Wrapped Around Your Finger
9 Wrapped Around Your Finger
Notas iniciais
In the moonlight you looked just like an angel in disguise. My whole life seemed like a postcard. Thought I had you in the palm of my hand that night... You had me wrapped around your finger?
Eu estava nervosa, ofegante e com frio, morrendo de medo com o que poderia vir a acontecer nos próximos segundos. A apresentação do outro grupo havia sido boa, infelizmente, maravilhosamente boa e, apesar de ter chamado o grupo rival de "grupo fácil", eles não estavam nem perto de serem fáceis de vencer esse semestre.
Porra, nós havíamos vencido fácil deles ano passado e, porra de novo, eles eram terríveis! Como se tornaram tão bons e tão criativos em menos de um ano? Porque, sim, eu tinha meus contatos na outra escola e sim, eles haviam me garantido que eles não haviam treinado tanto assim.
Só que, eu queria vencer e, mesmo morrendo de frio e de ódio, vendo a minha imagem junto com a Silena no telão, dando o melhor e mais verdadeiro possível dos sorrisos falsos e concordando com a cabeça, sentindo imediatamente meu corpo começar a ser lançado para a Montanha Russa.
Dei a primeira volta, prendendo o ar dentro dos meus pulmões enquanto sentia meu corpo dobrado, para depois senti-lo ser lançado mais uma vez enquanto meu corpo cortava o ar gelado, até cair nos braços dos três garotos. Assoprei a minha franja e sorri, ouvindo a música acabar e a plateia aplaudir com fervor.
Assim que meus pés tocaram o chão, senti os braços de Silena me envolverem e me apertarem, primeiramente me dando apoio, pois eu estava um tanto tremula e, depois me deixando mais sem ar ainda. Ela ia falar alguma coisa, eu sabia que iria, se as luzes do campo não estivessem apagado por meio minuto e em seguida reacendido novamente, dando destaque para o telão que piscava.
E então o desastre começou junto com um: It's Courtney, bitch. Era um remix de diferentes vídeos, começando com vídeos meus enquanto Rat A Tat, do Fall Out Boy, tocava junto ao vídeo mudo e todos ao meu redor assistiam sem entender.
Me afastei de Silena e caminhei até o centro do campo, com o cenho franzido e ouvindo os trechos da música enquanto passava diferentes imagens minhas, todas com garotos, puxando alguns deles para dentro de salas ou para dentro do banheiro, para então começar a mostrar imagens do Percy com garotas, fazendo as mesmas coisas que eu fazia. Só que eu estava ocupada demais com meus olhos fixos nas imagens do rapaz fazendo coisas que ninguém nunca viu para me preocupar em procurar ele no banco.
Mais uma vez as imagens mudaram, para diversas vezes nos últimos anos em que eu dei em cima do Percy e ele me ignorava, mas eu não parecia me importar nas imagens, nos vídeos, porque eu realmente não me importava. Mas, vendo daquele ângulo, vendo a minha dignidade sendo exposta para diversos pais, alunos e rivais, era bem difícil fingir não se preocupar.
– Oi bonitinho– eu me lembrava de dizer aquilo diversas vezes, só não me lembrava de ver aquilo ser gravado. E as imagens mudaram de novo, passando para o campo, a uma semana atrás, quando eu sem querer havia caído em cima do Percy depois de uma finalização. — Você por acaso é cego e não viu que essa é a área de treino das líderes de torcida?
– Não sou cego e muito menos surdo, sua louca, você que não sabe fazer uma finalização sem se jogar em cima de um homem, vadia.– na imagem, ele me empurrava para trás com mais força que eu me lembrava de ser usada, para então sair andando e me fazendo ir atrás dele.
A velocidade das imagens aumentou até o momento em que ele entrou no vestiário e eu me virei, respirei fundo e caminhei na direção das arquibancadas rapidamente, com um sorriso largo e parando de frente para Thalia. Então a imagem voltou a rodar novamente na velocidade normal e a música diminuiu novamente, ficando como som de fundo.
