Cartas para um beija-flor

29 Carta 29 – Retrospectiva


Notas iniciais
ATENÇÃO: Esse capítulo é GIGAAAAANTE, podendo causar cegueira :v Se liga na quantidade de palavras! ESSE CAPÍTULO É DE MAIS DE 8000!!!! (parei) xD

17 de novembro de 2018

Querido beija-flor,

Proponho um túnel do tempo. Veremos como estava a minha mente antes e depois daquele 8 de outubro de 2017. Para fazer isso, nada melhor do que trazer à tona um conto antigo meu. "A Chave Metafórica" foi a primeira coisa que escrevi para você. Ficou enorme! Eu te enviei tudo em um arquivo pdf. Você não se intimidou com o tamanho do arquivo e ficou fissurado por cada palavra minha. No texto, não falei apenas de você, falei de mim também.

O conto em questão passou por algumas edições antes de ser publicado no Nyah! No original, os personagens tinham os nossos nomes, já que era algo que ficava só entre nós. Agora que decidi tornar público esse relato particular, tomei a precaução de alterar o meu nome para "Flor" e o seu para "Beija-Flor".

Ainda protejo o seu nome por amor.

~*~

Texto originalmente escrito nos dias 14/10/2017, 15/10/2017 e 16/10/2017

Querido (e lindo, e amado, e frutinha, e tudo isso e mais um pouco) beija-flor,

Deve haver alguma feitiçaria no travesseiro. Porque o mundo parou essa semana e eu não tenho o mínimo interesse em vê-lo girar de novo. A não ser, é claro, que nós giremos no mesmo compasso, de mãos dadas, dançando aquela música que eu amo e ouvindo você dizer algo bonito sobre nós dois. Afinal, suas palavras são como um abraço e um beijo de boa noite. Nem preciso que me toque para que eu estremeça.

Descobri que agora não tem jeito: eu vejo os nossos rostos em todos os casais, em todas as músicas, em todas as mínimas coisas que me remetem a você. Parece besteira, mas o pen drive rosa choque da minha mãe de repente me parece interessante. Quer um exemplo? Uma música romântica desse pen drive é "You And I (Nobody In The World)", do John Legend. Eu gosto dela porque você sempre me diz que eu sou bonita, mesmo que tantos tenham dito o contrário no passado.

Sinceramente, eu já não me importo tanto mais com as palavras feias que outrora eu tive que ouvir. Você sempre me diz que não há nada de errado comigo, e que talvez eu tenha simplesmente acreditado nas pessoas erradas. Acontece, deixa pra lá.

Por mais que tenham me enganado antes, eu me esqueço de todo o resto à minha volta e acredito em você. Eu nunca duvidei de nada do que você disse. Nunca. Eu acredito em você quando diz que me ama, eu acredito em você quando se preocupa com a hora em que eu vou dormir, eu acredito em você quando diz que eu sou uma estrela, e você, um buraco negro. Alguns chamam isso de ingenuidade, eu chamo de entrega. Ironicamente, eis uma das minhas características mais cativantes: a capacidade de confiar numa pessoa logo nos primeiros cinco minutos de conversa. Essa é a minha maior fraqueza, no entanto também é a minha força.

Muito embora todos os dias e noites eu conte e reconte as mesmas histórias bobas cujo final você já sabe antes mesmo que eu termine de digitar, a verdade é que eu nunca me esqueço de nada; tudo é marcado a fogo em mim. São essas as marcas de uma criança ferida por ter amado demais. Por isso, hoje eu vou te contar uma história que eu nunca contei a ninguém: é sobre uma criança, a famosa criança interior. Ela é doce como a primavera e quente como o verão. Entretanto, por algum motivo obscuro, ela acabou trancafiada por um lado da minha personalidade que eu fui obrigada a criar. Alguns especialistas o chamam de lado frio, outros, de lado cauteloso. Mas a minha criança interior não dá a mínima para o que os especialistas pensam, pois já deu um nome para ele: carcereira.

Quanto a você, beija-flor, pode chamar a criança ou a carcereira como quiser. Eu deixo. E essa história é pra você.

~*~

— Você me mantém presa aqui porque tem medo de que eu estrague tudo de novo? – indagou a criança.

A carcereira nunca dava muita conversa, afinal ela se continha o tempo todo, fechava-se para todos e desejava que a criança fosse silenciada.

— Você só me prendeu aqui porque tem medo. – insistiu a criança – Mas você não me odeia. Do contrário, já teria me matado. Está esperando o momento certo para me libertar, não é mesmo? Diz que sim! Eu quero sair A-GO-RA! Não aguento mais ficar aqui dentro!

— Você é sempre tão agitada e impaciente assim? É por causa disso que as pessoas desistem de você! – provocou a carcereira.

— Muitos podem até ter desistido de mim por causa dos meus defeitos... Sei que sempre quero tudo à minha maneira e ainda xingo quando me contrariam, tudo bem, eu assumo. Nunca fui uma criança muito fácil de conviver. Mas não nego que também houve pessoas que me amaram exatamente pelo que eu era e que desistiram de mim justamente porque você, sim, você, meu lado medroso, me obrigou a mandá-las embora. E eu sei que você só faz isso para ver se elas se importam o bastante para ficarem.

— Garota esperta. Mas esperteza é algo que nunca te faltou, não é?

— Sim, sim! – os olhos da criança brilharam – Mas e aí? Posso sair agora?

— Não.

— Mas no fundo você quer que eu...

— NÃO!

— SIIIIIIIIIIM, SIIIIIIIIIIM, SIIIIIIIIIIM! Lalalalala, SIM!

— Você é insuportável.

— Você quer ser amada, eu sei que você quer! – disse a criança, fazendo careta.

— E quem não quer?

~*~

Foi esse jogo de cão e gato durante um tempo. A criança até tentava se contentar com as migalhas que a carcereira trazia, mas não escondia a sua insatisfação:

— Você aceita qualquer restinho de pão que te dão? Porque está sendo bem difícil pra mim... Eu prefiro uma pizza bem gorda, daquelas de bacon... E com muuuuuuuuuito cheddar! Eu sei que elas existem, eu já vi!

