You Are My Endless Love
17 Cap 15 - Falling in Wonderland
Notas iniciais
Boa leitura!!!
Três palavras resumem estes últimos meses.
Dor de cabeça.
Foi duro, mas conseguimos chegar ao fim do ano letivo vivos! Mesmo que um pouco estressados e tristes por conta de tudo que aconteceu com In Rin. Depois de tudo, a única coisa que eu e Donghae queríamos era se esquecer de tudo. Relaxar e finalmente aproveitar o nosso namoro em paz. Queria que o dia de nossa viagem fosse tranqüilo e que tudo desse certo. E até deu, pelo menos na teoria, porque na prática foi no mínimo... Bizarra.
A começar por um Heo Joon batendo bem cedo em minha porta e se oferecendo para levar a mim e Donghae até a rodoviária. De início, estranhei imediatamente o fato de justamente ele estar alí e como ele sabia que era Donghae que iria comigo, já que por algum motivo qualquer meu pai havia dado a louca um dia antes e espalhado para todos os nossos conhecidos que eu tinha me envolvido com uma estrangeira judia e por isso estava fugindo com ela para o interior.
Essa brincadeira de meu pai me rendeu o dia cheio de ligações até de pessoas que sequer lembrava que existia, e um Donghae aborrecido ao extremo por eu ter acabado dando mais atenção ao celular do que a ele. Mas eu não o culpava. Tínhamos perdido tempo demais nesses últimos dias devido à faculdade e outros problemas. Era normal que ficasse com raiva, mas passei a noite inteira torcendo que fosse momentâneo.
Já estávamos saindo de casa quando aconteceu a segunda coisa estranha. Donghae mandou-me uma mensagem rápida pedindo que eu levasse meu violino comigo e que não perguntasse nada até chegarmos ao nosso destino final. Como não queria dar mais motivos para brigas entre nós e fazia questão que nossa viagem corresse tranquilamente, obedeci mesmo desconfiado.
Ao chegarmos à porta da igreja, estranhei o fato de não ter o velho padre à minha espera com suas perguntas não tão inocentes. Saí do carro de Heo Joon e fiquei esperando Donghae encostado no veículo. Alguns minutos se passaram até que eu o visse saindo pela entrada da igreja carregando sua mala. Estava lindo e sorria feliz, o que me lembrou que estávamos bem novamente. Ao se aproximar, indagou-me sobre a presença de Heo Joon, respondi-lhe a verdade e por um momento pareceu lhe bastar. Logo, estavam os dois conversando animadamente bobagens enquanto nos dirigíamos à nossa segunda parada.
A rodoviária estava bem vaga, outra raridade se você levar em conta que era começo de férias no país inteiro, mas não liguei muito para isso. Muito pelo contrário, me alegrei ao perceber este fato, porque assim haveria como eu e Donghae ficarmos mais a vontade o caminho inteiro. Algumas pessoas compravam bilhetes nos guichês e outras poucas já se dirigiam aos pontos de embarque. Como nós já tínhamos nossas passagens compradas desde Janeiro, eram estes que seguiríamos.
Heo Joon ajudou-me a colocarmos as malas em um dos carrinhos de bagagem e nos desejou boa viagem. Ali, uma nova coisa estranha aconteceu. Como se não bastasse aquele garoto aparecer de repente se oferecendo para nos trazer até ali, seu semblante ao nos ver partindo foi de preocupação, nervosismo, medo. Como se quisesse nos dizer para pararmos ali mesmo e voltássemos para casa, esquecendo toda essa história.
Aquilo me arrepiou a pele e me fez, por um momento, pensar em realmente desistir do passeio. Mas a sensação tão rápida veio, do mesmo jeito se foi, sendo espantada pelo barulho constante das pessoas que passavam ao nosso lado. Lembrei que não podia simplesmente desistir de tudo assim, afinal, mais do que pra mim, isso era de extrema importância para Donghae. Um descanso merecido depois de tantos problemas e a oportunidade de matar a saudade da família que há um ano não via.
