You Are My Endless Love

24 Cap 22 - In the clear waters of lake


Notas iniciais
Um
mês depois, lá venho eu entregar cap novo... *chora enquanto escuta os
zumbidos das moscas*
Desculpe gente, realmente desculpe. Eu queria atualizar mais cedo,
sério. Só que quando eu mais pensei que teria tempo pra isso - estou de
férias finalmente yay - o meu tempo se esgota ;A; Sem falar que eu ainda
não resolvi o problema com o provedor e por isso continuo sem net em
casa... Resultado: sem a net de casa e sem a net do trabalho = eu sem
atualizar e sem responder review. Pra recompensar um mês de demora,
resolvi entregar um cap que tbm vai demorar quase o mesmo tempo *olha o
mega exagero aí* pra vcs terminarem de ler! Espero que gostem!

Se não soubesse quem eram aquelas pessoas, podia jurar que eram atores filmando uma cena para um filme de terror. Havia chegado já na metade da gravação e por isso não conseguia entender o que exatamente estava se passando. Porém, isso não queria dizer que o que estava vendo não poderia assustá-lo intensamente.

Hyukjae identificou os primeiros berros que lhe chamaram a atenção como sendo de Jaejoong. Eram raivosos, imperativos, e eram dirigidos a alguns senhores fardados. O que estava à frente dos demais era baixinho, gordo, de meia idade, com um farto bigode e o cenho fortemente franzido em visível fúria. Era o que brigava com o seu anfitrião. Os outros estavam a um passo do líder; eram três: todos bem mais jovens, magros e altos.

Atrás do padre, meio que segurando o mesmo para que não avançasse nos oficiais, estava um Donghae preocupado. Sussurrava coisas ao pé do ouvido do irmão frequentemente, sempre olhando nervosamente para os lados. Parecia temer algo ou que alguém ouvisse a confusão. Ao seu lado estava Siwon que encarava firmemente, e até com certa arrogância, os policiais enquanto segurava um dos ombros do pequeno Kyuhyun. Este era o mais preocupado dos quatro. Aparentava querer fugir a todo custo do mais velho, mesmo que com movimentos sutis. Olhava amedrontado para a porta que dava acesso à copa da catedral, sua respiração notavelmente ofegante mostrava que havia corrido. De quem ou para que, isto não conseguia imaginar.

– Senhor Padre, por favor, colabore! – O senhor gordo se exaltava, sua voz se fazendo ecoar pelo salão. – Isto é uma emergência! Temos um caso gravíssimo aqui, será que não entende?!

– Desculpe Delegado, mas já lhe disse que não posso fazer nada pelo senhor.

– Exijo que me escute e me deixe trabalhar!

– Mas não vai! – Siwon disparou furioso – Sinto muito Delegado, mas infelizmente aqui o senhor não exige absolutamente nada, ouviu?!

– Está indo contra a minha autoridade, moleque?!

– Está na casa de Deus, Delegado. Aqui você é apenas um homem comum, lembre-se disso! –Jaejoong interrompeu-o autoritário. – Se o senhor quiser alguma ajuda espiritual, estamos dispostos a ajudá-lo. No entanto, somente com isso. Outra coisa, infelizmente, não será possível. Não entendo o porquê de o senhor ter se dado ao trabalho de vir aqui novamente quando sabia que eu não iria permitir um abuso desses se repetir. Nenhum de nós tem algo a ver com os seus problemas, então, por favor, trate de se retirar, você e seus cães! – concluiu apontando para as portas escancaradas da catedral.

Ver Jaejoong nervoso daquela forma o surpreendeu bastante. Ele sempre se mostrara alguém tão calmo, sorridente, infantil que, de certa forma, nunca imaginou que tal personalidade pudesse existir em seu interior. No entanto, o que mais o surpreendera ali fora, com certeza, a possibilidade de alguma daquelas pessoas terem algum envolvimento com a polícia. Porém, uma coisa a mais incomodava Hyukjae. Mesmo o Delegado estando discutindo com aqueles presentes, sentia que o foco do oficial não estava em nenhum deles. Eram apenas como se fossem uma barreira a superar para que chegasse ao seu destino final. E daqueles que viviam na enorme construção santa, apenas uma pessoa faltava. Sua respiração acelerava conforme a linha de raciocínio evoluía em sua mente. Conseguia ouvir seu coração enlouquecer freneticamente dentro do peito. Estava preocupado. Só pensar naquela possibilidade já o angustiava, embora não soubesse o motivo.

– Hyung... Já chega. – Nem bem teve tempo de tentar entender o que se passava consigo e com as pessoas lá embaixo quando uma voz repentina ecoou pelo salão e logo depois o dito cujo, atravessando a passos lentos a porta que levava à copa, aparecia. – Por que tanto barulho? Estamos em um local sagrado, senhores – falava tranquilamente. – Não há necessidade de tanto alarde da parte de vocês. É a mim que eles procuram. Não é assim, senhor Delegado?

Por conta da distância, não conseguiu discernir bem sua expressão, mas pode identificar pelo seu tom de voz que Junsu se mostrava bastante e estranhamente calmo para quem se deparava com a polícia à sua procura. Já o Delegado demonstrava ter ficado bastante surpreso com as palavras do menino que sorria conforme via o oficial se afastar do altar e, aparentemente, dele.

– C-claro! – gaguejou o pobre homem. – Já deve imaginar o que nos traz aqui não é mesmo, Junsu-sshi?

– Junsu, não pedi que ficasse lá em cima?! – disparou o mais velho dos irmãos.

Jaejoong rapidamente saiu de seu posto à frente para alcançar o irmão e tentar bloqueá-lo. Estava cansado de ser sempre provocado por aquele homem inescrupuloso que ostentava o título de delegado da cidade e sabia que o mesmo precisava de uma lição, mas isso não queria dizer que tinha de ser o seu irmão a aplicá-la. Não permitiria que Junsu sujasse suas mãos com aquele homem.

– Sim, mas como vê, tenho assuntos a tratar com os senhores oficiais. Agora, por favor, não se meta mais, hyung. É particular – debochou o menino enquanto olhava o irmão de soslaio e desviava dele.

Hyukjae, que ainda se encontrava chocado com a confirmação de suas suspeitas, não conseguia entender o que a polícia poderia querer tratar com Junsu. Por mais intrigante que ele pudesse ser não pareceu ser do tipo de adolescente que se envolvia com encrencas. Porém, estava convencido de que não se tratava de coisa boba. O status de sua família na sociedade fizera-o conhecer o suficiente de delegados para saber que eles só tiravam seus traseiros de suas cadeiras acolchoadas para entrar em campo, se a situação fosse grave o bastante para não conseguir ser resolvida por ninguém mais além deles. No meio da confusão, Kyuhyun parecia estar tão afligido com a cena quanto a si. Remexia-se frequentemente entre os mais velhos e, de alguma maneira, tentava alcançar Junsu, que completamente indiferente às investidas do menino de impedi-lo, já atravessava o altar, ficando em frente ao Delegado.

– O que dizíamos? Ah é, eu sei sim por que vieram aqui Delegado, mas prefiro esperar as vossas palavras. Questão de protocolo – continuou o menino.

– Bem, se é assim... – o homem vacilou por um breve instante, mas vendo os rostos irritados dos outros à sua frente, aprumou-se e prosseguiu em um tom mais grave, e, no entanto, ainda hesitante – Junsu-sshi, se me permite dizer, estamos aqui por conta do caso da morte do padeiro e de sua família. Eles morreram envenenados ontem por volta do meio-dia. Uma perda lamentável. Misteriosamente, não havia nenhum vestígio de arrombamento da casa ou roubo. Apenas as mortes. Dado que o senhor padeiro não havia inimizades e que por isso não temos nenhum suspeito inicial, viemos aqui para saber se o senhor tem algo a nos dizer ou alguém a quem acusar sobre isso...

