Tem um choro que relutantemente busca sair pela boca de Pyrrha, que, ainda imersa em horror, tenta frear a saída dele, em descrença. Não quer acreditar naquilo. Ela arfa por ar, horrorizada. Johannes e Maria foram engolidos? Devorados? A mente da garota se recusa a aceitar isso, e quanto mais o tempo passa, mais a realidade se impõe sobre ela. Eles foram devorados. Pyrrha consegue ver o braço esquerdo de Maria, decepado, caído na grama. Ainda segurando o machado, que também jaz no chão.

A boca da garota treme, receosa em chamar os nomes deles. Receosa no silêncio de não haver uma resposta.

— Maria? — Pyrrha chama, gaguejando os nomes de seus protetores. — Johannes?

Sem resposta.

Da garganta da Antiga Grande Fera irrompe um barulho horrendo, carregado de escárnio e certo alívio — um riso gutural para celebrar que os dois caçadores se foram. Ela ergue sua pata e a traz abaixo, golpeando o solo e retalhando ainda mais o pouco que sobrou daquela caçadora que deu tanto trabalho e jogando-a para longe. Para perto de Pyrrha. Os ventos atravessam aquele lugar em lufadas cruéis. Duras e frias. Assobiando uma canção solitária que ecoa naquele espaço vazio e escuro, desolado. Os cabelos de Pyrrha sacodem e sua pele se arrepia. Ela se encolhe, de joelhos no chão, como se murchasse. Treme já sem saber se por pavor ou se por frio. Talvez ambos.

Os céus se tornam uma disputa entre as nuvens, que dançam como bestas entorpecidas em um combate violento, em um mar de escuridão tempestuosa contra a Lua. As raízes que surgem das nuvens sacodem de forma agressiva, conforme as nuvens buscam encobrir a lua, com a luz daquele astro celeste se tornando escassa. A lua batalha para permanecer visível e manter seu brilho prateado visível.

Os olhos vermelhos da Grande Fera cintilam naquela penumbra, observando Pyrrha e Lamia. Pyrrha se sente pequena. Ver aquela monstruosidade diante de si e o fato que os dois caçadores que juraram protegê-la não estão mais ali faz seu peito se fechar em angústia. O que ela poderia fazer?

— Pyrrha — Lamia, deitada no chão, chama, com uma voz rouca e fraca.

Ela baixa o olhar para a mulher-fera, sem saber o que fazer. Lamia respira fundo e tenta se levantar, querendo ir enfrentar a Grande Fera, mas Pyrrha a segura, abraçando-a.

— Pyrrha, me deixe ir — Lamia pede.

A garota sacode a cabeça, fechando os olhos com força.

Pyrrha. — Lamia tenta se soltar da garota, mas lhe faltam forças.

Pyrrha não quer perder ela também. Não quer perder mais ninguém. E a ferida no corpo de Lamia, causada pela Grande Fera, é horrenda demais. Profunda. Ela não aguentaria lutar contra algo que levou embora até mesmo Maria e Johannes.

“Preciso estancar a ferida”, Pyrrha pensa, em desespero.

— Você precisa esperar um pouco — Pyrrha funga, chorosa, falando com a voz trêmula. — Você está machucada. Muito. Não pode ir. Não pode.

Lamia olha para ela com preocupação. Está arrancando um pedaço de seu manto vermelho e enrolando em volta da ferida de Lamia, tentando fazer um curativo. Lamia, compadecida pela garota, deita sua cabeça na grama gelada daquele lugar, sentindo a dor morna assolar seu corpo a cada respiração. Ela gane de dor no momento em que Pyrrha pega um de seus últimos frascos de sangue e injeta na coxa da mulher.

Pyrrha se levanta, após tentar, de algum modo, fazer algo por Lamia. Se levanta e se coloca à frente dela, protegendo-a. A respiração de Pyrrha está acelerada, tomada de nervosismo. O que ela está fazendo? Sua mente lhe castiga com perguntas e questionamentos, buscando fazê-la recuar. Medo ruge em seu corpo, mas determinação a mantém de pé. Convicta.

