Notas iniciais
Olá pessoal! Olha como eu sou boazinha e to postando extraordinariamente um novo caps? Sejam bonzinhos também e deixem reviews, pra ajudar na minha inspiração AGRADECIMENTOS ENORMES A MINHA AMADINHA VAGABOND, ela está betando a fic, meu amor por ela só cresce ♥ ENJOY

Hyoga atravessou as portas da Elíseos e foi até a sua moto quase sem perceber as coisas a sua volta, sua única vontade era sair dali. Sentia um ódio irracional tomando conta de si!

Subiu na moto e ainda colocando o capacete disparou pelo estacionamento. Não passara pela sala dos assistentes e isso acabou sendo de grande ajuda, porque acabara ficando com a mochila a tiracolo no ombro, ainda. Não ficaria nem mais um minuto na Elíseos para ser chacota de Kagaho e os seus, virando piada nos corredores! Estava fervendo de raiva.

Foi em casa apenas para trocar de roupa e deixar suas coisas, trocando a mochila pela sua de treino e pegando seus patins. Iria para a Fundação, com sorte chegaria lá antes do polimento da pista para os treinos da tarde e assim poderia usufruir um bom tempo patinando e extravasando a raiva que o quase fazia sufocar. Tudo que queria agora era se perder um pouco sobre o gelo e esquecer que provavelmente teria de procurar outro emprego, um que lhe desse muito dinheiro para manter o processo de Camus na Elíseos. Não arriscaria a vida do padrasto por conta do que lhe acontecera.

Chegou tão rápido na Fundação que já conseguia visualizar o maxilar trincado de Camus ao ver a multa de excesso de velocidade, talvez o francês lhe confiscasse a carteira de motorista. Nem adiantaria interceptar a correspondência, porque o ruivo sempre descobria tudo, no final. Mas esse era outro problema com que lidaria depois, agora só queria patinar.

— Posso usar a pista, Cristal? – chegou perto do ex-treinador trocando um abraço saudoso. Cristal sempre chegava bem cedo para organizar tudo para seus alunos, ele agora treinava um jovem finlandês e duas meninas para o projeto Medalha de Ouro.

— À vontade, o polimento só vai ser feito meio-dia. Faz tempo que não te vejo por aqui, vai ser bom vê-lo patinar. Gostaria de uma música?

— Sim, Rachmaninoff, por favor.

Hyoga sentou-se, já tirando a jaqueta e trocando o tênis pelos patins, já havia trocado o terno pela sua roupa de treino e se sentia mais aliviado só por estar ali.

— Escuta, Hyoga. Eu estou pensando em inscrevê-lo para uma competição amadora de patinação artística no gelo. – Henry Cristal disse ao voltar para junto do ex-pupilo – É amadora, só para entretenimento, então eles não serão tão rigorosos com as técnicas, você só precisa fazer uma bela apresentação! Os prêmios são em dinheiro, o primeiro lugar vai receber trinta mil euros... Não quer participar? É em Budapest, mas você pode ir comigo sem problema, tenho amigos lá e podemos ficar hospedados com eles nos dias da competição.

— Budapest?! – Hyoga mordeu o lábio de forma ansiosa. Trinta mil euros em sua conta lhe ajudariam muito agora, pelo menos já pagava o processo de Camus. Com sorte poderia investir em mais uma especialização.

— É daqui a dois meses. Você teria que voltar a treinar e preparar uma coreografia nesse curto período de tempo, mas você consegue! Falei com o Aiolos e ele cedeu a pista para que eu treinasse à noite, se quiser aparecer também e treinar... seria muito bom!

— Tenho que conversar com o senhor Chevalier você sabe, ele ainda acha que eu tenho dezesseis anos e o senhor Savalas jura que eu tenho dez, então viajar assim vai precisar de uma boa conversa com eles. Mas eu vou aceitar sim, tô precisando de dinheiro.

— E o seu emprego de advogado?

— Não estou mais lá, longa história! Te conto depois que a gente sair para almoçar . O que acha? Faz tempo que a gente não conversa...

— Ok, eu pago, já que agora você é um desempregado, moleque. – Henry sorriu de lado e espalhou os cabelos de Hyoga em um gesto de carinho. Henry Cristal era apenas alguns anos mais velho que Hyoga, talvez por isso a amizade entre eles era mais leve do que a de Hyoga e Camus, com uma camaradagem mais acentuada apesar de o russo respeitar o técnico bastante – Vou passar as informações e o site para você se inscrever por e-mail, certo?