Hyukjae apurou os ouvidos para conseguir captar melhor as palavras do oficial. Mais estranho do que ver um Delegado brigando com um Padre para falar com um menino de dezenove anos, é vê-lo com medo deste. Além do incomum respeito que mostrava diante do garoto, constantemente, o senhor de bigode e seus homens começavam a olhar em volta de si, como se esperassem um ataque mortal a qualquer momento. Sempre que Junsu fazia menção de avançar um pouco mais, a cena se repetia. O menino, embora exibisse um sorriso sádico mostrando que estava claramente se divertindo com a situação, não fazia absolutamente nada que pudesse ameaçar os oficiais, o que fazia Hyukjae se perguntar o que exatamente eles temiam. Perguntavam o que o jovem artista tinha a dizer sobre tal caso e mesmo assim não pareciam acusá-lo. Como se soubessem que o rapaz sabia das respostas mesmo não sendo o culpado.

De repente, a resposta surgiu à sua cabeça.

A cena de Junsu no café da manhã comentando algo sobre eles ficarem sem comer pão durante certo tempo avançou-lhe sem piedade. Poderia o menino já saber do caso? Se sabia, como descobriu? Teria ele algum envolvimento naquilo? Hyukjae balançou a cabeça como se o gesto dispersasse a hipótese como fumaça. Estava convicto que Junsu era inocente, embora faltassem peças demais no quebra-cabeça para que pudesse tirar alguma certeza. Uma família inteira... O menino jamais seria capaz de cometer um assassinato daqueles. Aliás, jamais seria capaz de fazer mal a uma formiga! Mas então, por que aqueles homens insistiam em falar deste assunto com ele?

– Acusar? – a conversa se seguia torturantemente arrastada.

– Logicamente. O senhor deve ter alguma informação a respeito do assassino não?

– Desculpe Delegado, mas não sei do que está falando. Isto não foi um assassinato – Junsu ria livremente fazendo o som ecoar pelo salão.

– Como assim? Mas é lógico que foi! – rebateu ofendido. – Acha que o que matou o padeiro e sua família foi um acidente?!

– Acho não, senhor Delegado. Foi um acidente. E um dos mais idiotas, se quer minha opinião – deu de ombros.

O Delegado cerrou a boca tão firmemente que o rangido de seus dentes era quase audível pelo público. Estava escarlate em sua fúria. Detestava ser contrariado por seus soldados, quem dirá por uma criança? Tinha um respeito enorme – para não dizer medo – por ele, mas isso não lhe dava o direito de querer passar por cima de sua experiência acumulada ao longo dos anos de ofício.

– E como poderia ter se passado este acidente? – perguntou tentando manter a raiva sobre controle a todo custo. Jamais imaginaria o que poderia acontecer consigo se desafiasse o menino.

– Como o senhor mesmo acabou de dizer. O padeiro colocou veneno para matar ratos na noite anterior pela casa, porém, teve o descuidado de deixar a caixa d’água meio destampada. Com a ajuda do vento, o veneno líquido evaporou, condensou na tampa e caiu na água. Fim.

– Isso não tem cabimento! – descontrolou-se de vez. – Está dizendo que aquele homem era tão burro a ponto de cometer um deslize desses? Eu o conhecia, Junsu-sshi. Muito bem por sinal! Ele jamais seria descuidado assim.

– Quanto a isso não posso fazer nada, Delegado. Não tenho culpa se o senhor prefere ver coisas onde não existem ao invés de investigar os casos que realmente precisem de sua atenção – deu de ombros novamente com um sorriso cínico. – Veja bem, senhor. Por que raios alguém teria o cuidado de matar toda uma família, e mesmo assim, não roubar absolutamente nada da casa? O caso já está encerrado, então pode se retirar agora.

– Só pode estar zombando de mim, criança! Ou então, escondendo os assassinos! Diga-me a verdade agora!!!

Junsu que já se encontrava de costas para os policiais e começando a se retirar, parara bruscamente sua caminhada. Respirou profundamente, cerrando os olhos e degustando a afronta. Tentara controlar seu humor negro ao máximo até aquele momento, mas não dava mais para aguentar. Se o Delegado queria ouvir a verdade do que se passara iria ouvir. Fria e afiada. Exatamente como a morte era.

Virou-se lentamente. Sufocava os homens fardados com sua raiva a cada olhar dirigido a eles. E então, o Delegado se arrependeu amargamente pelas palavras ditas. Porém, tarde demais.

– A verdade, senhor Delegado? É isso o que quer ouvir? Pois bem. Ouvirá. Mas escute atentamente porque eu não direi novamente.

Junsu voltou a caminhar lentamente em direção ao delegado que se encolhia gradativamente. Até mesmo sua respiração transformara-se em uma arma letal, envenenando o ambiente outrora sagrado em sua paz. Ao redor do lugar, as velas apagaram-se de repente num sopro sem sentido e os sinos tocaram furiosos. Pareciam concordar e apoiar a fúria do rapaz. Sua sombra se confundia com o negrume da escuridão, e no ar, o terrível cheiro do medo das pessoas presentes acentuou-se.

– Saiba homem inútil, que seu amigo e sua família, de verdade, não tiveram culpa de suas mortes. Nem eles e nem ninguém. Apenas estavam condenados a perecerem neste dia. E isto fora marcado no mesmo dia em que nasceram. Tio Tod precisava levar a todos de uma vez e estava sem criatividade, imagine só. Morte por envenenamento... Eu bem que lhe disse que era uma idéia idiota, mas ele não ligou. Disse que precisava de uma desculpa convincente para poder realizar o seu trabalho e aquilo foi a única coisa que lhe veio à cabeça. Mas não se preocupem cavalheiros. Na próxima vez eu o ajudo a escolher algo mais criativo, prometo – riu de escárnio. – A notícia me foi dada ontem mesmo. Não tive tempo de avisar a ninguém. E mesmo que tivesse contado, nada que pudesse fazer iria mudar o fim da história, Delegado. O senhor é apenas um humano ordinário, e no dia em que um tipo como você puder mudar uma lei divina, o mundo se acabará. Lembre-se disso e ponha-se no seu lugar.

– E-eu... – gaguejou o pobre homem tropeçando em suas pernas e vindo ao chão.

Os outros soldados apavorados ao verem seu líder cair, saíram correndo em direção à entrada da catedral. Mas antes que conseguisse atravessá-la, as enormes portas de madeira fecharam-se num estrondo ensurdecedor. Não houvera vento, não houvera nenhum tipo de força ou porteiro que pudessem empurrá-las, mas mesmo assim lá estavam, trancadas e completamente intranspassáveis.

– Desculpe soldados, mas vocês não vão a lugar nenhum – riu.

– O que quer de nós? – gritou um deles.

– Por favor, piedade. Só estamos cumprindo ordens...

– Eu sei. E sinto muito por serem obrigados a obedecerem a um idiota como este que se diz um Delegado. Porém, tenho um recado a dá-los. Poderão sair depois que escutá-lo, não se preocupem.

– R-recado?

– Sim. Para você Delegado, diretamente do meu tio. Sinta-se honrado. Não são todos que conseguem ouvir palavras vindas dele antes de seu último suspiro.

– E-ele e-está... aqui? – balbuciou.

Hyukjae, que ainda assistia a tudo, sentiu seu estomago embrulhar diante da atmosfera aterrorizante formada no salão. Suas pernas tremiam. Não conseguia raciocinar direito. E tudo o que conseguia ouvir de sua cabeça era uma voz que gritava insistentemente que corresse o máximo que pudesse, embora seu corpo estivesse completamente paralisado e não a obedecesse. Tentava achar algum nexo nas palavras de Junsu e dos demais presentes, mas nada que pudesse ser considerado lhe vinha. Olhava insistentemente para Donghae e os que o acompanhavam no altar, como se lhe perguntasse telepaticamente o porquê de nenhum ali se pronunciar diante de tal situação. Porém, somente depois de muito esforço, conseguiu ver que até os próprios estavam tão petrificados quanto a si.

– Sim, e me pedira para dizer-lhe que já está mais que na hora de o senhor decidir sair desta cidade, Delegado. Pelo seu próprio bem. Viera até aqui e me desafiara... Ou melhor, desafiara a ele, mesmo imaginando que nós dois sabemos exatamente que tipo de lixo o senhor é. Falso e corrupto trai a mulher a torto e direito, rouba do governo, agride inocentes, abusa de sua autoridade... E isto são só apenas os crimes mais leves, vejam só – O menino sibilava cada palavra como em uma canção, seus lábios permanecendo em um sorriso que era capaz de envenenar qualquer um que o presenciasse. – Não merece estar entre nós. Não merece viver aqui, ou em lugar algum. A morte é pouco castigo. E devo dizer que ele está louco para pôr as mãos em você, viu? Prometeu-lhe uma passagem bem dolorosa e caprichada, para compensar a falta de imaginação com o seu amiguinho.

