Notas iniciais
Rizzoli and Isles não me pertence, claro! É apenas para diversão =)

O que ela mais queria era voltar para Boston e se jogar em sua cama, a Califórnia era quente demais a sonolência e a moleza já se apossaram de seu corpo. Tudo indicava ser uma péssima ideia ter ido para essa festa de confraternização, ela não conhecia ninguém e tinha certezas que não estaria ao nível de conversa dos amigos médicos da senhora do saber.

Porém, já não era possível negar qualquer pedido de Maura. E lá estava ela, entre aquelas pessoas fingindo se interessar por seus assuntos e modos enquanto observava discretamente o quão radiante a legista estava naquele salão. O vestido longo e preto deixava sua silhueta perfeita, a luz buscava por Maura, ou pelo menos era isso o que Jane pensava ao ver seus cabelos dourados brilhando a cada movimento sutil de cabeça. Maura, como sempre, estava radiante e para ela, o calor era um mero fator que parecia não incomoda-la.

Como o esperado, Jane não foi a única a notar tal perfeição e a sua presença como a amiga acompanhante foi rapidamente ofuscada. O homem que sorria e falava de cirurgias de transplante possuía a pele como bronze, provavelmente devido ao tempo gasto debaixo do sol. Era o estilo surfista, cabelos loiros, olhos cinza brilhantes e sedutores, qual mulher não suspiraria em ver um homem assim? Não culpava Maura por ignorá-la após a chegada de Victor, estava claro que algo inacabado permanecia entre eles, algo que Jane não gostaria de saber.

Ela tomou um bom gole do seu drink de maçã enquanto observava a mudança corporal em Maura, mas o que a incomodava era o brilho nos olhos da legista. Foi aquele mesmo brilho que sempre via toda vez que se encontravam pela manhã antes de irem para o departamento, aquele mesmo brilho que fugiu dos olhos dela quando Jane se fez de desentendida dizendo que não era nada de mais, algo passageiro, um simples momento de carência. Como levar a sério uma declaração em um necrotério com um corpo sobre a mesa fria separando as duas? Jane estava atarefada demais, ocupada demais com o trabalho e o noivado não restava tempo para lidar com algo assim, com sentimentos dessa natureza. E naquele mesmo dia, o brilho característico do olhar de Maura desapareceu com a recusa, e depois de tanto tempo eles retornaram com a chegada de Victor.

“Era esse o olhar reservado para mim.” Ela pensava, enquanto tomava mais um gole do seu drink de maçã.

Sentiu as mãos tremerem ao ver os dois deixando o local juntos, como um casal recém-casado. Naquela noite, provavelmente Maura não pensaria naquele dia no necrotério, da sua declaração sem jeito, talvez nunca mais pensasse naquilo. No entanto, Jane não conseguia preencher seus pensamentos com nada que não fosse a legista, e em como em poucos minutos ela estaria com Victor, seus corpos se uniriam se tornando um em uma dança de prazer.

“Se você ama alguém, deixe-o ir.”

É o que dizem. Não havia percebido o quanto essa frase era incrivelmente dolorosa.

Jane volta sozinha para o seu quarto do hotel e se observa no espelho após um longo banho, seu olhar baixo demostrava o quão cansada estava de tudo, de seus erros e das consequências deles. Queria gritar, reclamar o que era seu, ter de volta o amor desdenhado, mas não era algo que ela pudesse fazer, não podia ter de volta como se fosse uma bola emprestada, Maura não era um objeto.

“Como sobreviver sem minha melhor amiga?” Isso se repetia como uma música de refrão grudento em seu cérebro. Maura não precisava dizer eu te amo, já estava tudo ali, naquela frase arrastada pelo peso do choro. Jane sorriu, disse que tudo ficaria bem no final; meses depois era ela que procurava frases para expressa o que sentia, mas nunca as encontrou.

Ligou a tv para se distrair, ver o noticiário da madrugada, talvez um filme, mas nada parecia ser interessante; olhou para o relógio, já era tarde, então deitou-se na cama e fitou o teto de seu quarto, a luz branca que radiava do lustre atraía o seu olhar do mesmo modo que atraía os insetos voadores, respirou fundo e fechou os olhos cansados.

