À flor da pele
54 Segura as calcinhas, mulher!
Notas iniciais
Diana
Minha bexiga me acorda. O quarto está escuro e me sinto cansada ainda. Como se tivesse corrido uma maratona.
Theo está deitado comigo, dormindo. Eu posso ouvir sua respiração pesada.
Estendo a mão e afasto o tecido do dossel. Acendo o abajur e sinto os olhos arderem um pouco pela luz. Me sento na cama e estudo Theo. Ele está deitado, com as pernas bem espalhadas na cama. O braço direito embaixo da cabeça e o esquerdo repousando do lado do seu corpo. O lençol está estrategicamente sobre sua cintura e o cobre até o joelho. O cabelo está selvagem, com ondas espalhadas, seguindo em todas as direções.
E eu estou nua. E tranquila com isso.
Fico parada, com medo que ele acorde, mas não posso evitar de olhar. Theodor Blake é um homem bonito. Do tipo que deixa qualquer mulher feliz apenas em admirá-lo. E eu estou fazendo isso. Admirando cada parte visível de seu corpo. Como a sua barriga se erguendo e abaixando com sua respiração, e como as narinas se expandem e voltam com a entrada e saída do ar. Ele parece tão tranquilo em seu sono.
Sua pele ganhou um bronzeado também, mas as marcas dele não são tão visíveis como as minhas. Mas estão ali, no braço e na coxa, exatamente onde a manga curta da camiseta e a barra da bermuda paravam. Será que ele trouxe uma sunga? Será que vai usar se tiver?
Nunca achei legal homens com roupa de banho. Mas Theo tem corpo para isso. Acho que posso gostar...
Theo se move, virando levemente para meu lado. Prendo a respiração e torço para que ele continue dormindo. Conto até dez e me levanto, na ponta do pé, quando ele permanece quieto.
Vou para o banheiro e me assusto ao abrir a porta e ver o cômodo iluminado por uma fresta na cortina. Já amanheceu, e eu pensando que era madrugada!
Me sinto nua de repente. Quer dizer, eu estou! Mas a falta de luz nublava essa sensação. Pego o roupão que está perdurado perto do espelho e o visto. Tem o cheiro do Theo...
Aproximo o tecido do meu nariz e aspiro o cheiro masculino. Dias atrás eu simplesmente acharia nojento isso. Mas agora, eu tenho essa certa necessidade de tocar tudo que é dele... Pelo menos nesse momento, quando ele está longe. Mas aposto que esse desejo passará tão logo ele esteja em minha frente. Aí a vergonha me governa.
Esse meu lado sem vergonha só vem à tona quando não há ninguém para presenciar.
Mordo o lábio, para esconder o sorriso bobo. Até pareço uma criança. Ajeito o roupão ao meu redor e deixo de lado minha nova tara.
Tiro um momento para minha higiene e quando deixo o banheiro, vou até a varanda, para recuperar minhas roupas que ficaram secando.
O Sol forte me cega momentaneamente e preciso de um tempo para me acostumar com tanta luz. Quando o faço, encontro as espreguiçadeiras no lugar. Mas não minhas roupas.
As peças mais pesadas estão espalhadas no chão. O biquíni azul-escuro que comprei está na escada. O vestido nos pés da espreguiçadeira. Agora, as calcinhas...
Alguém deveria ter me dito que ventava tanto assim aqui!
Me aproximo do parapeito e entro em pânico ao ver duas das peças desaparecidas boiando a poucos metros.
Olho em volta e não vejo ninguém. Eu preciso tirar dali. Não posso simplesmente negar, dizer que não faço ideia de quem seja, certo? Bem, acho que posso negar sim...
Ou não... Se o Theo ver e falar algo, certamente minhas bochechas vão me entregar...
Droga!
Entro e deixo as roupas no banheiro, em cima de um armário, então passo água no biquíni na pia e o visto molhado. Meu corpo se arrepia pelo contraste da temperatura.
Droga de dia! Se já esta ruim pela manhã, imagina o resto dele. É sempre assim, se começa mal, acaba pior!
Deixo o roupão sobre a espreguiçadeira e começo a descer pelas escadas. Só espero que meu corpo ainda e lembre de como nadar.
A água está fria, mas me acostumo rápido. Até mesmo porque está bem calor. Caminho até a calcinha mais próxima, com apenas minha cintura coberta pelo mar, mas conforme vou andando, e areia vai sumindo debaixo dos meus pés, sinto que vou afundando mais.
Preciso lutar para não entrar em pânico. Com exceção da entrada com Theo no mar, a última vez que entrei em um foi com 9 anos e em piscina com uns 15. Então, na teoria, sei nadar... Mas se vou me lembrar como é que se faz isso, já é outra historia.
Alcanço a calcinha antes que a água chegue em meus seios e solto um suspiro aliviado. Então começo ir até a próxima. Que está longe demais...