Junsu agora ria levemente. Aproveitava cada sinal de pavor do homem à sua frente. Mentira sobre o fato de o tio estar ali presente, mas de resto era tudo verdade. Há muito que sabia dos podres do homem barrigudo e engolia a cada desaforo presenciado pela família por puro pedido do irmão. Agora já não aguentara mais. E se iria descontar cada raiva passada graças a ele, então que fosse em grande estilo. Observou com prazer estampado em seu sorriso, Lilith rosnar perto do pescoço do homem, somente esperando uma ordem para executá-lo ali mesmo. Com o pensamento, segurou a sede de sangue da cadela e ordenou que a mesma avançasse no pé do oficial. Lilith ainda tentou argumentar que no pescoço seria mais divertido, mas acabou acatando as ordens dadas e avançou no coturno do homem que soltou um grito de congelar o sangue.

– Sem machucá-lo demais, Lily... – sussurrou vitorioso.

O homem levantou-se mancando e saiu em disparada em direção aos seus homens que o acompanharam no coro pavoroso e ensurdecedor. Lilith foi até bem perto dos mesmos e, latindo em extrema euforia, olhou uma última vez para o mestre antes de permitir que as portas da catedral pudessem se abrir.

Os oficiais saíram em disparada pela rua e logo puderam ouvir gritos de reclamações de moradores e buzinas de carros ecoarem pela região.

Junsu chamou a mascote em pensamento, logo sendo atendido por esta e se preparou para seguir em direção ao quarto. Havia brincado demais por um dia, era hora de descansar. Ignorou os olhares perturbados dos outros presentes e passou pela porta em direção ao seu aposento sem olhar para trás ou dizer nenhuma palavra. Não havia necessidade. O que ele era e a relação que tinha com Tod não era segredo para nenhum deles ali.

Lá em cima, escondido dos olhos de todos, agradecendo mentalmente por isso, continuava Hyukjae. Agora que tudo havia acabado, aproveitava a brisa que adentrava pelas portas escancaradas da catedral para respirar normalmente e tentar pôr os pensamentos em ordem. Porém, apenas um branco existia em sua mente. Só conseguia entender apenas uma coisa: aquele não era o Junsu que conhecera, e orava intensamente para que jamais pudesse vê-lo novamente.



– Hyukkie? – uma voz chamou minha atenção e levantando o olhar deparei-me com Donghae à minha frente, uma expressão cansada e com fios de preocupação estampada em seu belo rosto. – Você está bem? Está tão distante...

– Distante?

– Sim, já faz algum tempo que te chamo, mas você parecia estar dormindo acordado. Está cansado?

Algum tempo? Há quanto tempo eu estaria largado naquele banquinho de madeira alinhada enquanto Donghae estaria tentando me resgatar de meus devaneios? Neste exato momento, senti minha cabeça pesar exausta. Havia abusado demais da pobre coitada tentando clarear minhas idéias, isso sem falar destes últimos dias em que a vinha usando sem piedade e descanso. Fui levado por uma tontura leve só de imaginar que mesmo assim nem uma mínima parte das charadas havia sido desvendada e que ainda demoraria até que eu pudesse enfim ver a paz.

– Só um pouco. Acho que foi por conta da aula. Ainda não estava descansado o suficiente da viagem e exagerei um tanto hoje... – vi Donghae assentir, calado e pensativo. – Mas e quanto a Junsu? Ele ainda não voltou. Aconteceu alguma coisa lá embaixo?

– Uma confusãozinha com alguns oficiais, mas nada de grave – mentiu. – Su foi para o quarto. Não estava se sentindo muito bem também. Parece que estamos todos muito estressados estes dias – suspirou pesadamente. – Me desculpe por isso, Hyukkie.

– Tudo bem – fingi acreditar em suas palavras, embora concordasse com a última parte delas. Realmente estávamos todos precisando de um longo descanso...

– Mas ei, agora que você está livre que tal darmos um passeio? – disse abaixando-se até estar à mesma altura que eu. – Tem um lugar que eu gostaria de te levar, talvez faça você se lembrar de alguma coisa da época de quando morava aqui – sorria.

– E seu irmão? Não vai precisar de você por aqui?

– Não se preocupe com isso. Estamos de férias, lembra? Ele sabe que apesar de tudo estamos aqui para aproveitar e descansar.

Novamente tive de concordar com o que ele dissera. A verdade é que em momento algum desde que chegamos aqui tivemos uma pausa significativa para repousar. Eram segredos atrás de segredos, crises emocionais, descobertas não tão agradáveis de praticamente todos a minha volta, e isso desconsiderando todo o estresse acumulado do nosso período excessivamente longo de provas finais e o problema que tivemos com In Rin. Essa viagem estava me fazendo sentir de tudo menos que estava, enfim, de férias. Já estava mais que na hora de pôr a cabeça em hiatus por um tempo.

– Ok, vamos então? – levantei-me tentando pela primeira vez desde que chegamos ali, esquecer qualquer coisa que pudesse me aborrecer.


Atravessamos a sala de música nos dirigindo até a saída dos fundos da catedral. Até ali eu já vira tudo o que aquela grande construção poderia me oferecer para observar, e até me atrevi a pensar que nada mais depois do que eu vira desde que pus os pés na entrada da cidadela poderia me surpreender. Ledo engano. Se aquela catedral parecia gigantesca se olhada pelo lado de fora, mal sabe que ela é exagerada o bastante para esconder muitas outras coisas inacreditáveis por detrás de si.

Logo que passamos pela porta e eu pude sentir a brisa batendo refrescante em meu rosto, percebi alguns pinheiros postos no centro de um caminho de pedras brancas que se dividiam cercando-os e seguindo pelas laterais, onde se podiam ver as entradas de dois enormes prédios. Fomos seguindo a trilha das pedras passando pelas árvores até que a primeira das minhas surpresas da tarde aparecesse: o vasto e circular jardim e a beleza que apresentava. Se não fosse pela estação no qual estávamos, certamente aquele lugar haveria de ter belíssimos espécimes de flores, podia perceber pelo aroma característico delas que ainda conseguia pairar resistente pelo ambiente. Uma comprida cerca de madeira e as laterais dos dois prédios cheias de janelas brancas limitavam o perímetro, trazendo em suas sombras alguns brinquedos infantis. Mais árvores compunham o espaço, algumas delas providas de pequeninas e recém-nascidas folhas mesmo trazendo vestígios de neve em seus galhos, o que me faziam lembrar que o inverno não tardaria em acabar. Um conjunto de dois balanços e uma caixa de areia à direita e um escorregador à esquerda terminavam de enfeitar o ambiente.

– Isso é... – comecei, a voz me falhando pela metade da frase.

– Gostou? Eu e os meninos costumávamos brincar aqui sempre – Donghae acrescentou sorrindo feliz. Parecia se perder nas lembranças que aquele lugar compunha.

– Nunca pensei que pudesse existir um lugar assim depois desta catedral – confessei, parando no centro do jardim e olhando em volta.

– Ainda é cedo para ficar surpreso, Hyukkie – olhei rapidamente para si, prestando atenção em suas palavras. Seu sorriso aumentava conforme eu me mostrava impressionado com cada pedaço daquele lugar – Aqui é só o início de tudo. A melhor parte sempre fica para o final, como manda o costume.

Olhando para as construções que nos cercava, notei a presença de algumas crianças de diversas idades passando pelas janelas, algumas delas paravam olhavam e nos vendo, saiam correndo rindo, tampando suas bocas com as pequenas mãozinhas.

– O que são esses prédios? – perguntei curioso ao ver uma menininha de lacinhos rosas nas laterais da cabeça que sorria simpaticamente enquanto acenava para mim.

– São as duas alas do orfanato da região. É parte da catedral, por isso somos nós que cuidamos e o administramos. Aquela lá é a pequena Yoon Bin. Tem só quatro anos, mas é bem travessa e esperta. Hyung me disse que ela toca flauta como ninguém. – acenou de volta.