— Ilusão sua. Além disso, não existe pizza para crianças malcriadas. Se você fosse mais normal ou, sei lá, mais bonita, quem sabe até te dessem uma pizzaria inteira... – ela riu com sarcasmo.

— Por que faz isso comigo? – indagou a criança.

— Isso o quê? – a carcereira analisou displicentemente o esmalte preto nas unhas, fazendo-se de desentendida.

— Por que tenta me colocar pra baixo o tempo todo?

— Para você saber o seu lugar.

— Bom, então você deve ter fumado orégano, porque definitivamente o meu lugar não é aqui – bufou a criança – Ah, saudades de quando você nem existia, sabe? Era tão bom quando não tinha essa gaiola feia em volta de mim, com essas grades sujas e esse vazio que nunca acaba... Você poderia ao menos limpar esse chiqueiro de vez em quando, não? Aqui nem ao menos tem TV... Queria ver desenho, ai, que saco, quando é que eu vou sair daqui? Já não aguento mais! Me tira daqui, eu quero brincar, aqui não tem nada pra fazer!

— Deixa de ser infantil.

— Você só está repetindo o que aqueles seus colegas idiotas te diziam, não é? – a criança riu – Que falta de personalidade! Você parece um disco arranhado, sempre com o mesmo discurso depressivo. Não tô nem aí pra você, sabe? Lalalala, não tô te ouvindo! – cantarolou ela, tampando os ouvidos.

— Talvez você não esteja lembrada do que eu sou capaz de fazer com você – a carcereira insinuou – Quer mesmo que eu faça aquilo de novo?

— Aquilo o quê? Se tiver a ver com doces, eu quero!

— Doces? Você continua a mesma ingênua de sempre, não é?

— Na verdade, eu sei muito bem que você vai me bater até o meu rosto sangrar. Quando eu já estiver vermelha de tanto chorar, você ainda vai me chamar de puta desgraçada, de vagabunda e de outras coisas que eu não sei muito bem o que são, mas que pelo visto são coisas muito feias. Mas eu ainda prefiro acreditar que você tem humanidade o bastante para vir até aqui me dar doces e dizer que a minha voz ainda surte efeito nas coisas que você diz, que você ainda não me esqueceu totalmente aqui, que você quer mais do que tudo me libertar. Aí, nós poderemos correr juntas atrás dos pombos só para vê-los voarem de medo. Não seria legal? Ah, carcereira... Eu sei que você ainda acredita nas pessoas, em mim... e no amor. Pode admitir, não há vergonha nenhuma nisso. Eu nunca deixei de acreditar nas palavras bonitas que me disseram. Sei que você também não. Então, por que isso te dói tanto?

— Porque nem sempre as palavras bonitas dos outros são verdadeiras.

— Mas o que importa é que as minhas sempre são. Só falo verdades, lembra? A única mentirosa compulsiva aqui é você.

— Do que você me chamou? – a carcereira passou o braço pela grade e agarrou a criança pelo pescoço.

— De mentirosa compulsiva! O que foi? Eu não tenho medo de você! Se esperteza nunca me faltou, valentia também não! Já enfrentei coisas muito maiores do que você, tá?

— Então por que não consegue escapar da gaiola?

— Porque...

— Porque você está mentindo. Eu sou a maior coisa que você já enfrentou. Eu sou o pior lado da mente, o lado que te escraviza e te mantém acorrentada, o lado que corrói a sua inocência e esfrega sal nas suas feridas. Estou aqui para te sabotar e te vencer em seu próprio jogo, impedindo que chegue à linha de chegada. Esse é um jogo que você sabe que vai perder, não é? Só ainda não entendo o que te dá forças para continuar a jogar... De onde vem tanta energia, de onde vem tanta vontade de viver para amar num mundo tão estragado como esse? De onde vem, sua puta? De onde...

A carcereira quase se perdeu ao olhar nos olhinhos chorosos da criança, olhinhos grandes aqueles que imploravam por clemência. Porém, de pedra que era, a mais velha rapidamente recobrou o seu raciocínio frio, sem mais interrupções:

— Ah, não interessa! Só digo que a sua força estará para sempre domada! Não vê? Você não tem poder aqui. Eu sou o que você deve temer. Você é o que você deve temer. Acha mesmo que me engana? Não me venha com os seus blefes baratos, nenhum deles cola... Você é uma péssima mentirosa, sabia? O que aconteceu com o "só falo verdades" agora?

— Me bate.

— O quê?

— Me bate. É melhor do que quando você me diz essas coisas. Porque os tapas doem só na hora. Mas a humilhação... Ela dura para sempre.

— Estou sem palavras.

— Posso sair agora?

— Você não aprende nunca, não é mesmo?

~*~

— Cadê aquela medrosa? Tô com fome de novo, que droga! – protestou impacientemente a criança – Bom, pelo menos ela não me bateu de novo. Já estou cansada de ter que colocar esparadrapos e band-aids nos machucados. E eu acho muito estranho quando é a própria carcereira que cuida das minhas feridas... Afinal, por que ela se preocuparia em sarar as feridas que ela mesma causou? Parece até que depende de mim para se manter viva... Como se eu fosse o único vestígio de esperança que ela tem, aquele que ela ainda não teve coragem de eliminar... Ah, vai entender esses adultos! Só quero sair daqui!

Eis que a criança se deitou no chão e começou a brincar de contar quantas barras a gaiola tinha. Ela sempre perdia a conta, pois eram muitas barras. Mas aquilo não a impedia de tentar contar outra vez. E outra, e outra. E outra de novo.

— Não entendo pra que um gaiolão tão grande, eu sou pequena. Se bem que aqui tem bastante espaço pra plantar bananeira. Ah, mas deixa pra lá, plantar bananeira é um negócio meio complicado... Da última vez, quase derrubei o botijão de gás e... Ok, não foi tentando plantar bananeira, mas gato escaldado tem medo de água fria.

