Cem Mil Anos-Luz

8 2.1 A Taste of Salt


Notas iniciais
Voltamos com o segundo capítulo da missão da Imari, Ananke e Tamura.

Embora Tamura tivesse dito menos que uma frase e um meneio de cabeça para as perguntas de Ananke, estava convencida de que tinha revelado demais.

Tinha sido estúpida. Nunca viu motivos para incomodar ninguém com seu passado confuso, e sua convicção tinha que falhar justo no meio de uma missão. Tamura não era a pessoa mais sociável do mundo e Imari tinha decidido desaparecer, mesmo sendo a líder designada. E em vez de deixar Ananke fazer sua mágica com as pessoas, Tamura a havia distraído com a questão patética dos Eisenyoungs.

A mesa estava silenciosa.

Wander quase não olhava para o próprio prato, mais interessado nas hóspedes e na indisfarçável ausência da mais importante delas.

Tamura não tinha fome e esperava que se continuasse cortando a comida em pedaços cada vez menores em seu prato, ninguém percebesse que ela não levava nada à boca.

Já Ananke Zreindel precisava admitir, mesmo muito a contragosto, que a comida era excelente. Alguns pratos mais exóticos eram feitos com ingredientes nativos, que Wander provavelmente negociara com povoados locais, pois estrangeiros não têm permissão de explorar o mar vorcia, mas a maioria deles eram pratos finos tradicionais de Raithua Naam, o que evidenciava que ele esperava receber a Diretora Wangi.

Após dar uma desculpa para a ausência de Imari, Anke tinha conseguido puxar uma conversa educada com o anfitrião, mas não era nele que estava sua atenção. Os dois Eisenyoung ladeando a porta a interessavam mais, mesmo completamente imóveis, e qualquer pessoa que passava por perto, fosse para entregar um documento a Wander ou servir o próximo prato do jantar, Ananke conferia de soslaio os braços em busca da tatuagem de identificação da Eisen. Quantas pessoas costumavam entrar, quais portas elas usavam, se carregavam algo, se iam direto até Wander ou se passavam por trás delas; ela observava tudo.

Nada explicava o quanto Ananke apreciava aquele estranho jantar. O constante estado de alerta que fazia o tempo finalmente fluir na velocidade certa.

— Se me permite, srta. Zreindel, posso fazer uma pergunta pessoal? O que faz uma raithuana deixar tudo para entrar na Esquadra?

— A maior parte da Esquadra é de raithuanos, sr. Wander.

— Mas não de famílias de prestígio como a sua. Gente cuja família e nada é a mesma coisa. Você, por outro lado, tinha do que abrir mão. Confesso que isso é algo que tenho dificuldade de entender. Eu e a Wina tivemos algumas discussões sobre o assunto, mas um sempre falhou em fazer o outro entender seu ponto de vista.

Anke sorriu para a pergunta e pensou no que responder, não tanto por ser o alvo dela, mas por ter ligação com o motivo de estarem ali. Era uma isca de Wander, mas uma bem-vinda; um assunto sólido para conversar, e mais importante e perigoso do que o anfitrião parecia pensar. Anke nunca foi muito boa no jogo das relações que seus pais tanto lutaram para lhe ensinar, mas era ótima em improviso, e seu instinto dizia que não havia motivo para fingir. Wander sabia por que estavam ali.

— Eu presumo que seja frustrante não conseguir convencer um parente da prevalência dos laços familiares acima das responsabilidades com a Esquadra.

Longe de enervar Wander, sua falta de sutileza o fez sorrir de leve após um gole ligeiramente demorado de vanhri naamês.

— Ninguém deveria precisar ser convencido disso. Mas, pela sua resposta, eu presumo que a senhorita seja mais a causa do que o alvo desse mesmo tipo de frustração. Suas palavras demonstram que esta é uma conversa repetida. Ou estou enganado?

O problema do improviso era que deixava brechas como essa. Mas Ananke logo se lembrou que, para alguém como Wander, havia formas mais fáceis de deduzir assuntos dos Zreindel do que uma única frase, e riu como se tivesse descoberto o truque de um mágico de festa.

— Senhor Wander! Quando esteve com meus pais?

— Há um mês, mais ou menos. Era um evento grande, não conversamos diretamente por muito tempo, e eles são bem mais reservados do que a senhorita. Mas gosto de conhecer pessoas, e achei muito curioso como eles só falaram de uma das duas filhas. Há tanto para ouvir no que as pessoas não dizem.