O vento frio toca sua pele quente, sem pedir licença. Ela funga, erguendo seu olhar e limpando o rosto mais uma vez. Limpando o choro. Pyrrha dá um passo à frente. O medo, ainda lá, mas se acovardando perante a presença de coragem. Determinação. Resolução. Não irá recuar. Não irá aceitar imposições vindas dessa sombra colossal, anciã e ferida, chamada de “família”. Da Grande Fera. De sua avó. De sua mãe e de seu pai.

E de repente, com naturalidade, ela dá outro passo à frente.

— Senhorita Maria, Senhor Johannes — ela fala. — Da onde tiravam a coragem para me proteger? É a mesma que sinto agora? Eu… Eu queria ser tão valente e forte como vocês. De verdade…

Ela dá mais alguns passos, que parecem sem rumo. Ela para e respira fundo.

— Por hora, vou ter que me satisfazer em ser tão valente e tão forte quanto eu.

Ela se agacha e engole em seco. Seu olhar e suas mãos são invadidos por hesitação, por um breve instante. Apenas por um breve instante. Suas mãos, novamente convictas, seguram e erguem o cabo do machado de Maria Hazenflug do chão. A lâmina depreda a grama e a terra, conforme é erguido, com dificuldade. Ele é pesado. Não iria conseguir usá-lo tal qual a caçadora fazia. Tampouco acha que pode usar a arma de Lamia, além de, também, não querer deixá-la desarmada.

O ar adentra o corpo de Pyrrha. Seus olhos encaram a Grande Fera, em rebeldia. Em desafio. Seu manto vermelho balançando como uma bandeira graças às intensas rajadas de ar. Uma bandeira que voa pelo lugar, assim que ela o desprende de si. Não precisa dele. Não mais. Não é nenhuma noiva. Não precisa daquele véu.

A besta anciã rosna, em descontentamento, vendo sua descendente diante de si portando as armas de um caçador. Desafiando-a.

Um sorriso abre espaço pelo rosto de Pyrrha, que segura suas armas com mais firmeza. E então uma ideia atravessa sua mente e seu sorriso se expande ainda mais.

— Eu não sei da onde vocês tiravam a coragem. É algo assustador. A caçada. Lutar contra feras — ela resmunga, ainda se imaginando conversando com eles.

A Antiga Grande Fera chega a recuar, em desgosto, ao ver o cabelo de Pyrrha sendo carregado pelo vento, após ser cortado com dificuldade com uma pequena faca. Ela sorri, passando a mão por ele. Sentindo uma catarse imensa por isso.

— Maria estava certa — ela diz, com os olhos fechados e um sorriso gentil nos lábios. — Assim é bem melhor.

— Pyrrha… — a Grande Fera rosna, como um aviso para que ela parasse.

— Johannes, Maria. Me olhem agora — ela sussurra. — Pois eu vou caçar uma fera por mim mesma.

Aquelas palavras atravessam o espaço e chegam não somente até a Grande Fera mas reverberam ainda mais profundamente, através de paredes grossas e carnosas, de músculos e ossos ligados por laços sanguíneos fortes. Recheadas por universos e cosmos sombrios de horror, bestialidade e gerações atrás de gerações nascidas sob Sua glória.

Aquela voz, a voz de Pyrrha, atravessa tudo aquilo.

— Eu ouvi algo — Johannes vagarosamente diz.

Os dois continuam afundando naquela imensidão estelar dentro da Grande Fera. Uma voz ecoou ali, mesmo que fracamente, e alcançou os ouvidos dos dois caçadores, como se fosse uma luz, iluminando aquele lugar sombrio.

— Eu também — Maria fala, sonolenta. — Era a… Quem era?

Maria sente o coto de seu braço decepado doer. Doer onde ele sequer existe mais. Sua expressão se contorce não somente na dor da ferida mas no esforço de se lembrar.

— É uma voz familiar — ela resmunga.

— Pyrrha — Johannes completa. — Era a Pyrrha!

Lamia começa a se levantar vagarosamente, com suas pernas e braços tremendo. Ainda sentindo a dor de seu machucado, que se aliviou um pouco, graças ao sangue que Pyrrha injetou nela.