Flor era o nome da criança. A doce menina estava perdida em seus pensamentos inocentes. Ela era tão curiosa que queria saber por que o céu era azul e por que de vez em quando ele ficava roxo, rosa ou laranja. Ela também queria saber por que o mato era verde e por que de vez em quando ele ficava amarelo. Embora ainda não soubesse nada disso, ela sabia o que era ficar azul de medo ou vermelha de raiva, pois tinha a capacidade de sentir todos os sentimentos possíveis num único dia. Era só dar o motivo certo. Tanto que, quando um novo amigo entrou pela porta do cômodo escuro onde se encontrava a gaiola, os sentimentos dela se misturaram outra vez. Sabia-se lá se o sol estava... Hum, de que cor era o sol mesmo?

Flor não via a luz do sol há muito tempo, o que não a impedia de acreditar que o sol ainda existia.

— Olha só, a carcereira tá bem diferente hoje... – opinou a criança – Hum, deixa eu tentar adivinhar... Cortou o cabelo? Escovou os dentes? Virou funkeira? Não... Desisto, não consigo adivinhar o que é... Mas esse disfarce é muito bom. Tomara que aquela chata covardona me empreste ele qualquer dia desses... Tenho certeza de que eu ficaria uma gracinha com ele.

— Olá! – disse o homem desconhecido – Não faço a mínima ideia de como eu vim parar aqui, mas a porta tava aberta e eu sou xereta.

— Nossa, você mudou mesmo, hein, carcereira? A voz não tem nada a ver! Tá bem convincente! É mais um daqueles seus alter-egos bizarros? Sinto falta da Charbitch... Ela é uma artista maravilhosa. Dá vontade de roubar todos os desenhos que ela faz, mas eu sou boazinha, então eu não roubo. Até porque eu sei que eu vou ser exatamente como ela quando eu crescer.

— Não entendo nada do que você diz – respondeu o homem.

— Eu sei. Ninguém entende bulhufas. Mas você ainda vai entender cada uma das minhas bobagens e ainda vai falar que ama todas elas. Sabe por quê? Porque eu sou legal, sei que você também é! Todo o mundo é legal, não é? – perguntou ela, claramente entusiasmada com o novo visitante.

— Não estou muito certo disso...

— Ah, mas você não é mais um adulto chato, não é? Por favor... Diz que você não vai me chamar de infantil, que não vai me mandar parar quando eu disser algo bobo demais... Diz que não vai me chamar de feia, ou caçoar da minha maquiagem... Só diz isso, por favor...

— E por que eu faria essas coisas horríveis com uma garotinha tão doce como você?

— Por que todos fazem.

— Quem te disse isso?

— Ela – a criança apontou para a rival – Eu a chamo de carcereira. Ela é bem chatinha, mas você se acostuma com ela. E se ela te mandar tomar no cu, deixa pra lá. Significa "eu te amo" no idioma dela.

O homem se virou para cumprimentá-la:

— Olá, carcereira! – disse, acenando.

— Quem é você e o que você quer? – os olhos dela faiscaram de raiva.

— Ah, eu me chamo Beija-flor e... Acho que entrei de gaiato no navio. Nem sei o que tá acontecendo aqui. Não me lembro de ter tomado LSD, mas esse lugar me parece uma viagem infinita.

— Já adoro ele, melhor pessoa! – a criança logo bateu palmas com avidez – Acho que tem espaço suficiente na gaiola para nós dois. Ele pode me fazer companhia?

A carcereira tentou negar o pedido da criança como sempre, mas o Beija-flor foi mais rápido e bateu com um martelo na cara da coitada, fazendo-a desmaiar.

— Opa, foi sem querer... – ele assoviou para despistar, rindo para a criança – Mas e aí, quer sorvete?

— Mamãe me disse pra não aceitar comida de estranhos, mas quem liga? É sorvete! Se estiver envenenado, eu morro feliz!

— Não façam isso em casa, crianças! – disse o Beija-flor.

— Tá falando com quem? – perguntou a Flor.

— Com a plateia, afinal a gente não pode dar mau exemplo. É o politicamente correto, sabe como é... – ele deu de ombros.

— Olha, sei lá o que é politicamente correto. Só sei que aqui não tem plateia nenhuma. Você tá doidão?

— Não sei. Nem sei mais o que eu tô falando. Você me deixa assim.

— Eu sei, eu confundo todo o mundo. As pessoas ficam se perguntando como é que pode ter alguém assim no mundo. Quem me pôs no planeta? Eu não sei e nem quero saber. Mas aqui é legal, apesar da solidão. Só queria que a carcereira me levasse pra passear de vez em quando...

— Ela te trata que nem cachorro?

— Sim, sou um cão bravo! Quer ver a minha imitação de cachorro?

— Imitação de cachorro?

— Row, row, row! A-uuuuuu!

— Mas o quê?

— Ficou perfeito, não? Mereço um Oscar de melhor cachorro, não mereço? – a criança pôs a língua de fora e arfou como o mais fofo cachorrinho.

— Haha, esse cão não põe medo em ninguém...

— E se eu mijar em você?

— Mas o quê?

— Tarde demais! Você estava tão distraído que eu já mijei em você duas vezes e você nem viu! Não deveria ficar tão perto da gaiola, ou vai levar uma terceira mijada! – ele instintivamente deu um passo para trás após ouvir tamanha ameaça – Ah, e eu também mordo! Sou um cão baderneiro, daqueles bem mal-educados! Vou ser o seu desassossego enquanto eu puder imitar um cachorro tão bem como ninguém!

— É... Nunca notei.

— Agora me tira daqui, antes que a carcereira acorde! – a criança sussurrou – E você me deve um sorvete! E um buquê de girassóis! E um desenho do meu rosto! E um mangá de Death Note! E um The Fame Monster, de preferência autografado pela própria Lady Gaga! Anotou tudo?

— Está bem, mas você me deve um texto...

— Está sendo escrito enquanto conversamos.

Ele fez uma expressão confusa.

— Eu sei. Você nunca vai me entender completamente – disse a criança – Mas é o que te mantém aqui, não é?

