Young Blood
32 A verdade sobre eles
Notas iniciais
I want to hide the truth
I want to shelter you
Annie.
O efeito da droga passara. Meu organismo estava acostumado a isso. Normal. Também, só fora alguns cigarros. Batucava os dedos nas pernas, estralava, às vezes. Em tédio, meu olhar atravessou Thalia que sentava na minha frente.
Adorava seu macacão de pizza, e sua bota de militar. Ela estava linda.
Odiava a decepção que sentia.
Tia Meg ainda não chegara, nem Zeus. Novidade. Eles eram tão descompromissados com os filhos que nem surpreendeu ninguém.
Ela não demonstrava, óbvio. Era Lia, mas eu sabia que tinha uma coceira atrás da orelha por não se despedir dos pais.
Suspirei pesadamente, apoiando a cabeça no ombro de Percy. Minha bunda já estava dormente daquelas cadeiras desconfortáveis. As paredes de vidro enormes mostravam o estacionamento ao ar livre, pouco arborizado e o céu estrelado; de fundo os arranhas-céu tingidos de rosa e amarelo. Sentiria falta daquilo, das pessoas e da cidade cintilante. Mas voltaria o mais rápido possível, garanti a mim mesma. Não era pra sempre, era só uma viagem, por mais que me partisse o coração a sensação de deixá-la por apenas alguns dias, tava mais que na cara que precisava de um tempo pra mim. Como Tia Meg disse, renovar os chácaras. E quando chegasse em LA, acertaria as coisas com Percy, mergulharia nos estudos e no canal.
Tínhamos escolhido sentar perto da área de embarque, que já fora chamado para a efetuação. Há dez minutos atrás dissemos que esperaríamos mais cinco minutos, e ali estávamos, criando raízes nos bancos do LAX, esperando por quem talvez nem se lembrasse que tinha que vir.
Encarei Nico, excepcionalmente lindo essa noite. Assim como Percy. E Jason, e meu pai, Poseidon, Tia Maria e Tia Sally. Talvez já fosse a saudade entrando em ação, tentando guardar o melhor dos seus rostos.
Parei de pensar nisso, eu não ia morrer, eu ia pro Tomorrowland, bem... Eu podia morrer lá, de formas muito gostosas. Uma onda de animação correu meu corpo. Porra! Eu estava depressiva por ir para o maior festival de música eletrônica do mundo, e estaria na companhia de Thalia e Pierre, particularmente as pessoas mais parecidas comigo que já conheci e umas das que mais amava.
Então, provavelmente lendo minha mente, Thalia não aguentou, se levantando e assustando Nico, sonolento, ao seu lado.
— Não vou perder o voo— decretou dura e pegou suas coisas.
Pessoas estranhas iam e vinham com malinhas ou mochilas nas costas, umas sentadas no próprio mundo ou na internet. Algumas celebridades menores autografavam revistas de fofoca, as máquinas de salgadinhos e refrigerante brilhavam às nossas costas.
Levantei também. Agora era pra valer. Meu corpo tremia de entusiamo. E com a nota mental de visitar um psiquiatra ao voltar, peguei minha bolsa, colocando nas costas, os nossos cartões de embarque e passaportes.
— Vamos! Pensei que teria uma nova safra de Annie Gostosura aqui— bati nos meus seios, intensificando o comentário. Lia revirou os olhos, indo de despedir dos tios.
Jay riu em deboche.
— Quem disse que você é gostosa?— saiu da cadeira e veio até mim, quase correndo, me pegando num abraço gostoso.
Suspirei nos seus braços.
— Você, loirinho— apertei sua bunda durinha.
— Vou sentir sua falta, galã— sussurrou me abraçando mais forte.
— Eu também— e eu iria. Muito.
...
Depois de cinco minutos de mel e fôlego do casal Thalico, depois de abraços nos adultos, só faltava dar tchau a Percy.
O tchau mais dolorido de todos. E o que eu mais evitara.
