Énas Állos Kósmos
2 Capítulo 2 - A Descoberta [Parte II]
Notas iniciais
http://musica.culturamix.com/blog/wp-content/gallery/flauta-de-bambu/flauta-de-bambu-1.jpg
Enrique prestava completa atenção na mãe, aguardando que ela começasse a falar, mas ela parecia perdida, sem saber o que dizer, nem como explicar.
– Se me permite, Sra. Starling, eu posso explicar ao Enrique sobre isso tudo.
A mulher olhou aliviada para Nicholas.
– Pode deixar que eu sei explicar bem... – ele disse e se sentou no sofá, a frente de Enrique que já se encontrava impaciente – bem, Rick, o caso é que... – ele pareceu se perder, mas logo sua expressão se iluminou – ah! Sabe a fada no seu quarto agora?
– Sei.
– Sabe o duende da semana passada?
– Sei.
– Sabe aquele gnomo de passo engraçadinho que viu no parque há três dias?
– Sei!
– Então, todos eles existem. Isso é o básico – ele pareceu esperar a reação de Enrique, que foi apenas um sorriso de contentamento, ele parecia contente em saber que não era um perfeito maluco – mas existem muitas coisas a se entender Enrique. Como, por exemplo, como eles co-existem com os humanos e como apenas nós podemos vê-los.
– Apenas nós? – ele deu ênfase na segunda palavra, dando entender que se referia aos quatro ali presentes.
– Ah! Não. Não nós quatro aqui, nós Herdeiros.
– Herdeiros seria quem consegue ver essas coisinhas?
– Vejam só! Você não é tão lerdo, Rick – disse o amigo, dando um sorriso de deboche.
– Engraçadinho – Enrique deu um risinho sem graça, para irritar o amigo – bem... estranho isso, muito, muito estranho.
A expressão do garoto ficou confusa, extremamente confusa, como era de esperar e o pai dele pareceu ficar mais nervoso.
– Por que não me contaram dessa loucura antes?
– Seu pai não queria, tinha medo que se revoltasse – a mãe dele respondeu e depois completou, em um tom quase receoso – e que desejasse que nossas tripas fossem devoradas pelos orcs verdes assassinos enquanto queimássemos em fogo violeta.
Enrique se levantou bruscamente e correu até a escada.
– Pois ele estava certo! – e subiu a passos rápidos para o segundo andar.
Nenhum dos três deve tempo de detê-lo e ele se trancou no quarto.
– Eu vou subir! – disse a mulher.
– Não, espera ele absorver isso tudo, ele se acostuma – disse Nicholas.
– Mas eu avisei... – disse Marcos, frustrado.
Enquanto isso Enrique se jogava na cama, rindo.
– Eles acham que eu acreditei nisso... fadas, duendes, gnomos. Isso não existe, foi tudo coisa da minha imaginação e eles estavam querendo gozar da minha cara – ele se deitou de barriga pra cima e seu sorriso diminuiu bruscamente – mas aquela coisa de hoje de manhã me pareceu tão real...
Na janela a “coisa de hoje de manhã” o observava através do vidro transparente preocupada.
~X~
Em ruídos agudos e esganiçados o pequenino ser alado se comunicava com uma mulher de idade avançada, com cerca de sessenta anos. Esta parecia apreensiva.
– Ele não acreditou nos pais Lila?
O serzinho deu um looping no ar e depois se postou novamente defronte o rosto levemente enrugado, soltando um guincho.
– Será que vou ter que mexer nos parafusos mentais dele?
Outro guincho e uma risada da idosa.
– É brincadeira Lila, aquele garotinho é muito cabeça dura, nem se eu destruísse tudo ali dentro e depois recriasse de nada adiantaria. Precisamos conseguir fazer com que ele acredite. Vou chamar os pais dele, vou avisá-los de que irei até lá. Um Herdeiro nunca deve negar sua ascendência privilegiada.
~X~
Enrique já havia trocado de roupa, ele estava usando apenas uma samba-canção e uma blusa regata branca quando desceu e agora já tomara um banho e trocara de roupa, usando uma calça jeans, uma blusa branca e uma jaqueta negra por cima.
Sentando na cama ainda refletia. Por que aquilo não saía de sua cabeça? Já tinha acabado, tinha sido só uma zuação organizada por Nicholas, sem dúvida, e nada mais. Ele ainda pensava nisso quando escutou uma nítida voz feminina em sua mente. Assustou-se muito a princípio. A voz fora claríssima:
“Desça Enrique, precisamos conversar.”
Mas ele não conhecia aquela voz e ficou receoso e apavorado. Como poderia tê-la ouvido? Poderia ser um assassino. Ou poderia não ser ninguém. E se ele realmente estivesse ficando louco? Esquizofrênico, vendo fadas e gnomos e ouvindo vozes que não existem.
“Enrique desça. Agora!”
De novo a voz. Mas por algum motivo estranho ele achava que deveria fazê-lo, mesmo temeroso. Ele abriu a porta vagarosamente e levou um susto ao se deparar com uma sombra branca quadrúpede a frente de sua porta, mas logo notou ser Luna, a gata branca da senhora – louca, diziam pelo bairro – que morava na frente de sua casa. Seu nome era Lillian e a única vez que Enrique a chamou de Sra. Richards, e também uma das únicas que a viu, ela o repreendeu de uma forma até descontraída.
– Me chame de Lillian, meu nome. – ela disse, com um largo sorriso de descontração no rosto.
