X-men: Novo Mundo
7 Trauma
Archie Armstrong.
Archie caminhava distraído e devagar. Por vezes chutava pequenas poças d’agua, formadas pela chuva da noite anterior. Dias intermináveis de chuva que traziam consigo um sentimento vago no coração de Archie.
O clima era perfeito, o cheiro de terra molhada dos jardins da vizinhança era relaxante e os últimos lápis de cor que ganhara o deixariam radiante. No entanto, o garoto não estava nenhum pouco feliz.
Archie sempre imaginou como seria conhecer o pai. Como ele era, quantos anos tinha, qual era o seu programa de TV favorito, todo tipo de curiosidade. E agora que o conhecia não sabia dizer o que sentia. Nem mesmo se ainda queria conhecê-lo melhor.
Depois de tanto tempo, era de se esperar que o garoto quisesse conhecê-lo. Mas devido às circunstâncias ele se sentia culpado de alguma maneira.
Victoria, sua mãe, nunca lhe contara nada sobre seu pai. Sempre que o assunto surgia ela dava um jeito de se esquivar: fingia não ter ouvido ou simplesmente não respondia. Era compreensível. Talvez ela também se sentisse culpada. Durante seu relacionamento com o homem que lhe dera um filho ele nunca mencionara o fato de ser casado ou ter um primeiro filho. Mesmo assim, ela culpava a si mesma. Ela dizia a si mesma que deveria saber, que não poderia ter caído facilmente nos braços de um homem que lhe prometia uma vida de amor. Repetia inúmeras vezes como se sentia estúpida e ingênua.
Por sua vez, Archie se sentia culpado por ser o fruto de um relacionamento que não deveria ter acontecido. Ele não era e não poderia ser. Que culpa ele haveria de ter se não foi uma escolha dele? Mas ele sabia que não era querido. Seu meio irmão fugira para que não visse o seu rosto. Provavelmente o culpava também.
No fundo ele sabia que não era certo esperar que seu irmão quisesse conhecê-lo. Archie não era simplesmente o filho de Nathan. Era também a recordação da infidelidade de Nathan.
Ao chegar à escola Archie se dirigiu ao banheiro. Pôs-se de frente ao espelho e encarou o seu reflexo. Ele estava com olheiras das duas últimas noites mal dormidas, mas ainda tinha o seu aspecto meigo de sempre. O azul de seus olhos lembravam o mar, enquanto seus cabelos eram tão escuros quanto uma noite sem lua. Tudo em seu rosto era pequeno, olhos, nariz e lábios. Apesar de ter 1,70 de altura, Archie tinha um rosto quase de criança — o que o tornava mais jovem do que era. Após lavar o rosto ele seguiu diretamente para a sala de aula. Sentou-se em seu lugar de costume e permaneceu quieto durante toda a aula.
∞
O sinal para o intervalo rompeu toda a escola, interrompendo o que os alunos faziam. Archie caminhou até o refeitório e entrou na fila para pegar a sua refeição.
— Escuta aqui seu tampinha...
A voz de Violet surgiu atrás dele num sussurro, ela era dois centímetros mais alta e vivia se gabando disso, simplesmente para implicar com ele.
— Você some por dias e ainda me ignora na aula de história? — era notável em sua voz a vontade que ela sentia em falar mais alto.
Archie olhou para ela e depois voltou sua atenção para a fila.
— Desculpa — Foi a única coisa que conseguiu dizer.
— Ah, claro. Assim tão fácil — murmurou.
— Aconteceu uma coisa — seu tom era inseguro, não queria falar sobre o assunto, mas Archie sabia que ela não o deixaria em paz tão facilmente. — Mas não posso falar sobre isso aqui... É complicado.
Violet arqueou a sobrancelha intrigada.
— Tudo bem. Por enquanto você está a salvo. Mas vai ter que me explicar direito o que aconteceu.
