Ángel

1 Soy el jefe al fin y al cabo


Notas iniciais
Ciao, personas felices =D Nem ia postar hoje, mas tô feliz com a vitória do Barça então vou postar e.e Enfim, hm, vocês verão muitas palavras em italiano e espanhol nesta fic. Acho que não comprometem a compreensão, porque a maior parte das em italiano são xingamentos e as frases em espanhol são fáceis. De qualquer modo, tudo está traduzido no fim -q E... acho que o Romano [no mangá também, não só na minha fic] tem distúrbio do déficit de atenção, reflita. O Spain é autista mesmo... -q E... Spain/France me dá alergia :# E... esta fic tinha como base a Guerra da Sucessão Espanhola... mas tava ficando estranha, então eu deixei essa ideia pra lá -Q E... era uma oneshot, mas ficou meio grande, acho, então dividi em duas. E... eu vou pedir logo no começo, se ler, COMENTE! E... carai, eu falo muito! Tá, parei. Leia! >_< -q

Um pequeno italiano andou deliberadamente pela ampla cozinha da casa de Antonio Carriedo e pegou na fruteira um tomate que ele mesmo havia colhido. Era bom, realmente muito bom, tanto que chagava dar raiva. Como algo poderia ser tão bom assim? Mordeu a fruta com ímpeto, entretido no ato, alheio ao fato de que mais parecia que um vendaval havia passado pelo aposento. O nome de tal fenômeno? Furacão Lovino. Olhou em volta, displicente, então sua atenção parou em um monte de qualquer coisa chamuscada dentro de uma grande frigideira sobre o forno. Bufou, irritado com aquela paella maldita que teimava em não dar certo e queimava apenas para irritar o italiano. Quem precisa de uma paella horrorosa? Aquele Antonio pode se virar muito bem com uma Caponata e pronto. Já tá é ficando gordo de tanto comer, esse espanhol estúpido..., era o que pensava, quando ouviu uma risada alta, irritante e cheia de frescura vinda do corredor. Não era de Antonio, com certeza, então quem estaria com aquele maldito fazendo tanta algazarra logo cedo?

O jovem aproximou-se da porta, vendo cabelos muito loiros e relativamente compridos que pertenciam a um rapaz sentado ao lado de seu patrão. Perto demais. Ele era o responsável pelo barulho, mas agora Antonio endossava, rindo com gosto de alguma idiotice qualquer. Lovino sentiu uma veia pulsar em sua têmpora ao reconhecer o outro de visitas anteriores – apesar de nunca ter prestado atenção em seu nome, sabia que estava sempre por ali com um albino retardado e também barulhento – , e seu estômago começou a doer ao ver como ele estava praticamente em cima do espanhol e sua perna roçava na dele, intimamente demais para deixar de ser consciente ou proposital. Nojentamente próximo.

– Vão pro quarto, idiotas. – resmungou automaticamente, atraindo a atenção dos dois para si, enquanto ainda mastigava displicentemente seu tomate.

Hola, Lovino. – cumprimentou o jovem espanhol ao avistá-lo na porta, ignorando seu comentário, como sempre fazia quando o xingava.

O outro virou para ver Lovino e o italiano se conteve para não se encolher. Era a mesma aparência de boêmio de sempre – cabelos meio compridos, barba por fazer, até mesmo as roupas davam essa impressão. Lembrava-se de ter passado por situações estranhas com ele, odiava todo aquele interesse que ele demonstrava e como ele pareceu muito suspeito nas poucas ocasiões em que ficaram a sós.

– É aquele seu servo? – disse o imbecil em questão, parecendo feliz por algum motivo. – Como ele cresceu... e continua bonitinho...

– Quem é “bonitinho”, idiota? – retrucou, terminando de comer seu tomate.

Apesar de ter medo do tal francês, desafiar com palavras era fácil se Antonio estivesse ali. Sabia, mesmo irritando-se com isso, que enquanto o espanhol estivesse por perto, estaria seguro.

– “Idiota” é como vírgula pra ele, Francis, não é pra ofender. – disse Antonio em tom de desculpas, fitando o chão.

– Eu podia ensinar modos a ele. – o loiro falou sem tirar os olhos do mais novo.

– Hah, não adianta... eu tentei por anos...

– Ah, você é bonzinho demais, Antonio... – o francês pôs a mão no queixo do espanhol, aproximando-se o rosto do dele, fazendo-o fitar seus olhos azuis, então acariciou sua bochecha com o polegar. – Tem que saber fazer a coisa...

