Declínio Das Trevas
8 Baphomet
Notas iniciais
Estar no mato serve como justificativa?
-x-
Dessa vez eu estou precavindo minha própria demora para escrever e deixando os capítulos prontos antes de postar!
Daniel aprendeu depressa a preparar o soro com as pétalas de rosa damascena. Após alguns dias, havia obtido um estoque considerável do líquido. Dessa forma, o barão disse a ele que deveriam começar a tratar de outras técnicas laboratoriais.
– Aqui, não tenha medo. – Alexander apertou a mão de Daniel, impedindo que ele vacilasse e soltasse o pequeno bisturi com que deveria dissecar o réptil estirado na bancada. – E só um pouco de sangue, Daniel. A criatura está drogada e morrerá rapidamente.
Alexander queria ensinar ao jovem como extrair a bolsa de veneno desses estranhos lagartos trazidos da África Equatorial. Daniel achou que estava pronto para tentar após ver o barão abrir uma secção cruciforme no abdome do animal e, com um rápido movimento, extrair uma vesícula rodeada por veiazinhas. Porém, no momento em que aproximou a lâmina de sua espécime, sua mão começou a tremer incontrolavelmente e achou que não suportaria ver a criatura aberta por sua própria ação.
– Vamos lá, Daniel. Você já cortou muito pedaços de carne a cada vez que serviu uma porção de assado ao seu prato.
– Mas, isso é diferente! – Daniel reclamou, puxando a mão do toque de Alexander.
– Por que está vivo? – Alexander falou, em um tom que calou o arqueólogo no mesmo instante. – Essas criaturas são tão pouco complexas, Daniel, que mal têm consciência da própria existência.
– Eu sei. – Daniel respondeu, tentando cortar o animal, mas retraindo-se novamente diante de um espasmo involuntário da perna traseira do réptil.
– Você acabou de ver como eu faço isso. Nunca tocou em nenhuma criatura viva, Daniel? Nunca cometeu alguma crueldade quando criança? – Alexander falou, quase soprando as palavras. Daniel encolheu-se contra a cadeira, sentindo uma tensão crescente. Não é possível que ele saiba, não é possível, pensou.
Havia uma pedra cheia de sangue nas mãos pequenas do menino. As crianças que estavam rindo e incentivando o ataque, passaram a gritar. “Isso mesmo, menininha loira. Isso mesmo, filho do sapateiro. Chorem e vejam o sangue. Vejam o sangue!”
Ele ergueu a pedra mais uma vez e, com toda a pouca força de um garoto de dez anos, golpeou o corpo caído no chão.
Um único golpe seco perfurou a pele escamosa e o animal soltou um guincho dolorido antes de morrer. O sangue espirrou em Daniel, sujando toda sua mão.
– Há! – Alexander exclamou. – A primeira vez é sempre um pouco suja, mas não precisa destruir o animal! Vamos, retire a vesícula. Com um pouco de prática, sei que você será melhor que eu.
Daniel ofegou. Vasculhou nas entranhas do cadáver com a ponta do bisturi e os dedos da mão livre. Teve que limpar as tripas que vieram enroscadas na bolsinha de veneno, antes de atirá-la no filtro previamente preparado pelo barão.
– Alexander, quando você soube que... – começou a falar, mas foi interrompido.
– Oh, estava certo que você conseguiria, Daniel. Não era minha intenção pressioná-lo. – o barão comentou casualmente. Não era exatamente a resposta que o arqueólogo estava esperando. – Escute, terei que ausentar-me pelas próximas horas. Você acha que é capaz de separar todas as amostras por sua própria conta? Nos encontramos por volta de meio-dia para almoçarmos. Acredite, esse trabalho vai te deixar morto de fome, ao invés de enojado com a comida.
Antes que Daniel pudesse elaborar uma resposta, o barão deixou o laboratório em passos apressados. De dentro da caixa, uma dezena de lagartos esperava por destino igual ao de seus irmãos.