“Ele está com ela, suas mãos estão nela...”

Parecia que aquela noite não teria fim.

Levantou-se e saiu do quarto, sem um destino certo. Caminhou para o corredor, parou em frente ao quarto 417, sentiu o coração martelar e suas mãos ficarem frias, Era essa a reação em cadeia da qual Maura lhe contara certa vez, o cortisol fluindo pelo corpo juntamente com doses de adrenalina. Era o estresse que a fazia tremer diante aquela porta.

Por que estava ali? O que iria dizer?

“Desculpe-me por ter sido uma idiota, mas eu te amo.” Ou, “Desculpe-me por interromper sua transa, mas eu te amo.”

Todas as possibilidades eram ruins, por fim, ela sorriu movimentando levemente a cabeça em negação. Aquilo fora um erro, a viagem, a festa, a sua falta de atitude, tudo era uma sequência de erros, mais alguns para a coleção de Jane Rizzoli.

E antes que ela pudesse sair dali, a porta se abre desencadeando uma reação de sobressalto, A leve inclinação de cabeça e o olhar de surpresa fizeram Jane tencionar mais ainda os seus músculos.

“Tá perdida?”

O sorriso costumeiro, simples, porém absurdamente encantador dificultava qualquer raciocínio rápido da detetive.

“Posso entrar?” Disse sutilmente como se esperasse a negação como resposta.

A legista se afasta dando espaço para a amiga adentrar no quarto. Jane lança um olhar rápido pelo ambiente, vê a mesa com duas taças de vinho usadas e imediatamente direcionar o olhar sobre a cama, esperando encontrar Victor sobre ela. Ele não estava ali.

Notou as roupas da amiga, um robe de seda cinza nada incomum e o cabelo levemente molhado, ela sairá do banho, talvez o seu amante ainda estivesse por lá. Ao que tudo indicava, eles já haviam consumado o ato deixando apenas o cheiro do sexo sobre os lençóis e o brilho no olhar de Maura.

“Qual o problema?”

“Existe algum problema?”

“Provavelmente, se não você não estaria parada diante da porta do meu quarto.”

Desenhou um sorriso tímido, ganhando tempo para pensar em alguma desculpa.

“Victor não esta aqui?”

“Teve uma emergência no hospital, uma laparotomia. Eu não saberia lidar com algo assim. Cirurgias de traumas.” Falou a legista com o ar descontraído. “Você veio pelo Victor?”

Jane junta às sobrancelhas.

“Não... só queria saber se eu não estava... sabe? interrompendo alguma coisa.”

As feições da detective roubam a curiosidade de Maura, seu olhar baixo e ombros encolhidos indicava que algo estava fora do habitual, a detetive estava tensa e ela gostaria de saber o porquê.

“Imaginou que estivéssemos fazendo sexo naquela cama?” Ela disse com a voz aveludada fazendo com que a detetive erguesse uma sobrancelha e direcionasse completamente o olhar negro para ela.

“Não, a cama não, talvez naquela poltrona. Ou quem sabe no banho... ou até mesmo naquele tapete estendido no chão.”

Jane fechou os dedos sobre o próprio pulso pressionando-os inconscientemente enquanto ainda mantinha o olhar preso nos olhos convidativos de Maura.

“Isso excita você? Imaginar as mãos dele sobre minha pele?”

Ela engoliu a seco, tentava não pensar, mas as imagens apareciam em sua cabeça como alguma espécie de filme, e de fato, aquilo a excitava, mas também a enfurecia.

“O que você esta fazendo?” Ela questiona por entre os dentes.

“Sendo você na sala de interrogatório, já vi vários suspeitos saindo de lá chorando, mas pelo menos disseram a verdade.”

“E que verdade quer que eu diga?”

“O porquê estava parada na porta do meu quarto às 2:45 da manha.” Maura inclina levemente a cabeça para o lado, fazendo com que uma mecha de seu cabelo caia sobre o seu seio, Jane desvia o olhar daquela visão incomoda e deixa seu corpo cair sobre uma poltrona em sinal de desgaste.

“Foi por causa de Victor certo? Você gostou dele.” Disse se aproximando da detetive.

“Não.”