— Eu ainda não desisti — ela fala, aos frangalhos.

Lamia tosse e termina de se erguer, arrastando sua arma consigo. Pyrrha olha para ela, mordendo o lábio.

— Você ainda está ferida! — ela bronqueia.

— E vou continuar se ficarmos aqui — ela retruca. — Assim como eu acredito em você, acredite em mim.

Pyrrha desvia o olhar e respira fundo.

— Eu nunca deixei de acreditar em você. E nunca irei — ela diz, com a voz dura, tentando murar o choro que parece querer aflorar a cada momento.

— Temos tanto em comum, Pyrrha. — Lamia manca até o lado da garota.

Lamia também quer vingança. Também quer lutar. Não quer baixar a cabeça. Por mais fútil que seja, ela quer mostrar que ela vai lutar. As duas sorriem, uma ao lado da outra, sentindo-se mais fortes por ter alguém ao seu lado. Ambas empunhando as armas de seus protetores caídos.

A Grande Fera rosna e então ruge. Raios e trovões ilustrando o céu, como se fossem ecos dos rugidos da Grande Fera. Os sons que a besta emite caminham pelo ar tempestuoso até os ouvidos das duas. Só após serem digeridos começam a fazer sentido. A sensação ainda revira os órgãos das duas, cansando uma náusea e desgosto absurdo.

A Antiga Grande Fera pergunta se as duas vão insistir em se voltar contra ela, a família delas, por birras estúpidas. Mesmo após finalmente se livrar daqueles caçadores, influenciando as atitudes delas. Se vão, realmente, erguer armas (de caçadores) contra ela. Se iriam se manter defendendo caçadores, meras marionetas nas tramas da Igreja de Yharnam. Usados para manter as feras que afloram com a lua de sangue e que por fim se transformam em feras, para serem descartados.

— Tal qual Euthymos — a Grande Fera sibila.

Elas não demonstram reação, se mantendo de pé. As golfadas de ar atravessando seus corpos. Suas expressões imóveis, como estátuas, encarando a Grande Fera com dor, sim, mas com seriedade. Convicção. A única resposta que o Eminente recebe é seus punhos agarrando as armas com mais força. E seu rosto se contorce em uma horrenda expressão de desgosto, sua pele se enrugando e mostrando os dentes.

— Más filhas! — ela sibila, andando em círculos, de frente as duas. — Sim, isso é o que estão sendo. Más filhas. Ingratas! Após todo o amor, cuidado, atenção e tempo para a criação das duas! O esmero! E é assim que retribuem… Se voltando odiosamente contra a família que deu tudo para criá-las.

A voz da fera dói ao adentrar a mente das duas. Como se tentasse as repelir para trás. Seus pés se firmam, recusando a ceder. Recusando a recuar. Pyrrha baixa o olhar e lhe falta ar por um momento, mas ela respira fundo e solta o ar de seu peito, inspirando devagar. Ela ergue o rosto de volta e dá um passo à frente, levando uma mão até seu peito.

— Nós não pedimos nada disso — ela retruca, berrando aos ventos.

Dessa vez é a Grande Fera quem recua, assustada. Pyrrha queria falar mais. Sente sua cabeça borbulhando com tanto que poderia dizer, com tanto que quer dizer, que sempre quis poder dizer. Para seu pai, seus irmãos e sua mãe. Só que toda vez que abre sua boca, sua voz falha, saindo apenas soluços. O choro tentando sair no lugar de sua voz. Os céus se mantêm um tumulto, com correntes de ar fortes e nuvens se moldando sem parar, encobrindo a lua.

Pyrrha consegue ouvir o ar saindo da boca de Lamia, com seus dentes batendo, pelo frio, pela dor e por todas as emoções se agitando e borbulhando dentro dela também. A Grande Fera retorce seu rosto, saindo do espanto, para então descrença e enfim ira. Pura ira, por ter sido retrucada daquele jeito por… Por… Por causa daquilo. Como Pyrrha se atreveu a dirigir a palavra daquele jeito contra o motivo de sua existência ser real? Sua pata se ergue e quando atinge o chão, ergue terra consigo. A Grande Fera grita. Raios se chocam contra o solo, em resposta a Fera.

