Young Blood
30 A visita
Notas iniciais
— Brooke! Eu to te falando... Loiro não é legal. Vamos só retocar a raiz. Ou se quiser posso fazer uma californiana vermelha... Todo mundo é loira agora... É muito comum, melhor não!
A mãe de Frank estava sentada de costas pra mim no varandão. Ao contrario daquela ridícula generalização dos filmes que todo residente de Paris tinha na sua janela a paisagem da Torre Eiffel, eu via as casas antigas, delineadas por detalhes exuberantes, os quarteirões em pedra, os postes de iluminação de época, as ruas de pedra e os inúmeros ciclistas. E isso se perdia no horizonte ao sul.
Era tudo muito surreal, mesmo depois de todos esses anos. O verão era frio, mas não mórbido ou triste, era aconchegante. E colorido, via-se flores em cada esquina. Batia uma leve brisa, balançando algumas mechas não presas pelo coque de meus fios crespos. Ajeitei os óculos quadrados, passando os dedos pelo cabelo liso e macio de Brooke. Senti o quentinho característico. Aquele que era comum perto de pessoas que amava, aquele que sentia quando estava realmente em casa.
Ela e Frank eram clones de sexos diferentes. Não que eu identifique as diferenças nos asiáticos. Só no meu pandinha lindo.
O cheirinho de pão quente e lasanha me atingiu. Ambos no forno, a principal lembrança de minha mãe. As receitas dela eram magníficas. Sempre as faziam no verão, junto com o picolé de limão, mas nunca me contou essa fórmula secreta da família. Antes de morar na França, minha família tinha um restaurante em Nova Orleans, mas eu não lembraria de nada, era apenas um bebê quando saí de lá.
Meu coração apertou ao pensar nela. Nós brigávamos muito, mas continuava sendo minha amada mãe. Limpei o cantinhos nos olhos, talvez borrando o delineador. Ela fazia um vazio no meu peito, às vezes.
— Hm, Hay... Não sou muito velha pra fazer uma californiana?— seu sotaque era doce, nunca enjoativo, ela me fazia sentir bem. O que era irônico, já que ela, inconsequentemente, era minha sogra. Mordeu o peito do polegar, me fazendo rir.
— Só se você achar que é velha demais pra isso.
Uma música da Katy Perry começou a tocar da sala. Last Friday Night, logo identifiquei. Virei a cabeça para captar o que estava perdendo. Na frente da TV gigante Nana acompanhava os passos do personagem do Just Dance. Usava roupa de ginastica.
Senti o estômago na garganta.
Balancei a cabeça tentando tirar a cena da calça colada rosa da minha mente e da badana azul. Aquilo poderia ser um novo filme de terror, Vovó Pelanca 2.
Nem queiram saber como foi o 1.
Nana me mataria de eu falasse isso pra ela. Amaldiçoaria até os tataranetos da minha filha. E olha que a macumba da Nana era poderosa. Não evitei o pensamento maldoso.
É claro, eu a amava. A maior parte do tempo (digamos que ela pode ser bem inconveniente e teimosa quando quer). Minha mãezinha postiça, mas eu não merecia olhá-la dançando.
— Não importa os 30 anos de casada e morando com a Nana— Brooke virou a cara pro horizonte, horrorizada.— Eu nunca vou me acostumar com a hora da ginastica dela.
Meus olhos tinham sido estuprados. Parecia Jogos Mortais, o retorno.
Suspirei pesadamente. Um arrepio ruim correu meu corpo. Senti Anna se mexer, desconfortável. Ela chutou minha barriga. Me fazendo sentir exausta no mesmo segundo. Meus pés doíam só de ficar em pé.
— Deuses, mãe!— no hall de entrada, Ares gritou e colocou as mãos nos olhos. Segurava várias sacolas. Foi engraçado ver o parrudo correndo, atravessando a sala, em nossa direção igual a uma garotinha. Nana fazia os outros terem esse pensamento de 'abordei missão'.
Ele abriu a porta de vidro. E soltou o ar que segurava pela boca, relaxando.
— Essa mulher me dá arrepios— se jogou no que eu chamaria de banco de praça acolchoado ao nosso lado. Estirou os pés na mesinha de centro elegante.
Passei os olhos pelas sacolas, desconfiada. Lojas infantis. Tinha até uma da Carter's. Ares nunca tomava jeito. Quantas vezes falei pra ele parar de comprar coisas pra minha filha? Tudo bem, ele era o avô. Mas qual é! Não consegui comprar uma chupeta e o quartinho de Anna já não cabia quase nada. Não queria ser mal agradecia, mas eu me sentia uma exploradora, além disso.
