A Estrangeira, o Executor e o Capuz Vermelho
22 15 - Mude (essa história)
O brilho da lua parece se intensificar conforme Pyrrha ergue o machado de caçador, após acumular momentum o bastante. É quase como se a lua vibrasse em êxtase por aquele momento: ver aquela garota prestes a golpear aquele ser monstruoso. Pyrrha sente seu corpo se encher de poder. Os músculos de suas costas então começam a se empenhar em trazer a lâmina abaixo. Com um grito, Pyrrha acerta com imensa força a parte debaixo do torso da Grande Fera, em sua barriga. Coincidindo com o local onde Maria e Johannes, lá de dentro, cavaram um caminho para ela. Facilitando o trabalho.
O tranco do golpe reverbera pelos braços de Pyrrha. Eles tremem, mas isso não a faz largar o cabo da arma, apenas faz seu aperto nela se intensificar mais. Suas mãos agarram o cabo do machado como se sua vida dependesse disso. Seus dentes trincam, com ela rosnando de tanto fazer força, afundando mais e mais a lâmina do machado na carne odiosa do monstro.
Pyrrha é fraca demais para empunhar e extrair todo o potencial daquela arma. Ela sabe disso, em momento algum imaginou que poderia ser um quinto do que Maria é, assim do nada. E ainda assim, Pyrrha persevera. Ela arranca o machado de dentro da ferida, quase caindo para trás com o tranco. Escuridão e sangue jorram para fora. E junto de um urro, o machado é balançado outra vez contra a Grande Fera, com ainda mais força. Com ainda mais raiva!
Pyrrha quer ir para o porto.
Uma vez mais, o machado adentra a carne da besta, se cravando ainda mais fundo. A Grande Fera uiva em dor, se debatendo erráticamente. Pyrrha, ainda segurando com firmeza o cabo da arma, é sacudida pelas convulsões da Grande Fera, até que suas mãos escapam da arma e ela se vê sendo jogada e caindo no chão, rolando pela terra.
Pyrrha ergue o olhar, assustada, sem nem se importar com a dor de ser jogada daquele jeito naquele ponto. A adrenalina que pulsa ferozmente em suas veias nubla qualquer dor. A besta continua se debatendo de dor, seu rosto se contorcendo e se distorcendo em pura agonia. O grito bestial fere os ouvidos de Lamia e Pyrrha mas não tanto quanto dói após ser ouvido, se tornando o grito de milhares de vozes agonizando.
Pyrrha questiona se ela causou aquilo, confusa e descrente de sua força. A Grande Fera leva as mãos à cabeça, em desespero, arranhando um pouco da sua própria pele, vomitando sangue e escuridão em golfadas que afogam os gritos da criatura horrenda. A besta anciã ergue a cabeça, com todos seus olhos encarando o céu. Contemplando a lua, visível novamente. A luz prateada banha o corpo agonizando do Eminente.
Essa luz invade, como se em divina providência, a carne daquele Eminente. Atravessando garganta, esôfagos e o horror abissal daquelas entranhas horrendas. Passando por aquela escuridão intestinal que a tudo consome e a tudo traga, onde os ecos dos sentimentos de cada filho e filha dentro de si ecoa, junto dos restos das consciências póstumas daqueles que chama de filhos, seus descendentes. Passa até mesmo pelos dois caçadores que atuam em serviço da lua, em serviço de perpetuar a caçada e manter ela perpétua em Yharnam. Em prol de uma mãe que ainda lamenta a perda de seu filho. Em prol do Coro da Igreja, obcecado em “ascender”. Ascender, evoluir para um novo estado. Um desejo vindo de Byrgenwerth e carregado de forma perversa dentro da Igreja da Cura.
