Y.o.u.t.h.

6 Keep Holding On


Notas iniciais
Deve estar meio tarde para perguntar, mas você já assistiu ao trailer de "Y.O.U.T.H."? ( http://thesecretfanficwriter.tumblr.com/post/146152972174/youth-fanfic-trailer ) Já ouviu a playlist com todas as canções que dão título aos capítulos? ( http://thesecretfanficwriter.tumblr.com/post/146152945209/youth ) Dê uma passadinha lá quando tiver tempo ;) Espero que goste do capítulo!

Os dias se passaram, e os hematomas de Carol desapareceram, de forma que, para a alegria de Ethan, ela voltou a trabalhar normalmente. A cada dia mais sorridente, ele pensava: “Agora nada pode tirar você de mim”. Mal sabia o quão enganado estava.

Uma semana depois que Carol voltara a frequentar a biblioteca, houve um incidente. De repente, o oitavo dia sem um incidente tornara-se o zero novamente. Carol não apareceu na biblioteca, e Ethan deduziu o pior: aquele maldito homem a havia machucado novamente.

O garoto passou a tarde inteira tentando calar a raiva que sentia, especialmente quando foi contar histórias às crianças, como estava acostumado a fazer quando Carol se ausentava.

Ele sabia que quando os machucados dela estavam demasiadamente à mostra, ela precisava passar alguns dias em casa, por ordens de Heather, mas ao fim da primeira semana em que ela estivera ausente, como não telefonara nem tentara contatá-lo ou falar com Heather, sua preocupação o venceu, e ele não suportou mais ficar parado.

— Precisa me dar o endereço dela – Ethan pediu a Heather, pondo as mãos sobre o balcão.

— Você sabe que não posso fazer isso – ela respondeu, sem cessar suas atividades.

— Alguém precisa se certificar de que ela está bem!

— Ethan, não insista.

Teimoso como era, ele não deu o braço a torcer tão facilmente, de forma que a discussão continuou por significativos minutos.

— Você sabe que pode acabar causando problemas para ela, não sabe? – aquele argumento o calou – Olha, Carol é minha amiga, e você sabe disso. Estou tão preocupada com ela quanto você, e também quero ter certeza de que ela está bem, mas... – ela fez uma pausa, incerta sobre se devia ou não compartilhar aquela informação com ele – Mas Ed, o vagabundo que ela chama de marido, é um homem louco. Se sua presença o desagradar, só Deus sabe o que ele é capaz de fazer com Carol.

O cérebro de Ethan funcionava a toda a velocidade, tentando raciocinar, tentando achar uma solução para aquele problema.

— Ok, então – ele cedeu – Você tem razão. Mas se esse homem é tão louco quanto você diz, precisamos nos certificar de que ela está bem. Vamos dar a Carol mais um dia. Se amanhã ela não aparecer, eu vou até lá. Faço o que puder para não ser visto se esse Ed estiver na casa, dou meu jeito. Prometo. Mas, por favor, me deixe ir até lá.

Heather ponderou um instante.

— Você não vai desistir, vai? – ele respondeu silenciosamente, balançando a cabeça negativamente, na horizontal – Está bem, amanhã você vai – ela pôs a mão sobre o ombro dele, olhando no fundo de seus olhos – Se alguma coisa, qualquer que seja, acontecer com ela, eu mato você. Entendido?

Com muita segurança e seriedade, ele concordou com a cabeça. Era muito bom saber que Carol tinha uma amiga como Heather com quem contar.

No dia seguinte, como Ethan imaginava, Carol não apareceu. Assim que terminou a contação de histórias, ele se aproximou do balcão com uma expressão séria e preocupada no rosto. Heather cedeu-lhe o endereço imediatamente.

Ele saiu da biblioteca e, num passo apressado, começou a caminhar na direção da casa dela, pegando quantos ônibus fossem necessários para chegar. Mil pensamentos preenchiam sua mente. “Onde está a tia Carol, tio Ethan?”, perguntara uma menininha naquela tarde. “O tio Ethan também não sabe”, ele respondera, com sinceridade e o coração pesado.

Dentro de longos minutos, o menino chegou à frente da pequena casinha branca, cuja pintura estava já bastante desgastada, que existia no local do endereço dado a ele por Heather mais cedo.