–§–
Como previsto por Alexander, Daniel flagrou-se colocando mais comida que o habitual em seu prato. O barão havia retornado pontualmente de quaisquer que fossem os negócios que tivesse ido tratar e parecia muito animado e jovial. Pediu para que Daniel contasse sobre sua viagem à Argélia, alegando que era absurdo que não tivesse pedido detalhes de um evento tão importante.
– Foi quando Herbert me convenceu a usar aquela sombrinha. Uma vergonha. – Daniel contou, fazendo o barão rir.
– Seu amigo estava preocupado, Daniel. O sol do deserto pode fazer muito mal para alguém que não está acostumado. Olhe só para você, tão pálido...
– Gostaria que Herbert não tivesse morrido. – Daniel continuou, fingindo não ter notado o último comentário do barão. – Arrependo-me de ter permitido que ele tocasse no orbe.
– Não foi culpa sua, Daniel. Você não fazia ideia que o guardião atacaria qualquer um em seu caminho. Oras, você não fazia ideia que havia um guardião!
– Eu sei, mas... Foi um pouco egoísta da minha parte. Eu voltei sozinho para Londres, querendo mostrar minha descoberta aos professores. Herbert não pode ir porque queria despachar várias caixas com artefatos menores, cacos de vasos e essas coisas e eu não tive paciência para esperar por ele.
– Daniel, na verdade seu amigo sacrificou-se por você, percebe? Ainda que tenha sido sem querer, ele atrasou a Sombra. Da mesma forma, seus professores também ganharam tempo para você.
– Não é um pensamento muito individualista? – Daniel perguntou.
– Não, se você mostrar valor. Se você lutar e sobreviver, poderá eternamente lembrar dos nomes deles e tê-los como heróis. Através de você, a memória desses homens viverá para sempre.
Daniel reconhecia que aquelas palavras eram maniqueístas, porém não hesitou em agarrar-se a elas, pois aliviavam a culpa que corroía seu coração.
– Concordo. – o jovem respondeu, pondo os talheres de lado. – Acho que vou voltar ao trabalho. O soro de amnésia deve estar no ponto para ser recolhido.
– Espera, Daniel. Eu vou com você.
Daniel concordou e, em silêncio, os dois homens caminharam juntos através dos corredores frios de Brennenburg. Estavam no imponente saguão de entrada quando o barão interrompeu a caminhada e falou ao jovem:
– Não fique triste por seus amigos, Daniel. Você não teria feito o mesmo por eles?
A resposta afirmativa que imediatamente veio aos lábios morreu antes de ser pronunciada. Daniel encarou o barão com uma expressão horrorizada.
– Eu... ah...!
– Não tenha vergonha de sua reação. – Alexander disse. – É um destino terrível, ficar acorrentado nas trevas para sempre e é compreensível que existam poucos homens capazes de marchar de bom grado aos braços da Sombra. Você foi muito corajoso ao vir até aqui, quando poderia ter desistido de lutar por sua vida muito antes.
Daniel suspirou.
– Sinto falta da faculdade. – disse, por fim.
Alexander concordou e respondeu que ele também sentia falta de muitas coisas. Daniel notou que o barão contemplava tristemente a bizarra fonte no centro do saguão.
– Alexander, o que essa fonte representa?
– Ah, você reparou nela? – ele disse, como se a escultura fosse algo possível de não ser percebido. – Nada demais, nada demais. Ela está incompleta, na verdade, era um presente para uma senhora.
– Oh! – Daniel surpreendeu-se. De fato, era notável que Brennenburg não possuísse uma baronesa.
Alexander agarrou o braço de Daniel.
– Venha comigo, quero mostrar-lhe algo.
Sentindo-se quase uma criança pela forma como o barão o guiava pela mão, Daniel o acompanhou por uma série de corredores labirínticos, até uma porta de metal decorada com temas florais que o arqueólogo ainda não tinha visto. Alexander retirou uma chave igualmente trabalhada do cinto e destrancou a fechadura.
