À flor da pele
55 Futuro incerto
Notas iniciais
Theodor
Puta que pariu!
Patrick tem uma boca santa.
Eu realmente achei que Tessa ficaria quieta e longe. O porquê de minha conclusão ser essa nem sequer passa pela minha cabeça nesse momento. Eu a conheço. Por anos. Eu sei dos seus problemas, suas manias, sua personalidade fora de controle e o quanto ela pode ser cruel quando decide que não gosta de alguém. E ela não gosta de ninguém que esteja ao meu redor. Nem mesmo de Amy.
Mas, acreditei que ela me respeitaria. Que erro.
Ataque atrás de ataque. E Diana se portou como uma dama. Foi perfeita, estou orgulhoso. Mas admito que queria que revidasse um pouco... A vadia merecia...
Quando deixamos o restaurante, não perdi o semblante de Diana. Ela estava feliz e não era pela minha presença. Não apenas. Ela adorou deixar Tessa para trás. E eu também. Mesmo que com um certo receio.
Eu deveria ter alertado Diana antes de sair com ela por aí sabendo que Theresa estava na área. Ela nunca me deu problemas realmente, mas eu nunca estive tanto tempo com alguém. Ou quis tanto.
Quase duas semanas é um recorde. Segundo lugar!
Estive por bastante tempo com Tessa. Quase um ano. Mas era diferente. Era mais seu amigo, o cara que a ajudou a lidar com seus problemas. Nós levamos muito tempo para ir para a cama. Tudo sempre era sobre ela e seus problemas.
Theresa sempre foi mimada. Cresceu ao redor de homens protetores e sempre teve tudo de mão beijada. Mas ela era legal. Até chegar aos 18 anos e começar a ser uma companhia desagradável.
Ela estava sempre preocupada com as coisas fora do lugar. E em uma casa cheio de caras... Bem, nada fica no lugar. E então a sujeira. Qualquer fio de cabelo no chão era sinal de que a casa estava imunda. Ela começou a reclamar do trabalho, já não queria mais participar de campanhas de marcas pequenas. Ela alegava que pessoas que pagavam barato por uma modelo, pagavam barato por tudo. Incluindo as locações e material utilizado. O que tornava tudo do pior, sujo e intocável.
Então começaram as crises. Muito parecidas com o que eu já presenciei de Diana... Só que mais pesado.
Ela foi internada algumas vezes, após se machucar ao tentar se “limpar”. E teve algumas situações bem ruins além dessas. Como deixar Abby para trás quando bebê. Ela se irritou com o choro e o cheiro de fralda suja e simplesmente saiu. Disse que precisava de espaço.
Foi então, quando ela já estava com quase 22, que finalmente deixou Tom a ajudar. Antes disso, ela negou qualquer problema e não permitiu que se aproximassem.
Eu sempre achei que Thomas demorou demais para lidar com Theresa e isso só prejudicou sua personalidade. Ele deveria ter sido mais duro e a obrigado a aceitar alguma ajuda. Ou talvez seja apenas meus problemas com ele que me façam pensar dessa forma.
Passei muito tempo com ela, a acompanhei nos tratamentos, aprendi seus hábitos e fiz o possível para tornar sua vida mais fácil. E ainda tinha o fator “Tom”. Ele odiava que eu estivesse tão perto e então eu me aproximei mais. E mais. E mais.
Mas no fim, embora meus motivos não fossem tão bons ao começar algo com ela, ninguém pode negar que a vadia tende a ser mais calma ao meu lado. E mais calma não é menos venenosa. De forma alguma. Isso é uma característica de sua péssima personalidade. Mas acho que todo tempo que passei ao lado dela, me fez a enxergar de uma forma diferente. A ver realmente. E mesmo má, ela é uma pessoa que precisa de ajuda, uma cheia de sentimentos presos e nada e nem ninguém para ajudar a colocar para fora. A condição dela a fez uma pessoa solitária. E o tempo em que estive ao seu redor me fez ser visto como alguém que tem alguma obrigação com ela.
Não me sinto assim, mas ainda lhe dou certa atenção algumas vezes, porque sei que ninguém mais tem paciência para fazer isso por ela.
– Não vamos mais ao aeroporto? — Diana me pergunta quando destranco a porta da nossa cabana.
