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2 We can't deny it! (Parte II)


Hokkaido, Outono de 2000.

Folhas alaranjadas e avermelhadas balançavam ao sabor do vento que espalhava no ar o cheiro de terra e grama seca, o céu tingia-se gradativamente com as cores do entardecer e o garoto de cabelos ondulados dormia, despreocupadamente, sob a sombra de uma árvore de bordo, tendo sobre ele um belo par de olhos azuis-celestes velando o seu sono.

Com o corpo agachado ao seu lado, Gin contemplava embevecido o rosto tranquilo do menino-homem que ressonava baixinho, usando um uniforme idêntico ao seu, por baixo do suéter sem mangas. Fazia algum tempo que Ichimaru se dera conta que, toda vez que estivessem juntos, o seu humor se alterava agradavelmente e uma ansiedade o invadia de um jeito bem especial. Ele se comprazia com a sensação cálida que se insinuava em seu peito, mesmo sem entender ao certo o que aquilo significava. Também, ele não se preocupava em dar um sentido próprio àquele sentimento. Pois, somente estar ao lado dessa pessoa, bastava para Gin.

Esticou a mão em direção a bela face adormecida, com a intenção de acaricia-la. Mas, hesitando há um palmo de distância, acabou desviando-a para o seu ombro.

— Acorda senpai – disse, enquanto o sacudia delicadamente – o festival cultural já terminou. Se continuar dormindo aqui, pegará um resfriado.

Gin precisou remexê-lo por mais algum tempo, até que o outro mostrasse sinais de despertar, começando por contrair levemente o rosto e espreguiçar todo o seu corpo. E quando finalmente abriu os olhos, revelando as íris castanhas-clara, fitou-o intensamente, surpreendendo o kouhai com as suas palavras:

— Eles são fascinantes... – disse Aizen com a voz embargada pelo sono e um suave sorriso no rosto – eu realmente amo a cor dos teus olhos.

~***~

Eram meia noite e quarenta, quando Ichimaru saiu do bar com certa frustração, apesar de manter uma expressão neutra no rosto enquanto subia, a passos largos, a avenida principal do centro de sapporo. Sentia urgência em se desvencilhar de certos pensamentos. Estava fora do eixo e o desconforto persistia. Por isso havia feito planos de se embriagar naquela noite, mas, todo o álcool que ingerira até então, pareceu sumir de seu organismo, no instante em que viu a repetição da manchete principal do noticiário. De repente, estava consciente demais para continuar com aquilo, não lhe restando outra alternativa, senão abandonar o estabelecimento e seguir para casa desprovido de qualquer ânimo.

No momento, não se falava de outro assunto que não estivesse relacionado à recente tensão política e a chegada da delegação governamental de Tóquio, no dia anterior. Entre os membros do ministério da defesa, apenas um único rosto se destacara aos seus olhos, lhe causando um tremendo choque, naquela manhã. E antes que Gin pudesse assimilar por completo a informação que sua retina captava da tv de sua casa, seu antigo colega, Tousen Kaname, ligara afoito para o seu celular, confirmando se tratar, de fato, do antigo capitão do clube de kendo do ensino médio.

Aizen Sousuke.

Ele não soube dar um nome a emoção que se gerou dentro de si. Estarrecido, largou a xícara de café sobre o balcão da cozinha de estilo americano e nesse instante, sua mente o teletransportou para longe dali, na primavera de dezoito anos atrás, mostrando a sua própria imagem estagnada frente ao portão da escola, esperando por Aizen enquanto ocorria a cerimônia de formatura no auditório. Aquele cenário fora tão marcante, que Ichimaru sentia como se tivesse acontecido recentemente.

Uma dor excruciante atingiu o peito de Gin com impetuosidade, enquanto o professor que dava assistência ao clube comunicava a saída do capitão e sua mudança para o exterior do país. Não sabia dizer se o chão repentinamente perdia a solidez sob seus pés, ou se eram apenas suas pernas que enfraqueciam face à dura realidade, que discorria impassível no discurso lacônico do adulto a sua frente. Agora entendia o porquê daquele silêncio no celular e dos desencontros que faziam seu estômago revirar de tanta ansiedade, toda vez que batia a porta de sua casa e era informado sobre a sua ausência.

Agarrando-se ao orgulho, disfarçou toda a indignação que sentia perante a atitude fria e calculada de Aizen com o seu sarcasmo habitual, nunca fraquejando na frente dos seus colegas. Mas tudo mudava quando chegava em casa e se trancava em seu quarto. Ali, se permitia acolher toda frustração reprimida. Toda solidão que sentia. Questionava-se se algum dia se acostumaria com a ausência dele.