Ele respirou fundo e analisou o lugar. Eles tinham uma garagem do lado de fora da casa, e o carro não estava lá. Será que aquilo significava que Ed não estava em casa?

O garoto preparou um arsenal de desculpas para se esquivar do homem caso ele estivesse lá e perguntasse o que o menino queria. Ethan perguntaria, por exemplo, se ele não estaria interessado em comprar biscoitos de escoteiros, comprar um apartamento, ou ouvir a palavra do Senhor. Decidiu que, qualquer fosse a desculpa que ele tivesse que dar, aquele era um risco que precisava correr, a ansiedade tomando conta de seu corpo. Ele caminhou até a entrada e bateu à porta, com o coração na mão.

Em um minuto, meio apreensiva, Carol abriu a porta, e soltou um suspiro aliviado quando viu o garoto.

— Graças a Deus – ele suspirou, um tanto mais calmo, tirando as palavras da boca dela. Nenhum dos dois tinha forças para ver Ed do outro lado da porta.

Ethan sentiu vontade de abraçá-la forte para compensar todo esse tempo no qual ela fizera tanta falta. Mas ele não tinha certeza de que ela o queria ali, como saber de que maneira ela reagiria? Não fez nada, não disse nada. O silêncio, porém, logo se tornou extremamente constrangedor, então, na falta de palavras, ele foi em frente e a abraçou, de olhos fechados.

Levou uns instantes, mas Ethan logo sentiu os braços dela envolvendo suas costas magras, e a cabeça dela sobre seu ombro.

— Que bom que você está aqui – ele sussurrou, como se novamente lesse a mente dela.

A mulher o convidou para entrar, disse que Ed não estava, e ele não recusou. Sophia, quando o viu, correu para seus braços, rindo de tão feliz, e ele a ergueu no ar, alegrando-se com ela. Carol, que observava a uns passos de distância, também fora tomada por aquela imensa alegria. Amava ver o quão feliz sua filha era perto daquele garoto.

Passada a euforia do reencontro, quando já estavam os três sentados na sala de estar, – Ethan no sofá com Sophia, e Carol na poltrona de couro marrom – ele parou para observá-la. Como infelizmente já esperava, ele viu marcas de machucados em diversos pontos do corpo dela. O curioso, entretanto, é que eles não pareciam recentes. Era como se houvessem sido feitos já fizesse alguns dias.

— O que aconteceu? – ele perguntou, enfim.

Ela olhou em volta, como se procurasse por explicações para dar. Não tinha certeza se queria contar a história toda a Ethan, ou se queria envolvê-lo nisso. O menino a encarava com atenção, esperando uma resposta, ao mesmo tempo que não a pressionava, nem que minimamente, para consegui-la.

— Sabe que pode confiar em mim, não é? – ele reafirmou, após alguns minutos de silêncio. Ela fracamente concordou com a cabeça.

— Sophia, pode ir brincar lá no quarto, querida? – Carol pediu, e a menina rapidamente a obedeceu.

A mulher se aproximou do menino, sentando-se no sofá, de frente para ele.

— Alguns dias atrás, Ed ficou aborrecido com o resultado de um jogo de futebol. Pegou o carro e nossas economias e saiu, certamente para beber. Mas, como você pode ver, ele não saiu antes de... Bem, antes de fazer isto – ela mostrou brevemente os braços.

— Onde ele está agora? – perguntou Ethan, dosando em sua voz a raiva que sentia.

— Não sei. Ele já está fora faz uma semana – ela respondeu.

Quando Ethan perguntou porque ela não aparecia mais na biblioteca, ela respondeu que não queria correr o risco de que ele encontrasse Sophia sozinha, porque, dependendo de seu estado de alteração, ele podia acabar fazendo “coisas ruins” com a pequena – coisas essas que Ethan nem se atreveu a perguntar quais seriam. Aquele homem lhe dava nojo.

Então Carol preferia ficar em casa o dia inteiro com a menina até ele voltar, pois fosse lá o que o homem precisasse fazer, o faria com ela em vez de com a filha. Era, de acordo com Carol, a melhor forma de proteger a menina.

