Young Blood
37 E eu?
Notas iniciais
And I want you to know, you're far from the usual
Far from the usual
Percy.
Tentava, a tudo custo, parecer indiferente.
Mas desde o primeiro minuto que pisei em Paris, me senti desconfortável por Annie não estar aqui. Não era a mesma coisa. Não mesmo. Era frio e entediante. E tinha chegado hoje, na verdade, a algumas horas atrás. Mexia no meu celular, alternando entre o wpp e o instagram. Não parava de ver fotos de Annabeth. Cada uma mais incrível que a outra. Estava preocupado com meu momento stalker.
Fiquei sentado, em um dos seis sofás coloridos do apartamento dos Chase, contando os segundos pra ela entrar pela grande porta vermelha e se jogar nos meus braços, ver seu sorriso branquinho. O que não aconteceria em um bilhão de anos... A parte dela se jogar nos meus braços. Não tinha esse negócio de filmes na minha relação com Annabeth, se o que tínhamos pudesse ser chamado de relação.
Bem... Eu falei que a amava diversas vezes e também a beijado diversas vezes, não tanto quanto os eu te amo. E também, transamos uma vez. Que particularmente foi a melhor vez de toda minha vida. Seu corpo e os barulhos que fazia, os gostos do seu beijo... Tudo era como um vírus pra mim, impregnado minha mente. Eu estava ficando louco, e quantas vezes tive que no banheiro me aliviar por causa dela? E quando eu ficava sorrindo pro nada, lembrando do seu jeito desengonçado?
Era uma tarde ensolarada, e todo mundo estava na casarão na Av de Versailles do tio Fred, com algumas exceções, que faziam uma puta diferença. Tipo ela.
Até meus avós fizeram questão de vir, Cronos e Réia, eles também iriam ao Fashion Week e ficaram hospedados num hotel nobre, não muito longe daqui. Nana, a avó de Annabeth, tagarelava com eles. Leo, que finalmente tinha voltado da sua viagem Procurando por mim mesmo, e Jason entraram numa bolha romântica, evitando o assunto Piper por enquanto, e matando as saudades, mal podíamos falar com eles sem sermos excluídos automaticamente. Rachel e Calipso avaliavam as roupas uma das outras e das tendências de inverno. Os Stolls e as Gardners conversavam como namorados, quer dizer... Como se finalmente se dessem bem. Connor e Miranda estavam radiantes.
Os mais velhos estavam no terraço gigantesco, assim como os pais. Will, de cabeça baixa, provavelmente sem graça por estar perto da Bia, estava entretido demais no celular para qualquer conversa, assim como a mesma e Octavian. As vizinhas de Annie também estavam, Kim e Phoebe, se apresentaram, irmãs do famoso Pierre, ex dela. Elas eram gêmeas, só que uma era ruiva e a outra bem morena, Tyson conversava com as vizinhas, ele estava animado. Santa puberdade. Se enrolava num francês meia boca. O que a gente não faz por uma garota.
Restando só eu e Nico. Novamente e sempre. E poderia afirmar que semelhávamos cadáveres esquecidos no meio de tanta mobília elegante e pessoas desinteressadas. Para onde eu olhasse Annabeth vinha na cabeça. Era um caminho sem fim. Fiquei alheio a tudo, menos... Ah, qual é! Eu era tão patético assim?
A sala era como uma auto veneração da família, haviam várias fotos e retratos grandes que ocupavam paredes enormes. Tudo era enorme naquele cobertura, a varanda, as paredes e o teto alto, o corredor dos quartos (que parecia de hotéis, dava pra acomodar todo mundo que estava presente), a cozinha e as luminárias e os lustres que deviam custar mais que minha vida, os tons escuros e o piso linóleo. Tudo me fazia sentir pequeno e mais desconfortável sem ela.
Comecei a revirar as finas pulseiras coloridas no braço, ainda estava com ar praiano, para meu próprio alívio, e no meio delas se destacava em um A. Ehh... Tava difícil esquecê-la por um momento. Nico virou a cerveja que segurava no gargalo. Nico sempre tinha uma cerveja a mão. Desejei ter uma também, ou um cigarro. Eu precisava de um cigarro. Umedeci os lábios, me controlando. Ainda sentia o cheirinho característico.
Uma barulheira mais do que o normal ressoou, e vinha do lado de fora do apartamento, detrás da porta vermelha de entrada, oposta de onde eu me sentava, um pouco longe demais, algo como palavrões e uma chave sendo enfiada na fechadura.
