Zombie Walk

4 Capítulo 4 - Fuga do esgoto.


Notas iniciais
Só uma coisa a dizer: quem shippa Mattizzy vai ficar feliz x3

Lentamente, abro meus olhos. Eu não precisava sequer enxergar para saber que ainda estávamos naquele esgoto. O fedor já entregava o lugar.

Não lembrava de muita coisa da noite passada. Então tentei rever os fatos.

Levei um tiro da arma acoplada ao braço de Tiranus, acho.

Lentamente, a ponta de meus dedos percorreram minha perna direita, e por cima da meia-calça — que era de um tecido grosso -, pude sentir a cicatriz. Matt havia removido a bala e costurado o ferimento.

Fomos obrigados a sair do nosso galpão porque zumbis atacaram, por algum motivo, aquele local. Mikaella e Luke se perderam em algum lugar. Eu e Matt estamos sozinhos, então. Sozinhos nesse esgoto, que era o único local onde conseguimos escapar de Tiranus.

Espero que seja só. Pois não lembro de nada.

Eu estou morrendo de sono na verdade, por isso não lembro de nada. Faz semanas que eu não durmo. Desde que o apocalipse começou, não consigo pregar os olhos de noite. E está assim faz uma semana.

Mas eu pude dormir ali, naquele esgoto. Meu rosto tinha sono e leves olheiras, mas pude dormir maravilhosamente bem. Então, percebi.

Eu havia dormido nos braços dele.

Isso. Me lembrei. Depois de Matt costurar meu machucado, ele disse algo sobre não deixar mais ninguém morrer. Então, ele tinha me abraçado. E eu dormi ali.

Eu realmente estava com tanto sono que não reparei minha cabeça pousada em seu peito, nem mesmo senti seus dedos frios próximos da minha cintura.

Estávamos tão próximos que eu podia ouvir o som do seu coração batendo.

Lentamente, ergui a cabeça, segurei as mãos dele, as afastei de mim e me sentei. Se continuasse deitada, dormiria novamente.

Fiquei observando um rato caminhar pela pedra.

"Eu te invejo" penso. E era verdade. Ele não tinha que se preocupar com zumbis atrás dele. Pois eles nunca abririam uma tampa de boeiro apenas pra atacar pobres e indefesos ratinhos.

Eu os invejo agora, pois eles não tem que temer o horror de morrer a qualquer momento. Até mesmo agora.

Coloquei uma mão na parede do esgoto. Iria pôr-me de pé. Minha perna ainda doía, mas não sentei novamente. Eu me agarrava a parede, equilibrando-me.

- Você não deveria ficar em pé — me assustei com a voz. Mas era apenas Matt.

- Você estava acordado? — Perguntei.

- Estava te vendo tentar dar uma de machona e ficar de pé com a perna assim. — Ele agora estava de pernas cruzadas, me encarando. O cabelo que era preso em rabo-de-cavalo, devido ao seu tamanho, agora estava solto. O elástico que usava para prende-lo estava em seu pulso.

Admirei-me com seu cabelo. Matt era naturalmente ruivo, Luke me contou.

Seus cabelos ruivos eram de um avermelhado nem escuro, nem vivos. Eles escondiam sua nuca, quase indo até seus ombros. E eram totalmente bagunçados. A franja que quase escondia seus olhos cor de esmeralda parecia ser ainda mais bagunçada.

Tinha que admitir. Matt era realmente um dos garotos mais bonitos que eu já conhecera.

- Não fique em pé — disse ele, retirando o elástico do pulso. Ergueu os braços e novamente, seu cabelo estava preso num rabo-de-cavalo baixo e bagunçado. — Isso vai piorar o machucado. Chega de ser macha — ele segurou a barra da minha blusa, me puxando pra baixo.

Quando o fez, perdi o equilíbrio. Acabei caindo em cima dele. Ele me segurou pela cintura, e eu apoiava as mãos no chão para não cair de cabeça em cima dele, que estava deitado no chão.

O ruivo sorriu. Fiquei encarando seus olhos verdes como esmeraldas. Nossos rostos a alguns centímetros de distância. Isso me fez corar.

