Yami
1 Início conturbado
Era uma madrugada qualquer, ao menos, era o que Arten desejava que fosse. Estavam em alto-mar: ele, seu companheiro Höran, e um bando de pescadores num barco velho.
Já deveriam ter retornado para a cidade, mas foram surpreendidos por uma tempestade no caminho de volta. O barco sacudia violentamente em meio as ondas agitadas, o casco do barco parecia que ia se partir a cada onda, suportou, mas em uma dessas ondas, um arpão mal amarrado se soltou e atingiu a perna de Arten, que tentava equilibrar-se apoiando no mastro. O arpão velho estava enferrujado e todo o rum havia acabado, não teria como tratar da ferida sem voltar pra cidade. Se o barco viesse a naufragar ou se mudasse a direção para mares desconhecidos, poderia ser o fim do jovem Arten. A tempestade cessou após algumas horas, mas onde o barco onde estava ninguém sabia. O farol já não era mais visto e as nuvens cinzentas que ainda restaram cobriam o sol. Não havia como saber pra onde navegar. A tempestade e as ondas deixaram a tripulação à deriva da própria sorte.— Arten! Acorde seu inútil! — a voz grossa como o rugir de um leão o acordara, era Höran, que o arrastava sobre um cais molhado. Arten só pensava na dor, sentia a perna pesar e latejar, estava realmente inchada. Höran o deixara sentado, as mochilas de ambos foram colocadas empilhadas no chão se tornado um apoio para as costas de Arten, que observava o companheiro andando preocupado, de um lado para o outro. Sob o capuz preto e acima da faixa que lhe cobria o nariz, era possível ver os olhos marejados de Höran, a boca abaixo da faixa era apenas um traço reto, como se segurasse o choro. Ainda não havia amanhecido. A lua iluminava fracamente a cidade que permanecia deserta, o pouco movimento que havia ali era obra de 2 ou três pescadores que jogavam cartas e fumavam charutos sentados no chão em volta de uma mesa improvisada com um caixote. Subitamente Höran rasgou uma das mangas de sua camisa e amarrou na perna de Arten, para estancar o sangramento. Jogou as duas mochilas nas costas e pegou o rapaz no colo. O garoto até tentou falar que seria melhor esperar amanhecer, mas não conseguiu, a sensação era como se sua boca estivesse costurada e, logo em seguida, desmaiou. Höran carregava o rapaz por uma rua que seguia reta do porto até onde a vista alcançava em direção ao centro da cidade. As pedras soltas que cobriam a lama dificultava, o caminhar. Quando pensou em gritar por socorro, viu uma luz fraca mais adiante e aumentou a velocidade das passadas. Não demorou mais do que alguns minutos para chegar. Era uma taberna, Veneno de Cobra era o que dizia a placa. A porta estava entreaberta, Höran entrou sem cerimônia e notou que o brilho fraco vinha de algumas poucas velas que queimavam em castiçais distribuídos pelo lugar. —Alguém nos ajude! — rugiu Horan —Tem alguém aqui? — Cale a boca, imbecil! — uma voz bêbada retrucou ao lado da saída, ao se virar Höran viu um homem sentado cercado por garrafas de vinho na mesa e no chão, a porta aberta o impedira de notar o homem ali anteriormente. Era um homem forte, sem camisa e de cabelos longos e despenteados que cobriam quase toda a face. — Não percebe que estou apreciando meu vinho?Após dizer estas palavras, o homem pareceu ter esquecido completamente o que acabara de acontecer e voltou a beber em sua caneca farta sem dizer mais nenhuma palavra.Höran até pensou em pedir desculpas e logo depois ajuda, mas logo viu que de nada adiantaria. Virou-se para frente e surpreso viu uma mulher com um sorriso sarcástico atrás do balcão.— Com licença senhores... — disse a moça com uma voz doce — Já estamos fechando.— Só preciso de um pouco de rum! — respondeu Höran enquanto tentava não se distrair com a beleza da jovem moça, os cachos castanhos de seus cabelos longos e os olhos grandes e verdes lembravam-no de sua mãe, sacudiu a cabeça na intenção de afastar esses pensamentos e prosseguiu. — Meu amigo se machucou e se não desinfetar logo as feridas ele pode piorar!Arten acordou, mas mal conseguia falar. Queria agradecer ao amigo, porém já estava muito fraco, tinha perdido muito sangue nas últimas horas e só conseguiu dar um leve sorriso antes de desmaiar novamente.