– Conhece a todas elas? – repeti seu gesto e a menina riu saindo da janela.

– Quase todas. Os que chegaram aqui depois que eu fui para a capital, não cheguei a conhecer ainda. Kyuhyun-ah cresceu aqui, sabia? Aquele ali – apontou para a última janela do segundo andar – é o quarto dele. Agora ele só vem pra cá na hora de dormir, isso quando vem dormir em casa. Na maioria das vezes ele dorme lá pela catedral mesmo.

– E aquele outro também? Siwon, não é? – lembrei do rapaz alto de sorriso simpático e aparência mais velha.

– Não. Siwon-ah é filho do prefeito da cidade. Veio um dia para a igreja com os pais, encantou-se com a missa e resolveu virar um dos nossos. Está conosco desde que eu me lembro.

– Junsu disse que ele tem mais ou menos a sua idade...

– É verdade. Um ano mais novo se não me engano – coçou o queixo, numa maneira de puxar a informação da memória.

– E os pais dele? – Não imaginava que reação poderiam ter tido após descobrirem que o filho queria ser Padre. Seria isso bom ou ruim?

– Ele é filho único então já sabe como é. Ficaram um pouco chocados de início, mas depois o orgulho pelo desenvolvimento do menino foi mais forte. Embora até hoje achem que ele teria dado um ótimo capitão no exército – gargalhou.

– Por que está rindo? – perguntei.

– É que eles não sabem, mas Wonnie detesta qualquer tipo de violência. Deus escreve certo por linhas tortas, Hyukjae. Ele jamais teria dado um ótimo soldado, não importando em que área fosse trabalhar.

Confesso que escutá-lo com tanta intimidade para com o rapaz me fez sentir uma pontada de ciúme. Mas repreendi-me com base na história dele e pela lealdade que o mesmo transpareceu na frente dos policiais mais cedo. De verdade, não parecia que ele estava mais interessado nas coisas mundanas.

Encerrando nossa conversa acerca do orfanato, continuamos a caminhar rumo ao fim do jardim, onde eu acabara de perceber uma portinhola na cerca e, depois dela e da breve área que antecipava o início de um vasto bosque, um casebre antigo de madeira. Este era relativamente baixo, com uma varandinha na frente e apenas uma janela na lateral esquerda. Poderia ser a casa de algum vigilante? Pensei na hipótese por alguns segundos enquanto Donghae fechava a portinhola atrás de nós depois de atravessá-la, até que me lembrei de um fato que Junsu me soltara mais cedo quando conversávamos.

– Este é o atelier de Junsu-ya? – perguntei tentando tirar minhas dúvidas.

– Na verdade, é aqui onde ele atualmente guarda os quadros depois que ficam prontos. Parece que está pintando lá na sala de música mesmo.

– É, foi o que ele me disse... – Uma idéia me veio à cabeça. – Hae-ah?

– Hum?

– Podemos entrar e dar uma olhada rapidinho? – implorei manhoso, fazendo Donghae rir.

– Até poderíamos, Hyukkie – começou se aproximando de mim e me envolvendo em seus braços, mas não sem antes olhar ao redor e ter certeza que não tínhamos espiões. – mas infelizmente, Junsu tem o terrível cuidado de trancar este lugar sempre que sai. A chave sempre está com ele e dificilmente a abandona por aí. Sinto muito.

– Que pena... – sussurrei tristemente.

– Não se preocupe bobo. Depois eu vejo se consigo a chave e você finalmente realiza seu sonho infantil, que tal? – brincou.

– Sério?!

– Claro. Junsu não costuma me negar alguma coisa. Ele vai resistir, mas no fim vai acabar deixando. Até lá, paciência senhorzinho.

Assenti com um largo suspiro, e Donghae, sorrindo, selou rapidamente nossos lábios. Fora um movimento rápido, mas bem proveitoso. Por conta de tantos problemas e suspeitas a seu respeito atormentando minha cabeça, até me esquecera do quão doce e necessário a mim aqueles lábios eram. Pela primeira vez do que me pareciam ser séculos, eu realmente estava aproveitando sua presença como antes. Como quando éramos apenas dois meninos descobrindo o quanto era prazeroso estarmos juntos um do outro. Sorri-lhe sinceramente, deixando com que aquela paz esquecida que me abraçava com seus braços pálidos pudesse preencher-me o coração calorosamente como há tempos não sentia.

– Vamos continuar? – perguntei-lhe. Ele assentiu e, como pensei que faria nos levou em direção ao bosque atrás do casebre.

Lá, uma estreita trilha dividia a mata em duas porções extensas e densas de árvores, por vezes vivas, por vezes completamente desfolhadas. A terra batida e pedregosa do caminho era lamacenta em várias partes do percurso por conta do gelo que se amontoava nas raízes e nos galhos das plantas e que era espalhado pelo vento. À medida que adentrávamos por ela, as copas das árvores maiores se juntavam formando uma espécie de abrigo improvisado e eu começava a sentir o ar à nossa volta esquentar, fazendo desnecessário o uso de meu casaco.

– É melhor você continuar com ele e abrir apenas alguns botões – Donghae me alertava. – Agora pode estar caloroso, mas pode esfriar bastante a qualquer momento. O clima daqui é meio indeciso, sabe?

Com o aviso, contentei-me apenas em abrir os primeiros botões do casaco, abrindo-o para deixar algum ar circular pelo meu peito. Minha pele eriçara imediatamente com o contato do vento chocando com o calor do meu corpo confinado debaixo do tecido.

Pelo caminho, alguns pequenos e médios animais podiam ser vistos. A maioria, pássaros, esquilos e coelhos, vinham até a beira da estrada, observava-nos por um momento e depois voltavam para seus lares estrategicamente escondidos da neve. Sentindo uma estranha sensação de liberdade e felicidade plena, respirei profundamente. O ar úmido da mata penetrava rejuvenescedor pelos meus pulmões exaustos do ar poluído da cidade grande e me fazia sentir como uma criança novamente. Procurava em cada canto daquele lugar mágico uma razão para observar e sorrir, e a Natureza, generosa como era, não me decepcionava em sentido nenhum. Donghae por vezes me olhava e parecia compartilhar da minha alegria. Apontava quando via algum bicho interessante, e me enchia os ouvidos contando histórias de quando era criança e brincava por aqueles caminhos.

Segundo ele, aquele bosque também fazia parte das posses da catedral e por isso responsabilidade dela desde que fora construída. Vários eram os contos sobre aquelas terras, um mais fantasioso do que o outro. Donghae disse que muitos cidadãos disseram ter visto espíritos passando por ali durante a noite, brincando, discutindo, namorando, ou tentando se matarem. Uns aclamavam o lugar como abençoado, outros teimavam dizer que era amaldiçoado, mas todos concordavam com uma coisa: o lugar detinha de uma magia encantadora, que atraíam curiosos e naturalistas de todos os cantos.

– E você, já viu alguma dessas coisas? – parei no meio da caminhada para pegar uma pequena noz no chão e começar a jogá-la no alto.

– Por quê? Está com medo, Lee Hyukjae? – zombou.

– Claro que não! – rebati. – Apenas estou curioso, oras! – Donghae rira.

– Por esta trilha, não. Embora Jae-hyung insista dizer que tenha visto um homem muito bonito em chamas por aqui gritando maldições a alguém, eu sempre achei que ele disse isso para assustar as crianças do orfanato e evitar delas saírem pelo bosque sozinhas.

– Belo jeito de domá-las – ri.

– Pois é. Ele não tem chance com crianças como já deve ter percebido. Elas o fazem dançar conforme a música que tocam, literalmente. Daí resolveu assustar elas com essa história, mesmo que jure por tudo que é verdade. Mas continuando, não pela mata propriamente dita. No entanto, o lugar que estou te levando agora é... um pouco intrigante.

– Como assim intrigante?

– É difícil explicar. Quando chegarmos lá você vai entender.

Quinze minutos de caminhada pela mata depois, finalmente eu consegui ver o que parecia ser o fim da trilha. As árvores paravam aos poucos de alinhar-se e começavam a se dividir pra os lados, indicando uma aparentemente ampla clareira.