Coberta até o pescoço pela água e com a constante sensação de estar em algum filme sobre tubarões inteligentes e famintos, sinto o controle escapar de mim. Tudo que eu preciso fazer é deixar a maldita calcinha para trás. Só que nesse ponto em que estou, acho que não posso nem mesmo fazer isso. Estou com medo de me mover.
A mente humana é mesmo uma grande armadilha. Se não fosse essa minha paranoia certamente conseguiria completar a missão. Senão, ao menos voltar...
– Encalhou ai? — A voz zombeteira chega aos meus ouvidos, me deixando, além de em pânico e envergonhada, muito aliviada.
Giro meu corpo, bem lentamente para não atrair nenhuma criatura indesejada. Olho para a varanda, onde um Theo de cabelos bagunçados e usando apenas uma cueca branca está parado. Ele está apoiado no parapeito e me observa com um sorriso nos lábios.
Sinto me corar ao me lembrar de como ele estava ontem. Totalmente nu. E onde ele estava...
– Oi... — Eu não sei o que dizer. Falar que estou tentando recuperar minhas calcinhas será a última coisa que sairá da minha boca!
– Aquela calcinha seria sua? — Ele pergunta, apontando mais à minha frente.
Esse homem definitivamente consegue ler mentes. Estou cada dia mais certa sobre isso!
– Não sei do que está falando. Eu só estava com... Calor.
Ele ri.
– Você não parece muito à vontade aí... Será que a água está muito fria?
– Eu acho que... Estou tento um ataque de pânico... — Digo e solto uma gargalhada logo em seguida. O que é muito estranho. A situação toda é muito bizarra. — Eu não posso me mexer...
– O quê? — Parece incrédulo.
– Sério... Eu... Me tira daqui, Theo!
Ele fica reto e começa a descer as escadas, o sorriso desaparece de seu rosto.
– Pensei que soubesse nadar. — Diz, visivelmente zangado.
– Eu pensei também...
A areia está sumindo embaixo dos meus pés. É uma sensação tão agoniante...
Tento dar um passo para o lado, mas percebo que não posso. Estou congelada no lugar, imaginando coisas se aproximando e me comendo.
Theo mergulha e some na água. Fico tensa, imaginando se ele foi engolido por um tubarão e serei a próxima. Eu sei que é um medo bobo, mas eu me sinto incapaz de deixá-lo de lado.
Então Theo está de volta, a menos de um metro de mim e sua cabeça está mais alta que a minha. A água para em seu peito. Ele se aproxima, até que suas mãos estão em minha cintura e meu corpo responde a seu toque. O abraço forte pelo pescoço e rodeio sua cintura com minhas pernas, então respiro aliviada, me sentindo segura finalmente.
– Eu estou lutando para não gritar com você... – Ele sussurra com voz dura. Está bravo, mas não me importo. Só estou feliz dele estar aqui. — Estou tão zangado nesse momento...
– Sinto muito... — Digo, para tentar amenizar.
– Diana...
Mas ele não termina. E também não me dá sermão sobre como eu poderia ter me afogado se ele não tivesse acordado e vindo atrás de mim. Ele apenas caminha comigo grudada em seu corpo. Acaricia minhas costas com uma das mãos, enquanto a outra esta embaixo da minha bunda, me segurando.
Theo para de andar. A água chega agora em seu pescoço e só não estou embaixo dela porque ele me mantém uma cabeça mais alta.
– Olha o que eu encontrei...
Me afasto um pouco e vejo a mão, que antes estava em minhas costas, segurar no alto uma calcinha rosa de renda.
– De quem será que é? — Pergunta, me provocando.
Vergonha me toca, mas ao menos ele não parece mais tão bravo. Sei que ele está e que luta para se conter. Eu acho que o conheço bem o suficiente para entender a sua personalidade e admiro muito que ele esteja tentando.
– Não faço a menor ideia. — Tomo a peça de sua mão e a seguro firme em minha palma. Uma calcinha em cada mão e tendo de ser resgatada do mar depois de encalhar... Quer mico maior?
Nós estamos andando de novo, dessa vez a água está baixando. Faço menção de descer e Theo tira sua mão de apoio da minha bunda e encontro os degraus da escada que leva à cabana.
Ele me deixa sentada ali e se ajoelha mais a baixo, de forma que está justamente entre minhas pernas... É uma visão bem sexy...
– Então... — Ele começa, com um sorriso zombeteiro se espalhando e um cheiro de hortelã saindo de sua boca.. — Você perdeu sua calcinha, mulher!
– Meu deus, Theo!
Levo as mãos fechadas para à frente dos meus olhos. Envergonhada demais para encará-lo. Mas a gargalhada que escapa de sua boca é como música para meus ouvidos.