— Sei que você está se corroendo por dentro— caminhou vagarosamente em minha direção. Meu pai até saiu de perto, mandando uma piscadela, traidor. Trocou um soquinho com Percy.
O que era isso? Ele estava vendendo meu corpo nu?
Os outros ainda conversavam, e só ficou eu e Percy. Ele e os mares que chamava de olhos. Ele e todo o sentimento torturante que sentia.
— Posso ganhar meu beijo de despedida agora?— brinquei, colocando as mãos na cintura e mordi o lábio.
Se pôs a minha frente, e a brincadeira se tornara séria. Fiquei ofegante, e um pouco desesperada por beijá-lo em público. Tecnicamente já tínhamos nos beijado em público, só que ali era diferente e... Ah, droga! Pensamentos demais.
A mente pesou e o corpo amoleceu.
Sempre.
Ri de mim, por ser tão fácil.
Fitei seus cabelos piche, bagunçados como sempre. Eu os amava assim, os fios eram lustrosos e ficavam em um pequeno topete desajeitado, apontando para todos os lados.
— Se você quiser... Sou todo lábios— sorriu de canto. Quis enche-lo de beijos e levá-lo pra cama e transar loucamente. Que sorriso era aquele, meu?
Me senti indo pra outro plano. Só meu e de Percy. Nosso pequeno mundo. Mas nosso. Não existia nada, além de nós e nossas essências, nada mesmo. Geralmente me sentia assim perto dele.
As suas mãos grandes encontraram minha cintura. E estávamos perto o suficiente pra eu ver suas pintinhas marrons-clara. Meus dedos dos pés ficaram inquietos e meu coração sambava.
— Eu sempre quero...— fechei os olhos, não aguentando.
E nos beijamos.
Doce.
Viciante.
Alucinógeno.
A escuridão brilhava em explosões rosas, roxas, vermelhas... Meu corpo todo se arrepiou, como um animal em alerta. Subi as mãos nos seus cabelos. E gemi, gemi alto. Sua língua entrava tão perfeitamente na minha boca, devagar e sorrateira. Eu estava muito excitada, muito mesmo. Percy entendeu isso. Me maltratando cada vez mais. Fiquei de ponta de pés, o máximo que consegui para acompanhá-lo.
Ele apertava minha bunda e cintura sem dó, beijando devagar, carinhoso. Caralho, o homem sabia me enlouquecer. O corpo todo relaxava, senti os documentos que segurava escorregarem até o chão. Nossas bocas mais juntas a cada movimento, ele chupava tão intensamente, que eu formigava e tremia, tentando corresponder a altura. Mas não podia, ele tinha tomado o controle, ele me tinha. Abri mais a boca, desistindo e deixá-lo ir mais fundo. Tava ficando tonta por falta de ar, e os pulmões adiam de leve. Ainda arranhando seu pescoço, beliscando, tentando canalizar o prazer que não cabia no corpo. Estava meio inclinada pra trás, ele me invadia. Agora bruto e rápido, como se nosso tempo esgotasse, meus lábios já ficaram pulsantes e dormentes, e a perseguida... Nem se fale.
O beijo se tornara tão avassalador que não consegui mais ficar em pé. E nós cambaleamos, rindo no beijo. Me imprensou no seu corpo, me carregando. Ele não iria parar agora, eu não queria, porém, empurrei seu peito. Precisava respirar, não dava mais. Entrelacei minha língua na dele, lançando a cabeça mais a frente e troquei os lados, empurrando mais seu peito. Eu berrava pelo maldito oxigênio. O boné que tinha na cabeça caiu. Eu pensava que ia desmaiar.
Reuni a raspa de força que tinha, e com um barulho, consegui respirar de novo. Arregalei os olhos, jogando a cabeça pra trás, inalando o ar necessário. Cai, desfalecida em Percy, o peito subia e descia tão rápido que parecia que tinha transado a noite inteira. Os braços dele se acomodaram mais ao meu corpo, enterrei a cabeça no seu pescoço soltando baforadas desesperadas. Eu estava igual a um peixe fora d'água. Não conseguia pensar direito, parecia que meu cérebro tinha explodido e depois derretido em liquido quente salpicado no meu rosto.