- Certo, chega — ele riu e me levantou pela cintura. Ficamos em pé, um encarando o outro. — Agora você fica ai em baixo — e ele me empurrou novamente para o chão. — Olha, não fique se levantando toda hora. Você não precisa provar pra si mesma que pode ficar de pé com isso na perna. Nem mesmos os homens mais fortes aguentariam isso. E... tente não mover tanto a perna. Algumas pessoas não sabem, mas quanto menos movibilidade, melhor a cicatrização — ele sorriu. Retirou sua jaqueta preta de couro e a colocou sobre meus ombros. — Fica com ela, caso você fique com frio. E... — ele pegou o kit de primeiros socorros que eu apanhei no mercado e colocou ao meu lado. Na mochila dele, pegou um cartucho de balas e colocou nos dois revólveres que tinha.

- Você vai a algum lugar? — Me vi perguntando. Era óbvio que a resposta era sim...

- Vou — respondeu ele. — Procurar meu irmão.

- E a Mikaella?

- Meu irmão e ela — corrigiu-se. — Eu volto logo.

- Mas e se o Tiranus aparecer? Só porque ficamos a salvo ontem a noite não significa que ele não vá aparecer hoje...

- Se isso acontecer, corra. Fuja. Ignore o que eu falei sobre sua perna e fuja dele. Me esqueça se eu não tiver voltado. Salve sua vida que depois eu te encontro.

- Mas...

- Eu vou voltar.

- Matt...

- Eu vou ficar vivo.

- Mas é que...

- E eu não vou deixar nem você, nem meu irmão e nem a loira morrerem. Nem vocês, nem ninguém. Entendeu? — Ele se agachou diante de mim.

- Mas Ma-- — minhas palavras foram interrompidas, assim como o ar.

Matt estava me beijando.

Certo, não era exatamente um beijo, como daqueles de cinema.

Era apenas um selinho.

Mas não deixava ser um beijo.

E aquela fora o selinho mais longo que eu já recebi na vida.

- Pois é, meu pai tinha razão quando disse que as mulhares sempre calavam a boca quando ele fazia isso — o ruivo riu logo após se afastar de mim, apesar de ter o rosto levemente corado. Levantou-se. — Tente não pensar muito nesse pequeno beijo, ouviu? Já falei que meu coração pertence a Sheila. Claro, vai ser difícil, já que com certeza sou o menino mais legal, incrível, cativante e bonito que você já viu em toda a sua vida — nós rimos juntos. Ele começou a andar quando o chamei.

- Matt — ele se virou e me olhou. — Tome cuidado... por favor — quase sussurrei. Ele abriu um sorriso e disse:

- E você, me prometa que vai ficar viva. — Assenti com a cabeça em concordância.

Logo, o perdi do meu campo de visão quando ele sumiu pelo caminho que era quase um labirinto nos canos de esgosto.

Fiquei ali, sentada naquela pedra fria. Se a água não estivesse tão suja, eu poderia ir tomar banho ali.

Obervei outro rato caminhar. As pessoas tinham nojo deles, mas sempre os achei uma graça. Deixei minha mão em seu caminho, e ele ficou em cima da palma. Sorri, fechei leve e cuidadosamente a mão e observei o pequeno animal. Um rato preto. Um pelo brilhante.

E um barulho de tremor me fez abrir a mão, deixando o roedor cair no chão e fugir. Olhei na direção de onde ouvi o som. O rato correu para lá e fugiu de meus olhos.

Então escutei tiros. Tiros de uma metralhadora.

Um grande barulho de queda, metralhadora...

Tiranus.

Congelei. Senti o suor frio descer por minha nuca. Minha barriga embrulhava. Ele estava apenas a alguns metros de distância de mim.

Eu acabaria tendo o mesmo destino daquele ratinho preto, que tristemente, deve ter entrado no caminho do gigante.

Olhei para o kit de primeiros socorros ao lado do meu pé.

"Mas e se o Tiranus aparecer? Só porque ficamos a salvo ontem a noite não significa que ele não vá aparecer hoje...

Se isso acontecer, corra. Fuja. Ignore o que eu falei sobre sua perna e fuja dele. Me esqueça se eu não tiver voltado. Salve sua vida que depois eu te encontro". Essas palavras ecoavam em minha mente. "Me esqueça se eu não tiver voltado. Salve sua vida que depois eu te encontro" foi o que Matt me pedira para fazer.

Ele disse que me encontraria se eu não estivesse ali.

Talvez encontrasse, se eu conseguisse mover meus membros e fugir dali. Ouvia os passos de Tiranus chegando mais perto. Olhei para a água do esgoto. Será que era fundo o suficiente?

Enfiei os primeiros socorros dentro da minha mochila e a segurei.

Se ela ficasse nas minhas costas, provavelmente eu a perderia.

