os sentidos do amor

47 Capítulo 47 – Antonio Lopez


Notas iniciais
Esse capítulo tem um personagem que ainda não sei se voltará a aparecer... é um médico interpretado pelo maravilhoso Robin Williams no filme Patch Adams, que conta a história de um homem que resolveu fazer de sua vida uma doação para ajudar as pessoas. Quem não conhece esse filme, assista, é maravilhoso. Robin Williams é, não foi, pois seus filmes estão aí pra sempre, é um dos melhores atores que o cinema já teve. Como dizem, os maiores palhaços só são assim para não deixar que nós enxerguemos sua dor. Não sei por que decidi falar do ator agora, ou colocar o personagem interpretado por ele no capítulo, mas... sei lá, acho que só agora consegui falar de sua partida. Para quem é fã dele como eu, eu peço que junto comigo, em pensamento, desejem um “esteja em paz”. OB: não estou colocando uma pessoa real na história, estou colocando um personagem de um filme, por favor moderadores do site, não excluam minha fic. Vou confessar uma coisa aqui pra vocês... choro muito escrevendo essa fic, pode parecer loucura já que a história sai da minha mente, mas de alguma forma ela mexe comigo. Bom, chega de enrolação e vamos ao capítulo, né? Espero que gostem, mas caso não, tem uma justificativa nas notas finais, por favor leiam. Boa leitura.

O que define uma pessoa como membro de uma família? É o sobrenome, o sangue, o carinho que une as pessoas, a proximidade? Acho que a resposta certa é nada disso e ao mesmo tempo tudo isso, de qualquer forma família é a base de tudo na vida de uma pessoa, é o que a fará ver mais facilmente a diferença entre certo o errado.

Após o almoço e sobremesa claro, estavam todos sentados na sala conversando quando Santana:

— Mãe, e o papai? Estou com saudades dele.

Depois de algum tempo em silêncio Maribel resolve falar:

— San... — diz se sentando ao lado da filha e segurando sua mão. — Não vejo seu pai há quase trinta dias. — fala pesarosa.

— Como assim?

— Ele saiu de casa uns meses depois que... que... — ela para de falar sentindo um nome engasgado na garganta.

—Depois que Ricardo morreu. — Hiram continua a frase para a amiga que já tem lágrimas nos olhos.

— Aquele... aquilo... morreu? — pergunta num misto de choque e alívio, mas continua: — Na verdade isso não me importa. Onde meu pai está?

— Ele não foi exatamente embora. Conte tudo Bel, desde o início. — Leroy incentiva a amiga.

— Filha... — respira fundo fechando os olhos para tomar coragem para contar sobre o marido.

— Fala mãe.

— Amor, deixe sua mãe contar, com calma. — Brittany fala para a namorada e esta volta o olhar para a mãe, em silêncio.

— Quando seu pai soube... quando ele soube o que aquele desgraçado fez a você. — fala com ódio na voz — Quando ele soube... enlouqueceu num ataque de raiva, foi ao cemitério e quebrou tudo, destruiu o túmulo daquele monstro... chamaram a polícia e ele acabou sendo preso.

— Gente, que absurdo... coitado do tio Antonio. — Rachel exclama chocada.

— Sim filha. — Hiram responde a ela. — Ele passou a noite lá, mas no dia seguinte foi solto com o pagamento de fiança.

— Mas isso foi só o começo. — Maribel completa com lágrimas de tristeza já descendo pela face. — Com o tempo ele foi se fechando começou faltar aos plantões no hospital e acabou sendo afastado pela direção... aí ele se perdeu ainda mais... parou de comer, tomar banho, não falava nem comigo mais, passava o dia no seu quarto minha filha, deitado em sua cama, segurando uma foto sua de quando era criança... — A senhora fez uma pausa pela voz embargada. — Parecia que ele havia desistido da vida... na verdade ele desistiu... se entregou de vez a toda dor que sentia por não ter cuidado de você. — Ela interrompe a narrativa entregando-se ao choro sentido por lembrar de todo sofrimento que passou ao ver o marido nesse estado.

Santana ouve a narrativa em silêncio... tinha na mente mil palavras, mas não consegue arrumá-las para formar uma frase sequer.

— Seu pai se perdeu San, ficou tão revoltado, chocado... que se perdeu. Leroy e eu íamos todos os dias para lhe dar banho e ele mal reagia. No início ele era rude, nos xingava, mandava embora ou chorava calado quando percebia a situação em que estava, mas mesmo assim... ele parou de reagir. Um tempo depois ele só chorava, era sua única reação.

