You Are My Endless Love
23 Cap 21 - Hidden Faces
Notas iniciais
Agora deixo vcs com mais um capitulo, maiorzinho pra compensar a demora. Bjos e boa leitura!
Somente o barulho fraco do ponteiro do velho relógio de parede podia ser ouvido no local. Os irmãos se encaravam tentando achar um acordo mútuo. Discutiam mudamente entre si. Hyukjae apenas observava-os. Sentia a tensão que aquele assunto parecia impor na atmosfera que os rodeava. Internamente, imaginava que tipo de tragédia poderia estar acontecendo com base nos sinais que captara de Donghae naquele quarto de hotel e da pequena discussão anterior ao silêncio dos irmãos. De tudo que passara em sua cabeça, apenas uma coisa fazia sentido.
Um nome.
Junsu.
Tudo parecia se resumir e englobar a ele. Era como se fosse o centro de gravidade daquela família. Assim como também a principal causa de seus problemas. Intrigado com todo aquele suspense, resolveu esperar calmamente até que um dos dois pudesse começar a falar; no entanto, mais parecia que isso nunca aconteceria. Donghae foi o primeiro a quebrar o contato visual. Olhava para baixo, respirando fundo com a testa franzida em visível desacordo com o resultado da disputa.
– Bem, como eu o trouxe até aqui, é melhor que eu comece – disse finalmente.
Hyukjae se remexeu em seu assento, procurando uma posição mais confortável para começar a ouvir aquela que tinha jeito de ser uma história bem longa. Viu seu namorado morder levemente o lábio inferior enquanto esfregava uma mão na outra, numa expressão nervosa. Aliás, desde que saíram do quarto ele continuara em constante inquietação. Sempre fugindo de si, escondia firmemente o motivo das reações duvidosas que revelara no aposento. Estava com medo, Hyukjae sabia. O que ele não sabia — ou decidira achar melhor não saber – era o porquê.
– Hyukjae, há mais ou menos dezesseis anos que nossa família luta contra uma doença desconhecida que atinge Junsu... E é nisso que precisamos da sua ajuda.
“É nisso que eu preciso da sua ajuda”, foi o que Hyukjae pode ler nos lábios vacilantes de Donghae. Por um momento, a imagem do loiro completamente molhado e melancólico se fez presente em sua cabeça. Poderia ter isso alguma coisa relacionada ao seu comportamento estranho? Pensava seriamente na situação, mas se perguntava se era sábio da sua parte se aprofundar de tal maneira naquele território perigoso que vinha sendo Donghae. Porém, ele não lhe deixara muitas alternativas.
– Que tipo de doença? – perguntou olhando-os clinicamente. Embora estivesse um pouco surpreso com a forma direta de como foi lhe dada a informação, já imaginava que se tratava de alguma enfermidade do pequeno Kim. No entanto, se preocupava com o fato de o menino ter algo em que precisasse de acompanhamento psiquiátrico. Ele sempre se mostrara ser tão centrado...
– Não imaginamos do que se trata e nem mesmo a dezenas de médicos que já consultamos durante a vida – Jaejoong entrou na conversa, ainda com os dígitos massageando-lhe a têmpora.
– Dezenas? Quem vocês chegaram a consultar?
– Cardiologistas, oncologistas, anestesiologistas, imunologistas, infectologistas, e muitos outros “istas” por aí a fora.
– E como é que essa doença age? – Hyukjae começava a se interessar com o caso. Permanecia impassível diante dos olhos observadores do irmão mais velho que ainda insistia ponderar se estava tomando a atitude certa ao contar-lhe sobre o estado do caçula, mas vibrava ansioso por dentro. Escutava e tomava notas mentais sobre qualquer coisa que lhe parecesse importante de ser analisado tanto da história como dos dois à sua frente. Aos poucos, estudava e ia encaixando as peças do quebra-cabeça. Só esperava não ter que encontrar uma má surpresa ao fim... – Digo, que sintomas ele apresenta?
– Não sabemos ao certo. Poucas vezes já vimos os acessos do início. As únicas coisas que sabemos é que, de vez em quando, sem motivo algum, ele tem fortes dores na cabeça e no corpo inteiro. Segundo o que ele já nos disse, sempre começa com tremores pelo corpo e eles se transformam em dores que mais parecem lhe dilacerar a carne, até enfim, chegar à cabeça. Quando isso acontece, ele sempre desmaia, e é assim que sempre o encontramos. Inerte no chão, completamente ensopado de suor e ainda com fortes tremores pelo corpo inteiro.
