Xtreme-Instituto

1 A despedida


Eram sete horas da manhã de uma terça-feira de Outono e estava um pouco frio. Sentada na beira da cama, eu estava com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça apoiada nas palmas das mãos. Estava pensativa. Perdida. Depressiva. Alguém bateu à porta. Supostamente era minha mãe.

"Querida, posso entrar?"

"Pode, Mãe!"

"Querida!" disse ela, entrando no quarto e parando em minha frente. "Não fique assim! Olha! Tenho boas notícias: te matriculei em outra escola.

"Ah não, Mãe! Sabe que nunca vai dar certo, nunca deu. Nós duas sabemos disso!"

"Nunca devemos desistir. Sua educação é importante!"

"Eu já sou bastante educada, não vou pra colégio algum! Não é a senhora quem fica deprimida, magoada e se achando a única estranhas de olhos violetas. Não vou e não quero. Por favor, não me obrigue!"

"Querida!" ela sentou-se ao meu lado na cama e passou a mão em minha cabeça. "Eu sei que é difícil pra você não ter nenhum amigo, mas tem que dar uma chance pra si mesma. Olha! Esse não bem um colégio, é um instituto que ajuda aos jovens a descobrir o que querem ser e ajuda a desenvolver suas práticas."

"Ah, e aposto que todos lá vão ser iguais aos outros e irão me descartar! Devem ser metidos."

"Não. Olha! Eles garantiram que lá ninguém maltrata ninguém. Todos são amigos."

"Mas é claro que são, mas duvido que eu seja uma deles!"

"Vamos fazer assim: você vai pra este instituto e se as coisas continuarem como sempre foram, prometo que nunca mais irei te fazer passar por isso novamente. Okay?"

"Okay." digo entre um bufar. "Mas promessa é dívida, hein!" apontei o dedo para ela.

"Eu sei. Não se preocupe, Querida!"

"Então tá!"

"Irão vir te buscar amanhã." disse ela, caminhando até a porta. "Tenho certeza que vai se dar bem lá. Quem sabe até arrumar um namorado? Já está em tempo!" ela saiu, fechando a porta atrás de si.

Fiquei ali, sentada pro um momento e levantei para me olhar no espelho. Tenho altura mediana, magra, pele extremamente branca, cabelos castanho- médio e lisos, na altura do meio das costas. Lábios médios e rosados, olhos pequenos e violetas. Fiquei parada de frente ao espelho me analisando e pensando. Por que todos me rejeitam, me tratam mal? Será que sou tão feia assim ou somente é porque a cor dos meus olhos são diferentes da de todos?

Eu realmente não consigo compreender essas pessoas. Garanto, com toda a certeza do mundo, que se eu fosse normal e visse uma pessoa com a cor dos olhos exótica, eu acharia incrível e fantástico. Não iria rejeita-la. Mas parece que só eu penso assim. Talvez seja porque sou "a estranha" que digo que seria diferente deles. Talvez se eu fosse normal, seria como eles e não aceitaria um "esquisito" no grupo.

No dia seguinte, tive que me levantar cedo e me preparar para o meu primeiro e, talvez, último dia no tal instituto que ajuda os jovens. Terminei de tomar meu café- da- manhã e ouço uma buzina tocar em frente à porta de minha casa.

"Querida! Sabe que pode confiar em mim. Não sabe? Se não der certo desta vez, eu prometo que não haverá outra!" minha mãe diz, pegando em minha mão.

"Eu sei, mãe!" sorrio, porém triste.

"Meu bem, não chore, vamos nos ver todo fim de mês!" ela diz, enxugando minhas lágrimas.

"Fim de mês? Vou me dar mal lá! Como posso te ver somente uma vez ao mês? Não sei se vou durar um dia sequer."

"Vai sim, eu sei que vai!"

"Como pode ter tanta certeza?"

"Simplesmente sei, sei que se dará bem com todos. Eu sei porque sinto aqui!" minha mãe pousa sua mão sobre o peito. No coração. Ela sabe porque está sentindo nele. A buzina toca novamente e isso pareceu desperta-la. "Bem, está na hora de ir!" ela disse, me entregando as malas. Tentou disfarçar, mas vi as lágrimas escorrerem de seus belos olhos cor- de- mel.

"Mãe, te amo! Sentirei muita saudade." digo, a abraçando forte e chorando. Parei antes que ficasse ainda mais difícil a despedida. Pego minhas malas e dou um beijo em seu rosto.

"Te amo muito, Querida! Sentirei muito mais saudades!" disse ela, acariciando meu rosto e abrindo um breve sorriso. "Adeus!"

Me virei, indo em direção da saída. Mas, mesmo estando de costas, sabia que estava me olhando, feliz e triste. Feliz por eu ter aceitado tentar de novo, e triste por sua querida filha estar indo embora. Entrei na van que estava me aguardando estacionada à frente e fui para a parte de trás, sentando na última fileira de poltronas. Quando a van deu partida, olhei pelo vidro de trás e vi minha correr e parar no local onde estava estacionada, cobrindo a boca com a mão e chorando.

Acenei para minha mãe e ela devolveu o aceno. Li os seus lábios ao dizer que me amava, antes que a van virasse a curva e eu a perdesse de vista. Comecei a chorar em silêncio. Essa era a pior sensação. Mesmo sabendo que a veria a cada mês, senti que aquele foi nosso último momento juntas. Temia nunca mais vê-la novamente.