— O levamos ao hospital, ele ficava internado dois ou três dias e depois o trazíamos de novo pra casa. — Leroy completa a frase do marido.

— Esse tormento durou quatro meses, até que os médicos, seus colegas de trabalho, o encaminharam pra um outro colega e ele decidiu por uma internação numa clínica psiquiatria.

— Não posso... não consigo acreditar nisso... é tudo tão... sei lá... diz que é mentira mãe, por favor. — a latina mais nova estava chocada, pedindo em súplica e sua mãe sentia novamente o peito queimar pela dor.

—É verdade cariño... ele... ele ainda está lá... ainda está internado, mas os médicos dizem que apesar de uma pequena melhora não posso vê-lo... na verdade ele não que me ver.

— Mas por quê? — Rachel pergunta cada vez mais chocada com a história.

— Ele só foi falar alguma coisa depois de três meses internado e quando falou foi pra que não me deixassem vê-lo novamente e isso já tem uns trinta dias.

— Você não tem notícias dele há um mês? — Brittany pergunta para a sogra, e assim como ela e a filha tinham lágrimas descendo pela face, Brittany também tinha.

— Notícias eu tenho, pois os médicos me passam, mas não muda muito... ele continua sem querer falar ou comer e quando o faz é por estar dopado demais pelos medicamentos.

Maribel, Santana, Brittany... todos na verdade, estavam tomados pelo choro nesse momento, uns mais contidos, outros mais entregues, mas todos com o mesmo sentimento de tristeza.

Quem conheceu Antonio antes disso sentia uma sensação de derrota lhe rasgando o peito e quem não o conhecia, como Brittany, se sentia... na verdade a loira se sentia meio que da mesma forma, pois apesar de não conhecê-lo, era sua filha que ela amava, era sua filha que estava ali ao seu lado, sofrendo pelo que aconteceu ao pai, e só de ver a mulher de sua vida assim já lhe doía imensamente o peito.

— Sinto muito por seu pai amor. — a loira diz tentando consolar a namorada, mas sabe que palavra alguma faria isso.

— Ele não é assim Britt, esse não é meu pai. Meu pai é um homem honesto, forte, decidido, chefe da cirurgia do hospital de Lima. — ela fala num misto de tristeza e raiva.

— Sim, San, tio Antonio não é assim... lembro dele nos levando para tomar sorvete...

— Não! Não fale dele como se estivesse mor... ele não é assim! ANTONIO LOPEZ NÃO É ASSIM! — ela fala alto agora, tremendo, completamente nervosa em seu assento.

— Calma cariño.

— Eu quero vê-lo. — a cantora fala decidida.

— San, não acha melhor... — Rachel tenta, mas é interrompida.

— Não acho nada melhor, a única coisa que quero agora é ver o meu pai e se não me levarem eu vou sozinha, procuro em todos os hospitais até o encontrar.

— Claro que te levamos Santana, mas você precisa se acalmar primeiro ou não te deixarão nem passar do portão. — Hiram fala carinho, porém firme.

A cantora, ainda sentada ao lado da namorada lhe lança um olhar triste e a bailarina lhe envolve nos braços, lhe apertando o máximo que pode e depois de uns minutos de choro sentido, sofrido, a latina vai se acalmando no calor dos braços de sua namorada e quando esta percebe sua melhora, fala:

— Eu vou com você bebê. Não te deixarei sozinha nem um segundo.

— Obrigada amor. — ela responde ainda abraçada à loira, com o rosto escondido no calor de seu pescoço.

— Eu te amo Santana, nunca deixaria você passar por uma coisa assim sozinha.

Todos estavam tristes... na verdade tristes não definiria bem a cena, estavam arrasados, era como se tivessem sido atropelados, e não somente quem já sabia de toda a história, quem presenciou tudo... não, todos estavam da mesma forma, com o coração destroçado.

— Como dizia minha santa mãezinha... um chá de camomila acalma os nervos e aquece os ossos. Vou preparar. — Leroy fala triste, mas tentando fazer o mínimo para levantar o astral do grupo e se encaminha para a cozinha.

***

Depois de uns minutos...

— Você nos leva? — Maribel pergunta para Hiram.

— Não mãe, fique aqui. Você já passou por muita coisa sozinha e o papai não...