Um brilho de decepção passa por seus olhos.
– Com certeza.
Abro a porta para ela entrar e então fecho atrás de nós. Pego as chaves e coloco no bolso e então fecho a janela e cortina.
Ela fica parada no meio do quarto, me estudando. Alcanço sua mão e a puxo para a varanda, então espio sua reação...
Ela olha para mim com expectativa. Ainda não viu o que preparei para nosso passeio.
A puxo mais perto do parapeito e então ela vê. Seus olhos ficam grandes, surpresos.
– Nós vamos aí? — Ela pergunta, agora com um pouco mais de animação.
– Sim.
Ela desce as escadas e para quando a água está cobrindo seus pés e então estuda a lancha.
– E você é quem vai pilotar?
– A não ser que você me surpreenda contando que sabe, acho que sim...
Ela se vira, feliz. Mas não totalmente. Está mais animada que alguns minutos atrás, mas ainda há uma certa sombra de decepção nela. O encontro com Tessa a incomodou. Pretendo tocar nesse assunto mais tarde, quando ela estiver com um humor melhor.
– Primeiro as damas... — Me coloco ao seu lado e desço mais alguns degraus e então coloco o pé na lancha, a mantendo próxima para ela entrar. Diana passa por mim, mas não entra. Fica na ponta dos pés e me dá um beijo na bochecha. Um gesto tão simples e inocente, mas que me aquece o meu peito.
Então ela entra e se acomoda no banco ao lado do passageiro.
Solto a corda que foi presa em um dos degraus e então me seguro no barco, me apoio contra ele e empurro, antes de entrar totalmente e assumir meu lugar.
É uma lancha grande até. Com estofado na frente e atrás de nós. E eu espero que ela use para tomar Sol.
De biquíni.
Talvez sem...
Deixo o barco deslizar alguns centímetros pela água e então ligo, nos levando para longe. Diana se recosta no banco e fica quieta, olhando à sua volta, com um sorriso fixo.
– Você já esteve em um barco antes? — Pergunto.
– Sim. — Finalmente me olha. — Mas era nova demais para aproveitar.
Silêncio. Mas não desconfortável.
Quando estamos longe dos hotéis e do aeroporto, eu desligo a lancha. Diana me olha, tentando esconder o riso.
– Será que você lembrou de passar protetor? — Pergunto, me virando para ela.
– Talvez não... Não me lembro.
Isso!
– Bem, não queremos que fique queimada de uma forma ruim, certo?
– Certamente.
Puxo uma porta que tem ao lado painel principal e entrego os óculos de Sol dela que peguei quando ela se arrumava mais cedo, e tiro um frasco de protetor.
– Se você... Tirar seu vestido... Aí eu posso passar.
Ela parece indecisa e me pergunto se passei dos limites de novo. É sempre assim com Diana. Estou constantemente pisando em ovos.
– Ok...
Solto o ar, aliviado.
– Mas antes... Vamos conversar.
Hum... Por que será que parece que vem algo ruim?
– Theresa é sua ex-namorada, certo?
E lá se foi a espera pelo melhor momento...
– Sim. Sinto muito por ela arruinar nosso almoço.
Seus olhos estão fixos nos meus, como se ela tentasse ler alguma coisa.
– Você sabia que ela estaria aqui quando me convidou?
Começo a perceber para onde isso anda. Para a insegurança dela...
– Eu fiquei sabendo que ela estaria vindo pela bebedeira do Patrick, no jantar de Ação de Graça.
Ela fica quieta, analisando minha resposta. Tirando suas próprias conclusões...
E então volta a falar após um tempo.
– Vocês estiveram juntos por quanto tempo?
Por que as mulheres fazem isso? Eu sei que Diana não vai gostar da resposta, seja ela qual for. Mas ela tem que perguntar...
– Por quase um ano.
E a próxima pergunta será o moti...
– Por que acabaram?
Eu sabia!
– Ela queria mais do que eu poderia oferecer.
Verdade! Tessa queria um casamento e bem... Eu não fui feito para isso.
– Você terminou?
Isso já está virando um interrogatório policial.
– Não, Diana. Ela terminou comigo quando percebeu que eu não lhe daria o que queria.
– Que era?
– Isso importa?