— Com um talento desses, não entendo o destino do seu finado casamento. Ouve palavras não ditas e ignora as muito bem ditas?

Uma pontada aguda na lateral de sua perna foi o primeiro sinal de que Tamura estava ouvindo a conversa, apesar de seu olhar parecer distante dos dois. O gesto não foi tão discreto quanto pretendido, pois a mesa era de vidro, e tanto Ananke quanto Wander o viram. Ananke olhou para Tamura, incrédula por ter realmente sido espetada com um garfo!, mas Wander, por sua vez, honrou a infalível etiqueta raithuana e fez a gentileza de fingir ignorância. Anke se voltou para ele, mas a interrupção abrupta tinha cobrado seu preço.

— Perdão, o que perguntou mesmo?

— Seu emprego e sua família. Como decidiu? Como lida com o distanciamento?

Não era uma dúvida incomum para um raithuano. Apesar de o Governo-Geral ter sido criado em grande parte por um esforço das Raithuas, ele usava conceitos extraraithuanos. Em seu povo, a cidadania não é exercida por indivíduos, mas por famílias. A autoridade não pertencia às pessoas, mas aos sobrenomes. O Governo-Geral e a Esquadra eram elementos contraditórios, posições de respeito, mas, ao mesmo tempo, eram uma espécie de deserção da unidade familiar.

— Esse… é um dilema imaginário. Só existe para aqueles de nós que viam o G. Geral como uma ferramenta, uma forma de relativizar transgressões raithuanas em relações interplanetárias. Minha família nunca me pediu nada que pudesse comprometer meu dever.

— E se pedisse?

Anke abriu a boca para retrucar, mas o som de passos apressados pelo corredor a deixou tão alerta quanto aos seguranças Eisenyoungs, que levaram as mãos aos coldre por instinto. A secretária Kimmei entrou correndo na sala, com um aspecto pálido e mãos tremendo. Alisou o tecido da saia formal para disfarçar o nervosismo, e sussurrou ao ouvido de Wander.

O anfitrião assentiu levemente antes de fazer um gesto de desculpas para as hóspedes e se retirou, andando calmamente, seguido por metade dos Eisenyoungs do recinto.

Tamura olhou para Anke, esperando orientação, mas foi Kimmei quem se pronunciou, com um sorriso perfeitamente educado.

— Lamento por tirar o senhor Wander de vocês. Posso acompanhá-las aos quartos?

— Por quê? — Anke perguntou.

— Em caso de falha de segurança, todo o pessoal não essencial deve se recolher aos quartos até a situação ser resolvida.

— Falha de segurança — Tamura repetiu. — E estão nos mandando para os quartos?

— Não há dúvida quanto às suas capacidades, Especialista Eisenyoung, mas não podemos aceitar a atuação de terceiros que desconhecem os procedimentos internos da instalação.

Luzes vermelhas acenderam no topo dos corredores, mas não havia alarmes sonoros. Kimmei as guiou para a ala de hóspedes, andando um pouco a frente. Os pergarol de Tamura e Anke sinalizaram uma mensagem ao mesmo tempo, de Imari.

— Você é mesmo uma secretária? — Ananke perguntou após ler a mensagem disfarçadamente, decidindo em um instante que elas não entrariam naqueles quartos.

— Não entendi sua colocação.

Kimmei digitou um código no painel do primeiro quarto. Assim que as portas se abriram, Ananke a acertou contra a parede, se esforçando para usar apenas a dose necessária de brutalidade.

— O que vocês…?!

Enquanto Anke imobilizava a secretária, Tamura entrou no quarto e pegou todo o equipamento que poderiam precisar. Mesmo que ninguém pudesse barrar o porte de suas armas, elas tinham combinado manter apenas o mínimo necessário consigo durante o jantar. Quando saiu do quarto, Anke empurrou a secretária para dentro.

— Não se preocupe, é só o procedimento com o pessoal não essencial — Anke explicou, antes das portas se fecharem e uma trava magnética prender a secretária Kimmei no quarto das hóspedes. — Trava de ativação remota. Previsível.

Terminando de conferir seu próprio material, Tamura jogou o estojo de armas brancas para Ananke com uma cara fechada.

— Ao menos uma vez, eu queria estar em uma equipe que faz planos.