— Não faça essa cara!— ele bufou. A camisa de botões estavam aberta, revelando seu corpo sarado e bronzeado. Ares era o cara, se é que me entendem. Em todos os sentidos. Mas eu preferia, infelizmente e infinitamente, o filho dele.
— O que eu já te falei?— amarrei rapidamente o cabelo de Brooke. O olhando, raivosa.
— Tava em promoção... E eu quero que minha netinha tenha tudo e mais um pouco— ele esticou o braço e acariciou minha barriga (que estava bem saliente; Anna nasceria uma monstrinha) por cima do avental de trabalho.
Ares tinha uma cicatriz na bochecha, da época em que trabalhou no exército. Isso só o tornava mais amigável. Estranhamente, mais amigável.
— E depois quem banca ela?— Brooke me defendeu. ALGUÉM NESSA CASA!
— Vai defender a senhora humildade?— Ares perguntou com um sorrisinho, estava jogando no sofá nos encarando. Revirei os olhos.
Comecei a preparar a tinta escura no meu carrinho roxo, com inúmeros materiais do meu trabalho. Mexia com o pincel a gosma em um potinho. O sol começou a bater em minhas costas, trazendo sensações boas.
Ares e Brooke começaram uma conversa sobre minha autoridade de mãe e compras excessivas. Ares teve que pedir desculpas. Quase morri quando presenciei a cena. Isso acontecia de sessenta em sessenta anos., tipo um cometa passando pela terra, era muito raro.
— Então! Californiana ou preto de sempre?— coloquei luvas pretas. E peguei o pote.
— O que acha, amor? Pinto as pontas do cabelo de vermelho?— Brooke passou a mão na sua perna, sorrindo lindamente pra ele, que respondia com um sorriso bobo. Tão fofinhos.
Ouvi a voz de Justin Bieber abafada. Não me atrevi a olhar pra trás.
— Vai ficar gatona de qualquer jeito!— ele deu de ombros.
Meti a mão na massa. Tinha muito cabelo pra pintar até a hora do almoço.
...
— Amor— sentada nas costas de um Frank adormecido, distribuí beijos no seu pescoço. Ouvi gemidos em satisfação e passei minhas mãos pela sua pele branca como a neve.— O almoço tá pronto...— beijei suas omoplatas.— Vamos?— sussurrei em seu ouvido.
Passei meu nariz por ali. Sentindo meu estômago revirar, talvez pela fome. Talvez por Frank. Era comum me sentir boba perto dele.
— Assim eu nunca vou querer sair daqui...— seu sorriso fez meu mundo formigar. Vi pontinhos pretos em minha frente. E beijei seus lábios úmidos e macios.
Como ele conseguia?
Mordi sua boca, e a rocei com a minha. O lisinho dela me davam tanto prazer, poderia passar o dia o sentindo. Num movimento só, ele colocou a mão na minha cintura e me puxou pro seu lado. Soltei um gritinho em exclamação, eu tinha que ter cuidado por causa da gravidez. Ele passou sua perna por mim, me prendendo e me trazendo pra perto.
— Oi— olhei no fundo dos seus olhos castanhos. Toda vez que falava com Frank sua íris parecia ganhar vida, se mexiam como trepadeiras se entrelaçando. E eu não podia desviar o olhar.
— Oi— sussurrou na minha boca, devolvendo o olhar na mesma intensidade. Queria devorá-lo com os olhos. Ainda estava sonolento, eu adorava quando falava assim comigo. Eu adorava tudo nele. Meu corpo se esquentou, e chacoalhou internamente. Estávamos tão próximos quanto Anna pudesse deixar.
Não sei quanto tempo ficamos assim, pareciam anos, pareciam segundos.
Meus braços pressionados contra seu peito se ajustaram em volta do seu pescoço. Senti suas mãos na minha barriga, a acariciando com as palmas e dedos inteiros.
— Oi— enterrei meus dedos no seus cabelos ralos na parte de trás. Mordi meu lábio, evitando um sorriso perdido.
— Oi— me roubou um beijo. Tive vontade de puxá-lo de novo.— Oi— me roubou outro. Minha barriga foi rasgada e milhões de borboletas saíram voando.— Oi— e outro, sua mão subiu para minha bochecha, e a afagou.— Oi— ficou por cima de mim, com tanto cuidado como se pudesse me quebrar, e me deu vários outros beijos rápidos. Fechei os olhos, sorrindo. Quando vi, ele estava estirado, ao lado da minha barriga dando mais beijos ali.