Ela nega, então olha para o mar, me ignorando por um instante.
– Diana... — Toco sua mão. — Me diz o que te incomoda, por favor...
– Não há nada, de verdade. — Volta a me olhar — Obrigada por me trazer.
Ela sorri, mas é falso. Isso me irrita.
– Eu não gosto da Theresa, se é o que te incomoda. Quer dizer, eu gosto, ela é minha amiga, faz parte da minha vida há anos. Mas não sinto nada mais que um carinho fraterno. Você, por outro lado... — Isso chama sua atenção. Seus olhos estão presos nos meus e um brilho de excitação está ali presente agora. Preciso caprichar!– Eu estou encantado, Mulher...
Diana morde o lábio e então sorri.
– Você polui meus pensamentos. Meus sonhos...
– Com calcinhas? — Ela começa a rir.
– E sem! — Me inclino e beijo sua testa. — E aquele banho de Sol?
– Não vamos nos atrasar para ver as lojas?
Que se fodam as lojas! Quero é Diana de biquíni!
– Não, prometo nos levar a tempo.
Ela olha em volta e então fica em pé e tira o vestido, ficando apenas de biquíni. A visão da perfeição.
Dia me olha, morde o lábio, e então se senta nos estofados de trás, ficando de costas para mim.
Aeroporto? Lojas? Compras? Por que diabos iria querer isso?
Fico em pé e tiro a camiseta e o short, ficando apenas com uma sunga preta. Pego o protetor e me sento atrás dela. A puxo para perto, colando suas costas no meu peito, e ganho uma olhada, acompanhada de um semblante de surpresa.
– Uau...- Deixa escapar e então cora. Coisa linda!
– Protetor? — Ela concorda e vira para frente.
Antes de passar o creme em sua pele, desato o nó do biquíni e ela prontamente leva as mãos sobre os seios, impedido que a parte da frente escape.
A sinto prender a respiração quando toco sua pele. Primeiro com a mão seca. Depois com os lábios. Então começo a passar o protetor, nas costas e então nas laterais, incluindo parte dos seios.
Pele macia... Cheirosa...
Colo meu corpo no seu, e passo meus braços à sua volta, esfregando sua barriga, então... Ela empurra minhas mãos ao mesmo tempo em que o som de sua risada me alcança.
– Isso faz cócegas! Chega!
Ela se afasta, sentando longe e ficando de frente. Ainda esconde os seios com as mãos.
– Que som gostoso... — Percebo que deixei escapar meu pensamento em voz alta e sou recompensando por aquele sorrisinho doce, que ela só dá quando está feliz e totalmente relaxada.
– Golpe baixo, Blake!
– Não mesmo. — Sento-me mais perto. — Ainda não cheguei em baixo...
E as mãos deixam os seios e então estão no rosto, para esconder que está envergonhada, mas então percebe, tardiamente, o que fez. Consigo uma bela visão do tecido no biquíni se afastando e deixando os seios fartos à mostra.
Diana tenta, atrapalhadamente, e de uma forma muito adorável, esconder os seios. Mas, convenhamos. É um tamanho grande, suas mãos pequenas e delicadas não conseguem cobrir toda a carne.
– Isso é tão constrangedor! — Ela fica de costas. Até sua nuca está vermelha pela vergonha.
Me aproximo dela, mas não a toco, me estico e alcanço a cobertura da lancha, a desdobrando e conseguindo uma sombra muito bem-vinda.
– Para mim é uma beleza.
Ela bufa e quando penso que exagerei, ela começa a rir.
– Theo, você é uma pessoa horrível!
Ela vira, sorrindo. Consegue colocar o biquíni no lugar e agora amarra atrás. Se senta no estofado e me encara.
– Você nunca planejou, realmente, me levar para o aeroporto, não é?
Sento-me ao seu lado, percebendo que ela evita olhar para minha sunga, mas seus olhos a traem e algumas vezes a pego encarando meu colo.
– Eu disse que íamos, não disse? — Ela concorda. — Então sim, eu planejei. Acontece... — Acaricio sua bochecha rosada. — Que você tirou o vestido...
– Será que nunca viu uma mulher de biquíni? — Pergunta-me, cheia de humor.
– Espertinha!
Inclino-me e tomo seus lábios. Ela corresponde em um beijo lento.