Aos poucos o som vai morrendo e descubro meus olhos para encará-lo.
Theodor estuda meu corpo. Estou inclinada sobre a escada e ele tem quase visão completa de mim. Ele leva um tempo para perceber que meus olhos então nele, então ele me encara, sorrindo.
– Maravilhosa... Simplesmente isso.
Me sinto corar, mas não tento me esconder. Deixo meus lábios se abrirem em um sorriso.
– Bom-dia... — Digo, muito feliz por estar aqui. Tenho tentado evitar pensar que amanhã estarei de volta para a minha vida. E nem mesmo sei como encontrarei minha casa. Ou se terei Theo tão perto assim de novo. É inevitável sentir uma pontada de desapontamento também.
– Bom-dia, linda!
Theo se inclina, cobrindo meu corpo e deixando um selinho em meus lábios.
– O que vamos fazer hoje? — Me pergunta animado.
– Ah... — Eu não faço a menor ideia. — Você não tem reunião ou algo que precise de sua atenção?
Ele morde o lábio e é um gesto tão simples, mas que parece tão sexy, a ponto de fazer um arrepio se espalhar pelo meu corpo. Eu é que deveria morder seu lábio... E outras partes mais...
Oh, meu deus! Estou começando a pensar igual ao Tyler!
– Na verdade, tem algo que precisa da minha atenção, sim! — Ele se aproxima, deixando seus lábios bem próximos aos meus. — Essa adorável morena à minha frente. E suas calcinhas perdidas...
Theodor
Não é fácil manter meu humor bom quando sou tirado do sério. E acho que é certo dizer que Diana me tirou da linha essa manhã.
Vê-la na água, coberta até o pescoço, foi uma visão bonita. Especialmente pelas águas daqui serem tão cristalinas. Era uma visão divina. E foi bem engraçado quando constatei o que ela tentava alcançar. Mas então vi o pânico em seus olhos e ela me dizendo que não sairia dali sozinha.
O quão irresponsável essa mulher consegue ser? Mas quem pode ficar bravo com ela por muito tempo?
Ver seus olhos cheio de alivio ao me ver perto e suas mãos delicadas me segurarem com força, como se sua vida dependesse disso. O que tecnicamente era verdade. Ela dependia...
– Me prometa que não fará mais nada arriscado... — Peço, assim que saímos da escada e ficamos em pé na varanda. Ela ainda tem as duas mãos fechadas. Em uma delas eu sei que tem uma calcinha, a que lhe entreguei. Será que na outra também tem uma?
Essa mulher é uma figura. Acredito que nunca me diverti tanto com alguém. Meus dias com Diana são extremamente agradáveis. Seja aqui, na ilha, ou em casa. A forma como ela cora com tudo e como posso lê-la apenas observando suas bochechas. Ou as coisas tão incoerentes que ela deixa escapar de vez em quando pela sua inocência, tão engraçada e atrativa... Ela é adorável!
– Eu... Prometo. — Ela se vira de costas para mim, me deixando ter uma visão celestial do seu traseiro. Oh mulher bonita!
Ela fica quieta, parada... Como se esperasse que eu saísse dali para se mover novamente...
– Se eu não te conhecesse bem, diria que está me evitando. — Encosto as costas no parapeito da varanda e foco os olhos em sua bunda.
– Eu estou sendo... Respeitosa. Você está precisando de uma toalha, Theo...
Olho para baixo, para minha cueca branca molhada... E transparente. Minha ereção está bem visível.
Eu disse, Diana e sua inocência podem ser bem engraçadas...
– E isso vem da mulher que me ordenhou com os lábios de baixo...
Ela suspira ruidosamente e corre para dentro. Vou atrás e a alcanço ainda no corredor.
– Vamos lá, linda... — Seguro sua bunda junto da minha ereção. — Não há nada aqui que você já não tenha visto. Ou sentido... – Sussurro essa última parte e escuto um gemido baixo deixar seus lábios.
A empurro em direção à pequena sala e ela não resiste, me deixa guiá-la.
Tenho medo de ir rápido demais com Diana. Preciso pensar em cada coisa que vou fazer ou dizer ao seu redor. Mas ela tem me surpreendido muito. É como se a mulher com manias estranhas, e sempre a um passo de surtar, tivesse ficado em São Francisco, junto com os problemas. O que é mais que ótimo para mim. Para nós.
Quando estamos próximos do sofá, me viro e me deixo cair com ela sentada em meu colo. Estamos molhados, deixamos poças pelo caminho e agora estamos encharcando o estofado e isso não me importa em nada. Que se fodam os móveis!
– Você dormiu bem?
– Sim...– Sua voz sai baixa, quase como um gemido e preciso me controlar para não tentar algo mais antes do café.
– Diga-me, o que vamos fazer hoje?
Ela relaxa e suspira.