— Na Vanguarda? — Anke zombou. Todas as portas estavam bloqueadas pelo sistema de segurança da instalação. O elevador só permitia acesso ao salão de entrada, a menos que uma senha disponibilizasse os demais andares. — Lembra a senha que ela usou?

Tamura digitou a mesma senha de Kimmei. Novas opções se abriram, mas não todas. De fato, ela era só uma secretária. Tamura hesitou sobre os comandos do elevador.

— Onde a Chefe Imari disse para irmos?

— Ela não disse. A mensagem dizia apenas para não interferir.

— Então aonde estamos indo?

— Interferir.

Tamura suspirou profundamente e murmurou um xingamento raithuano. Anke não entendeu se era direcionado a ela, a Imari ou a ambas.

*

Quaisquer meios necessários.

Água salgada ainda pingava dos cabelos de Imari, deixando uma trilha bem discreta pelos corredores da instalação, mas as luzes de alarme insinuavam que seus movimentos já tinham sido percebidos. A menos que Anke e Tamura tivessem saído muito dos trilhos, era seguro dizer que a falha de segurança era a própria Imari.

Não era o objetivo. Imari podia ser impulsiva e inconsequente, mas antes ela queria uma prova do que havia visto na aldeia, e achou que seria útil ter Ananke e Tamura distraindo Ley Wander. Mas as áreas internas da instalação eram, quem diria, bastante restritas e relativamente bem guardadas, o que atiçava muito sua curiosidade. Não tinha pensado muito no que estava fazendo. Assim que a ideia de entrar na área restrita da instalação começou a tomar forma, ela já estava lá dentro, com alarmes e luzes vermelhas alertando a todos. As colegas deveriam estar em pânico pensando em como explicar a situação para seus superiores, mas, se uma parte de Imari ainda conseguia se importar com isso, tinha a certeza de que tudo se resolveria de alguma forma. Sempre se resolvia.

Naymee havia dito “quaisquer meios necessários”. Mas, sinceramente, Imari teria chegado à mesma conclusão sozinha. Tinha sido uma ótima agente da Esquadra quando precisou ser, mas o momento passou, e a mão de nenhuma autoridade seria capaz de parar sua adaga. A dor de outras pessoas ressoava nela como se todo o seu corpo fosse uma única ferida aberta.

— Pare! Você está invadindo um laboratório de segurança máxima. Mãos onde possamos ver.

Um trio de seguranças apareceu em seu caminho, com três armas apontadas para ela. Um raithuano estava à frente, talvez se aproximando dos cinquenta anos, mas parecia desperdiçar sua boa forma por trás daquela arma de fogo. O povo de Imari sempre preferiu um bom combate corpo-a-corpo. A mulher kodrase à esquerda era uma Eisenyoung com uma malha de cicatrizes brancas em seu rosto contrastando sobre a pele lilás mais clara que já tinha visto dentre eles, e seus olhos pareciam desafiar Imari a desobedecer e lhe dar um motivo para iniciar um confronto.

O homem à direita também era um Eisenyoung, de uma espécie que Imari não reconheceu. A pele variava de um branco pálido e se tornava de um verde fosco nas extremidades, como nos dedos das mãos e o topo da testa. O nariz achatado dava ao rosto o aspecto liso de uma máscara, através da qual os olhos, formados apenas das irises amarelas e pupilas verticais, espionavam com intenção desconhecida. Se havia sede de sangue por parte dele como a de sua irmã, estava muito bem mascarada de neutralidade.

Imari moveu as mãos para dizer algo que ainda não tinha sequer formulado na sua cabeça, mas o líder do trio avançou um passo com a arma em riste, o que a fez parar com as mãos no ar. Sem diálogo, então.

No curto instante de hesitação de ambos os lados, Imari se pegou pensando em qual abordagem seguir. Essas pessoas seguiam ordens, apenas. Deveria ser tão brutal quanto uma tempestade contra pessoas que sequer sabiam o que as paredes do laboratório escondiam? Mas eles não tinham aceitado o trabalho? Não deveriam esperar pelas consequências?

A hesitação quase lhe custou alto. Estava atenta ao líder e à mulher, quando o rapaz Eisenyoung apertou o gatilho. Mas ela era uma vorcia, para quem a comunicação é mais do que apenas palavras, e as pessoas sempre mostram o que pretendem mesmo sem precisar dizer nada. Uma alteração mínima na respiração e o tensionamento nos ombros foram sinal suficiente. Um mísero segundo antes do ataque, ela avançou, mergulhando abaixo da linha de tiro.