“Então, qual o problema?” Maura estava próxima o suficiente para o perfume de seus cabelos atingisse Jane. O conflito entre se afastar e continuar tomou conta da detetive completamente. Naquele momento, Jane sabia que estava chegando ao clímax de toda aquela pressão acumulada.

“Ciúmes.” Disse com a voz firme tentando disfarçar o impacto que era admitir algo assim. “Foi o ciúmes que me levou até sua porta.”

Ela viu o rosto da legista adquirir o tom avermelhado e suas feições mudarem para algo em que ela não tinha a certeza se era surpresa ou raiva. Maura em silêncio afasta-se de Jane dando-lhe as costas, no entanto, a detetive continuava com a voz rouca.

“Não sei como consegue Maura. Você é uma mulher inteligente, madura... linda, mas sempre se atrai por tipos iguais a ele que no fim nunca dá em nada. Por que insiste em caras assim, sendo que você já tem o que quer?”

Maura ergue a cabeça e afasta o cabelo dos olhos e em um movimento rápido volta a encarar a detetive.

“Como você sabe o que eu quero?” Ela cruza os braços sobre o corpo como em defesa a resposta para aquela pergunta. Jane se aproxima a passos largos, mas mantém uma pequena distância da legista.

“Porque sou eu o que você quer.” Disse com firmeza e sem desviar o olhar da face da legista. Sentiu seu corpo tremer ao perceber que a última oportunidade de voltar a trás havia desaparecido. Estava cansada de se esconder, de esconder esse sentimento que apenas crescia com o tempo, algo que até mesmo ela não queria admitir, Durante meses ela havia andando as voltas nessa dança, cada passo se aproximando deste momento.

No entendo, Maura começa a rir, um riso baixo e sarcástico algo nunca feito por ela até então. E assim como se iniciou, o riso se desfez rapidamente restando apenas o silêncio entre as duas.

“Por que Jane?” Ela sussurra alto o suficiente para se ouvir. “Por que isso agora, o que mudou?”

Jane permanecia em silêncio, buscando palavras que se recusavam a ser encontradas.

“Minha vida...” Maura continuou. “Desfez-se naquele dia, e desde então tento preencher esse espaço oco que restou; você não imagina o que era te ver todos os dias, saber que estava se casando, secar as suas lágrimas quando ele partiu...” Ela movimenta levemente a cabeça em negação.

“Nunca a culpei pelo o que aconteceu, mas eu me fortaleci, aprendi a conviver com a dor; agora depois de todo esse tempo, me diga Jane, o que mudou? O que eu não tinha antes e possuo agora?”

“Absolutamente nada.” Ela respira fundo tentando aliviar o nó em sua garganta. “Está tão perfeita como sempre foi.”

“Então o que, Jane? O que a faz pensar que pode voltar a foder meus sentimentos assim!”

“Me perdoe!” Ela disse com a voz pesada. “Eu estava errada, cega pela minha imaturidade, talvez. Sei que te magoei, nunca foi minha intenção fazer algo assim, mas o fiz. Mas, Maura, quando te vejo, sinto que vejo a mim mesma, uma parte minha que eu afastei.” Jane suspira e libera um sorriso fraco. “Não consigo mais negar o que sinto por você.”

A legista desvia o olhar desesperadamente, antes que as lágrimas caíssem. Caminha até a cama e deixa o seu corpo cair como uma pedra sobre esta. Confusão, dor, raiva, medo várias expressões se desenhava na face de Maura, porém, a que Jane desejava parecia não existir.

“Ainda restou algo em você?” Ela caminha a passos largos e deita seus joelhos sobre o chão diante de Maura, deixando os seus olhares sobre o mesmo nível. “Já preencheu o vazio que eu deixei?” e em um movimento rápido, ela toma uma das mãos da legista entre as suas. “Consegue não me amar mais?” Ela sussurra docilmente.

O líquido quente escorre timidamente dos olhos de Maura, um leve movimento em negação de sua cabeça revela a brecha na parede erguida no interior dela. E sem mais palavras, Jane se aproxima e a puxa para si.