– Amy me disse que tem lojas legais perto do aeroporto...
– Sim, ótimas lojas. — E tem uma em especial, de roupas íntimas... Foi onde comprei o corpete negro que lhe dei. Isso aconteceu na segunda vez que estive na ilha, quase um mês atrás. Me vi parado na frente da vitrine, imaginando ela usar a peça em exposição.
Nem sonhava que Dia me daria uma chance quando fiz a compra, mas eu tinha esperanças. Não sou cego, via como ela me olhava...
– Então vamos até lá depois do almoço. Mas não há tantas lojas assim, será um passeio curto. O que faremos depois?
Deixo minha mão sobre sua barriga molhada e acaricio a pele, a fazendo deixar um suspiro escapar. Ela está tão relaxada em meus braços. É um momento tão gostoso que não quero que acabe nunca.
– O que você quer fazer depois? — Ela me responde com uma pergunta. Está fugindo de tomar uma decisão.
– Ir com você até o lado que tem uma praia de nudismo...
– Theo! — Ela empurra minhas mãos e se afasta, deslizando para o assento ao meu lado.
– É uma piada, mulher surtada! — Rio com sua reação. Ela fica ao meu lado, me estudando, talvez decidindo se eu estava realmente brincando... E eu estava. Um pouco... Realmente tem uma praia de nudismo do outro lado da ilha, mas nunca a levaria lá. Vê-la nua é algo exclusivo...
Observo seu rosto suavizar.
– Podemos mergulhar. — Sugiro. — E pedir o jantar no quarto e ter... Um momento...
Apesar da pouca luz, consigo ver o sorrisinho que brota em seus lábios.
– Eu gosto dessa opção, embora mergulhar não te anime tanto, certo?
– Talvez apenas o passeio e o jantar? — Diz, já relaxada de novo.
Puxo seus pés para meu colo e começo a massagear.
– Perfeito.
Vou sentir falta desse lugar e de como ela parece tão bem aqui.
Amanhã é nosso último dia. Ou isso seria hoje, já que sairemos cedo. Eu sei o que quero quando voltarmos para casa, mas admito que tenho essa dúvida pequena, mas insistente, que me faz temer que Diana não queira o mesmo que eu.
– Mas eu preciso comer com urgência, tipo agora. — Ela diz, evitando meus olhos. — Eu fiz alguns exercícios demais ontem... Meu corpo precisa recuperar alguma força...
Sorrio.
Diana está envergonhada, posso ver. Mas ela não está desconfortável. Tenho conseguido isso dela na última semana. Mas agora, após dormimos juntos, isso realmente significa algo. Sempre fico com medo de que ela fique constrangida e tente fugir.
– Ótimo, compartilho das suas necessidades. Mas antes, você quer que eu encontre um lugar para estender suas calcinhas, mulher?
Ela fecha os olhos. Suas mãos também estão fechadas, protegendo coisas que ela não quer que eu veja.
Ainda não consigo acreditar que ela arriscou a vida por calcinhas!
– Eu não faço a menor ideia do que você está falando... — Nega.
– Oh, é mesmo?
Ela concorda.
– Devo ter me enganado.
– Certamente. Talvez tenha sonhado com isso. — Me diz com convicção.
– Oh, sim! Diana perdendo a calcinha é, com certeza, algo que eu sonharia.
Ela sorri e me inclino, dando-lhe um beijo nos lábios.
– Vou me trocar.
– Ok... Eu também.
Olho mais uma vez para ela. O biquíni azul lhe cai muito bem. É de uma cor escura e sólida, sem detalhes. Mas ficou ótimo. Especialmente a parte de cima. Dia tem seios grandes e que está sempre escondendo sob as roupas. É adorável, e excitante pra caralho, ter essa visão. E espero que eu seja o único a arrancar essas peças mais tarde.
– Não, você está pronta. Quem sabe apenas um vestido ou uma camisa por cima. Afinal, não quero que ninguém mais te veja assim...
– Será que percebo uma nota de ciúmes em sua voz, Sr. Blake?
Afasto seus pés do meu colo, os deixando descansar no sofá. Fico em pé e me afasto devagar, sem tirar os olhos dos seus seios bonitos.
– Nem mesmo sei o que essa palavra significa, Srta. Weber.
E depois que presenciar o mais adorável dos sorrisos, eu vou para o banheiro, ela precisa de um tempo para esconder suas calcinhas...
Diana
Theodor não me deixa respirar.
Nós deixamos o quarto cerca de meia hora atrás e tudo que ele consegue fazer e me apertar e beijar e acariciar. E meu deus! Eu não posso nem respirar direito.
Não que eu esteja reclamando. Isso é um desabafo, não uma reclamação.
Por muito tempo me privei desse tipo de contato e essa é a primeira vez que deixo alguém me tocar dessa forma. É gostoso, e memorável. Mas eu não tenho certeza de como me comportar.