Querendo puxar a atenção de Donghae – que também parecia ter notado o olhar tenso de Heo Joon, pigarreei e comecei a avançar para dentro do local. Hae, ao notar a minha ausência ao seu lado, se apressou para acompanhar-me, embora ainda virasse de vez em quando para verificar se Heo Joon ainda estava lá nos observando.
Nosso ônibus, graças aos céus, não demorou a chegar. Logo que estacionou, jogamos nossas malas no bagageiro do veículo e entramos, pegando dois assentos bem ao fundo. Fora nós dois, só haviam mais três pessoas dentro do veículo, o que nos dava uma privacidade bem moderada. Dessa forma, assim que Donghae se sentou do lado da janela e eu no banco restante, puxei-o num abraço apertado. Ele descansou seu rosto na curva do meu pescoço, respirando fundo. Estava gelado. Assustado. E eu sabia que não poderia ser apenas pela visão de Heo Joon há pouco.
Para falar a verdade, desde que entramos naquele ônibus, um mau pressentimento me atingiu. Pressentimento este que só aumentava a cada metro de estrada ganho. Não demorou muito para que esta paranóia minha ganhasse vida e começasse a me atormentar, além de me fazer acreditar que nada das esquisitices que aconteceram até ali eram realmente preocupantes. Estávamos andando há apenas quinze minutos, quando a imagem de um animal negro começou a nos perseguir ao lado de nossa janela. Aparecia, e quando percebia meus olhares para si, desaparecia tão de repente quanto. Era uma loucura até meio ignorável, se não fosse pelo fato dela passar de miragem para realidade logo na nossa primeira escala.
Tínhamos saído do ônibus para comprar algo para comer em um quiosquezinho, quando novamente o vi, escondido detrás de uma árvore, mas bem perto de nós.
Era um cão – ou seria um lobo? – mas não um cão qualquer. O animal de pêlo negro, farto e lustroso era duas vezes maior do que um cachorro comum. Não havia coleira em seu pescoço e nem ao menos marca de que havia sido alguma vez domesticado. Seus olhos azuis eram raivosos, hostis, e nos fitavam com intensidade, observando, gravando cada movimento nosso em sua memória. As outras diversas pessoas que andavam pelo local não pareciam lhe importar, apenas nós dois. E estas mesmas pessoas sequer pareciam vê-lo, o que seria um absurdo se levarmos em conta a grandeza do bicho. Vez ou outra, quando nossos olhos se encontravam, ele não desviava como a maioria dos animais faria. Parecia ter sua existência superior ao de qualquer humano e sabia disso. Apenas rosnava furioso, como se dissesse que se eu o desafiasse iria nos atacar sem cerimônia alguma, fazendo com que eu me sentisse o animal irracional alí e desviasse meus olhos.
Donghae parecia também ver o monstro, mas apenas fingia que não. Andava mais rápido em direção ao nosso ônibus – que a cada segundo me parecia mais seguro – e ao se sentar me abraçava com todas as suas forças, se escondendo e tentando se proteger o máximo possível do mundo externo. Aos poucos, fui desprendendo seu rosto para que pudesse fitá-lo.
Estava pálido. Aproximei-me de si, selando nossos lábios em um toque leve, calmo e reconfortante. Fui pedindo passagem até sua língua e a massageei serenamente, sentindo seu sabor doce acentuando meus sentidos. Correntes me passavam pelo corpo testando meu autocontrole enquanto eu acariciava a face branca de pele macia. Tentava transmitir-lhe algum resto de sanidade e segurança que ainda havia em mim. Não precisava delas. Nesses anos todos estudando a mente humana, eu meio que comecei a controlar a minha própria loucura, por isso não havia me entregado ainda ao medo da insanidade.
Pareceu dar certo.
Ao nos separar, deitei novamente sua cabeça em meu ombro, e este, novamente escondeu seu rosto na curva do meu pescoço. Estava mais calmo, pude perceber. Para continuar fazê-lo esquecer de tudo, comecei a embalá-lo com uma canção qualquer enquanto voltava a brincar com seus fios loiros. Logo, passados alguns minutos, pude sentir sua respiração mais pesada, avisando-me que caíra no sono.