Jaejoong deu um longo suspiro. Parecia buscar forças em seu íntimo para continuar. Hyukjae imaginou quantas vezes ele teve que repetir esse mesmo discurso a outros médicos e o quão cansado estava disso tudo. Quanto ao fato apresentado pelo seu anfitrião, ponderou as possibilidades. Aquele não parecia ser um caso psiquiátrico, felizmente.
Respirou aliviado.
– E o que faz você acreditar que eu poderia ajudar a tratar Junsu-yah, Donghae? Isso não me parece ser um trabalho da minha área.
– Bem... – Donghae variava seu olhar do namorado ao irmão timidamente. Aparentava querer dizer algo, mas desistia antes que as palavras saíssem por seus lábios. Hyukjae notou por seu nervosismo que ele pretendia lhe contar mais do que o irmão deveria escutar. Procurou não se fazer ser notado pelo mais velho. – É que depois de todos os especialistas que consultamos, Hyukjae, nós acabamos chegando aos neurologistas. Foram eles que mais se aprofundaram no caso, talvez pelo fato dos acessos sempre começarem por tremores e também por conta das fortes dores. Só que eles assim como os outros nunca conseguiram detectar nenhum problema cerebral ou nervoso no Su. Fizeram dezenas de exames. Eles comprovaram que não se tratava de uma mentira do menino como muitos dos outros disseram, mas também não conseguiram explicar como acontecia tudo.
– Era como se as feridas internas se regenerassem logo após serem feitas, por assim dizer – completou Jaejoong. – Após os ataques, ele estava inteiro novamente. E assim a doença nunca deixa rastros...
– Por conta disso, Hyuk-ah, os médicos acabavam apenas receitando calmantes para nos ajudar a controlá-lo – Donghae respirou fundo mais uma vez antes de continuar. – Acontece que, com o passar do tempo, o corpo dele sempre ia se adaptando ao efeito das drogas e nos obrigava a aumentar a dose ou mudá-las. Ou seja, no fim, ele acabará continuamente dependente delas.
– Então o motivo da discussão de vocês há pouco... – Hyukjae começava a compreender onde os dois queriam chegar.
– É justamente sobre isso. – concluiu o mais velho – Já faz alguns meses que o último remédio receitado começou a perder o efeito sobre ele. No começo, eu permiti que ele aumentasse a dose, mas agora... Achei melhor dar um basta nisso.
– Tirando os remédios dele?
– Exato.
– E o hyung acha que isso resolverá? Digo, as dores continuarão, você sabe. Pensa que está ajudando tirando-lhe a única coisa que consegue apaziguar os sintomas? – soou frio. – Prefere vê-lo gritando de dor? Hyung é médico, por acaso?
Encarava-os em um silêncio interrogativo, acusador. Compreendia o sofrimento pelo qual Jaejoong estava passando; no entanto, era médico. Havia passado anos de sua vida cursando Medicina e mais um tanto se especializando, sua mente cansada e formada a duros custos se indignava com a ignorância como os leigos sempre pensavam que podiam sair clinicando livremente.
Donghae surpreendeu-se com a reação do namorado. Já o vira perder a calma uma vez naquele dia e não gostara nem um pouco do que viu e sentiu. Não queria que o irmão presenciasse aquilo. Afinal, era a primeira vez em que ele se abria sobre seus problemas para um estranho, uma oportunidade de ouro. Para a sua sorte, Hyukjae aparentou perceber a gravidade do tom no qual falara com o Kim mais velho.
– Meu irmão estava virando um viciado, doutor. Como queria que eu agisse? – O padre enfureceu-se.
– Desculpe hyung – ele falou depois de um tempo analisando em como poderia reparar a má impressão causada. Seu tom procurando se manter o mais sereno possível.O que menos queria naquele momento era arranjar briga com o Padre. – Eu imagino o quanto deve estar cansado disso tudo e sofrendo por ver Junsu-yah assim, mas não deveria ter feito isso sem consultar o Neurologista que receitou os medicamentos. Você disse que os ataques diminuíram, não é? Quer dizer que alguma coisa está fazendo-os parar, que de alguma forma essa doença tem tratamento. Mas e se, por suspensão dos remédios, os ataques piorarem novamente?
– É por isso que eu achei que você poderia nos ajudar – Donghae o interrompeu. – Não com a doença em si, mas com o estado mental do meu irmão. Porque, querendo nós ou não, ele precisa de acompanhamento médico. Imagine só como deve estar a cabeça dele neste momento? Não vai demorar muito até os ataques nervosos virarem crises de abstinência...
– Então, quer que eu o ajude a se livrar da dependência?
– Isso!
Hyukjae parou um momento para tentar digerir o que acabara de escutar. Agora tudo lhe fazia mais sentido. Lembrou-se da insistência do namorado para que ele trouxesse um certo instrumento sem motivo algum, e do jeito igualmente estranho como ele o apresentou ao menino. Não lhe restava dúvidas de que tudo que Donghae fizera até agora fora para aproximá-lo do jovem artista. Seria tudo apenas para isso? E desde quando ele andara planejando tudo?