Lamia e Pyrrha dão um passo para trás, assustadas, conforme vêem aquela besta colossal avançando contra elas cada vez mais. Quase que cegamente. Continua atingindo o chão com patadas, devastando o solo e criando uma nuvem de detritos diante de si. Pyrrha rosna, mostrando seus dentes. Ela ativa o mecanismo do machado, estendendo o cabo e facilitando para ser empunhado por ela.

E assim ela avança, com Lamia vindo logo atrás dela. As duas mal conseguindo correr direito, seja pelo peso da arma ou por machucados, e ainda assim conseguindo reunir bravura o bastante para assim o fazer. Suas vozes ecoando em um berro que clama pela liberdade, tomando lugar naquele campo, junto com a ventania, os trovões e a destruição que a Antiga Grande Fera causa. Que reage cegamente em resposta às duas avançando contra ela, rosnando com ainda mais raiva e golpeando com mais força. Saliva espuma e vaza por suas mandíbulas, e seus diversos olhos parecem desfocados, sem um alvo em específico.

O corpo de Lamia se choca contra o chão amolecido, ferido após ser arremessado por uma patada da Grande Fera. A dor fazendo sua respiração ser em espasmos dolorosos e tornando o ato de se movimentar impossibilitado pela intensidade da dor. Seus olhos, entreabertos, gritam de dor. Pyrrha corre até ela, assustada e gritando seu nome. Arrasta o machado consigo e se coloca na frente da mulher-fera. Heroicamente buscando defendê-la, de algum modo. Apenas para ser jogada pelas patadas da Grande Fera para longe. Lamia reune suas forças para erguer a cabeça e voltar seu olhar para Pyrrha.

— Pyrrha! — ela tenta gritar, chorando, mas sua voz sai apenas em chiados baixos e fracos.

Sua cabeça cai novamente no chão, a força se esvaindo e ela tossindo. Um pouco de sangue voa para fora de sua boca, junto com a tosse.

Pyrrha levanta, agora com alguns cortes aqui e ali, sua roupa coberta em terra, suja. Ela avança novamente. Correndo em passos nem um pouco ritmados. Trazendo o machado consigo. Precisa salvá-la. Precisa tirar Lamia dali. A Fera golpeia o chão, sem intenção de acertar algo em específico, atacando às cegas tudo ao seu redor. Seus gritos hediondos não se traduzem em mais nada, mesmo após ecoarem por toda a mente de Pyrrha.

— Lamia! — Pyrrha grita, implorando para que suas pernas a levem até ela mais rápido.

Implorando por mais força. Sua mão se estende na direção dela.

Lamia é jogada para longe, junto com terra e outros destroços do que a Grande Fera atinge e arremessa com suas garras. Pyrrha grita, em pânico, e corre até Lamia. Assim que chega perto dela, solta o machado e deixa seu corpo cair de joelhos, trazendo Lamia para perto de si, em um abraço.

Lamia geme de dor, tentando se mover, mas a dor a imobiliza no chão. Ela sente a mão de Pyrrha acariciando-a, tentando trazer algum conforto para ela.

— Você precisa descansar, Lamia — ela pede, com a voz embargada em choro e pânico. — Você precisa… Precisa…

A visão dela fica turva, conforme gota atrás de gota escorre pelo seu rosto, em um choro doloroso que lentamente se permite ser liberado.

Esse choro reverbera, ecoando pelas entranhas sombrias e lamacentas da Grande Fera, no cosmo pelo qual Johannes e Maria afundam, mas não são os caçadores que reagem ao ouvir o choro. Lentamente outras consciências se dão conta do choro, e, em suas formas não físicas, encaram uns aos outros. Como se aquilo não apenas ecoasse, mas ressonasse com eles.

Até que a velha Senhora Perrault, avó de Pyrrha, é alcançada pelo choro da neta, puxando-a para fora da escuridão gutural estelar que a envolvia. Sente como se emergisse de um lago, que estivesse nublando sua audição.

