Comentários em “Declínio Das Trevas”: “Baphomet”

slytherina
Uma vez tive que mexer em um cadáver de um parente, e me senti meio suja, como se fosse moralmente errado tocar no corpo sem vida de um ser humano, como uma profanação (tentei fechar a boca do cadáver que abriu no velório). Entendo a relutância de Daniel em tocar no animal. Não é tão somente medo, mas também sentimento de profanação de algo sagrado (no caso tirar a vida do animal).
A forma como o barão influencia Daniel, sutil e calmamente, como um sussurro, me lembra alguns filmes de satanismo, como "o bebê de rosemary", ou "11-11-11". Aparentemente, um enviado do diabo está aprisionando Daniel em uma ratoeira.
Então Daniel sente culpa pela morte de seus colegas? O remorso o corrói e fortalece sua sombra. As coisas fazem sentido.
A figura de baphomet me lembra uma criança torturada. Uma vítima. Causa horror, mas também pena e culpa, por saber que fizeram isso a uma criança.
Estive lendo esta semana, a um livro sobre o fenômeno "Harry Potter". Estou num capítulo que aborda a guerra santa movida por cristãos fundamentalistas. São todos fanáticos, mas eu não deixo de pensar que a saga de Rowling aborda bruxaria e cultura pagã. E o culto a demônios fazia parte de algumas culturas pagãs. Se por um lado podemos abordar esse assunto friamente, sem permitir que abale nossas crenças religiosas mais íntimas, o mesmo não acontece com crianças, que ainda não sabem nada, nem têm certeza de nada, como Daniel diante de um demônio torturado, e amparado por um torturador sádico, em um jardim de sangue. Nesse ponto, talvez os fundamentalistas tivessem razão.
"Aquilo é o reflexo da alma que o conjura, é seu avatar e servo. É o que vive na imagem que vê ao olhar em um espelho". Essa frase tem algo de psicanalítico. Gostei dela. Revela muito sobre Daniel.
Muito boa fanfic. Parabéns! :-)

AHB
AHB Autor

É, cadáveres tem algo de estranho, acho que talvez por lembrar aos vivos que estarão mortos um dia, não sei. Tipo a placa do cemitério de Paraíbuna: "nós que aqui estamos por vós esperamos" - Acho que em toda minha vida fui em doi funerais, um era do pai de uma conhecida de uma parente e o outro era o da minha avó (eu não estava exatamente triste, porque minha avó estava muito doente, então...) e foi um pouco trash, porque uma prima muito velhinha estava revoltada que a ex-mulher do meu tio tivesse aparecido lá, aí depois apareceu a polícia atrás da enfermeira da minha avó, porque a filha dela havia sido presa. Aí eu falei que era a polícia atrás da atual esposa do meu tio, por ser suspeita de apoiar a máfia italiana (não que isso seja verdade, é porque ela se considera italiana e isso lembra o filme do chefão), em fim...

Ah, esses filmes sobre o filho de satã são ótimos. haha eu sempre fico revoltada com a lerdeza dos personagens em perceber que algo está errado. Fiquei com vontade de entrar pela tela e dar umas sacudidas na Rosemary pra ver se ela tomava coragem e fugia de casa. Achei que o filme tinha uma metáfora forte sobre esposas submissas da década de 1950.

Bom, como historiadora não diria que religiões pagãs adoravam demônios, esses que na verdade foram invenções da Inquisição durante o processo de homegenização religiosa da europa. O próprio Baphomet foi inventado para acusar os templários de heresia. Posteriormente, do século XVII em diante, crenças espiritualistas e new-age que baseavam-se na mitologia cristã com alguns elementos orientais começaram a ganhar popularidade alimentadas por crenças "inventadas", por exemplo, o ocultismo dos alquimistas (que logo foi substituido pela ciência moderna) ou o satanismo de Aleister Crowley, entre outras crenças que hoje em dia alimentam o imaginário popular sobre o que é bruxaria, satanismo, etc. Acho que é bem revelador o fato que ao pensarmos em "diabo" ou surge um Pã ou o Al Pacino em um terno galante respondendo que "[os advogados] estão por todo o mundo."