— Eu vou com elas e Hiram, tia. — Quinn pela primeira vez se pronuncia e faz isso antes que Santana falasse que Antonio não queria ver a própria esposa... a senhora sabia disso, claro, mas ter isso lançado assim no meio de uma conversa, com os sentimentos mexidos, poderia doer muito mais do que já doía.

— Mas...

— Maribel. — Brittany se levanta e ajoelha em frente a sogra falando enquanto olha profundamente em seus olhos. — Eu concordo com a San, melhor você ficar aqui, eu cuido dela, prometo. Confie em mim agora da mesma forma que confiou ontem quando conversamos.

— Ok, eu fico.

— Mesmo?

— Sim... você é o melhor presente que minha filha poderia ganhar, Brittany. Obrigada por amá-la tanto assim. — responde pegando a mão da nora que lhe olha com carinho, um pouco tímida pelo elogio.

Santana interrompe a interação entre sogra e nora e pergunta:

— Mãe, você disse que papai ficava em minha cama quando... é... vocês mantiveram meu quarto?

— Sim.

— Do mesmo jeito que eu deixei quando saí daqui?

— Sim carinho, seu quarto continua lá, do mesmo jeitinho que você o deixou.

— Posso ir lá pegar uma coisa?

— É o seu quarto, filha. — ela fala entregando as chaves de casa na mão de Santana e esta segue de mãos dadas com a namorada deixando todos curiosos na sala, mas sem forças nem para perguntar o que ela iria buscar.

***

Parada na porta de seu antigo quarto, com a mão na maçaneta, Santana fala baixinho, quase num sussurro, com os olhos fechados:

— Vou te trazer para casa pai, prometo.

Brittany observa a namorada em silêncio, admirada pela certeza em suas palavras.

Segundos depois a morena abre a porta e sem pensar vai em direção a seu guarda roupas, abrindo uma das portas e retirando um fundo falso de uma das gavetas.

Brittany adentra uns passos e fica encantada ao ver o quarto da sua namorada... não encantada por ser um quarto fora do comum, mas por estar ali, sentindo a energia do ambiente, a energia de uma época em que nem conhecia a morena... e parada, naquele momento, inalando aquele ar, é como se pudesse se sentir parte de um passado que não existiu entre elas, um passado do qual ela queria ter feito parte, num desejo de que, talvez, tudo pudesse ter sido diferente para a amada se ela estivesse presente. Não era pretensão esse pensamento de Brittany, era somente o desejo de ter tido a chance de cuidar, proteger Santana a vida toda.

— Vamos? — a morena a tira de seus pensamentos e Brittany repara que em suas mãos ela carrega um objeto mais ou menos do tamanho de uma caixa de sapatos, embrulhado em papel pardo, mas apenas olha e não pergunta nada sobre o pacote.

***

De volta à casa dos Berrys...

— Vou trazer o papai pra casa mãe. Tudo ficará bem, tá? — recebe um abraço e um “te amo” da mãe e segue para a garagem entrando no carro, acompanhada dos outros três.

***

Hiram ao volante fazia o trajeto até o hospital em silêncio com Quinn da mesma forma ao seu lado, no banco do carona e Brittany e Santana no banco de trás... a morena, sentada perto da namorada, segurava em sua mão esquerda sentindo os dedos de sua amada entrelaçados firmes aos seus e com a mão esquerda alisava a superfície do embrulho retangular que trazia no colo. Brittany lhe enviava um olhar carinhoso a cada segundo, e em resposta ganhava um leve sorriso dos lábios de Santana.

Quando enfim chegaram ao hospital, vários minutos depois, Hiram como de costume, após passar pelo segurança do portão, chegou à recepção e pediu para falar com Dr Adams que era o médico que cuidava de Antonio.

Os quatro foram encaminhados para uma sala de espera e poucos minutos depois a secretária do doutor avisou que ele poderia entrar e foi o que ele fez, deixando Santana sentada entre as duas loiras na sala de espera. Elas permanecem em silêncio, mas não um silêncio desconfortável, apenas sabiam que nada precisava se dito.

Um tempo depois, que pareceu uma eternidade para as três que esperavam, Hiram volta com o médico, um homem que aparentemente não se parecia com um profissional da saúde, pois não se vestia como um. Ele trajava uma calça jeans verde e uma camisa florida e nos pés, por incrível que pareça, chinelos simples. Era um homem de estatura mediana e feições doces, serenas, com olhar suave, diferente da visão dura e austera que os médicos normalmente têm. Ele se aproxima das três e se agacha em frente à morena.

— Então você é a Santana?! — ela apenas balança a cabeça num sim. — Estava ansioso para conhecê-la.