Como Donghae me dissera depois de sairmos da catedral, o melhor com certeza estava no final. Após a última leva de árvores da trilha, alguns arbustos montavam guarda para proteger um magnífico santuário natural. Um enorme lago cercado de árvores de todos os tamanhos e extensões exibia toda sua majestade injetando na atmosfera em volta uma leve e respeitosa sensação. Uma canção leve era executada pelo vento nas folhas e pelas águas quando avançavam pelas pedras. Na nascente bem a oeste, um pequeno e ligeiro riacho alimentava o lago e ajudava os companheiros na melodia. Por um momento de reflexão, imaginei estar diante não de um montante de água, mas sim um senhor idoso e sábio em seus acumulados anos de idade. Um aperto no peito me fez perceber que prendia minha respiração e que precisava de oxigênio para sobreviver. Assim, permiti que todo aquele ar milenar transpassasse minhas narinas e preenchesse o meu pulmão, o ato fazendo-me pensar se não acabaria absorvendo parte de tanto aparato. Acordei de meu encanto com Donghae cutucando meu braço e em seguida me mostrando um píer bem à nossa frente e um caminho estreitíssimo que descia e levava até lá. Ainda mudo, o segui pelo mesmo.

Ao fim do comprimento do píer, sentamo-nos na beirada. Donghae logo tirara os sapatos para molhar os dedos na água, arrepiando-se ao contato e sorrindo satisfeito ao voltar a mergulhá-los. Já eu, ainda estava absorto demais em minha descoberta para ter alguma reação imediata.

– É lindo, não? – interrompeu o silêncio, tirando os pés da água e deitando-se sobre o meu peito.

– Tanto que nem sei o que dizer... – apertei-o contra mim.

– Consegue sentir o mistério que te falei antes?

– Consigo sim.

– E quanto a alguma memória antiga? Todo mundo daqui conhece esse lugar, não é possível que você não o tenha conhecido.

– Não sei... – revelei pensativo. – Tem algo neste lugar que tá mexendo muito comigo, uma sensação de nostalgia, sei lá.

– Bem isso é normal – disse desapontado. – Papai costumava dizer que este lugar foi criado para reflexão. Que todos os que vêm aqui são levados até o íntimo de seus sentimentos, de seus pensamentos e de sua consciência. Muitos já choraram arrependimentos, tristezas e alegrias nestas águas. Ele mesmo já viera rezar aqui centenas de vezes, e sempre que vinha trazia a nós três. Dizia que seria nosso dever proteger este lugar dos homens ruins, só que eu sempre achei que é impossível ter alguém que consiga levantar o dedo contra isto tudo.

Concordei. Se realmente aquele lugar causasse a todas as pessoas que o viam a mesma reação que causou a mim, jamais alguém se moveria contra ele.

Na superfície do lago, meu reflexo tremulava por conta do vento. Levado pela música invisível e pelo sentimento do local, peguei-me observando cada um de meus traços e durante cada percurso feito por eles, imagens de meu passado também se refletiam junto do meu rosto. Vira meu pai dezenas de vezes e percebi o quanto ele estivera presente em minha vida, por um instante me perguntei se ele já viera ali e algo dentro de mim respondeu que sim. Sorri com a resposta.

In Rin fora a segunda pessoa que apareceu nas imagens. Seu sorriso traquina compunha a maior parte de minha infância lembrada. Recordei o quão gostava da sapeca quando criança e tristemente provei para mim mesmo que tudo aquilo não passara de uma paixonite de infância. O que não fazia meus sentimentos por ela menos puros quanto antes. Peguei-me preocupado com ela e me perguntando o que fazia neste momento na Itália. Poderia estar bem alimentada? Triste? Com saudades? Escrevi uma nota mental para que me lembrasse de ligá-la quando chegasse ao hotel mais tarde.

Os pequenos fiascos de memória contendo minha mãe foram os próximos a aparecerem diante de mim. O sorriso dela e a sensação de tê-la acariciando meus cabelos envolvendo-me com seu aroma costumeiro de essência de algodão, passeavam pelas águas transparentes e por um breve segundo pareci escutar o som de seu riso e de sua voz chamando pelo meu nome ecoando com o barulho das folhas. Inconformado com a pouca lembrança que tinha dela e nauseado pelo aperto da saudade, acabei por abraçar Donghae mais forte ainda. Eu sabia que ele não entendera meu ato, mas mostrou compreender meu estado emocional e retribuindo o abraço, permaneceu calado.

As imagens de minha adolescência conturbada e de meus velhos amigos foram as próximas. Um a um eles vinham chamando-me para sair, para beber, para jogar, falar da vida dos outros, ou pelo simples prazer de falar meu nome. Vi Kangin puxando os cabelos de Sungmin por ele ter roubado no jogo de cartas quando estávamos no segundo ano, vi Heechul chamando a mim e Shindong enquanto estava sendo perseguido por algumas mulheres em uma de nossas saídas, vi a época em que Heechul namorava um de nossos colegas de classe e vi novamente o quanto ele sofrera por perdê-lo por conta dos pais. Lembrei do medo que tive de ver meu melhor amigo cometendo uma besteira consigo mesmo, ou de que eu pudesse passar pela mesma coisa no futuro – na época, com In Rin – e por muito pouco, não deixei as lágrimas descerem por meus olhos. Talvez adivinhando o quão balançado por aquelas lembranças dolorosas eu estava, Donghae remexeu-se em meus braços e, subindo pelo meu corpo, deixou que eu descansasse minha cabeça em seu ombro e começou a cantarolar alguma coisa.

A água tremulou novamente e então, eu finalmente pude vê-lo.

Donghae com seus cabelos castanhos e roupas escolhidas aleatoriamente se esbarrava em mim em um dia em que tinha tudo para ser o pior da minha vida. Naquele dia eu sabia que ele não era uma pessoa comum, e foi exatamente o que acabou me mostrando por volta de toda a conversa que tivemos no café da esquina. Um cara estranho que virara meu amigo, e que sem querer, acabou por tomar para si meu coração, meu corpo e todo o resto. Sentia-me eternamente agradecido pela sua existência e por ter sido domado por si. Vi nossos passeios, nossas conversas, e vi aquele fatídico feriado e como ele mudara nossa vida. Refletidas nas águas, as lembranças de nosso primeiro beijo me acalentavam ao som de sua canção improvisada. O calor e o prazer da primeira vez que eu o possuí me entorpeciam tanto como antes, e de repente, compreendi que não conseguiria mais viver sem aquela presença em minha vida.

As próximas lembranças eram bem recentes. Na verdade, diziam a respeito de tudo o que eu vira e descobrira nestes últimos dois dias. Os irmãos Kim, os enigmas de Donghae, a sensação intrigante que me tomou quando vi Junsu pela primeira vez, o quanto fiquei encantado por seus talentos, até mesmo o gosto da comida de Jaejoong-sshi enchia a minha boca naquele momento. Até que então, veio a cena que eu presenciara pela manhã. Junsu e aquela aura macabra que o envolvia, as expressões de terror nos rostos de quem assistia a tudo, as ofuscações das velas, as portas da catedral se fechando sem ninguém, os gritos de pavor dos oficiais, e as palavras ditas pelo menino. Aquelas imagens me arrepiaram por completo, e com o medo de tudo aquilo explodir em minha cabeça invadindo-me novamente, finalmente consegui desviar meu olhar das águas cristalinas e escondi meu rosto no pescoço de Donghae, seu perfume a me devolver a calma aos poucos.

– Está tudo bem, Hyukkie. Eu estou aqui com você, vai tudo ficar bem... – escutei Donghae sussurrando em meu ouvido, e então eu percebi que tremia levemente em seus braços. Tinha tanto medo assim de me decepcionar com as pessoas ao meu redor? Por quê?

Donghae levantando meu rosto e me olhando fixamente transparecia temer também o que se passava em minha cabeça. Roçando calmamente os lábios nos meus e tomando-os de vez em quando, acalentou-me carinhosamente para depois voltar a me fitar, agora aparentando estar mais decidido do que fazer.

– Pode perguntar Hyukjae. Eu sei que deve estar morrendo depois de tanta coisa enfiada em sua cabeça de uma só vez. Só não garanto que vou te contar tudo, tem muito mais coisas envolvidas aqui do que simplesmente nós dois.