A porta foi escancarada e só consegui ver o vulto da cabeleira azul indo em direção ao chão. Ouvi tantos resmungos que quase ri, se não estivesse tão nervoso. Os olhares de todos foram para as duas... Hippies (meio sujas e desleixadas), esparramadas, uma encima da outra, no chão. Duas mochilas maiores que elas de acampar também foram parar junto, possivelmente suas malas.
Tudo estancou. E por um segundo pude ver os raios de sol dourado atingir a sala em câmera lenta.
Alguém abriu a porta, que se estendia até o teto, do terraço, deixando o ar gélido e triste entrar, e murmúrios inquietantes preencheram a sala. As vizinhas gêmeas gritaram um Annie sincronizado e feliz. Alguém gemeu de dor.
— Até que enfim! Pensei que o avião de caído!— Fred abriu os braços incrédulo.
— Meu cabelo, po— Annie falou com a voz elevada, nem chegou a ser um grito. Por impulso me levantei para ver melhor o que acontecia. Assim como a maioria ao redor. Inclusive Nico, que devia estar tão desesperado quanto eu.
Sua voz parecia estar perdida de alguma maneira, e soava com tanta tranquilidade e calmaria que quase não reconheci. Quase. Porque nunca deixaria de conhecer, nunca mesmo, não conseguiria, nem nos meus mais determinados esforços. Ela estava ali, numa versão melhorada para ela mesma. E qualquer coisa que ela tivesse se tornado eu pegaria pra mim, eu a queria de qualquer modo.
Minha respiração acelerou, e tentei controlá-la inspirando fundo, mas não deveria ter conseguido disfarçar minha agitação por vê-la de novo. Era demais para mim, real demais. Eu, esses dias, fiquei fantasiando como seria quando chegasse e a visse. Definitivamente, não foi isso que pensei. Mas Annabeth era uma caixinha de surpresas. Nem sempre boas, porém isso não vinha ao caso. Não agora.
— Cacete, Beth! Meu nariz— pelo que eu entendi, só olhando, Thalia estava pendurada nas costas de Annabeth. E uma corrente presa do nariz à orelha (parecia coisa de indiana, sem preconceitos, tava maneiro) de Lia embolou no cabelo curto de Annie. Elas ficaram de joelhos, uma de frente pra outras, a diferença de tamanho era gritante, tentando se levantar cambaleantes e atrapalhadas. Tipo bêbadas. Chapadas, me corrigi.
Opa, volta... Beth?
Jason leu meus pensamentos, gargalhando alto, tirando a atenção da família do show delas.
— Beth? Que isso? Annie virou puta até no nome— riu mais um pouco, acompanhado de algumas pessoas inclusive de mim e Fred.
Ela só resmungou, agora em pé, puxando o cabelo loiro pra longe de Thalia. Elas faziam muito barulho com pingentes e colares, era uma confusão de estilos. Então se soltou, num suspiro aliviado.
— Sua assassina!— colocou a mão no peito. O rosto mais iluminado que nunca, um líquido quente de alívio derramou-se no meu peito. Ela nunca estivera mais linda do que naquele momento.
— Sua cavala!— Lia massageou a orelha.
— E lá vamos nós, com as piadinhas internas e bolhas particulares...— Bianca continuou a mexer no celular e no cardigan preto, distraidamente.
— Já rezaram pra Iemanjá, hoje?— Nico perguntou, se referindo as roupas novas. Tinha que concordar, era bem estranho vê-las assim, tipo... Good Vibes.
Thalia mandou língua, arrancando um sorriso de Nico.
— O quê é Iemanjá?— Travis perguntou, com uma careta de repulsa.— Bem a cara de vocês cultuar esse troço!
— Deixa elas, Travis— Katie tinha um estilo parecido, talvez, por isso a careta de ofendida.
— Iemanjá é a deusa do mar— expliquei. Eu sabia dessas coisas já que sempre fui muito ligadão com esse lance de surfe e mar.
— Rainha do Mar! E é africana— Tyson abanou a mão, esnobe.
Annie sorriu de lado, seus olhos vidrados em mim. Senti uma coceirinha na nuca.
— Ela atende pelas duas nomenclaturas... Por mais que eu prefira Dona Janaína, que é brasileira— deu de ombros, ainda me encarando.
Nossos olhos, por um momento, ficaram conectados, era como se tudo sumisse, e ficasse só nós dois naquela sala. Era verde no cinza. O resto, conversa fiada.
— Eu sou o deus do mar! Quem for me contra dizer que mato afogado! Com licença, obrigada e tchau— meu pai falou, fazendo todos rirem.