O medo de não ser receptiva o suficiente me faz querer tocá-lo, da mesma forma que ele faz comigo. Mas o medo dele ficar de saco cheio me congela. Não sei se devo ser mais aberta ou ficar quieta. É uma maldita situação!
Já passa das duas horas e por isso o restaurante está vazio. Escolhemos uma mesa do lado de dentro dessa vez, já que o Sol está muito ardido. Estamos à espera do nosso pedido.
Não vimos os amigos de Theodor e essa é outra coisa que me deixa ansiosa.
Se eles aparecerem, terá conversa e motivos para a atenção de Theo ser retirada de mim. Mas, se não derem as caras, será difícil manter alguma coisa aqui. Theo me dá mais crédito do que realmente mereço. Eu sou simplesmente fácil demais de ler. E não tenho nada substancial para contar. Me surpreende cada vez que ele diz que sou interessante. Talvez o tal “interessante” dele seja um código para "peitos grandes"!
– Adorei o vestido. — Ele diz em meu ouvido.
Estamos sentados ao lado um do outro em um sofá, bem desconfortável, que serve de banco para as mesas perto da parede.
– Foi um presente. — Digo a ele.
Assim que Theo saiu do banheiro, ele me entregou o vestido que tinha ficado para trás por causa da missão das calcinhas.
Fiquei com um pouco de nojo, ele estava no chão quando acordei... Mas seu olhar ao estudar o vestido... Eu apenas tomei de sua mão e fui para o banheiro, o colocando por cima do meu biquíni molhado. Sol está forte, de forma que minha roupa secou rápido.
Theo colocou uma camiseta cinza e um shorts branco, que para no meio das coxas. O tipo de peça que usa para se exercitar. Consegui ver o contorno de uma peça negra por baixo quando ele andava em minha frente. Será uma sunga?
– Um presente...? De quem?
– Da Amy... — Theo sorri com simpatia pela minha resposta.
Fico observando seu rosto, esperando alguma reação que me dê alguma dica de um plano maléfico entre eles dois. Eu admito que gosto da Amy um pouquinho agora, mas como minha mãe me ensinou, confie desconfiando!
Mas não, nenhuma sombra em seu rosto. Nenhum plano terrível escondido atrás de seus olhos ou do sorriso bonito.
– Fico feliz que vocês estão se entendendo. Ela é legal.
– Sim, eu pude perceber isso. Foi uma tarde divertida ontem. Abby também foi muito agradável.
E o sorriso em seu rosto aumenta.
– Ela é uma gracinha, não é?
Oh meu deus! Theodor Blake encantado por uma criança! E ele ainda disse que não gostava... Estou quase lhe oferecendo um guardanapo para limpar a baba. Já consigo imaginar como será ele ao redor do Liam. Quer dizer, se ele algum dia o conhecer. Não que eu esteja planejando isso... Certamente que esse tempo que passamos juntos tem data de validade... Certo?
– Você a tem visto crescer, pelo que entendi.
– Sim. — Theo ergue nossas mãos unidas e faz círculos em minha pele com o polegar. — Thomas e eu nos conhecemos desde crianças. Tenho feito parte de sua vida desde sempre. E com isso, da vida de Abby também.
– Tio Theo... — Digo baixinho, me lembrando de como Abby o chama e de como soa bonitinho.
– Você não fica atrás, tia coruja!
Nisso ele tem razão. Liam é o garotão da titia, isso é inegável.
Me pego fugindo de realidade por um momento. Imaginando como seria um Theodor pai. Pelo que vi dele com Abby até agora, acho que seria um tremendo babão. E acompanharia seu bebê para todos os lugares. Um pai amoroso e protetor.
– O que está pensando? — Ele está sorrindo, tem os olhos fixos nos meus. Está completamente relaxado também, percebo. — Você tem esse sorriso bobo nos lábios e esse olhar sonhador.
Dou de ombros, tentando não parecer tão obcecada por ele.
– Só... Estou feliz por estar aqui. Com você... Obrigada.
– Sempre... — Se inclina devagar, aproximando nossas testas e então tocando meus lábios com os dele.
– Aqui estão vocês! — Nosso beijo é interrompido antes de virar, de fato, um.
Olho para nossa frente, onde a mulher ontem está. Ela usa um macacão branco, que cai muito bem em sua pele negra, fazendo um contraste impressionante.
Sexy em preto e branco– Penso.
A peça de tecido leve é muito bonita, e seu corpo alto e magro, fazem a peça parecer um artigo de luxo, que qualquer socialite que se preze deveria ter no guarda-roupa. Ela bem poderia ser uma vendedora...
Theresa é seu nome, se eu não me engano. Nos conhecemos na festa de aniversário de Theodor e ela não foi nada simpática. Depois teve o episódio de ontem, onde ela e Amy pareciam discutir.