Milhões de ideias a respeito disso passavam pela sua cabeça, uma mais assombrosa do que a outra. Tentava em vão arranjar uma explicação plausível para usar como defesa para o namorado. No entanto, tudo o que vinha vendo e ouvindo desde que chegara à cidadela só lhe dava a amarga certeza do fato no qual seu instinto apontava freneticamente e seu coração insistia em disfarçar. Dentre todas que variavam entre si alfinetando e exigindo atenção, até a mais branda de suas hipóteses causava-lhe indignação...
Estava sendo manipulado por Donghae.
E essa idéia lhe era simplesmente repudiável. Mesmo que por uma boa causa.
Porém, da mesma maneira em que sua mente se ocupava em enojar-se do loiro, também abria espaço para o problema proposto. Hyukjae, querendo ou não, era um especialista. Aprendera a manusear o cérebro humano tal como e com a mesma facilidade que fazia com seus instrumentos musicais. Enigmas eram a sua grande paixão. Deliciava-se em passar horas tentando resolver qualquer coisa que fosse desde que isso o forçasse a usar o cérebro, e aquele caso era demasiado interessante para ser dispensado por puro capricho de seu ego. Aos poucos, maravilhava-se com a oportunidade de ir mais a fundo na mente tão misteriosa e brilhante do pequeno artista. Sim, apesar de tudo, poderia tirar grande proveito disso.
Quanto a Donghae... Bem, este poderia esperar, não é?
Olhou para o padre. Este que era tão inocente às tramas do irmão quanto si próprio, parecia começar também a entender o propósito do mais novo de trazê-lo até ali e lhe revelar os segredos da família. De certa forma, o admirava. Não era qualquer pessoa que se dispõe a contar assuntos tão íntimos de um irmão a um estranho apenas confiando no julgamento de outra pessoa, mesmo esse também sendo da família. Ao mesmo tempo, ele mostrava um fino oblíquo em seus lábios, igualmente parecendo começar a simpatizar com a idéia de ter o moreno regulando a vida pessoal do pequeno Kim, apesar do breve desentendimento.
– Muito bem então. Quando posso começar?
Perguntou satisfeito diante dos sorrisos de aprovação dos dois anfitriões.
~x~
[Hyukjae POV]
Pela manhã, tratei de acordar cedo, tomar um banho rápido, engolir alguma coisa no restaurante da pousada e rumar para a igreja antes sequer do horário da primeira missa. A pressa e a ansiedade eram por motivos óbvios: estaria prestes a começar a acompanhar o primeiro – e talvez o mais misterioso e intrigante – paciente de minha carreira como Psiquiatra. Sem falar que simplesmente não se tratava de um paciente qualquer. Era do meu mais novo objeto de fascínio e observação, e isso me deixava ainda mais nervoso. Simplesmente não podia falhar.
Durante todo o percurso até a catedral, cenas da conversa que tive com os irmãos de Junsu na noite anterior me cobriam a mente enquanto observava distraído o vilarejo passando pela janela do táxi. Algo ainda me incomodava. Havia descoberto tantos fatos a respeito do pequeno artista, porém nenhum que explicasse de verdade a causa daquela aura estranha que o rodeava e me intrigava desde o primeiro segundo que o avistei. Uma voz em minha consciência sussurrava alerta que Donghae afinal não me contara toda a história, a mesma voz que me esfregara sem dó uma face de meu namorado que não pensei que pudesse existir.
Afinal, o que aquela família escondia de tão absurdo a respeito de Junsu-yah para mantê-lo sob custódia durante toda a vida? Sim, porque suas razões nunca se limitariam apenas aos acessos nervosos do menino. Nem nas famílias mais loucas e super-protetoras.
Tinha sim, algo a mais alí. E segundo a minha mente, algo bem macabro.
Estava tão absorto em meus pensamentos que sequer me dei conta do tempo passando e quando vi já nos encontrávamos parados na porta da igreja. Paguei o valor da corrida ao motorista e saí do veículo, a bolsa contendo o meu violino na mão. Um calafrio me percorreu toda a extensão do corpo, me deixando em dúvida se sua causa era ou não o frio. A verdade era que, todo aquele mistério que ao mesmo tempo me fascinava, mesmo contra minha vontade, me deixava também apreensivo. Minha curiosidade e mania por enigmas me forçavam a sempre seguir observando, calculando, julgando cada possibilidade que fosse digna de ser considerada, mas naquele momento eu não sabia ao certo se queria ou não descobrir as peças restantes do quebra-cabeça. E se eu me arrependesse no fim de ter me aprofundado tanto assim na intimidade do meu novo e jovem aluno? Um medo inconsciente de que – da mesma forma que me acabara de acontecer com o seu irmão – um lado não tão bonito do garoto me fosse revelado, me auto-diagnostiquei.