Certo. Ao menos aquele ali teria de morrer.

De canto de olho, Imari percebeu a mulher fazer menção de avançar, mas desistiu da ideia e disparou três vezes. Duas foram lentas demais para acompanhar sua investida, mas Eisenyoungs não costumam errar, e o olhar de quem gosta de brincar com uma presa insinuou que havia sido de propósito. Contra seus instintos e contra a própria inércia, Imari se forçou a parar de correr e viu o terceiro tiro deixar uma marca enegrecida na parede exatamente onde estaria se tivesse acreditado que poderia ser mais veloz que ela. A Eisenyoung deixou a arma pender, despretensiosa, pelo dedo ainda no gatilho, e encolheu os ombros com um sorriso.

Aproveitando o momentum da parada brusca, Imari se posicionou atrás de uma bancada antes que o irmão de armas dela atacasse novamente, analisando a situação. Nenhum dos dois avançaria para um combate corpo a corpo enquanto pudessem manter o combate de dois contra um. O raithuano mais velho havia recuado e parecia satisfeito em deixar os terceirizados da Eisen trabalharem. O ritmo ensurdecedor dos tiros contra a bancada que usava de cobertura sugeria a Imari que era a esbanjadora de munição atirando. O rapaz parecia mais comedido. Imari preparou a arma, imaginando que ele procuraria uma linha de visão livre antes de atacar novamente, torcendo para que ele aparecesse à sua frente, pois não tinha como vigiar duas direções.

Mas o filho de uma besta abissal não apareceu. Em vez disso, uma esfera metálica fez um arco sobre a bancada e caiu no chão a uns 50 centímetros de Imari, com uma luz vermelha piscando mais rápido a cada segundo. Granada concussiva. Imari estendeu a mão para jogá-la longe, mas o Eisenyoung havia calculado o tempo necessário para ativação. Quando a luz piscou pela última vez, um estrondo deslocou tudo ao redor, forçando Imari contra a bancada em suas costas. O impacto em sua nuca fez o mundo perder o foco por um instante.

A nitidez só retornou quando um coturno tático chutou para longe suas armas, mas o Eisenyoung parecia tão sério e metódico quanto antes, e por algum motivo, isso a irritou bem mais do que o desvario homicida da Esbanjadora de Munição.

Imari ia muito matar ele.

*

— Bem, isso foi… menos desastroso do que poderia ter sido — disse Anke, observando os monitores na sala de segurança, apesar da resistência do vigia que ela havia imobilizado sem dificuldade. — Já descobriu onde eles estão? Consegue ser mais rápida?

— Conseguiria, se as câmeras fossem identificadas — respondeu Tamura, sentada ao painel, tentando descobrir em qual sala o inquietante combate com a Chefe Imari tinha acontecido, ou pelo menos em qual nível da instalação. — Não é possível que eles só lembrem, sem registrar qual câmera está onde. Isso é ridículo…!

Pressa, Tamura!

— Acredito que seja o terceiro subsolo. Por que não pergunta ao seu amigo? Ele pode responder com mais propriedade do que eu.

Ananke diminuiu a pressão sobre o segurança, apenas o bastante para que ele pudesse se concentrar em algo além da dor no ombro deslocado.

— Onde é isso? Lembre que, na sua situação, a sinceridade seria bem saudável.

— Agh! Laboratório 31! Não podem… Não vão conseguir sair se invadirem.

— Agradeço a preocupação. Como chegamos ao laboratório 31? Imagino que o acesso de uma secretária não seja o bastante.

Mesmo enquanto perguntava, Ananke já tinha tomado do segurança a identificação de acesso necessária. Restava apenas impedir que o segurança tentasse qualquer coisa depois que elas partissem.

— Tam, me passa aquelas algemas para o nosso amigo aqui.

Em vez disso, sem desperdiçar movimento algum, Tamura enterrou os dedos no cabelo do segurança e mergulhou o rosto dele contra a bancada. O homem caiu desacordado.

— É, eu acho que isso também serve.

— Não acho que eles vão permanecer nesse lugar. É um laboratório, não uma sala de contenção — disse Tamura, observando as imagens das câmeras que ela agora tinha transferido o acesso para seu pergarol, para que pudessem continuar observando. — Em condições normais, poderíamos esperar que trouxessem um intruso aqui, para o setor de segurança.

