Writing about you
14 Everything will change
Notas iniciais
De todas as coisas que acontecem com a gente, é engraçado como algumas no afetam de uma maneira muito maior do que outras. Às vezes coisas banais nos forçam a olhar para uma outra direção, uma direção da qual não estamos acostumados a enxergar, uma direção que nos mostra como as coisas ao redor de nós também não vão nada bem. Seguimos nossa vida normalmente e ficamos cegos para o mundo porque já temos muito em nossa mente. É chocante quando, mesmo que sem querer, desviamos o carro do caminho certo, entramos na rua errada, nos perdemos em meio a escuridão. É chocante porque nos força a olhar ao redor, enxergar ao redor, nos obriga a buscar novos caminhos. Raramente olhamos para o lado, porque olhar para o lado significa olhar para além de nós mesmos, e olhar para além de nós mesmos dói (Minha autoria)
...
O enterro tinha sido simples, embora Emma soubesse que tudo ali, desde as flores até as roupas das pessoas, era luxuoso e caro. Nada foi dito entre ela e Regina durante todo o tempo em que estiveram lá e a única vez em que a morena abriu a boca, foi para perguntar alguma coisa de cunho jurídico para o advogado da outra família de seu pai. Por mais que Regina não admitisse, Emma sabia que a morena estava abalda com aquilo tudo. Depois de ter ido dar os pêsames para a família que Emma percebeu que Regina já tinha voltado para o hotel. Decidindo que a morena precisava de algum tempo sozinha, Emma ficou caminhado pela cidade por quase uma hora antes de voltar. Assim que ela voltou para o quarto de hotel, a primeira coisa que encontrou foi uma Regina sentada em uma cadeira, com sua maquiagem borrada, seus olhos vermelhos e uma garrafa de vinha abandonada na cama.
E: Quantas taças de vinho você já bebeu? [perguntou com um sorriso fraco]
R: Uma ou duas [mentiu]
E: Uma ou duas taças ou uma ou duas garrafas?
R: Eu tenho escrito sobre você [comentou de repente]
E: O que?
R: Desde que nos conhecemos na verdade.
E: Ok, agora é sério, Regina. Quanto você bebeu? [perguntou preocupada]
R: Quando você soube? [perguntou ignorando completamente a pergunta anterior de Emma]
E: Soube o que?
R: Que você gostava de mulheres [respondeu como se fosse óbvio]
E: Ó, bom eu não sei exatamente, mas acho que no ensino médio, é, definitivamente no ensino médio.
R: Você pode me contar?
E: Por que?
R: Só para eu saber [deu de ombros]
E: Eu estava no segundo ano, fazia muito tempo que eu não beijava ninguém, anos na verdade. Eu tinha ficado com alguns meninos antes, poucos, mas eu nunca achei isso um problema, eu ainda não acho isso um problema. Todas as minhas amigas tinham algum namorado ou coisa parecida, mas eu não, nunca me importei com essas coisas. Ai no segundo ano duas turmas se juntaram e ai eu conheci essa garota. Ela era muito bonita sabe, e eu comecei a ficar preocupada com a quantidade de vezes que eu ficava pensando nela. Eu queria ser amiga dela e acabei me tornando amiga, muito amiga. Eu comecei a questionar minha sexualidade, pensei que eu poderia se bi, já que eu já tinha ficado com meninos. Depois de um tempo eu me apaixonei por ela e desde então minha atração por meninos, que já era quase inexistente, simplesmente não apareceu mais.
R: Ela foi a primeira garota que você beijou?
E: Não, ela tinha um namorado e nós nunca falamos sobre isso. Ela quebrou meu coração em milhões de pedacinhos minúsculos [sorriu de lado] acontece. A primeira garota que eu beijei foi na faculdade.
R: Ó, eu nunca…
E: Nunca?
R: Você foi a primeira mulher que eu beijei [confessou] Eu não quis, você sabe, na faculdade, talvez eu não seja moderna [deu de ombros]
E: Ou talvez você seja apenas hétero.
R: Mas eu beijei você.
E: E? Isso não faz de você menos hétero.
R: Eu quis beijar você… eu… eu.
E: Você?
R: Eu ainda quero.
E: Olha [respirou fundo] você não pode sair por ai falando essas coisas, ok?
R: Falando o que?
E: Que você quer me beijar, isso não é certo, porque nós sabemos que eu seria a única…
R: A única?
E: A única a ficar machucada com isso. Você tem uma vida, Regina e eu não estou nela, não desse jeito. Eu não sou uma experiência de faculdade.