No entanto, agora eu já não tinha mais escolha. Lá dentro, meu aluno – ou paciente, dependendo do ponto de vista – me esperava, talvez tão ansioso ou apreensivo quanto eu – mesmo que por motivos diferentes – e sem saber do real motivo daquelas aulas.
Antes mesmo de chegar à metade do corredor que levava ao imponente altar, senti o cheiro de ovos estrelados sendo feitos se misturando ao aroma das flores que enfeitavam diversos pontos da catedral. Sorri satisfeito ao escutar as vozes de Jaejoong-sshi e Donghae conversando animadamente um assunto qualquer. Pareciam alegres e esperando por um dia feliz e despreocupado, e escutar aquele bom-humor todo foi me acalmando gradativamente. Passei pela portinha à direita do altar que levava à copa já me sentindo bem mais despreocupado e disposto a contribuir com toda aquela animação, parando na entrada do recinto e me deliciando com o aquecedor do local e o doce aroma de chá que começara a ser feito.
Jaejoong-sshi novamente se encontrava vestido casualmente tirando toda suspeita inocente de que se tratava de um sacerdote alí e não um rapaz saindo da adolescência. Usava um avental rosado protegendo a camisa branca e o jeans azul e manejava mestramente uma frigideira contendo bacon e ovos sendo fritos. Já Donghae que usava um casaco marrom fechado até o pescoço e um calção preto à altura do joelho deixando à mostra as panturrilhas, um ótimo contraste que me deixava em dúvida se ele sentia ou não frio, passava do armário com as xícaras e outros utensílios para a mesa, se sentando logo em seguida.
Junsu não estava com os irmãos, o que me desapontou bastante. Não o via desde nosso encontro em seu quarto no dia anterior e parecia que cada segundo passado aumentava ainda mais a minha expectativa em conhecê-lo melhor. Pelo menos agora eu finalmente poderia ter minhas malditas curiosidades sanadas, fosse para o bem ou para o mal.
– Ah, Hyuk-ah, bom dia! Você já chegou? Ainda estou terminando de fazer o desjejum – O cozinheiro exclamou assim que deu conta de minha presença alí.
– Bom dia – sorri – Sem problemas Jaejoong-sshi. Eu já tomei café, então...
– Mas ele vai tomar de novo, hyung, não se preocupe, né Hyukjae? – Donghae me interrompeu de uma vez e com uma expressão amedrontada, me deixando sem reação até eu olhar novamente para o mais velho que me fitava segurando um facão com o rosto fechado em algo como fúria iminente.
– Claro! – falei imediatamente sem saber ao certo o que dizia – Estou louco pra provar um café da manhã feito por você, Jae-sshi! Esperarei pacientemente – ri abobalhado.
O rosto do homem mudou da água para o vinho ao escutar minhas palavras, e ele soltou um sorriso largo antes de se virar novamente para o fogão. Sentei apressado ao lado de Donghae que se virou para mim imediatamente e sussurrou em meu ouvido.
– Nunca recuse comida dele, ouviu? Ele fica terrivelmente assustador quando fazem isso...
– E só agora você me diz isso? – sussurrei de volta antes de vê-lo rindo baixo por debaixo da mão que segurava a boca e lhe acompanhar na risada disfarçada.
Não, eu não havia de maneira alguma me esquecido da decepção que Donghae me fizera ter na noite anterior. Apenas, depois de uma longa noite de reflexão, achei por melhor continuar a me portar da mesma maneira que sempre fiz diante de si. Era mais do que certo que eu nada ganharia fazendo um estardalhaço do que mais aborrecimentos, dores de cabeça e um namorado descontente. A opção mais correta a se ter naquela situação era perder alguns neurônios tentando encontrar fundamentos para minhas suspeitas, e enquanto isso, fingir que estava tudo bem. Afinal, sequer era certeza de que eu tinha razão para ter suspeitas, apesar de todo o ocorrido na noite anterior e minha intuição dizer o contrário.
Dura verdade seja dita, eu também temia encontrar motivos para me separar dele.
– Bom, agora é só ir à padaria, o resto já está pronto! – Jaejoong-sshi se virou de repente com seu sorriso largo fazendo com que eu e Donghae nos afastássemos de uma vez, encobrindo nossa breve conversa.
– Eu posso ir hyung – Donghae se ofereceu imediatamente – Hyukjae, você pode ir comigo? Assim eu posso ir te mostrando a cidade...
