Confissões de Laly
11 9. Pombo-correio peçonhento
Notas iniciais
Laly off/Terceira pessoa on
Milene estava jantando hambúrgueres e batatas-fritas na lanchonete do Seu Joel na companhia do pai que se sentia vitorioso por convencer a única filha a se socializar.
Era um programa simples, apenas um jantar. Para ele era um grande passo, no entanto, a motivação de Milene para estar ali destoavam das expectativas dele. Incumbida a espionar os amigos de Laly, rastrear cada passo de Iury para interpretar com maestria o papel de pombo-correio peçonhento. Sabotar a felicidade da prima sempre fora um propósito de vida para ela.
— Fico feliz em ver minha florzinha querendo passear.
— Deveríamos fazer isso mais vezes. O senhor não concorda que a rotina também pode ser demasiado cansativa? — respondeu Milene forjando entusiasmo.
— Minha florzinha, é assim que gosto de te ver: sorridente, satisfeita, à vontade. Você sabe que a razão da minha vida é você, então viver para te fazer feliz é a minha grandiosa missão, não posso falhar. — cortejou Amado, sempre muito atencioso a cada capricho da filha.
— É só uma pena que você não possa fazer Lalinha desaparecer. — pensou a garota, engolindo o riso que a desgraça de Laly a provocava.
Amado era um intragável, queria falar pelos cotovelos e nada irritava mais do que pessoas sem senso do ridículo.
— Papai… — pediu Milene ao reconhecer Gustavo Figueira Antares adentrando o estabelecimento e algumas pessoas curvando-se a ele como se fosse a reencarnação de um deus. — O senhor poderia me esperar no carro?
Amado não se convenceu.
— Eu… Quero conversar com as meninas, mas o senhor sabe, tratam-se de assuntos proibidos para os pais.
— Ah sim! — Amado assentiu em concordância, levantando-se da cadeira para encaminhar-se até o caixa.
— Não devo demorar. — garantiu Milene abrindo aquele sorriso de anjo que fazia Amado Moraes crer ter a filha mais doce do mundo.
Gustavo sentou-se no lugar de Amado e não estava para brincadeiras, Milene nem precisaria mover esforços para irritá-lo mais por ter de noticiar em primeiríssima mão que Iury e Laly estavam de malas prontas para fugirem de Guaratuba para sempre.
— Ele está destinado a reatar com Laly. — Chantageou Milene, despeitada, relatando ao comparsa toda a conversa de Laly e Mayra no salão da D. Emília. — Aquela velha pateta da Emília é a única que sabe manter o meu corte de cabelo e eu nunca pensei que minha visita viesse tanto a calhar. Enquanto aquela imprestável da Mayra falava mais que o homem da cobra, eu apenas ria mentalmente de tanta estupidez. Eu nem precisei me esforçar, tudo me foi entregue sem grandes esforços.
— Você tem que conseguir impedir que esse bilhete chegue às mãos de Lalinha. Você tem que impedir. Tem que impedir. — pressionou Gustavo, convicto.
— E você acha que eu não sei disso?
— Enquanto estamos aqui falando, os dois estão articulando tudo para nos derrubar. Precisamos ser mais espertos que eles…
☮
Convicto de que seria desonesto demais despertar falsas esperanças em Aimée, Iury desfez o relacionamento. Era doloroso sentar-se diante daquela garota iludida e dizer que não poderia continuar ficando com ela porque não fazia parte da índole dele a deslealdade.
— Não é nada contra você, Aimée. Você é uma menina incrível, que tem muita chance de encontrar alguém que vai fazê-la muito feliz. Sinto muito. Sinto muito mesmo, mas não sou essa pessoa.
— Mesmo assim foi legal ter te conhecido. — Disse uma Aimée chorosa, olhando para uma taça de sorvete sem ânimo para outra colherada. Iury a fez voar e a derrubou no chão. Com aquele mesmo sorriso. Com a mansidão da voz. Sem noção de que apesar do pouco tempo, ela havia se entregado e mais uma vez não bastava. Já havia outra no coração dele. Todas se apressavam, era inevitável atrasar-se. Nunca acertava. O cupido não se entendia com Aimée Cristina Gallardo.
— Eu não posso enganar você. Gosto de outra pessoa.
— Então seja feliz com ela.
Aimée não reagiu bem ao término, uma vez que sempre teve o costume de se apegar muito depressa aos seus ficantes, logo quando o namoro não ocorria, as decepções a faziam adoecer de tristeza.
Fernanda, pronta para ir à praia, mudou de ideia para saber o que se passava com a irmã mais velha:
— Aimée… Que foi, hein? — Fernanda se sentou na ponta do sofá onde o corpo de Aimée convulsionava de tanto soluçar.
— Ele terminou comigo.
— Mas já?
— Voltou com a ex. — Aimée suspirou abafando os soluços: — E o pior é que mesmo em pouco tempo eu já estou muito apaixonada por ele, Fer. Diz-me o que tem de errado comigo…
— Nada, Aimée.
— Por que é que eu sempre gosto de quem já tem outra?
— Aimée, ficar com quem já gosta de outra é sofrer duas vezes. Menino por aqui é o que mais tem.
— Mas não como ele…
— Muito melhores. E você também faz tempestade em copo d`água. Mal deu uns beijos no garoto e já está aí até falando de casamento. Acorda, Aimée! Pensa um pouco mais em você e deixa esse negócio de lado. Quando você corre atrás demais de namorado não aparece ninguém, aí você se esquece, se distrai e quando menos espera aparece alguém bem legal.