Já não sentia os pés no chão. Esfregava a testa no pescoço de Percy, que cheirava o meu e beijava ali.
— Cara, eu pensei que ia engolir a Annie— Nico falou.
Era tão distante de nós, que nem demos importância.
— Esse é meu garoto— Poseidon gargalhou, mas novamente estávamos distantes.
Ouvi mais uns murmurinhos.
Sua boca roçou no meu lóbulo. O senti sorrir.
— Você está bem?— ele estava normal... Eu? Bem... Se eu conseguisse recuperar o fôlego.
Assenti, freneticamente no seu pescoço ainda, mordendo uma pelinha irresistível.
— Volte pra mim, ouviu?— levantei a cabeça para olhá-lo.
Meus sentimentos explodiam.
Assenti, me soltando dele, recuperando o equilíbrio. Peguei os passaportes do chão e olhei fundo nos seus olhos, puxei sua camisa, apoiando o braço no seu peito, ainda dando lufadas, nossos narizes se roçaram pela novo proximidade.
— VAMOS, ANNABETH!— Thalia gritou perto da porta que nós levaria ao Boeing da AmericaAirlines. Toda a família encarando meus passos.
"Última chamada para o voo do Boeing 77653 com destino à Bélgica"
Olhei Percy, gravando os detalhes, todos os relevos dos seus olhos. Mordi seu lábio inferior, olhando pro mesmo e me afastei, andando de costas, o deixando só.
— Eu sempre volto, não é?— passei da minha família, ainda fitando seu sorriso.
Girei os calcanhares, correndo até Thalia. Pegando sua mão, violentamente, a puxando para o portão de embarque.
Nós riamos feito autistas.
— O que foi aquilo?— ela se segurava para não tropeçar. Acho que se referia ao beijo.
— Não sei.
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Acordei com Thalia se remexendo ao meu lado. Ela estava encharcada de suor, o travesseiro de pescoço foi parar em seus pés. Tremia tanto que afetava minha cadeira e meu sono. Fazia caretas de dor, gemendo e murmurando baixinho.
O avião, silencioso, se arrastava pelo oceano Atlântico, vi no televisor a frente que faltava 6h para chegarmos. A maioria dos passageiros dormiram, só alguns que tinham os pequenos abajures ligados. A primeira classe era cheia de mal encarados.
Sem demora, tratei de acordar Lia, a chamando e a sacudindo. Só que ela estava em um sono profundo e tortuoso. Respirei fundo, apertando os punhos. Desafivelei o cinto, subindo a cadeira e tirando o cobertor.
Tive uma ideia. Subi a cadeira de Thalia. Isso doeria mais em mim do que nela. Me apoiando do braço da cadeira, dei um tapão no seu rosto.
Soltei o ar pela boca, aliviada. Thalia prensou os olhos, a bochecha ficando vermelha. Ela praguejou, assustadoramente. Seu lábio inferior tremia debilmente, enxugou uma lágrima que queria sair, abrindo os olhos. Sua pupila estava tão dilatada que gritei, com medo. Coloquei a mão, na boca. Um flash dos olhos de Thalia me veio a mente, a parte colorida, que era pra ser azul, tornara-se apenas uma fina linda, sendo ocupada pelo preto da pupila, e seus olhões não ajudavam nada. Eu nunca tinha visto nada igual. Me encolhi na poltrona, em choque.
Ninguém se moveu. E agradeci até a Hades por isso. Thalia soluçou, enterrando a cabeça nas mãos, ouvi seu grito abafado. Ela estava mal como nunca tinha visto. E durante todo esse tempo nunca havia tido pesadelos comigo.