Suspirei. Há meses atrás, da mesma forma que ele, eu encontrara forças para encarar o que estava por vir e prometi-lhe que passaríamos por todas as provações juntos. No entanto, eu jamais pensei que o Destino faria com que minha própria mente pusesse pôr o que sentia por Donghae à prova. Fora isso que me desarmara, que me deixara débil. A astúcia que meus pais sempre aclamaram e que eu achara ser minha maior bênção se transformara na minha maior armadilha. Enchia meu coração de dúvidas, embolava meus sentimentos e me fazia uma criança assustada. Porém, para o seu desespero, não havia qualquer outro lugar no mundo a quem eu pudesse chorar minhas amarguras do que senão os braços daquele que insistia em condenar. Ele era a causa e a cura. E eu não tinha outra saída a não ser me perder mais ainda naquele abismo que eram os seus mistérios.

– Por que está me usando, Donghae? E desde quando? O que diabos está acontecendo aqui? – soltei mais exausto do que nervoso propriamente dito.

Ele soltou meu rosto e se afastou, voltando a pôr os pés nas águas do lago.

– Lembra quando eu recebi aquele telegrama e nós lemos lá na faculdade?

– Sei...

– Pois é. Naquela época eu realmente fiquei muito feliz por você ter aceitado vir comigo. Sério. Nada mais me importava naquele tempo. Voltaria para casa, reveria meus irmãos, e ainda teria a sua companhia. Estava tão distraído com o fato de que poderia ser feliz um pouquinho mais que me esqueci de vários fatores que implicariam nesta confusão toda. O que me fez abrir os olhos para o poderia vir foi a história com a In Rin. Os pais dela e o que fizeram com ela por ter desmarcado aquele casamento me fizeram lembrar de que eu, ao contrário dela, nunca fui capaz de ir contra as nossas regras tão diretamente. E que pela primeira vez na vida eu estava bastante encrencado.

“O tempo foi passando, e eu não conseguia criar coragem de te explicar o que poderia enfrentar ao pôr os pés de volta neste lugar. Quando dei por mim já era véspera da viagem. Você estava tão feliz com tudo e com a oportunidade de voltar a ver o lugar onde nasceu que eu não podia simplesmente desmarcar tudo. Foi aí que eu tive a idéia de aproximar você dos meus irmãos.”

– Me fazendo cuidar de Junsu-ya?

– É. Acho que você já deve ter percebido que aquela criança é o centro de tudo na nossa família. É difícil explicar, Hyukkie, mas eu e Jaejoong-hyung vivemos a nossa vida inteira em função daquele menino que sequer é do nosso sangue.

– Sempre foi assim?

– Sempre. Desde que ele foi deixado na porta da catedral ainda bebê. Papai nos dizia que Junsu era diferente das outras crianças, que deveríamos protegê-lo do mundo e de suas maldades. E ele realmente é assim. A cada ano que passava, nós descobríamos coisas novas a respeito dele. A cada ano que passava, nós tínhamos mais coisas a esconder do mundo. Papai nos ensinou a ser silenciosos, cautelosos, desconfiados. Nossas histórias pertenciam somente a nós, ninguém mais poderia participar deste círculo. Crescemos sem amizades e apenas com deveres. Isso sem falar que estas eram apenas nossas regras pessoais. Vivíamos na Igreja. Tínhamos que obedecer a suas leis também.

– Se arrepende de ter ficado comigo? – perguntei receoso.

– Não – me olhou com um sorriso fraco. – Mas isso não significa que nosso namoro seja algo aceitável aos olhos da Igreja. Entenda Hyukjae, por favor. Estava confuso, mas não me arrependia de te amar. O jeito que encontrei de amenizar a minha situação era fazer com que você ganhasse a confiança deles. Tendo acesso aos nossos segredos, seria mais fácil enfrentá-los caso chegasse a hora.

– O problema é que você não imaginou que eles todos cairiam de uma vez assim que chegássemos – concluí por ele.

– Exato. Junsu tem uma doença grave que ninguém consegue curar, uma que eu sempre achei maior até que seu problema nervoso: consegue ver o mundo de uma forma completamente distinta das outras pessoas. E isso é perigoso, Hyukkie. Você bem sabe o que as pessoas fazem quando se deparam com o que acham “diferente”.

Claro que sabia. Muitas vezes em minha vida eu mesmo já vira e fora alvo dos preconceitos e julgamentos das outras pessoas. As idéias de Junsu poderiam entrar em conflito com o que a sociedade chama de “normal” e o fariam sofrer por isso.

– Um psiquiatra para o mais velho, um professor de música para o mais novo. O que fará se Junsu-ya descobrir o que estou fazendo ao dar aquelas aulas?

– Se até lá ele confiar em você, estará tudo bem. Junsu não guarda rancor de quem confia. Agora se não... Aí eu não faço a mínima idéia. Você tem que tomar cuidado, Hyukjae. Ele é muito inteligente, têm pessoas que são leais a ele por toda parte. Se decepcioná-lo, Jaejoong-hyung tomará isso como ofensa também e então estará tudo perdido. Não podemos arriscar.

– De que você tem mais medo? Que ele descubra sobre o nosso namoro ou sobre o que eu sou?

– Acredite, ter alguém o manipulando é bem mais sinistro do que um romance proibido para ele. Nisso vocês dois são bem parecidos...


Já era fim de tarde. No imenso céu azul que aos poucos trocava o seu tom turquesa para o conhecido alaranjado, as primeiras estrelas surgiam apressadas, como se temessem serem encobertas pelas pesadas nuvens que já se espalhavam pela extensão antes que perdessem a oportunidade de serem apreciadas por alguém. Notei o ar ao meu redor adotando o mesmo estado do companheiro de cima, umedecendo-se conforme as porções acinzentadas tomavam todo pedacinho celeste existente. Provavelmente nevaria antes mesmo que eu pudesse chegar ao fim da trilha que levava até a catedral.

Levantei-me do píer rapidamente, mas não sem dar uma última olhada no meu reflexo na água cristalina do lago. Vira parte de minha vida inteira que eu conseguia me lembrar espelhada naquelas águas. Elas agora compartilhavam de meus segredos mais profundos, meus sentimentos, minhas dúvidas. Se pudessem ao menos usar de tanta sabedoria acumulada ao longo das centenas de anos para sanar alguma de minhas confusões internas, ou mesmo me responder o que diabos acontecia de tão medonho com aquela família que a guardara por todos esses anos... Será que saberia as respostas? E se soubesse, me contaria? Suspirei conformado com o silêncio que me rodeava. Apenas as árvores cantavam naquele momento, estimuladas pelo vento frio que passeava por entre suas folhas, e elas não contariam nada, eu sabia. Não quando seus principais tutores eram o pivô de tudo. Virei-me e, abandonando meus pensamentos enevoados na superfície do lago junto com a imagem de meu rosto, deixei aquele lugar tão nostálgico e nauseante ao mesmo tempo.

Voltando pelo mesmo caminho que viera, era acompanhado por um ou outro pequeno animal até determinado ponto da trilha onde um companheiro tomava seu lugar na escolta. Achei aquele comportamento deveras estranho de início, porém, levando em conta de que absolutamente tudo naquela cidadela cheirava a ilusão e contos de fadas, acabei me acostumando com a companhia inusitada dos roedores e pássaros que me seguiam curiosos conforme avançava. Com um sorriso bobo, lembrei da estória da Branca de Neve, e por um segundo me perguntei se ela se sentira exatamente como eu alí enquanto era guiada pelos animais da floresta até a casa dos anões. Andava devagar. Não sabendo se queria ou não chegar ao meu destino final, e lá, me deparar com mais uma chuva de incertezas e mistérios. Já me bastavam as que me perturbavam no momento. Estava sendo tragado impiedosamente por tais sombras cruéis que, ao mesmo tempo em que tampavam meus olhos para o que havia de esperança no caso, me mostravam cada vez mais rumos que eu lutava inconscientemente para não seguir.