— Deite-o no chão! — Ordenou a moça e Höran assim o fez. Enquanto deitava vagarosamente seu companheiro no chão a moça correu para uma porta que fica atrás do balcão, o que supostamente seria uma dispensa. Logo ela voltou, com um pote de barro e um pedaço de tecido branco. Ela ordenou que Höran tirasse o curativo improvisado enquanto mergulhava o tecido no conteúdo do jarro.Ela ajoelhou-se ao lado do rapaz e pressionou a bandagem embebida no líquido verde sobre o corte na perna dele. O cheiro forte de álcool não era impedido pela faixa que cobria o nariz de Höran, que torceu o nariz, irritado. Por sorte seu companheiro estava inconsciente, aquilo parecia doloroso.— Senhora, eu não posso pagar por mais que uma dose de rum. — Falava Höran preocupado enquanto pegava o saco de moedas, quando abriu a boca pra continuar foi interrompido pela moça:
— Guarde suas moedas; me fará um favor em troca... — falou a moça num tom caótico sem tirar os olhos da ferida. — E, aliás, é senhorita! Joana, Prazer em conhecê-los.— É claro, senhorita... — retrucou desconcertado guardando o saco de moedas.— Escuta — cochichou Joana — aquele homem está aqui há horas e eu necessito que ele saia, mas não posso expulsá-lo, pois arruinaria minha reputação.Höran quis rir, como se pensasse que Joana, magra daquele jeito, desse conta do homem, mas segurou o sorriso pra evitar discussão. Ele levantou-se e foi andando vagarosamente na direção do homem:—Senhor, — falou tranquilamente — essa moça precisa fechar a loja e eu peço para que se retire.Ele sempre fora muito gentil, mesmo tendo considerado que Joana tentara expulsar o homem algumas vezes, ele não foi rude.O homem se levantou batendo as mãos na mesa e disse:— Eu pagarei pelo vinho! — vociferou — E darei uma gorjeta alta pelos serviços. Ficarei aqui até me saciar, afinal, para que servem as mulheres se não para servir?!Por cima do ombro Höran viu Joana, enrubescida de raiva e soube o que fazer...Correu para cima do homem, que se mostrou incrivelmente ágil para um bêbado quando jogou uma garrafa em direção à Höran logo após ele dar o primeiro passo. Foi fácil esquivar, mas logo em seguida o homem atirou a mesa!Ambos os pés de Höran estavam no ar devido ao impulso que dera para desviar da garrafa, sair da frente da mesa nessas condições era tarefa impossível! Ele estendeu os braços e tentou segurar a mesa, depois do impacto cambaleou dois passos para trás e ainda escorregou os pés enlameados no chão por alguns centímetros, mas conseguiu evitar machucar-se gravemente e ainda evitou que a mesa acertasse Joana e Arten.Mas se a mesa não os acertou, a garrafa da qual se esquivou... A GARRAFA!Höran temia pelo pior. Joana podia ter sido atingida! Por um momento se esqueceu da briga que arranjara momentos antes e se virou para conferir se a moça estava bem, seu coração gelou de medo ao ver um vulto passando velozmente a centímetros de seu ombro direito e explodindo logo em seguida. Os estilhaços cortaram-lhe o braço que estava descoberto, já que usara a manga para estancar as feridas de Arten.Instantes depois, quando o pavor do susto deixou sua mente e voltou a ter controle sobre seus pensamentos, concluiu que Joana, de alguma maneira, havia aparado a garrafa e arremessado de volta, acertando em cheio o bêbado que iria pular a mesa para continuar a briga. Com medo de ser surpreendido novamente, Höran virou a cabeça lentamente, desviando o olhar de Joana para procurar o homem com quem brigava, mas ao contrário do que pensava o homem estava caído, um círculo em sua testa mostrava que Joana acertara a garrava exatamente no cenho do homem.— Belo tiro! — Disse sem graça e com os olhos arregalados sob o capuz.Por algum motivo Joana gargalhou ao notar a situação na qual ele se encontrava e depois de alguns instantes ele se juntou à ela gargalhando também.— Venha! Agora temos mais machucados para tratar. — a moça falou num tom sereno enquanto ainda ria. — Mas depois você vai limpar essa bagunça! — Prosseguiu engrossando a voz.—[♦]—
Notas finais
Hey galera, obrigado por lerem, estarei postando mais conteúdo em breve. Abraços
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