A luz lunar ruma ainda mais fundo, apenas para encontrar, no fundo daquele cosmo, no horizonte de eventos que a tudo consome, iluminado pelas almas de tantas feras e envolto na escuridão do “nada”, o que um dia já foi um filho maldito de Eminente, concebido sob uma lua vermelha. Apenas uma silhueta que zomba do que já foi e poderia ter sido. E é a isso que a luz prateada enfim toca por fim, tendo encontrado finalmente o que motiva tanta ira, o que permitiu que Laurence, o fundador da Igreja da Cura, pudesse comungar com a presença da Lua.
Ao sentir o toque prateado da luz lunar, aquela silhueta torpe ergue as mãos, como um infante querendo colo. Gargarejando palavras que não consegue proferir. Há sangue em sua boca e em sua garganta. Há eras sem saber proferir palavras tão simples. Sem sequer saber se aquele toque é cheio de ódio ou afeto. Talvez ambos. Na verdade, subitamente começa a fazer um pouco mais de sentido…
Externamente, a Grande Fera ainda está agarrando sua própria cabeça, tentando conter a imensa dor que percorre seu ser. Seu corpo tomba conforme perde forças para se manter de pé, atingindo com o chão com todo seu peso. Os olhos da Grande Fera encontram o olhar assustado de Pyrrha, sua descendente. Em desespero. Tentando comunicar alguma coisa, com aqueles olhos vermelhos como uma bolha de sangue.
Ainda afligida de convulsões causadas pela vida abandonando aquele corpo, a Grande Fera estende uma de suas patas até a garota. Pyrrha apenas engatinha para trás, aos tropeços, tomada por medo. A Grande Fera tenta, novamente, dizer algo. E novamente não consegue. É difícil, mesmo que Pyrrha e Lamia mereçam ouvir aquilo. Merecem saber.
A pata, antes fechada, se abre e deixa cair três pulseiras, grossas, diante dos pés da descendente. São douradas, com inscrições as quais Pyrrha não sabe ler, talvez por todo o horror que sente no momento ou pelo alfabeto ser um que ela jamais viu. Amarrado a uma dessas pulseiras, que poderiam talvez ter sido anéis para a Grande Fera, está o que parece ser sangue cristalizado. Pyrrha já ouviu falar disso, dizem que é algo bastante caro. E ainda assim, aquele cristal vermelho parece diferente, de jeitos a qual Pyrrha não consegue descrever. Uma sensação, um palpite, um sussurro no canto de sua mente. Aquilo não é somente o que parece.
As mãos de Pyrrha, tragadas em curiosidade, não conseguem resistir a pegar aquelas pulseiras. Está curiosa, mas também confusa. Ela ergue o olhar para a Grande Fera, em dúvida do porque lhe foi dado isso. Sua boca abre de modo hesitante, o lábio trêmulo, na ânsia de perguntar o que é aquilo, mas sua atenção é puxada para o horizonte. Luz começa a se infiltrar e a surgir, conforme a escuridão trinca, racha e se desfaz, tal qual gelo se rachando sobre um lago no inverno. Lentamente, a luz avança pelo lugar, levando a noite embora.
A Grande Fera emite um último grunhido, um uivo acovardado, muitíssimo fraco. Engasgando em sangue e em vergonha. O som percorre o ouvido de Pyrrha e reverbera por sua mente, somente então fazendo sentido, se traduzindo:
“Desculpa. Você estava… Vocês estavam certas. Perdão. Me… Nos desculpem.”
Pyrrha, que havia fechado os olhos ao sentir a tradução acontecendo em sua mente, arregala eles, direcionando seu olhar novamente para a Grande Fera. Suas mãos apertam as pulseiras douradas, mas não por medo. Não, algo muito mais difícil de se por em palavras. Suas sobrancelhas, olhos e boca mudando de expressão para expressão, sem conseguir entender o que estava sentindo.
— Lamia. — Sua mente a relembra.
Pyrrha corre até ela de modo desengonçado, se levantando em meio a tropeços, apenas para cair de joelhos de frente para Lamia.