— Posso vê-lo? — ela pergunta não dando importância para o que ele falou.

— Claro que pode, mas antes deixe-me falar... — faz uma pausa e repousa as mãos nos joelhos da morena, que lhe olha atenta. — Antonio chama seu nome todas as noites nas duas últimas semanas e em nossa sessão há três dias ele me disse a frase mais longa desde que veio pra cá: “Santana é meu maior presente e infelizmente eu a perdi”. Mas ele não perdeu não é? — pergunta com um sorriso doce nos lábios.

— Eu vim aqui para levar meu pai pra casa. — fala decidida, encontrando ternura nos olhos do médico.

— Ele está lá no jardim sentado na sombra de uma árvore, como faz todos os dias... pode ir lá, na verdade podem ir lá, todos vocês.

— Obrigada doutor. — Brittany fala se levantando.

— Patch. Me chame de Patch. — pede gentil.

E os quatro seguem para o jardim...

Depois de poucos segundos, já do lado de fora do hospital, de longe, Santana avista seu pai exatamente da mesma forma que o médico havia dito que ele estaria. E mesmo ali, à distância, ela percebe o quão envelhecido seu pai está. Para após alguns passos na grama e olha para os outros três, falando:

— Vocês se importam em me esperar aqui?

— Tem certeza San? — Quinn pergunta parando ao seu lado.

— Tenho sim, quero apenas... sei lá, não quero assustá-lo. Não sei como será sua reação ao me ver... acho que será melhor assim.

— Tudo bem minha querida, esperamos aqui. — Hiram fala se encaminhando para um banco próximo de onde estavam.

— Tudo bem pra você amor? — a latina pergunta à namorada.

— O que estiver bem pra você estará pra mim, meu amor.

— Obrigada. — responde selando os lábios aos da loira e lhe dando um abraço apertado em seguida que foi retribuído com todo amor que a loira sentia por ela, numa troca de energias boas, que era o que precisavam no momento.

Santana permanece parada ainda no mesmo lugar e somente quando volta a se mover que Brittany se afasta, indo para junto de Hiram e da prima.

O dia estava naquele finalzinho de tarde, aquele sol quentinho, gostoso, que aquece mais que as superfícies, aquece o interior das coisas... aquele calor que nos alcança por dentro e nos relaxa, nos acalma, nos fazendo por um segundo sentir que tudo pode ser maravilhoso.

A latina segue a passos lentos e quando estava mais ou menos no meio do caminho resolve tirar o tênis e colocar os pés na grama... ao fazer isso sente um calor irradiar de seu peito e uma lembrança lhe vem a mente... devia ter uns cinco anos e seu pai a levou a uma praça para tomarem soverte... era véspera de seu primeiro dia na escola e ela estava ansiosa, nervosa, com medo... quando se sentaram no chão com o sorvete em mãos, seu pai tirou seus próprios sapatos e em seguida os tênis da filha, colocando-os depois, arrumados ao seu lado.

“toda vez que se sentir assustada, insegura... tire os calçados e fique com os pés descalços na grama. Isso nos relaxa, nos ajuda a pensar e conseguimos assim nos decidir sobre o que fazer”.

Ela se lembra desse dia com o pai e uma lágrima lhe desce a face, mas não era uma lágrima de tristeza, era apenas uma saudade gostosa de um tempo em que as coisas não doíam... fecha os olhos por uns segundos respirando fundo e sentindo que agora ela sabia como chegar a seu velho pai... e assim ela segue, com o embrulho nas mãos e com muito, muito amor em seu coração.

Notas finais
O mundo dá voltas, a vida dá voltas... a gente se desequilibra e acaba caindo, se machucando... mas fazer o que se tudo não passa de uma grande merda? O que fazer se tudo acontece de uma forma diferente daquilo que queríamos? Não importa quem falou o que e de que forma quando o fim chega, nada importa na verdade, tudo que fica é a droga de uma dor que parece não ter fim, e que muitas vezes não tem mesmo. Pois é, não está fácil, não mesmo, mas querem saber? Dane-se tudo que faz o coração doer... quer machucar, fazer sofrer, sangrar, matar? Dane-se. DANE-SE! Vou configurar essa merda no piloto automático e dane-se. Sim, estou de péssimo humor, cansada, deprimida, irritada... tão triste que sinto dor física... estou uma grande bosta sentimentalmente falando. Se o capítulo não ficou do agrado vocês já sabem o motivo.