— Mas as condições não são normais.

— Não são. Ela saiu para visitar o povo dela e voltou invadindo a instalação, ou seja, ela descobriu algo. Wander não vai deixar que ela fale com alguém. Sinceramente, não sei porque a Chefe Imari não foi morta no Laboratório 31. Eu a teria matado.

— Que bom que você não está no outro time. Você sabe alguma coisa sobre aqueles Eisenyoungs, Tam?

Tamura suspirou, aborrecida, observando as luzes do painel do elevador alterarem enquanto desciam.

— Eu não conheço todo Eisenyoung na merda da galáxia. Somos meio milhão de pessoas.

— Não perguntei o apelido de infância deles, perguntei se você sabe algo útil para ser usado contra eles.

— Muitas coisas úteis. Armas. Munição. Bombas. Facas.

Com a resposta, ambas permaneceram em silêncio até as portas abrirem com um som suave. Era o que Ananke costumava chamar de “a parede”, o ponto em que qualquer conversa com Tamura morria. Em condições normais, Anke teria mudado de assunto com facilidade, mas já haviam concordado que as condições não eram normais. Quando deixaram o elevador, Anke a segurou pelo braço.

— Especialista Tamura, o que você pode dizer sobre os Eisenyoungs que estão com a Chefe Imari? Eu quero uma resposta.

Fosse pelo tom autoritário ou pela ênfase no risco que Imari corria, Tamura enrijeceu sob os dedos de Anke e a encarou como se avaliasse se ela tinha ou não o direito a sua subserviência, não a ensinada na Academia da Esquadra, mas uma mais profunda e antiga, enraizada. E havia algo diferente também, uma resignação ferida que apareceu apenas por um instante. Tamura cruzou os pulsos nas costas e abaixou a cabeça, assumindo uma posição militar de descanso exceto pelo olhar fixo no chão. Surpresa com a mudança, Anke recuou a mão.

— Eu não conheço o homem, mas a mulher kodrase é Desmera Eisenyoung, Navegadora Zreindel. Ela é uma agente extremamente capaz e uma líder de esquadrão. A Eisen escolhe os líderes com base em realizações anteriores. Líderes podem ter armas especiais além das armas padrão. No caso da líder Desmera, sei que uma de suas armas não precisa de munição, gerando disparos de energia lentos, no começo, mas bem mais velozes após o aquecimento do microgerador. É indicado se aproximar dela o mais depressa possível, enquanto a arma ainda aquece, e, se não for possível, deve-se esperar até a pausa necessária cerca de 130 tiros depois. Talvez ela tenha recebido novas armas das quais não tenho conhecimento.

Anke engoliu em seco. Não entendia o que tinha acontecido, mas tinha feito algo errado, disso tinha certeza.

— Com que frequência os líderes de esquadrão recebem novas armas? Tem algum padrão nos equipamentos?

— Não existe frequência, Navegadora Zreindel. Os equipamentos especiais são presentes do próprio Garrival Eisen para Eisenyoungs que tenham se destacado em serviço. Também não há padrão, são extremamente variados, podendo ser armas, armaduras, implantes, geneterapia, naves ou… itens variados.

— Obrigada… — Anke ainda estava monitorando os movimentos dos Eisenyoungs e de Imari pelas câmeras de segurança, mas levantou o rosto para Tamura, que permanecia na mesma posição impassível. — São informações muito úteis, Tam.

Tamura não respondeu.

— Ah, por tudo que é conhecido, não me olhe assim! Eu só fiz uma pergunta, você me furou com um garfo ainda agora!

O máximo de reação que conseguiu de Tamura dessa vez foi um leve franzir de sobrancelhas, confusa com o aparente nervosismo de Anke. Por um momento, Anke duvidou daquele instinto. Tinha mesmo feito algo de errado? Tamura, de todas as pessoas, não era do tipo que absorvia mágoas em silêncio, ou que se magoava com pouco. Talvez estivesse pensando demais.

— Vamos — Anke cedeu. — Precisamos encontrar Imari.

*

Imari acordou em uma cela estranha.

Como Chefe de Segurança, ela tinha total propriedade para dizer quando uma cela era estranha, apesar de, na maioria das vezes, avaliar apenas pelo lado de fora. O lado de dentro era novidade.