A luz avança mais e mais naquele lugar, levando a escuridão embora. O choro novamente irrompe de Pyrrha, mal saindo lágrimas e apenas gemidos de tristeza e desespero. A pele de Lamia está fria, mas ainda há uma frágil vida residindo naquele corpo. Pyrrha não sabe o que fazer. Suas mãos, instáveis, vasculham seus bolsos por mais frascos de sangue, enquanto sua mente implora para ainda haver tempo para fazer algo. Foi tola. Deveria ter feito algo melhor antes, deveria. Seu olhar encara a ferida no corpo de Lamia com horror, pois uma parte de sua mente diz que já é tarde demais.
Ela vai perder Lamia também? Já não basta Maria e Johannes? Ela não quer ficar sozinha. Não quer. Isso é cruel, cruel demais. Pyrrha morde o lábio, tentando fazer o choro e os soluços passarem, ficarem mais baixos em meio a vastidão daquele lugar. A luz banha seu rosto, a aquecendo, iluminando-a junto de Lamia, que fracamente abre os olhos e move seus olhos, vagarosamente, até Pyrrha.
Lamia força um sorriso.
— Conseguimos — ela roucamente diz.
Pyrrha tenta responder, mas apenas soluça e irrompe em mais choro. Ela só quer parar de chorar. Sua cabeça já está doendo de tanto chorar. Não quer mais chorar. Não quer. Ela tenta enxugar as lágrimas com suas mãos, esfregando seu rosto. Seus olhos ardem. Pyrrha funga e olha para a Grande Fera, caída. E como papel queimando, seu corpo começa a se desfazer, como se por causa da luz batendo contra seu corpo. E conforme o corpo da Antiga Grande Fera se esvai, o corpo de dois caçadores, caídos, se tornam visíveis. Fracos. Exaustos.
Pyrrha tenta avisar Lamia sobre, tenta verbalizar que Maria e Johannes estão ali, mas não consegue. Sua voz é tomada por alívio e alegria e tudo que sai são murmúrios sem nenhum sentido.
Maria Hazenflug começa a tossir e se levanta um pouco, sentindo seu corpo pesado. Ela olha para Pyrrha. E assim que percebe o cabelo, agora curto, um sorriso carinhoso abre espaço por seu rosto cansado.
— Pyrrha — ela a chama. — Não chore. Sabe… sua vó, apesar de tudo, no fim, estava sorrindo.
Maria desatina a tossir um pouco mais, seu corpo tremendo por tentar se erguer para olhar Pyrrha. Ela deixa seu corpo cair no chão, respirando devagar.
— Ela queria que você fosse para o porto.
A expressão de Pyrrha é tomada de surpresa, com suas sobrancelhas arqueando em surpresa. Ela tenta comemorar, indo falar algo, mas sua fala é sobreposta por soluços e o impulso de querer voltar a chorar, sem saber se por alegria e alívio ou se em luto, afinal, apesar de tudo, ela ainda era sua avó. Mas ela engole esse choro, forçando um sorriso em seu rosto.
— O que achou do corte de cabelo? — ela pergunta.
Maria sorri.
— Bem melhor não acha? — a caçadora pergunta de volta.
Pyrrha solta um riso choroso e Maria se vira, ficando deitada com as costas contra o chão. Encarando o céu, que voltou a ser claro. Eles conseguiram. Um riso de alívio e cansaço escapa de sua boca, com seu corpo todo finalmente aliviando a tensão dos músculos.
Maria traz sua mão até a frente de seu rosto e observa os dois frascos onde coletou o sangue da Grande Fera. A cura de seu irmão está há um passo de ser obtida. Ela os traz até seu peito, como se os abraçasse. A dor em seu braço decepado casualmente passa a ser um problema, se tornando gritante conforme a adrenalina em seu corpo se esvai. Ela geme de dor.
Ouvindo a lamúria de dor, o corpo de Johannes pesadamente se ergue do chão. Ele rasteja até Maria e aplica um frasco de sangue nela. Maria solta um “ai”, pela dor da agulha adentrando seu corpo.