Diana já se acostumou comigo. Nossos primeiros beijos foram atrapalhados. Agora é como se fizéssemos isso há anos. Nossas bocas sabem como agradar a do outro.
Nos separamos cedo demais. Mas se eu continuar, não vou conseguir parar.
– Ok, mulher, vamos a esse maldito aeroporto te comprar calcinhas!
Me levanto e vou para meu lugar, ligando a lancha.
– Você nunca vai esquecer isso? — Dia me pergunta, quando se senta ao meu lado. Ela tem o maldito protetor em mãos e está passando nas coxas.
Respiro fundo.
Foco, Theo!
– Nunca, querida. Não mesmo!
Diana
Amy e Theo chamam de aeroporto. Eu chamo de shopping!
É malditamente enorme e cheio de lojas. Quatro pisos talvez. As paredes ao redor são feitas de vidro, o que dá uma visão fantástica da pista de decolagem e da ilha.
– Será que eu ainda não devo te dar presentes? — Theodor me pergunta enquanto estou distraída com a vista.
– Eu nunca disse que não poderia me dar presentes. — Respondo e então o olho e sorrio.
Ele colocou sua roupa assim que paramos no píer. Vesti meu vestido um pouco antes, já que isso parecia distraí-lo. Eu nunca me senti tão bonita assim. Theodor me faz sentir bem e cada vez a sensação só melhora, como se estivéssemos subindo degraus em sua apreciação e cada célula do meu corpo pudesse apreciar essa evolução. Isso me espanta e anima. E assusta. E se eu nunca mais me sentir assim? E se outra pessoa não for capaz de despertar tais coisas no futuro...?
Tenho a leve impressão que Theodor Blake está me arruinando...
Estou ansiosa pelo amanhã. Será que ele apenas vai me dispensar? Me deixar em casa e dizer “Obrigado pelo fim de semana!”. Bem , quando ele me deixar em casa, certamente será a minha frase, já que não consigo pensar em nada melhor.
Mas eu espero que ele diga mais. Que ele me ligue depois. Que ele não me esqueça... Afinal, somos amigos! Mas, se o fizer. Eu posso lidar com isso. Sou adulta. Sei perfeitamente como levar as coisas...
– Bem, os presentes que sou bom em escolher você não parece gostar.
– Oh, bom em escolher roupa íntima feminina?
Isso é escandaloso. De fato, as duas combinações que ele me deu eram lindas. Absolutamente sexy. Só que, por mais que se tenha bom gosto, não dá para simplesmente olhar para o corpo de uma mulher e acertar seu tamanho. Acho que ele está treinado demais. Tem prática em conhecer o corpo feminino bem o suficiente para saber as medidas apenas de olhar. O que faz de mim apenas mais uma...
– Na verdade, eu acertei por acaso. Eu fiquei muito em dúvida. Essa adorável bunda e esses seios incríveis foram um desafio e tanto.
Isso será porque ele só namorou mulheres magras?
Me sinto meio sombria de repente. Angustiada. Eu adoraria falar com o traidor do Tyler agora. Certamente ele teria algum conselho.
Estou morrendo de saudades daquele babaca...
– Então?
– O quê? — Me distraio, pensando em Tyler e em como me tornei mais uma na lista de Theodor Blake...
– Eu já posso voltar com os presentes... Específicos?
– Acho... Talvez seja melhor não...
Ele toca meu rosto.
– Não gosto quando você divaga dessa forma. Está pensando demais Diana. Não pense, viva!
Então me estende a mão.
Viver...
Eu não sou esse tipo de mulher. Adoraria ser. Seria tudo tão fácil. Mas eu posso tentar. Acho que com muito esforço, talvez, eu possa ser o que ele quer. Ao menos por um tempo.
Deixo minha mão cair sobre a sua e ele entrelaça nossos dedos. Então nós voltamos a explorar o resto do lugar. E embora meu sorriso esteja no rosto, já não estou mais tão empolgada.
***
Foi um passeio agradável apesar de tudo. Comprei um helicóptero de controle remoto para o Liam e um ursinho para a Abby. O Urso não foi caro, já o helicóptero... Mas, adoro fazer um agrado para aquele baixinho.