Que merda era aquela? Algo dentro do peito do italiano deu uma pontada dolorosa. Por que aquele espanhol imbecil não evitava aquilo? Por que deixava que aquele ridículo invadisse seu espaço vital daquele modo tão explícito?

– Uma ova que você mandaria em mim, ricchione!

– De que ele me chamou? – o tal amigo de Antonio parecia até divertido com aquela cena toda.

– A-ah... você não vai querer saber, Francis. – o espanhol suspirou, então se virou para o ruivo do outro lado da sala. – Lovino, chega. Vá... vá para o seu quarto. – parecia uma tentativa falha de demonstrar autoridade.

Vaffanculo, pezzo di merda. Você não manda em mim. – resmungou Lovino.

Cazzo, quem ele pensa que é pra falar comigo assim?, pensou o pequeno italiano, mas para a surpresa de seu patrão e sua própria, retirou-se da sala correndo, parando apenas no corredor, fora do alcance das vistas dos dois. Por algum motivo estranho à sua compreensão, não sentiu vontade de discutir. Podia ter a ver com o fato de que estava se sentindo muito incomodado com a proximidade entre o moreno e o loiro no outro cômodo e não queria mais ver aquilo. Managgia, managgia. Por que o maldito tinha que ser tão... idiota? Espiou para dentro da sala, escondido atrás da porta.

– ... ele é como um hermanito menor pra mim. – o espanhol riu, sem graça. – Por isso eu até desisti de tentar mandar nele...

– Irmão mais novo? – ecoou o rapaz francês e Lovino o viu colocar o braço no encosto do sofá, enrolando a ponta dos cabelos nos dedos, mas parecia apenas que ele disfarçava porque estava realmente MUITO em cima de Antonio. – Ele é seu subordinado.

– É, Francis... mas ele não me vê como patrão. Por isso, agora que ele cresceu e pode se cuidar só, vou dizer a ele que vá embora. É o melhor, no?

Oui, d’accord, Antoine. Você não sabe ter pulso firme com ele, mon ami. – o tal Francis riu, beijando levemente o espanhol no rosto.

Foi o estopim para que Lovino corresse para o quarto que ficava afastado o suficiente para que nenhum dos dois na sala ouvisse quando bateu a porta. Jogou-se na cama, abraçando o travesseiro, seus pensamentos a mil por hora. Para onde iria? Procurar seu irmão Feliciano? Haviam sido criados separados, assim, eram praticamente estranhos. O italiano era muito cara de pau, mas não podia aparecer de uma hora para outra e pedir um teto. Até porque, não gostava do tal Roderich com quem ele vivia. Mas não era esta a questão, o ponto era que seria jogado fora. Descartado assim como... lixo?

A raiva que sentia foi dando lugar a algum sentimento que não compreendia, então não sabia denominar. Espanhol maldito que sempre me deixa confuso. O italiano poderia ir embora de vez? Poderia, mas algo não o deixava e novamente não sabia denominar aquele sentimento. Pensou que não queria deixar Antonio sozinho para queimar a casa junto àqueles dois bêbados malucos. Mas que importava? Nem era a sua casa! Affanculo! Que se matem..., pensou sentando-se na cama. Iria arrumar suas coisas e partir nem que fosse para o quinto dos infernos. Sim, iria sim. Foi então que notou que a fronha do lençol estava molhada justamente onde seu rosto estivera segundos antes.

Estava chorando? CHE CAZZO!!

Batidas na porta sobressaltaram-no. Respirou fundo e enxugou os olhos, assumindo uma expressão de descaso no rosto jovem, antes de levantar para abrir a porta. Não se surpreendeu ao ver o espanhol ali, mas surpreendeu-se ao vê-lo usando roupas formais.

– Lovino. – ele disse, hesitante. – Tenho algo a dizer a você... O que houve? Você está vermelho... Seus olhos...

– Não foi nada, droga. Eu só me bati na cama, só me bati... Que é? O que você quer dizer? – perguntou, dando as costas ao moreno. Aliás, nem precisa, eu sei o que é., ia falar, mas Antonio se adiantou.

– Precisamos ter uma conversa séria, mas não agora. Não há tempo. – ele disse entrando no quarto e se aproximando do garoto. – Eu tenho um pedido a fazer e provavelmente será o último enquanto você estiver aqui, Lovino. Você nunca me ouve, mas, pelo menos dessa vez, só dessa vez, faça o que eu digo. Ficarei fora por um tempo, voltarei apenas para trazer mantimentos para você, mas não sei quando voltarei definitivamente. Então seja bonzinho e cuide da casa por mim,cierto?