Essa menina é louquinha, louquinha..., pensou ele.

— Agora me tira daqui, diacho! – a pequena sacudiu impacientemente as barras da gaiola.

— Mas por que a carcereira te prendeu aqui? – questionou ele.

— Medo de que eu estrague tudo – respondeu ela – Mas não liga não, eu não sou tão perigosa assim... Ela que tem medo até da própria sombra. Gosta de fingir que assusta, isso é fato. Ela enche a cara de maquiagem escura, veste umas meias-arrastão e escreve o dia todo, porque isso é tudo o que ela tem.

— Não me parece uma ameaça.

— Isso porque não é você que tá dentro da gaiola, meu filho. Tem vezes que essa muquirana não me dá nem água, tô só o barbante da bexiga. Tá certo que ao menos para o povo que tá lá fora, ela não passa de uma garota confusa. Mas quando eu fico sozinha com ela, vixi... Ela é uma torturadora de primeira! Acho que o único legado dela é ser má consigo mesma, porque ela é incapaz de ser verdadeiramente má com os outros. É tudo fachada! Aquela pose de durona se desmancha toda quando ela se deita na cama e vê que o barulho que eu faço não deixa ela dormir... Aí ela taca coisas no chão, me faz chorar e eu a faço a chorar. É uma troca dolorosa, pois no fundo eu não quero conflitos, só quero uma mãozinha bondosa que me ame tão bem e me queira para sempre com ela... Eu sou uma confissão que está esperando para ser ouvida.

— Eu vou te ouvir até o fim dos meus dias.

— Mesmo quando eu te contar a mesma piada pela quinquagésima vez?

— Mesmo quando você me contar a mesma piada pela quinquagésima vez.

— Hum... – Flor pensou por alguns instantes – Eu já te falei que eu sou um cão bravo?

— Já.

— Sério? Nunca pensei que fosse ficar repetitiva tão cedo...

Os dois riram juntos. A criança já não ria tão intensamente há muito tempo. Ele, pelo visto, também não.

— E o sorvete que você disse que ia me dar? – perguntou a pequena.

— Aqui – ele tirou um sorvete de casquinha do bolso.

— Uau, como o sorvete pode estar assim, todo inteirinho, bonitinho e limpinho? Não derreteu aí dentro do seu bolso? – questionou a criança.

— Nada nessa história faz sentido e você está preocupada com isso?

— Ah, ninguém liga! O que importa é que tem uma cereja bem em cima desse sorvetão lindão – ela logo catou o sorvete das mãos do Beija-flor, sorrateira como uma bufa sem barulho – Não tem nada que eu ame mais do que uma frutinha...

...

— Tá... – o Beija-flor cortou o silêncio – Então, vamos supor que eu estou entendendo toda essa história e que...

Ele se perdeu olhando para o sorvete. A satisfação e inocência com que a criança comia era muito divertida.

— Quer um pouco do sorvete também? Eu sei que você deu ele todinho pra mim, mas eu tô vendo que você tá de olho grande! – a criança virou o sorvete na direção dele – Mas vê se valoriza, porque eu tenho que amar alguém muito pra dividir a minha comida! Só não se acostuma... Anda logo, antes que derreta!

— Não, não... É todo seu. Mas, como eu estava dizendo... Vamos supor que eu estou entendendo toda essa história e que a carcereira é tipo a vilã, e você...

— Vilã? Não... Ela não chega a esse ponto. Anti-heroína, no máximo. Uma do contra de primeira. Mas isso não vem ao caso. Por mais que eu tenha perdoado cada uma das vezes em que ela me bateu, eu quero muito sair daqui.

— Espera aí... – ele parecia legitimamente preocupado – Ela te bate?

— Todo dia. Principalmente quando eu começo a gostar de alguém. Ela diz que isso é coisa de gente fraca. Que bobona, não? – a menininha deu uma risada gostosa – Você iria embora se soubesse das cicatrizes que ela me deixa? Iria embora se soubesse das cicatrizes que ela pode deixar em você? Porque o meu maior medo é que ela te machuque. Já te aviso de antemão: não acredite nela quando ela te disser que não sente nada. Ela diz isso pra todo o mundo... Não é culpa dela. Ao menos eu espero de coração que não seja. Porque eu acredito na bondade dela. E, Beija-Flor, eu vejo nos seus olhos que você não só pode me tirar daqui, como também pode amolecer o coração dela, isso a ponto de fazer dela a garota boba e felizona que ela sempre quis ser e o mundo nunca a permitiu ser. Acredite: não precisa de muito para fazê-la sorrir. Então, você poderá ser feliz com a sua garota louca, que vem com outras mil e uma garotas loucas dentro dela. E todas elas te amarão com toda a loucura delas.

— ...

— Exagerei de novo?

— Não sei... Nunca vi alguém tão...

— EXAGERADOOOOOO, JOGADO AOS SEUS PÉS, EU SOU MEEEESMO EXAGERAAADOOOO! – interrompeu ela, empolgada como sempre – Mas é claro que eu sou exagerada. Hipérboles são a minha figura de linguagem preferida! Eufemismo é para os fracos! Mas e aí? Vai me tirar daqui ou tá difícil? Não sou muito de esperar. Não esperei nem pra nascer! Odeio salas de espera. Salas de espera são tão do mal que deveriam ser um xingamento, sabe? Que tal: "Ai, nossa, você tá uma baita sala de espera hoje, ninguém te aguenta!". Esse deveria ser o pior xingamento do mundo, não sei por que existem tantos xingamentos com cocô. Cocô ainda serve de adubo, mas sala de espera só serve pra encher o saco!

— E você acha que eu sou uma sala de espera?

— Que nada, sala de espera é a carcereira. Você é um salão de festas, daqueles bem grandes, com música boa e gente legal! Dá pra dançar a noite toda, a gente nunca se cansa! E tem muita comida também! E pizza! Com bacon e cheddar! Haha, eu sabia que essas pizzas existiam, a carcereira estava mentindo pra mim esse tempo todo!