Ela deixa sua bolsa pendurada na cadeira e se senta, sem convite. Ergue o menu e o estuda.
Evito olhar para Theo. Não acho que seja bom ele ver o quanto a presença dessa mulher me incomoda. Ela não foi capaz de dar nem boa-tarde! Onde estão as boas maneiras?
– Olá para você também! — Theo diz, mal disfarçando seu descontentamento pela interrupção repentina. O que me faz dar pulinhos internamente.
Eu não sei se ela tem algum interesse nele. Pelo que sei, ela é só uma boa amiga. Afinal, se Thomas, seu irmão, cresceu com Theo, ela também deve. Mas eu não sei... Talvez seja apenas meu lado possessivo vindo à tona, mas não gosto dela.
Talvez eu mude de opinião ao conhecê-la. Na maior parte das vezes é assim que funciona, fico amiga de quem não gosto à primeira vista e aqueles que simpatizei sempre viram objeto do foco da minha raiva.
– Oi. — Digo, tentando parecer simpática.
Theo continua exatamente da mesma forma que antes, me abraçando e segurando minha mão.
– Oi. — Ela diz, sem levantar os olhos do menu.
– Se lembra da Diana? — Ele pergunta.
– Sim, Amy já nos reapresentou ontem. — Seus olhos se erguem finalmente e se focam em Theodor.
Caramba, essa mulher tem olhos lindos! Não me paro de me surpreender cada vez que a vejo. Eles são basicamente dourados. Será que são lentes?
O cabelo liso dela está preso em um rabo de cavalo alto e sua maquiagem esta impecável. O que me lembra que fiz a minha correndo, só tive tempo de esconder o hematoma do meu rosto e o mais novo... Chupão...
Theresa parece prestes a fazer uma sessão de fotos, o que faz com que eu me sinta um pouco feia...
– Espero que não se importem que eu almoce com vocês, não achei os outros e confesso que estou um pouco perdida. — Ela me olha dessa vez e me oferece um sorriso radiante.
– Problema nenhum. — Digo, incentivada pela simpatia momentânea. Mas então ela me lança um olhar tão frio, que sinto até um arrepio subir pela espinha.
– Que seja. Você está bem? Teve uma boa noite? — Theo pergunta, mas sem parecer interessado realmente, apenas por educação. Ele continua brincando com meus dedos.
– Ótima, obrigada. Então, vocês são um casal?
Casal?
– Não. — Digo.
– Sim.
Olho para Theo, que estreita os olhos.
– Somos um casal. — Ele reafirma, me encarando, como se me desafiasse a contrarias suas palavras. Não que isso vá acontecer. Na verdade, me sinto animada... Eu não quero um namorado, mas também não queria que ele tivesse negado. Eu sou uma bagunça mesmo!
– Isso é... Grande! — Theresa diz, sua voz parece animada, mas tal alegria não alcança seus olhos.
A garçonete volta e anota o pedido dela. Não posso deixar de notar que ela pede um copo extra com água quente. Será que vai preparar seu próprio chá ou algo assim?
– Estão juntos há quanto tempo?
Não respondo. Olho para Theodor, e pelo sorrisinho maroto que ele me dá, já tem a resposta na ponta da língua.
O que é legal. E não e ao mesmo tempo. Aparentemente, Theodor está brincando... E não sei se é comigo ou com Theresa.
– Bem, Tessa. Nós estamos juntos há exatamente 4 meses, completados hoje. Por isso vamos tirar o dia, e principalmente à noite, para comemorar.
O sorriso da outra mulher treme por um momento e há um leve brilho de irritação em seus olhos.
– Meu deus, Theodor! — Ela diz, se recuperando e estampando o sorriso de volta. — Eu nunca imaginei que te veria por mais que dois dias com uma mulher. Daiana, minha querida... – Ela se volta para mim.
– É Diana, na verdade...
– Tanto faz. — Ela faz um gesto de leve com a mão. — Qual o seu segredo, querida? Deve estar cuidando bem do nosso garotão.
Nosso?
Isso é uma pergunta séria? O que ela espera que eu diga? E por que sinto que essa mulher está jogando comigo?
Talvez eu pudesse dizer que o segredo é não dar na primeira noite! Mas isso me envergonharia... E nem estamos há tanto tempo juntos. Não sei nem se estamos juntos, para falar a verdade.
– Eu digo que foi a adorável comissão de frente. — Theodor, ainda com o braço ao meu redor, me puxa para mais perto e deixa os lábios tocarem minha testa.
– Oh, meu deus! Ela cora! — Theresa leva a mão ao peito e sorri. — Quase uma virgem, que gracinha!
Não acredito que ela disse isso! Eu não gosto dessa mulher e agora é certeza mesmo!