– Aonde você vai? – o romano odiou o tom de voz que saiu, era quase... preocupado e magoado, ao mesmo tempo. Não... impossível, não era nada daquilo.

– Hm, bem... preciso resolver... uns problemas. Não pergunte. – pediu Antonio. – Enquanto isso, não saia de casa, a menos que seja caso de vida ou morte.

– Que merda é essa...? – irritou-se o outro, mas foi interrompido.

– Não questione, Lovino! É importante que você me obedeça desta vez! – Antonio segurou o italiano pelos ombros e olhou firme em seus olhos esverdeados com uma autoridade que este último nunca vira. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ficar preso naquele mar verde profundo. Ficou sem fala no momento. – Por favor...

Va bene, va bene. Agora me solta, idiota. Che palle... O que você tem? – Lovino desvencilhou-se do contato do espanhol e afastou-se dele para não correr mais o risco de ser pego de surpresa.

Por um instante, Antonio fitou-o com um véu estranho sobre os olhos. Triste, aflito, talvez? Lovino não quis pensar sobre isso. Não queria saber... Não mesmo?

Bueno, ya me voy...

– Agora?

E odiou-se por não conseguir conter a surpresa na voz.

, agora. Faça o que eu pedi. Cuide da casa. E de si mesmo, acima de tudo. – Antonio ensaiou dar um sorriso, mas pareceu uma careta.

Lovino não entendeu absolutamente nada de nada, mas não quis falar mais coisa alguma, enquanto observava seu patrão dar as costas e deixar seu quarto.

E... foi a última vez que se viram em tempos.

O italiano entendeu menos ainda o porquê de ter ficado preso em casa por meses, sozinho e preocupado. Porque todas as vezes que o espanhol voltara, Lovino estava dormindo e ele ia embora antes que acordasse, após deixar a comida, remédios e ataduras (pois sabia como o italiano tinha o dom de se machucar dos modos mais improváveis possíveis). Por vezes, também deixava um raminho de oliveira sobre a mesa da cozinha. Desta feita, então nunca se encontravam.

Lovino sentia ódio e mágoa ao mesmo tempo, porque fora injusto, cruel e de muito mau gosto sumir sem dar nem meia satisfação e piorava ao não ter a mínima decência de esperá-lo acordar ou ainda não ir acordá-lo. Todas as vezes que havia esperado acordado, ele não aparecia e não mantinha a menor regularidade nas “visitas”. Será que ele achava divertido brincar com o mais novo? Será que estava junto ao francês idiota, rindo de sua cara? Se fosse isso, o mais novo não perdoaria... Seu estômago revirou ao pensamento. Era difícil admitir, mas doía muito. E nem sabia dizer o que doía exatamente.

Entretanto, Antonio Fernandez Carriedo finalmente deu o ar da graça ao fim de uma noite, muitos e muitos meses após aquele dia em que Lovino o vira no sofá com o rapaz francês. Mas, antes que o italiano pudesse fazer um escândalo, reclamando daquela falta de notícias, do cárcere e de tudo o mais, até de coisas que não tinham a ver com o espanhol, viu que seu patrão parecia ter sido atropelado por uma manada de elefantes. Estava sujo, ferido, desgrenhado, esfarrapado e parecia cansado e faminto.

Dio, o que aconteceu com você? – perguntou, surpreendendo-se com a nota trêmula na voz. Notou que fazia muito tempo que não falava.

O espanhol deu o mesmo sorriso estranho do dia da partida, fazendo o coração do mais novo doer, então, ao tentar andar em sua direção, Antonio tropeçou nos próprios pés e só não foi ao chão porque Lovino o amparou. Mas quando se aproximara dele o bastante para não deixá-lo cair? Nem havia notado.

– Eu vou perder... – ele murmurou com a voz fraca e pesarosa, os olhos verdes com um pequeno brilho tao tênue que nem pareciam... ter vida. Aquele não era o Antonio que conhecia.

O mundo esqueceu-se de continuar a girar para Lovino.

– Perder o quê, cazzo?! – tentou parecer mais irritado que desesperado, mas não tinha muito controle sobre si mesmo naquele instante. – O que está acontecendo?! Há anos eu não faço ideia do que está acontecendo, porca miseria! Quase quatro! E você me aparece todo ferrado desse jeito, seu idiota?! O que diabos você esteve fazendo?!

Antonio gemeu ao tentar ficar de pé direito para olhá-lo.