— E falando nela...

A carcereira despertou de seu desmaio. Normal. Por mais que ela sumisse vez ou outra, ou não estivesse totalmente consciente, ela sempre voltava, pois a criança interior não podia ficar sozinha muito tempo. Ao contrário do que muitos pensavam, o lado frio de Flor não era ruim, apenas tinha medo de ser machucado – e muitas vezes retribuía as dores nele infligidas, tudo na mesma proporção. Ou multiplicado por mil. Para ela, dava no mesmo.

— Droga, falei tanto que esqueci o que eu tinha que fazer! Devia ter aproveitado o desmaio da carcereira! – a criança se sentou no chão, irritada – Agora acabou a graça!

— Não fique triste, eu... – o Beija-Flor esticou seu braço para dentro da gaiola, tentando tocar o rosto da criança.

— Não toque nela – a carcereira o puxou para trás – Te dou cinco minutos para ir embora. É o que todos fazem. Você ainda vai se cansar do que tem aqui. Então seja breve. Não fique aqui dentro durante anos, cativando a criança e colocando ilusões naquela cabeça de vento. Porque eu sei que, quando você já tiver feito uma bagunça pra lá de irreparável aqui dentro, vai sair pela porta dos fundos e fingir que nada aconteceu. Vai ser fácil pra caralho pra você, afinal não será você que terá que aguentar todo o melodrama. Não se faça de desentendido, porque serei eu que terei que aturar aquela pirralha birrenta chorando a noite inteira, perguntando onde está você e o que ela fez de tão errado pra você ter ido embora. Por que acha que eu tenho olheiras? Cada linhazinha debaixo dos meus olhos é uma lágrima que a criança derramou porque alguém foi embora. E todos vão embora! Por isso, só te peço que vá embora o mais rápido possível, afinal, por mais que seja doloroso, ainda dá tempo de a Flor não se apegar. Depois de uma lágrima ou outra, não uma cachoeira, eu poderei dormir em paz.

— E se eu te disser que eu nunca irei embora?

— É o que todos dizem.

— Pois eu acredito que esse aí não vai embora! – exclamou a criança, teimosa como sempre.

— Você acredita em tudo o que te dizem. E é por isso que todos te fazem de trouxa – lembrou a carcereira.

— Eu não sou trouxa por me entregar! Trouxa é você, que vive com medo! Só se veste de preto porque tem medo das cores, só vive na sombra porque tem medo da luz!

— E você, que tem medo de trovão? – insinuou a carcereira.

— Hunf, trovão... Eu tenho medo é do ronco dos meus pais... – a criança pareceu tremer de medo – Mas e aí, Beija-flor, vamos dar o fora dessa gaiola feia?

— Eu bem que gostaria, mas não tenho as chaves... Só a carcereira tem, não? – perguntou ele.

— Ela não tem, seu bobo. Não tente abrir uma fechadura metafórica com uma chave literal. A carcereira me prendeu aqui por raiva, tristeza e medo. Esses sentimentos ruins cresceram como ervas-daninhas em torno de mim e formaram esse gaiolão gigante que você está vendo aí. Antes eu até dava umas escapadelas, mas foi ficando cada vez mais difícil me esgueirar por entre as barras para conseguir sair. Os tempos foram ficando difíceis. No passado, eu conseguia fácil, fácil. Hoje em dia, há cada vez menos espaço entre as barras e eu não consigo mais sair, nem mesmo quando me encolho todinha. As pessoas lá fora não veem, mas esse processo de estreitamento das barras tem me sufocado. Não sabia que isso era possível. Cada vez que eu escapava, fazia a carcereira passar vergonha, o que alimentava os sentimentos ruins dela para comigo. Eram aqueles sentimentos que estreitavam as barras. Com o tempo, você não vai conseguir nem ver o meu rosto mais, de tão próximas que estarão as barras. No fim, é isso o que a carcereira quer: me silenciar. Isso significa que eu ficarei presa aqui para sempre. Bom, ao menos em termos. Ainda tenho esperança, sei que você também tem. Existe a tal chave metafórica, dizem que é raríssima. Nem a carcereira tem, porque, se tivesse, nem precisaria dessa palhaçada toda de gaiola. Eu estaria livre desde o princípio. Enfim, não interessa agora. Estou sem paciência para explicar tudo. Mas qual você imagina que seja a chave para abrir uma fechadura de sentimentos ruins e revelar o que há por trás deles? Tá na ponta da língua!

— Uma chave de sentimentos bons? – sugeriu ele.

— Sim! Chamam essa chave de “amor”.

— Essa chave não existe, é só uma lenda! – alertou a carcereira.

— Existe sim! – a criança segurou as mãos do Beija-flor por entre as barras que os separavam – Do contrário, o que significaria o meu “eu te amo”? Eu sinto essas palavras aonde quer que eu vá. Se forem sentimentos de mentirinha, eu não sei. Mas o que importa é que parecem bastante verdadeiros pra mim. E isso é o suficiente para que eu acredite neles. Eu não me importo se as outras meninas dizem que o amor é ficção de bobos, delírio dos loucos, falsidade das novelas, falta de serviço dos músicos ou ilusão dos poetas. Eu amo o Beija-flor. E eu sei que ele também me ama. Se isso não for a chave de que eu preciso para me libertar, já não sei mais o que é.

O Beija-flor parecia sem palavras.

— Ah, vai começar tudo de novo... – a carcereira revirou os olhos.

— Só que dessa vez não vai terminar! – afirmou a criança.

— Eu também te amo – sussurrou o Beija-flor no ouvido da pequena, fazendo-a dar uma risadinha.

— Que coisa mais brega e clichê, alguém me tira daqui! – a carcereira tampou os ouvidos, claramente incomodada – Eu não quero ter que testemunhar isso!

