X-men: Novo Mundo

8 A flor que desabrocha


Violet VanCamp.

Violet e Archie estavam no quarto da casa dela, sentados no chão. A TV estava ligada, mas eles não estavam de fato assistindo. A atenção dos dois estava distribuída em várias coisas ao mesmo tempo: assuntos que Violet lia na Internet, músicas que suas bandas e cantores favoritos estavam lançando, livros que deveriam comprar e ler. Violet também lia bastante, mas só em seu tempo livre — o que ela gostaria que seu amigo fizesse também.
Ela queria que Archie se abrisse logo e contasse o que estava acontecendo. No ano anterior — 2015 — ele já havia sofrido um acidente por causa de três alunos e se tornado distante e quieto, exercendo sua paixão pela leitura e arte em tempo integral, e ela não conseguia fazê-lo se reerguer novamente. Não havia nada de errado em gostar daquelas coisas, mas ela não queria que ele vivesse tendo somente ela como amiga e se prendendo somente em livros. Ela enxergava o potencial nele que ele mesmo se negava a ver.
Violet se levantou e desligou a TV, o notebook e tudo que estava ligado no quarto. Deparou-se com um olhar intrigado de seu amigo e sorriu para ele, tentando passar um pouco de tranquilidade.
— Tem algo que eu quero te contar...
— O quê? E precisa desse silêncio todo? — perguntou Archie um pouco hesitante.
— Isso aconteceu há algum tempo. Antes de você sumir. Na verdade, naquele dia que eu matei aula. — Como Archie não manifestou nenhum tipo de objeção, ela continuou: — Eu ainda não sei como dizer isso sem parecer louca, então vou dizer de uma vez... Lá vai.
Violet se interrompeu, olhando para a expressão de Archie, ela podia jurar que ele já a julgava doida sem nem ouvi-la primeiro.
— Eu sou uma bruxa... Maga... Feiticeira... Há tantos nomes pra isso. Enfim, sou tudo isso!
Archie arqueou a sobrancelha e deixou escapar um riso curto. Ele parecia confuso e não sabia como deveria reagir.
— É algum tipo de brincadeira ou você vai me provar o que está dizendo? — riu novamente — porque já está ficando estranho demais.
Violet permaneceu em silêncio, fechou os olhos e respirou profundamente várias vezes. Ela sabia que precisava fazer uma demonstração o mais rápido possível, antes que Archie a interrompesse ou saísse correndo dali.
Em poucos segundos a fiação da casa começou a falhar, fazendo as luzes piscarem várias vezes. O ar pareceu mudar, como se estivesse mais pesado, trazendo uma brisa gelada pela fresta da janela que bailou em volta dos dois, obrigando as cortinas a dançarem também. As folhas de um livro sobre a escrivaninha começou a folhear sem parar, até se fechar completamente e em seguida fazer o mesmo movimento, mas de trás para frente. A TV ligou e chiou, depois abriu num canal aleatório e voltou a se desligar. Finalmente Violet abriu os olhos e tudo cessou, voltando ao silêncio incômodo de antes.
— Nada paga a sua expressão! — disse Violet, convencida de que aquilo era mais do que suficiente.
Archie permaneceu imóvel, assustado demais ou deslumbrado. Ele abriu a boca várias vezes, mas nada saiu. Seus braços estavam arrepiados e ele estava com a mão depositada sobre o peito.
— Oi, oi? Você está bem? — Violet soltou um riso nervoso, ansiosa demais para saber o que se passava na cabeça dele. Ela se aproximou e sentou de frente para ele, e esfregou os dedos próximo aos olhos de Archie, provocando pequenos estalos, numa tentativa de acordá-lo.
— C...Como?! — falou finalmente, soltando o ar de seus pulmões. — Como você fez isso?
— Eu... Não faço ideia. Só sei que posso. E mais. Andei treinando. Só que é difícil, não consigo manter por muito tempo.
— Não consigo colocar em palavras o quanto isso é demais! — Archie sorriu empolgado, parecia inquieto, sem conseguir se manter parado, mesmo sentado.
A conversa continuou até se cansarem de falar e de Violet não ter mais forças para fazer mais demonstrações. Antes que pudessem notar já era noite e foram induzidos ao sono.