Já ia responder-lhe com um sorriso por conseguir um tempo a sós com meu namorado quando mais uma voz se fez presente na cozinha.
– É perca de tempo hyung – Junsu, que descia a escadaria e se aproximava de nós com uma expressão sonolenta, buscou a geladeira tirando uma garrafa com água assim que seus pés tocaram o piso. De repente, as sombras que cobriam minha mente pareceram se esvair. Sorri-lhe completamente encantado com sua presença tão infantil vestida em uma camisa branca estampada e uma calça jeans preta e acentuada pela sua voz suave e de tom divertido, agradecendo-o mudamente pelo favor inconsciente que me prestara – A padaria está fechada.
– Como sabe? – O mais velho se pronunciou tirando a garrafa das mãos menores com cara de poucos amigos – E olha os modos mocinho! Dê bom dia a todos primeiro.
O menor olhou para nós e para o irmão novamente, tomou bruscamente a garrafa das mãos de Jaejoong-sshi e se voltou para a mesa, ignorando o sermão do maior totalmente.
– Sabendo, oras! Aliás, é bom que saibam que ficaremos sem pão por um bom tempo – voltou a dizer se sentando em frente a mim – Por isso acostume-se a fazer biscoitos hyung ou passaremos fome todo café e lanche.
Olhei ainda risonho pelo comentário de Junsu para Donghae e meu sorriso sumiu. Ele olhava o menor com uma expressão preocupada e logo depois voltou seus olhos para o mais velho que fez um leve aceno com a cabeça, parecendo também inquieto.
O que poderia estar acontecendo? O que eu havia perdido na conversa? Passei a prestar mais atenção aos dois irmãos maiores depois disso para tentar descobrir mais essa incógnita aparentemente sem importância alguma.
– Bem, já que se não vamos ter pão então podemos comer os ovos com as torradas que sobraram de ontem... Alguém contra? – Jae-sshi tomou a palavra interrompendo o silêncio momentâneo que havia se instalado entre nós sem querer. Novamente, ninguém se pronunciou a respeito.
O nosso desjejum a base de torradas amanhecidas, bacon, ovos e chá terminou rapidamente depois que Donghae puxou um assunto aleatório e todos nós começamos a comentar sobre. Mesmo sendo deveras esquisita toda aquela combinação, mas era fato de que tudo estava muito gostoso como era de se esperar vindo de Jaejoong-sshi. “Espera só até você provar o que ele faz pro almoço. O ruim é que ele tem uma paixão terrível por pimenta, então é bom você não ter nada contra...”, me sussurrou Junsu enquanto saíamos do local para irmos até a sala de música da catedral.
Confesso que me surpreendi bastante com a dimensão daquele salão. Era simplesmente enorme e eu não fazia idéia de como ele cabia dentro daquele sótão. Parecia tomar toda a extensão do hall principal da igreja, o que explicava a grandeza do local.
Com a arquitetura simples e pouco preocupada com ajustes técnicos, apresentava alguns móveis e suportes para instrumentos e partituras aos cantos inferior e superior direito e uma enorme tela branca em um suporte e equipamentos de pintura à luz de uma janelinha ao meio da parede oposta a porta, deixando ao centro do enorme lugar um vazio estranhamente estratégico, como se houvessem retirado algo dali deixando seu espaço vazio. Alguns estofados e bancos preenchiam pontos estratégicos ao lado dos instrumentos no canto oeste da sala. O piso do local era inteiramente de madeira tão lustrada que refletia juntamente com as paredes salmão a moderada luz permitida pelas pequenas janelas brancas que ficavam espalhadas ao redor. Entrei devagar no local, apreciando a tudo. Meus passos ecoavam em um ruído que se confundia com os trépidos da madeira que queimava na bela lareira encontrada na parede adjacente.
Um local grande e aconchegante. Perfeito para alguém propício a ataques nervosos permanecer a maior parte do tempo.
– Quem projetou a decoração da sala? – perguntei vendo-o se distanciar de onde estávamos a passos curtos e lentos. Parecia se aprazer com a paz que o salão transmitia.
– Projetar é uma palavra um pouco técnica demais não acha hyung? – sorriu travesso – Mas se pergunta quem arrumou tudo, daí sim posso lhe responder. Estava cansado de ter horários para fazer o que queria fazer, então decidi transformar o sótão em um lugar em que eu pudesse tocar sem atrapalhar ninguém.
Como eu pensei. Um lugar onde ele pudesse extravasar suas tensões e que lhe transmitisse segurança e calma em seus momentos perigosos ao simplesmente atravessar a porta. Explica o porquê de ele ter se apegado tanto a ele.
– Passa a maior parte do dia aqui?
– De uns tempos pra cá nem tanto, por quê?