Eu nunca fui a melhor nadadora do mundo, e provavelmente seria pior com a perna naquele estado. Mas eu não tinha escolha, afinal.

Só tive tempo de rezar para que a água fosse funda o suficiente apenas para me cobrir. Escorreguei lentamente da pedra e cai dentro da água suja. Graças a Deus, eu não era uma patricinha que tinha nojo desse local.

Abri meus olhos. Suja ou não, água era água e eu tinha que enxergar meu caminho para a liberdade.

Não era fundo. Era o suficiente para me esconder. Logo, vi as botas de Tiranus pisando na água. Congelei. Se me movesse, ele provavelmente me veria. O jeito ela ficar ali encolhida na pedra, abraçada com minha mochila, protegendo o que tinha dentro.

Tiranus quase esmagou meu pé.

Pisou tão perto de mim, com aqueles pés gigantes, que se eu não tivesse recolhido a perna logo, definitivamente não iria mais conseguir andar.

"Fique quieta fique quieta fique quieta" eu pensava. Eu estava com medo de Tiranus.

Mas não foi pior do que o que senti depois; vários zumbis apareceram atrás dele, como se fosse um rei poderoso — e eu achava que ele era, sim -, olhando para todos os cantos, me procurando.

Se já não estivesse fazendo isso, iria segurar a respiração. Me surpreendi de nenhum deles ainda não ter me visto, pois meu coração batia com tal velocidade que eu mesma podia escutá-lo, como se batesse bem ao lado do meu ouvido.

"Tiranus sabe escutar bem" Matt me falara uma vez. Eu engoli em seco.

Bem, não tinha como ele poder ouvir meu coração batendo. Isso era impossível. Eu tinha que me acalmar.

E me acalmaria, se o gigante não tivesse parado, olhado exatamente para onde eu estava e apontado a arma para mim.

Pessoas de filmes de terror sentiriam medo e ficariam ali pra virarem um queijo suiço.

Eu rolei para o lado e senti a bala da metralhadora dele pegar uma mecha do meu cabelo.

Me levantei rápido — com um pouco de dificuldade por causa da perna -, peguei minha katana, coloquei a mochila nas costas e corri.

Corri, abrindo espaço entre os zumbis que me cercavam.

Cortava cabeças. Braços. Pernas.

E até mesmo, cortava-os ao meio (vertical e horizontalmente).

Por sorte, eu era rápida o suficiente para tirar quelas coisas mortas do meu caminho. E eles, idiotas o suficiente para ficarem atrás de mim, servindo de escudo das balas que Tiranus atirava na minha direção.

Mas, por um puro azar, uma delas acabou acertando a minha mão. A direita.

A mão que eu usava para empunhar a katana.

Ela caiu no chão molhado automáticamente. Mas eu não tinha tempo pra sentir dor. Com a esquerda, recuperei a espada. Me abaixei pra escapar dos tiros, e depois corri mais.

Seria difícil matar qualquer coisa viva — ou morta — segurando a katana com a mão esquerda, mas era melhor do que estar desarmada.

O machucado da minha perna latejava, e acabei tropeçando, caindo de cara na água.

Um golpe de sorte, pois se não tivesse acontecido, seriam as balas da metralhadora de Tiranus que me fariam cair.

Me levantei e corri. Talvez não tivesse mais zumbis vindo na minha direção, já que agora, eles estavam apenas correndo atrás de mim. Nenhum na minha frente.

Pois é, eu tenho que me lembrar que "talvez" não é uma certeza.

Vi zumbis caindo dentro do esgoto, pelo buraco em que eu e Matt passamos, quando avistei a escada.

Eu nunca conseguiria chegar até ela. Os zumbis chegariam até mim antes. Mas por sorte, aquele lugar era quase um labirinto.

Virei à esquerda, onde tinha outro túnel. Escutei passos na água, e um leve tremor se aproximando, que óbviamente vinha dos pés de Tiranus.

A cada passo dado, meu ritmo desacelerava.

"Maldita perna" pensei. Minha mão doía de mais, e não parava de sangrar, também.

Rapidamente, mordi a lâmina da katana, segurando-a pela boca. Tirei a mochila e a passei pela cabeça. Era desconfortável por causa da katana, mas não tinha tempo pra reclamar. Tirei minha jaqueta e a amarrei na palma da minha mão, tentando conter o sangue. Arrumei a mochila e peguei a espada novamente. Tudo isso ainda correndo.

