You Are My Endless Love
21 Cap 19 - In search of escape
Notas iniciais
Boa leitura a todos!
[Donghae POV]
Se eu tivesse a opção de poder dormir para sempre, certamente escolheria ela. Mas como a vida não é fácil e o destino não costuma amenizar as faltas de ninguém — principalmente daqueles que têm plena consciência de suas faltas — com pouco tempo de sono, eu acordei. Acordei e logo estava mergulhado nas lembranças nauseantes de meus atos.
Poderia uma alma já condenada ainda conseguir redenção? O quanto eu teria de rezar para poder alcançar o céu?
De certo, mesmo que eu passe o resto de minha atormentada vida pedindo por salvação e pagando pelos meus pecados, ainda assim, não seria o suficiente. Sim, porque mesmo que Deus veja que tento a todo custo fugir do pecado, ele também é testemunha do quanto sou débil com as minhas convicções e de que no fim das contas acabarei sempre me jogando às cegas de cabeça nas águas impuras do desejo e da luxúria. Sem receio, sem olhar para trás e sabendo que depois seria eu mesmo a sofrer com isso.
Porém, o que eu poderia fazer? Sempre fora uma pessoa covarde. Daquelas que mais preferem encarar a culpa do que enfrentar e se abster dos caprichos de minha alma maliciosa. Eu nunca impusera limites aos meus desejos e por conseqüência disso, eles acabaram por me dominar. Foi tão natural que sequer me dei conta, e quando percebi já estava acorrentado, completamente a mercê do meu coração doente e de seu mais novo dono.
Mas e quanto a agora? O que está acontecendo comigo hoje?
Depois de um ano me martirizando, resolvi acatar a única saída que conseguia enxergar dentro daquele abismo escuro onde me encontrava: entrei em uma Universidade a milhas de distância de casa e fugi para o que me parecia a resolução dos meus problemas mentais e sentimentais.
Lerdo engano.
Hyukjae me caiu como uma bomba em minha quase já solucionada vida. Já havia aceitado meu destino, me privado de todas as tentações do mundo e já até me acostumara com a falta delas e a ausência de, até então, meu pequeno e precioso vício. Meu coração e sua consciência vil estavam adormecidos e eu agradecia aos céus todos os dias por isso. Mas os céus mais pareciam se deleitar em me ver em agonia e guerra comigo mesmo.
De início, ele não apresentou perigo nenhum. Veio como não quisesse nada e acabou se aproximando aos poucos. Antes que pudesse imaginar eu já o chamava de amigo e apreciava sua companhia. Se houvesse ficado por alí não teria tido problema algum, mas minha mente começara a ver no aspirante a Psiquiatra o alívio de seus males. Sua presença começou a representar segurança a mim e meu lado sombrio, talvez com medo de ser descoberto, se enclausurou estavelmente, me dando a paz que tanto almejei. Aprendi a amá-lo pouco tempo depois e comecei a achar que podia enfim ter algo de felicidade antes de fazer meus votos ao sacerdócio e cumprir com o prometido ao meu pai.
Às vezes, o frio sombrio e já tão conhecido do remorso me dava o ar de sua graça e me fazia lembrar que enganava Hyukjae descaradamente, que o fazia pensar que era alguém totalmente oposto do que realmente era, e que no final das contas, o usava como uma maneira de aprisionar esta minha outra face.
No entanto, apesar dos pesares, eu sentia que meus sentimentos por ele eram verdadeiros. Por isso, me agarrei a este fio de sanidade com unhas e dentes, e com tanta força que acabei descuidando de minha vigília. Dessa forma, não percebi que minha fera interior começara a armar seu bote. Cheguei até a ficar convencido de que mais algum tempo junto de Hyukjae me curaria. Tão inocente que chego a ser digno de pena. Como curar algo que já entranhara no mais longínquo alcance de minha alma?
Voltei e me vi devorado com todos os meus esforços por mim mesmo mais uma vez.
Estava feito.