— Ok.

Com a ajuda de Cristal, Hyoga chegou à pista deslizando devagar pelo gelo, enquanto sentia os músculos da lombar reclamarem, mas não se importava. Ficaria o dia seguinte na cama se fosse preciso, mas hoje queria a sua paz.

Da parede envidraçada do Centro Poliesportivo, Shiryu parou a esteira para observar calmamente o patinador que deslizava pela pista no fosso do meio, dois andares abaixo de si.

O Centro Poliesportivo da Fundação Kido consistia em quatro prédios ligados pelo fosso central, que era dividido pela pista de patinação e pelo tablado da ginástica artística, além do tatame para os lutadores de luta greco-romana. Nos prédios laterais, havia as outras dependências como academia, centro médico, refeitório... Shiryu estava se exercitando, neste exato momento em que o russo usava a pista de patinação. O administrador do projeto Medalha de ouro usava a academia antes de trabalhar.

— Está saindo do plantão? – perguntou para Ikki assim que o cunhado atendeu sua ligação.

— Sim e estou morto.

— Que pena. Pensei que ficaria animado de saber que certo russo está deslizando pelo gelo, é uma oportunidade rara sabe? – Shiryu riu ao notar a pausa silenciosa do outro lado da linha – Então achei por bem avisar que Hyoga está agora patinando sob o olhar de Henry Cristal no centro poliesportivo, a dez minutos de caminhada de onde você está.

Nem esperou Ikki responder para encerrar a ligação. Não poderia deixar de pensar que aquela era uma oportunidade perfeita para que os dois amigos mais cabeças-duras que tinha pudessem conversar. Pelo menos, para Hyoga falar tudo o que passara nesses quatro anos. Havia muitas emoções reprimidas que precisavam ser trazidas para fora. Só então ele superaria e seguiria em frente. Para Shiryu ainda havia coisas muito mal resolvidas entre Ikki e Hyoga.

Enquanto isso, na pista de patinação, Hyoga se entregava aos movimentos e aos acordes de Rhapsody on a Theme of Paganini1, os movimentos lentos e sincronizados com a melodia doce da música que penetrava pelos poros e levava sua ira embora. Estava fazendo o que mais amava na vida, mesmo que tivesse abdicado da carreira profissional, jamais abandonaria a patinação. Alheio as coisas ao seu redor e concentrando-se apenas na música e nos passos de dança, se esquecia de si mesmo e se permitia fluir.

Ikki chegou ao centro e foi sentar ao lado de Cristal que observava o outro russo patinar, o técnico apenas olhou de soslaio para o japonês que se aproximava sem olhá-lo, o olhar índigo estava perdido no pequeno russo no meio do ringue de gelo. Assim como Hyoga havia amadurecido, Ikki também mudara, observou Henry para si mesmo.

Já fazia tempo que não se viam, mas Ikki conhecia Hyoga tão bem quanto conhecia Shun, seu irmão. Por isso podia notar ali, naqueles movimentos perdidos que Hyoga estava angustiado e isso o tocou. Lembrava-se da luz que o loiro irradiava, na alegria e vivacidade que possuía e que encantava as pessoas. No fundo sentia-se culpado por apagar um pouco aquela luz, por ter partido o coração do russo e o seu também. Ainda não conseguia definir se fizera a coisa certa, mesmo que amasse Esmeralda, também amava Hyoga. Escolhera deixá-lo e viver a paixão que sentia por Esmeralda, no entanto pensava em Hyoga sempre que podia e até os planos que fizera com o russo dera um jeito de realizar. O que não ocorrera com o Savalas que, pelo visto, optara por esquecer qualquer lembrança que tinham partilhado juntos!

Entretanto, apesar de tudo e das escolhas que tinha feito, Amamiya sentia-se devedor também, devedor do resgate da felicidade de Hyoga e por isso havia resolvido que tentaria pelo menos restaurar a amizade que tinham.

— Hyoga não seria um bom atleta, ele não é feito para a rigidez dos treinamentos para aqueles que sonham em tornar-se atletas de ponta. É rebelde demais para isso. – Cristal comentou sem tirar os olhos do russo, patinando – Até porque ele patina como uma extensão de si, livre e desafiadora... Talvez a rigidez quebrasse o encanto que ele possui.