Lágrimas jorraram dos meus olhos, sem eu nem mesmo querer. Minha barriga se contraiu, e eu quis vomitar. Eu ficava tão mal quando via Lia desse jeito. Meu corpo começou a latejar. Fechei os olhos tentando me acalmar. Me mantive firme, tinha que estar lá. Por ela.
A cena do aeroporto pareceu distante agora. Levei minha mão suada as costas da Thalia, e me aproximei vagarosamente. Como se amansasse a fera. Seus soluços eram baixinhos, ela chorava. Eu me odiava por deixar isso acontecer. A abracei de supetão, sendo jogadas para o lado no impacto. Ela segurou meu braço tremendo.
— Ei! Eu estou aqui com você, tudo bem?— acariciei seus cabelos cheirosos e seu rosto quente.
Segurava-se em mim como uma bóia salva-vidas. Ela tossia e se engasgava no próprio choro. Doía na alma ver aquilo. Parecia que meu coração estava passando em um moedor de carne. Começava a ser um choro ruidoso, algumas pessoas olhavam em desprezo, e de verdade, se Thalia me largasse por um segundo, eu as mataria. Minha mente parecia ser espancada, e os joelhos ardiam por estar naquela posição.
— Shhhhhh! Eu estou aqui com você, meu amor— beijei sua testa, me separando minimamente, para encarar seu rosto. Destruído, da forma figurada.
Aproveitei e sentei melhor. Levantando o braço da poltrona e a puxando mais pra mim, nos esprememos no meu espaço. Ela parecia se recuperar, mas ainda sim, deitou a cabeça, desajeitadamente, no meu ombro, entrelaçando nossas mãos, e eu a apertei com força.
— Quer falar sobre isso?— sussurrei, olhando um ponto escuro na nossa frente, já que a tela tinha se apagado.
Ela negou, limpando o nariz.
— Quer um remédio?
Negou, de novo.
— Qual é! Fala comigo!— pedi, manhosa.
Sua voz saiu mais rouca que o normal, como se tivesse fumado uma plantação inteira de maconha.
— Você usa Lady Speed Stick, não usa?— sua bochecha foi pressionada no meu ombro. Ela sorrira. Via pouco na luz fraca.
Soltei uma risada inesperada.
— Como você sabe a marca do meu desodorante?
— To sentindo o cheiro— deu de ombros.
Essa Lia não existia.
— Iai? Pronta pra desembuchar?
— Assim eu corto minha língua— murmurou, mexendo no zíper do macacão.
— Ah, você não faria isso— ri fraquinho, apenas me deixando sentir o subir e descer dos nossos peitos.
Eu estava muito aflita, e um pouco desesperada. Sentimentos ruins enevoavam minha mente.
— Poxa... Você sabe de toda minha...— comecei.
— Desculpa velha, Chase— cortou minha explicação esfarrapada, coçou os olhos, bocejando.— Eu já estava querendo te contar mesmo...
— Ah, obrigada!
— Chega de drama! Já basta esse meu ataque de cinco minutos atrás— falou, grossa. Revirei os olhos, aí, está Thalia!
— Você é bipolar, garota— ela bateu nossas mãos entrelaçadas na sua coxa, nervosa.
— Talvez. Ou só foi mais uma recaída. Estou de boa agora— disse, com uma naturalidade, forçada.
Ela morria por dentro. Isso me matava.
— Mentirosa.
— Eu sei...— sua voz enfraqueceu.— Por isso quero te contar. Acho que vai aliviar a dor.
Pensei em falar pra ela que sofreria dez vezes o que ela sentia do que vê-la assim de novo, mas era muito gay, e também ela estava se preparando pra soltar a bomba. Eu, sinceramente, esperava um história ainda mais triste e depressiva que minha.
— Vai, Thali. A minha aliviou quando contei a verdade pra você— ela sorriu.
— Thali?— indagou, risonha.
Bufei.
— Não enrola!