— Era um dos últimos — ele diz, ofegante, com olhos cerrados, ainda se habituando com a luz do lugar.
— Você deveria ter usado então — ela retruca. — Exagerou no quanto de si colocou naquele…
Ela faz uma pausa para engolir saliva.
— Naquele último golpe.
— Não sou eu que jaz sem um braço — Johannes pontua.
Um odor é percebido pelo olfato de Johannes. Ele se volta para Pyrrha, mas antes de perceber ela, ele percebeu Lamia. Seu rosto se enche de medo e pavor, ao ver o estado dela. Johannes sequer percebe quando seu corpo começa a se puxar na direção delas.
— Pyrrha — ele chama, se arrastando até elas, sujando suas roupas de terra. — Como ela está?
Pyrrha morde o lábio, apreensiva. Seu olhar vai para Lamia, que respira devagar e pesadamente. Está ternamente segurando sua mão, acariciando-a, buscando tranquilizá-la. Johannes finalmente chega até as duas, ficando ao lado de Lamia, e deixa a gravidade deitá-lo no chão.
— Ei. Lamia — ele diz, ofegante.
Pyrrha ajuda ela a virar a cabeça na direção do caçador.
— Oi — ela diz, a voz baixíssima. — Que bom… Que você conseguiu.
O ato de sorrir parece ser exaustivo para Lamia, e ainda assim ela o faz. Sente um alívio no peito. Pyrrha não está sozinha. Eles conseguiram.
Johannes procura em seus bolsos. Tem somente mais dois frascos. Está surpreso que ainda tenha isso tudo depois de duas lutas tão intensas, em sequência. Está cansado.
— Eu tentei fazer um curativo, senhor Johannes, eu tentei — Pyrrha choraminga. — Eu dei pra ela meu último frasco de sangue, mas eu não sei o que fazer.
O ar adentra o corpo do caçador, como lenha sendo jogado numa caldeira. Ele junta forças dentro de si. Precisa fazer algo. Ele consegue se sentar, seu corpo parece feito de engrenagens enferrujadas e sem óleo. Sente cada movimento que faz ser pesado e vagaroso. Ele olha a ferida, um corte fundo causado pela Grande Fera. Não tem muito que Johannes, com o que tem ali, possa fazer para melhorar o curativo.
Seus olhos se fecham por um momento, que parecem eternidades no escuro de sua mente. Suas mãos trazem o frasco de sangue até a coxa de Lamia. Seu coração quer fazer uma prece aos deuses, mas sua mente freia seu coração. Não são os deuses que podem ajudá-lo. Eles provavelmente sequer querem. Sequer se importam. Tudo que Johannes precisa está ali. Pyrrha, Maria e Lamia, junto de sua convicção e força de vontade.
Johannes sente um toque em seu rosto. Ele abre os olhos e é a mão de Lamia que o toca, carinhosamente.
— Não precisa — ela diz, com dificuldade. — Tarde demais.
Johannes nega com a cabeça, veementemente.
— Não diga asneiras. — Ele bufa e tenta aplicar o sangue.
Lamia consegue segurar a seringa com sua outra mão. Seus olhos brilham pelas lágrimas que se acumulam enquanto tomam coragem de verter pelo seu rosto. Com seu dedão, ela acaricia o rosto de Johannes.
— Queria poder ter… — Ela faz uma pausa, tendo dificuldade em falar. — Ter te conhecido antes.
— Ei, não diga besteiras! — ele retruca. — Deixe eu aplicar o sangue logo.
Lamia move a cabeça negativamente.
— O destino é cruel… Se pelo menos nós pudéssemos ter se conhecido de outro jeito. — Ela faz uma longa pausa. — Antes. Antes disso.
Johannes tenta falar algo, mas acaba gaguejando. Sua voz lhe abandona e ele aproveita o momento de distração para tentar aplicar o sangue, e dessa vez ele consegue.
— Respire devagar. Vai ficar tudo bem — ele fala.