Apesar de manter sua rotina, Gin não sentia mais prazer nas atividades que desempenhava. Os dias pareciam todos iguais. Entediantes. Por um bom tempo, ele não soube como nem com o quê preencher esse espaço vazio, vivendo assim em uma espiral de letargia. Isso acabou trazendo de volta as lembranças desagradáveis de seu passado, quando, aos nove anos de idade, fora abandonado pela própria mãe. Uma mulher jovem, totalmente despreparada para uma vida com privações financeiras, face à falência da empresa do seu esposo que se suicidara por desgosto alguns meses antes.

Ichimaru havia passado por situações muito difíceis para uma criança da sua idade e não encontrou consolo algum, nem mesmo quando passou a morar com o irmão mais velho do seu pai, um homem solitário e taciturno, que só se preocupava em escrever o seu próximo livro. Ele precisou crescer rápido para cuidar de si mesmo, moldando no processo, uma personalidade apática, como forma de autodefesa frente a sua inconsciente carência afetiva.

No entanto, a sua vida teve uma mudança significativa quando conheceu Aizen, filho único de dois diplomatas conceituados, que valorizavam mais as suas carreiras profissionais do que a vida familiar. Em meio a carência afetiva que ambos partilhavam, aquela amizade possuía o poder de acalentar suas almas solitárias, lhes devolvendo o gosto pela vida e Gin passou a sentir-se, novamente, como uma peça encaixada no sítio certo. Mas com a ausência dele, tudo parecia ruir novamente, voltando à estaca zero.

Ichimaru entendia o motivo pelo qual Aizen receava. Ele próprio também se sentira apreensivo na altura e sabia bem o quão desaprovada seria uma relação daquela natureza, numa sociedade de princípios tão conservadores como a que viviam. Mas isso não implicava que ele aceitava aquela resolução forçada. E insistia nisso, quase se martirizando, mesmo quando ele próprio se deparava com uma parede enorme, toda vez que tentava pensar em uma alternativa suficientemente ajustável para os dois.

Vivia constantemente inquieto por dentro, agarrando-se a pequena centelha de esperança de que juntos, talvez pudessem colocar alguma ordem nos sentimentos caóticos, que certamente partilhavam. Aquela distância realmente machucava. Deixando claro para Gin, o quão real era o sentimento que os unira de modo tão especial naquela tarde de inverno.

No entanto, dadas as circunstâncias, ele não tivera outra opção senão resignar-se perante aquela fria e discreta rejeição, aceitando-a como parte do seu próprio destino e seguir em frente.

E ele havia tentado de verdade.

Parou no meio da rua, colocou as mãos nos bolsos do longo casaco de malha e suspirou pesadamente, enquanto fitava o céu escuro do mundo controverso em que vivia. Dos incontáveis flocos de neve suspensos no ar, alguns inevitavelmente acabaram caindo sobre o seu rosto e o toque frio lhe trouxe uma efêmera sensação de paz, tão prazerosa que o fizera permanecer assim por alguns instantes... até o seu telefone começar a tocar.

— O que faz acordada até essa hora? – ele perguntou assim que atendeu a chamada, procurando colocar algum ânimo na voz.

— Você não atendeu as minhas chamadas mais cedo. Fiquei preocupada. – ela respondeu de forma baixa e arrastada. Parecia estar com sono. – Ainda trabalhando?

— Negativo. Se conseguir pegar o último metrô, estarei em casa em meia hora – disse Ichimaru enquanto retomava a caminhada, tomando cuidado quando precisou atravessar uma estrada estreita.

— A essa altura eu acho que já terei saído de casa. Uma parturiente minha acabou de dar entrada no hospital. Vou lá dar uma olhada nela.

Expeliu uma golfada de ar, fixando com olhar reflexivo o percurso que fazia.

— Enquanto você estiver trabalhando, eu estarei dormindo profundamente.

— E quando você acordar, eu já terei tomado o café no refeitório do hospital.

— E quando você voltar para casa, o meu trabalho estará ainda pela metade. – disse ele, alcançando as escadas de concreto da entrada da estação.

Seguiu pelo corredor em forma de túnel, ladeado de vitrines de lojas, chegando à bilheteria, um minuto depois.

— E por essas e outras, novamente, vamos nos desencontrar... – ela fez uma pausa. – De vez em quando, seria bom fazermos refeições em família e dormir na mesma hora.

Gin não conseguiu contestar o protesto de sua esposa.