Dividiram a mesma mesa enquanto comiam. Archie e Violet conversaram sobre várias coisas. Sobre o que ele perdeu durante os dias que não foi a aula, as mais novas fofocas e sobre as três pestes da escola. Violet contou que ela vinha sendo perturbada por elas pelo simples fato de que Duncan havia conversado com ela no corredor.
Duncan era um rapaz bonito. Tinha os olhos claros, um tom aproximado do cinza. Seu cabelo era castanho escuro e o corte baixo, com um pequeno topete. Fazia parte do time de basquete e natação, o que lhe concedeu um corpo atlético. Era óbvio a popularidade de Duncan. Um belo rosto e habilidades num esporte garantia certa fama para os garotos.
— Espera... Por que você estava falando com ele? Achei que você não gostasse dos esnobes. — o tom de Archie soou áspero. Ele não gostava dos populares, tinham hábitos desprezíveis. Ou era o que ele achava.
— É verdade que ele é popular e tem alguns amigos nada divertidos. Mas ele não é tão ruim assim — Violet falou devagar, como se pensasse um pouco mais sobre o assunto antes de concluir. — Além do mais, ele só queria me convidar para uma festa que ele vai dar na casa dele. Você vai comigo, não vai?
Archie pareceu não compreender direito as palavras que saíam da boca de Violet. Ele não se sentia à vontade com a ideia de ir numa festa de um dos garotos mais populares da escola.
— Você está me zoando? — indagou incrédulo.
— Mas é claro que não! — respondeu prontamente. — Archie... — hesitou — Eu não me esqueci do que aconteceu com você no ano passado. Ninguém deveria ser tratado daquela forma... — pausou, respirou e pareceu pensar nas palavras antes de dizê-las. — Também sei que não sei como você se sente. Mas se tem uma coisa que eu sei é que aqueles cretinos foram expulsos! — parou mais uma vez, dando tempo para Archie absorver o que ela dizia. — Você precisa se distrair um pouco. Eu sei que mexer o esqueleto vai ser bom... Por favor. Vamos! Já faz tanto tempo desde a última vez que saímos juntos.
Archie permaneceu quieto. Ele não queria discutir com ela, mas era inevitável, ele ficava irritado quando tocavam no assunto. Superar o trauma não era como fechar e abrir os olhos.
— “Ah. Por favor, foram brincadeiras de mau gosto. Suspensão e horas de trabalho comunitário serão suficientes para que aprendam a lição”, dissera o diretor tentando amenizar o estrago que os ricos fizeram na escola e com o rapaz. Felizmente não teve outro jeito, senão expulsá-los. É o que acontece quando um assunto daquela magnitude toma repercussão. Os pais de outros alunos entraram ao favor de Archie, pois temiam que seus filhos passassem pelo mesmo.
— Eu... Não prometo. Mas irei pensar — bufou e esfregou as mãos no rosto. — Eu sei que você se preocupa. Eu só não me sinto à vontade indo numa festa que não fui convidado.
Um silêncio incômodo pairou sobre eles, enquanto o restante do refeitório estava barulhento. Era um assunto delicado e Violet sabia que não podia obrigá-lo — ainda mais por ele ter razão. Restava esperar.
∞
O professor de química havia faltado. Por isso os alunos tinham uma aula vaga. Archie e Violet faziam parte da turma, então estavam dispensados, mas não podiam deixar a escola.
Andaram a esmo pela escola, procurando por um lugar onde pudessem ficar e matar o tempo. Ainda tinham faltava muito até a próxima aula.
Encontraram a quadra de esportes cheia de alunos tendo treino de vôlei. Era um dos únicos esportes que chamava a atenção de Archie. Basquete e futebol americano sempre foram seus pesadelos e felizmente nunca precisou fazer parte de nenhum dos times. Mas vez ou outra o professor de educação física fazia a classe jogar basquete apenas por “diversão”.
Os dois se sentaram na arquibancada e assistiram o treino. Os times estavam mesclados — meninos e meninas. Não tinha placar, o que significava que era apenas um treino corriqueiro. Pareciam se divertir, apesar do esforço exagerado que exerciam para impedir que a bola tocasse o chão.