– Nada de mais – respondi fingindo desinteresse. Lembrei de Jaejoong-sshi mencionar algo a respeito de que ele havia tido algum avanço desde que seus remédios foram tirados de si, e isso deve ter motivado a sua mente a não procurar mais refúgio. A não ser que ela apenas tenha transferido sua fonte de alívio para outro lugar... A pergunta era: Para onde? – Me parece que falta algo aqui, não? – apontei para o centro vazio do salão – E também, pensei que seu atelier fosse do lado de fora da catedral...
– Ah, isso? Era o meu piano que ficava aí – deu de ombros – Levei-o para o meu quarto há pouco tempo, comecei a sentir mais falta dele que de costume, sei lá. E quanto ao meu atelier... É, ele fica naquela casinha nos fundos da catedral, e aqui também por assim dizer. É aqui onde eu pinto na maioria das vezes e lá é onde guardo os quadros prontos. Muitas vezes já foi o contrário. Depende muito de como eu estou para pintar. Não sei se deu pra entender...
Ri baixinho.
– Deu, deu sim.
Lembrei de mais uma das manias de minha mãe. Embora ela pouco pintasse, mas seus gostos e costumes eram iguais a de um artista que vivia de nada mais do que sua arte, assim dizia meu pai e eu concordava. E assim era ela, desarrumava seu santuário artístico e o mudava de lugar conforme era a estação do ano ou o seu humor. Quem sofria com isso era o meu pai que era obrigado a mudar dezenas de quadros e esculturas a cada pedido dela.
Sorrindo com a lembrança, passei a vistoriar mais um pouco do perímetro do salão. Vi e reconheci alguns dos instrumentos expostos ao canto esquerdo. Flautas, flautins, oboés, clarinetes, uma enorme harpa, violões de todos os tipos, uns poucos instrumentos de percussão, violoncelos, um saxofone, alguns trompetes, trombones, e finalmente, uns cinco violinos de cores variadas. Todos novos ou em perfeito estado. Parei boquiaberto com a visão por alguns segundos até ser acordado com a voz de meu anfitrião.
– São lindos não? E ainda tem mais alguns naquela salinha ali – apontou para uma porta bem estreita atrás dos instrumentos que só no momento percebi que existia. – Isso não contando com o órgão da catedral que fica lá embaixo e o meu piano, embora tenham vindo da mesma remessa que a maioria desses. Meu sonho é um dia saber tocar todos eles, mas como pode ver, faltam muitos ainda – riu.
– Realmente... – concordei rindo também e me aproximando das diversas opções de violinos e checando todos de um por um – Seu irmão já pensou em montar uma orquestra? Com todos eles dá e sobra.
– Na verdade, sim. Com os meninos do orfanato aqui da igreja. O problema é que nem todos têm alguém que saiba tocá-los para ensinar às crianças.
– Entendo.
– Então... Podemos começar? – perguntou puxando para si o violino preto com detalhes em dourado.
– Claro – respondi animado.
Nossa primeira aula correu bem tranqüila, sem pressa, apenas para que ele se acostumasse com a posição correta de apoio do violino e os primeiros acordes. Junsu era muito concentrado e absorvia a tudo com a facilidade de uma esponja. Surpreendi-me ao vê-lo tocando as primeiras notas que lhe ensinara com a desenvoltura de um profissional com anos de experiência após uma ou duas tentativas. Não demoraria muito até que sua capacidade superasse a minha.
Enquanto eu o via fazendo os exercícios, aproveitava para estudá-lo melhor. Manias, expressões, ações; estava atento a tudo e qualquer coisa que pudesse me ajudar a desvendá-lo. Percebi, por exemplo, que sua facilidade ao manusear o instrumento se devia não às mãos pequenas e ágeis – embora estas fossem de grande ajuda, mas sim aos ouvidos. Sua incrível capacidade de ouvir e captar facilmente todas as notas e suas respectivas cordas e de depois conseguir combiná-las perfeitamente de forma harmônica automaticamente me chamou muita atenção.
Para isso, ele exigia de sua mente toda a concentração possível de modo que dificilmente um ruído meu – proposital ou de puro deslumbramento – conseguia atrapalhá-lo. Depois de cada tarefa cumprida, se permitia descansar o rosto franzido, um sorriso doce e orgulhoso e um olhar ansioso pela próxima lição.
Já eu, seguia o observando completamente encantado durante toda a aula. Nunca tinha experimentado ensinar nada a ninguém, nem mesmo à In Rin, e não imaginava que aquela sensação nova poderia ser tão deliciosa. Me alegrava aos montes me sentir necessário à alguém. Saber que podia passar algum conhecimento a outra pessoa e ver essa pessoa aprendendo e se divertindo a cada passo concluído era mágico. Agora se soma tudo à singeleza de Junsu-yah e você tinha a visão de minha felicidade.