Mas agora, eu estava práticamente andando. Eu sabia, morreria ali mesmo. Parei de me mover e fechei os olhos, esperando a morte.

"E você, me prometa que vai ficar viva."

Essas palavras ecoaram em minha mente, me fazendo abrir os olhos novamente. Foi o que Matt me falara. E eu prometi que ficaria viva.

Por ele.

Os passos se aproximavam, mas eu tinha que fugir até não poder mais.

Respirei fundo e corri mais uma vez. Corri como se não houvesse o amanhã.

Talvez não houvesse, mesmo.

Agora, eu já havia guardado a katana, e me apoiava na parede com a mão esquerda, quase caindo. Estava cansada de mais.

Logo, virei para a direita em um dos túneis do esgoto. E no final dele, avistei uma escada.

"Liberdade" pensei. Corri loucamente até ela.

Mas... como eu poderia subir nela? Minha mão e minha perna estavam uma merda.

Respirei fundo. Eu prometi que ficaria viva, então teria que aguentar.

Segurei uma barra de metal da escada com a mão esquerda. Levantei a perna direita para me apoiar nela. Lentamente, segurei a outra barra com a mão direita. E começei a subir.

Eu gemia de dor.

O sangue escorria por baixo do tecido da minha jaqueta. Aquilo doía de mais. Porém, eu deveria ignorar tudo.

Subi toda a escada. Com a mão esquerda — a outra pressionada fortemente na barra, o que me fez morder o lábio inferior pra não gritar de dor -, empurrei a tampa do boeiro.

Voltei à rua. Graças a Deus estava deserta. Novamente fechei o boeiro. Me daria um pequeno tempo.

Corri novamente. Eu estava totalmente perdida, agora.

Eu nunca, em toda a minha vida, havia passado por aquela parte da cidade.

Havia mais casas do que apartamentos. Na verdade, apenas casas. Todas com grama mais alta do que os muros. Com certeza, era um local abandonado até mesmo pelo prefeito.

Peguei a jaqueta de Matt, que estava dentro da minha mochila, e a coloquei. Enquanto isso, olhei em volta, observando cada uma das casas.

Vi que o portão de uma das casas velhas e imundas estava entreaberto. Sorri. Seria meu esconderijo.

Abri com todo cuidado aquela pequena grade. Ela não parecia tão envelhecida, já que não fez nenhum barulho.

Bom, não importava.

Vi que a porta estava destrancada, então entrei naquela casa, fechando a porta novamente.

Saquei a katana e andei lentamente pelo local. Não tinha ninguém na cozinha nem na sala. Subi as escadas, vagarosamente.

Aquilo me assustava. O local estava completamente silencioso.

Pelo menos, o cheiro de lá era um pouco melhor que o do esgoto.

Chutei devagar a porta de um dos quatro quartos que tinha no segundo andar. Todas as portas da casa pareciam estar fechadas, porém destrancadas. Sorte ou armadilha?

Sorte, talvez.

Era um quarto de casal. As janelas, como era possível ver do jardim, estavam fechadas. A cama parecia estranhamente arrumada, como se alguém, a alguns minutos, a tivesse arrumado.

Não tinha nenhuma dobra na coberta branca.

Branca, e inteiramente limpa.

Estreitei os olhos, desconfiada. Parecia que alguém ainda morava ali, e que tinha acabado de lavar aquela coberta, arrumar a cama.

Eu não havia percebido, mas tudo naquela casa parecia estar em perfeita ordem.

Aquilo não era sorte, afinal.

Mais uma vez, relembrei a mim mesma que "talvez" não é uma certeza.

Eu iria embora dali. Quando começei a me virar, senti algo chutando minhas costas com força, me fazendo cair no chão e derrubar minha espada.

Ouvi passos. Quando tentei me colocar de pé, mãos me agarraram por trás e colocaram um saco em minha cabeça.

O dono das mãos pareceu dar um passo para a direita. Então, sinto algo pesado e frio — talvez uma arma — bater em minha nuca com força.

A pequena luz que passava pelo saco marrom — que provavelmente era a luneta de uma arma — começou a embaçar rapidamente. As mãos se soltaram de mim e eu tentava me mantar de pé.

Quando caio, sinto o meu rosto coberto contra o chão arcapetado azul daquele quarto. Então...

começo a perder os sentidos.

Notas finais
Well, ficou bom? Aposto que gostaram do início Mattizzy u.u
Bem, quem será que pegou a Izzy naquela casa? Mandem reviews o/