Ethan acompanhava o relato da mulher com olhos umedecidos e incrédulos, e a boca ligeiramente aberta, com vontade de dizer algo, porém incapaz de encontrar as palavras certas para sequer começar.

Ao contrário do que qualquer um dos dois esperava, Ethan permaneceu calado, e deixou que seu corpo falasse em seu lugar. Ele se sentou um pouco mais próximo dela, e delicadamente pôs o polegar sobre um dos hematomas em seu braço. Fechou a mão em volta daquele pulso, e começou a acariciar o machucado, lentamente.

Com a outra mão, acariciou outro machucado no outro braço, os olhares dos dois estavam fixos nos movimentos das mãos dele, e o silêncio absoluto tomava conta do cômodo.

Timidamente, ele subiu as mãos pelos braços da mulher, dando carinho a cada um dos infinitos hematomas e cortes que seus dedos encontravam pelo caminho. Dentro de muitos minutos, suas palmas se encontraram ao redor do pescoço dela, onde marcas de dedos indicavam que a violência de Ed era mais que desumana.

Sem coragem de tirar as mãos dali, Ethan simplesmente ergueu seus polegares, acariciando o rosto dela de leve. Continuando o caminho que suas mãos percorriam, ele pôs sua mão direita sobre a mandíbula dela, afagando seu rosto e os machucados sobre ele. Foi só aí que seus olhares se encontraram.

Ethan olhou bem fundo naquele imenso e assustado mar azul, tímido, e tentou transmitir força e amor àquela mulher que tanto precisava de um gesto de carinho. Hesitante e cuidadosamente, ele se ergueu no sofá, aproximando-se dela e, de olhos fechados, plantou um longo e silencioso beijo na testa dela.

— Você é a pessoa mais forte que eu conheço – ele disse, quebrando o silêncio.

A mulher segurava os pulsos do menino com firmeza e carinho enquanto tentava engolir o choro. Ele ainda não tinha tirado as mãos do rosto dela. E assim eles permaneceram por mais uns instantes mudos, sem cessar aquele toque morno e contínuo.

— Nós... – Carol quis quebrar o silêncio, com medo de que Ed retornasse, e Ethan entendeu o recado. Aquela estrutura terna que eles formavam logo se desfez, deixando um clima um tanto estranho no ar, ainda que Carol estivesse completamente grata e Ethan intensamente satisfeito que aquilo houvesse acontecido.

Ethan se ofereceu para ajudá-la com o que precisasse pelo resto do dia e, a julgar pelo tempo que Ed esteve fora, ela não pôde negar dar a Sophia mais alguns momentos de alegria ao lado do garoto. No fundo, ela sabia que também o queria por perto.

Os três passaram a tarde inteira juntos, brincando, rindo, conversando. A noite caiu, e Ethan se ofereceu para preparar o jantar enquanto Carol terminava de dar banho na filha.

Sozinho na cozinha, Ethan viajava em seus pensamentos enquanto cortava uma cenoura em rodelas. A cozinha da pequena casa na qual Carol morava ficava no mesmo cômodo que a sala, sendo separada dela apenas por um balcão que a cercava. O som da faca se chocando contra a tábua de corte harmonizava com a voz de Sophia ao fundo.

Quando começou a cortar a terceira cenoura, Carol entrou na sala de estar, e elogiou o aroma da sopa que era preparada pelo garoto a alguns passos de distância, o que pôs um largo sorriso no rosto dele, que pediu a Carol que se sentasse e descansasse enquanto ele terminava de preparar a refeição. Com um pouco de insistência dele, ela não pôde dizer que não.

Carol e Sophia se aconchegaram no sofá para assistir ao rapaz trabalhar e, por um instante, não existiu nada além de paz.

Ethan foi tirado de seus pensamentos dali a alguns minutos pelo som da maçaneta da porta de entrada sendo sacudida. Assustado e levemente desesperado, ele a encarou, incapaz de se mover, quase desejando que do lado de fora houvesse um assaltante ou coisa parecida.

Ao contrário do desejo de todos a porta se escancarou, revelando que o grande e gordo homem parado sobre o tapete de entrada era, de fato, o marido de Carol. Com os olhos vermelhos e roupas sujas, ele cambaleou para dentro, completamente alterado. O fedor de álcool era tão forte que Ethan podia senti-lo à distância.

