Y.o.u.t.h.
7 I'll Cover You
Notas iniciais
Ethan levou Carol e Sophia para seu pequeno loft no centro da cidade.
Quando chegaram à porta do prédio, Ethan pegou a pesada mala de Carol e a carregou, enquanto ela levava a filha no colo. Juntos, subiram todos os dez lances de escada necessários para chegar ao lar do menino.
— Subir isso aqui definitivamente não é minha parte favorita do dia – Ethan tentou descontrair, falhando, uma vez que a mulher ainda estava em choque, e a menina dormia em seus braços.
Ainda tentando entreter Carol durante o percurso, Ethan contou a ela sobre o loft em que morava. O garoto vivia ali sozinho desde o começo daquele ano, quando saíra da casa de seus pais, que o ajudaram a pagar pelo lugar, com a condição de que ele cuidasse sozinho das contas de luz, gás, água e comida. Para isso, ele trabalhara numa loja de discos, mas fora demitido pouco antes de conseguir seu novo emprego na biblioteca.
— Espero conseguir um segundo emprego logo – ele disse, fazendo força para levar a mala das duas ao longo do nono lance de escadas – assim eu consigo pagar o apê sem a ajuda deles.
No décimo andar, Ethan deixou a mala no chão, em frente a uma das quatro portas daquele piso, para poder destrancá-la com a chave.
— Apartamento 104 – anunciou – Lar, doce lar.
Abriu espaço para que elas entrassem antes dele e, carregando a bagagem, fechou a porta atrás de si. Sophia, que até então dormia, acordou e começou a explorar o loft, correndo por aí toda feliz.
— Cuidado para não quebrar nada! – advertiu Carol.
— Não tem nada de valor, não se preocupe – Ethan sorriu, fazendo sinal para que ela se sentasse ao lado dele. Sem mais forças para se manter em pé, ela o fez.
Juntos, observaram por uns instantes o loft de Ethan. A pequena sala com um sofá, um pufe e uma mesa de centro, a cozinha simples com uma geladeira vermelha e bancada pretas, um cubículo no fundo da sala com uma porta, que era onde ficava o banheiro.
— Me perdoa – ele se desculpou outra vez – Por tudo, eu nem sei o que me deu. Eu não tinha o direito de fazer aquilo, se não tivesse aparecido para ver como você estava...
Carol o silenciou, pondo a mão em sua perna.
— Está tudo bem – ela disse, com muita dificuldade, ainda na dúvida se aquela frase era verdadeira ou não.
Havia muito se passando na mente daquela mulher violentada que passara tanto tempo se convencendo de que era feliz ao lado de seu abusador. Tantos anos de tortura física e psicológica a tornaram, de certa forma, cega em relação à realidade. Levou muito tempo até que ela se acalmasse e decidisse que estava grata pelo que Ethan fizera. Naquela noite, infelizmente, ela só conseguira permanecer assustada.
— Fiquem aqui, pelo menos por hoje – Ethan convidou, tentando esconder o tom de súplica por trás de seu convite.
Ele a deixou sozinha para pensar, e começou a preparar o apartamento para a estadia das duas. Queria ter certeza de que se sentissem acolhidas. Pôs água para ferver no fogão, nas bocas de trás, para não correr o risco de ocorrer um acidente com Sophia. Levou a mala delas para o quarto, arrumou a cama para elas, pegou um lençol e uma coberta e os levou para a sala.
— Fiquem com a cama – Ethan disse, enquanto preparava chá com a água quente – Eu durmo aqui na sala hoje.
— De jeito nenhum – Carol disse, já com as lágrimas secas, enquanto andava até a bancada da cozinha – Esta é sua casa, você fica na cama.
— Carol – ele disse, com carinho, enquanto servia o chá em duas canecas – É minha culpa que você não tem a sua cama para dormir esta noite. Por favor, fique com a minha. Suas coisas já estão lá, ao lado da cadeira perto da porta – vendo que a mulher ainda não estava convencida, ele adicionou: – Por favor, eu insisto.
O silêncio de Carol informava que ela finalmente cedera à hospitalidade do garoto. Ethan perguntou se Sophia bebia chá, e Carol, muito timidamente, informou que seria melhor dar-lhe leite. Com um sorriso, ele preparou um chocolate para a menina e a chamou.
Levando em conta o quão próximos os dois tinham se tornado nas últimas semanas, trabalhando na biblioteca, chegava a ser estranha a forma contida com a qual Carol agia em relação ao garoto e seu lar. Mas ele a conhecia bem, sabia que sua mente devia estar uma bagunça naquele momento, então ele demonstrava total respeito quanto ao pânico dela. Ele não se sentia no direito nem no dever de tentar tirá-la daquele estado de choque, não ainda. Ethan ainda não tinha cem por cento de certeza de quais eram os sentimentos de Carol por Ed, e não sabia ao certo se havia salvado ou estragado a vida dela e de Sophia.
No fundo, ele também estava assustado, e muito. Se sentia num labirinto, num quebra cabeça. Estava preso em uma sala cheia de portas destrancadas e não sabia qual abrir, pois era incapaz de prever o que havia atrás de cada uma delas. Estaria Ed atrás de uma delas? Carol indo embora com Sophia? Ethan não sendo capaz de sustentar Sophia e a mãe dela? Carol assassinada? Ethan não queria pensar nisso. Pelo menos não naquela noite. Mesmo que sua maior preocupação fosse o bem-estar das duas, naquele momento ele ficaria ali, parado, sentado naquela salinha, sem abrir nenhuma das portas.
Depois de um rápido jantar, um no qual os mais velhos mal conseguiam achar apetite para se alimentar, todos se prepararam para dormir – Ethan emprestou uma camisa larga de basebol de seu pai para Carol, que não tivera tempo para empacotar seus pijamas – , Ethan na sala e mãe e filha no quarto, na cama de casal.
Ethan se ajeitou no sofá de couro da sala escura e tentou dormir. Virava de um lado para o outro, sem conseguir efetivamente fechar os olhos.
Após longos momentos de insônia, ele ouviu a maçaneta do quarto virar e, por um instante, seu coração acelerou, com pânico da ilusão de Ed estar atrás da porta, como ocorrera mais cedo naquele dia. Seu estômago já estava na garganta quando, para seu alívio, o vulto de Carol trajada naquela camiseta ridiculamente grande veio caminhando em sua direção.
Ao vê-la, Ethan se levantou, devagar, e ela não parou de andar. Quando seus corpos delicadamente se chocaram, ela passou os braços em torno dele, envolvendo-o num abraço forte, e sussurrou:
— Obrigada.
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