair morto. Um monstro não passa a noite com os pais da mulher amada e jura estar se guardando para o casamento... ― Eleonora sentia prazer em me humilhar.

― Qualquer dia desses, essa menina ainda me mata de desgosto.

― Por que não vamos dormir, hein, amor? O dia de hoje foi muito longo e estressante.

Eleonora, atrás do marido, massageava os ombros dele o conduzindo até o quarto. Já eu não conseguia sequer me levantar do chão. Gustavo, satânico, só não me maltratou porque seus sogros podem ouvi-lo.

― Minha querida, por que enfrenta seu pai?

― Vá embora, desgraçado.

Gustavo me ajudou a recobrar os sentidos, mas, orgulhosa, o empurrei. Não convencido, tentou me abraçar.

― Eu sei que você ainda não me ama o tanto que te amo, mas te darei o tempo que for necessário para que aprenda a me amar.

― Nem em 10 vidas eu vou amar você.

― Não diga nada que vá se arrepender depois.

― Espero que um dia se arrependa por estar arruinando minha vida. Eu amo o Iury e nunca irei te amar. Entende isso, por favor.

― Eu te amo e posso amar você por nós dois.

― Por que não vai procurar outra mulher? Mulher nessa cidade é o que mais tem. Por que você me persegue? Por que eu? Por que eu?

― O que aconteceu hoje eu esquecerei. Sei que foi apenas um impulso adolescente e também pretendo conversar melhor com Edílson para que não leve isso tão a sério, afinal, você é só uma jovem inconsequente a qual colocarei nos eixos. Eu te amo e nada nem ninguém poderá impedir que eu me case com você.

Notas finais
Extra: a versão de Iury http://confissoesdelaly.blogspot.com/2016/08/a-versao-de-iury.html Ajuda a entrar no clima da novela e não bagunça a disposição dos capítulos. =)