Não tendo pena de meu estado deplorável de espírito, o tempo começou logo a trabalhar segundo as regras impostas pela estação, despejando seus primeiros flocos gelados pelo ar pouco depois da noite cair. Agarrei-me mais ao meu casaco tentando proteger-me do frio que aumentava gradativamente e acelerei o passo, deixando o esquilinho que me seguia naquele momento um pouco para trás. Minutos depois, minhas pernas quase corriam mesmo com o medo de escorregar me alertando para ter cautela. Tinha o cuidado de sempre procurar pelo meu guia da vez, até quando achava que não me importava mais com aquilo. Não queria permanecer sozinho no meio da mata, à noite, com frio, e no meio de uma provável nevasca.

Quando alcancei o casebre de madeira onde se instalava o atelier de Junsu, a neve já cobria boa parte do chão e de minhas roupas. Era ligeira em seu serviço embora deslizasse suavemente pelas correntes de ar que a transportavam para todos os lados. Parei por um segundo, encostando-me em uma árvore para descansar, sentindo o vento gélido levando embora as gotículas de suor que escorriam pela minha testa. Olhei ao redor das construções altas que compunham o orfanato e pelo pequeno jardim que ficava entre elas atrás de alguém, mas tudo permanecia no silêncio. Respirei fundo uma última vez antes de atravessar o restante de campo que antecipava o comprido cercado de madeira e passei pela portinhola praticamente correndo novamente.

Já estava pela metade do jardim quando uma visão me fez parar. Em um dos balanços protegidos pela outrora frondosa árvore leste, estava sentado Junsu, empurrando lentamente o assento com as pernas e brincando com os flocos esbranquiçados que caiam na palma de sua mão direita. Fiquei tão absorto com a imagem a ponto de paralisar no lugar mesmo com o frio me dominando inteiramente e antes que pudesse me dar conta do que fazia, já avançava ao seu encontro. Carregava uma expressão leve no rosto, totalmente diferente daquela que vira pela manhã no saguão da catedral em seu encontro com os policiais, me fazendo meio que imaginar se tudo aquilo que presenciara não fora apenas parte de um sonho ruim. Durante todo o tempo em que demorei até estar ao seu lado, ele parecia não ter percebido a minha presença. Permanecia em silêncio, sorrindo apenas para o monte de neve instalado em sua mão. Tal situação me fez assustar quando ouvi sua voz ecoando sobre o zumbido do vento.

– Com frio, hyung? – disse direcionando seu sorriso a mim – Está bem tarde para caminhadas, não acha?

– Pois é – respondi para ambas as perguntas. – Fui conhecer as redondezas com Donghae, mas ele acabou sendo chamado por Jaejoong-sshi e eu tive que voltar sozinho. Mas e você, não está com frio?

Havia acabado de perceber que o menino se encontrava absolutamente desprotegido de qualquer fonte de calor. Apenas uma calça branca e um enorme sobretudo preto de lã não era o bastante para que ficasse por tempos ao ar livre brincando com a neve daquele jeito.

– Estou.

– E não vai se proteger?

– Não. Eu gosto do frio – deu de ombros.

– Vai acabar pegando um resfriado assim – dirigi-me até o balanço vizinho ao seu e me sentei, um calafrio me percorrendo o corpo ao sentir a superfície metálica das correntes tocando a pele de minhas mãos.

– Obrigado pela preocupação, mas dificilmente adoeço por conta de clima, hyung. Por outra coisa até que sim, mas não por isso – deu uma pequena guinada no balanço fazendo-o se mexer um pouco livremente antes de parar algumas voltas depois. – Sem falar que eu não me importaria de ficar de cama após observar coisa tão bela quanto à neve.

– Você parece gostar muito dela...

– E o hyung não?

– Sim, mas bem prefiro o calor.

O menino contorceu um pouco os lábios em sinal sutil de desaprovação, mas logo após seguiu estimulando o balanço a ir para frente e para trás com as pernas.

– O hyung sabe como ambos foram criados? – disse depois de alguns segundos em silêncio.

– Como disse?

– O frio e o calor. Perguntei se o hyung sabe a história de como os dois foram criados.

Em toda a minha vida, sempre gostara de escutar estórias. Havia escutado dezenas delas, dos mais variados tipos e estilos. Porém jamais tinha sequer escutado alguma sobre tal assunto que não fosse apenas explicações científicas. Imaginei que não era bem sobre isso que ele falara.

– Não – por fim disse. O menino olhou para mim com seu sorriso renovado, e eu imediatamente soube que ele estava prestes a aumentar a minha coleção de estórias para contar.

– Ouvi dizer, há muito tempo atrás, que quando o Criador foi espalhar suas idéias recém-criadas pelo mundo, ele criara tanto o fogo quanto a água com vida própria – começou. – Ambos eram espíritos inteligentes, como se fossem protótipos para os primeiros humanos, sabe? Então, pela razão dos dois serem os principais responsáveis pela mudança de estação no planeta e pela vida nele por conta disso, os dois mereciam pensar por si próprios e decidirem, após um acordo, como se resolveria o reinado de cada um durante as mudanças de clima.

“Ficou decidido então que teriam quatro estações de três meses. Em que cada um ficaria com um período inteiro para si, e os outros dois, seriam divididos de modo a transformarem as duas estações para que tivesse climas diferenciados para o florescimento das árvores, reprodução dos animais e amadurecimento dos frutos.

Eis que estava tudo indo de acordo com o gosto de Deus, até que o primeiro problema surgiu entre eles dois. Quem afinal de contas reinaria no primeiro intervalo de três meses?

Discutiram por algum tempo, e não chegando a acordo nenhum, decidiram deixar tal decisão nas mãos do próprio Criador, que em sua infinita sabedoria, pensando em testar a conduta de suas crias, acabou por dar um desafio aos dois. Era bem simples. Quem provasse ter o maior valor e inteligência diante das outras criaturas ficaria com a primeira estação.”

– E então? – perguntei curioso.

– Então, que dessa forma as personalidades de ambos os espíritos foram evidenciadas. O Fogo era calmo, sereno, brilhante. Dotado de uma beleza iminente, resolveu convencer os animais a votarem nele dando parte de seu calor contagiante a eles. Assim, surgiu o Sol, que deveria aparecer, clarear a tudo e aquecer a todos sempre que o dia chegava; tirando a necessidade de Deus permanecer com o feixe de luz criado inicialmente para diferenciar o dia da noite.

“O Senhor apreciou muito tal feito e decidiu como prêmio dar ao Fogo autonomia sobre a intensidade de luz e calor gerada em cada dia.

Já a Água, que era agitada, inquieta e esperta, porém, de cor cristalina, decidiu espalhar seu maleável corpo por toda quase toda a extensão da Terra. Permanecendo acumulada em certos lugares, poderia dar de beber aos animais e banhando cada pedacinho de chão, o tornaria fértil e propício para as plantas nascerem, e assim, alimentá-los também.

Novamente, Deus se satisfez com tais atitudes e por isso deu à Água também um prêmio: ela poderia decidir o quanto de terra ela poderia ocupar.

Tudo certo e lindo e, no entanto, o impasse ainda continuava. O Criador chamou então todos os animais para uma reunião que decidiria o vencedor da prova. Mas antes que a audiência fosse realizada, ele resolveu deixar suas duas crias livres e observar o que fariam estando supostamente longe de seus olhos.

O Fogo aproveitou a deixa para conversar com os animais e usar de sua beleza para convencê-los a dar-lhe o título de vencedor. Porém, muitos destes animais, como a preguiça ou a raposa, eram alheios ou espertos demais para darem o seu voto a ele por pouca coisa. Contrariado, o Fogo acabou por usar de seu brilho intenso para fazê-los prometerem dar a ele o prêmio.

A Água passou um bom tempo pensando sozinha no que fazer para garantir a sua vitória. Lembrou então, que o Criador dissera-lhe que poderia decidir livremente que lugar poderia ocupar. Resolveu se aproveitar disso. Usando de sua transparência natural, camuflou-se do Fogo e antes que ele pudesse se dar conta, tomou três quartos da superfície terrestre, e ainda se embrenhou por dentro da terra e se instalou no subsolo. Muitos animais viram que poderiam viver melhor dentro de seus domínios e, simpatizados por essa idéia, pediram permissão para se mudarem para os diversos rios e oceanos criados.

O Fogo finalmente percebendo o que a Água fizera, explodiu em ira e saiu queimando tudo que estava à sua volta. Acusou-a de traição e motim contra si, e pediu uma punição severa a Deus para ela. Em contrapartida, a Água o acusou de assassinato, pela destruição causada.

