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1 We can't deny it! (Parte I)


Notas iniciais
Depois de quase cinco anos sem escrever nada, decidi recomeçar com esta fanfic. Espero sinceramente que não tenha ficado tão mal assim. Os textos em itálico, são recordações e pensamentos dos personagens. Vocês poderão encontrar o significado dos termos estrangeiros nas notas finais do capítulo. Boa leitura.

Hokkaido, Inverno de 2000.

“Ei senpai... você já se apaixonou de verdade por alguém?”

“Sim, já... e essa pessoa, é aquela para quem estou olhando nesse momento.”...

~***~

Aizen não havia notado o tempo passar.

Seus olhos moveram-se por mera casualidade do monitor do computador de mesa para o requintado relógio de pulso que envergava, constatando que já passava da meia noite. Como se de repente reganhasse a sensibilidade, sentiu o corpo protestar com uma dor fina que serpenteava desde a cerviz até a lombar, tornando seus ombros ainda mais tensos do que o normal.

Suspirando exausto, jogou as costas no espaldar da confortável cadeira giratória, enquanto massageava os olhos por trás das lentes dos óculos de grau que usava, para depois virar ligeiramente o corpo sob o assento em direção a janela alta envidraçada.

Sua repartição ficava em um magnífico arranha-céu e, estando a dois andares abaixo da cobertura, possuía uma vista privilegiada do centro da cidade de Sapporo. Debaixo do céu noturno, milhares de pontos luminosos cintilavam pela cidade, vindos de várias direções e lugares, formando um suntuoso espetáculo de luzes que exibiam toda a beleza e modernidade conquistadas nos anos em que ele se ausentara.

Era a primeira vez, em dezoito anos, que regressava para Hokkaido. Mudanças significativas haviam ocorrido em torno desse lugar, porém, a essência permanecia intacta, assim como a sua própria vida. Ensimesmado, observou o movimento gradual da cidade, acolhendo dentro de si, uma leve e cálida sensação de nostalgia.

Dentro do escritório, um jazz tocava em som ambiente, dando voz à tela panorâmica da cidade. A voz madura e levemente rouca de Nina Simone, interpretava uma canção antiga de Screamin’ Jay Hawkins. Há dez anos, ele provavelmente não teria escolhido esse gênero musical para motivar o seu ambiente laboral, por achar que não se harmonizava com o mesmo. Entretanto, desde que fora recrutado pelo ministério da defesa do Japão, que Aizen se vira obrigado a conviver com esse tipo de música, por influência de seu chefe. Hirako Shinji era um amante incurável de jazz e, com o passar do tempo, ele próprio acabara criando certo apreço também. Mas apesar do cenário relativamente calmo e relaxante que o cercava, no seu íntimo o desalento se dilatava, causando-lhe uma desconfortável sensação de desequilíbrio.

Havia acordado com essa impressão incômoda naquela manhã acinzentada. Como se a melancolia contida no inverno rigoroso de Hokkaido, o tivesse invadido por um trilho invisível, edificando moradia no seu peito que parecia sufocar com o peso por ela exercida. Incitando-o a enxergar o que ele não queria. Fazendo-o desejar o que ele não podia. Oferecendo resistência ao assédio de sua própria mente, deixara o quarto de hotel bem mais cedo do que o horário previsto, dispensou o carro do serviço e seguiu a pé para o escritório, onde esteve trabalhando em modo automático por dezesseis horas consecutivas.

Não que houvesse tanto trabalho de caráter urgente, no momento. Sua estadia na sucursal de Hokkaido se estenderia por somente três dias. Tempo esse, que ocorreria a reunião extraordinária entre o governo e as forças de autodefesa, que visavam dar solução a recente ameaça dos ensaios nucleares que a Coreia do Norte engendrava próximo ao mar do Japão. Na qualidade de diretor geral, ele fora requisitado como membro de apoio de seu ministério, devido a sua notória proficiência em tácticas diplomáticas e, consequentemente, tinha a sua própria cota de trabalho por exercer. Mas nada que o levasse a se extenuar daquela forma. Na verdade, trabalhar fora o único jeito que ele achou para desviar a atenção de seus próprios pensamentos.

Seu conflito interno consistia em circunstâncias que estavam longe do seu alcance real. Nada podia fazer acerca das imprudências e desvios cometidos no passado e era tolice questionar-se sobre isso agora. Sua racionalidade apontava para uma atitude mais consciente e sensata, porém, a constante busca por vitalidade o remetiam nesse ponto sem retorno, do qual ele só conseguia escapar graças a sua natureza tão soberba e obstinada.