De repente, como que num milagre puro e desmedido, um som ensurdecedor de metal sendo dobrado preencheu cada centímetro do cômodo. A mais velha já sabia o que estava para acontecer; era óbvio. Apesar de ainda tentar enganar a criança interior, no fundo até o lado frio de Flor sabia que a chave metafórica existia – e que ela estava finalmente destrancando todos os seus segredos mais obscuros, sem medo, sem represálias; apenas amor. A frágil carcereira instintivamente deu um grito de desespero, pois era quase como se aquele metal pontiagudo estivesse perfurando todo o seu corpo de fora a fora. Era um processo natural. Doía na hora, mas o amor cuidaria das cicatrizes deixadas. Tornar-se-ia surreal na mente de qualquer um que presenciasse o desabrochar mais belo da existência: as barras de ferro da gaiola que aprisionavam a criança se entortaram e se distanciaram espontaneamente, como num passe de mágica.

A criança estava livre.

— Aaah, até que enfim, esperei quinhentos anos por isso!

A criança foi correndo e deu um salto mortal no colo do Beija-Flor e o abraçou com força, quase desconjuntando o pobre coitado inteirinho. Ele a girou no ar, como sempre disse que faria.

— Haha, você cumpriu a sua palavra – ela riu, pegando na mão dele – Venha, vamos fazer um milhão de coisas juntos! Temos todo o tempo do mundo, não?

— Claro, afinal...

— Poder do amor, nhé-nhé-nhé, já vi isso em um milhão de outras histórias! – praguejou a carcereira, furiosa e rendida – Agora vocês vão dar uma festinha brega cheia de corações e flores, espalhar faixas rosa-choque por toda a sala, fazer dancinhas ridículas e comer pizza de bacon com borda de queijo cheddar até terem uma indigestão!

...

— Está pensando o mesmo que eu? – perguntou a Flor – esbanjando o seu costumeiro olhar de travessa.

— Com certeza! – respondeu o Beija-flor, acompanhando a travessura da criança como numa trilha infinita de doces.

~*~

— Eu sabia que vocês fariam isso! – esbravejou a carcereira, que já não era mais carcereira – Se me amarrarem com mais uma fitinha rosa-choque, eu mato vocês!

— Ah, qual é, come mais uma pizza de bacon com queijo cheddar, eu sei que você adora! – a pequena Flor enfiou uma fatia inteira na boca dela – Não é tão ruim assim sorrir de vez em quando, Srta. Dark!

— Vá pro inferno! – a carcereira cuspiu a pizza na cara da criança – Está zombando da minha cara agora, mas quero só ver quando isso não for mais o suficiente! Ele não te ama! Ninguém te ama! Você também não o ama! Só está com ele porque ele vive te paparicando e te dizendo as coisas que você sempre quis ouvir! Não é como se fosse durar pra sempre... Quando a sua carência for suprida e você enjoar de tudo isso, é capaz de você mesma mandá-lo embora... Criança egoísta! Só pensa em você! Tanto é que quando escreve sobre ele, fala mais sobre si mesma do que sobre ele de verdade. Tudo sempre começa em você e acaba em você! Individualista como sempre. Primeiro eu, primeiro eu. Você não sabe o que é amar. Você sabe o que é viver obcecada. Você sabe o que é chorar a noite toda quando as suas zoeiras já não funcionam mais e só restam os meus dramas, aqueles dramas que cansam até o mais paciente dos homens. No fim, eu sempre afasto todos de você, é essa a minha função. Não sou a má aqui... Estou apenas tentando te preservar. Sem mim, você já teria cometido suicídio. Já se esqueceu de que você é muito talentosa para apostar todas as suas fichas nas pessoas erradas? Quem te garante que acertou desta vez, hein? O amor é uma roleta-russa e o gatilho está apontando para o seu ouvido. Gire o tambor até encontrar a bala. O que você tem a perder, além, é claro, da sanidade que você já não tem? Não sorria para sempre, minha querida, tão somente não sorria... Não vale a pena, pois no fundo você já sabe que o que vem depois são as lágrimas do abandono. Afinal, é isso o que faz de você uma quase-Borderline, não? O medo do abandono. Viver aquilo sabendo que já nasceu morto. É como cair do paraíso direto no inferno.

A criança, sensível como sempre, bateu com o pé no chão e saiu correndo com lágrimas nos olhos. Ela procurou o canto mais escuro da festinha, onde pudesse se esconder um pouco melhor de seus fantasmas. O único problema era que ela sempre se escondia atrás da cortina... e os pezinhos ficavam de fora.

As luzes coloridas já não pareciam mais tão convidativas quanto antes.

Será que é por isso que a minha versão mais velha e estragada sempre se veste de preto? Estaria ela sempre de luto?, pensou a criança.

— Bonito, hein? – ironizou o Beija-Flor, encarando a ex-carcereira – Por que precisa ser tão cruel com a criança? Você sabe que as coisas que você falou pra ela não são verdade.

— E você quer saber mais sobre mim do que eu mesma? – ela afundou a cabeça nos joelhos dobrados, recusando contato visual – Já estou cheia de você!

— Por quê? Eu não te odeio. Só acho que você é injusta com a Flor. Isso sem contar que, como uma parte depende da outra para sobreviver, você indiretamente está sendo injusta consigo mesma.

— Aham, claro, eu estou sendo injusta, enquanto a criança está sempre certa, óbvio. Mas por que me colocaram no papel de Flor ruim? Todo o mundo gostava de mim quando eu era criança. As meninas mais velhas vinham me encher de beijinhos, diziam que eu era linda. Os professores eram os meus maiores admiradores e diziam que eu tinha um grande futuro pela frente. Mas é fácil gostar da criança. Ela é pura, moldável, dobrável, cheia de truques na manga e adora sorvetes de morango. Ela é um doce, não? Grande coisa. Não tem como não gostar de alguém assim. Mas não há nada puro sobre o modo como os adultos fazem as coisas. E eu já estou estragada demais para ser como aquela criancinha boba de antigamente. As minhas notas caíram e as mesmas meninas que diziam que eu era bonita começaram a me chamar de feia. Você pensa que me engana ao paparicar a criança desse jeito, mas você não é o primeiro. Gostar da criança bonita e inteligente é passatempo de fim de semana. Quero ver gostar da jovem feia e sem futuro por uma vida toda.