Decepcionado com o caos que havia se instalado por todos os lados, Deus deu fim à disputa dos dois por poder e resolveu puni-los. Para que não brigassem mais, ambos perderiam suas inteligências e se transformariam em simples elementos naturais. O Fogo continuaria com sua incrível beleza, porém, por ter matado parte da criação com sua ira descompassada, seria considerado perigoso diante da criação, além de ter de dividir o céu com uma enorme esfera que apareceria durante a noite e seria tão brilhante e amada como ele era. Seria o símbolo de poder, da parte dominante de cada ser. Lembraria a vida e o medo de perdê-la. É por isso que sempre que estamos diante da morte, um calor sobre-humano nos toma e nos força a sobreviver.

Quanto à Água, permaneceria com seus domínios e os animais que haviam se adaptado para viverem neles. Só que por ter sido a causadora da intriga entre os espíritos, recebeu os piores castigos. Perderia a forma de seu corpo, se tornando apenas fluido. E se quisesse receber alguma forma para si, teria que viver em função ao Fogo. Em situações normais, não teria corpo mesmo que continuasse visível; se esquentasse demais, viraria fumaça, se confundiria com os outros gases da atmosfera e desapareceria dos olhos de todos; e durante a ausência de calor, endureceria como pedra sendo visível por todos, mas não podendo ser transpassada por nada. E em todos os seus estados físicos seria tão capaz de matar quanto o Fogo. Nenhum animal terrestre poderia a partir dalí passar tempo demais se banhando nela ou correria o risco de morrerem afogados, asfixiados, ou congelados. Seria o símbolo da intriga, da infidelidade. Lembraria a morte e a idéia sedutora da paz ganhada em troca da vida e suas conturbações.

Desesperada diante de tais castigos, ela chorou durante dias e implorou por piedade até que então, Deus compadeceu-se de si e revelou que sabia que ela não fizera nada por maldade verdadeira. Teria que pagar pelo caos tanto quanto o companheiro, mas ganharia alguns dons também por seu arrependimento. Enquanto líquida, seria vital aos seres vivos que dependeriam de sua existência para se manterem refrescados e sanados de sede; enquanto gasosa, se fundiria na atmosfera e condensada formaria as nuvens que enfeitariam o céu dia e noite até que pudessem voltar para a terra em forma líquida novamente como chuva; e finalmente como sólida, teria uma beleza oculta, misteriosa e encantadora que só poderia ser apreciada por quem fosse espiritualmente apiedado de sua história e compreendessem o seu dilema.”

Junsu por toda a estória permanecera com o olhar distante. Era como se contasse não para alguém, mas sim para si próprio. A neve em sua palma já derretera e eu de repente me vi observando aquela pequena poça de água com outros olhos. O líquido balançava-se ligeiramente a cada respiração do menino. Triste e quieta. Assim como os flocos gelados de neve que caiam. Lembrei então do lago no bosque. Então não fora apenas impressão minha ao perceber suas águas um tanto sábias e melancólicas.

Encontrava-me mudo. Não conseguia me expressar de qualquer maneira após a estória. De alguma forma, eu sabia que aquela criança não queria apenas me convencer a gostar mais do frio do que do calor. Como Donghae me dissera antes: ele realmente via o mundo de uma forma diferenciada das outras pessoas.

– É por isso que você gosta tanto do frio?

– Todas as pessoas a quem contei essa história disseram que no fim a culpa foi mesmo da Água. Se ela não tivesse se achado mais esperta que o Fogo e ganhado territórios escondida dele, não haveria tido a explosão de raiva dele e o caos não teria estabelecido na criação. O fogo não tinha a capacidade de matar antes de se perder em fúria. Só que... Não é bem o que eu acho.

Não pude falar absolutamente nada. Embora continuasse com pena do destino da Água do conto, também tive certeza de sua culpa em pelo menos dois ou três momentos enquanto ouvia.

– O que acha então? – Minhas dúvidas sobre o que eu mesmo achava do assunto me levaram a perguntar sua opinião.

– Que o Fogo é o vilão da história. Veja bem, para mim, não era que ele não tinha o poder de matar na época, e sim que ele não tinha conhecimento deste poder. Ele usou sua luz para ameaçar os animais, o que faria se soubesse que poderia matá-los? O fogo é falso. Encanta a quem o vê com suas chamas belas e calorosas, porém o queima se você tenta tocá-lo. Ele é a ilusão, a vaidade. Aquele que se exibe para que todos se aproximem, mas se acha importante ou divino demais para que possa ser tocado por qualquer outra coisa. E se insistirmos, ele nos destrói em sua fúria.

– Mas se você passar muito tempo segurando gelo acaba queimando a pele também, não é?

– Mesmo a graça mais pura pode tirá-lo de sua sanidade se você passar muito tempo observando-a – sorriu ao ver mais um floquinho se juntar à pequena poça de água em sua mão. – Até porque, se todas as pessoas pudessem apreciar sua beleza infinitamente, que finalidade teria as regras impostas pelo Criador? Não, hyung. A Água aprendera a se defender, a usar de suas próprias armas para garantir sua existência. E mesmo assim, o Fogo conseguiu controlar a tudo.

– No fim, quem ficou com a primeira estação? – perguntei quebrando o silêncio instalado após sua última palavra dita.

– Deus achou melhor fazê-los dividir a primeira estação. Foi uma Primavera – limpou a mão molhada no sobretudo.

– E isso quer dizer...

– Que foi ele quem ganhou a competição. O verão vem logo em seguida.

Um sorriso fraco despontou em seus lábios enquanto se remexia no balanço, e foi então que eu percebi que sua outra mão segurava um caderno contra o seu corpo.

– Hyung já teve a oportunidade de ver a verdadeira aparência de um floco de neve na palma da mão?

– Não, mas vi vários desenhos representativos.

– E por quê?

– Porque ele sempre derrete antes que eu possa observar alguma coisa.

– Exatamente. E por que acontece isso? – Seu sorriso aumentava conforme eu ia arriscando em seu jogo.

– Por conta do calor corporal... – respondi me dando conta onde queria chegar.

– Vê? Se não fosse pelo sangue quente que corre por nossas veias, não teríamos dificuldade em enxergá-lo em seu mais íntimo detalhe, e ele muito menos se desfaria ao mínimo contato com a nossa pele. Paridade, hyung. Só sentimos frio, por conta do nosso calor natural. Mas que fazer, não é? Assim foi desde o começo dos tempos, e assim será até o fim deles.

Simplesmente não sabia o que pensar. Tanta sabedoria confinada em tão poucos anos... Quem poderia ter-lhe ensinado tanto? Não me vinha à cabeça os irmãos. Por mais inteligentes que ambos pudessem ser não pareciam ser do tipo que filosofavam quando não tinham mais o que fazer. Poderia ter sido o pai então? Mas se sim, porque os outros dois não tiveram as mesmas lições?

– Mas você ainda não respondeu a minha pergunta... – tentei. – Por que gosta tanto do antagonista da estória?

– Talvez...

Levantou lentamente do balanço, seu olhar novamente distante mostrando o quão pensativo sobre a questão estava. Tanto que sequer percebera quando caíra o caderno de sua mão enquanto andava. Abaixei-me para pegá-lo.

– Talvez porque ele se pareça muito comigo – continuou, olhando para mim e seu caderno antes de deixar o jardim silenciosamente.

No chão, na extensão de uma das páginas do caderno, o desenho feito a lápis perfeito de um floco cristalino de neve em seus menores detalhes e ramificações era exibido com todo o esmero que somente algo divino podia ostentar.



Notas finais
Su coisado,
Hyuk confuso e o Hae... Bem, vcs sabem XD
Uma coisinha pra dizer pra vcs: Aproveitei a falta de twitter e fics na
minha vida para escrever, olha que legal! Então posso afirmar senhoras e
senhores que o que separam vcs do cap 23 é o tempo para ir na lan e,
claro, os reviews. Quanto mais reviews, mais rápido vcs terão o cap! E
desculpinha não ter respondido os do cap anterior, prometo respondê-los o
mais rápido que puder, ok?
Bjos bjos e até a próxima.