Os dois acordaram as 6 horas da manhã. O despertador gritava sem parar, num apito frenético. Violet esfregou os olhos preguiçosamente e se levantou com dificuldade. Ela sentia os braços e pernas pesados, como se tivesse corrido em uma maratona. Ela foi a primeira a tomar banho, pois Archie não se sentia à vontade para usar outro banheiro da casa.
Apesar do cansaço, ela não estava ansiosa como uma semana atrás. Por isso se permitiu um pouco de tempo a mais para se aprontar.
Enquanto ela se arrumava no espelho do quarto, Archie foi usar o banheiro.
Ao todo foram dez minutos para ela terminar a maquiagem. Os cílios ficaram acentuados e com o rímel ela fez pontas puxadas no canto dos olhos. Vestiu-se com uma blusa cinza e pegou novamente a jaqueta de couro preto. Ela avaliou o seu visual e pensou em começar a dar atenção ao estilo que seu pai sugeria, pois começou a acreditar que jaqueta lhe caía bem. Violet estava acostumada com vestidos e saltos, mas o visual “garota normal do colegial” estava lhe agradando. Por fim vestiu as calças e os tênis.
— Nós precisamos combinar com antecedência. — murmurou Archie ao sair do banheiro. — Mesmas roupas de ontem. O que vão pensar?!
— Ninguém vai notar. Tem mais de trinta alunos dentro de cada sala, cada um com a cueca do dia anterior. Quem liga? — riu do próprio comentário. — E você está limpinho. Vamos!

A mesa do café da manhã já estava posta e somente o pai de Violet — George — estava presente. Ele segurava um jornal e lia.
— Bom dia, senhor. — Archie o cumprimentou com educação.
O homem demorou alguns segundos lendo as últimas linhas e levantou os olhos, abrindo um sorriso no mesmo instante.
— Archie! Garoto, quanto tempo. — deu um riso grave — Como você está? E a sua mãe? — ele dobrou o jornal e o depositou na mesa.
— Estamos muito bem, obrigado. — mentiu. — E o senhor? — Violet e seu pai não foram capazes de identificar qualquer diferença em Archie. Era sempre tão quieto.
Violet riu do modo acanhado e formal do amigo.
— Ora. Não importa o quanto eu peça, você nunca larga o “senhor”, não é mesmo? — sorriu. — Sua mãe ligou. Disse que seria ótimo avisá-la na próxima vez.
— É a força do hábito. Desculpe-me. — sorriu desajeitado. — Nós acabamos nos esquecendo...
— Não se preocupe, eu já conversei com ela. Bom, eu já terminei. Tenho que correr — informou simplesmente — Visite-nos mais vezes. E traga a sua mãe também.
— Obrigado, voltarei sim.
O pai de Violet depositou um beijo na bochecha dela e saiu.
Os dois comeram em silêncio e depois foram até o ponto de ônibus. Apesar de ter o próprio carro, raramente Violet o usava. Dizia gostar de se aconchegar no banco e ouvir música enquanto passava a paisagem das casas e prédios.

Ao chegarem a escola, os dois iam caminhando juntos. Vez ou outra Violet cumprimentava alguém, enquanto Archie caminhava de cabeça baixa.
Os dois se conheciam desde crianças, pois Amanda, mãe de Violet, e a do rapaz eram amigas no colegial e mesmo após o término dos estudos no ensino médio elas mantiveram o contato.

A aula teve início e um professor novo adentrou na sala de aula. Todos vislumbraram o tamanho dele. Parecia ter dois metros e alguns centímetros. Ele usava gel no cabelo, mantendo todos os fios para trás, imóveis. Ele vestia um jaleco, camisa branca e calças jeans, e calçava sapatos pretos.
— Bom dia! Infelizmente o professor atual de vocês tirou licença devido a um acidente. Não se preocupem, ele ficará bem. O meu nome é Hank McCoy e serei o professor de vocês.
O que o professor tinha de tamanho, também tinha de paciência e gentileza. Violet gostou dele e até mesmo Archie parecia feliz com isso. O professor anterior era sempre sério, com uma expressão de desdém estampada na cara o tempo inteiro.
Após alguns experimentos químicos e explicações, o sinal tocou e os alunos pareceram desapontados pela primeira vez com o encerramento da aula de Química.