Foi poder vê-lo mais tranqüilo que me deu forças para resistir à provação mental seguinte. Assim que Donghae adormecera, comecei a ver também não só o cão, mas também um homem jovem, belo, e talvez ocidental vestido em um terno completamente preto. Mantinha as mãos nos bolsos e o semblante cínico, com um meio sorriso nos lábios. Ostentava um olhar perturbante em seus orbes verdes esmeralda. Algo me parecia dizer que já o tinha visto em algum canto, mas não sabia de onde. Da mesma forma que o cão, nos perseguia; aparecendo, nos fitando por um momento, e depois desaparecendo misteriosamente.
Tentei por várias vezes dormir também para esquecer aquelas coisas, mas falhei em todas. Deixei, por fim, de tentar e comecei a encarar as ilusões. Quis buscar alguma explicação plausível para elas, afinal, se estavam alí a me perturbar, algum motivo tinham que ter. Algumas horas pensando em várias possibilidades e nenhuma conclusão satisfatória depois, percebi que ao menos o temor delas eu havia perdido. Será essa a vantagem de ser um psiquiatra? Começar a encarar seus próprios devaneios de forma crítica como um objeto a ser também estudado?
Bom, pelo menos eu estava me distraindo.
Distração essa que deu tão certo que nem vi o tempo passando. Só me dei conta de que havíamos chegado finalmente ao nosso penúltimo destino quando o ônibus adentrou no enorme estacionamento da rodoviária da cidade e parou em seu ponto fixo.
Lentamente, cutuquei Donghae na cintura com a ponta dos dedos, acordando-o.
– Já chegamos? – murmurou preguiçosamente.
– Já sim – respondi-lhe com um sorriso, vendo-o se afastar de meu corpo e começar a se espreguiçar. – Dormiu bem?
Ele assentiu devolvendo-me o sorriso. Levantei-me primeiro e depois o ajudei a sair do assento confortável do veículo. Descemos indo diretamente pegar nossa bagagem e nos dirigimos ao ponto de táxi do lado de fora. Percebi, antes de começarmos a avançar para o lado de fora, que a palidez de Donghae começava a reaparecer. Delicadamente, segurei sua mão em um gesto carinhoso. Ele me sorriu mais confiante e, assim mesmo como estávamos, comecei a andar e a puxá-lo em direção à multidão de pessoas que entrançavam pela rodoviária.
Já estávamos pela metade do grande pátio quando Donghae me puxou pelo braço e pediu que antes de sairmos passássemos pela farmácia. Assenti e pensando no que ele poderia estar sentindo de errado acompanhei-o calado. No entanto, ao chegarmos lá, o que Donghae pediu foi um pequeno frasco alaranjado contendo algumas pílulas de identidade um pouco suspeita para mim. Tinha certeza que já as tinha visto antes, e pelo pouco que me lembrava, não era para o alívio de nada muito comum. Olhei-o pondo o frasco dentro do bolso do blazer enquanto pagava ao atendente, desconfiado. Após isso, rapidamente seguimos para a saída, onde pegamos o primeiro táxi que vimos parado e vago e jogamos nossas coisas dentro.
A cidade que passava pela janela do carro, de início, era modesta como qualquer uma de interior, mas ainda assim mantinha seus prédios altos e o ar característico de comércio. Íamos avançando cada vez mais para fora do grande centro e entrando na periferia. Os prédios iam se tornando aos poucos menores até por fim ficarem na mesma altura das casas. Comecei a imaginar onde pararíamos.
– Hyukkie – Donghae me chamou rindo da minha curiosidade. – Minha casa fica um pouco afastada da cidade então não se assuste se começar a ver chão de terra batida, ok?
– Ah... certo. – assenti preocupado. Como assim “chão de terra batida”? Será lá um daqueles cantos que aparecem na Tv que tem vaquinhas e tudo?
– Aliás, trouxe o que eu te pedi? O violino?
– Trouxe. Mesmo ainda não entendendo para quê o quer.
– Vai entender quando chegarmos lá – sorriu travesso.