Me apertou mais contra ela, e eu me senti uma giganta perto ao seu lado, coisa rara. A sua fragilidade momentânea havia a diminuído bruscamente. Adeus a aquele mulherão talhado a dias.
— Ok, Beth.
Fiz uma careta.
— Isso é nome de puta!
— Você é uma puta— riu, sozinha.
— Haha! Pare de me enrolar que não sou carretel.
— Eu só estou procurando as palavras certas— retrucou, ofendida. Esfregou a ponta da minha trancinha lilás.
Descansei minha cabeça na poltrona, esperando por suas palavras. E quando elas vieram quase pedi pra Thalia recolhe-las.
"Tudo começou com Percy, e depois foi tomando proporções gigantescas e perigosas. Mas vamos começar do começo... No inferno, quando você não voltou, foi duro, para todos nós. Mas o verão foi horrível. Pips chorava toda hora, Jason não falava, Nico e eu tínhamos um ao outro para aguentar a barra, e o pior foi Percy. Não sabíamos o que ele fazia, e não saía do quarto de jeito nenhum. A volta às aulas foi assustadora...
Tinha 13 anos, e era o aniversário do papai, num hotel chique em NY, acho que era o Plaza... Enfim. Por acidente ou vontade própria ou por curiosidade, até hoje não descobri, eu e Nico acabamos perdendo nossa virgindade no jardim onde acontecia a festa. Eu sei! Não me faça essa cara, não estou orgulhosa disso, ok? Voltando... E quando terminamos, descobrimos o que tanto Percy havia fazendo, podíamos vê-lo do outro lado dos arbustos fumando um baseado. Mas não era um baseado qualquer. Crack. Ele escolheu uma das piores drogas pra se usar... Eu e Nico, o pegamos e o acobertamos, acabando por seguir seus mesmos passos. Lembra que eu te disse? Íamos para a montanha Hollywood, naquele lugar que te levamos, pra fumar e cheirar. Agora da onde Percy conseguia aquilo, nós não sabíamos, e tínhamos medo de saber.
Frequentávamos festas pesadas, raves, PVT's, às vezes, e conhecemos pessoas. Vivíamos juntos, dividíamos segredos. Ficamos muito próximos, de verdade, nós três éramos carne e osso. E Percy pulou fora um tempo depois, antes que seus pais descobrissem, já que desconfiavam de algo... Ele entrou no time de basquete da escola e começou a namorar Calipso, se tornou uma pessoa normal, no mínimo, aceitável. Passou a beber e fumar em festas, se esforçou mais com o problema de TDAH, até consegui notas boas em algumas matérias. Mas pra mim e Nico não era tão simples assim. Nosso pais nem ligavam, ninguém se importava de verdade, ninguém via, Annie. E estávamos debaixo dos seus narizes.
Foi quando conheci Joe, o tatuador de Venice, sabe? Ele fez nossas primeiras tatuagens. Essa do Pertenço a NDA. Todas, na verdade. Bem... Aí, entramos, realmente, numa estrada sem volta. E começamos não só usar as drogas, mas vendê-las. Era uma brincadeirinha, vendíamos uns saquinhos de pó, alguns enroladinhos aqui e ali, os policiais não ligavam pra duas crianças estanhas... Era o nosso pequeno comércio em Beverly Hills. Eu já tinha 15 anos, e aquela parada tava dando certo, eu conseguia mais dinheiro, fazia tatuagens, comprava mais maconha e mais vodka. Eu ia me afogando na vida e ia crescendo no lance de tráfico... Uhg! Eu odeio essa palavra! Se fosse legalizado... Não haveria essa porra... Ok, continuando! Uma vez fui consegui ser presa, e chupei o policial, peguei um carregamento extra da delegacia e fui solta... Eu acho que te contei, né? Do Dakota. Foi... Eu te falei.
Conforme o produto saia, mais nos davam pra vender... Até que, um ano depois nessa putaria, Joe nos pediu pra ir ao Canadá, fazer uma entrega especial. Nós éramos seus xodós, amigos e confidentes, e ele nos confiou a missão. E me comprou Chloe. É... Ele que me deu minha bebezinha, por isso é tão especial. Numa viagem de negócios dos nosso pais, dirigimos até Vancouver.