– Você vai ser livre, Lovino... Estou garantindo a sua liber... hm – ele vergou o corpo para frente e desta vez o italiano quase não conseguiu sustentar seu peso.

Che... Do que está falando? – perguntou mais a si mesmo do que ao homem semiconsciente que praticamente arrastava para seu quarto, pois era o mais próximo.

Com algum esforço, fê-lo deitar na cama e, xingando-o mentalmente de todos os palavrões que conhecia (que não eram poucos), tirou seus sapatos, mas foi olhando-o direito que sua vontade de reclamar amainou e seu coração doeu outra vez. Viu que alguns dos machucados dele estavam mal cicatrizados, inflamados, outros eram recentes demais para isso – e estendiam-se não só pelo rosto, mas eram visíveis ao longo do corpo pelos rasgos na roupa surrada.

Agora ele estava inconsciente, de fato. Lovino olhou para seu rosto novamente – mesmo sob tantos cortes, sangue e sujeira, ele ainda era bonito. Havia sentido falta de ver aquele rost... Em que estava pensando?! Balançou a cabeça, saindo do quarto. Ele havia dito para não sair de casa, mas aquela era uma emergência grande demais para ouvir às bobagens dele. Assim, Lovino correu para fora de casa, para a farmácia para comprar remédios e curativos – porque havia gastado todo o estoque relativamente grande da casa nesses últimos tempos sozinho.

Sozinho... Isto ainda o magoava um pouco – Antonio pensava que Lovino era desastrado o suficiente para correr perigo se saísse de casa enquanto estava fora? Pelo menos era isso o que pensava antes, mas naquele momento começou a imaginar se o motivo não seria o mesmo que deixara o espanhol naquele estado. Va bene, não adiantava pensar muito naquilo, por ora. Quando voltou para casa, levou para o quarto uma bacia com água, mais panos e os remédios e curativos que comprara.

– Em que você andou se metendo, stronzo? – o italiano suspirou, sentando-se ao seu lado, notando que não havia jeito. Não havia com quem reclamar também.

E... precisaria tirar a roupa dele. Antonio estava com febre e o corpo não estava melhor que o rosto, notou ao abrir a camisa e começar a passar o pano molhado pela face e pelo tórax dele, então desceu até as pernas. Nada nunca pagaria esse constrangimento, pensava enquanto tirava as calças dele, mas era melhor não pensar, apenas agir. Suspirou. Stringi il denti i prossigue, Lovino... Então sentiu um nó na garganta ao constatar um corte grande e aparentemente fundo na parte inferior das costas dele. Virou-o de bruços, tentando não ser desajeitado como sempre, então se apressou em limpar, desinfetar e passar anti-inflamatório no local o quanto antes. Aquele corte estava feio, mas não parecia ser antigo o bastante para apresentar problemas; talvez tivesse sido feito no dia anterior.

Foi complicado limpar o resto do corpo dele sem ter de movimentá-lo demais e piorar o ferimento de trás, mas o motivo mais forte era a vergonha que sentia. Também precisou trocar a água algumas vezes para que Antonio ficasse limpo, então notou como os machucados eram piores do que aparentavam quando camuflados. Lovino exercitou toda a delicadeza que nunca tivera para cuidar do patrão, precisou se esforçar – mas nem foi um esforço, no fim das contas, não um esforço desagradável. Che...

Passou a maior parte da noite colocando um pano molhado na parte superior das costas e na testa do moreno na intenção de baixar a febre. Não quis pensar no porquê de estar se esforçando tanto. Não tinha a mínima curiosidade em saber. Então, quando a madrugada ia alta, o rapaz do sul da Itália estava cansado o bastante para deitar ao lado do mais velho sem notar e adormecer ali mesmo...

Acordou sentindo o sol batendo em seu rosto, mas... havia algo mais. Havia um braço sobre seu peito. Antonio? Por um momento de embotamento mental, esqueceu-se da noite anterior. Era como antes... Antonio fazia de tudo para perturbar. Havia passado quatro malditos anos fora como um stronzo irresponsável. Preparou-se para começar a brigar com ele, quando viu a faixa frouxa e malfeita que envolvia o peito nu do moreno – o curativo que havia feito na noite anterior. Então se lembrou de tudo.

Fitou o rosto agora inexpressivo dele, tentando ler algo ali. Mas não viu nenhuma resposta, nenhuma pista sobre seu paradeiro. Permaneceu analisando-o até que Antonio apertou os olhos e gemeu, então duas esmeraldas brilhavam fracamente para o rapaz mais novo.