Archie despediu-se de Violet, pois ele tinha um horário marcado com a psicóloga. Algo que se tornou semanal depois do ocorrido do ano passado.
Por sua vez, Violet seguiu para a próxima aula.
Ao encontrar a sala, Violet se deparou com uma jovem ruiva parada em frente à porta da sala de aula.
— Olá, Violet, tudo bem com você? — Jean a cumprimentou num tom polido.
Violet deteve-se na porta e encarou a ruiva.
— Hum... — analisou-a por mais um instante. — Estou bem. — abriu um sorriso gentil. — Desculpa. Eu não te conheço... Ou conheço? Posso ajudar em alguma coisa? Você é aluna nova?
Jean sorriu de volta, agradecida pela atenção de Violet.
— Na verdade, não nos conhecemos. O meu nome é Jean Grey. Você tem alguns minutos? Já conversei com a sua professora e ela disse que não haveria problemas — informou.
— Bom... — pausou. Violet sabia se podia confiar em uma estranha. — Não sei se entendi muito bem.
— Desculpe-me. — falou rapidamente. — Eu gostaria de te fazer uma proposta, mas para isso precisamos conversar um pouco.
Ainda relutante Violet a seguiu até um local sossegado da escola. Sentaram-se e Jean começou a contar sobre o instituto sem mencionar as habilidades especiais. Falou que além dos estudos na escola que ela já cursava, ainda teria aulas com Charles Xavier e Ororo Monroe.
— Mas como vocês chegaram até mim? — perguntou um pouco desconfiada. — Há outros alunos daqui também? Eu posso recomendar um? — apesar da desconfiança, não se sentiria segura indo sozinha. Gostaria que seu amigo fosse também.
— Infelizmente não. Por enquanto você foi a única selecionada. Não pretendo levá-la sozinha. Seus pais iriam também — seu tom era como alguém que pedia desculpas.
— Entendi... — Violet não se incomodou em demonstrar o seu desapontamento.
— Violet... Eu preciso ser honesta com você. — Jean falou simplesmente. — A razão de você não poder indicar outro aluno, é porque provavelmente ele não é como o tipo de aluno que o Professor Xavier procura. Especial como você.
— E... Especial? — pareceu confusa, mas ela sentia que sabia o que a ruiva queria dizer.
— Você descobriu recentemente que é diferente, que faz o que outras pessoas não fazem. Estou certa? Por favor, tenha calma! — pediu num tom urgente ao perceber o medo estampado no rosto de Violet. — Você não corre nenhum perigo. Nem o seu segredo. A bem da verdade, eu sou como você!
Violet inclinou a cabeça confusa.
— Você é uma bruxa também?
Jean riu levemente e respondeu:
— Não. Eu sou uma mutante. — pausou e apontou para uma cadeira próxima. — Preste atenção — Jean tomou uma expressão concentrada e a cadeira tremeu e levitou. Antes que alguém pudesse ver, Jean a depositou no chão novamente.
— Eu também consigo! — exclamou Violet, empolgada, então parou e olhou para Jean. — Mutante?
— Sim. É como chamamos as pessoas que nascem com o Gene X mutante.
— Então, eu não sou uma feiticeira? — seu desapontamento era palpável.
— Bom. Eu não sou a pessoa certa para lhe dizer isso. O professor Xavier poderá te explicar... — Jean sorriu e depositou uma mão no ombro de Violet. — Ele entende melhor do que ninguém.
Jean contou um pouco mais sobre o instituto e depois se despediu, deixando o cartão para contato. No final, Violet havia dito que conversaria com seus pais. Era a oportunidade perfeita — entender um pouco melhor sobre si mesma e o que ela podia fazer.

Violet estava no banco traseiro do carro de seu pai a caminho do Instituto Xavier para jovens super dotados. Inicialmente, eles estranharam o convite, ainda porque eles acreditavam no ensino público. Mas Violet os convenceu a conhecer o lugar. Infelizmente, a jovem não foi totalmente honesta. Ela não contou para os pais sobre os seus poderes e muito menos que o instituto abrigava pessoas como ela. Violet desejava fazer parte do lugar sem que fosse necessário contar para eles o seu segredo. Ela tinha medo de não ser compreendida por seus pais, de perder o afeto e qualquer coisa boa. Mas ela sabia que eles a amavam, não poderiam tratá-la diferente... Não podem. Ou era o que ela esperava.

Notas finais
Hank McCoy é o fera. O Gene X Mutante dele ainda não está ativo, então, por enquanto ele é um humano "comum". Obrigado por ler! Até o próximo capítulo.