— E você acha que ele é feliz? Talvez, se ele fosse patinador, teria pelo menos um lado da vida do jeito que sempre quis. – a voz grave tinha um “quê” de pesar.

— Se ele realmente quisesse patinar profissionalmente ele seria o maior patinador do mundo, mas o Hyoga só faz o que quer! Ele manda tudo pelos ares a hora que ele quiser, porque depois ele vai recomeçar do zero, como o Camus. – Henry deu de ombros – Eles são parecidos até nisso, já que o ruivo também tem o dedo podre para relacionamentos. – não deixou de alfinetar antes de se levantar e gritar para Hyoga que estava na hora de irem almoçar.

Hyoga finalizou o treino e deslizou até a saída do ringue, o corpo banhado de suor e os músculos reclamando do exercício em demasia, já que havia um bom tempo que não praticava, mas com a alma mais leve.

— Nossa! Acho que exagerei.

— Vai com calma, Hyoga, você pode se lesionar assim. Aqueceu-se antes de entrar?

— Estava aquecido pela raiva, o suficiente. – gracejou o russo tirando as luvas e segurando nas bordas da amurada para começar a descer, velho hábito.

Mas, ao colocar a mão na amurada, ele percebeu Ikki estender os braços para ajudá-lo a descer. Foi um ato reflexo dos dois! Tanto que ele não fez nada, além de segurar-se nos antebraços do moreno e começar a descer as escadas, “Ok vida, já pode parar de ferrar com o meu dia”. Parecia como antigamente, quando Ikki lhe esperava todo dia, terminar os treinos, para que pudessem ir embora juntos.

— Você ainda continua tão bom quanto eu posso me lembrar. – comentou Ikki quando Hyoga desceu o ultimo degrau e começava a colocar as proteções nas lâminas. Ao se erguer, o russo ficou a poucos centímetros do pediatra – E- É impressionante. – gaguejou o Amamiya desconcertado com o olhar celeste tão próximo.

O loiro ficou imóvel com os braços de Ikki o segurando, até tinha enlaçado Ikki pelo pescoço como normalmente fazia no passado...

— O que você tá fazendo aqui? – Hyoga se afastou, procurando fingir que nada havia acontecido. Já tinha coisas demais com que se preocupar sem ter que criar expectativas do fato de que Ikki estava ali para vê-lo.

— Eu ‘tava passando... ‘Tá tudo bem com você? – respondeu o moreno vendo o russo se sentar para tirar os patins. Cristal já havia se afastado para o vestiário sem que eles se tocassem, então Ikki emendou – Você não parece bem, aconteceu alguma coisa?

— Eu estou perfeitamente bem. – alguns fios loiros da franja cobriam os olhos do russo, mas havia irritação e um tanto de arrogância neles. Ikki também não deixou de notar o tom seco e amargo de Hyoga. Quando ele tinha se tornado tão irritadiço assim?

— Não parece.

Ótimo! Tudo que precisava agora era ter Ikki Amamiya ali o analisando e descobrindo seus problemas, porque ele era bom nisso e Hyoga não sabia disfarçar nada em se tratando do moreno.

— Eu só estou tendo um péssimo dia, ok? Se você não for se incomodar eu já vou indo. – Hyoga se ergueu já com os tênis e arrumando suas coisas.

— Que tal vir almoçar comigo? Nós podemos comprar um subway e ir comer na praia, como fazíamos antigamente. – Ikki pegou os patins de Hyoga, os arrumando na sacola e deixando loiro sem ação e sem tempo de impedir a ação.

— Eu já vou almoçar com o Cristal... – os dois olharam em volta e o técnico parecia ter evaporado – Vai ver ele já está me esperando lá fora! – checou a hora no celular e havia uma mensagem de Cristal dizendo que almoçaria com os professores da Fundação e que remarcariam o almoço.

— Acho que agora você está livre. – Ikki estava com o rosto próximo ao russo para olhar o celular – E então subways?