Lovino? – o espanhol murmurou com a voz rouca e sonolenta e um sorrisinho grogue no rosto. – Ah... ¿Eres tú, en serio? ¿No fuera un sueño? Yo pensé que me moriría sin verte otra vez… Estoy contento, Lovino… estoy tan contento…

– Eu não entendo espanhol, idiota... Acorda de vez. Vou pegar comida para você.

Correu do quarto – na verdade, queria fugir do alívio que sentira ao vê-lo bem, ao ouvir sua voz dizendo seu nome. E entendera, sim... é, entendera. O que eu tenho?, bateu de leve no próprio rosto com as duas mãos, apressando-se em ir para a cozinha. Não sabia exatamente o que dar para alguém ferido comer, mas frutas eram sempre boas. Esperava que Antonio estivesse lúcido o bastante para saber discernir se estivesse errado.

– Você está cuidando mesmo de mim, Lovino? – o espanhol sorriu fraco vendo milhares de faixas cobrindo seus braços e pernas, enquanto o italiano descascava uma maçã (tirando mais do que apenas a casca).

– Eu não fiz nada, idiota.

Gracias.

– Já disse que eu não...! – começou, mas não conseguiu prosseguir porque a expressão inocente no rosto machucado do outro o quebrou, então murmurou baixo: – Affanculo. Prego, bastardo.

–––

Tentava não cortar os dedos enquanto picava uma cebola para o jantar, uma semana após o retorno de Antonio. Precisava de concentração total na tarefa – como em tudo o que fazia – , por isso, quando braços o envolveram repentinamente, acabou tirando pele e sangue do indicador. Largou a faca e fez menção de levantar num salto, pronto para começar a gritar, quando sentiu algo estranho no abraço forte que recebia, algo como desespero; sentiu o tórax tenso dele contra suas costas e a testa em seu ombro. Ele parecia procurar por apoio, mais que qualquer coisa.

– O que foi, cazzo? – apesar do xingamento, sua voz saiu quase calma, algo muito raro em se tratando de Lovino Vargas.

Antonio não respondeu imediatamente, apenas continuou apertando-o nos braços enfaixados. Então, quase com terror, o italiano sentiu algo molhar seu ombro.

– Eu estou perdendo, Lovino...

– É a segunda vez que você diz isso. De que está falando afinal? – perguntou, nervoso, sem se virar.

Era a primeira vez nestes dias que ele falava algo sobre os anos em que esteve fora. Lovino preferira nem tocar no assunto, porque o espanhol parecia abalado demais, embora quisesse não demonstrar e o italiano não era bom com assuntos mais... sensíveis.

– Eu queria te dar a liberdade... – falou. – mas o Bonnefoy... Eu disse isso a ele e ele disse que estava interessado te levar. Naquela última vez em que ele esteve aqui, lembra? Ele disse que queria tomá-lo para si. E que lutaria, se precisasse. Então eu quis proteger você... mas não consegui... Ele vai levá-lo e a culpa é toda minha. Desculpe.

– Você...? – Lovino sentiu seu rosto pegar fogo. O que ele estava dizendo? O espanhol havia passado quatro anos lutando por sua liberdade? – Por quê? Por que você esteve lutando por mim?

Antonio pausou, pressionando a testa no ombro do mais novo antes de levantar a cabeça e prosseguiu.

– Eu queria que você fosse feliz, Lovino... Se você não era feliz comigo, que fosse longe de mim. Não importava... Você é do tipo de pessoa em quem não se manda, você deve ser livre. Então eu não ia deixar que ele o levasse pra casa dele assim... – Antonio levou uma das mãos aos cabelos castanho-avermelhados do italiano e bagunçou-o, mandando um arrepio pelas costas do mesmo; o italiano rezou para que ele não tivesse sentido e felizmente pareceu não notar. – Por ora, ele também está ferido, mas eu sei que ele virá levar você, se eu não voltar logo. Não consigo aceitar que essa luta tenha acabado assim, mas não tenho mais forças... Não sei o que fazer, Lovino...

Por um instante, o italiano apenas ouviu a respiração profunda do outro em seu ouvido e sentiu o bater do coração dele em suas costas. Lembrou-se das incontáveis vezes que o amaldiçoara e desejara o pior nos últimos tempos, sem imaginar o que ele andava fazendo e a descoberta fez um nó se formar em seu estômago. Por que ele sempre tinha que fazer coisas estúpidas assim que só deixavam Lovino sentindo essa confusão interna? Sempre.