— Você não é feia e sem futuro – ele colocou o cabelo dela atrás da orelha – Como pessoa, a sua aparência é subjetiva aos outros. E, por muito tempo, você se viu pelos olhos dos outros. Mas esse tempo está ficando para trás, porque o momento que vem é de descoberta. Eu vi algo em você que é uma pontinha do que você é de verdade. E é por este motivo que eu quero me aproximar de ti, para que eu possa conhecer mais daquilo que, apenas com uma pontinha, me encantou. Você verá o seu eu através dos meus olhos, e pode ser diferente do que tudo o que já conheceu. Mas não precisa ter medo. Vamos seguir juntos de mãos dadas.

Que delícia, cara, já shippo!, pensou a criança, batendo palmas ininterruptamente.

Sim, a criança, curiosa como sempre, estava vigiando cuidadosamente por trás da cortina. Os dois já haviam notado que ela estava lá. Afinal, ela era discreta como um elefante fugindo do zoológico – e com sinos. Mas a moça Flor e o Beija-flor preferiram fazer de conta que não sabiam onde a Flor criança estava escondida, para que, ao menos uma vez na vida, a pequena se sentisse a rainha da discrição.

Eu sou furtiva pra caralho, pensou a mais nova.

Aham, sim, claro. Vai vendo, pensou a mais velha.

— É... É mesmo verdade tudo o que você disse? – perguntou a mais velha, segurando as mãos dele – Sei que já estou contrariando tudo o que aprendi com a vida só de cogitar que isso pode ser verdade. Além disso...

Beija-flor a interrompeu com um beijo. Ela levou mais susto do que moleque de doze anos caindo no gemidão do zap. Porém, não havia como negar que ela queria aquilo há muito tempo. Não cair no gemidão do zap, é claro. Enfim, você entendeu.

— Homão da porra! – gritou a criança, saindo de trás da cortina, comemorando toda empolgada, com um sorrisão no rosto e um olhar pidonho de Gato de Botas – Agora se casem e adotem um Lulu da Pomerânia, siiiiiiiiim?

A moça olhou para a criança e acariciou os cabelos dela, colocando-a delicadamente em seu colo:

— E tem como dizer não para esses olhinhos?

O Beija-Flor observou a cena. Ambos os lados da personalidade de Flor juntos, finalmente em paz. Parecia até que uma estava dormindo nos braços da outra...

Entretanto, ainda havia mais: a criança foi sumindo de pouquinho em pouquinho nos braços da moça. O sorriso no rosto da menorzinha era enorme, mas parecia cada vez mais clarinho, clarinho... Até se tornar invisível. Num piscar de olhos, a moça estava abraçando o vento, pois não havia mais ninguém em seu colo. Foi algo tão repentino que o Beija-flor mal pôde fazer nada— O que acabou de acontecer? Por que a criança desapareceu? – perguntou ele.

— Não não, ela não desapareceu; só está morando no meu coração agora. Não é mais minha inimiga, mas uma parte de mim outra vez, como sempre deveria ter sido – a mais velha pegou a mão dele e a levou ao coração dela – Viu? Está pulando mais que escola de samba. Só pode ser ela, não? Ah, aquela bendita criança agitada de uma figa que nunca para quieta nem por vinte potes de doces... Mas está tudo bem agora. As desavenças cessaram, pois paramos de negar que, no fim das contas, somos uma só. Somos apenas o mesmo prisma vislumbrado sob ângulos diferentes de luz. E eu nunca me senti tão viva.

— ...

— Você me libertou. Em todos os sentidos da palavra.

~*~

Antes de finalizar, eu só queria te dizer que eu não gostaria que esse texto precisasse ter um final. Por mim, ele duraria para sempre. Você fez de 2017 um ano inesquecível para mim, ainda que faltem dois meses e pouco para o segundo semestre acabar. Mas não pense que a nossa história acaba aqui: quando chegar 2018, é óbvio que eu vou querer que esteja comigo. Porque eu tenho certeza de que você ainda vai inspirar muitos contos, cartas, poemas e outras coisas bobas que eu sempre quis dedicar a alguém, mas que acabei dedicando a celebridades e personagens fictícios. Acho que foi por falta de quem merecesse as minhas palavras.

Eu já escrevi sobre os garotos de que eu gostava, mas eu sempre senti que o que eles me davam não estava na mesma sintonia do que eu escrevia sobre eles. Na verdade, eles não raro zombavam do meu sentimento, ignoravam, ou pior: retribuíam pela metade. Aquilo foi encolhendo e reprimindo a minha capacidade de amar, a ponto de eu achar que estava amando do jeito errado. Quase sempre eu pensava: "É, acho que esse negócio de amor não é pra mim. Deixa essa praga pra lá". E deixei mesmo. Não havia razão para correr atrás de quem corria de mim. Afinal, os rapazes que me despertavam algum encanto faziam de tudo para podar o encanto. Eles derrubavam as árvores que eu plantava e deixavam as minhas flores morrerem de sede.

Anos atrás, eu não entendia o motivo exato de eles me torturarem daquela forma. Até porque, quando o amor acabava, parecia que a culpa era sempre minha. Mas aos poucos eu fui compreendendo que talvez fosse por imaturidade, ou criancice mesmo. Não me entenda mal: os rapazes não eram obrigados a me namorar. Eu só queria que eles fossem mais sinceros e menos vagos, que parassem de fazer joguinhos, como que me levando em banho-maria. A impressão que eu tinha era de que eles só me mantinham minimamente próxima porque precisavam de uma tonta que levantasse a autoestima deles nas horas mais vazias. E eu até tentava entrar no jogo deles por alguns meses. Eu dava mil chances. Mas no fundo eu sabia que me contentar com migalhas era estupidez. Podia até ser bom para os garotos, mas era nocivo pra mim. Algumas vezes eu até deixava de comer ou falar. Exatamente, as coisas que eu mais amo no mundo: comer e falar. Até isso eles conseguiam tirar de mim.