— Sério que você acha que eu vou agir com você do mesmo jeito que era antigamente? Fala sério Ikki, vai procurar a sua esposa para encher! – disparou. Seu dia estava péssimo para que ele mantivesse a serenidade e a pose de “superação”, naquela altura queria que tudo fosse para os ares! Não seria hipócrita de fingir que esquecera toda a mágoa que tinha de Ikki, ainda mais agora que achava que fora, apenas, mais um na cama de Kagaho. Ah não! Estava com o ego ferido demais para tentar ser positivo e superior.

— Hyoga, não faz assim. Vamos conversar! Que não seja como antigamente, mas começar do zero sei lá... Eu só quero ser seu amigo, me deixa pelo menos ser seu amigo. Ainda me importo demais com você para te ver sofrendo desse jeito e não fazer nada.

— Eu não quero conversar, quero ficar sozinho!

— Por quê?! Por que está afastando as pessoas de si, Hyoga? Você não era assim! O que aconteceu pra você se fechar dessa forma, não pode ser só porque a gente terminou...

— E não foi, merda! Foi tudo! É tudo que está acontecendo na droga da minha vida e nenhuma porra de conversa com você vai resolver, só vai piorar tudo! Eu não estou preparado para ouvir você falando de como está feliz e bem, como você se sente realizado com a pediatria quando era EU PARA ESTAR ASSIM! – gritou o russo largando todas as coisas no chão, o olhar cintilando de raiva – EU NÃO QUERO SABER DA SUA FELICIDADE! VAI SE FODER!

Ikki lambeu os lábios, tinha até aberto um pouco à boca devido ao choque de ver Hyoga se descontrolar daquela maneira. Já o russo o fitava também chocado por ter despejado aquilo assim, sem pestanejar e naquele momento. Havia prometido a si que não deixaria Ikki saber da sua infelicidade e na primeira oportunidade, despejara sobre ele tudo que havia trancado dentro de si. Agora sim queria se estapear de verdade!

— Desculpa. – murmurou o moreno estendendo a mão para tocá-lo.

Hyoga recuou ofegante e com o coração acelerado sem saber direito o que fazer. Correr, ficar, falar o resto... Queria dizer que ainda o amava e o odiava na mesma medida, que queria que tivesse sido diferente...

– De verdade, eu não queria... – balbuciou o japonês.

— Mentira... – o russo lambeu os lábios, enquanto um bolo se formava em sua garganta. Era agora que perderia toda a sua dignidade, porque chorar na frente de Ikki era a ultima coisa que deveria fazer.

Respirando fundo, o Amamiya mais velho pediu aos céus por seu autocontrole e então puxou Hyoga para junto de si, o apertando forte em seus braços e depositando um beijo doce nos cabelos do russo.

— Vamos conversar. Eu não vou falar nada de mim, eu só quero que você coloque tudo isso pra fora, que você me xingue e grite até ficar sem voz se isso te fazer bem. Vamos conversar?

***

Kagaho deixara o escritório. O dia acabara sendo um caos enorme e, antes do meio dia, ele decidira voltar para sua casa a fim de reencontrar seu centro e não pensar mais naquele russo insolente. Mas nem ali, no seu refúgio ele se sentia tranquilo, parecia que a sua paz de espírito havia saído porta afora, assim como Hyoga o fizera.

Não sabia o que estava acontecendo consigo. Em outro momento teria estabelecido os limites e colocado o submisso sob o seu jugo sem lhe dar chances para lhe questionar. Contudo, com Hyoga, tudo havia sido diferente! Desde a caça, a conquista até a tarde tórrida que haviam tido...

O jovem fora tão dócil na cama que julgara ter vencido a resistência do russo.

Ledo engano. Foi só passar algumas horas para o russo demonstrar toda a força de um gênio indomável e impulsivo! Era justamente esse gênio que deixava Kagaho louco, que instigava seu instinto de DOM como ninguém o fizera.

Contudo, a decepção e mágoa que vira no olhar celeste dele também mexeram consigo como nunca. Não seria o primeiro que o olharia em expectativa por acreditar ser algo mais, para no fim perceber que tudo não passava de um jogo. Porque, agora, se importava tanto assim? Quem saíra perdendo no fim fora Hyoga, porque ele não aproveitara os momentos de prazer deles e a promoção? Era tudo muito simples.

“Deixe esse garoto em paz, Kagaho! Você só quer se divertir então procure outra pessoa.”