Aos olhos de muitos, Aizen levava uma vida perfeita. Aos trinta e seis anos de idade possuía uma carreira próspera, um casamento estável com uma mulher bonita e amável que lhe dera um filho que era o seu maior orgulho. Vivia em uma bela e espaçosa casa na capital, em uma zona conceituada; as pessoas o admiravam, respeitavam e muitos homens o invejavam quase ao ponto de odiá-lo, devido ao seu charme arrebatador, que fazia dele o espécime mais requisitado nas sondagens femininas de seu ciclo social. No entanto, apesar de ele ser tido como o modelo de um homem bem-sucedido na vida, toda essa realização não lhe passava a sensação de completude. Agia de modo assoberbado, porém, sentia-se cada vez mais vazio por dentro.

O jazz ainda tocava baixinho em sua sala. Seu olhar pensativo havia fixado um ponto qualquer do cenário, enquanto sua mente assimilava as palavras enfatizadas pela voz possante da cantora afro-americana que melodiava, ao som da orquestra, o trecho que dava título à música.

“I put a spell on you... because you’re mine!” …

Deixou-se envolver pela canção totalmente passional, o pensamento fluindo nos acordes harmônicos e dissonantes. Ouvindo seus trechos tornarem-se cada vez mais possessivos. Provocantes, como os belos olhos azuis-céu fitando os dele no silêncio da tarde... sedutores, como os lábios finos avermelhados pelo frio, entreabertos como se fossem dizer alguma coisa... ousados, como a mão de longos e finos dedos alvos acariciando a pele sensível do seu pescoço...

Deslizou de maneira tensa as mãos sobre os cabelos ondulados.

Outro suspiro ruidoso na sala.

Mas desta vez foi com a intenção de afastar a velha lembrança, que fizera a temperatura interna do seu corpo sutilmente se elevar e o peito apertado pulsar de maneira profunda. Não era como se a sensação criada fosse desagradável. Aizen temia por sentir exatamente o contrário. E isso o atormentava.

Previra que o seu regresso a esta cidade traria de volta o seu passado, só não contava se sentir tão afetado por ele, depois de todos esses anos. Foram tantas as emoções vividas neste lugar durante a sua infância e adolescência, mas que agora não passavam de lembranças distantes e imprecisas. Com a exceção de um único fragmento de memória que parecia ter escapado dos arquivos e que agora se insinuava nitidamente em sua mente ao som do jazz, com detalhes espontâneos e desconcertantes: inverno do ano dois mil, clube de kendo e estava em seu último ano do ensino médio. Em breve chegaria a primavera. E com ela, a cerimônia de formatura.

A presença deles no dojo da escola, naquela tarde fria, se devia a uma sessão de treino voluntário. Estavam equipados com os seus uniformes, porém, sem os capacetes e as luvas de combate, as espadas de bambu achavam-se jogadas no chão de madeira envernizada, onde eles jaziam sentados lado a lado de maneira displicente, se fitando em silêncio. Os raios da luz do sol que adentravam pela janela, executaram uma mudança de gradiente, alterando os ângulos, ampliando as suas sombras. Pequenos jatos de ar escapavam dos seus lábios. Os dois sabiam que o que estava prestes a acontecer era “anormal”. Havia um certo receio no íntimo deles. Mas não obstante a isso, Aizen ergueu a mão antes apoiada no assoalho, foi inclinando o seu corpo e, com um movimento lento e delicado, aproximou o rosto do seu kouhai pela nuca e então beijou-o ternamente.

Seu coração batia forte.

Prendeu o lábio do outro entre os seus por alguns instantes, sorvendo-o, deleitando-se com a prazerosa sensação que aquele contato lhe despertava, o brilho nos olhos castanhos semicerrados expressando volúpia. Investiu em mais um beijo curto e lento... outro... e mais outro, esperando o rapaz de cabelos níveos se acostumar com a carícia íntima, enquanto roçava carinhosamente o polegar no espaço entre o seu pescoço e a orelha levemente corada.

Gin não tardou em correspondê-lo. Tão logo se desfizera do entorpecimento momentâneo, puxou Aizen para si pelas mangas do kimono, movendo os lábios contra os dele no mesmo ritmo arrastado. Este, percebendo a reciprocidade no menor, recolheu a outra mão de sua perna fletida, girou o torso em sua direção sentando-se sobre as pernas, para em seguida estreita-lo possessivamente em seus braços.

O corpo esguio de Ichimaru Gin não era tão macio quanto o de uma garota. Mas Aizen o sentia bem encaixado junto ao seu. Embora as carícias trocadas fossem meio desajeitadas, eles sentiam plena satisfação naquela união. O medo misturando-se ao prazer, o proibido revelando suas cores. E com ardor, a língua ávida de Aizen explorou a boca sedenta de Gin.