Mas se fosse pra ser daquele jeito, eu preferia que falassem de uma vez: "Olha, você é chata pra caralho, sai da minha vida". Eu me quebraria em mil pedaços, mas seria menos destrutivo do que mais uma resposta em cima do muro, disfarçada de falsas promessas e/ou ilusões meia-boca. Eu suportaria. Eu choraria, mas juro que suportaria. Era melhor odiar pela verdade do que amar pela mentira.

Quando eu chegava a um determinado ponto crítico, eu parava de dar chances. Parava mesmo. Sem retorno, porque eu já era esperta o bastante para saber o que encontraria se pusesse os pés de novo naquela rua sem saída: eu encontraria a mesmíssima coisa. Nem vem, sai de mim, diacho! Seguir num comodismo incômodo nunca foi o meu forte. Não sei você, mas uma vez que eu paro de dar chances, eu não dou nunca mais. Porque se entregar nunca teve nada a ver com ser idiota. As pessoas costumam se esquecer disso. Eu costumava me esquecer disso. Mas você só cai de um abismo se souber que algo lá embaixo vai te segurar. A não ser, é claro, que você queira suicídio. E eu não quero suicídio. Não mais.

Com você foi tudo o oposto das minhas paixões antigas. Foi o caminho inverso, algo até então inatingível e inimaginável para mim. Sem abismos nos quais devo cair, pois você me deu uma montanha para escalar. Dessa forma, eu ficarei cada vez mais próxima de tocar as estrelas, não de me afundar no tsunami que as reflete. E eu faria tudo de novo. Eu agradeço infinitamente por aquele 8 de outubro ter existido.

Ao contrário do que fizeram antes, você expandiu a minha capacidade de amar, esticou para além das fronteiras o conceito que eu tinha de amor. Ainda que eu já tivesse conhecimento de que amava com toda a minha alma, eu nunca pensei que um dia eu escreveria algo tão grande para alguém que eu amo. Eu nunca imaginei que fosse possível me declarar tão abertamente, sem medo de sofrer represálias. E eu sei que você não vai rir de mim, ou fazer pouco caso do que eu sinto. Você vai amar tudo isso. Porque eu confio em você, sei que você não impõe limites ao meu amor; você dá asas a ele – e voa de mãos dadas comigo.

E eu te amo. Eu te amo pra caralho. Porque caralho não é palavrão, é advérbio de intensidade.

Aham.

Meu coração roxo é seu. E o amarelo, e o rosa. E o vermelho também. Eis um arco-íris, todo o espectro de cores que puder passar por um prisma. É seu. É tudo seu. Só seu. E de mais ninguém.

Eu sou sua e você é meu.

Agora que a minha criança e a minha moça interior se uniram para formar a adulta que eu sou hoje, estou completa. E eu sei que você veio para me transbordar.

Por último, peço encarecidamente que grave isso na alma agora: mantenha-se com esperança. Mantenha-se sonhando. Mantenha-se vivo. E eu, por minha vez, manter-me-ei ao seu lado, olhando para as estrelas quando todos já tiverem desistido de olhar.

Com amor,

Da sua eterna flor.

♡

~*~

É triste pensar que a carcereira estava certa num ponto: você foi embora. Mas a criança também acertou quando apostou que o sentimento dela pelo Beija-flor valia a pena.

Por incrível que pareça, esse amor foi o único que não deixou sequelas em minha mente. Nada de traumas, tudo há de ir para o seu lugar. Pode ficar tranquilo, a criança não vai voltar para a gaiola. Ela continua livre. A chave metafórica permanece aqui, destrancando os portões dentro de mim. O amor foi o maior presente que você pôde me dar, mesmo tendo durado tão pouco.

Não há preço no mundo que pague a minha gratidão. Tanto o meu lado mais tranquilo quanto o mais orgulhoso sempre se lembrarão de você. Você os cativou e trouxe coisas bonitas a cada um deles. Não me arrancou nenhum pedaço, apenas me acrescentou novas experiências. Foi construtivo. Eu olho para trás e vejo uma história fascinante, uma história que eu contarei a todos com a maior empolgação e orgulho do mundo. É mais do que uma fantástica odisseia. É a nossa odisseia!

Eu te amo tanto. Você é o retalho mais bonito da minha colcha de lembranças. Jamais me lembrarei de você como um homem ruim, um homem cujo amor eu deveria sepultar. Eu sempre me lembrarei de você como você verdadeiramente é. Você sempre será, em meu coração, um saudoso beija-flor que um dia se abrigou em meu jardim. Eu o blindei com o meu apoio e o fortaleci com o meu sentimento. Em troca, você me deu uma nova oportunidade para sonhar, para expandir meus horizontes e acreditar mais no meu potencial. Seus doces beijos, oh, beija-flor, fizeram a minha flor desabrochar. E ela resplandece até os dias de hoje.

Tenho um print até hoje do que você me disse quando eu te contei que queria largar Letras e tentar Medicina. Trago nas seguintes linhas uma transcrição fiel:

"Eu acho você uma menina fora da curva. É só ver os seus resultados. Tudo o que você põe a mão para fazer, você pega fácil. Seu curso, por exemplo, é algo que você diz não gostar. Mesmo assim, você conseguiu ser uma das melhores alunas da sala sem muita dedicação. Você pegou as noções de desenho em pouco tempo. E eu acredito que isso se daria para outras coisas que você quisesse fazer. Então eu digo que está na hora de você tomar o papel principal da sua vida. Porque ninguém mais pode ser escalada para ser você. Não é aconselhável enterrar um talento, ou brilhar onde ninguém pode ver. Se você tem um dom, precisa se colocar no alto, para que todos possam vê-la".

Tanto o meu id quanto o meu super ego estão de acordo. Se eu conseguir alcançar os meus objetivos, deverei parte disso a você, beija-flor, que me fez reconhecer o perfume da minha flor numa época em que eu nem julgava possuí-lo

Espero um dia te ver outra vez.

Com amor,

Da sua eterna flor.

♡

Notas finais
Um conto dentro de uma carta dentro de outra carta. Inception :v