Depois de tudo, toda a barreira que eu havia criado para me proteger de mim mesmo acabara por cair. E o pior, pelas minhas próprias mãos. Tantos sacrifícios, tantas privações, tantas imposições para que pudesse me manter na linha, mesmo depois de começar um compromisso sério. Ainda podia sentir as pesadas correntes da consciência presas ao meu corpo, agora frouxas e sem segurança nenhuma. Havia me enganado tanto, me iludido por mais de um ano, me preparando para quando chegasse esse dia eu pudesse ser outra pessoa.
Só que parece que não me esforcei o bastante.
Como se não bastasse renovar meu antigo pecado, acordar minha doença, ainda acrescentei mais um crime à minha condenação. E em dose dupla.
E sabe o quê para mim mais acarreta a minha culpa?
Não me arrependo de absolutamente nada.
Me sentia dormente, de corpo e mente. Com o olhar perdido em um ponto qualquer do telhado centenário da catedral, imaginei diversas formas de autopunição que pudessem diminuir todo aquele sentimento martirizante do meu peito. Mas sabia que não existia nenhum meio que pudesse me salvar. Não quando eu também sabia que iria repetir meu delito por várias e várias vezes só para satisfazer minha insanidade.
E como se não bastasse, não apenas o meu ato pecaminoso de algumas horas atrás que me perturbava a cabeça, mas a idéia de ter que ver Hyukjae dalí a alguns minutos estava me matando por dentro. Minha mente gritava em desespero, o desejo de fugir tentava me dominar o corpo, queria me isolar, proteger as pessoas de mim e do monstro que carregava em minha alma.
Meus olhos ardiam, meu coração pesava. Mas nem o alívio das lágrimas me foi permitido. Não conseguia chorar. Não podia chorar. Ao menos um mísero fragmento de dignidade eu tinha que manter. Porém, me agarrar àquela falsa moral não amenizava toda a confusão que estava os meus sentimentos.
O que eu sabia sobre eles? O que poderia afirmar com toda certeza sobre o que eu era e o que procurava?
Nada.
A única coisa que eu sabia era que meu coração traiçoeiro não se permitiria deixar de lado os seus brinquedos.
Ou seria eu o brinquedo aqui?
Levantei-me da cama, sentando na beirada, ainda sentindo meu corpo vacilar diante do cansaço da transa anterior. Precisava de um banho imediatamente. Talvez hyung já tivesse chegado e começado a fazer o nosso jantar. Também provavelmente já dera falta de mim e de Junsu. Olhei para o relógio, e me dando conta do quão cedo era, suspirei.
Procurei não ficar muito tempo no banho. Apenas o suficiente para apagar os vestígios deixados em meu corpo pelo meu crime. Várias imagens me acometeram durante o processo, e pude escutar do fundo de minha alma a besta me dizendo para apenas aceitar o que eu era e o que eu queria. Pensei bastante sobre isso. Talvez ela estivesse certa. Sabia que não conseguiria controlar meus desejos com meu irmãozinho tão perto, assim como sabia que precisava de Hyukjae para continuar a viver "normalmente". Abdicar de algum dos dois decididamente não estava em seus planos, então não seria menos doloroso apenas abaixar minha cabeça e aceitar novamente a escravidão de antes? Até porque viveríamos assim somente até acabar as férias. Então, por que não agüentar?
Terminei meu banho me sentindo um pouco melhor diante da aceitação. Procurei um jeans qualquer e uma regata na mala, me vesti rapidamente, peguei meu celular do criado-mudo e saí em direção à cozinha.
~x~
[Hyukjae POV]
Sempre fui daqueles que independente do cansaço em que esteja mergulhado, nunca consigo dormir tranqüilo em um lugar estranho. Mas mesmo assim, sentia-me livre do estresse obtido durante o dia. Estava renovado e eu agradecia aos céus mentalmente, por isso. Minha cabeça pesava ainda lenta e para mim parecia ter dormido durante horas, mas a escuridão que poderia ser vista pelas frestas das cortinas brancas me avisava que talvez não fosse bem assim.
