Capítulo 13 – Perdão .

Gary acordou aquela manhã sem animo algum. Não havia motivos para animo. Ele olhou para o relógio sobre o criado mudo: 10:00 horas. Já havia passado do horário que costumava se levantar mais mesmo assim continuou deitado naquela cama. Moveu-se de um lado. Cobriu-se. Descobriu-se. Resmungou. Espreguiçou-se. Olhou novamente para o relógio. Meio dia. Enfim levantou-se, mas aquilo não significava que ele havia conseguido algum animo, ou até vontade de levantar. Só havia saído da cama por motivos de força maior: Fome.

Vestiu-se e desceu para a cozinha. Melissa não estava ali, a cozinha estava vazia. Ele improvisou algo para comer e durante sua refeição não conseguia pensar em outra coisa a não ser Melissa. Havia sido um completo idiota no dia anterior. Agiu como um estúpido para com a morena e nem sequer um pedido de desculpas havia dito á ela. Após terminar a refeição, rondou pela casa a procura de Melissa. Queria pedir desculpas a ela, implorar por desculpas. Não a achou. Desceu para o laboratório do professor Darrow e encontrou o velho observando um pequeno Rattata correndo em uma roda de brinquedo.

- Oi professor..

- Olá Gary! Só acordou agora?

- Sim.. Estava um pouco cansado. – Respondeu aproximando-se do velho homem. Mudou de assunto. – O senhor viu Melissa por ai?

- Não, mas ela me deixou um recado. Disse que ia a cidade. Parece que ela tinha ensaio na casa daquela simpática amiguinha dela, a Mandy.

- Hum.. Entendo. Então acho que vou atrás dela...

- Está certo. Divirta-se.

- Obrigado!

Gary subiu as escadarias do laboratório com pressa e correu para a sala. Aquele pedido de desculpas estava entalado em sua garganta. Já ia saindo da casa em direção a cidade quando se lembrou que poderia chegar mais rápido ao local. Foi até a sala e ligou para seu avô. Não demorou o velho professor atendeu. Gary contou lhe com detalhes ao avô o andamento das pesquisas de que fez com Darrow e a conclusão que chegaram. Contou também do festival e disse que só iria embora da casa do professor Darrow depois do mesmo. Não mencionou nada do que aconteceu entre ele e Melissa, porque achou desnecessário expor-la a tal coisa, ainda mais na situação em que se encontravam. Professor Carvalho conversou mais um tempo com seu neto e ao final da conversa Gary revelou ao avô o verdadeiro motivo de ter ligado. Pidgeot. O jovem pesquisador pediu ao avô que lhe enviasse seu Pidgeot e o professor atendeu o pedido em seguida. Com a pokebola de seu pokémon voador em mãos, Gary se despediu e desligou o telefone.

Correu para o lado de fora da casa e jogou a pokebola para cima liberando o pokémon voador.

- Pidgeot, vai!! – O pokémon pássaro voou em circulo duas vezes antes de pousar ao lado de seu treinador. Gary abraçou com força o pescoço de Pidgeot, fazia muito tempo que não via aquele pokémon, muito tempo mesmo. – Que saudade de você Pidgeot!! – O pokémon emitiu um grunhido de felicidade. Gary se afastou e acariciou a cabeça do mesmo. – Você cresceu, heim!? Andou treinando lá no laboratório do meu avô? – O pokémon anuiu. Gary abriu largo sorriso. – Escuta, será que poderia me levar em um lugar?

Gary gritou repleto de entusiasmo, fazia tempo que não sentia aquela sensação do vento bater em seu rosto. O pokémon mergulhou e Gary se segurou mais firme o que pode para não cair. Não parava de sorrir, era uma sensação maravilhosa. Recordou-se do tempo em que viajava com as garotas da torcida organizada dele. Varias vezes, quando chegava e se hospedavam em algum lugar ele saia e passava a tarde inteira voando com Pidgeot , brincando e treinando com seus outros pokémons. Sentia falta daqueles tempos. Bons tempos...!

O pokémon abriu as assas, cessando o mergulho. Virou e voltou a ganhar altura em meio aquele céu azulado. Gary desviou o olhar para o pokémon, ele parecia estar feliz também. Seus pokémons deviam sentir falta da época que ele era mais unido a eles.