Quando chegamos lá, deu merda. Você já pode imaginar. Claro. Uma merda grande, gorda e mal cheirosa.
Foi como uma emboscada.
Os concorrentes nos pegaram no lugar que iríamos entregar a mercadoria. O resto foi um borrão. Me lembro de pouco. Nós passamos dias de fome, sede e escuridão. O bunker que nos arrastaram era podre e mofado. Rasparam a cabeça de Nico, e o molhavam para as correntes elétricas correm seu corpo mais rápido, o chutavam, socavam. Eu o via sofrer, mas não sozinho... Eles... Eles me... Eles me estupraram na frente dele. Eu não parei de chorar um minuto se quer, me batiam tão forte que eu desmaiava. Nos ameaçavam a morte, só que... Em francês, eu não entendia muita coisa, só o que você já tinha me ensinado e algumas palavras parecidas; eles cortavam nossas articulações como se fossem nos mutilar. Era uma coisa, horrenda, Annie. Era desumano. Lembro do som dos tiros... Nós nunca sabíamos quando era a nossa hora, eu estava ficando louca e paranoica. Vários homens... Vários... E Nico gritava tanto, mais alto que meus gemidos de dor, mais alto que os gemidos de prazer daqueles nojentos... Ele... Ele... Me obrigava a olhar nos seus olhos enquanto os outros homens me machucavam. Ele gritava que me amava e era espancado... Riam dele. Teve uma hora que eu nem conseguia falar. Eu só olhava, nua e destruída.
Quando os caras nos deixaram pra apodrecer, distantes um do outro, mais ainda naquele lugar, eu sabia que ia morrer. Eu só esperava que Nico fosse forte o bastante pra se safar. Só que aí, Percy apareceu e nos levou pra casa.
Ele não explicou como descobriu, ele só ficou lá, conosco, o tempo todo. Ficamos o verão inteiro na casa de Percy. Ele cuidava da gente. Nós fazia falar, coisa que eu tinha perdido a vontade, nós levava pra passear de carro, colocava filmes. Ele limpava nossas feridas. Eu tinha dois anos de novo, dependendo dele, simplesmente, pra comer. Só que eu chorava e tinha mais pesadelos... Definitivamente, Nico se recuperou mais rápido do que eu.
Meus pais me estranharam, meus amigos, meu irmão. Só havia Nico e Percy no meu mundo. E tentei diversas vezes acabar com ele. Quis me matar tantas vezes que perdia a conta. Percy falou com Hermes e os anti-depressivos começaram. Funcionaram no começo... Por um tempo tudo estava bem... E os pesadelos voltaram com mais frequência que o normal. Teve uma época que Nico nem parava na casa dele, não desgrudava de mim nem que eu pedisse. E nosso amor se consolidou de uma forma indestrutível, conseguimos ser felizes pela metade.
Joe, um dia, foi falar com a gente, dizendo pra pularmos fora de uma vez por todas. Ele estava tão preocupado! E nos explicou quem eram os caras que fizeram isso, eles eram tipo fodões internacionais. Tinham négocio na França, Inglaterra e Canadá. Eram perigosos demais pra nos envolver numa coisa maior, se possível pediu pra sairmos do estado, até a coisa toda se acalmar. A máfia era realmente pesada para nós. Eles se escondiam nas sombras de uma grande cooperação de luxo, algo assim... Eu não lembro direito.
Pouco depois fomos expulsos da Goode e podemos relaxar quando fomos pra NY, as coisas começaram a se encaixar. Éramos nós mesmos, com direito a muita música, cigarro e sexo. E de repente, acabou. E veio desintoxicação, psicólogos. Nada funcionara. Até você, Annie. Você me entende. Como eu disse: somos merda da mesma bunda."
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