Imari amava novidades, mas aquela era bem dispensável. Nunca teve curiosidade de avaliar pelo lado de dentro e não gostou da sensação. Levou alguns instantes para perceber que não era a única naquela situação.

As paredes eram de acrílico transparente resistente, permitindo que visse a linha de outros cubículos iguais à esquerda e à direita. A maioria deles estavam vazios, exceto por uma pessoa encolhida no canto, a umas 15 celas de distância. Não conseguia identificar muito sobre ela, com parte do rosto escondido detrás dos joelhos, e roupas brancas encardidas e rasgadas da cabeça aos tornozelos.

Imari deu algumas batidinhas na parede transparente para tentar chamar a atenção dela, mas supôs que o som só seria ouvido na cela adjacente à sua. Os cubículos pareciam perfeitamente herméticos, e os cilindros metálicos do lado de fora pareciam indicar que a pressão interna deles era regulável. Além disso, todos os cubículos tinham tanques dentro, embora o seu fosse o único cheio d’água.

Imari sentiu o sangue ferver novamente. Já sabia que encontraria algo assim, o monumento na aldeia tinha lhe informado. Era como mensagens eram passadas ao público entre os vorcias, impressas em vidro vulcânico pela intensidade das emoções. A raiva de Imari era a raiva de cada um de seus conterrâneos — ou talvez, no caso, contalassanos. Toda injúria destinada a outrem era sempre pessoal. Todo carinho era compartilhado; todo ódio, multiplicado.

Ver aquele lugar tão preparado para prender seu povo era sentir dedos cruéis brincando com o interior daquela ferida feita em outra pessoa, mas sentida por ela também.

Imari bateu com o punho fechado na parede, causando uma mínima vibração na superfície transparente. Bateu uma vez e outra, mas se havia alguém ali, não se importou. Exceto pela pessoa na cela, que se encolheu ainda mais.

Não tenha medo — sinalizou. — Vamos sair daqui.

Não houve nenhum sinal de compreensão. Talvez estivesse longe demais para compreender os sinais, mas ela nem mesmo tentou responder isso, a pobre criatura.

— Isso tudo foi tão teatral — Wander comentou, adentrando apressado no laboratório pela escadaria. — Qual era o plano, aliás? Não creio que era isso que Winnie tinha em mente quando mandou vocês aqui.

Imari cruzou os braços. Era o jeito vorcia de dizer que não tinha o menor interesse em conversar. Mas Wander aguardava um sinal de suas mãos e ela não conseguiu se segurar.

Eu sabia que você me entendia!

Wander ignorou a acusação, um ar decepcionado no rosto.

— Não precisa fingir, só estamos nós dois aqui.

Apesar de não entender, Imari inclinou a cabeça em direção ao outro cativo.

— Ela… não é um problema — Wander sorriu.

Ela é vorcia?

— Pare com isso! — Wander vociferou, batendo o punho na parede entre eles. Mas sob a postura agressiva, o que Imari sentia era ansiedade, talvez até euforia. Wander olhava para ela como uma criança que sabe que os pais estão escondendo um presente. Ele sorriu outra vez, um pouco envergonhado, e recuou para a postura contida e elegante dos raithuanos. — Perdão… Eu só… não entendo porque continua se comunicando assim.

Imari apontou para si mesma e fez um gesto circular sobre a cabeça, simulando a superfície do mar acima dela. O significado era óbvio: — Eu sou vorcia. — E encolheu os ombros, indagando silenciosamente o que Wander esperava de diferente.

Ele ficou em silêncio. Imari viu o momento em que o desapontamento em seu rosto se tornou uma ligeira confusão, e, por fim, compreensão. Ele soltou um riso fraco, não do tipo malicioso, mas simplesmente reconhecendo uma ironia. E ela teve novamente aquela sensação de que ele sabia algo que ela não sabia.

Mas Imari sabia de tudo que tinha acontecido em sua aldeia, tinha vivenciado as memórias de seus semelhantes como se fossem as suas próprias, então do que se tratava…?

Certo, vou morder a isca… — falou, se arrependendo imediatamente da escolha de palavras, que Wander teve a delicadeza de ignorar. — O que achou engraçado?

— Winnie é uma mulher… complicada. Inteligente, mas complicada. Pensei que ela teria compartilhado algumas informações com você, mas claramente me enganei.