Li Ang Sing suspirou e largou o livro que fingia ler sobre a mesinha de cabeceira, olhou para a cama do outro lado vazia e fechou os olhos lembrando que passara à tarde do dia anterior olhando um anjo loiro dormir ali. Seu corpo quase podia lembrar-se da sensação da pele macia sob o seu toque.

***

— Depois de tanto tempo, você ainda acha que vão conseguir pegar esse cara? Saga é uma praga, sabe? E daquelas que só para se for extinta!

— Você pensa igual ao meu pai, não é por nada que Camus está nervoso com tudo isso. Quieto do jeito que ele está não duvido que o senhor Milo vá caçar o grego sozinho.

— Ele é bem capaz. – Ikki roubou um pouco de sorvete do pote de Hyoga. Estavam sentados no chão do quarto do loiro comendo sorvetes depois de ter almoçado carne de carneiro ao molho barbecue de Camus, comida preferida do Amamiya, se Hyoga bem lembrava – Tem certeza que é Saga?

Já era noite e acabaram passando o resto do dia juntos já que Hyoga cedera e convidara Ikki para almoçar consigo, na sua casa. Conversaram um longo tempo sobre como Hyoga se sentia com relação a tudo e em nenhum momento Ikki citou algo da própria vida, só perguntava ao loiro o que vinha acontecendo com ele nesses quatro anos e então acabaram falando sobre tudo. Inclusive sobre o perseguidor de Camus e Kagaho.

— Papai tem tanta certeza que diz até como achar esse bosta. Eu e Camus estamos preocupados com o que ele pode querer fazer.

— Acho melhor vocês contratarem um investigador particular ou seguranças, não é bom ficar desprotegido assim, enquanto Saga está por aí à solta. Não me deixa feliz a ideia de pensar que você ou alguém da sua família pode de repente ficar na mira de uma arma, já vi você assim e não é nada bom.

— Eu visito o Tenma no sanatório em que ele está. – Ikki ficou chocado pela segunda vez aquele dia. Não acreditava que Hyoga ia visitar o cara que um dia quase o matara – Ele está controlado agora, mas não pode sair do sanatório, porque a junta psiquiatra tem convicção de que o Tenma não consegue conviver em sociedade, nem ele acredita que pode. Levou um tempão até que eu tivesse coragem de ir vê-lo, mas depois que a gente terminou eu entendi ele um pouco mais.

— Entendeu que ele poderia meter uma bala na sua cabeça? – Ikki estalou a língua – Não preciso vê-lo para saber isso Hyoga! Você podia ter morrido porque o Tenma é desequilibrado.

— A gente fica assim quando perde algo importante, Ikki. Você não sabe o que é isso, não teve que abrir mão de alguém que ama demais. Se for parar pra pensar, eu tenho uma imensa vantagem sobre o Tenma, porque eu, pelo menos, tenho a chance de recomeçar, ele não.

O clima ameno foi substituído pelo constrangimento e Hyoga se arrependeu de ter falado aquilo. Não queria estragar aquele momento lembrando o passado rompido dos dois. Estavam construindo tudo do zero não estavam?

— Espero que um dia você possa me perdoar.

— Já perdoei Ikki, esquece o que eu falei. – disse isso sem olhar para o moreno, porque era óbvio que mentia. Não conseguia esquecê-lo!

— Esse tal de Li Ang, você acha que ele é o cara certo para você? – o pediatra resolveu mudar o foco, não se sentia confortável em falar sobre perdão se ele nem mesmo se perdoava. Mas algo lhe impelia a pedir perdão ao russo, sempre.

— Ele é só um lance, já passou! Não sou tão inesquecível assim, então não se preocupe que amanhã Kagaho já terá outro garotinho para bater.

— Bater? Que história é essa? – Ikki sorriu olhando-o de modo curioso, agora que olhava atentamente, percebeu os anéis de um rosa mais acentuado em volta dos pulsos de Hyoga.

— O Kagaho gosta de umas brincadeiras diferentes. – Hyoga mordeu a língua e riu com uma expressão sapeca – Melhor não entrar em detalhes com você.

— Você que sabe, mas... – ia questionar mais um pouco, mas pensou que lhe seria estranho ouvir Hyoga falar de como se relacionava com outros caras – Deixa pra lá! Eu tenho que ir loiro... Ainda vou fazer o jantar, com sorte Shun e Shiryu estarão loucos para umas “brincadeiras diferentes” também, daí que eu cedo vou pra cama.