Espreguicei meu corpo e notei que ainda me encontrava com o roupão do hotel. Ótimo, menos trabalho a fazer para um outro banho. Este, dessa vez, serviria para despertar, ao contrário do primeiro. Estiquei a minha mão até o criado-mudo onde se encontrava o meu celular para verificar as horas. Sorri ao ver na tela do aparelho uma mensagem de Donghae. Era recente. Dizia que estava no caminho de me buscar para jantarmos com os irmãos. Depois disso, levantei bruscamente largando o celular na cama, sequer me lembrei de olhar as horas, mas provavelmente era cedo já que Donghae ainda não chegara.
Rumando para o chuveiro, retirei e deixei o roupão ainda meio úmido da chuveirada de mais cedo de qualquer jeito no suporte ao lado da pia, e entrei no box de azulejos salmão. Após ajustar a ducha para a temperatura fria, liguei a torneira e me meti debaixo da água. Os pingos gelados me fizeram arrepiar a pele imediatamente e um calafrio me passou pelo corpo. Esfreguei minhas mãos pelos braços a fim de conter o frio.
Enquanto sentia meu corpo se acostumar à mudança de temperatura, as várias lembranças das descobertas que tive durante o dia voltaram a dar o ar de sua graça. No entanto, a que mais persistia em tomar espaço em minha mente era novamente o irmão mais novo de Donghae. Mas não pela peculiaridade da aura enigmática que o envolvia por algum motivo que me intrigava bastante, devo admitir; mas sim pelo contraste que pude ver entre isto e a sensação forte de pureza que ele exalava pelo olhar.
Aqueles olhos.
Sim, eu já havia visto olhos puros e curiosos como os dele antes. E agora que pensava nisso tinha mais e mais certeza da semelhança, seus traços se confundindo em minha cabeça e me causando um gostoso conforto caloroso no meio daquele banho gélido. Lembravam e muito com os de minha falecida mãe.
Certo que pouco me lembrava daquela elegante e doce senhora que me dera a vida, embora sua morte tenha sido praticamente recente. Porém, o choque que tive ao saber da notícia de sua partida me fora tão grande que minha consciência – para aliviar a dor, segundo o psicólogo que me acompanhou naquela época – resolveu deletar partes de algumas memórias sobre várias coisas de minha vida. Pensando por esse lado, talvez as lembranças de Hae e seus irmãos tenham ido junto com os vários momentos ao lado de minha mãe, restando para mim apenas o longínquo vislumbre de seu olhar rotineiro. Eram exatamente iguais aos de Junsu-ya. E não só isso. Até a fragrância doce e aconchegante de algodão que ela usava agora se encontrava entranhada na pele de minha mão desde que o toquei quando fui cumprimentá-lo.
Será porque ela era uma artista como ele e por isso compartilham dos mesmos gostos?
Sorri confortável pela idéia. Seria bom passar um tempo vendo e sentindo àqueles olhos me observarem novamente.
Ainda com meus pensamentos vagando fora de meu corpo, aproveitava calmamente o meu banho e já tirava a espuma de shampoo da cabeça quando escutei um estralo baixo vindo da porta. Parei um pouco meus afazeres para prestar mais atenção àquilo, mas ao não escutar nada mais que um silêncio mórbido vindo do lado de fora do banheiro voltei a enxaguar meus cabelos. Até que senti aquele outro perfume tão conhecido invadindo meus sentidos logo após escutar o ruído de passos vindos em minha direção.
- Hyukkie...? — Sua voz me soou baixa e apreensiva. Preocupado com o que ouvira, desliguei o chuveiro e fui andando a passos lentos até estar à sua frente, observando em como ele mantinha seu olhar sempre baixo, com os ombros curvados. Não falei absolutamente nada, meu silêncio permanecendo como se dissesse que sabia que ele precisava de colo embora não soubesse o porquê.
Fitei-o por alguns segundos tentando imaginar o que se passava e o vi aos poucos levantar o olhar. Alí, vi tudo e nada ao mesmo tempo. Seus olhos um pouco marejados me entregavam dúzias de motivos silenciosos, mas que expressavam seu desejo de se manterem ocultos. Entendi por fim — mesmo estando curioso, que era melhor deixar assim. Se um dia ele quisesse me contar, eu estaria ao seu dispor.