– Hum... Com licença, posso atrapalhar vocês um pouquinho?
A voz conhecida ecoou pelo salão um pouco abafada pela música saída do meu violino, e me fez interromper a melodia, virando-me para fitar Jaejoong-sshi com um enorme sorriso voltado para a bandeja que ele trazia consigo. Senti minha boca salivar e minha barriga reclamar vazia, lembrando-me que fazia horas que não a preenchia após me deparar com o aroma extremamente perceptível de chá e biscoitos recém tirados do forno.
– Comida! – Junsu exclamou ao ver o irmão se aproximando de nós e depositando a bandeja em um dos bancos que se encontravam por perto e puxando outro para se sentar. Reparei um pouco surpreso que este finalmente se encontrava de batina e que por sinal o traje não lhe caia nada mal.
– Achei que estariam com fome já que nem desceram para o almoço e então acabei fazendo alguns biscoitos baseado na sua dica Su-ya! – comentou orgulhoso enquanto servia o chá nas duas xícaras da bandeja – Espero que estejam bons, é a primeira vez que faço biscoitos na vida.
Se estavam bons eu não sabia, mas que o cheiro deles era capaz de matar qualquer um de vontade, isso era certeza. Peguei a minha xícara e um dos biscoitos do prato e provei-o. Estavam maravilhosos, como já era de se esperar do padre-cozinheiro. Terminei-o rapidamente para logo já avançar em outro.
– Desculpe hyung – disse Junsu ao repetir minhas ações – Nem percebi o tempo passar...
– Sem problemas. E então como está o gosto? Donghae aprovou, não sei quanto a vocês.
– Está perfeito Jaejoong-sshi! – comentei – Sempre me surpreendo com essa sua veia cozinheira.
– Hyung, se Joongie-hyung não fosse padre, com certeza seria um mestre-cuca. É o que todos dizem!
– Que bom que vocês gostaram! E quanto ao Su, Hyuk-ah? Espero que ele esteja se saindo bem.
– Está brincando? Daqui a poucos dias ele já pode fazer um concerto para a cidade inteira! – disse bagunçando os cabelos do Kim mais novo. Estava realmente muito orgulhoso do meu pequeno e talentoso aluno.
– Ótimo! Estávamos mesmo precisando arrecadar fundos para a reforma da catedral. Reforma essa que você me deve há tempos, mocinho! – apontou e empurrou o nariz do caçula.
– Não vem com essa de novo, hyung. Sabe o trabalhão que vai dar pintar tudo aquilo de novo? Sem falar que é uma tela – de tamanho absurdo, mas ainda sim uma tela. Se eu não estiver inspirado não sai nada – reclamou Junsu enfiando o penúltimo biscoito do prato na boca.
– Já entendi, já entendi.
A expressão de derrotado de Jaejoong-sshi era realmente uma coisa cômica, razão essa que levou a mim e ao pequeno Kim a desatarmos a rir e fez com que o próprio padre também se juntasse a nós. Após terminarmos o chá, começamos a jogar conversa fora sobre a cidade e seus moradores enquanto eu meio que dizia como era a vida na capital. Apesar das pequenas brigas bobas e sem motivos que se seguiram entre os dois, eu pude perceber que eram grandes amigos e que Junsu-yah ficava bem mais a vontade com irmão mais velho do que com o do meio – apesar de eu ter visto algo mais de afeição por parte dele por Donghae do que por Jaejoong. Eu seguia rindo das histórias, comentando alguma coisa ou outra, estava tão absorto que acabei por levar um susto quando um homem alto entrou de uma vez pelo salão, seus passos ecoando pesadamente.
– Ah? Siwon-ah! Lá na cozinha tem biscoitos, e é melhor você correr antes que Kyuhyun e Donghae devorem tudo – escutei o padre dizer alegremente ao ver de quem se tratava.
O homem nada disse e continuou se aproximando rapidamente de nós. Seus finos traços faciais se mostravam ansiosos, preocupados, mas ao se dar conta da minha presença ele procurou disfarçá-los. Diminuiu o passo, mostrou um sorriso tímido e brilhantemente simpático, e eu acabei por me espantar ao perceber que o homem apesar de aparentar de longe bem mais velho devido à sua estatura alta e forte, não devia ter mais que a idade de Donghae. Era belo, era realmente muito belo.
– Desculpe incomodá-los... – começou, sua voz baixa e grave entoando pelo salão – Padre, tem alguns senhores lá embaixo e... acho melhor o senhor dar uma olhada.