Quinze minutos depois, nosso táxi já havia atravessado um caminho meio deserto cada vez mais afastado do centro, e começou a entrar em uma área que mais parecia uma cidade dentro da cidade – se é que isso é possível. As casas eram muito pequenas e simples, assim como os pontos de comércio. Senti o carro diminuir a velocidade ao passar pelas ruas de pedras, para não incomodar as pessoas que atravessavam despreocupadas de uma calçada a outra. Comecei a observar abobalhado as pessoas pelas quais passávamos.
Algumas crianças brincavam alegres no parquinho da praça em frente a uma escola, carrinhos e carrinhos de guloseimas parados por perto e seus donos pareciam se divertir mais do que as próprias crianças ao observarem-nas. Alguns policiais faziam sua ronda, talvez mais despreocupados do que as pessoas na rua, um deles conversando com uma mulher sorridente segurando uma criança com um balão amarelo na mãozinha. Poucos veículos entrançavam pelas estradas, tomado em sua maioria por algumas bicicletas e pedestres.
“Uma vila de bonecas... In Rin ia amar ver isso aqui!” pensei enquanto entrávamos mais ainda pela cidadela.
Outra coisa que vi enquanto observava era a pouca ou nenhuma tecnologia luxuosa nas casas ou estabelecimentos. As pessoas dali pareciam não se importar com dinheiro ou luxo. Apenas o necessário para terem uma vida tranqüila. Alguns telefones públicos, mas pouquíssimas pessoas ao celular, e a ausência exagerada de motocicletas e automóveis eram a prova disso. Tudo naquele lugar era simplório, pacífico, feliz; e de repente, entendi o porquê de Donghae ser do jeito que é. Era como se não dependessem do mundo externo e nem de suas preocupações, como se nada de impuro das cidades grandes pudessem entrar ou se propagar naquela região. Algo quase utópico, eu sei, mas era o que eu podia perceber ali.
Entramos em uma outra rua após a praça, e eu pude perceber algo grande crescendo a medida em que nos aproximávamos do fim dela. Era uma nova praça, essa bem maior que anterior. Um enorme parque cheio de árvores – algumas frutíferas e outras não – se encontrava ao meio e, atrás desta, mais alto do que as copas das próprias árvores, uma enorme catedral se erguia.
A monumental construção de pedra escura tinha uma fachada típica de qualquer catedral antiga pelo mundo – triangular perto do telhado, torres e vidraças em mosaicos coloridos, mas ainda assim era capaz de tirar o fôlego de qualquer pessoa que se pusesse a observá-la. Algumas casas se seguiam dos dois lados, no entanto, eram claramente ofuscadas pela imponência do prédio principal. Nosso carro deu a volta pela larga praça, parando em frente à escadaria de mármore e ao sair me virei novamente para o parque, onde pessoas e mais pessoas transitavam calmamente e conversando de forma animada.
Donghae pagou ao senhor do táxi e este sorrindo pediu-lhe que mandasse lembranças suas ao padre, ele assentiu com um novo sorriso e puxou nossas malas para fora do carro.
– Hyukkie, mais uma coisa... – começou, desviando minha atenção do táxi que já ia longe, para si. – Quero que me prometa que, não importa o que eu diga ao mais novo, por mais que seja esquisito, aleatório ou mesmo repentino, você irá concordar com tudo.
– Por quê? – perguntei, encarando sua expressão duvidosa.
– Depois eu explico o porquê. Por enquanto, só me prometa.
– Tudo bem... – concordei desconfiado, acompanhando-o na subida das escadarias.
Se do lado de fora a catedral parecia comum a qualquer outra, do lado de dentro era que a tornava única. Por toda a extensão se podiam ver imagens e mais imagens pintadas do teto às paredes. Acima, havia um enorme céu azul celeste completamente tomado por nuvens e anjos de todos os tamanhos e coros. Estes estavam espalhados por todo o comprimento e pareciam trabalhar arduamente para manter a ordem natural das coisas. Sorriam, alegres e curiosos, observando e, algumas vezes, manipulando as pessoas que habitavam a Terra e tomavam toda a metade das paredes laterais para o chão. Eram gente comum, quais como aquelas que passeavam na praça do lado de fora, e que por muitas vezes, se esqueciam da existência de algum ser ou mente dominante que regiam suas vidas sem nem perceberem. Seria assim que era construído o destino de cada pessoa no mundo?