— Tem razão. – respirou fundo e em seguida, pegou o passe no bolso interno do casaco. – O problema da central hidroelétrica está quase resolvido. Ontem fechamos contrato com uma prestadora de serviço de engenharia industrial, então estaremos em maior número agora. Acho que na semana que vem poderei tirar alguns dias de férias.

— Se não me engano, no mês passado você disse a mesma coisa...

— Na verdade, eu acabei de copiar e colar. – ele sorriu contrafeito e a mulher soltou um suspiro.

— Sei que você possui uma grande responsabilidade no seu trabalho, mas precisa cuidar melhor do seu corpo também. Ultimamente você vem saindo mais cedo de casa, largando sempre tão tarde... Lembre-se que não será jovem pra sempre. – respirou profundamente. – Tomei a liberdade de deixar as crianças em casa da mamãe, de tarde. Você provavelmente não estaria em condições de cuidar delas essa noite.

Ele não gostou do reparo feito, mas, também não replicou. Afinal, sua esposa estava certa.

— E elas aceitaram ficar lá numa boa?

— Depois de bagunçarem a casa toda e meterem a vó delas correndo de um lado pro outro, acabaram adormecendo como dois anjinhos. – eles riram juntos. Suas filhas gêmeas haviam acabado de completar três anos. E na medida em que elas cresciam em idade, o grau das travessuras aumentava também.

Ichimaru deslizou o passe no sensor e atravessou a catraca, seguindo para as escadas rolantes e mais um lance de escadas de concreto que davam acesso à plataforma central. O recinto estava relativamente vazio, não havendo mais do que vinte pessoas no total, espalhadas pelos dois lados da estação. O metrô ainda não havia chegado.

— Ei, Gin...

— Sim, Rangiku.

— Está realmente tudo bem com você?

Ele ficou calado por alguns instantes, vacilando.

— Estou ótimo. – disse por fim, disfarçando com um tom sereno a compunção que sentia, por se sentir tão miserável quando a tinha do seu lado. – Eu realmente falava sério quando disse que tiraria férias. Estou precisando.

— Não é isso, Gin. – ela retificou. – Eu apenas tenho a impressão de que tem alguma coisa te afligindo, sabe. E que talvez você estivesse... – fez uma pausa, suspirou e depois continuou: — Deixa pra lá. Venha logo. Está frio aí fora.

Ele deu uma resposta afirmativa, se despedindo logo em seguida. Guardou o telefone no bolso da calça social e olhou para a tela informativa. Faltava um minuto e meio para a chegada do metrô e ele sentia ainda menos vontade de voltar para casa.

Suspirou cansado.

Estar sozinho em um espaço vazio e silencioso seria um convite para encher-se de pensamentos torturantes. Queria ater a sua atenção em suas filhas, em Rangiku, no seu trabalho, ou no cão do vizinho da rua ao lado. Mas estava sendo difícil fazer isso, no momento. Tão logo encerrara a ligação da esposa, o foco da sua mente voltou a ser o seu passado.

Desejava possuir um pouco mais de autocontrole sobre suas próprias emoções e deixar de lado essa angústia sufocante que drenava suas forças. Mas a ansiedade tendia a aumentar, intensificando o desejo de reencontrar aquela pessoa, muito embora não houvesse uma razão plausível para o efeito. Existia apenas essa ânsia de voltar a viver o passado. De fazer transbordar uma vez mais o sentimento que eles não deram nome.

Por mais “anormal” que ele fosse.

Empertigou-se, achando mais confortável ficar de pé mesmo. Apesar do clima temperado do subterrâneo, Gin sentia a sua mão direita gelada. Fechou-a frente a boca, soprando no pequeno orifício para aquecê-la, usando a outra para ajeitar melhor a mochila nas costas onde carregava o computador portátil e documentos do trabalho, enquanto se aproximava da faixa amarela, ao escutar o aviso sonoro e o som característico da aproximação do metrô.

Foi nesse momento que a sua atenção foi capturada pela figura de um homem moreno, vestido com roupas elegantes, de porte físico tão alto e atlético quanto ele próprio. Ele o fitava intensamente com uma expressão abismada no rosto, o corpo inerte por detrás da faixa de segurança do outro lado da plataforma.

Quando os olhos azuis focalizaram melhor a sua fisionomia, houve reconhecimento. Seus pelos eriçaram e os músculos faciais de Gin se contraíram de espanto. E instantes depois, o metrô brecava nos trilhos da estação cobrindo completamente a sua visão.

Notas finais
Muito obrigada por ler. O próximo capítulo será o último. Bjo no coração
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.