Acariciei a pele de suas bochechas com as pontas dos dedos calmamente, descendo até a ponta do queixo. Segurei-lhe firmemente e fui quebrando nossa distância até seu rosto.
- Hyukkie, eu...
- Shhhh... — interrompi-o.
Eu não precisava de explicações, seja lá do que fosse. Ele estava alí, pedindo silenciosamente por mim e aquilo me bastava. Roçava a ponta de meu nariz em uma carícia leve e sorria-o, como se dissesse que estava tudo bem.
- Espera até eu terminar? Daí podemos ir jantar com seus irmãos — sussurrei-lhe entre seus lábios, deixando que um pouco de seu aroma doce invadisse e enevoasse minha mente.
Ele assentiu dando-me um selinho e se virando para sair. Voltei para o chuveiro no mesmo instante em que o vi à altura da porta e liguei novamente. A água caia em minha cabeça e me ajudava a colocar os diversos pensamentos em ordem. Aquele dia fora um dos mais — senão o mais — esquisitos que eu já havia vivido, e parecia não querer deixar de me surpreender de forma alguma. Por mim, ele já tinha acabado há tempos.
De novo, passos dentro do banheiro me alertaram novamente, e novamente o perfume de Donghae o entregou. Esperei que os passos parassem já com a mão na válvula de água, no entanto estes não pararam. Ao invés disso, senti braços quentes me envolvendo por trás e sua respiração batendo contra a pele nua das minhas costas. Não dizia absolutamente nada. Fiquei aguardando algum som de sua voz, mas ao ver que não seria agraciado com isso me virei pra fitá-lo.
Não parecia se incomodar com a água fria lhe encharcando gradativamente os cabelos e as roupas. Olhava-me pedinte. Implorando algo que eu não compreendia. As finas correntes de água desciam-lhe pelo rosto passando pelos olhos, e a impressão que tive pela sua expressão melancólica era que chorava. Senti meu coração se apertar em agonia. Me doía demais vê-lo assim. Meu interior clamava por saber o que lhe atingia, mas eu não me permitiria invadir sua mente como se fosse um dos vários objetos com que trabalharia no futuro. Ele não era meu paciente, muito pelo contrário.
Toquei-lhe a face e selei, enfim, nossos lábios em um beijo calmo. Nossas línguas seguiam se massageando ao passo que procuravam reconhecer cada pedaço tão já conhecido de nossas bocas. Aproveitava a ocasião para tentar transmitir-lhe alguma segurança, como quando vínhamos a caminho desta cidade mais cedo, assim como matar a saudade que sentia de si desde a hora em que ganhamos alguma companhia.Tão horrível a sensação de tê-lo por perto, mas não poder tocá-lo que já estava quase enlouquecendo.
Senti seus braços enlaçarem-se ao redor do meu pescoço, puxando-me para mais perto enquanto eu mesmo o envolvia com os meus. Podia perceber a água gelada diminuir sua temperatura corporal à mesma da minha, causando-lhe pequenos tremores no corpo. Chamava meu nome. Baixinho. De forma cálida. Como numa espécie de oração. E eu o acompanhava nessa prece. A saudade acumulada em nossos corpos pedintes por alívio nos servindo de incentivo e nos obrigando a saná-la.
Ele se mostrava um pouco dependente, carente e eu conseguia sentir de seus toques, seus beijos um certo receio emanando. O que poderia ter acontecido? Poderia ter ele brigado com seus irmãos sobre algum motivo? Poderia ser eu o motivo? Não me parecia ser isso. Jaejoong-sshi se mostrou tão afetivo comigo. Não haveria porquê dele brigar com o irmão por minha causa. Seria então alguma coisa com o mais novo? Junsu-ya estaria tendo algum problema? Por isso Donghae estaria tão afetado?
- Hyukkie... Me perdoa? — sussurrou baixinho em meu ouvido. Parei de dar atenção ao seu pescoço quase que imediatamente para mergulhar novamente nos rios que eram seus olhos marejados.