Maria tenta ir até eles, se apressando. Está sem frascos. Não sabe nem se pode ajudar em algo. Ela se senta e começa a tentar se levantar. Não quer se arrastar no chão igual Johannes fez. O frasco que Johannes aplicou em Lamia rola até Maria, que ergue o olhar.
Um soluço que emerge em pavor sai da boca de Johannes. Lágrimas vertem pelos seus olhos. A ferida de Lamia não está melhorando.
— Deveria ter usado em você — Lamia resmunga, fracamente. — Imbecil.
— Vamos dar um jeito — ele retruca.
Johannes sabe que não pode dar do seu próprio sangue. Já perdeu muito sangue, ao ceder boa parte para empoderar sua roda. Poderia acabar morrer e nem ser o suficiente para tratar de Lamia.
— Podemos transferir o meu para ela — Maria, logo atrás de Johannes, sugere.
Lamia nega com a cabeça. Os três começam a discutir. O cansaço, a exaustão, transborda a voz e argumentos de cada um deles. Todos exaustos em qualquer instância possível, mas se negando a se dar por vencidos.
Pyrrha se vê perdida, encarando o que a Grande Fera havia deixado com ela. O que deveria fazer com aquilo?
“Um pedido de desculpas?”, ela se pergunta.
Um vento agita seus cabelos, assobiando conforme passa por ela. Seu olhar e seu rosto vagarosamente se erguem, ganhando um brilho. E conforme ela o faz, de repente ela entende o que são aquelas coisas. Entende para que elas servem. Seu olhar se estende para muito além de seus três companheiros e fita aquela paisagem florida em tons pastéis vivos e claros. Cheios de vida, apesar da destruição, dos ecos da batalha que houve ali.
Ela enverga seu corpo na direção de Lamia, sua mão contendo o cristal rubro que veio junto de uma das pulseiras.
— Pyrrha? — Maria indaga.
Lamia arqueia as sobrancelhas e não tem forças para impedir que a garota coloque aquele cristal em sua boca.
— Engula — Pyrrha pede.
Lamia tenta protestar mas Pyrrha segura sua boca, impedindo que cuspisse para fora.
— Pyrrha — Johannes chama, assustada.
O olhar da garota é um tanto vazio, perdido. Talvez fosse o cansaço. Talvez determinação. Lamia acaba engolindo o que havia em sua boca, apenas para se encolher em dor.
— Pyrrha? — Johannes chama, novamente, dessa vez ainda mais assustado.
— Confie em mim — Pyrrha pede, olhando-o nos olhos.
Lamia continua gemendo de dor, encolhida.
— O que você fez? — Maria questiona, sem saber para quem olhar.
— Sangue. Cristalizado — ela explica. — Vai curar ela.
— E da onde você tirou isso? — Johannes pergunta.
— A Grande Fera deixou comigo. Antes de morrer. Ela… Ela pediu desculpas.
A preocupação no olhar de Johannes duplica. Duas vezes. A mão de Lamia agarra seu pulso e sua atenção se volta para ela. Preocupado. Com medo. Sente o medo crescer em seu peito, amargurando-o e espelhando uma sensação de frio dentro de sua barriga. Maria e Pyrrha debatendo se deveriam confiar nos presentes de um Eminente se torna algo abafado. Distante. Toda a atenção de Johannes, todo seu ser, se focam em Lamia.
Seus olhares se conectam.
— Vai ficar tudo bem — ele sussurra, acariciando o rosto dela.
O brilho de um sorriso, envolto em agonia, surge nos olhos de Lamia. Ele volta o olhar para a ferida de Lamia e… Está se curando! A dor provém de músculos e órgãos se refazendo.
— Eu falei! — Pyrrha aponta, em um riso de puro alívio.
A dor cessa, assim que a ferida termina de se curar, deixando uma grossa cicatriz. Alívio invade os corpos dos outros, com Lamia respirando ofegantemente, um tanto febril.