Com isso Enrique perdeu o temor que alimentava por ela, muito pelo contrário, passou a achá-la uma senhora muito legal, mesmo que quase nunca conversasse com ela. Mas com Luna era diferente. A gatinha saía ao menos uma vez da casa de dois andares, antiga e grande da idosa e ia passear pela rua, não eram poucas as vezes que Enrique cruzava com ela e mais escassas ainda as que ele não a pegava no colo e lhe acariciava o pelo alvo, ouvindo seus ronronados de contentação.
– Oi Luna – a gatinha se aproximou dele e passou o lado de seu corpo por suas pernas e ele a pegou no colo, descendo as escadas, se esquecendo rapidamente da voz e focando no felino – como entrou aqui, hein? – ele indagou, acariciando entre suas orelhas.
Assim que ele chegou ao último degrau se deparou com Nicholas, seus pais e...
– Senh... Dona Lillian? – Enrique indagou, abismado.
– Nem Sra. Richards, nem Dona Lillian, me chame apenas de Lillian – ela deu ênfase no dona e na última vez em que citou seu próprio nome, dando a entender o quanto se sentia incomodada em nomes que a envelheciam.
– Veio aqui só pra buscar a Luna? Não precisava, eu a levava até sua casa, essa gatinha é muito levada, não é Luna? – ele se virou para a gatinha, que fechou os olhos com o afago abaixo do queixo.
– Eu que trouxe a Luna, Enrique. Vim aqui pra conversar com você sobre os Herdeiros.
Enrique fechou o rosto e colocou a gata no chão. Parecia furioso, olhando para seus pais:
– Vão meter a rua toda nessa brincadeira idiota?
– Não é brincadeira Enrique, a Lila tá aí pra provar isso.
– E quem é Lila então? Ah! Pera, me deixaeu adivinhar... uma fada? – era claro seu tom de deboche.
– Sua habilidade de dedução é louvável Enrique. Mas bem, é, a Lila é uma fada. A que estava hoje em seu quarto.
– Contaram para ela daquela borboleta? – ele indagou aos pais, que apenas ergueram os ombros, cautelosos.
– Enrique...
– Calada Lillian! – ele bradou e isso soou de tal forma ofensiva que ele se arrependeu assim que pronunciou a última sílaba – nada disso existe! São todas ilusões! Coisas da minha mente! Agora parem com essas brincadeiras!
O garoto se virou furioso e já ia subir as escadas quando Lillian disse:
– Ilusões não deixam itens físicos – ele continuou, subiu mais um degrau e Lillian disse lentamente — A flauta...
Enrique se virou e parecia realmente curioso:
– Como assim?
– Aos sete anos você estava em um acampamento da escola e se perdeu na floresta quando viu um coelho branco e negro passando por você, o seguiu, curioso. Quando chegou a uma clareira se deparou com uma grande pedra cinzenta no centro desta e em cima dela estava um ser muito semelhante a um humano, mas trajando roupas estranhas e simplórias, cabelo longo e louro-acizentado, olhos verdes e, acima de tudo, orelhas pontudas. Ele tocava um flauta-de-pã e trazia o coelho preto e branco em seu colo – Enrique parecia pasmo, como ela diria no final disso, ele não chegara a contar nada disso a ninguém – ele sorriu para você Enrique e você se aproximou, ele te convidou, com um leve sotaque no ‘s’, para se sentar perto dele e você o ouviu cantar durante longos minutos, pasmo. E então te chamaram, estavam te procurando a horas, mas você nem notara. O ser pareceu assustado e te estendeu a flauta, disse ser um presente e que você o guardasse com carinho, por ele, pelo coelho. Você assentiu e a guardou. A tem escondida em um baú de madeira cheio de brinquedos até hoje. Você nunca chegou a contar essa história nem mostrar a flauta a absolutamente ninguém.
– Como as-- – mas Lillian interrompeu o garoto.
– E o punhal do gnomo no parque há três dias – ela olhou para Nicholas, que sorriu – ele se aproximou de você, de uma forma engraçada e sorridente, te estendeu um punhal quase que todo de prata e disse ‘Para se proteger, existem muitos trolls por aí... Herdeiro. ’. Você gostou do item, pensou em vendê-lo, mas o achou tão bonito que o guardou junto com a flauta, um belo item a se admirar. Você não sabia, mas o Nicholas tinha consciência de que você o tinha, se deparou com o Gnomo e este contou para ele sobre o presente. Em nenhum destes momentos você estranhou a presença deste seres, por que estranhar agora? Mas eu não sei disso por seus pais ou por Nicholas, sei graças aos me-- – mas ela foi interrompida por um barulho brusco do lado de fora.
– Por todas as fadas escandinavas! – era a primeira vez que Enrique ouvia sua mãe dizer essa expressão, mas era óbvia sua surpresa.
– Quem é? – perguntou Lillian, mas não a quem estava do lado de fora, perguntou a Susana.
– Um Ogro Lillian.
– Veio me pegar.
– Quem vai querer uma idosa? – perguntou Enrique.
– Uma idosa não Rick, uma Psicobélica.
– Psicodélica?
– Bélica, Rick, Psicobélica. Veja e se impressione.
De repente a porta caiu e um ser horroroso, levemente verde, da cara achatada e com dentes quebrados apareceu pelo vão que se formou após a queda.
Lillian correu até a rua estendeu as mãos pra frente, ela estava de costas para Enrique e ele riu, como se debochasse da aparente loucura de Lillian, mas de repente o bicho levou as mãos gigantes à cabeça e a pressionou, urrou e depois caiu.
– Pronto! – ela disse, sorrindo.
– O que foi isso? – perguntou Rick.
– Um ogro. E uma Herdeira – disse Nicholas, cruzando os braços – aliás, este é o próximo passo a entender, as qualidades únicas dos Herdeiros.
Notas finais
Valew!
Fale com o autor