O percurso seria muito menor, porém com todas as voltas e brincadeiras durante o mesmo, acabaram demorando quase meia hora para alcançar a cidade. Gary não culpava o pokémon, afinal Pidgeot não era o único á querer matar a saudade daqueles vôos em dupla.

Gary forçou o olhar para tentar enxergar á altura em que estavam as pessoas. Viu um grupo grande reunidos na praça. Bateu de leve no dorso do pokémon voador e pediu que ele abaixasse um pouco a altura para que ele pudesse ver melhor. O pokémon obedeceu e perdeu um pouco de altitude. Gary olhou novamente e começou a identificar em meio à multidão algumas pessoas que havia visto na casa de Mandy no dia do ensaio. Não demorou muito para que ele avistasse Mandy em meio ao monte de gente.

- Vamos descer, Pidgeot!

Pidgeot grunhiu em resposta e em movimentos circulares começou a descer.. Mandy avistou Gary durante a descida e abriu um largo sorriso. O pokémon pousou um pouco longe do grupo e Gary saltou do mesmo, finalmente colocando os pés no chão. Acariciou o lombo de Pidgeot como forma de agradecimento e quando ia se virar para procurar Mandy em meio à multidão viu um vulto que pulou em cima dele quase o derrubando. Não caiu por sorte, Pidgeot ajeitou-se servindo de apoio para Gary. Era Mandy, ela havia simplesmente pulado em cima dele.

- Mandy!! Boa tarde.. Heh!!

- Boa tarde, Gaaaarryy!! – Ela soltou-o e ele enfim pode se recompor do “ataque” da espontânea amiga de Melissa. – Pensei que não te veria de novo. Você nunca mais apareceu nos ensaios. Nem com o meu convite!!

- Ah, desculpe por isso, Mandy. Eu acabei ficando doente e depois... Bem, tive umas complicações e acabei não podendo vir.

É.. Eu soube. Quer conversar? – A garota parecia ler a mente de Gary. Ele estava mesmo precisando de um “ombro amigo”.

- Sim... – Ele murmurou sem muita animação.

Eles caminharam por um tempo pela cidade longe de todo o grupo do teatro. Gary contou tudo o que aconteceu entre ele e Melissa desde o dia do ensaio e fez questão de detalhar tudo sem tirar nem por nenhum detalhe. Contou como se sentia perante tudo o que aconteceu e que não sabia mais como agir. Admitiu seu erro mais deixou claro que possivelmente o faria de novo, porque ele, simplesmente, não encontrava mais nenhum jeito de agir. Não conseguiria agir de outra forma. Estava perdido e desorientado e além disso tudo não sabia se Melissa o perdoaria por ter sido tão infantil.

- Acho que você não deveria estar se preocupando tanto. – Ela sorriu com naturalidade , como seu aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Por um momento Gary se irritou com aquela atitude de Mandy mas antes que pudesse retrucar ela continuou seu discurso. – Eu sei que Melissa vai te perdoar. Melissa não é o tipo de pessoa que guarda rancor de alguém. Ela nem mesmo consegue ficar irritada de verdade com uma pessoa. Tenho certeza de que ela vai te perdoar. E mesmo que isso já não fosse uma característica dela, ela o perdoaria mesmo assim, afinal, que ama perdoa. E ela o ama, disso tenha certeza. Nunca havia visto Mel tão alegre e sorridente até o dia em que você veio ver o ensaio. Nunca havia visto ela chorar tanto por alguém como ela chorou hoje no meu ombro. E eu nunca vi ela sentir realmente esse sentimento chamado amor por alguém. – Ela pausou por um minuto antes de continuar a falar. – Você conseguiu em pouco tempo algo que muitos nessa cidade sempre desejaram e nunca conseguiram. Você conseguiu o coração de Mel. Eu sei que vai dizer que as coisas não são tão simples assim.. Que ainda tem Johan para atrapalhar o caminho de vocês.. Mas ela nunca amou Johan.. E além disso, Johan nunca a amou de verdade. Ele só continua com essa maldita historia de casamento para fazer inveja para os amigos e gabar-se por ter Melissa aos pés dele quando ele bem entender.