Memórias começam a emergir em sua mente, também. Memórias de tempos, talvez, melhores. Sente aquele calor no peito surgindo conforme memórias despertam, memórias dos “bons dias”, aquecendo seu coração e seu ser. Lembra de Pyrrha, em seus braços, quando ainda era um filhote, tão pequena que podia segurar com um braço só. E lembra de sua filha, a mãe de Pyrrha, quando também ainda era um bebê. E lembra de quando chegou a vez de sua filha entrar em comunhão com a Vila. Lembra quando ela, a velha Senhora Perrault, passou por isso.

Aquele choro traz à tona tantas pequenas memórias, mas no fim retorna para ela com uma criança no colo, seja essa Pyrrha ou sua filha. E toda a violência e trauma coletivo passado de pai a filho. Teria sua mãe sentido medo, quando ela teve que passar por isso? Tal qual Pyrrha, teria ela hesitado? Sua filha? Tal qual ela, quando ela foi a “chapeuzinho vermelho”. Sente um amargor aflorar em seu peito, apenas para lhe causar dor conforme ele cresce em si.

A velha senhora Perrault percebe, e vê, todos os outros póstumos membros da Vila ali consigo, presos, entrelaçados e unidos na carne da Antiga Grande Fera. Vê neles um reflexo de si mas também a continuação e perpetuação desse trauma. Desse dia. Desse confronto. Ciclos de violência. Ciclos de dor. Ciclos de filhos com olhos assustados tentando pedir por ajuda de seus pais. Um trauma passado por gerações, de pai para filho.

— Senhora Maria! — Pyrrha berra, chorando. — Maria!

Pyrrha avança com o machado em mãos, a lâmina arrastando contra o chão. A pistola é sacada, arrancada de seu coldre e disparada. A bala afunda e perfura a carne maldita daquela monstruosidade feroz. A Grande Fera ainda golpeia aleatoriamente o que estiver diante dela. Nisso, Pyrrha vê uma chance. Uma brecha. Não pode ser imprudente, mas também não pode desperdiçar uma chance de acabar com isso. Lembra de tudo que Johannes dizia, de como ele agia. Ela desvia de uma das patas da Grande Fera, indo para debaixo dela com um rolamento atrapalhado.

Uma vez mais, dentro da Grande Fera, os constantes gritos de Pyrrha Perrault continuam a alcançar os caçadores, motivando-os. E, cada vez mais, eles têm mais forças para lutar contra aquele lugar. Para salvar Pyrrha. Para levá-la ao porto. Tirá-la dali. Cada vez mais, lutam contra os grilhões para despertar suas mentes e tentar se libertar dos grilhões que os fazem permanecer nesse estado de dormência. Seus corpos parecem pesados e suas mentes em uma dormência dolorosa.

Johannes cerra os dentes, rosnando. Usando cada parte de seu corpo, cada partícula de “força” dentro de si, ele faz, lentamente, sua mão ir até a alça de sua arma, a Roda de Executor. Seus dedos se fecham com força, agarrando a alça. O ar sai de seu peito com pressão, devido ao esforço que um movimento tão simples — outrora tão casual — exigiu. Bolhas, o ar que expeliu, sobem rapidamente. Os olhos do caçador se abrem.

— Pyrrha — ele diz com dificuldade, se voltando para Maria. — Temos que ajudar ela… Proteger ela!

O rosto de Maria se enche de dor, vindo da angústia do estado que está presa. O choro de Pyrrha lhe traz dor. Deveria estar lá. Deveria ter tido um plano melhor. O canhão ainda está em suas mãos, pelo menos. Sua mão. Singular. Não sente a dor, por algum motivo, mas se foca nisso. Se foca na sensação, suave, da dor da perda de seu braço esquerdo. Precisa sair dali. Seu irmão! Ele precisa da cura! O rosto de Maria se estampa em fúria, e seu corpo todo se estampa em determinação, conseguindo se mover. Mesmo que lentamente.

— Sim — ela se força a falar.