Uma ideia começou a tomar forma na mente de Imari. O jeito como Ley Wander a encarava desde o primeiro encontro, a expectativa e talvez até empolgação dele… Wina Wangi não estava resistindo a uma chantagem, estava barganhando por ela. O que quer que Wander tivesse contra ela, ela não queria pagar o preço completo. Mas, por algum motivo incompreensível, Imari era sua contraproposta.

Novamente, Wander apoiou as mãos no vidro, abaixando o rosto para alcançar o olhar de Imari.

— Você entendeu também, não entendeu? Seja eu ou você vencendo, ela ganha do mesmo jeito. — Ele soltou o ar em um suspiro de admiração e frustração ao mesmo tempo. — Merda… Eu amo aquela mulher maldita.

Se quer minha opinião, devia ligar para ela. Ligar para a ex nunca dá errado — Imari gesticulou, fazendo questão de manter a expressão de puro enfado para atestar seu sarcasmo. Wander lhe lançou um olhar igualmente aborrecido, e ela ficou um pouquinho menos irritada por saber que o desgosto era mútuo. — Por que eu valho algo para você?

— Já nos conhecemos. Fico magoado por não se lembrar de mim. Mas você era bem pequena… — Wander já não parecia interessado em explicar tudo no momento, mas, ainda assim, uma mensagem no dispositivo em seu pulso interrompeu o assunto. — Oh, nossa… Não se faz mais Eisenyoungs como antigamente. Não se preocupe, teremos tempo para conversar depois que suas colegas aprenderem a ser boas hóspedes. Desmera, está me ouvindo? Poderia dar um exemplo aos seus irmãos, querida?

Ele se afastou, dando ordens a tal Desmera e a alguém chamado Ryslatt pelo aparelho.

Imari esperou ele deixar o laboratório e aguardou mais alguns instantes, para se certificar de que ninguém apareceria em seu lugar. A conversa não tinha sido super enriquecedora e ela estava cansada da brincadeira. Apoiou a mão direita na parede transparente e ativou o controlador no pulso da luva.

Era surpreendente que tivessem tirado suas armas, mas não a luva. Se bem que a tecnologia dos vorcias era de fato distinta, muitas vezes até passava despercebida, mas a luva da mão direita ser diferente da que usava na esquerda, padrão do uniforme da Esquadra, deveria ter sido uma pista.

A luva protegia sua mão, mas ainda sentiu o calor do efeito e o acrílico deformar e queimar até, por fim, se desfazer como poeira. Seu povo venerava os vulcões no fundo do mar e a beleza de seu poder oculto. Imari não era a pessoa mais discreta ou calculista do mundo, mas até ela sabia que certas forças devem ser mantidas em segredo. Wander e seus Eisenyoungs podiam pensar que ela ficaria na cela esperando pacientemente pelo retorno deles, mas ela já estava entediada daquela mímica patética de aquário.

Suas armas não estavam no laboratório. Provavelmente, o Abissal e a Esbanjadora tinham ficado com os espólios — outra vez, Imari agradeceu internamente por não terem reconhecido a tecnologia da luva. Mas a luva era extremamente limitada, então tinha que racionar bem suas cargas.

Tudo bem com você? — Imari perguntou, se aproximando da outra prisioneira, que recuou como se quisesse se fundir à parede e desaparecer. Ela encarou os gestos de Imari, sem qualquer luz de compreensão. Só diante dela que Imari notou a ausência de catéteres respiradores e mechas negras brilhantes escapando do tecido que cobria a cabeça. A pouca pele à mostra, apenas das mãos e do rosto, eram de um âmbar dourado bem diferente da palidez das profundezas.

Ela não era vorcia.

Consegue me entender? Pode falar? — Sem resposta, Imari apontou para ela e depois tocou os próprios lábios, torcendo para que o gesto fizesse sentido.

Ela continuou encarando Imari com o olhar assustado. Bom, sem comunicação e com aquela postura amedrontada, Imari decidiu que seria mais seguro para ambas se a mulher continuasse na cela até tudo terminar. Não tentou explicar novamente, mas fez um gesto que esperava que passasse a ideia de calma. Não deixaria ninguém em uma cela como uma cobaia de feira de ciências. Muitos dos seus tinham passado por aquilo para que conseguisse apenas fechar os olhos para quem quer que fosse na mesma situação.