Diria que o paganismo da europa central, em geral, tinha a ver com religiões matriarcais e ligadas ao ciclo da colheita (algo que a a religião wicca resgata bastante, embora seja realmente uma visão contemporânea sobre os povos saxões), enquanto as religiões mediterrâneas costumavam adorar deuses masculinos e solares, como o Ba'al, que era uma divindade do Sol muito popular no norte da áfrica e, hoje em dia, é visto como o nome de um demônio (assim como marduk, que era um deus da babilônia),

Sobre Harry Potter, diria que sou obviamente suspeita, pois sou fã da série desde os 11 anos e lembro que no colegial eu tinha uma amiga evangélica (na época eu me descrevia como "sem religião" e não achava que era algo que podia causar desentendimento entre as pessoas) e eu realmente gostava muito dela, até que um dia ela trouxe um livro fundamentalista falando que HP era satânico. O negócio é que ela não queria que eu visse o livro, embora ficasse lendo ele na minha frente. Aí eu roubei o livro da mochila dela no intervalo e comecei a ler, mas ela me encontrou no flagra e acabamos brigando. Em geral diria que acho que as critícas dos fundamentalistas são muito infundadas. Primeiro porque HP é para crianças mais velhas, segundo que acho que os pais deveriam saber ensinar os filhos a separar realidade, ou do que eles acham que é realidade, de fantasia. Terceiro porque me parece um bocado hipócrita que ao mesmo tempo que HP é atacado veementemente, ninguém se incomoda com Narnia (essa minha amiga mesmo, era fã de Narnia e Senhor dos Anéis), que embora possua uma mensagem religiosa, é um livro de fantasia, com magia, animais que falam, bruxas, faunos, etc. - Acho que muitas dessas criticas vêm mais é de gente interesseira, querendo usar a fé das pessoas e a fama do livro como maneira de vender seu trabalho.

Isso lembra também quando, no meio da década de noventa, a Globo tentou promover uma cruzada contra RPG e jogadores de RPG, Também comecei a jogar no meio da adolescência e, francamente, em geral diria que é um jogo que só incentiva a criatividade das pessoas e incentiva muitos jovens a lerem e escreverem seus livros de fantasia. Diria que há um certo preconceito, porque RPG, assim como heavy metal, se apropria muito dessas contruções visuais e mitológicas que vem da idade média. Caso do Black Sabbath, que embora tivesse toda aquela imagem satanista na capa de alguns discos e nas lendas ao redor do Ozzy, fazia músicas sobre paz e amor, ficção cientifíca e temas fantásticos.

Então, realmente sou da opinião que as pessoas deveriam tentar levar as coisas menos a sério, inclusive ter mais confiânça que as crianças não são tão tolas assim. Talvez o problema de alguns fundamentalistas seja o medo de dizer aos filhos que fadas não existem e então isso acabar se estendendo a todo o resto do conjunto de crenças, mas inevitavelmente nerds em famílias muito religiosas viram ateus. XD Eu até estudei em escola adventista, não adiantou em nada. (se bem que minha mãe não é exatamente muito religiosa. Acho que ela é jedi e acredita na Força.)

Bom, de volta à fanfic, já que acho que escrevi quase um capítulo novo aqui. X3

Então, o Daniel... bom, ele é sobretudo uma pessoa assustada, ele tem traumas de infância, sente-se culpado por ter fugido da Sombra e tem, evidentemente, um passado sombrio. Isso tudo influência a forma como ele vê e sente essas experiências sobrenaturais. O que me diverte muito na hora de escrever é que realmente sigo uma linha de "suspend disbelief" e isso é legal, ao menos para tentar compreender melhor as pessoas que dizem ter passado por algo assim.

Obrigada mesmo por seguir acompanhando. =)

Realmente estou escrevendo pra vc e pro elfman, já que são os dois fofos leitores fiéis dessa fic.

abraços! ^_^

elfman

Não lê ou tu vai ficar louca e furar os olhos. Ou algo assim.

AHB
AHB Autor

conselho anotado. ;)