☮
Naira passava boa parte de seus dias na igreja não apenas rezando. Costumava auxiliar as irmãs na cozinha, em trabalhos voluntários, além de participar ativamente das aulas de liturgia. Desde a morte do pai, as orações eram a única coisa que lhe traziam conforto, desse modo não questionava as obras de Deus, procurava aceitar os desígnios, oferecendo seu tempo a causas que geralmente os jovens da idade não se interessavam muito.
A timidez dela, porém, era um impedimento tremendo até para a própria vocação porque muitas vezes, mesmo sem querer, sua voz deixava transparecer rispidez, quando o que se sucedia era o pleno desamparo. Por vezes pensar tanto nos outros fazia com que Naira Sanches se esquecesse de ser ela mesma, ainda uma adolescente de dezessete anos que fazendo os votos ou não, merecia todas as coisas boas da vida.
Nilton discordava de muitos posicionamentos ferrenhos de Naira, mas era um dos poucos amigos que tinha. Caminhando com ele naquele calmo final de tarde, não deixava de pensar no que escutara dias antes, aquela observação tão direta de Mayra sobre as intenções do garoto que era quase impossível manter-se impassível na presença dele.
Nem mesmo um sorriso ou um leve rubor na face. Naira fazia questão de manter o controle de seus sentimentos até quando não lhe cabia fazer isso. Não queria apaixonar-se ou conceber a ideia de aceitar Nilton como sendo mais do que um mero amigo.
Os amigos faziam uma caminhada juntos na praia, lado a lado. Nilton nunca lhe escondia nada. Se por um lado outros rapazes queixavam-se de ter namoradas tagarelas, o falador em questão era ele.
— Iury e Laly irão se desgarrar do caminho da fé. Alguém precisa impedi-los. — Naira estava desesperada com os últimos relatos de Nilton. Em sua concepção, Laly jamais poderia fugir do compromisso que assumiu com Gustavo. Gostando ou não dele, teria de aceitar a sentença do padre até que a morte a livrasse do fardo, o que a obrigaria em tese a esquecer-se para sempre do que viveu com Iury para não pecar nem mesmo em pensamento.
— Impedir que se amem? — inquiriu Nilton, soando debochado demais na concepção de Naira.
— Impedir a proliferação do pecado…
— Eu não acho que amar seja pecado.
— É o pior de todos! Afasta o homem de Deus.
— Eu diria que é ao contrário. É quando você aprende o idioma de Deus, que nada mais é do que o amor puro e verdadeiro.
— Você só pode ter enlouquecido.
— Eu e boa parte do mundo.
☮
Iury, chorando muito, foi procurar a ajuda de Mayra, que ao saber do fracasso do plano, desatou em lágrimas com o amigo.
— Mas quem contou? Quem ficou sabendo? — indignou-se a garota.
— Juro por Deus que não sei.
— Até onde sei, não contei a ninguém.
☮
Não muito longe dali, na escuridão da noite, Milene e Gustavo dividiam uma sidra e comemoraram o êxito dos planos.
— Eu te ajudei, Gus, mas agora preciso da sua ajuda… — sussurrou Milene, disposta a arrancar de Gustavo tudo o que conseguisse. Era uma das poucas que conheciam o ponto fraco dele.
— E posso saber para que almeja minha preciosa ajuda? — ironizou Gustavo, bem gostando de ser assediado pela perversa ninfeta, também tendo o ponto fraco de Milene em alta conta.
— Pretendo seduzir Iury. — esclareceu Milene para um Gustavo desgostoso de ouvir o nome daquele paspalho.
— Tenho outros planos para o caixoteiro. — Gustavo abanou as mãos ainda querendo entender o fundamento daquela obsessão caprichosa que Milene tinha pelo (ex) namorado da prima. Nada havia de extraordinário naquele sujeito para ser tão disputado pelas raparigas, até parecendo coisa de novela, aquelas que a mãe e as irmãs assistiam hipnotizadas na sala de televisão.
— Confie em mim, Gus. — aconselhou Milene. — É questão de tempo para Iury desgostar-se totalmente da Laly.
— Não garanto isso com tanta convicção. — atalhou um Gustavo muito cauteloso, o que não era do feitio dele, tão confiante de ser indestrutível. — Laly jura estar apaixonada por Iury.
— Não depois do que tenho em mente — Milene sorriu enigmática.
— E o que a senhorita tem em mente, danadinha? — Gustavo abraçou Milene pelas costas beijando o pescoço dela, o ponto fraco.
— Não.
Milene voltou-se para frente a fim de alisar o peitoral de Gustavo e desabotoar a camisa dele:
— Não vou te contar!
— E desde quando a megera tem segredinhos?
— Desde hoje!
— Estou dando o máximo de mim para afastar o caixoteiro da songamonga, então vê se não estraga tudo.
— E o que acha se quero o mesmo que você, bobinho?
— Não me chame de bobinho outra vez se quiser continuar tendo seu anjo da guarda sempre por perto. — ameaçou Gustavo.
— Você? Anjo da guarda? — debochou Milene, bebendo o que restou da sidra. — Sabe que eu não acredito em anjos.
— Devo admitir que com essa carinha de anjo eu não acreditaria que você, se puder se esforçar, consegue ser mais ardilosa que eu…
— Faço com que os outros vejam apenas o que convém saber a meu respeito. Nem mais, nem menos.
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