Cartas para um beija-flor

30 Carta 30 – Futuro?


Notas iniciais
Esse é o último capítulo. Eu sei, não ficou tão emocionante, mas eu não sabia exatamente como finalizar xD

19 de novembro de 2018

Querido beija-flor,

Essa é possivelmente a minha última carta para você. Sei que essa trajetória merece uma conclusão mais ou menos decente, mas não entendo muito de encerramentos. Creio já ter dito tudo o que precisava ser dito. Ou quase. Honestamente ainda não sei como finalizar essa etapa da minha vida. Talvez eu encontre um modo enquanto estiver escrevendo. Vou deixar essas linhas me guiarem.

Às vezes fantasio que você vai me procurar daqui a dez anos, ou que eu vou te procurar daqui a dez anos. Vamos querer saber o que o outro está arrumando, se os sonhos e planos do passado se concretizaram. Você vai vir na minha cidade, vai querer saber se ainda moro na mesma casa, se me formei, até se me casei. Eu farei o mesmo. Quando eu tiver a minha independência financeira, talvez faça uma pequena viagem à sua cidade só para ver se está tudo bem com você. Vou perguntar para as pessoas da sua rua se você continua morando lá, se conseguiu uma formação e/ou um emprego e se teve a sua tão sonhada filha.

Talvez a gente se olhe e não sinta mais nada do que a gente sente agora. Talvez a gente mude a ponto de nem nos reconhecermos mais. Talvez você até me pergunte: "Olá, moça, quem é você?". Eu direi o meu nome e você ficará boquiaberto. Meu nome é uma raridade. Segundo o portal do IBGE, há apenas 494 pessoas no Brasil registradas com o meu nome. Você rapidamente ligará os pontos e se dará conta de que não tem como não ser eu. Sinceramente, não sei se você reagirá bem ou mal. Você já disse várias vezes que não gosta muito de surpresas e que prefere tudo bem planejado. Mas eu não me importo. Por mim, eu cairia de paraquedas na sua casa. Gosto de loucuras, fazer o quê?

Após o espanto inicial, acho que você me dará um abraço caloroso, ou não. Eu chorarei nos seus braços e te perguntarei se está tudo bem com você. Não estou dizendo que voltaremos. Dez anos mudam muito duas pessoas. Você já estará em outra estrada, eu também. Provavelmente já estaremos comprometidos com outras pessoas. Mesmo solteiros, não teremos mais intimidade para reatar um namoro de dez anos atrás. Talvez até uma amizade seja difícil de engatar, uma vez que seremos completos estranhos um para o outro.

Mas eu me pergunto... Se você me vir de novo daqui a dez anos, vai dizer que eu mudei? Será que vai ficar feliz por mim? Será que ficará decepcionado? Será que dirá que eu me tornei uma pessoa melhor... ou pior? Também me pergunto: se eu te vir de novo daqui a dez anos, será que você estará muito diferente, tanto na aparência quanto na personalidade? Será que eu me admirarei com as suas conquistas ou me entristecerei ao ver que você não conseguiu sair do lugar? Será que você ainda terá as minhas cartas e a caneca que eu te dei? Ou elas já terão se perdido no tempo?

Infelizmente, muitas dessas perguntas ficarão sem resposta. Sejamos realistas: provavelmente nunca teremos o abraço um do outro. Talvez daqui a alguns anos você nem se importe mais com o que eu estou fazendo da minha vida, talvez eu também não me importe mais com o que você está fazendo da sua. Nós teremos outras (pre)ocupações. Que bobagem a minha pensar que você virá atrás de mim daqui a uma década ou duas, não? Quem terá tempo para ficar pensando em ex eternamente? Você seguirá com a vida, não adianta eu ficar imaginando que um dia você vai invadir o meu consultório com um buquê de flores na mão. Isso não passa de um capricho egoísta.

Apesar dos pesares, permanecerei fantasiando por um tempo. Imaginarei diálogos e cenas, inventarei narrativas inteiras, conservar-te-ei em minha memória junto a meus idealismos e delírios. Farei isso até meu coração sentir que você se foi, até meu cérebro se esquecer da festa de dopamina e endorfina que era estar ao seu lado, até as minhas lágrimas secarem, até minh'alma se desatar da sua. Um dia eu acordarei e me darei conta de que as fantasias simplesmente não me cabem mais. Decretarei o fim. Não o fim das lembranças, mas o fim do meu desassossego. Ainda pensarei em você esporadicamente, mas sem sofrimento. Essa dor há de me deixar aprendizado, jamais cicatriz.

Por ora, sento-me no chão do pavilhão de aulas da universidade, olho para o princípio do corredor, e creio, – creio até demais – que se eu olhar o suficiente para lá, você vai dobrar aquele corredor para vir me abraçar.

Com amor,

Da sua eterna flor.

♡

Notas finais
Obrigada pelo feedback maravilhoso! Amei cada comentário *-* Até a próxima ^-^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!