- Namorada? — repeti, em voz alta dessa vez.

Meredith sorriu de forma compreensiva para mim, então se aproximou e disse baixo, para que apenas eu ouvisse:

— Ele não consegue se lembrar de nada além de acordar nesse hospital.

Encarei ela, atordoada.

— Eu não gosto desse tipo de brincadeira — avisei.

Ela suspirou.

— Antes fosse uma brincadeira, Srta. Gilbert — disse, — nosso hospital não tem histórico de perda de memória e não sabemos muito bem como ajudá-lo. Já chamei um bom médico, mas até lá... — ela respirou fundo, então olhou para mim como se pedisse ajuda — Será que pode ficar aqui com ele?

Franzi o cenho.

— Ficar com ele? — repeti, apenas para ter certeza.

— É — confirmou, — conte a ele sobre a vida dele e veja se consegue algum resultado. Pode ficar o tempo que quiser — então ela começou a caminhar para fora do quarto. — Eu tenho que ir, uma mulher bateu o carro e está com hemorragia interna. Se precisarem, temos várias infermeiras de prontidão.

E foi embora.

Virei assustada para Damon, que me encarava com uma sobrancelha arqueada.

Se ele tivesse mesmo perdido a memória, acredito que a primeira coisa que eu deveria fazer era desmentir aquela coisa de namorada, afinal quando ele voltasse, não ficaria nenhum pouco feliz com essa confusão.

— Olha aqui — comecei, — só para deixar bem claro, eu não sou sua na...

— Eu lembro de você — ele interrompeu.

Uma onda de alegria me atingiu e eu caminhei até onde ele estava deitado.

— Lembra?

— Foi você quem me tirou da água, não foi? — disse, fazendo com que eu afundasse com todas as minhas esperanças. Não, a memória dele não havia voltado — Aquela médica, Meredith, ela disse que eu fui vítima de afogamento e que bati com a cabeça... Mas eu lembro de você batendo em meu peito e me abraçando... Você salvou minha vida, certo? — perguntou, meio incerto — Obrigado.

Meu queixo caiu e por alguns momentos eu não sabia o que dizer.

Damon estava sendo gentil comigo... E não só isso, havia uma doçura contagiante em sua voz.

— Não se lembra de mais nada além disso? — insisti.

Por favor, implorei mentalmente, faça alguma piada e ria da minha cara. Por favor.

Mas em vez disso ele apenas negou com a cabeça... Afundando mais minhas esperanças.

— Qual é o seu nome mesmo? — quis saber — Helena?

— Elena — corrigi, congelada no lugar. — Elena Gilbert.

Ele fechou os olhos por um momento, repetindo meu nome lentamente, talvez temendo esquecer disso também.

Quando ele tornou a abrir os olhos, senti uma vontade imensa de chorar.

— E o meu é Damon Salvatore, correto?

Assenti e ele sorriu, feliz por ter acertado.

Oh. Meu. Deus.

Sei que eu o odiava e tudo mais, mas aquilo... Aquilo não era justo.

Ninguém merece esquecer quem é... Não saber de absolutamente nada.

Me aproximei mais dele.

— Posso me sentar? — perguntei.

Porque eu era uma completa estranha para ele.

A partir de agora não existia mais nossas brigas... Ou as vezes em que ele tacou fogo em minhas barbies, ou quando dei o max steel dele para um cachorro de rua comer...

Era apenas ele... E eu.

Damon assentiu e me sentei ao seu lado na cama.

Havia um pequeno sofá do outro lado do quarto, mas nem dei importância a esse fato.

— Quer que eu te conte a sua vida? — perguntei, um nó enorme em minha garganta, Damon voltou a assentir — Pode me perguntar qualquer coisa — falei, dando a ele a liberdade de decidir o que queria saber.

— Quando nos conhecemos? — perguntou depois de um tempo pensando.

Eu ri. Essa era fácil.

— A vida inteira, praticamente — respondi. — Você é meu vizinho. Me mudei para a casa ao lado da sua quando eu tinha uns quatro anos... Você me recebeu jogando suco de uva em minhas roupas... Depois queimou minha casinha da barbie quando não quis brincar de bombeiro com você.

Ele riu, um som rouco que fez com que eu sorrisse também.

— Então nos odiavamos — concluiu.

Assenti.