— Você nem dormiu, deve estar exausto. – Hyoga passou os dedos pelos fios negros do Amamiya, arrastando as unhas curtas no couro cabeludo num afago que sabia que o moreno gostava.

— Amigos também podem fazer cafuné, continue. – Ikki se aconchegou mais apoiando a cabeça no ombro direito de Hyoga que continuou com o afago leve. Olharam-se, os olhos naturalmente fechados do japonês eram apenas uma aresta agora. Outro momento familiar, embora eles estivessem bem diferentes daqueles adolescentes que um dia compartilharam um momento de carinho naquele quarto. Haviam amadurecido, conhecido a vida a seu modo, o tempo e as experiências transformando seus sentimentos e o modo como viam um ao outro.

— Vou acabar dormindo aqui. – soltou Ikki baixinho, sem vontade de fugir do carinho e da presença de Hyoga.

— Não peça demais de mim, Ikki.

Já haviam atingido o limite por aquele dia e o russo teria que trabalhar aquela nova amizade com calma. Ter Ikki tão próximo mexia consigo, não conseguia evitar... Como seriam amigos se estar junto com o moreno era revisitar todas aquelas lembranças de quando estavam juntos?

Para Ikki também havia um limite, por isso se afastou do loiro com um ar sem graça. Tinha se esquecido de que, pelo menos por hora, teria que policiar-se para manter aquela sensação de intimidade trancada em si. Para ele parecia natural que eles voltassem à intimidade, mas como amigos! Pelo visto para Hyoga não, então respeitaria a vontade dele.

Em silêncio os dois levantaram e seguiram para a porta com Ikki se espreguiçando como um grande felino, esticando o corpo para alongar os músculos cansados.

— Venha jantar comigo e com Shun. – convidou antes que Hyoga fechasse a porta, no fundo não queria deixar o russo ir – Talvez só Shiryu venha se ele não for jantar com Aiolos! O Argenkland reclama demais, porque ele quase não aparece.

— Obrigado pelo convite, mas eu preciso ficar e segurar as pontas por aqui. O clima não está dos melhores...

— Ok. Tente convencer Krest a voltar a gostar de mim, não quero que ele me tranque pra fora de novo. Até logo, loiro.

— Até logo, Ikki.

Hyoga fechou a porta e voltou para o quarto para arrumar tudo e se ocupar com algo até os pais chegarem, pensando num modo de contar aos pais que havia saído do emprego. Talvez fosse falar com o tio Aiolos, ele sempre quisera que ele fosse ajudar na administração da Fundação, então poderia conseguir algo para si. Foi ver seu celular e havia uma ligação perdida de Kagaho.

Kagaho. Teria que enfrentar o advogado sênior em algum momento, não poderia ser imaturo e apenas ignorá-lo, seria outra coisa mal resolvida na sua vida. Já bastava Ikki Amamiya! Procuraria Li Ang Sing, no dia seguinte, para formalizar sua saída da Elíseos e da vida dele, não que achasse que ele estaria abalado por ter se recusado a ser seu submisso. Sabia que Kagaho tinha tantos amantes quanto quisesse, ele não seria nada com que o renomado advogado se preocuparia.

O russo já estava finalizando o jantar quando ouviu a pequena balburdia, era o retorno da família. Entretanto, continuou a lavar a louça esperando por eles na cozinha. Tomara o cuidado de vestir roupas compridas para esconder o corpo, havia muitas marcas na pele alva e isso o tornaria alvo de pergunta de seus pais...

— Hyoga?

— Na cozinha. – respondeu ao pai grego que já entrava no cômodo deixando as chaves sobre o balcão e ia até o filho. O pequeno Krest já corria pela casa deixando suas roupas e material da escola pelo caminho.

— Oga! – o menininho quicou em volta do irmão à espera que ele o carregasse, o que ele fez de bom grado recebendo um abraço do pequeno – Hoje na escola eu desenhei a gente! Papa, meu ‘oto papa e você...

— Boa noite, filho. – Milo beijou os cabelos de Hyoga, seu habitual “boa noite”.

— Bonsoir, petit. – Camus entrou na cozinha deixando sua pasta sobre o balcão também e indo beijar Hyoga, como Milo fizera – Como foi seu dia? Soube que foi a Fundação hoje.