Thalia e Annabeth, pela primeira vez desde que chegaram, perceberam o tanto de gente que estava presente. Olhavam um pouco confusas, um pouco incomodadas ao redor da sala.
— Bucetas voadoras— Annie subiu a bermuda caqui que usava, começava a aparecer um nova tatuagem no quadril. Me lembrou uma arqueóloga só que numa versão com mais adereços.
Thalia se virou pra Annie.
— Vou enchendo a banheira...— seu jeito parecia a do Capitão Jack Sparrow bêbado, muitas gesticulações e tals.— Você tem banheira, né?
A outra riu, escandalosa, com a mão na barriga.
— Tenho sim, quebra-códigos! Pelo menos leve as mochilas— apontou pras mesmas. Thalia pegou a alça das bolsas e saiu arrastando em direção ao corredor que ficava próximo a mim. Balançando as franjas infinitas da blusa marrom.
Suas passadas eram lentas e determinadas, como se os olhares que a seguissem não passem de moscas irritantes. Ela também estava mais linda que nunca. Aparentava leveza. Tinha dreads azuis no cabelo e estava cheia de piercings novos, mas nada de tatuagens, só as usuais. Seu rosto estava ainda mais sardento, e pra cor que ela costumava ter... Ficara preta. Nossos olhares se encontraram e eu soube o quanto ela estava bem, bem de verdade, e ela sorriu pra mim como sorria quando tínhamos dez anos. Me mandou uma piscadela.
— Eu não sou quebra-códigos!— virou a cabeça pra Annie.— O código amiga-estou-aqui não se aplica a minha falta de educação em falar com pessoas que não vejo a meses por pura preguiça barra antipatia— deu de ombros, continuou para o corredor.
— Ei, Thalia?— Annie falou, pra depois procurar algo no bolso, era um molho de chaves, que voou no ar até Lia agarrá-lo.— É a amarela.
Thalia que estava um pouco a minha frente.
— Você tranca seu quarto, é? Você imagina as coisas sujas eu to pensando ter nele?— balançou a cabeça rindo, voltando seu caminho. Deixando pra trás uma Annie sorridente.
Pude ver que na tatuagem da sua coxa tinha um risco horizontal e uma nova anotação. Eu queria muito saber qual era.
— Sim, eu imagino. Primeira porta a direita— ela continuava a ver Thalia sumir no corredor, sem nenhum remorso de a deixar sozinha.
Por um último segundo ela gritou.
— Sem problemas eu serei o Peeta da sua Katniss! Vadia traidora!— ela suspirou, e tomou uma postura cansada, vendo por onde começar. Um alto barulho de porta batendo ecoou. Coçou o cabelo meio preso e subiu as mangas compridas da blusa rasgada tribal.
Mas Nana escolheu primeiro. Correndo em direção da neta e a puxando pro terraço.
....
Meia hora depois, Annabeth saiu da varanda. E se escorou no vidro, chamando nossa atenção.
— Muitas perguntas, muitas pessoas. Assim meu nível de simpatia despenca. Socorro, eu preciso de um cigarro— passou a mão no rosto, exausta.
— Quando você não quer um cigarro?— Tyson perguntou, rodeado por aquelas garotas. Tava pra levantar e dar um tapa no ego cafetão dele.
Kim e Phoebe correram até a loira, falando umas coisas em francês. Puta merda, era uma língua muito difícil, e ainda falavam rápido. Uma pegou o celular, resmungando. Acho que era a Kim.
— Merde! Maman veut retourner maintenant!— entregou o Iphone pra irmã.— Regardez là, Phoebe! Se il vous plaît répondez-moi...— Kim abraçou a última vez Annabeth, enquanto a irmã digitava alguma coisa, colocando no bolso, logo em seguida.
Era engraçado, Annie era quase da mesma altura delas, mesmo elas sendo 6 anos mais novas. E agiam como mãe e filhas. Fiquei abobalhado vendo a loira, falando e sorrindo. Poderia passar o resto da minha vida olhando aquele sorriso e escutando aquele sotaque. Tive vontade de puxá-la pra uns amassos. Deuses!
— Annie, comment dire au revoir en anglais?— Phoebe perguntou puxando seu braço. Eu acreditei que fosse uma pergunta.
— Tchau— Annabeth respondeu.
As duas se viraram, olhando para todos nós. Até que eram bem bonitinhas, típicas adolescentes de shortinhos e rabos de cavalo. Eu preferia mesmo era uma loira peituda. Certa loira peituda.