— Você também já trasou com oitenta por cento das garotas da nossa escola — acrescentei, — gosta de me espiar enquanto eu tomo banho e vive me chamando de "princesa", o que, sinceramente, é irritante e eu adoraria que você parasse.

Damon sorriu para mim.

— Gostei muito dessas novas informações — brincou, — devo ser muito bonito para ter dormido com essa quantidade de garotas... E, provavelmente, um tarado por olhar garotas no banho... Desculpe, princesa.

Fiz uma careta.

— Pedi para não me chamar disso.

Ele me lançou um lindo sorriso, com um quê de malícia.

— Mas eu gostei do apelido — retrucou, — e acho que realmente combina com você.

Bom saber que ele não perdeu a personalidade junto com a memória.

— O que mais quer saber? — perguntei, querendo mudar de assunto.

— Como eu me afoguei? — perguntou rapidamente, como se isso já estivesse na ponta de sua língua — Não sei nadar?

Eu ri alto dessa idéia.

— Claro que sabe nadar — informei, — você é capitão do time de natação.

— Então como eu me afoguei? — insistiu.

Pensei em dizer apenas que ele estava na água para salvar alguém, quando essa pessoa o empurrou, fazendo com que ele batesse a cabeça, mas decidi que contar a história inteira seria melhor.

— Estávamos no baile da escola — expliquei, — o tema era "Sonhos no Fundo do Mar", por isso estou com essa fantasia ridícula de pirata, então...

— Gostei da fantasia — ele interrompeu. — Você está linda, apesar de estar um pouco molhada. Qual era a minha fantasia?

Quando Damon chegou no hospital, duas infermeiras o levaram e trocaram sua roupa, o vestindo com um daqueles aventais horríveis de hospital.

— Pirata também — falei, então lembrando do que ele disse no baile, acrescentei: — Fomos combinando.

Ele sorriu, então me olhou meio perdido, como se tentasse desesperadamente se lembra de algo que eu estava contando.

— Continue — pediu.

— Sua fantasia era toda preta — decidi falar, — você só usa roupas escuras... O tempo todo... É meio estranho, mas acho que fica bom em você — assim, talvez quando ele voltasse para casa, ele poderia usar as roupas como antes... Seria tão estranho ver Damon sem suas roupas pretas... — Voltando a história — avisei, — você me beijou na biblioteca, nós brigamos. Andamos um pouco e então você me jogou dentro da sala de máquinas e de alguma forma você acabou me empurrando contra a alavanca que abria a piscina... Nós ouvimos alguns gritos e corremos para ver o que tinha acontecido, obviamente a piscina havia sido aberta e tinha algumas pessoas caindo com mesa e tudo dentro da água. A filha da diretora, Bonnie Bennet, estava se afogando no meio da piscina, você viu ela e a primeira coisa que fez foi saltar para dentro da água — sorri para Damon. — O que foi muito bonito de sua parte, só para avisar. Então você tirou ela de lá e voltou para ajudar Rebekah Mikaelson, que estava presa pela roupa em uma das mesas, mas quando você chegou perto, ela chutou sua cara e você voou para trás, batendo a cabeça na lateral da piscina e desmaiando... Eu pulei na água sem nem ao menos pensar, tirei você de lá e quase matei a vadia da Rebekah quando ela apareceu uns cinco minutos depois, saindo da água sozinha... Eu fiz respiração boca a boca em você e tudo o que eu lembrava do primeiros-socorros, gritei com as pessoas que chegavam muito perto e até com o professor, a Rebekah tinha ligado para a ambulância... Mas você não acordava... E eu realmente queria que você acordasse... Eu bati em seu peito e...

Os braços de Damon me rodearam, e eu fiquei tão surpresa que não consegui afastá-lo.

Só então notei que meus olhos estavam embaçados com lágrimas não derramadas.

— Você realmente salvou a minha vida — ele disse contra o meu cabelo. — Obrigado.

— Eu achei que você tinha morrido — me ouvi dizendo. — Você estava tão gelado, e não abria os olhos...

Damon acariciou meu cabelo.

-Shhh — sussurrou. — Eu estou bem, princesa.

Meu Deus, ele que havia perdido a memória. Ele que havia quase morrido. Ele que não sabia nem ao menos quem era ou onde estava ao certo...

Então porque diabos eu é que estava sendo consolada?

Notas finais
Gostaram? O que acharam do meu Damon desmemoriado? Só vou avisar que não é permanente, ok? kkk então não fiquem desesperados