Ele me pedira para perdoá-lo. Mas perdoar o quê? Não havia definitivamente nada que ele pudesse ter feito que precisasse ser perdoado por mim. Certo que eu percebera como ficara estranho desde o momento em que saímos de Seul e havia certas coisas entre ele e seus irmãos que eu não entendia direito, além de todos os segredos que rodeavam Junsu, mas nada que algumas palavras não resolvessem. E eu sequer estava chateado com ele por isso.
Tentei argumentar, dizer que não havia necessidade daquilo. Porém, Donghae estava convicto a me arrancar um perdão. Sem escolha, disse-lhe o que precisava ouvir acompanhado de um longo beijo. Ao fim, escutei um longo suspiro vindo de si. Parecia estar mais aliviado, e eu embora continuasse alheio ao que havia acontecido, sorri-lhe satisfeito por ao menos ter arrancado aquela angústia do seu peito.
Desliguei o chuveiro ainda com o olhar perdido nos dele. Estiquei o braço até a minha toalha e pegando-a, envolvi seus cabelos enxugando-os devagar. Por pouco tempo. Antes que pudesse abrir a boca para comentar mais alguma coisa me vi preso aos seus lábios macios e inebriantes mais uma vez, esquecendo-me de vez do pedaço felpudo de tecido que agora jazia no chão molhado. Donghae parecia ter fome de mim. Algo que me agradava muito, devo admitir. Mesmo que as circunstancias se mostrassem esquisitas demais.
No fim, teria eu motivo para desconfiar de algo?
Rapidamente como o pensamento veio, ele se foi ofuscado pelas diversas sensações provocadas em mim por Donghae. Seus beijos me tomavam o fôlego, suas mãos me tocavam tão intimamente que me faziam arrepios ao menor esforço possível, ouvir sua voz rouca de prazer me enevoava a mente e cada segundo sem prová-lo adequadamente era uma tortura a mim e minha sanidade.
A passos cegos e sem me desprender de si, fui caminhando até prendê-lo entre a parede mais próxima. Meus dedos trêmulos por conta do frio – ou seria de excitação? – caminhavam pela pele escondida debaixo da camisa molhada, que transparente, já não escondia nada afinal, causando-lhe espasmos deleitosos. E mesmo que eu pudesse ver absolutamente toda a parte superior de seu corpo por trás do tecido branco, não me agradava em nada vê-lo ainda vestido.
Ansioso por tê-lo tão exposto quanto eu estava, segui para a barra da regata intentando puxá-la e livrá-lo finalmente dela quando senti as mãos de Donghae nas minhas impedindo o meu trabalho. Olhei-o interrogador.
- Hyukkie, aqui não. – sussurrou-me com a voz baixa saindo esforçadamente pelos lábios roxos e trêmulos – Tenho frio.
Compreendi ao ver seu estado e escutar sua súplica o martírio que eu estava fazendo-o passar. Se eu que estava nu sentia frio, quem diria ele que estava completamente empacotado em roupas molhadas em água gelada. Precisava tirá-lo dali urgentemente antes que pegasse um resfriado. Assenti-o e rapidamente o puxei do banheiro para o calor do meu quarto e seu vigoroso aquecedor, que mais me pareceu um salvador naquele momento.
Estava escuro e pouco se podia enxergar graças à única fonte de luz do aposento provida da lâmpada acesa do toalete. Donghae tremia furiosamente enquanto eu, de volta com minha calma assombrosa, o sentava na cama e retirava às cegas as peças molhadas, jogando-as de qualquer jeito no chão. Trabalho terminado, senti-o me puxar para cima de si, abraçando-me em seguida.
Um silêncio incômodo se seguiu ao passo que eu me aconchegava em seus braços tentando transmitir-lhe algum resquício de calor. Donghae parecia estar com a cabeça longe. Olhava atentamente para um ponto qualquer do teto e suspirava aparentemente cansado, mas menos trêmulo. Afoito por acabar com aquilo, resolvi por fim, mandar às favas todas as barreiras mentais impostas por mim para manter minha curiosidade sob limite e perguntar de uma vez o que minha alma precisava saber.
