os sentidos do amor
45 Capítulo 45 – madrugada
Notas iniciais
Algumas coisas acontecem em nossa vida pra nos virar a cabeça, pra nos deixar loucos, com pensamentos de que as pessoas não valem a pena, não merecem nosso repeito, que na realidade não passam de seres desprezíveis, mas aí por um segundo pensamos na gente mesmo e vemos que se nos importamos com tantas coisas tristes que acontecem por aí, se ficamos chocados com tanta desgraça e maldade, é porque somos, mesmo que minimamente, uma boa pessoa e aí buscamos dentro de nós aquele fiozinho de esperança de que as pessoas tem salvação, de que merecem ao menos nosso voto de confiança, e quando nos abrimos para essa esperança, quando começamos essa busca de algo bom nas pessoas, acabamos percebendo que quem está ou esteve perto de nós tinha tudo aquilo de bom que nossos olhos decepcionados não nos permitiam enxergar, e nesse momento, aquele pontinho distante que tínhamos em nosso peito, vira um gigante e nos vemos admirando as pessoas novamente... algumas delas pelo menos.
Santana, após algumas horas de um sono tranquilo acorda no meio da madrugada e fica recordando de tudo que já viveu até o momento, mas agora, diferente das outras vezes que fazia isso, ela pensa apenas nas coisas boas que lhe aconteceram. Sua primeira lembrança é, talvez, sobre Rachel e ela sorri com a imagem que se forma em sua cabeça, uma garotinha de 5 anos, cabelos divididos ao meio preso em duas “maria chiquinhas”, franja, um vestido rosa com um sinto num tom um pouco mais escuro e um sapatinho daqueles tipo de boneca nos pés, na mesma cor do cinto. Na visão de Santana que era uma criança que vivia de pés nos chão, short, camiseta e um rabo de cavalo meio frouxo, Rachel não parecia real, parecia uma boneca, mas essa sua primeira impressão passou como um cometa quando a “boneca” abriu a boca para lhe cumprimentar e não fechou mais. Ela agora ali deitada lembra que nesse mesmo dia quando foi se deitar para dormir, tinha, ainda, a voz de Rachel ecoando em sua cabeça.
Mais algumas memórias lhe vieram à mente e em todas elas Rachel estava presente. Era uma sensação meio conturbada que Santana sentia nesse momento, pois era bom saber que a amiga esteve ao seu lado o tempo todo, mas por outro lado ela se sentia meio triste, pois não soube aproveitar essa companhia.
Santana estava ainda perdida em lembranças quando ouve barulho de passos no corredor e automaticamente se levanta da cama para ir ver quem é, mas não sem antes deixar um beijo delicado na testa da namorada que dorme tranquila ao seu lado na cama... ao abrir a porta de seu quarto ela percebe que a luz do andar de baixo está acesa, provavelmente alguém na cozinha e como ela está com sede desce as escadas evitando fazer barulho ao andar. A visão que encontra ao terminar de descer os degraus é tão hilária que ela não se controla e solta uma risada alta.
— Ai que susto Santana! — Rachel se vira num salto, saindo de frente da geladeira com um prato e uma colher nas mãos.
— Eu tinha certeza que era você que estaria aqui. — a latina fala divertida por ter pego a amiga nessa situação.
Quando eram crianças e Santana ia dormir em sua casa, Rachel no meio da madrugada levantava de sua cama para assaltar a geladeira e comia as sobremesas deliciosas que seus pais faziam, e como na infância, ela agora estava de pijamas, com um roupão por cima e nos pés uma pantufa rosa e se não bastasse a prova de seu crime em suas mãos, nos lábios ela tinha vestígios da torta holandesa que acabaram por nem comer após o almoço.
— Se você prometer não contar nada eu te dou um pedaço. — ela tenta subornar Santana, falando baixo para não acordar o resto da casa.
— Eu não acredito nisso... quer me comprar com um pedaço de torta? Acha que sou aquela menininha que de vez em quando caia nas suas chantagens? — Rachel levanta os ombros em sinal de dúvida. — Está muito enganada Rachel Safada Berry, dessa vez não vai me comprar com um pedaço não... eu quero dois. — ela termina de falar e vai, na pontinha dos pés, para o armário pegar um prato e uma colher.
— E ainda tem coragem de falar que a safada sou eu?
— Claro, você que tentou me subornar, eu apenas dei meu preço. — diz séria, mas segundos depois ela e Rachel estão entregues à gargalhadas.
Sabe, criança quando quieta é sinal de duas coisas: ou estão dormindo ou o mais provável, estão aprontando alguma! Pois então, essa era a cena das duas na cozinha, no silêncio da madrugada, sentadas à mesa comendo escondidas.
— Sabe Rachel, eu acordei pouco antes de te ouvir andando no corredor e... sei lá, comecei me lembrar de tantas coisas da minha vida.