Me sinto completamente desconfortável. Deixo minha mão sobre o peito de Theo e o empurro sutilmente. Ele parece entender o recado e deixa que me afaste um pouco. Mas sua mão continua sobre meus ombros.
Será que Theodor não tem amigos normais? Essa mulher é horrível e ele não faz nada para impedir seu showzinho. Será que é normal ela agir feito uma vadia? Talvez ele não interfira porque sua personalidade é exatamente assim... Não sei como devo agir. A não ser minhas bochechas, elas agem por conta própria e como sempre, pegando fogo!
– Salmão... — A garçonete aparece bem na hora, colocando em minha frente o prato com o peixe que escolhi. — E cheescake de morango. — Ela deixa o doce na frente de Theo. — Vou trazer o vinho em um minuto.
Vejo a mulher mais velha se afastar e quase grito para que ela volte e sente-se conosco, que me livre dessa situação desagradável. Talvez ela possa tirar um momento para partilhar suas experiências de trabalho...?
– Doce, Theodor! E aposto que é sua primeira refeição. — Theresa volta sua atenção para Theo. Seus olhos até mesmo brilham quando ela o olha.
Percebo agora, há uma grande diferença entre essa mulher desagradável e Amy. E não é a óbvia, relacionada à personalidade. Eu não tenho certeza se a amiga e empregada de Theodor gosta dele, mas mesmo quando eu tinha desconfiança, nunca a vi o olhar dessa forma, como se fosse engoli-lo.
– Certamente, preciso de açúcar para começar a funcionar. — Ele revira os olhos e dá uma garfada no seu doce.
– Eu sei, te conheço muito bem, Blake. — Suas palavras soam docemente, mas quando seus olhos encontram os meus, só consigo imaginar uma cascavel com seu veneno escorrendo.
Ela quer que eu saiba que há, ou houve, mais que amizade ali...
Será que ela é realmente tão horrível assim ou é meu ciúmes que interfere em meu julgamento? Talvez eles sejam apenas grandes amigos e toda essa franqueza e gracinhas seja algo deles. Eu posso estar imaginando tudo. Embora, eles não pareçam amigos realmente. Amy e Theodor têm uma coisa entre eles. E agora eu sei que não é interesse romântico. Pelo menos eu acho... Enfim, Theresa e Theo não tem uma ligação assim. Na verdade, ela parece desesperada para conseguir sua atenção.
– Será que isso não está bom? — Theodor pergunta e percebo que fiquei olhando para eles com cara de tacho, enquanto minha comida esfriava.
– Vamos descobrir...
Fico ereta na cadeira, tentando me afastar do braço dele e começo a comer. Eu sei que é grosseria, a comida de Theresa nem chegou, mas ela nem deveria estar aqui para começo de conversa. Então, não me sinto culpada por passar por cima das regras de etiqueta. E nem demora, quando estou na segunda garfada, a garçonete volta com a salada que ela escolheu. Ela traz também o vinho branco que Theo pediu. Então serve a nós dois.
A bebida veio em ótima hora. Eu pensei que teria sorte pelo fato de salmão ser algo conhecido, mas o tempero é tão... Ardente! Sinto meus olhos lacrimejarem pela ardência que as bolinhas vermelhas espalhadas pelo prato causam. Acho que é pimenta. Meu deus, Theo não brincou quando disse que a comida era forte!
Olho para Theresa e a vejo tirar os talheres de cima da mesa e levar para baixo, onde não posso ver. Será que ela vai roubar?
Mas então o cheiro de álcool sobe ao meu nariz e os talheres estão de volta, dessa vez ela os deixa dentro de seu prato e age naturalmente, como se fosse normal limpar os utensílio em restaurantes antes de usar.
Ok.... Pessoas conscientes fazem isso e se eu não estivesse sentindo tanta antipatia por ela, provavelmente pediria emprestado seja o que for que ela usou para higienizar seus talheres.
– Então Diana... — Ela começa mais uma vez. Peloamordedeus! – Você tem um emprego?
Calabocamulher!
– Sim. — Que tipo de pergunta é essa? Talvez se fosse “Em que você trabalha”? Mas se eu tenho um emprego...? Onde essa mulher quer chegar? Meu deus, que insuportável!
Estou de mau humor. É oficial!
– E então? Não me diga socialite, por favor! — Sorri e então leva uma garfada de sua salada à boca.
– Eu sou designer de interiores. — Digo, com um certo orgulho. — E você, faz o quê? Socialite? — Mantenho o rosto sério, afinal, não foi o troco... Ela bem tem cara...
– Modelo, na verdade. Será que não acompanha Glamour, Elle, Cosmo? Tenho aparecido em várias revistas na nova campanha da Dior. E saí na capa da Vogue mês passado!
Alguém atira em minha cabeça. Por favor!
