X-men: Novo Mundo
6 Desmoronando
Alphonse Farron.
Alphonse Farron não tinha mais um pai. Pelo menos, não o considerava mais. O seu celular e o de sua mãe tinham inúmeras ligações perdidas. Atenderam algumas vezes e pediram que os deixassem em paz, mas não adiantava. Nathan havia se tornado tão inconveniente quanto mentiroso.
O rapaz estava saindo da escola quando avistou o carro dele do outro lado da rua. Sentiu uma grande raiva subir e caminhou com passos urgentes e pesados até o carro, entrou e fechou a porta com um barulho estrondoso.
Sua respiração estava irregular e a única coisa que era ouvido era o ar entrando e saindo furiosamente. Ele não olhou para ele e se pudesse não tornaria a olhar pelo resto de sua vida. Mas por alguma razão ele tinha curiosidade em saber o que seu pai teria para lhe dizer, já que se arriscara indo até lá.
— Filho... — Nathan iniciou temeroso. — Deixe-me explicar.
Alphonse riu sarcasticamente.
— Explicar? O que você teria para me dizer que faria com que mamãe e eu voltássemos correndo para casa? — interrompeu-se para rir novamente — Talvez, que a vagabunda era boa no que fazia?
Apesar da raiva inserida em sua voz, também era possível encontrar tristeza cuidadosamente ocultada, mas não o suficiente.
— Eu sei que não importa o que eu diga, nada vai desfazer o dano que eu causei... Eu me arrependo. Eu só quero uma segunda chance, isso foi há muito tempo. Eu era jovem, estúpido e burro! — vociferou, sua voz estava se entortando, perdendo as forças conforme as palavras saíam. — Estamos propensos a cometer erros. Eu era jovem e não sabia o que estava fazendo. A razão por eu ter contado para vocês... — Nathan começou a chorar — Foi porque eu não estava aguentando a culpa que eu estava carregando. Você cresceu bem... Mas e ele? Entenda. Eu nunca quis... Nunca quis que as coisas tivessem acontecido assim.
Alphonse ouviu calado. Não se importava. Ele não tinha nada a ver com os erros de seu pai e não queria saber se o garoto nasceu bem ou não. Se passou por qualquer dificuldade, o único culpado seria Nathan. Por que ele deveria se importar? Porque eram irmãos? Não. Isso não lhe desceria a garganta. Cuspiria fora qualquer compaixão. Qualquer coisa que o fizesse se lembrar...
O rapaz saiu do carro e empurrou a porta sem dizer nenhuma palavra. Era isso que o pai dele queria, não era? Ser ouvido. Alphonse ouviu até demais e se arrependeu por ter lhe concedido aqueles poucos minutos.
Nathan abriu o vidro do carro.
— Deixa eu levar você. — pediu olhando para Alphonse.
— Jovem? — riu, mas não olhou para trás — Jovem ou não, isso não justifica. Todos sabemos que há consequências quando fazemos uma escolha errada. Você fez a sua e achou que ela não cairia sobre você?
O rapaz se afastou.
∞
O jovem Farron não pegou um ônibus para voltar para casa. Caminhou todo o trajeto a pé. Os fones de ouvido estavam tocando, mas ele não estava prestando atenção no que a letra da música dizia. “Maldito seja!” — murmurou, sabendo que não conseguiria esquecer o som da voz de seu pai e nem do choro. Mesmo que não tenha olhada para ele, era perceptível pela voz que ele chorava. Alphonse era um garoto explosivo em muitos aspectos, mas sempre sofria calado quando sua consciência o torturava com alguma coisa. Ele não era tão cruel quanto tentava parecer.
Ao avistar sua casa, percebeu um carro estacionado em frente. Também havia um rapaz mais velho que ele, sentado no capo do carro.
O estranho tinha o cabelo castanho, era um pouco mais alto que Alphonse e tinha um porte físico perfeito. Ele usava óculos de sol, o que era estranho, já que o céu estava completamente nublado.
Alphonse não o conhecia, por isso o ignorou e passou direto, encaminhou-se para a entrada.
— Ei! Alphonse Farron? — perguntou o rapaz.
Um pouco incerto e hesitante Alphonse se virou, mas ficou parado.
— Sou eu. — informou simplesmente. — Quem é você?
O outro rapaz se aproximou e estendeu a mão para cumprimentá-lo.
— Eu estava a sua espera. O meu nome é Scott Summers.