– Entre você primeiro, Daniel!
Era uma espécie de jardim fechado. Tratava-se de um pátio circular a céu aberto, encerrado por trás de um muro alto que o escondia do mundo exterior. Era um lugar abafado e Daniel teve a impressão de que sua visão havia sido tingida de vermelho, pois vidros dessa cor haviam sido usados como telhas decorativas e, em meio ao cascalho estéril que cobria o chão, haviam canteiros de perfumadas rosas ornamentais. Elas eram também vivamente vermelhas e cresciam como tumores de seus caules secos e marrons.
– Rosas. – disse Daniel. – Por que não planta aqui as damascenas, ao invés de importá-las da Arábia?
– Nada além destas flores vermelhas brotam nesse solo, Daniel. Além disso as damascenas não suportariam o clima prussiano.
– Oh, certo! E essa flores possuem alguma propriedade?
Alexander fechou os olhos por alguns segundos, parecendo devanear. Suspirou e então voltou-se para Daniel.
– Há muito tempo, uma dama dedicou sua vida a esse jardim. Ela trabalhou com tanto empenho e paixão que este solo tornou-se sagrado e as rosas permaneceram vivas, ainda que ela tenha partido dessa dimensão, levando consigo toda fertilidade desse lugar.
Daniel andou um pouco pelo pátio. Era estranho, como a maioria das coisas em Brennenburg. Ao mesmo tempo que causava-lhe uma sensação de acolhimento, havia algo bruto e opressivo na aparência daquele jardim. Sentiu a mão de Alexander fechar-se em seu ombro.
– Veja isso. – ele murmurou e apontou um marco circular de granito polido, com pouco mais que dois pés de diâmetro. Em sua superfície escura, havia sido traçado um pentagrama, disposto de forma que apontasse para o Norte do jardim.
– O que é? – Daniel perguntou, sentindo as pálpebras pesarem. Começava a ser afetado pelo perfume excessivamente adocicado das rosas.
– Trata-se de um poderoso círculo mágico, meu aprendiz. Instalei aqui quando compreendi o que o jardim havia se tornado. – Alexander falou. – Você lembra de nossa audiência algumas noites atrás sobre esse tema?
– Sim, lembro perfeitamente. – Daniel falou, ajoelhando-se para examinar melhor a peça. Deslizou a palma da mão sobre ela, verificando que era fria e lisa. Aproveitou também para limpar as pétalas murchas que cobriam parte do desenho. Seu coração apertou de repente e puxou a mão para trás quando notou que, no interior do pentagrama, havia uma figura caprina, com enormes chifres em forma de cornucópias.
Sentiu Alexander aproximar-se e ouviu a voz dele em um tom aveludado, próxima de seu ouvido:
– Lembra do que falei, Daniel. Não deixe que medos infantis prejudiquem seu aprendizado. Você já viu a face da morte, homem! Não creio que deveria temer o símbolo do conhecimento oculto apenas porque teus sacerdotes ignorantes disseram.
Daniel fechou os olhos, tentando concentrar-se nessa lição. Era verdade, havia passado por situações realmente aterrorizantes. Não era justo permitir que seus preconceitos obscurecessem uma experiência que de forma alguma era má.
– Por que não experimenta entrar em contato com o poder do círculo, aprendiz? –Alexander disse, adivinhando que o jovem apenas esperava por uma permissão. – Ele pode mostrar muitas coisas a você.
O jovem assentiu e aprumou a postura, abrindo os braços da maneira que havia lido em um livro emprestado por Alexander. Sentiu o barão afastar-se, indo andar ao redor do jovem e do círculo. Procurou focar a mente. Parte de si sentiu vontade de rir nervosamente daquilo e dizer que era tudo uma grande bobeira, porém ansiava por ver o que aconteceria a seguir. Colocou as mãos em frente ao círculo, como se estivesse oferecendo algo. Ouviu a própria voz, a principio trêmula, mas mais confiante conforme tornava a repetir a frase de conjuração.
