X-men: Novo Mundo
4 O Gene X Mutante: Parte III
Alphonse Farron.
O jovem Alphonse encarava o próprio reflexo no espelho, sentindo-se profundamente traído. Palavras não seriam capazes de descrever o que sentia em seu peito, contudo, a verdade é que uma palavra seria suficiente: angústia.
A verdade o apunhalou como uma espada fina e afiada. A descrença e a negação vieram juntas e o abraçaram, sufocando-o. Era como se ele estivesse preso num elevador. Como se estivesse na solitária da cadeia mais protegida e acreditasse que nunca mais tornaria a ver ou sentir o calor do sol em sua pele outra vez. As lágrimas estavam agarradas em seus olhos, segurando-se para não cair. Mas era inevitável. Não havia força na terra que as impedisse. E gradualmente começaram a descer, criando um caminho para que as próximas lágrimas as seguissem.
Alphonse sentiu a raiva subir, apoderando-se de seu corpo. Num ato impensado ele empurrou e chutou os móveis de seu quarto. Jogou os objetos para todos os lados, com a intenção de quebrá-los, buscando desesperadamente por algo que satisfizesse a sua raiva. Raiva que mais parecia uma chama que só para de se alimentar quando não há mais nada para queimar.
Finalmente Alphonse se viu parado de frente para o espelho novamente. Sua respiração estava fora de ritmo e por alguns segundos permaneceu quieto. Tentando recobrar a sanidade.
O rapaz passou a mão sobre os cabelos castanhos, ajeitando os longos fios da franja para trás. Seus olhos azuis encaravam o reflexo como se ele não pudesse reconhecer o sentimento que o possuiu minutos atrás. Como se aquele sentimento tivesse sido algo revelador. Algo que estava escondido e ele só descobriu agora que estava ali.
Sua mente trabalhava para evitar que pensasse no que Nathan, seu pai, havia lhe contado. Mas ele se sentia completamente perdido. Era como estar em um labirinto: não importava para que lado ele fosse, ele sempre se deparava com a sua dura realidade.
— Alphonse! — uma voz feminina e desesperada o chamou do outro lado da porta — Abra a porta — pediu, tentando manter a serenidade em sua voz — Por favor... Abra a porta para a sua mãe...
O silêncio se prolongou até que o soluço da mãe do garoto o quebrasse.
Ele sabia que ela estava chorando.
Alphonse abriu a porta e sem dizer uma única palavra ele a abraçou. Juntos começaram a chorar novamente. Mas agora não estavam sozinhos. Tinham um ao outro e isso era o suficiente.
— Por que ele fez isso com a nossa família? Por que? — indagou tentando manter a calma. Ele não queria mostrar para a sua mãe a raiva que sentia — Ele não podia...
O silêncio se estendeu novamente, mas dessa vez não se fez presente por muito tempo.
— Não vamos pensar nisso agora, querido... Vamos. Diga-me, você sabe que não é obrigado a fazer o que ele quer. Você não precisa conhecer o bastardo. Muito menos eu. Não quero conhecer e nem ver seu rosto — era facilmente encontrado o sentimento de amargura em sua voz. A frieza e o ódio presentes em seus olhos.
Diana — mãe de Alphonse — estava tentando se manter forte, ela não conseguia esconder totalmente a sua raiva. Ela era a principal afetada. Não que a dor de seu filho não significasse nada, pelo contrário. Mas a verdade é que Diana era a esposa. Esposa daquele que havia jurado amá-la e acompanhá-la por toda a vida. Ela era a que mais sentiria a dor da mentira. Desde o começo tudo era falso. Sua vida havia sido destruída e agora a única coisa que lhe restara era Alphonse. A única coisa real.
— Não quero...
Não foi necessário que ele terminasse o que ia dizer. Diana pegou a mão de Alphonse e saiu sem levar nada.
∞
Dois dias depois.
Alphonse estava em seu novo quarto, na casa de sua avó. A família do jovem havia se despedaçado. Ele simplesmente não acreditava que seu pai tinha outra família. Outro filho.
Sua rotina mudou completamente. Ele não estava mais frequentando as aulas de piano, nem mesmo o curso de administração. Sua vida havia se resumido a apenas sua casa nova e a escola.
Alphonse se via perdido e não sabia mais no que acreditar. Sentia como se toda sua vida tivesse sido uma grande mentira.
O jovem percebeu que estava novamente perdido em amargura e numa tentativa desesperada de se livrar daquilo ele pegou o celular que estava sobre a mesa de canto.
Inevitável. Seus pensamentos continuavam cheios e mais uma vez sentiu seus olhos arderem com a urgência em que as lágrimas se formavam.
O rapaz deixou o aparelho e se levantou, saindo do quarto e fazendo o possível para não fazer muito barulho. Estava cansado das pessoas perguntarem como ele estava se sentindo, por isso evitaria ao máximo as pessoas.
O céu estava completamente cinza. Apesar de que não estivesse chovendo naquele momento, Alphonse sentia que logo voltaria a chover. As nuvens pareciam carregadas. Prontas para despejar a água sobre Nova York.
Saiu da casa e chegou ao jardim dos fundos. O lugar favorito de sua infância. Lá era um lugar acolhedor, calmo e relaxante para ficar. Ali, muitas vezes brincou com os seus primos e teve grandes almoços em família. Tinha fotos e grandes memórias. Mas agora era diferente. O lindo jardim não parecia o mesmo, havia se tornado uma mentira também, pois a imagem de seu pai ainda estava clara em sua memória, ainda conseguia vê-lo rindo de uma piada aleatória de um de seus tios. Afagando seus cabelos e dando-lhe a permissão para ir brincar com os primos. A nostalgia mais parecia um veneno que percorria seu corpo, trazendo à tona tudo o já vivera.
Alphonse encarou a grama e correu os olhos por todas as flores molhadas pela chuva: rosas, tão vermelhas e vivas. Boca de leão, lindas e tímidas sobre o verde que as sustentava. Copo de leite, grandes e adoráveis. Havia muitas outras, mas o rapaz não conhecia todos os nomes, nem se importava. Por um segundo pensou em arrancar todas. Ele queria destruir tudo aquilo que lhe trouxesse lembranças de seu pai. Mas conteve sua raiva e pisou com força, girando o corpo e iniciando uma caminhada para fora do jardim.
Um tremor repentino e forte o suficiente para fazê-lo perder o equilíbrio o assustou. Ele ficou de joelhos, com as mãos apoiadas no chão molhado, tentando se manter no lugar. O tremor durou apenas alguns segundos, mas parecia que tinham sido minutos. A respiração de Alphonse ficou pesada, sentindo o medo percorrer suas veias. Perguntou a si mesmo o que havia acontecido e se mais alguém sentiu o tremor, mas tudo parecia bem. O silêncio imperava nas ruas, dentro da casa de sua avó e até na casa dos vizinhos. “Será que estou ficando... Louco?” — era inevitável a dúvida crescer dentro de si. Fora vítima de uma grande onda de sentimentos negativos nos últimos dois dias. Alphonse descobriu mais tarde, com perguntas discretas, que ninguém havia sentido qualquer tremor. Nem mesmo o noticiário falava sobre terremotos. No entanto, Alphonse viria a descobrir mais tarde o que aconteceu naquele dia.
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