- O que houve Hae? Tá me deixando preocupado assim.
Donghae pareceu pensar mais um pouco antes de dispersar sua atenção do teto e me fitar atentamente. Quase não podia ver seus olhos perdidos na escuridão, mas sabia que os mesmos hesitavam em me contar qualquer coisa que fosse.
- Hyukjae, o que você sentiria se eu dissesse que irei morrer a qualquer momento?
Repentinamente, percebi meus sentidos se apurarem violentamente me causando uma certa náusea momentânea. Sentia o mundo rodar. Tentava processar o que Donghae me dissera, mas tudo virara tão confuso de uma hora para outra que eu não sabia mais o que pensar ou como agir. Me sentia inútil, indefeso, amedrontado. A agonia outrora causada por suas lágrimas voltava forte e impiedosa, sufocando-me o peito e me levando ao desespero. Levantei-me de si subitamente já sentindo meus próprios olhos lacrimejarem e sentei ao seu lado pensando que talvez minhas pernas vacilantes não conseguissem sustentar meu corpo.
- Que história é essa Donghae?! – disparei de uma vez assim que consegui formular alguma coisa em palavras e forcei-as a sair – Morrer? Como? Por quê? Você está doente? De quê?
Não conseguia olhá-lo. Simplesmente não conseguia. Sentia que poderia desabar toda a confusão de meus sentimentos assim que meu olhar cruzasse mesmo que por pouco tempo o seu. Meus ombros afundavam e por um momento imaginei estar levando o mundo em minhas costas com todos os seus habitantes pulando sincronizadamente. Tentava entender que motivos levariam a Donghae dizer aquele tipo de coisa assim tão de repente e não conseguia de modo algum. Ele sempre me parecera tão saudável, tão normal...
Quer dizer, até o dia de hoje. O dia em que o nosso mundo resolveu virar de ponta cabeça.
- Está tudo bem Hyukkie... – começou aos sussurros em meu ouvido ao mesmo tempo em que voltava a me abraçar as costas – Eu não tenho nada disso. Apenas... Estou pensando no futuro. Isso não será de todo mentira se você pensar bem e eu estou com medo. Não quero te perder. Por motivo algum.
Por acaso em meio à avalanche que destruía o meu interior naquele momento, eu entendi o que ele quis dizer com aquilo, embora a compreensão dos fatos não diminuísse em nada o meu sofrimento. Afinal, eu simplesmente vim a essa cidade inocente ao fato de que daqui a alguns meses ele voltaria sozinho e para nunca mais voltar. Ou seja, ele quase que literalmente teria de morrer para mim. Isso se nós tivermos sorte e o irmão dele continuasse com a idéia de querer só consagrá-lo Padre ao término da faculdade. Se não, poderia ser de verdade a qualquer momento.
- Promete pra mim que não vai me deixar...
Bem que eu gostaria. Mas se no fim ele acabar escolhendo o dever ao invés de mim o que poderei fazer? Eu jamais o forçaria a ficar comigo da mesma forma em que não poderei julgá-lo de nenhuma maneira. Ele não estaria errado. Eu é que me intrometi mais do que devia na sua vida e o fiz passar por tudo isso.
Tentando de todas as formas controlar o choro, me virei e o abracei, deixando que ele descansasse seu rosto em meu pescoço. Afagava seus fios desbotados carinhosamente. Queria dizer-lhe que ficaria tudo bem, parecer forte. Mas como se eu mesmo não conseguia impor palavras encorajadoras sobre o pranto que me caia pelos olhos? Também não queria perdê-lo. Não podia. Sequer um dia desde que ficamos juntos pela primeira vez parei para pensar sobre o que o futuro nos reservava. E só foi alí, depois de praticamente o entregar de mãos beijadas às suas promessas passadas naquela cidadezinha utópica que finalmente compreendi que o “para sempre” não existia.
Era até ironia isso.
- Prometo que eu sempre te amarei não importa que decisão você tome no fim das contas.
Notas finais
Bjão e mais uma vez obrigada a todos os leitores lindos da dongsaeng/unni!!! Vcs são lindos demais ♥
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