Completamente encantado com a enorme tela ao nosso redor, não percebi que havia parado de andar no meio do corredor estreito que dividia duas fileiras dos tradicionais bancos largos de madeira das igrejas, logo abaixo da côncava que se abria no teto todo pintado no seu interior com um enorme e imponente Sol.
– Não se preocupe – Donghae me chamou a atenção, numa expressão orgulhosa. – Você vai já poder conhecê-lo. Mas antes disso...
Na mesma hora em que ele ia continuar a falar, nós pudemos escutar um barulho de vozes se aproximando, até que finalmente pudemos ver seus donos saindo de uma porta bem afastada do altar. Eram dois. Um pouco mais velho que o outro. O mais novo deles, de cabelos castanhos claros ondulados um pouco desalinhados e vestido numa batina branca, seguia o mais velho com afinco, com uma expressão divertida e um pouco desafiadora, como se testasse a paciência do outro. Este vestia uma camisa branca e jeans, tinha o rosto afeminado e caminhava bufando para a franja que existia no cabelo castanho acobreado, os lábios rosados torcidos num bico claramente aborrecido.
– Criança, pela milésima vez, este maldito caderno não está comigo!
– Padre, o senhor não entendeu. O senhorzinho me deu ordens para segui-lo até que me desse as partituras dele, não importa o que dissesse e mesmo que eu passasse o dia inteiro andando atrás do senhor! Por que não facilita as coisas para nós dois e me entrega logo isso? Eu sei que estão com você, por isso não arredo o pé daqui!
Donghae voltou a passos leves pelo caminho que fizera até onde eu estava e, fazendo sinal para que eu também me calasse, começou a observar a discussão com um sorriso divertido. Fiz o mesmo que ele, tentando entender o que se passava ali. Pelo o que o menino disse, aquele à sua frente era o sacerdote responsável pela catedral, então... Ele poderia ser o irmão mais velho de Donghae? Impossível! O homem mais parecia ter a mesma idade do que ele!
– Aish... Vem cá, o que ele te prometeu em troca de você me aporrinhar o dia inteiro? – O padre parecia querer não ceder à pressão.
– Um sundae duplo com bastante confeites – o menor deu de ombros.
– Se é assim – o mais velho se iluminou com a resposta. – te dou dois desses pra você fingir que eu não existo, que tal?
– Desculpe, não aceito suborno.
– Ãh? E isso que ele te ofereceu é o quê?!
– Pagamento por trabalho bem feito – o garoto mantinha a expressão impassível, ao contrário do padre que eu já estava vendo a hora partir para cima do mais novo de tanta raiva. Ele respirou fundo, subiu o altar, abriu um baú que havia lá e tirou de dentro um caderno, entregando-o ao menino que neste momento sorria orgulhoso de seu feito.
– Toma, e agora some da minha vista antes que eu te faça varrer esta catedral de cima a baixo pelo resto do dia!
O menino prontamente atendeu a ordem saindo de lá correndo o máximo que podia. Já o padre, se arrastou até um dos bancos, bufando cansado e passando a mão pelos cabelos claros.
– Que bom... Se até a moral com os coroinhas eu já perdi, o que me falta agora?
Donghae que se manteve calado e segurando o riso até aquele momento, não agüentou mais e gargalhou livremente se apoiando no encosto do banco mais próximo de si. Eu ainda consegui prender o riso por mais algum tempo, mas o que eu vi a seguir me desarmou totalmente. O padre, antes surpreso com o susto da risada de Donghae, mudou a expressão de espanto, colocando no lugar um sorriso largo e brilhante. Se levantou e começou a caminhar em nossa direção, começando a correr do meio para o fim e se jogando em cima de Donghae que ainda se recuperava do ataque de riso, sufocando-o aos poucos.