- E a doença dele...? – Gary indagou como indiferença. – Melissa se importa muito com isso.. Tem medo de fazer mal a ele..

- Ele pode enganar a Mel, mas a mim ele nunca enganou. Eu o considero suspeito. Duvido que essa maldita doença seja verdadeira!

Gary arregalou os olhos. Não havia pensado nisso. Era uma ótima desculpa para prende-la a ele. Johan poderia muito bem estar usando aquela falsa doença a seu favor. Porém.. Porque Melissa nunca desconfiaria disso?

- Você já disse isso a ela?

- Milhares de vezes. Mais ela me escutou? – Ela fez essa pergunta com certo sarcasmo. – Ela quis perguntar a ele se era verdade. E ele arrumou um maldito teste falso comprovando a doença. E ela acreditou nele. Johan não é burro, Gary. Ele pode ser estúpido, um idiota, mas burro ele não é.

Gary engoliu aquelas palavras que Mandy disse com um profundo ódio. O que ela estava dizendo não era impossível e se ele conseguisse comprovar que realmente a teoria de Mandy estivesse certa, seu caminho para o coração de Melissa estaria completamente livre. Ele sorriu.

- Eu adoro você Mandy!

Ela abriu um sorriso largo e mostrou a língua em diversão.

- Eu também te adoro, cunhadinho! – Ela brincou. – Agora corra e vá pedir desculpas antes que eu te dê um chute, afinal, você fez a minha “irmãzinha” chorar, não foi? – Ela brincou.

Gary sorriu e saiu correndo pela cidade, voltando para o centro onde estavam todos amontoados. Ele correu até encontrar Melissa em meio à multidão, segurou-a pelo pulso e a arrastou até um lugar mais calmo. A garota ficou assustada com aquela atitude repentina e quase gritou quando foi puxada, só não o fez porque antes, identificou quem era. Quando Gary parou de puxa-la, eles haviam chegado do outro lado da praça, onde estava mais vazio. Ela se soltou do pesquisador e sentou-se em um banco de praça. Ele nem “olá” disse para ela, e Melissa também ficou calada. O silencio só foi quebrado quando Gary tomou fôlego suficiente para falar tudo o que precisava falar. Ele se sentou ao lado dela e olhou para frente, em direção á um chafariz que havia no centro da praça. Ela olhava para a mesma direção, calada e imóvel, como uma pedra.

- Mel... Sei que está chateada comigo. – Ele fez uma longa pausa procurando as palavras certas. – As coisas aconteceram tão rápido, não é? De um dia para o outro tudo mudou. E eu não consegui me adaptar muito bem a essas mudanças.. – Ele não sabia mais se o que falava, realmente, faziam algum sentido. – Eu agi como uma criança. Sei que agi mal. Não devia ter ficado irritando aquele tal de Johan. Você se importa com ele e eu acabei não medindo meus atos e coloquei a vida dele em risco. – Gary disse aquilo se contendo para não sair xingando o desgraçado e dizendo as duas frases palavras que ele mais deseja naquela situação: “ Bem feito para ele. Tomara que morra logo!”- Acabei não só deixando ele mal como acabei deixando você triste também.. Ferida. – Ele tentou ser o mais sincero possível, mesmo que aquilo não fosse muito costumeiro de sua parte. Tentou ser romântico. — Eu devo desculpas a você.

Ela manteve-se calada. Aquele silêncio era torturante. Ele deslizou a mão pelo banco até alcançar a dela. Segurou-a e virou o rosto a fitando.

- Me desculpa, Melissa...- Ele levou a outra mão livre ao queixo da mesma e empurrou-o para o lado, fazendo com que ela também o fitasse. Ela tinha lagrimas nos olhos, como sempre naquelas situações. – A ultima coisa que quero é perder a sua amizade. Você sabe o quanto importante é para mim. Eu só ficarei nessa cidade até o festival.. Queria que pelo menos até lá, eu pudesse continuar tendo a sua amizade. Por favor, me perdoa...

A garota intensificou o choro e abraçou-o, escondendo seu rosto no peito dele. Ele acariciou as madeixas negras da morena.

- Obrigado... – Ele sorriu aliviado.