— Oh San... — ela tenta consolá-la por pensar que poderiam ser coisas ruins.
— Não Rach, relaxa, estava me lembrando de coisas boas, de quando nos conhecemos, de nosso primeiro dia na escola, de tantas brincadeiras e brigas, claro, de quando fui morar em New York e você chegou como um tufão em meu apartamento. — elas riem com essa lembrança. — Passei tantos anos fechada dentro de mim mesma que não vi o presente que Deus ou a vida havia me dado. Sério, como eu pude ter sido tão cega? — Rachel que havia deixado sua colher no prato quando a amiga começou falar, agora tentava disfarçar as lágrimas de emoção por Santana estar falando das lembranças boas que tinha delas... e a cantora continua após uma breve pausa: — Como eu pude perder tanto tempo sem sentir isso? Como eu aguentei tantos anos longe dessa maravilha de torta?
— Ah sua viada... palhaça. Eu aqui pensando que estava se referindo a nossa amizade. — Rachel fala lhe desferindo um tapa no braço por ter sido enganada tão facilmente e novamente Santana cai na gargalhada.
— Te peguei de novo marcha lenta. — ela ri cada vez mais da cara que a amiga faz. — Claro que estava falando da gente Rach, mas não tem como resistir a uma pegadinha com você.
— Sem graça. — fala fingindo-se de ofendida, mas não consegue isso por muito tempo e ri divertida junto à amiga.
— Ai, está doendo já. — ela fala passando a mão na barriga, agora dolorida pelo tanto que riu. — Falando sério agora... sei que já conversamos sobre isso ontem, mas eu queria te agradecer novamente por ter estado presente em minha vida esses anos todos.
— Que isso San, não agradeça por isso, somos amigas.
— Sei que somos, mas eu não aproveitei isso da melhor maneira... poderia ter sido tão mais... sei lá, mais fácil pra você. Em todas as minhas lembranças felizes você está presente, e como agradecimento eu só lhe tratei mal.
— Olha San, não pensa nisso agora, tudo já passou. Eu estive ao seu lado, pois te amo com todo meu coração, e... quer saber? Já sei como você pode me pagar isso.
— Como? — pergunta curiosa.
— Amanhã... — ela fala bem baixinho, se aproximando da latina — ... quando meus pais acordarem e certamente vierem dar uma bronca em mim pela sobremesa ter acabado, você diz que foi você e me livra dessa.
— Ah engraçadinha! Acha que por apenas dois míseros pedaços eu vou assumir essa culpa?
— Te dou mais dois. Que tal? — pergunta já se levantando da cadeira para voltar à travessa na geladeira.
— Bonito isso hein? — Quinn fala séria pegando-as no pulo ao adentrar a cozinha sendo seguida por Brittany que assim como ela tem os braços cruzados em frente o corpo.
— Já era seu plano, Rach. — Santana fala tranquila, voltando a seu prato.
— Não acredito que você me largou no meio da noite pra vir comer, Sra. Rachel Berry Fabray.
— Vem cá meu amor, senta aqui comigo e vem comer. Os pais da Rachel são os melhores que conheço na cozinha. — Santana chama sua loira e esta se aproxima lhe dando um selinho e em seguida se sentando em seu colo para ganhar uma colherada, na boca, com a torta.
— Isso loira, vem cá comer com a gente, está uma delícia.
— Mas essa minha mulher é uma safada mesmo viu?! Quer se livrar da bronca me oferecendo um pedaço de torta?! — Quinn fala ainda de braços cruzados, tentando fazer cara de brava.
— Eu ela comprou com quatro pedaços. — a latina fala pra provocar a amiga.
— Ah sua traidora. É assim então, vai ficar me entregando é?
— Entregando, eu? Imagina, estou aqui quietinha. — Santana responde cínica.
— Alguém precisa dar um jeito em você né amor? — Quinn fala para a esposa, mostrando estar de acordo com a atitude de Santana ao entregá-la.
— Vai ficar contra mim loira, poxa, magoei. — termina fazendo biquinho. — Me salva Britt. — pede à amiga.
— Eu não, vocês podem ficar aí discutindo enquanto eu como. Esta torta holandesa está uma delícia, é a melhor que já comi na minha vida, é quase um pecado de tão boa. — Brittany fala de boca cheia limpando o prato.
— Calma aí... e eu fico sem por acaso? Me rendo vai. — Quinn fala se sentando ao lado da esposa e comendo com sua colher.
E assim elas passam o restante da madrugada, num momento de tal descontração, que parece que fizeram isso por anos... só voltam para os quartos quando o dia está amanhecendo e, na pia, os indícios do crime, pratos, colheres e a travessa que há alguns instantes continha a sobremesa feita pelo Srs. Berry.
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