– Donghae-ah! Donghae-ah! Donghae-ah! – quicava com o mais novo nos braços. Definitivamente, ele não se encaixava em quesito algum da concepção de Padre... – Finalmente em casa! Quer me matar do coração de tanta preocupação é? Esqueceu-se da sua família por acaso?
– Hyung, para com isso, foi só um ano! – Donghae tentava se desvencilhar dos braços alheios, enquanto eu me afastava para não ser atingido pelo mais velho.
– Ainda assim e... – começou, mas parou imediatamente, a boca formando um O de espanto. – Você está loiro?!
Donghae corou na hora e, constrangido, abaixou a cabeça. Eu, de repente, me vi temeroso por ele. Afinal, foi a pedido meu que ele descolorira o cabelo, então não era justo que levasse sermão por algo em que eu fui culpado. Me apressei para dizer algo em sua defesa, mas não foi necessário. Antes que pudesse falar qualquer coisa, o mais velho abriu um sorriso amigável e começou a acariciar os fios claros de Donghae, apertando-lhe a bochecha direita em seguida.
– Ficou muito bonito em você... Aliás, você está mais bonito como um todo. Cresceu bastante, está mais corado, mais feliz. Aconteceu algo na capital que eu ainda não sei? – insinuou. Donghae corou mais ainda, seus olhos me fitando de soslaio. – E este aqui quem é?
Percebi seu olhar me analisando de cima a baixo curiosamente, me fazendo retrair imediatamente.
– Não te conheço de algum lugar? – falou.
– Ah é, deixa eu apresentá-los! – Donghae finalmente saíra de seu estado acuado, me puxando para mais perto de si. – Hyung, este é Lee Hyukjae. O amigo que falei que viria comigo, sabe? E... Hyukkie, este bobalhão aqui é o padre responsável daqui e meu irmão mais velho, Kim Jaejoong.
– Muito prazer... – murmurei ainda acanhado.
– Lee Hyukjae, é? Agora é certeza. Te conheço de algum canto rapaz, e não é da Tv que eu sei!
Kim Jaejoong ainda me fitava batendo o pé no chão. Sua expressão curiosa era quase tão infantil quanto sua personalidade parecia ser. Sorri e assenti, me forçando a cabeça para lembrar-me dele também. Eu havia brincado com ele nesta mesma igreja há anos atrás, não era possível que houvesse me esquecido completamente de alguém tão... encantadoramente simpático e bem humorado.
– Os pais dele eram amigos de papai, hyung.
– Amigos? Hum... – Jaejoong-sshi tombou a cabeça para o lado, pensativo. Segundos depois sorriu como se houvesse descoberto a roda, batendo uma mão fechada na palma da outra. – Já sei! Você é aquele garotinho filho do senhor Lee, não é? Aquele lá que fugiu pra cá com a mulher e depois voltou pra casa na capital! – Assenti novamente. – Senhor Deus, você está enorme! Te conheci pequenininho assim ó! O que me lembra... Oh céus! Estou ficando velho!!!
Donghae riu da última observação do irmão enquanto este fazia uma cara desgostosa e eu o acompanhei. Realmente são nessas horas que a gente percebe o quão rápido o tempo passa...
– Ok hyung, sem surtos na frente da visita, certo?
– Certo – ele assentiu obediente, o que me fez rir mais ainda.
Fomos seguindo o padre risonho, que se ofereceu a nos ajudar com as malas, até uma porta ao lado do imponente altar. Ela dava para um corredor como o da outra igreja, onde Donghae morava, e depois dele, deparamos com uma enorme copa toda equipada como uma cozinha profissional. Uma mesa larga e retangular com dois bancos compridos – um de cada lado do comprimento – ficava ao centro da cozinha e, atrás dela, seguiam-se uma escadaria de mármore que a certa atura se dividia em duas, opostas uma a outra. Uma portinha aberta podia ser vista ao lado da escadaria.
Donghae se sentou em um dos lados da mesa e eu o segui. Jaejoong foi até o fogão e tirou de lá um bule de chá, trazendo-o juntamente com três xícaras em uma bandeja.