— Querida, cheguei – ele gritou, imitando o desenho animado.

Levou um instante, mas Ed percebeu a presença de Ethan na cozinha. O encarou com um sorriso doentio, como se quisesse separar com os dentes a carne dos ossos do garoto.

— Que palhaçada é essa aqui, sua vagabunda? – ele rugiu, fazendo com que Carol se encolhesse no sofá.

O homem esbravejava, gritando os xingamentos mais baixos, sem nenhum pudor, mesmo em frente à filha, que chorava.

— Essa menina nasceu igual a você! Vocês duas são idênticas, duas vadiazinhas fracas e sem vergonha!

Ele era como uma metralhadora de ofensas. Mais palavras saiam de sua boca por segundo do que gotas d’água caiam de cachoeiras. A filha chorava desesperada e a esposa baixava a cabeça, calada.

— Hoje eu vou matar vocês duas – Ed vociferou, completamente fora de si.

Ethan entrou em pânico. Tudo começou a passar em câmera lenta, e memórias começaram a estourar em sua mente.

Se alguma coisa, qualquer que seja, acontecer com ela, eu mato você. Entendido?”.

É a melhor forma de proteger Sophia”.

Eu mato vocês duas”.

Ethan não se conteve mais.

— Para! – ele gritou o mais alto que pôde, erguendo a faca, ainda suja com pedacinhos de cenouras, em direção ao homem.

Ed calou-se quando o grito do jovem ecoou pela sala. Todos se voltaram para Ethan, mas este só tinha olhos para uma pessoa: o esposo de sua amada. Transmitia pelo olhar todo o ódio que vinha reprimindo desde que o vira pela primeira vez, deixando de lado todo o pânico.

— Moleque – Ed ria, em estado de negação, visivelmente tentando esconder seu próprio medo – Você não faria isso, seu pirralho.

— Para trás! – esbravejou quando o homem tentou se aproximar – Escuta bem, você vai ficar paradinho aí e fazer o que eu disser, entendeu?

Assustado, o homem fez que sim com a cabeça, erguendo os braços. Ethan, que não sabia de onde tirara tanta bravura, percebeu que se encontrava num impasse. E agora? O que fazer?

Olhou para Carol e Sophia de canto de olho, viu o quão assustadas estavam, e voltou a encarar o monstro à sua frente.

— Carol – ele disse, tomando sua decisão – guarda o que der numa mala, suas coisas e as da Sophia, e vamos embora daqui – assustada, ela não sabia muito bem o que fazer, então congelou onde estava, boquiaberta, calada – Por favor – ele olhou para ela – Confie em mim.

Carol enfim conseguiu reagir, e fez como lhe foi instruído. Pôs às pressas o que viu pela frente numa pequena mala, e voltou para a sala. Fez um sinal afirmativo com a cabeça, para avisar Ethan que ela achava que ele tinha tomado a decisão certa.

— Muito bem – Ethan disse, e começou a instruir Ed – Você vai entrar nesse cômodo atrás de você, e só vai sair quando eu mandar. Entendeu?

O homem fez que sim com a cabeça e o obedeceu. Ethan, sem deixar de apontar a faca para a porta, fez um sinal com a cabeça para que Carol levasse a mala e a menina para fora da casa.

Quando elas já estavam na calçada, Ethan caminhou até a porta, e instruiu o homem:

— Conte até quarenta e pode sair – deteve-se à porta para fazer um último comentário: – Cuzão.

Ethan levou as duas para o ponto de ônibus. Ofereceu o próprio apartamento para elas passarem a noite, e essa foi a única frase dita por um bom tempo, porque os três seguiram até o veículo em silêncio.

— Me perdoa – foi só o que o garoto disse, e o resto do trajeto foi tomado pelo silêncio.

Notas finais
E então? :x Capítulo tenso, hm? Deixe um comentário dizendo o que achou ^_^ Post de hoje: "De Frozen a Avril Lavigne" ( http://thesecretfanficwriter.tumblr.com/post/147043753634/de-frozen-a-avril-lavigne )