R: Você não é uma experiencia.
E: Então o que eu sou?
R: Eu não sei [respondeu frustrada] eu nem sei mais o que eu estou fazendo com a minha vida.
E: Você precisa descansar, foi um dia agitado.
R: Eu não estou cansada [mentiu] eu só estou sobrecarregada.
E: É normal, você está triste…
R: Eu estou [interrompeu] mas não por cousa de hoje, claro que isso ajudou muito no meu estado de espirito, mas… Não é isso, você entende? Acho que Henry estava certo esse tempo todo.
E: Sobre o que?
R: Sobre eu não me sentir feliz, eu me acostumei tanto com isso que nuca tinha reparado, mas eu posso enxergar agora.
E: Enxergar o que?
R: Que eu estou triste há muito tempo.
E: Você está apenas confusa….
R: Eu fiz algumas pesquisas, você sabe, na internet.
E: Pesquisas sobre o que? [perguntou quase gaguejando, implorando para não ser o tipo de pesquisa que ela estava pensando]
R: Sobre mulheres [deu de ombros] mulheres como você.
E: Mulheres como… como eu? Jor… jornalistas? [perguntou com os olhos fechados]
R: Eu não me senti atraída por elas, que dizer, a maioria delas era muito bonita, com corpos perfeitos, mas eu não sei, eu só não…
E: Você está me dizendo que estava assistindo pornô? [perguntou com os olhos arregalados] Por favor, me diga que não é disso que você está falando.
R: A maioria era feito para homens e isso ficou bem claro [continuou como se nem tivesse escutado o que Emma tinha dito] Mas eu não sei, eu não me senti atraída por elas…
E: Isso é porque você é hétero e é totalmente normal você não sentir...
R: Eu me senti exitada, mas….
E: Ok, Regina, para [pediu desesperada] Nós não estamos falando sobre isso, apenas não, ok?. Regina? [chamou um pouco preocupada quando a morena não disse nada e apenas ficou a encarando] Regina? [chamou mais uma vez, quando a morena levantou meio tonta e começou a andar em sua direção, invadindo seu espaço pessoal] Regina, isso não tem graça [murmurou quando ficou presa entre uma parede e Regina]
R: Como você se sente? Quando está com outra mulher?
E: Regina, nós não vamos conversar sobre sexo agora, pensando bem [respirou fundo] nós não vamos conversar sobre isso nunca. Você está bêbada.
R: Eu não estou bêbada.
E: Você está confusa…
R: Como você se sente? [perguntou em um sussurro] quando outra mulher toca você?
E: Regina [advertiu trancando a respiração. A loira poderia facilmente se esquivar do corpo de Regina, que agora prendia o seu contra a parede do quarto abafado, mas suas pernas apenas não respondiam. Ela queria desesperadamente sair dali, mas não conseguia se mexer]
R: Me diga [sussurrou no ouvido da loira]
E: Eu não sei, é diferente, bom. Você sente as coisas de uma maneira absurdamente maior, como se seu corpo passasse a responder apenas pelo toque da outra pessoa.
R: O que mais?
E: Você se sente hipnotizada por aquela pessoa, pelos seus toques, sua respiração. Por tudo.
R: Você está sentindo alguma coisa agora? [perguntou dando um beijo casto um pouco abaixo da orelha de Emma]
E: Não [tentou mentir, mas seu “não” saiu quase como um gemido] O que…. [respirou fundo] O que você está fazendo?
R: Eu não sei [admitiu encarando os olhos da loira] Mas eu quero você, eu quero você me toque, eu quero sentir alguma coisa, eu quero [seu discurso foi interrompido quando Emma a beijou]
Diferente dos outros beijos que elas tinham tido, esse foi muito menos delicado e muito mais intenso. Era como se o beijo fosse a fagulha necessária para fazer todo resto do mundo explodir. Quando Emma inverteu as posições e pressionou Regina contra a parede, o celular da morena começou a tocar.
E: ignora [murmurou]
R: Eu não posso [respondeu entre o beijo] pode ser o meu filho ou…
E: Ou seu noivo [completou afastando-se um pouco de Regina]
R: Emma…
E: Está tudo bem, só… só atenda. É melhor assim [admitiu, recobrando consciência do que estava fazendo]
R: Emma… [sussurrou tentando colocar um das mão no rosto da loira]
E: Está tudo bem, ok? [respondeu se esquivando do contato da morena] Eu vou sentar um pouco lá no jardim. Você realmente deveria atender, ele é seu noivo, deve estar preocupado com você.