Vai Diana, cutuca...
Modelo, linda, rica e capa de revista. O tipo de Theodor...
– Desculpe, eu não tenho hábito de acompanhar revistas de modas.
– Vejo... — Sussurra, mas consigo escutar.
– Diana prefere revistas com conteúdo, Tessa.
– Theodor! Seu machista! — Ela lhe dá um tapinha na mão e tira um riso dele.
– Prefiro revistas sobre decoração e política, na verdade. — Completo, para não desapontar a primeira manifestação de Theo em meu favor. — Mas capa da Vogue, uau! Isso é incrível, parabéns! — O sorrisinho convencido dela vacila por um momento, mas logo está de volta.
E a garçonete aparece de novo, dessa vez com a bebida de Theresa e o copo extra com água quente.
Volto a atenção para meu prato, mas espiando de vez em quando, querendo saber o que ela vai fazer.
– Eu faço isso. — Theo diz, e tira seu braço dos meus ombros. Ele pega a taça vazia da frente de Theresa e vira um pouco da água quente do copo, a chacoalha e então despeja de volta no copo maior. Limpa a lata de suco com um guardanapo embebido na água quente e então coloca no copo e entrega para ela.
– Obrigada.
A mulher deixa seus dedos tocarem nos dele quando pega a taça.
Olho de soslaio para Theodor. Ele está educado demais, quieto demais, desinteressante demais... Ou essa sou eu, mal humorada demais!
Vejo seus olhos em cima de mim e seu cenho franzido. Ele parece preocupado.
Ou talvez não haja o que dizer. Deve ser eu, certeza, que estou vendo demais onde não tem.
Eu nunca saí muito, então, quando estava com um namorado, geralmente era em restaurante ou em casa. Acho que nunca tive uma baforada de ciúmes tão soprada em minha cara desse jeito.
Tenho ciúmes de Jane com Tyler, admito. Aquele traste me deixou para trás por ela... Mas o que sinto agora... É diferente. E acho que está influenciando em tudo...
Sinto a mão de Theo tocar minha coxa por baixo da mesa. Não um toque sexual, mais como um sinal confortador e para chamar atenção. Volto a encará-lo.
– Tudo bem?– Pergunta sem emitir som, apenas movendo os lábios.
Sorrio e aceno. Mas não é verdade. Não estou bem. Estou confusa.
Achei que podia aproveitar esse tempo com Theodor e deixar os problemas para quando voltarmos, mas o fato é que, isso, seja o que for, que há entre nós, é o real problema. Eu não quero ser chutada quando tudo acabar e não quero ficar aqui achando que estão brincando comigo, me usando para um algum tipo de jogo doentio. Ou apenas surtado, porque não consigo sufocar minhas angustias.
Ser mulher é tão complicado. É tanta coisa que tem que ser levada em consideração para responder uma simples pergunta como a que Theo me fez, mas não posso jogar tudo isso em cima dele também. Acho que aí sim o homem fugiria!
Theodor dá um gole em seu vinho e o termina de uma vez.
– Bem, Tessa, foi um prazer revê-la. — Assim que ele começa a falar, a mulher ergue a cabeça e o encara, de olhos arregalados. — Mas já estamos partindo, temos algo marcado e não quero me atrasar.
Nesse mesmo instante largo meu garfo e bebo meu vinho. Sinto meu espírito se renovando por saber que ela está ficando para trás. Tenho até que morder o lábio para não sorrir.
– Mas... Onde vão? Eu não tenho nada para fazer...
Theo me olha e então abre um sorriso. Um que até me envergonha. Especialmente quando ele levanta e deixa os olhos em meu decote.
– Para o quarto, Tessa, resolver algumas questões privadas...
– Oh...
Não a encaro. Aposto que tem o semblante decepcionado no rosto e eu posso até desejar que ela se dê mal, mas aguentar olhar é outra coisa.
Theo me estende a mão e me ajuda a levantar.
– O almoço é por minha conta. — Ele informa a ela.
– Nos vemos depois? — Ela pergunta, com a voz cheia de esperança. Admito que agora fiquei com um pouco de pena...
– Quem sabe, se não estivermos... Cansados. Tchau, querida. — Ele se inclina e beija o topo de sua cabeça e então sai, me levando junto. Só tenho tempo de oferecer um aceno de mão em despedida.
Theo só para no caixa e deixa algumas notas e o número da mesa.
– Fique com o troco. — Ele avisa para a mulher está atendendo, solta minha mão e enrosca o braço em minha cintura, me puxando bem colada a ele. — Agora vamos ter um pouco de diversão, mulher das calcinhas!
Rio com o comentário, nem tanto por ele ser engraçado, mas porque estou feliz. Aliás, feliz é pouco. Não posso colocar em palavras o que sinto nesse momento.
Bye bye Tessa...
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