Os dois corpos vibravam de excitação. Os lugares que seus dedos tocavam, deixavam uma agradável sensação de queimação na pele. A corrupção provocada pelo intenso prazer sexual que experimentavam adentrou em seus corações e só acalmou após uma ardente sessão de frottage improvisada. Ficando, no final, os dois sentados um em frente ao outro com as testas coladas, sem dizer uma palavra, apenas aguardando a respiração normalizar.

Procurava entender como haviam chegado àquele ponto. De repente, o que deveria ser uma grande amizade, transformara-se em algo que Aizen tinha receio de admitir em voz alta. Porém, cada célula do seu corpo parecia estar consciente desse sentimento vertiginoso que retinha uma quentura ardente no seu peito. Acentuando a química entre eles, que fluía de forma espontânea, tal como acontecera na primeira vez em que se viram, durante a cerimônia de abertura do ano letivo.

Ichimaru foi o representante dos alunos do primeiro ano e Aizen foi quem representara os finalistas. Enquanto discursavam para o auditório, o olhar de um estava constantemente ciente da presença do outro. No final do dia, enquanto Aizen fazia uma breve pausa nos treinos, eles voltaram a se encontrar no corredor da escola, em frente a máquina automática de vendas. Depois de pegar a sua bebida, ele voltou-se para o Gin e, sem qualquer outra pretensão, propôs-lhe que fizesse parte de seu clube, abordando-o de um modo bem casual, ao que o outro respondera de forma curta e positiva. E a partir daí eles se tornaram amigos.

A diferença de idades não foi um obstáculo para a aproximação dos dois. Na medida em que o tempo ia passando, eles descobriam que tinham muito mais em comum do que apenas a paixão pelo kendo. Tanto ele como Ichimaru viviam circunstâncias familiares delicadas e quase similares. Um conseguia facilmente entender o outro e isso era bem reconfortante. Mas nem esse fato possuía tanto impacto assim, quanto a inegável afinidade de suas personalidades: o sorriso astucioso de Gin completava o caráter dissimulado de Aizen. E juntos, eles descobriam um mundo cheio de aventuras ao sabor da liberdade que tinham. Mas agora, tudo parecia se complicar por causa desse novo sentimento que nascera entre eles.

Seus dedos estavam entrelaçados discretamente quando seguiram para suas casas de trem elétrico. Conversaram sobre banalidades e depois partilharam os fones de ouvido, permanecendo calados enquanto ouviam Tsunami da banda Southern All Stars. Em nenhum momento tocaram no assunto.

Gin descia duas estações antes de Aizen. Quando chegaram à sua estação, os dois se levantaram dos assentos e, nesse instante, o celular de Aizen começou a tocar. No visor, estava o nome de uma das garotas com quem ele saia. Um clima desconfortável se instalou no meio deles, pois Ichimaru pareceu notar também. Eles seguiram mudos até a porta do vagão, Gin pulou para a plataforma e eles se despediram, usando as mesmas palavras de sempre, todavia, existia “algo mais” no olhar que eles trocaram, algo que ficara por se dizer, instantes antes da porta se fechar e o trem iniciar a sua marcha, partindo ao toque persistente do seu celular.

Uma despedida que perduraria durante anos.

Olhou novamente para o relógio, decidindo por fim que era hora de partir. Respirou fundo, virando-se novamente para a mesa, alongando o pescoço enquanto encerrava o computador. Em seguida, levantou-se, trocou os óculos pelas lentes de contato no toalete, pegou as suas coisas, apagou as luzes e saiu do escritório.

Caía uma neve fina no momento em que deixara o edifício. Apesar do horário avançado, as ruas ainda continham algum movimento: uns buscando por diversão, outros abandonando os bares, vagantes sem direção certa e aqueles que, terminado o seu turno, seguiam para o aconchego de suas casas.

Ao aproximar-se do sinal luminoso, um vento forte roçou em seu rosto, agitou as copas das árvores e esgueirou-se para a escuridão das montanhas. Ele seguiu o seu trajeto com o olhar e, novamente, o rosto de Gin apareceu em sua mente, tornando o seu humor ainda mais sombrio.

Queria ter algum pretexto no momento para poder vê-lo. Sentia essa necessidade. Desejava ardentemente reencontra-lo, mesmo não sabendo ao certo o que faria depois disso. Poderia tentar acha-lo, mas não tinha certeza sobre o que falaria depois de todos esses anos separados. Lembrou-se então de como era fácil e tranquila a convivência entre os dois e uma angústia se abateu sobre ele.

O remorso veio logo em seguida.