Maura tenta resistir, tenta se afastar, fazer com que a detetive parasse, mas a sensação dos lábios de Jane sobre os seus fazia as suas forças sumirem. Uma luta fútil como um pequeno castelo de areia contra a maré. Jane sentiu a legista amolecer em seus braços e acompanhar ferozmente os movimentos dos seus lábios, aquilo não era como tantos sonhos que tivera, o beijo era real, o abraço era real e ela queria mais, muito mais.

Seus dedos tocaram em sua nuca e se espalhavam através do emaranhado de cabelos loiros enquanto os lábios de ambas, ainda unidos, refletiam a explosão do desejo acumulado. Por fim, elas se separam e por segundos permanecerem em total silêncio. Não havia necessidade para palavras serem ditas, Jane e Maura se conheciam a tempo o suficiente a ponto de se comunicarem apenas com o silêncio.

E mais uma vez, os lábios se encontram, sem a explosão do primeiro assalto, o beijo era mais gentil, delicado doce o suficiente para arrancar suspiros de ambas.

“Salve-me” Jane sussurrou por entre os lábios da legista. “Diga-me que ainda me ama do jeito que eu a amo.”

Então ela sente Maura se afastar lentamente evitando o contato visual, por fim ela se levanta afastando-se mais ainda em direção ao vinho sobre a mesa. Maura enche uma taça, toma rapidamente e retorna a enche-la.

“Não posso salva-la Jane.” Ela disse ao fim. “Você... precisa ir, foi um longo dia, sinto-me cansada e amanhã voltaremos para Boston. Por favor... vá.” Ela suspirou.

Jane continuava com o olhar preso em Maura e sem forças para dizer algo, apenas acenou positivamente com a cabeça e caminhou em direção à porta.

“Sabe Maura.” Ela interrompeu seu movimento voltando a encarar a legista.

“Uma vez você me disse que não viveria sem sua melhor amiga, e eu, como sempre faço em situações assim, brinquei com o fato.... Mas na verdade, não consigo viver sem minha melhor amiga também. Pode passar dias, meses ou até anos até você perceber que somos incrivelmente perfeitas juntas; independente das voltas, caminhos e direções que as nossas vidas nos levem. E quando esse dia chegar, vou fazer o impossível e ainda mais para estar ao seu lado não me importando como... Por que Maur, desconheço outro lugar para mim.”

Sua voz fica pesada enquanto tentava ignorar as batidas alucinadas em seu peito.

“É assim quando se ama alguém certo? Você não para! Mesmo quando tudo parece ser contra seus esforços, mas você continua. Caso contrário... isso não seria amor, seria apenas algo sem importância.”

Ela baixa o olhar e tenta desenhar um sorriso, um sorriso cansado e vazio foi o máximo que conseguiu fazer antes de cruzar a porta e fecha-la por trás de si.

Novamente ela se vê no corredor olhando para a enorme vidraça. A luz da baía de São Francisco prendeu o seu olhar por segundos. Ela poderia não gostar da cidade, mas a beleza do lugar era algo que ela tinha que concordar quando ouvia os discursos que Maura fazia sobre onde passou a infância.

Caminhou para mais perto até avistar a rua, onde iluminada, um homem passeava com seu cachorro ao mesmo tempo em que um carro preto cruzava o cruzamento em que um casal caminhava tranquilamente abraçado.

Jane apoia o corpo sobre o vidro e pela primeira vez deixa as lágrimas escorrerem pela face, lembrando-se do breve momento em que teve a legista contra os braços e o medo de nunca mais senti-la novamente.

“Parabéns Jane Rizzoli...” Ela direciona o olhar para a porta do quarto 417. “Desperdiçou sua chance meses atrás, agora resta esperar por outra que talvez nunca ira acontecer.”

Ela dizia a si mesma, enquanto secava a sua face com as costas das mãos.

“Não preciso esperar dias, meses ou anos...”

Ela ergue o corpo rapidamente abrindo os olhos surpresos.

“Sei que somos incrivelmente perfeitas juntas.”

Maura estava parada sobre a soleira da porta com a postura firme e um leve sorriso de canto, sorriso este que Jane retribuiu antes de colar os seus lábios aos da legista e ambas caminharem juntas para dentro do quarto.

Notas finais
É isso! Não sei se continuo ou não, mas por enquanto vamos deixar elas felizes =D Bjos de luz!!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!