Distraiu-se brevemente, achando que nada aconteceria. Tentou pronunciar a chave com mais empenho, até que sua voz encobrisse cada estalo de passos e assobio da brisa suave.
Sentiu um formigamento nas pontas dos dedos, que gradualmente começou a espalhar pelo corpo retesado. Pouco a pouco, perdia o controle sobre o foco mental, induzido ao transe. Não sabia mais se ainda estava repetindo a conjuração, ou mesmo se ainda estava em um plano físico, embora ainda percebesse a vermelhidão do jardim por trás das pálpebras cerradas.
De repente, uma voz baixa e andrógina soprou palavras trazidas pelo vento:
– Sacerdote, sacerdote, deixa-me entrar nesse círculo?
– Sim.
– Deixa-me ver tua alma, sacerdote?
– Sim!
– Então, olha para mim.
Um grito de horror escapou da garganta de Daniel e uma súbita ânsia tomou seu corpo. Caiu com as costas no chão arenoso, lágrimas fugindo de seus olhos diante da aparência abjeta da figura que havia surgido diante de si, bem no centro do círculo. Era humanoide, quase da altura de uma criança. Porém, sua pele estava completamente queimada e apodrecida, infectada por vermes. Não possuía olhos e pelas órbitas vazias escorria o pus mais asqueroso. De seu crânio partido alongava-se um único chifre quebrado. Produzia um som agonizante, medonho. Esticou os dedos quebrados, com unhas faltando, para tocar a face de Daniel.
O jovem tentou correr, mas foi contido pelo barão.
– Acalme-se Daniel! – Alexander falou com certa rispidez. Daniel havia caído no chão, tremendo e murmurando para que fosse deixado em paz. Alexander abaixou-se ao lado do rapaz e, com um gesto largo, fez a figura retorcida desaparecer. Em seguida, encheu os dedos com os cabelos castanhos e fartos de Daniel, acariciando o jovem até que a respiração dele voltasse ao normal.
– A-aquilo era um demônio? – Daniel perguntou. Levantou devagar, limpando os pedaços de pétalas secas da camisa. Esquivou a cabeça do carinho de Alexander, pois aquilo o constrangia muitíssimo.
O barão riu do olhar assustado do outro.
– Não achei que acreditasse em demônios, jovem arqueólogo. – Alexander falou, dando especial ênfase na última palavra.
– Diga-me mestre, o que era aquilo que invoquei? – Daniel insistiu.
– Aquilo é o reflexo da alma que o conjura, é seu avatar e servo. É o que vive na imagem que vê ao olhar em um espelho.
Daniel ofegou, então sua expressão amedrontada transformou-se em mau humor.
– Minha alma é essa coisa vil e suja, então?
Alexander suspirou e afastou-se de Daniel. Andou calmamente através do jardim estéril.
– Não conheço sua alma, nem seus segredos, Daniel. – ele disse. – Eu penso que essa invocação mostra um reflexo alterado por seus temores, crenças e desejos. Aquele ser é quem você teme tornar-se.
Daniel engasgou.
– Isso não é motivo para preocupação. – o barão continuou. – Minha opinião é que sua alma é bela como as rosas sagradas desse jardim.
– Obrigado, Alexander. – Daniel disse finalmente, sentindo que estava muito cansado.
– Vá descansar, Daniel. Durma um pouco, pesadelos não te afetarão.
– Mas, eu tenho que terminar...
– Não tem problema, eu termino para você.
Daniel agradeceu novamente e aceitou um abraço cortês de despedida. Deixou o jardim, sem notar que Alexander havia retomado a caminhada por entre as roseiras. Um sorriso enviesado brincava nos lábios do homem, pois havia acabado de ferir um dedo nos espinhos de uma rosa. A gota vermelha caiu no cascalho, indo fazer companhia às pétalas mortas, outrora rubras do mesmo tom sanguíneo.
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