Theodor também comprou algo para os dois, o que foi extremamente fofo. Mas ele não me deixou ver o que era... Fez a compra enquanto eu estava em um dilema sobre o que dar ao Liam.
E preciso dizer, Theo não pareceu de saco cheio em nenhum momento do nosso tempo fazendo compras. Entrávamos nas lojas e ele ficava tão empolgado quanto eu para comprar presentes. Geralmente eu sou a pessoa chata da sessão de compras. Odeio filas, odeio comprar, odeio tudo que resume em minha pessoa fora de casa ou do trabalho. Mas consegui aproveitar o momento. Com Theodor ao meu lado, fazendo o possível para levantar meu ânimo de novo, foi impossível não dar boas risadas e entrar em seu espírito.
No geral, eu posso dizer que foi divertido. Mas agora, na volta, não paramos perto da cabana, Theo dirige a lancha para um canal onde há várias embarcações paradas. Barcos grandes, pequenos, Jet Skis e outros que não tenho ideia de como são chamados. Theo me ajuda a sair e pega as muitas sacolas nossas, mas só começa a andar depois de me oferecer o braço e me ter enganchada no seu.
Quando ainda estávamos voltando, nos vimos conversando sobre coisas tão triviais do dia a dia que fiquei um pouco surpresa. Especialmente por não soar desinteressante.
Theo me falou um pouco mais sobre ele. Tipo, que sua cor favorita é o branco. A não ser para roupas íntimas femininas. Aí ele acha que preto e vermelho ficam antes do branco...
Ele me contou sobre Baltazar, o vendedor de pipoca, que ele conheceu quando criança e sua esposa Meg, mas não me ofereceu muito a respeito disso. Também falou sobre seu trabalho, o quanto o acha chato e acabei compartilhando que me sinto no mesmo barco em relação ao meu atualmente.
Foi um bom momento.
Agora, caminhando para o restaurante que atende a cabana que estamos, o silêncio que se instala não É desconfortável. Isso realmente me surpreende toda vez que acontece.
Paramos do lado de fora, onde uma mesa está vaga, logo abaixo de uma tenda.
– Espere aqui. — Ele beija minha testa.
Theodor é carinhoso. Muito! Ele leva a outro nível o “seja um cavalheiro”. E eu, sinceramente, adoro sua companha e cada abraço e cada beijo que ele me deu hoje. Não esperando algo em troca. Apenas como um gesto simples. Como se fosse comum fazer isso.
– Será que você deseja algo específico?
Específico? Você...
– Não, você decide.
– Ok... — Então seus lábios estão nos meus. Rápidos, cheios de promessas... — Volto logo, amor.
Amor...
Meu coração dá uma batida mais forte. Ele precisa parar de me chamar assim. Ou vai me dar esperanças...
Sento-me e fico olhando para o mar. Mas não dura, logo estou em alerta quando lembro que Theresa pode topar conosco de novo.
Mas não a vejo e nem a ninguém mais da turma de amigos do Theo.
– Laranja para você...
Um copo grande de suco aparece em minha frente e então Theo se senta ao meu lado, toma seu suco vermelho. Acho que é melancia. Bebemos em silêncio e assim que terminamos, ele volta a recuperar minha mão e as sacolas, então partimos. Mas me surpreendo quando estamos parados na frente da cabana de Amy e não na nossa.
Ele bate duas vezes e escutamos alguma coisa, mas não consigo entender. Aparentemente Amy disse para entrar, já que ele abre a porta e entra.
Acompanho Theo e fico tensa ao ver Amy na cama com um livro. Usando apenas camiseta e calcinha. E com um cara deitado ao lado dela, abraçando sua cintura e completamente apagado...
– Oi, Diana.
– Oi...
Amy sorri e então se volta para Theodor.
–Achou?
– Sim! — Theo mexe em uma das sacolas e pega um frasco de Tylenol. Ele joga para Amy que pega no ar. — Ele está bem?
Isso é tão constrangedor. Não acredito que ela está na cama com um cara e estamos apenas assistindo.
Mas então olho a cama de novo e percebo coisas novas. Como, ela usar um shorts curto e não uma calcinha como pensei, e o cara ser Patrick. E ele tem um hematoma feio na testa...
– Bem...! Dentro do possível de bem para Patrick. Você sabe. Ele estava tão mal quando veio aqui, acabou dormindo.