— Tchao! Au revoir!— acenaram.— Tchao, Tyson!— deram beijos na bochecha de Annie e saíram correndo. Olhei Tyson, por um segundo, que quase vomitava baba em direção das gêmeas que sumiam porta a fora. Nem deu tempo de responder direito. Mas, ok!
— Não entendi um je que você falou— Miranda levantou para abraça-la. Seguida por mais um pessoal. Menos os que estavam sentados no sofá comigo, Leo, Jason e Nico.
De novo, fiquei apenas olhando. Um pouco impaciente, agora. Essa faladeira não acabava? Nada dava pra vir logo falar comigo?
Fitei um quadro na parede e quis morrer de rir. Ele era o maior de todos, na parede paralela a mim. Comecei a rir sozinho, me controlando, seria estranho alguém ver isso.
Era estilo aquelas fotos clássicas de família... Pais atrás, filhos na frente, fundos escuros, expressão séria e roupas elegantes? Era assim... Só que sem a parte das roupas elegantes. Annie estava de cachorro-quente. Não eu não estava louco. Tia Atena estava de Super-Homem, Tio Fred de Power Ranger vermelho e Malcom de baleia.
Quem tem uma fantasia de baleia, velho?
E quem coloca um retrato desses na sua sala de estar? Bem a cara dos Chase, mesmo. E eu ainda nem tinha reparado uma atrocidade daquelas.
Estourei numa gargalhada, me entretendo com algo até ela chegar.
Depois de um tempinho e um abraço em quase todo mundo. Ela veio na minha direção, não exatamente pra mim, mas estava bem mais próxima. Ouvia anjos cantarem. Foram os trinta minutos mais longos da minha vida. Apenas a vendo sorrir e abraçar outras pessoas de longe. Ela tirou a blusa, revelando uma regata vermelha envelhecida e seus fartos peitos, recebeu aplausos safados de Octavian, sentado a minha frente. Quis socá-lo.
— E Annabeth nos abençoa com suas melancias chamadas de seios— gesticulou grotescamente, talvez matá-lo fosse uma opção melhor. Ela jogou a peça nele, rindo.
Nico levantou um rolinho branco. Um Marlboro verde.
— Tem um fresquinho aqui, quer?— ele se levantou.
Fiquei mais inquieto do que já me sentia. Ela não falaria comigo?
Annie veio correndo na direção de Nico e eles se abraçaram tão forte e calorosamente que tive de desviar o olhar.
Jason segurava a gargalhada, enquanto Leo fazia coraçõezinhos com as mãos, apontado pra mim, suas caras de apaixonado. Era um baitola.
— Desculpe por comer sua namorada— a voz de Annie saiu abafada, já que estava enterrada em Nico, que riu.
— Sem problemas, contando que faça uns servicinhos depois— lhe beijou a testa, quebrando o abraço.
— Mas é claro, querido— ela tropeçou, andando pra trás e Nico a segurou.
— Você tá muito chapada— comentou preocupado. Ela riu, colocando indicador nos lábios, como se fosse segredo e deu uma risadinha sinistra.
— Tenho uma parada pra você lá no quarto— ela virou pra Jason e Leo, que pararam de sacanear comigo pra falar com Annabeth.
Tava pra tirar um break pra fazer xixi e comer um sanduíche. Porra! Nem senti os punhos travados, até relaxá-los, me obrigando a parar com esse comportamento ridículo.
Jason a levantou do chão no abraço. Lógico, o cara era um brutamontes.
— Leo!— ela se pôs na frente do mesmo, cutucando seu peito. E passando o olhar pro seu rosto élfico. Até ele era maior que Annabeth! Ela parecia era ter encolhido nesse meio tempo.
— Fico me perguntando cadê o óculos e os livros? Cadê a nerdizinha meiga?— quis rir, e Annie fez isso por mim.
— Parei de me perguntar isso a um tempo! Você também devia...— ela pegou um dos cachos dele.— É uma pena eu estar chapadona pra te conhecer... Quer dizer... Reconhecer.
— Não se incomode com isso, Anna...— ela o abraçou sem aviso prévio, sendo retribuída com hesitação. Mais ninguém da sala prestava atenção nela, além de mim.
Já falei que era patético?
Minha bunda estava amassada do chá de cadeira que ela estava me dando.
E eu, porra?
— Você tá um gatão, Valdez— ela apertou sua bunda no abraço.
Juro que senti o rosto esquentar. De sentimentos indeterminados. Eu ainda estava tentando caçar seus olhos.
— Beldade Valdez à disposição! — eles riram. Ela se virou.
E finalmente, seus olhos se encontraram com os meus de novo. Foi como encontrar o céu.
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