As mãos, que antes tentavam puxar eles, cada mão para uma direção, agora se unem para pará-los. Os dois caçadores se assustam com isso, presumindo ser algum tipo de ataque. Eles olham em volta, tentando se libertar das mãos, quando Maria vê algo à frente dela. Surgindo da escuridão do cosmo e se formando nas paredes intestinais daquele Eminente. Ela se molda para se adequar a um novo formato. Rapidamente detalhes como pelos, olhos e um esqueleto por baixo daquela pele, se formam. E quando o processo acaba, os dois caçadores se vêem de frente para a avó de Pyrrha, em sua forma bestial. Johannes puxa sua roda, se preparando para golpear aquela fera que surgiu diante deles (que ele não reconhece como a avó de Pyrrha), Maria ergue a mão.

— Espera! Johannes, essa é a avó de Pyrrha — ela protesta, sua voz carregada de confusão ao ver ela ali, tendo surgido da carne das tripas daquele monstro.

— E? — o caçador indaga confuso.

Os dois retornam sua atenção para a fera, assim que ela solta um grunhido. Ela leva sua mão para frente, na direção dos caçadores, apontando para eles. Johannes tenta ir para trás, receoso. Ambos caçadores observam aquilo, tensos. Então suas garras se voltam contra si, rumando até seu peito, apontando para ele. Ela repete o gesto, continuando a apontar para seu peito. Apontar para seu coração, repetidas vezes. Sem conseguir falar, a fera apenas emite um grunhido. Sua mão se abre e agarra a pele e o pelo, fechando as garras por cima de seu peito. Os lábios animalescos se curvam na sombra de um sorriso. Um sorriso triste.

Johannes olha para Maria.

— Maria, você concorda? O que você acha?

Ela morde o lábio, pensativa. Maria ergue o olhar, olhando para Johannes nos olhos.

— Sim, vamos. Por favor — ela responde.

A avó de Pyrrha sorri, um sorriso, apesar de tudo, gentil. Seus olhos se fecham em um semblante sereno.

Johannes imbui sua arma com todo o sangue que poderia colocar nela, para aumentar seu poder. A névoa rubra surge conforme ele sente aquela dor de sentir todo seu interior sugado por aquela arma. Ele leva sua roda para trás de seu corpo. Todo seu corpo se prepara para o golpe prestes a realizar.

Maria puxa o canhão, com dificuldade. O ergue, com apenas uma mão, preparando-se para dispará-lo. Ela engole em seco, respirando fundo. Ainda não sabe o que o destino irá lhe reservar. A estrada adiante é enevoada, assim como a vida em Yharnam, junto a caçada. Maria pode ter encontrado a cura para seu irmão. Johannes pode ter encontrado coragem para romper laços e olhar as coisas com seus olhos, mas Pyrrha ainda não pode completar nada. Pyrrha só quer uma coisa. Uma coisa simples. Um único desejo, um único pedido. Sua família não a ouviu. Sua família, que falam em berros e uivos que se traduzem apenas após serem ouvidos, não conseguem traduzir o simples pedido daquela garota. Um pedido que tantos outros filhos não conseguem fazer seus pais entenderem.

Pyrrha só quer ter o direito de escolha.

O barulho estrondoso do disparo do canhão preenche aquele lugar, junto com a luz da explosão da pólvora aquecendo os rostos dos caçadores. Aquecendo os rostos dos inúmeros rostos e corpos saindo das paredes carnosas daquele lugar odioso. Sangue — ou o que quer que verta das tripas de um Eminente ao ser rompidas — respingam nos dois caçadores.

O que resta da Velha Senhora Perrault ergue o olhar, uma última vez, abrindo a boca em um último sorriso, em alívio. Ela lembra de cada tenra memória que teve com Pyrrha. Com seus filhos. Seus irmãos. Seus pais. Deixou o ego subir a cabeça, deixaram o ego subir a cabeça. Cada pai e mãe da Vila Edda ali dentro, consumido e parte d’O Grande Pai sente isso. Pyrrha deve ir ao porto. Pyrrha não deve mais chorar.

A Roda de Logarius de Johannes traça um último e limpo arco, com toda sua força restante colocada naquele golpe, a aura escarlate explodindo ao colidir com seu alvo.

Abrindo um caminho, uma rota mais fácil. Uma rota mais fácil para um machado, que está nesse momento nas mãos de uma brava e valente Pyrrha Perrault.