Hyoga revirou os olhos. Teria que dar um “sacode” em Henry Cristal traidor, para ele ser menos bajulador de Camus, pensou irritado. Agora teria que explicar aos pais porque passara a manhã na Fundação e não na Elíseos, ambos o aguardavam explicar já que a ida do russo à Kido fora o assunto do dia entre eles. Mas Hyoga continuou a guardar a louça com o irmão no colo sem responder nada até que o interfone tocou no momento em que Milo ia abrir a boca para perguntar algo.

— Fala Acrísios! – Milo atendeu falando animadamente, mas algo o fez franzir o cenho e olhar para o filho mais velho – Deixa entrar, é o chefe do Hyoga.

— Quem foi que você deixou entrar?! – Hyoga perguntou alarmado. Não podia acreditar que...

— Seu chefe, Kagaho, está subindo. Vocês marcaram algo, de novo? – Milo tinha um olhar desconfiado sobre o filho.

— Puta que pariu! – exclamou Hyoga, enquanto Krest levava as mãozinhas à boca ao ouvir o palavrão do irmão.

Camus olhou feio para Hyoga. Tinha aversão a palavrões (na frente de Krest pelo menos) e o garotinho estava ali no colo do russo.

— Por que todo esse espanto? Tá fugindo dele, é isso? Sábado você parecia um filhotinho em volta dele, de tão animado que estava por conta do grande advogado estar aqui. O que foi que aconteceu? – questionou Milo.

— Milo, também não é assim! – Camus interveio – Mas, eu não sabia que o havia convidado de novo para vir até aqui, Hyoga.

— Eu não o chamei! Mas já que ele veio, nós precisamos conversar. – Hyoga colocou o irmão no chão e limpou as mãos – Preciso conversar a sós com ele, depois explico a vocês. Por favor...

— Vá conversar com ele na varanda. – antes que Milo questionasse o filho, Camus interveio e só olhando impediu o grego de perguntar algo. A campainha soou e Hyoga foi abrir a porta com Krest prontamente já correndo atrás do irmão, mas o francês pegou o menino a tempo.

— Você vai catar suas coisas pela sala e tomar um banho para dormir, está tarde.

— Mas eu quero falar com o chefe do Oga, pai!

— Falará com ele amanhã, agora está na sua hora de dormir. Milo seja bonzinho e vá dar banho no Krest e colocá-lo para dormir. – pediu o francês dando o garoto ao marido.

— Não adianta você tentar me trapacear assim, eu não vou dormir junto com Krest! Quero ter uma boa conversa com esse advogado aí, o que ele quer com o meu filho?

— Claro, Milo, agora vá! Fique acordado, porque nós precisamos conversar longe das crianças, você sabe. – sussurrou o ruivo perto da orelha de Milo.

O grego tentou não rir de lado, mas falhou, miseravelmente. Saber que seu francês estava sempre disposto melhorava e muito o seu humor. Camus era um trapaceiro!

O grego se foi pelos corredores com o filho pequeno e Camus seguiu para o escritório com a pasta de documentos, olhando atentamente para a família vendo todos ocupados. Hyoga saíra para a varanda com Kagaho, fechando as portas de vidro para manter a privacidade. Milo estava no banheiro da suíte deles ocupado com Krest. Era agora! Tinha tomado uma decisão e ia resolver aquilo de uma vez, não esperaria por processos ou pela policia! Saga aparecera na oficina e deixara um buquê de rosas negras para ele, só o identificara por causa das filmagens, no buquê um cartão com os nomes de Krest e Hyoga e isso foi motivo para Camus quase surtar.

Já na casa de Aiolos, durante o jantar com os cunhados Chevalier recebera uma mensagem.

“Você quer acabar com tudo isso? Então, venha me ver.”

E ele iria, fosse Saga ou qualquer outro. Estava cansado de se tornar refém do medo, era hora de revidar! Abriu uma gaveta embutida que estava escondida numa cômoda do seu escritório e retirou de lá a Glock de Milo, certificando-se em pegar os pentes de bala também. Estava preparado para matar ou morrer, mas acabaria com aquela agonia naquela noite...

Notas finais
1_https://www.youtube.com/watch?v=4E7XHOotTX0&list=PL9wedkOOLfTEPpF03K73sh250G_FvsNTn