Reconhecia que a atitude covarde que tivera naquela época havia arruinado um laço que ele realmente estimava e isso meio que o incomodava. Ichimaru fora a única pessoa que Aizen poderia considerar como amigo íntimo. Mas, apesar disso, não hesitou em abandona-lo sem qualquer aviso prévio, ao usar dos meios que sua família dispunha e mudar-se para os Estados Unidos, dias depois daquele encontro no dojo, cortando assim toda e qualquer comunicação entre eles de forma repentina.

Teve medo. A sociedade não os perdoaria.

Ele não quis pôr em xeque o seu futuro.

Havia se esforçado tanto para atingir seus objetivos... boas notas, quadros de honra, recomendação para a universidade de Tóquio, o desejo de atender as expectativas de seus pais e, quem sabe assim, conseguir um pouco mais de afeto e atenção em retorno... tudo isso teria ido pelos ares se rumores estranhos começassem a surgir, pondo em causa a sua boa imagem. Não se via com maturidade suficiente para enfrentar o julgamento das pessoas.

Em determinadas ocasiões, quando estivesse no seu modo sentimental, Aizen chegava até a cogitar ter agido de modo precipitado. Que se eles tivessem conversado sobre o assunto, talvez achassem um jeito de contornar a situação, dando a esse episódio um desfecho melhor. Afinal, tanto ele como Ichimaru sempre sentiram atração por garotas e, inclusive, ambos tinham namorada. Aquele era um caso inédito. Quem sabe, com o passar do tempo, tudo se revelasse se tratar apenas de sentimentos mal interpretados e que haviam confundido o grande afeto que nutriam um pelo outro com...

E nesse ponto ele estagnava.

Não conseguia avançar mais com suas conjecturas.

Naquela altura, Aizen já tinha dezoito anos de idade e entendia bem que direção aquele sentimento tomava. Caso ainda lhe restasse dúvida, bastaria observar a reação que seu corpo assumia, toda vez que ele pensava em seu kouhai. Admitia que, algumas vezes e de forma inconsciente, ele chegara a admirar a beleza exótica de Gin e que aquele seu jeito de raposa o tornavam uma criatura fascinante aos seus olhos. Mas em seu mundo, a atração sexual era uma condição reservada apenas à seres de sexos opostos. Desesperado, durante o seu período universitário envolvera-se com várias mulheres com o intuito de expurgar de si todo e qualquer pensamento contrário a esse preceito. Tentando a todo custo convencer-se de que aquilo não era o que ele pensava que era e que se distanciar, na verdade, fora a melhor opção a ser tomada.

Em nenhuma ocasião Aizen sentira-se fisicamente atraido por um outro homem.

Gin era a exceção.

O sinal abriu, fazendo parar o tráfego dos carros. Ajeitou no ombro a alça comprida da sua pasta executiva, aqueceu as mãos nuas com o seu próprio fôlego antes de coloca-las nos bolsos do sobretudo de malha grossa que vestia. E então acelerou o passo na calçada, na calada da noite, dirigindo-se até a estação mais próxima onde pegaria o último trem.

Em sua cabeça, o jazz continuava tocando.

Notas finais
Senpai: termo usado para se referir com respeito a uma pessoa mais velha ou experiente. É uma forma de tratamento muito comum no âmbito profissional mas também em escolas, associações ou clubes esportivos. Kouhai: não possui uma tradução certa, mas de modo genérico possui um significado equivalente a “calouro”. Dojo: escola ou sala onde se praticam artes marciais. Frottage: é o nome de um ato sexual feito entre dois homens. O ato consiste em esfregar ou estimular o pênis do parceiro usando o próprio pênis. Estimulação mutua entre os orgãos sexuais masculinos. .............................................................. A ideia de escrever essa fanfic, surgiu após reler alguns capítulos de bleach. Ver Aizen sair da prisão e colaborar com os shinigamis daquela forma, me emocionou bastante e me fez pensar que talvez durante o seu tempo de reclusão ele tenha se retratado em alguns aspectos. Depois dele rever alguns rostos, o de Gin certamente deve ter feito falta. Por mais que Aizen previsse a traição de Ichimaru, lá no fundo, eu acho que ele não queria que as suas suspeitas se concretizassem. Eles estavam juntos por mais de 100 anos, se bem que pelos motivos menos corretos, e devem ter criado uma espécie de estima mútua. Ichigo até chegou a afirmar que só conseguiu vencê-lo, porque Aizen parecia se sentir só e em algum momento desistira da vitória em seu coração. Talvez ele tenha percebido que conseguir o trono sozinho como estava (sem Kaname e Gin) não seria tão divertido assim. Enfim, mesmo sendo do mal, eu sou doidinha por esse personagem, então encontrar e explorar a sua parte mais doce, fofa e sexy é o meu deleite. xD Nos vemos nas próximas semanas!!! Bjo no coração