Embora o rapaz tenha disfarçado bem, mas eu pude perceber alguns olhares voltados a mim e a mensagem era clara: “É algo particular.” Junsu também pareceu ver a reação do outro e fechou o sorriso que ainda estava em seus lábios em uma expressão séria. Parecia saber do que se tratava.
– Senhores, é? – Percebi a mesma tensão da voz de Siwon penetrar na do jovem padre e este, imediatamente se levantando, voltou-se a mim e ao irmão mais novo com gotículas de suor lhe surgindo pela fronte. – Perdão, Hyuk-ah, mas vocês podem continuar a aula de vocês? Tenho uns assuntos para resolver, com licença.
E saiu. Olhei para Junsu com relutância, e o vi estático olhando firmemente sério para a porta onde o irmão acabara de cruzar. Suspirou.
– Quem era aquele? – perguntei querendo puxar conversa e prender sua atenção a mim.
– Um dos coroinhas daqui – respondeu sem mudar a expressão e nem a direção do olhar. Ao menos não estava de todo disperso.
– Coroinha? Quantos anos ele tem?
– Um a mais ou a menos que Donghae-hyung. Não sei ao certo.
– Hum... – E novamente o silêncio reinou.
Junsu se mostrava calmo diante da situação perturbadora que o irmão aparentemente resolvia. Fitava o nada, pensando e repensando alguma coisa, e eu continuava curioso a respeito do assunto. Não ousava perguntar, lógico. Mas algo me dizia que se havia tanto mistério e tanto cuidado por conta de minha presença, alguma coisa grande devia ser.
– Hyung... – chamou-me depois de algum tempo – Vou até a cozinha beber um copo de água. Pode ficar aqui me esperando?
– Claro – concordei vendo-o se levantar e sair pela porta.
Sem ninguém, o enorme salão de música da catedral parecia infinito em meio à sua aura inspiradora. Levantei-me e aproveitei a deixa para explorar ainda mais aquele lugar mágico e suas atrações. Meu alvo era óbvio: os inúmeros instrumentos que existiam ali. Estava encantado com a variedade e tentava imaginar em como eles chegaram aqui. Os mais velhos pareciam ser realmente muito antigos, embora continuassem a luzir como novos. Peças de museu, para falar a verdade. De valor incontestável. Ainda degustando das preciosidades, lembrei algum comentário de Junsu sobre existir mais algumas outras peças dentro da saleta seguinte. Apressei-me para abrir a portinhola e tentar descobrir mais alguma coisa.
A salinha, que era um depósito, parecia ser bem menor do que realmente era se vista pelo lado de fora. Por dentro, o quarto era relativamente amplo e estava empestado de objetos e bolsas, além de vários outros instrumentos. Aproximei-me no maior intuito de observá-los mais de perto quando algo me chamou atenção. Eram vozes vindas de uma outra porta entreaberta localizada numa extremidade longe da saída. Escondida e quase imperceptível, só me permitiu descobri-la graças aos berreiros que ecoavam por ela. Eram raivosos – ou seriam amedrontados? – e gritavam palavras incompreensíveis. Meio apreensivo, acabei por deixar a minha curiosidade novamente tomar as rédeas e me levar até lá.
A porta dava para um corredor aberto acima do hall principal da catedral. Lá embaixo, alguns homens fardados se afastavam lentamente atemorizados do altar enquanto berravam maldições a alguém. Pareciam policiais. No altar se encontravam Jaejoong, Donghae, Siwon, o menino Kyuhyun. Todos atrás de um Junsu que avançava a passos torturantemente lentos na direção dos oficiais.
A conversa que se seguiu entre eles ficara por muito e muito tempo vagando pela minha mente. Enfim o temor que me atingira mais cedo começava a criar raízes e, mais uma vez, a tentar me convencer a nunca duvidar de meus instintos. Cada palavra dita por aquele primeiro sinal de um Junsu totalmente oposto do que eu conhecera me assustara tanto que mesmo depois de anos a visão daquele seu sorriso sádico ainda era capaz de tirar meu sono. Frio e completamente deliciado em ver o medo estampado na face dos senhores à sua frente, ia recitando cada frase como se cantasse uma canção divertida, mesmo fazendo questão de mostrar que sabia exatamente a gravidade do que dizia. Mesmo sabendo que cantava uma canção em louvor ao maior medo dos humanos e, ao que parecia ser, sua maior brincadeira.
Uma canção de morte. Suas palavras se banhando em veneno e procurando expiar a vida dos homens fardados.
Notas finais
Ah sim, às pessoas que me seguiam no twitter e para aqueles que querem me seguir, por favor, migrem para esse perfil ~~> @Kalosu_Tod Tive alguns problemas com o outro então criei esse, blz? No mais, ate o proximo cap O/
OBS: responderei os reviews passados assim que puder ok?
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