— Pois não? — uma ideia meio vaga daquele ser o seu possível irmão o enjoou, por isso não apertou a mão de Scott.
— Er... — Scott sorriu desajeitado. — Eu sou um aluno do Instituto Xavier para jovens super dotados. E é do nosso interesse convidá-lo para conhecer a escola.
Alphonse cerrou os olhos por alguns segundos e soltou um “huh” do fundo da garganta. Era óbvio que ele nunca ouviu falar do Instituto e muito menos se inscreveu em qualquer plano estudantil em busca de uma bolsa. Não havia um motivo especial para ouvi-lo.
— Imagino que nunca tenha ouvido falar de nós. — apressou-se a dizer. — E, estou aqui apenas para convidá-lo a conhecer as nossas instalações. É um ótimo lugar...
— Muito bem. Não estou interessado. Passar bem. — disse Alphonse ríspido e deu as costas para Scott.
— Espere! — Scott o alcançou até a porta. — Aqui — ofereceu um cartão colocando próximo a mão de Alphonse. — Por favor. Se... Algo inexplicável acontecer de novo, você poderá entrar em contato conosco e o Professor Xavier te explicará tudo.
Antes de Alphonse respondê-lo, Scott já estava deixando o local.
Perguntou-se por um momento o que Scott quis dizer e um sentimento vago de arrependimento lhe ocorreu. Talvez, tivesse algo que ele quisesse entender. Mas não saberia dizer que tipo de coisa inexplicável se encaixava na definição de Scott.
∞
— Mãe? Vovó? — Alphonse chamou, mas não obteve uma resposta.
Ele largou a mochila em seu quarto e foi ao banheiro. Despiu-se. Ele era alto e magro, encarou seu reflexo e viu seu peito e ombros finos. Sempre desejou ganhar peso, mas não importava o quanto ele se esforçasse, era difícil para ele conseguir ganhar peso. Alphonse ligou o chuveiro e tomou uma ducha. Ele se sentia cansado, como se tivesse carregado peso sobre os ombros no caminho para casa. Seu pai já havia causado tanta dor, por que ainda o perseguia? Queria lhe causar mais dor?
Ao terminar o banho, Alphonse se secou e vestiu roupas leves para ficar dentro de casa. Preparou algo para comer e ficou sentado na cadeira da cozinha mesmo após não restar mais nada em seu prato. Era cansativo tentar não pensar. Era o mesmo que tentar não respirar, não importa o quanto se segure respiração, uma hora você acaba sendo derrotado pelo instinto de sobrevivência. Pensar era quase a mesma coisa.
Alphonse se levantou e colocou o prato e o copo na pia, e ligou a torneira. Começou a lavar o que ele mesmo sujou, mas quando se deu conta já estava lavando todo o resto. De certa forma ele teve um pouco de paz, apesar de ainda estar com a cabeça cheia. No entanto, a atividade havia feito tudo ficar em segundo plano, fazendo o jovem se concentrar apenas em lavar a louça.
Após guardar a louça, Alphonse foi para a sala de estar. Era diferente da sua antiga casa. Era mais simples, porém, nostálgica e acolhedora. Deitou no sofá e fechou os olhos, mas mesmo fechados não foram capazes de impedir as lágrimas. Ele não queria odiar o próprio pai, ao mesmo tempo que sentia uma raiva que ele não conseguia controlar. A contradição das coisas que sentia pesavam e sufocava.
Inicialmente, Alphonse achava que estava tremendo de raiva. Seu corpo vibrava por dentro, irrequieto com as sensações confusas em seu peito. Então, ao abrir os olhos, ele percebeu que não era ele. Era a casa.
Alphonse se levantou num pulo e correu para os fundos da casa. Dessa vez o tremor era mais forte e presente. Ele viu as árvores balançarem, perdendo algumas folhas. Viu o jardim e uma vaga lembrança o atormentou. Nesse momento ele percebeu uma pequena rachadura próximo aos pés descalços e num movimento involuntário ele deu passo para trás.
A linha de destruição seguiu em diante e atravessou o jardim, engolindo parte das flores que estavam no caminho. Foi nesse momento que ele percebeu. A sensação em seu peito estava ligada ao tremor, mais do que isso: à terra.
A compreensão repentina fez seu medo dissipar e aos poucos sua respiração foi se tornando regular. O tremor parou.