— Sabe, meu amor...— falou com Anna, sempre fazia isso. E eu a senti se mexer como se aconchegasse melhor para ouvi-lo, Frank também já que se encaixou em mim, fitando e acariciando minha barriga. Enrolei no dedo o seu cabelo preto longo da parte da frente e o fitei, juro que senti meu cérebro estralar.— O papai e a mamãe te amam tanto, tanto, tanto... O papai poderia sair voando de felicidade por ter vocês duas na vida dele. Às vezes, eu não me aguento querendo te segurar no colo, mas vou sentir tanta saudade de você aí dentro...— deixei uma lágrima rolar, até cair no travesseiro.— E não vou gostar nem um pouco quando os meninos caírem de amores por você. Afinal, você é minha garotinha— sussurrou, concentrado.— Claro que você é muito linda. Deuses, e se for igualzinha a sua mãe vou ter que contratar um exército de seguranças— ri dessa, e também corei.— E se for com o papai... Não vou nem te deixar sair de casa— dei um tapinha na sua cabeça.
— A mamãe não deixar, filha. Esse papai é retardado— acariciei minha barriga.
...
— Porra! Quem toca a campainha domingo na hora do almoço?— Nana resmungou, de boca cheia. Depois de uma hora a convencendo trocar de roupa, fomos almoçar minha lasanha.
Devia ser a Kim ou Phoebe atrás de comida. Elas sempre estavam atrás de comida. Glória, a mãe delas era bem instável desde a separação com o marido. Ela era botânica no Peru (mais precisamente, trabalhara em uma plantação de maconha), hipponga também, acabou casando com o inglês ruivão Henrique e se mudando para Paris, morando no andar abaixo do apartamento da Annie. O filho mais velho dela, Pierre, foi namorado da mesma. E além de muito meu amigo. Eles eram família.
Vagando pelos meus próprios devaneios, e pronta pra levantar e pegar mais pratos para as meninas. Ele entrou na sala. O mesmo ele de sempre. Meu... Hãm... Pai. Nem sei se é um termo mesmo aceitável. Mas ele me tratara bem no tempo que passei na Califórnia, tipo, nas nossas 4 horas de conversa em quase 2 semanas todas...
E lá estava ele, com seu terno preto, o rosto sério, mas se transformando em um sorriso pra mim. Meu pai era homem bonito, imediatamente, pensei em Nico e como sentia sua falta.
Nem sabia mais o que pensava dele. Não havia ódio, não havia felicidade. Havia apenas um vazio patético. Nada. Pra falar, ou pra sentir. Em relação a ele é claro. Mas o fato de estar parado na minha casa... Do meu sogro. Mesmo assim era inédito e inacreditável. Era quase impossível.
Me senti incomodada com sua presença, pra falar a verdade. Ele invadiu minha zona de conforto. Isso não era legal, ele era um forasteiro em minhas terras. Mas uma pontinha do meu ser ainda tinha hospitalidade, afinal ele cruzara meio mundo por mim. Por mim...por mim? Me poupe!
Não consegui viver na ilusão dele na minha vida. Na minha cidade, na minha família.
Ok, ele já era família, mas eu não queria o considerar. A mágoa não tinha sido exatamente afogada. Ou eu não gostaria que fosse. Eu definitivamente não o queria por perto. As coisas estavam bem e eu as piorava, ou afastava.
Talvez, só talvez o problema seria eu. Eu não o queria, eu o evitaria o máximo possível, eu não mexeria um graveto por ele.
A mão sorrateira de Frank apertou minha perna debaixo da mesa. E uma onda de alívio me recorreu. O gesto fora um aviso. Eu estou com você, provavelmente tentara dizer. Queria agradecer, retribui, mas não pude. Meus olhos não desgrudavam de Hades.
Brooke se levantou.
— Hades! Quanto tempo— ela o puxou para um abraço, que logo foi retribuído com muito carinho. Evitei um careta. Ares sorria com um animo avassalador.
— Prefiro sua mulher— Nana se levantou, com o gatilho de implicância sendo pressionado.— Mas você serve— ela o abraçou e Hades riu. Foi o som mais estranho que já tinha ouvido.— Está um rapaz!— apertou suas bochechas.
Ares bufou, cético e se sentou à mesa de novo.
— É Nana... Estou beirando 50— falou, como se não percebesse o tempo.
Brooke tomou seu braço.
— Hazel fez sua lasanha especial hoje. Você tem sorte!
Frank se levantou, senti a cor do rosto sumir. Ele não estava comigo.
— Vou pegar um prato e talheres...— não me dei o trabalho de acompanhar seus passos.
— Conhece a Hazel, né Hades?— Ares apontou pra mim. Minha respiração começou a ficar pesada. Agora eu começara a me desesperar, mas o que eu iria fazer e falar pra ele. Deuses dos céus, eu estava frita.
— Foi por ela que vim a Paris— do outro lado da mesa, seu olhar me apunhalara.
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