– Mas e quanto à... – Hae começou, mas parou diante da xícara cheia de líquido esverdeado fumegante.
– Hum? Quem? O revoltado?
– Hyung!
– O que foi? Não é você que tem que agüentar aquela criatura tentando lhe tirar a paciência o dia todo.
– O que foi que ele... Ou melhor... O que foi que você fez dessa vez, hyung?
Esgueirei os olhos pela borda da xícara, prestando atenção à conversa. Pareciam estar falando do irmão mais novo e isso me atiçou a curiosidade. Pelas cartas que até hoje Donghae havia me mostrado dele e pelas conversas que tivemos, ele me parecia ser bem... Irmão mais novo mesmo. Pentelho, brincalhão e inocente.
Tão inocente que o pai dos três se recusou a revelar sua existência para o mundo antes que o menino completasse cinco anos e começasse a ajudar nas tarefas internas da igreja. E mesmo depois disso, não permitiu que o pequenino tivesse educação como as outras crianças, na escola, com professores e coleguinhas. O motivo, Hae me disse, era porque o pai temia que ele acabasse sendo provocado e machucado pelas outras crianças pela ingenuidade que tinha.
Dessa forma, o caçula havia sido criado inteiramente por eles.
– Eu não fiz nada demais, oras! Quer dizer...
– Quer dizer?
– Bem... É que semana passada eu resolvi limpar o atelier dele e... – Jaejoong-sshi tomou mais um gole do chá e respirou fundo. – Acabei quebrando um dos pincéis dele. Pronto, falei.
– Hyung! – Donghae agora olhava para o irmão, indignado.
– Foi sem querer, eu juro. Nem havia visto ele, aí acabei derrubando-o e pisando em cima. Desde este dia ele passa a maior parte do tempo no piano e resolveu transformar a minha vida num inferno como passatempo até que eu lhe compre um pincel novo. Escondi as partituras dele pra ver se saia do quarto, mas como puderam ver, ele fez um de meus coroinhas se amotinar contra mim e virar seu lacaio.
– E porque você simplesmente não compra um pincel novo? – perguntei, tentando entrar na conversa.
– Porque o pincel que eu quebrei foi um que ele ganhou de presente do benfeitor da outra paróquia em que Hae morava. Era francês. E tinha um monte de frescuras das quais não entendo. – suspirou cansado. – Ou seja, a não ser que eu vá até a França para comprar um igual, ele não vai me esquecer.
– Se for assim, eu posso resolver. – Animei-me por poder ajudar o pequeno artista e seu irmão perturbado. – Tenho um amigo que mora na França. É só me dizer o modelo e eu ligo pra ele pedindo para que compre um, depois você entrega a ele.
– Ah não. Não posso aceitar todo esse trabalho só por conta dele...
– Faço questão. Até porque, ele me prometeu um quadro. E só vai poder fazê-lo com todos os pincéis, não é? – sorri.
– Bem... Se é assim... Agradeceria eternamente se o fizer – Jaejoong-sshi apertou minha mão, feliz.
– Mas hyung, deixando isso de lado... Ele está lá em cima?
Na mesma hora pudemos escutar um bater de relógio ecoando na direção da praça e, segundos depois, uma melodia de piano acima de nossas cabeças.
Era branda e relaxante. Uma paz semelhante à que senti quando vi pela primeira vez seu traço me invadiu novamente. A música transbordava pela igreja cheia de sentimentos em todos os sentidos, assim como as telas, atingindo o lado externo e eu pude sentir a agitação da vila cessar da mesma maneira que nossa conversa.
Ficamos apenas escutando a harmonia, calados, por alguns minutos – ou haveriam sido segundos? – até que Jaejoong quebrou o silêncio.
– Ai está a sua resposta, Donghae.
Notas finais
E agora chegou o momento de vcs colaborarem hein? Elogios, criticas, pedidos, perguntas, xingamentos para minha tia Q qualquer coisa! Olha que sem reviews eu faço greve de novo viu? u.ú
Bjocas e até o próximo cap!!!
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