R: Eu sinto muito.
E: Eu também [respondeu saindo do quarto]
As pessoas dizem que você só tem que seguir em frente, mas o problema é que, às vezes, você não tem nenhum lugar para ir.
...
Emma saiu do quarto sem entender muito bem o que tinha acontecido, ela não estava com raiva de Regina e sim irritada consigo mesma. Ela deveria ter parado a morena enquanto tinha chance, Regina estava triste, bêbada e confusa e essa era a receita perfeita para fazer algo que se arrependeria depois. Sem saber muito o que pensar, Emma fez a única coisa que passou por sua cabeça, ela foi até o café que ficava no hotel, pegou duas xícaras de chá e sentou no jardim. Ela sabia que Regina viria atrás dela em algum momento e sabia que elas teriam que conversar eventualmente, embora ela estivesse torcendo para que Regina não quisesse conversar naquela noite. Demorou dez minutos para Regina sair do quarto, mas ela saiu, abriu a porta e viu Emma sentada encarando as estrelas. A loira sorriu de lado e ofereceu a caneca de chá quando a morena sentou ao seu lado. Nenhuma das duas falou nada por quase vinte minutos, elas apenas sentaram lá e para surpresa de ambas, o silencio era completamente confortável. E foi ali, sentada naquele jardim ao lado da mulher mais confusa que ela já conhecera, que Emma Swan entendeu, pela primeira vez, uma coisa que sua vó tinha dito quando a loira era pequena. Emma costumava observar seus avós sentados na varanda, eles apenas sentavam lá por longos minutos, nenhuma palavra era dita, apenas suas mãos ficavam conectadas e seus dedos entrelaçados. Emma sempre achou que isso era triste e que seus avós não gostavam mais de conversar um com o outro. Muito tempo depois, quando a loira já estava na faculdade, ela perguntou a sua vó porque ela ainda insistia em sentar na varanda com o marido se eles não conversavam sobre nada. Foi então que sua avó, uma senhora miúda chamada Mary, disse a ela: “quando eu conheci seu avô, nós costumávamos conversar por horas, até por dias se nos deixassem. Nós costumávamos conversar sobre tudo, mas principalmente, nós conversávamos porque não sabíamos o que fazer com o silencio. Nós estávamos apaixonados e é isso que os apaixonados fazem, eles falam, sobre tudo. Paixão é o frio na barriga constante, a necessidade de palavras, o suor nas mãos. E isso é bom, não estou falando que não é, mas é paixão entende? E ela passa. Agora amor, minha querida, amor é quando suas mãos não tremem mais, o frio na barriga diminui e a necessidade de estar sempre preenchendo o silencio também. Amor é quando a gente entende, melhor do que isso, amor é quando a gente sente o outro, o silencio do outro, a alma do outro. Seu coação não bate mais acelerado, porque ele bate no mesmo ritmo da pessoa que você ama. Então você consegue enxergar o tanto de coisa que o silêncio tem a dizer. Você pode se apaixonar por muitas pessoas, Emma, mas quando você amar alguém de verdade, você vai me entender. Amar é compreender o outro, sentir o outro, aceitar o outro e não há maneira melhor de fazer isso do que apenas estar ali, estar presente física e mentalmente. Amor é quando a gente fica em silencio, porque sabe que nenhuma palavra no mundo definiria melhor aquele momento. Paixão é quando a gente tem que provar para o outro que quer estar ali, amor é quando a gente simplesmente está.”
E: O que? [perguntou quando percebeu que Regina a observava curiosamente]
R: Nada demais.
E: Diga [disse baixinho, fazendo Regina encarar seus olhos verdes]
R: Eu estava pensando que que se fossemos uma metáfora [começou respirando fundo] eu seria a fonte de Nova Iorque.
E: E eu? [perguntou curiosa]
R: Você seria o oceano inteiro [concluiu como se isso fizesse o mair sentido do mundo e no fundo, fazia]
E: Nós vamos ter que conversar, não vamos?
R: Sim, mas não agora, não hoje [murmurou baixinho apoiando a cabeça no ombro de Emma]
...
Às vezes nós vamos embora com a esperança de que alguém nos peça para ficar, é difícil entender que isso raramente acontece. As pessoas vão embora porque estão machucadas e esquecem que as pessoas que ficaram, talvez, estejam extremamente machucadas também. Machucadas demais para irem atrás da gente. É triste, mas é uma lição que vale a pena aprender: Nem todo mundo que quer que você fique, vai tê pedir para ficar. (Minha autoria)
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