Cazzo, não precisa fazer nada. Não precisava ter feito nada. – chiou, emburrado.

– Não seja mal agradecido, Lovino...

– Eu não pedi pra você fazer nada. Você foi de idiota. – desviou o olhar para o dedo cortado, seu sangue ainda gotejava lentamente na tábua de cortar. Colocou-o na boca e chupou a fim de estancar o sangue.

Antonio apenas riu fraco. Estava acostumado às patadas do mais novo, no fim das contas, então não se magoava mais. Pelo menos, não muito. É, não muito. Afastou a mão dele, tirando seu dedo da boca. Tal visão não era uma boa imagem para o espanhol ver, se você entende, mas Lovino não era muito bom em ler atmosferas.

– Eu fui porque te amo. – murmurou no ouvido do mais novo, que se virou, olhando-o, quase em choque.

O espanhol então notou que, sobre o balcão, havia um potinho de vidro com uma grande quantidade do que reconheceu como os raminhos de oliveira que vinha deixando quando deixava comida para Lovino. Alguns estavam secos e outros pareciam mais novos. Ele... havia guardado tudo? Sentiu algo quente em seu estômago, uma pequena felicidade que se irradiou pelo corpo todo. Não entendia o italiano muito bem, mas aquilo deveria significar algo bom. Sabendo muito bem que poderia ser uma das últimas coisas que faria na vida – mas, pelo menos, não levaria este arrependimento para o túmulo – , pegou um braço do italiano que se apoiava sobre a bancada e o levantou do banco. Então o beijou todo o desejo que carregava havia muitos e muitos anos.

Foi feliz por alguns poucos segundos, porque Lovino estava em choque demais pra esboçar reação, então, para sua surpresa sentiu o italiano relaxar em seus braços, apertando as laterais de sua camisa. Antonio quis muito aprofundar o beijo, mas... antes que pudesse dar a ordem aos músculos envolvidos no processo, estava sendo empurrado com força para longe do outro rapaz e viu a mão direita do italiano ser levantada. Antonio fechou os olhos, esperando a dor no rosto. Dor esta que não veio, então voltou a abri-los apenas para ver Lovino com a mão suspensa no ar e uma expressão de raiva extrema no rosto.

Cazzo, bastardo, figlio di puttana. Odeio você. Deveria ter te deixado morrer. Cazzo. Cazzo. Cazzo. – ele gritou. – Volta pro quarto agora e não aparece mais na minha frente, maldito! Em que você estava pensando, cazzo? Argh!

Foi apenas nesse momento que caiu a ficha. Fora apenas um encostar de lábios, breve demais para o bem da memória, mas fez Antonio rir, feliz porque ainda estava vivo e inteiro e por ter feito algo que desejava havia mais tempo do que se lembrava. Poderia se desculpar, mas não sentia culpa. Não. Foi com um sorriso no rosto que voltou para o quarto, então se aconchegou entre as cobertas e dormiu depois que o efeito da serotonina em seu cérebro acabou.

O que demorou um pouco.

Notas finais
Enfim, dicionário da Tia Julie. Algumas das palavras não têm tradução literal e na maior parte delas eu usei eufemismo aqui :# Paella: é um prato espanhol com arroz, açafrão, frutos do mar, frango e/ou outras coisas, mas tem muitas variações. Caponata: é tipo uma salada de vegetais fritos no óleo. É façola de fazer, mas acho que até isso o Romano queimaria xD hue Ricchione: uma variação bem ofensiva de baitola. Vaffanculo/affanculo: vá se danar/que se dane Pezzo di merda: (pedaço de) merda 8B (Che) cazzo/palle: (que) caralho/porra (não sei dizer isso de outro modo mais ameno e_e) Managgia: maldição. Hermanito menor: irmãozinho mais novo -.- Oui, d’accord: sim, concordo, Mon ami: meu amigo. Bastardo é a mesma coisa em italiano tbm 8D Stronzo: estúpido Stringi il denti i prossigue, Lovino: ¿Eres tú, en serio? ¿No fuera un sueño? Yo pensé que me moriría sin verte otra vez… estoy contento, Lovino…: é você, de verdade? Não foi um sonho? Pensei que morreria sem vê-lo outra vez… estou feliz. Prego: de nada. Figlio di puttana: ahaha, entendeu, né? 8’D E, é, sou fluente em xingamentos em italiano :# /paray e_e engraçado que eu nem falo palavrão em português, juro (não tô sendo irônica, não falo mesmo).