A grande coisa sobre essa cena, é que olhando pela segunda vez, eu não vejo maldade. Ela está cuidando dele. E pelo tempo que passei com Amy, percebi que ela gosta de cuidar dos amigos. Ou pelo menos desses três.
– Isso é para você... — Theo se aproxima dela e deixa uma sacola ao lado da cama.
– Oba, presente! — Amy diz animada. Se levanta um pouco e puxa a sacola, mas sem sair do aperto do braço de um Patrick adormecido.
– Espero que goste. — Theo diz e me conduz para fora. — Até mais...
– Tchau, Amy... — Digo, mas ela não responde, está ocupada demais desembrulhando seu presente, como uma criança em dia de Natal...
– Oh, meu deus! — Escuto ela e vejo Theodor sorrir, o que me faz ficar na ponta do pé para ver sobre seu ombro, enquanto ele fecha a porta. Só consigo ver que é uma camiseta. Uma bem grande.
Um presente simples e de mau gosto... Mas a felicidade que ela fica... Acho que voltei a ter ciúmes da Amy...
– Presente para Amy então... — Digo, sei lá o porquê. Nem é da minha conta. E o veneno que escorre por minha língua me causa certa culpa. E isso me assusta. Eu estou mudando tão rápido...
– Sim, é seu aniversario na próxima quinta. Dia de jogo. Ela só não tinha aquela camiseta na sua coleção. Quando a vi, eu sabia que precisava comprar. — Ele me conta, todo animado. O que só me incomoda ainda mais. Ele sabe tanto dela... Até mesmo o que ela tem ou não...
– Era uma camiseta de time? — Pergunto, já sabendo a resposta.
– Sim! E comprei uma para mim também! — Theo destranca a porta da nossa cabana e gesticula para que eu entre. — E algo para você... Talvez...
Deixo as sacolas no sofá e me volto para ele, que abriu um pouco a cortina, para iluminar, e ligou o ar-condicionado.
– Quando você me comprou algo? Eu não acho que tenha visto.
Ele deixa as sacolas que carrega ao lado das minhas no sofá.
– Eu certamente concordo com isso. Você estava tão animada com algumas lojas, que até esqueceu que eu estava junto!
Oh, mentira deslavada!
– Isso é calúnia! — Aponto o dedo para ele. — Nós andamos juntos e fizemos compras juntos!
– Exceto cada vez que você viu algo que gostou e se esqueceu do mundo!
Cruzo os braços, e tento manter-me séria, mas logo estou sorrindo.
– Bem, mas isso aconteceu na menor parte do tempo.
Ele sorri.
– Claro...! Banho, linda, e depois vamos relaxar. E não vista nada. — Ele me diz.
– Isso faz parte do meu presente?
Dou um passo para trás quando ele dá um para frente.
– Não, isso é inteiramente para minha diversão e prazer.
– Você não presta, Theodor Blake...
Seus olhos ficam fixos nos meus. Brilhosos, com luxúria queimando.
– Não... E você ama isso...
– Sim, eu amo...
Assim que as palavras deixam minha boca, percebo que não deveriam ter saído. Totalmente inapropriado. E se ele estiver pensando que eu amo ele? Que o que eu disse foi uma declaração? Oh, meu deus!
Seus olhos nunca deixam os meus, mas o silêncio que se forma, pela primeira vez no dia, é um pouco constrangedor.
– Certo... — Digo – Banho.
Viro-me e saio dali, partindo para o banheiro. Não acredito que acabei de cometer essa gafe. É agora que o homem vai fugir mesmo!
Fecho a porta atrás de mim, incapaz de me acalmar. Meu coração bate rápido, meu rosto queima e sinto meu estômago estranho. Como se tivesse borboletas voando.
Com que cara vão encará-lo depois?
Uma batida na porta me faz dar um pulinho.
– O... que...? — Droga, gaguejando como uma adolescente apaixonada.
– Toalha?
Ele quer toalha?
Afasto-me da porta e abro apenas uma fresta, deixando que veja bem pouco do meu rosto, então ele sorri. Tem uma toalha na mão e algumas roupas dobradas.
– Oh...
Abro mais a porta e pego.