— Eles são bons — comentou num tom disperso.
— São. — Violet concordou, dando um olhar demorado para o amigo, parecia ansiosa, talvez, apreensiva — Você está com cara de que gostaria de estar lá jogando — observou.
Archie demorou um pouco e por fim falou:
— Talvez. Sempre gostei, mas tenho certeza que em pouco tempo eu acabaria desistindo... Acho que é por isso que nunca entrei no time.
— Você deveria entrar! — exclamou numa animação exagerada.
Violet ficou olhando para Archie, mas ele não olhou para ela. Ele a julgava pior do que a sua mãe. A jovem estava sempre tentando convencê-lo a praticar algum esporte ou então tentava levá-lo a algum lugar. Uma luta completamente exaustiva. Ele dizia “não” e ela insistia no: e por que não?
— Não!
— Sim senhor!
— Violet, por que você faz isso? — olhou para ela com uma carranca irritada.
— Porque eu me preocupo com você. Não quero que você fique o tempo inteiro sozinho. — deu de ombros. — Eu sei que você gosta de ficar sozinho, mas você também já me confessou que não gosta de se sentir só. — um sorriso acolhedor surgiu em seu rosto. — Um paradoxo, huh? — um riso curto escapou e ela se aproximou de Archie, dando-lhe um abraço de lado e deitou a cabeça no ombro dele.
O tempo passou rápido e a conversa entre os dois havia cessado. Ficaram assistindo ao jogo em silêncio, vez ou outra Violet batia palmas para incentivar os alunos, enquanto Archie permaneceu coberto de pensamentos irrequietos e em silêncio.
∞
2015 — Baile de inverno.
Archie corria desesperadamente pelos corredores silenciosos da escola, buscando pela saída ou um lugar que pudesse se esconder. Era noite e todos os alunos estavam na quadra aproveitando o baile de inverno.
O jovem Armstrong fugia de três alunos mais velhos que ele — Drew, Stefan e Tyler. Durante o ano inteiro ele fora alvo de bullying. Foi empurrado inúmeras vezes, jogaram restos de comida sobre ele e tentaram enfiar a cabeça dele numa privada uma vez. Felizmente Duncan e Matthew estavam no banheiro aquele dia e impediram os três. Mas não havia ninguém naquele momento que pudesse ajudar. Ninguém.
∞
As três últimas aulas foram devagar e torturantes. Não havia nada que Archie desejasse mais do que estar em casa. Vez ou outra ele olhava para o relógio que estava pendurado no centro da parede, no fundo da sala.
Seu plano de ir para casa e passar o resto do dia assistindo a TV mudaram no último minuto. Hoje ele não iria direto para casa. Violet o convidou para ir a casa dela e ele aceitou. Resistiu a si mesmo, não queria admitir, mas por fim acabou concordando que ela tinha razão sobre ele estar passando muito tempo sozinho. Ele costumava desenhar nos finais de semana, mas agora eram todos os dias. Ler também. Sempre que podia tornava a ler de onde havia parado. Ao invés de passatempo, aquilo havia se tornado um refúgio de tudo o que o incomodava. Violet estava sempre preocupada com o amigo e temia que fosse o início de uma depressão. Mas Archie era teimoso e não a escutava. Talvez, dessa vez fosse diferente. A bem da verdade, a casa de Violet era outro refúgio. Agora seus problemas eram piores, pois descobrir a verdade sobre seu pai só fez pesar e agravar o sentimento sufocante em seu peito.
No fundo ele sabia que estava com medo de confiar nas pessoas novamente, não era mais a mesma coisa. Ele não conseguia enxergar a bondade, sempre pensava nas segundas más intenções.
Aos poucos começou aceitar que não estava tão bem quanto tentava convencer a si mesmo, tão pouco ficaria, se as coisas continuassem seguindo o rumo que estavam destinadas a tomar.
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