E o alívio de Lamia estar finalmente fora de uma situação de vida ou morte, com a ferida finalmente fechada, faz o cansaço finalmente cobrar seu preço. Os quatro se deitam no gramado onde estão, encarando o céu.
— E o que as pulseiras fazem? — Maria pergunta.
A resposta demora para chegar, com Pyrrha formulando-a por um bom tempo. Ela passa os dedos pela pulseira em seu pulso.
— Param a transformação. Contém ela.
— Lamia ganha dois e você um? — Maria pergunta, rindo irônica.
— Isso — Pyrrha, calmamente, responde.
— Olha só.
O tempo passa, com eles ainda recuperando suas forças. Exaustos demais para sequer tentar fazer outra coisa. O tempo parece não passar, ainda está tão claro quanto estava antes. Johannes resolveu permanecer em silêncio, sua garganta cansada demais. Ele fecha os olhos, devido a claridade. E na escuridão de seus pensamentos ecoa: alívio. Um grande e revigorante alívio. Não sabe se ter matado a Grande Fera traria fim ao flagelo que assola Yharnam, mas trouxe um fim ao flagelo que assolava ele. Suas dúvidas. Suas dores. Seus medos.
Quando finalmente consegue forças para se levantar, a primeira coisa que faz é limpar e fazer um curativo decente em Maria. Ela aceita, tendo que lidar com a dor do toco sensível. Ele se desculpa a cada “ai” e outras reclamações de dor vindas do tratamento.
— Imprudente até o fim — ele resmunga, olhando o coto.
Maria ri.
— Você tem olhos bonitos — ela diz, o encarando.
Johannes desvia o olhar, tentando ocultar a timidez em um mau humor falso. Maria ri disso, e os dois caçadores sentem o abraço de Pyrrha envolver os dois. Lamia se mantém deitada, sorrindo ao ver a cena dos três.
— Obrigada — Pyrrha diz.
O ar escapa da boca da garota e um choro de alívio irrompe. Um choro alegre.
— Obrigada! — ela repete, com mais alegria.
Eles se levantam, e juntos, mancam até as ruínas da igreja. Maria passa por seu braço, retalhado, além da possibilidade de poder reatar ao coto. Ela encontra seu machado e o coloca nas costas.
Antes de irem embora daquele lugar, através de uma estranha lanterna presa ao chão, Pyrrha tem a certeza de ouvir uma última voz, presa nos sussurros de uma brisa calorosa e refrescante de um lugar sem vida. Ela fecha os olhos, sentindo o vento agraciar seu rosto, lhe passando uma certa sensação de paz. Talvez tenha projetado a voz, alguma parte de seu coração querendo ouvir aquilo, mas depois de tudo que passou, não tem porque duvidar que, em meio a sua partida, ouviu a voz de sua avó dizer, em meio ao uivo das correntes de ar:
“Onde quer que vá, Pyrrha, saiba que amamos você. Boa sorte”
Um sorriso de emoções complexas surge no rosto da garota. Alegria. Tristeza. Amargor. Convicção. Vê seu capuz vermelho, que recebeu de sua mãe de um jeito tão carinhoso. A lembrança vem com um gosto amargo na boca. E Pyrrha cogita em ir buscá-lo, apesar de tudo, durante boa parte da viagem, sentir a textura dele ou seu peso ao redor de seu corpo lhe trouxe certa paz.
Mas ela não é mais aquela Pyrrha. Ela sabe o que aquele capuz é. Um véu. E Pyrrha não é mais uma noiva e tampouco quer estar ligada aos ritos e cerimônias bestiais da Vila Edda.
O capuz vai ficar ali. E ela irá para o porto. E de lá, só o tempo dirá para onde vai ir em seguida. E talvez essas rotas e escolhas se provem, algum dia, erradas. Se provém frutos, de fato, de uma rebeldia tola. Talvez fossem decisões erradas...
“Talvez seja uma má decisão” Pyrrha Perrault pensa. “Mas cabe a mim fazê-la.”
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