– Obrigada. — Então fecho em seguida, incapaz de o encarar.
***
Meu banho demora mais do que o normal. Isso porque não sei com que cara irei olhar para Theodor. Foi praticamente uma declaração! Você não diz para um cara que sai há menos de duas semanas que o ama... E eu praticamente disse isso. Mesmo que não tenha sido intenção. Bem, talvez ele nem esteja ligando. Afinal, foi resposta à sua brincadeira. Certo? Por que estou surtando? Nem mesmo sinto isso por ele.
Né...?
Respiro fundo. Encaro-me no espelho grande. Theo nem mesmo me mandou uma roupa decente. Calcinha preta reveladora e uma camiseta cinza dele. Parece um vestido grande, na verdade. Cobre perfeitamente minha bunda, mas parece tão pouco...
Eu sei que é até bobo ficar envergonhada agora, nessa altura do campeonato, mas estou consciente demais de tudo nesse momento.
Sinto uma ligeira coceira nas costas das minhas mãos. E ansiedade. Muita. Mas eu não farei isso, não vou ceder a vontade de trocar a ansiedade pela dor. Não agora... Primeiro porque meus arranhões acabaram de sarar e só iria acabar tirando sangue se cutucasse. Segundo, porque Theo perceberia. Ou talvez o segundo motivo seja o primeiro... Enfim, péssima ideia deixar velhos hábitos me dominarem. Isso só me levará por um caminho estreito demais para voltar.
Opa... Trocar ansiedade pela dor? Eu acabei de pensar nisso? Eu não me machuco para sentir dor. Nunca fiz, os arranhões e cortes ao longo dos anos, sempre foram acidentes. De verdade, eu não faria isso de propósito...
Sinto-me tremer com vontade de ceder... Acho que Theodor está certo... Estou pensando demais. O perigo mora nisso, nesse simples ato...
Concentro-me em minha imagem no espelho outra vez.
Solto o meu cabelo e refaço o coque, pela quarta vez talvez. Mas, agora o deixo meio frouxe e duas mechinha atrás de cada orelha. Mas não parece bom. Nada parece bom e a maldita coloração vermelha em meu rosto não diminui de jeito nenhum. E menos ainda a coceira...
Droga!
Vamos lá, Diana, você pode fazer isso!
Olho pela janela perto da banheira. Está escuro lá fora. Ainda estava claro quando vim para o banheiro... O Theo deve estar furioso se ainda não veio me chamar...
Quem sabe ele não saiu? Pode até mesmo ter mudado de quarto...
Mas nem foi grande coisa...
– Ok... Eu posso fazer isso... - Sussurro para mim mesma, então me viro e saio do banheiro, antes que mude de ideia.
Theodor não está no quarto. A luz dos abajures e uma vela são a única iluminação no cômodo, e há um som vindo de fora. Acho que da varanda, mas me detenho na vela acessa na mesa de cetro, ao lado de uma caixa de presente.
Caminho até ela. Descalça, já que entrei para o banho de sandálias e esqueci os chinelos. Nojento!
Me sento no sofá e solto o laço da caixa. Acho que é para mim. Pelo menos Theo disse que tinha um presente... Serão mais peças íntimas?
Por favor, que não seja calcinha!
Já não me sinto tão segura para abrir o presente.
Deixo a tampa de lado e afasto o papel de seda que esconde o conteúdo.
Um sorriso nasce em meu rosto ao ver as pantufas fofas em forma de panda. São diferentes das minhas. Essas são o ursinho de corpo todo e abertura em sua barriga para os pés. As minhas de casa são toda preta, com exceção da cabeça.
Bem, eu sei que deve estar sujo, da loja para meus pés... Mas os pés estão sujos também agora... Então... As coloco!
Mordo o lábio ao estudá-las em meus pés. Está quente aqui, bem quente, e meu pé começa a aquecer de imediato, mas as deixo ali. Afinal, são pandas!
Adoro pandas!
Então, um pouco mais confiante, vou para a varanda. Que cada vez tem o som mais forte, até que abro a porta e a música enche meus ouvidos. Não está alto, apenas o bastante para entender cada palavra e apreciar a melodia. Coisa que não faço, porque estou surpresa demais com a mesa posta no lugar que antes estava uma das espreguiçadeiras, bandejas tampadas em cima, vinho... E algumas lâmpadas pequenas de LED penduradas ao redor. E Theo.. Dormindo na espreguiçadeira que ficou.