Alphonse viu o jardim e uma última lágrima desceu. Mesmo que no dia anterior o seu pensamento tivesse sido de destruí-lo, agora ele sentia a perda de mais uma coisa. Aquele jardim não era dele, era de sua vó. Mesmo que pudesse, não tinha o direito de se desfazer dele. Seguiu a rachadura com os olhos e viu que ela seguiu até os fundos da casa do vizinho. A cerca havia quebrado também, e metade das flores perderam o encanto — quebradas, sem pétalas e engolidas pela terra.
Alphonse correu para dentro da casa de sua avó novamente e fechou a porta.
A cozinha estava desajeitada. Algumas cadeiras estavam caídas, um copo estava despedaçado e seus cacos estirados no chão. Por sorte Alphonse não pisou neles. Ele voltou para fora e dessa vez deixou a porta dos fundos aberta.
Ele andava de um lado para o outro, buscando qualquer resquícios de lógica no que havia acontecido. Ele tinha certeza de que ele era o culpado. Sentia em seu peito aquela força.
O rapaz se ajoelhou e colocou as mãos sobre a terra. Respirou fundo e fechou os olhos, tentando transmitir aquele impulso que havia no peito para o solo. Em poucos segundos sentiu novamente o chão vibrar, ficando mais forte conforme os segundos passavam. O susto veio junto e ele tirou as mãos rapidamente, parando o tremor no mesmo instante.
Alphonse sabia que ninguém acreditaria se contasse para alguém. Era surreal demais até pra ele. Então, ocorreu uma ideia: se ele realmente podia fazer a terra se mover, poderia reparar os estragos.
Novamente pôs as mãos no chão e se concentrou. As falhas no solo começaram a se corrigir, fechando as rachaduras. No fim, Alphonse sentia seu corpo ceder, fraco demais pelos esforços — a perda do controle, a confirmação através de um teste e o reparo de parte do estrago —, e caiu de lado sobre o chão.
Alphonse acordou meia hora depois, deitado. Ergueu o tronco, ainda sentado, e olhou ao redor. Ainda tinha uma parcela do jardim que estava destruída, mas a rachadura havia sumido. Como se a terra ali nunca tivesse sido violada de qualquer maneira.
O rapaz estava confuso, mas ainda se lembrava. Levantou-se com um pouco de dificuldade e limpou a terra das roupas. Ele voltou para dentro e tentou arrumar a bagunça, mas tudo na casa estava fora do lugar.
A avó do rapaz foi a primeira a chegar. A desculpa mais plausível que ele conseguiu dar foi que quando chegou já estava daquele jeito, chegou até a sugerir que poderia ter sido alguém, talvez, um ladrão. No entanto, o que ele não esperava era que ela chamasse a polícia. Tentou convencê-la que não virá ninguém e que provavelmente a polícia descartaria a possibilidade de encontrar alguém sem o retrato falado do “suspeito”.
Em menos de dez minutos uma viatura estacionou em frente à casa de sua avó.
Os policiais fizeram uma busca rápida na casa e na vizinhança, mas rapidamente descartaram a possibilidade do ladrão estar por perto. Também não encontraram qualquer pista e nenhum vizinho viu alguém suspeito, exceto, um rapaz num carro esporte parado em frente a casa.
— Não! — falou mais alto do que gostaria. — Digo... — tentou se recompor. — Eu o conheço. É um colega.
— Colega? — o policial parecia suspeitar, mas se limitou a repetir a palavra, para não ser tão invasivo.
— Sim. Escola. — tentou soar convencido.
A polícia deixou o lugar, mas confirmou que ainda faria uma busca e que se voltasse a acontecer, poderiam chamá-los.
Não demorou para Diana chegar e se deparar com a casa ainda bagunçada. Após esclarecerem, ela ajudou a organizar a casa.
∞
A noite chegou e Alphonse estava em seu quarto. Fazer a limpeza da casa nunca foi divertido, mas não teve outra opção. Demoraram horas para colocar as coisas de volta no lugar: quadros, móveis, relógios de parede, objetos decorativos. Ele estava cansado. Mas não pela limpeza e sim pelo esforço que sua habilidade exigiu. No entanto, ele estava intrigado demais para conseguir se deitar e descansar. Ele sabia que passaria o restante da noite se perguntando se aquilo era real ou se tinha algo de errado com ele.
Alphonse olhava para o cartão de contato que recebera de Scott. Digitou em seu celular o número que estava impresso no cartão e esperou. Quando finalmente ouviu a voz do outro lado, falou:
— Algo inexplicável aconteceu...
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