Me aproximo devagar, para não acordá-lo. Ele trocou de roupa. E cheira a sabonete. E tem cabelos úmidos. Ok... Onde ele tomou banho?
Será que foi na Amy de novo? Ou quem sabe, na Theresa...
Merda, merda, merda! O que eu estou fazendo?
Não acredito que estou indo por esse caminho. Sendo uma namorada ciumenta, quando nem namorados somos... Ele disse a Theresa que sim, mas era uma brincadeira. Certo?
Me assusto quando sinto algo quente tocar minha mão.
Os olhos de Theo me estudam e ele sorri, envolve minha mão com a dele por um momento e então solta.
– Você demorou... — Ele diz.
– Não mais que o normal. — Tento parecer calma, natural... Mas nem mesmo quando estou, de fato, consigo passar isso...
– Eu pedi o jantar.
Olho para trás para a mesa.
– Eu vejo...
Então Theodor está em pé, me fazendo olhar para cima para encontrar seus olhos.
– Será que o presente é de seu agrado?
Sorrio, sentindo meu rosto todo se alargar.
– Eu adoro pandas! — Digo animada. Demais inclusive.
– Eu acho que percebi isso... Você tem um guarda-roupa bem peculiar em branco e preto. E um quadro de panda no quarto de hóspedes. E Liam tinha um urso em várias das fotos que me mostrou. Era um panda. Você que deu, não foi?
Mordo o lábio e concordo. Como ele consegue perceber essas coisas tão pequenas? E quando, diabos, ele viu meu guarda-roupa? Acho que tenho usado muitas roupas coloridas ultimamente, então...
– Será que eu devo me trocar? — Pergunto, tentando esconder o embaraço e felicidade que se entrelaçam em mim — Colocar algo mais apropriado com a decoração? — Não que eu tenha algo assim, Amy não pensou que eu pudesse precisar...
– De forma alguma. — Theo baixa os olhos, estudando meu corpo. — Está perfeita.
Mas não me sinto assim realmente. Ainda mais que ele usa uma bermuda e uma camisa branca de botões. E parece muito bem... Sinto-me um pouquinho feia aqui... Menos os pandas. Eles são a única parte boa da roupa.
E a música muda. Fico curiosa sobre de onde ela vem, então olho em volta e encontro no centro da mesa o celular dele.
– Adoro essa música... — Theo diz, chamando minha atenção de novo. Ela é mais lenta que as duas anteriores. Relaxante... — Dança comigo, Srta. Weber?
Seguro o ar por um segundo. Então concordo. Não sou fã de dançar, mas posso abrir uma exceção pela companhia...
Theo caminha para longe, de costas, até uma parte livre de móveis. Ele me estende a mão e a seguro, e posso jurar que eu sinto uma eletricidade passar através do meu corpo quando o toco. E então as borboletas no estômago se agitam de novo. Mais vivas do que nunca. E meu corpo é guiado até o dele.
Deixo minha mão esquerda descansar em seu ombro e a direita fica sobre a dele e então começamos... Lentamente, a acompanhar a melodia. Em silêncio, só aproveitando a proximidade.
Será tudo isso uma despedida? Começo a prestar atenção na letra e não posso deixar de pensar que estou certa sobre a isso.
“Quando o futuro é tão incerto...
Quando o futuro é tão obscuro...”
É um recado?
“Então você engole seu coração e você engole seu orgulho...
...Você não deve desistir dos sonhos em sua mente”
Ou um aviso?
Eu adoro estar aqui em seus braços. Não sei se estou pronta para sair e não voltar mais.
Eu sou mesmo uma boba. Sexo casual? Encontros sem compromisso? De onde eu tirei que poderia fazer isso?
Pobre tola iludida...
Me sinto despedaçar aos poucos.
Por favor, que não seja uma despedida...
Descanso minha testa entre o pescoço e o ombro de Theo, porque não quero que ele veja o quanto tudo isso me afeta. Como ele, me afeta.
Theodor não pode descobrir que o deixei entrar e se enraizar onde não deveria, e tão profundamente...
Chega de gafes por essa noite...
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