– Ele nunca vai ser seu.– Thalia havia dito no vídeo, e só agora eu era capaz de ver a cara de psicopata que ela tinha, me olhando com malícia e os seus olhos brilhavam com a minha "desgraça". Talvez para acelerar o tempo e terminar o vídeo junto com a música, as imagens foram apressadas de novo. — ...Tudo o que ele sempre fez e, eu acho que sempre vai fazer, é te ignorar.
– Aposto mil dólares que consigo.
– Aposto mil dólares que não consegue.
– Thalia Grace, eu aposto mil dólares que, em sete dias, eu tenho o sr. Jackson totalmente envolto nos meus dedos.
A coisa que eu menos esperava acontecer, depois de ver tudo aquilo, era ver as imagens das páginas do meu álbum — sim, eu tinha um álbum com foto e data de todos os garotos com quem eu já fiquei. — começarem a rodar rapidamente, mostrando alguns números e rostos, até parar em uma imagem dentro do banheiro masculino, onde tinha apenas alguns garotos e todos eles estavam sem camisa, incluindo Percy.
Jason começou a falar com ele e o mesmo apenas ignorava, até ele dizer algo que realmente deixou o moreno com o orgulho ferido, pois Percy sorriu de maneira sarcástica e arqueou a sobrancelha, com aquela expressão que você para alguém quando ela dúvida da sua capacidade. E então a música diminuiu novamente e foi possível ouvir o silêncio que se fez até um dos dois falar alguma coisa.
E eu realmente preferia nunca ter ouvido.
– Está falando sério? Eu não vejo nada de gostoso nela... Para mim, ela é até bem comum sabe, nada de extraordinário. - Percy disse olhando para a camiseta nas suas mãos. — O que vocês vem de gostoso nela?
– Os seios dela são tão... Nossa, imagina uma espanhola naquilo?– ele gargalhou em seguida, revirando os olhos com prazer, talvez.– E quando ela rebola? Céus, a maior vantagem de estar no time é ver a bunda da Annabeth Chase durante os treinos.
– Ela é estúpida... E fútil.– Percy revirou os olhos, sem tirar o sorriso dos lábios.
– Claro, acho que tudo isso que ela faz com você, de tentar chamar a sua atenção e tal, é apenas para manter a pose. – Jason provocou se aproximando de Percy, com o mesmo olhar que a irmã dele tinha no vídeo anterior. — Provavelmente, ela nunca daria uma chance real para você.
– Será? Aposto que daria. – Percy disse vestindo a camiseta rapidamente e depois se afastando do Jason, bagunçando ainda mais seu cabelo. — Não estou brincando, aposto mil dólares que consigo transar com Annabeth Chase. Ela é fácil.
– Tudo bem, aposto mil dólares que você não consegue.
E então o vídeo entrou em fase final, enquanto eu sentia a neve envolver meu corpo e os meus olhos marejarem, só que não iria chorar. As imagens seguintes foram os dois lados diferentes das duas apostas, eu me dando como derrotada para Thalia, entregando o dinheiro para ela e, céus, como não percebi que ela estava gravando fundo aquilo?
O lado oposto me fez querer sumir, pois não era nada mais e nada menos do que um vídeo meu, transando com o Percy, sendo mostrado para a escola inteira e realmente acabando com o que restava da minha reputação naquela maldita escola.
Eu senti alguém tocar meus ombros e, quando virei e vi que ele estava ali, com uma expressão tão ridícula e tão falsamente desentendida, foi impossível não erguer a mão e lançá-la na direção do seu rosto, fazendo o som ecoar junto com o último verso da música, deixando a bochecha dele vermelha.
– Você tem noção do que acabou de fazer, seu estúpido? — gritei vendo o campo apagar e reacender novamente. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, só que eu não estava nem um pouco afim de ouvir a sua voz, então fiz a primeira coisa que veio na minha mente. Chutei aquele pau ridículo que ele havia colocado dentro de mim alguns dias atrás. — Eu quero que você morra.
– Você quer que eu morra? — ele gritou ainda de joelhos, com os lábios franzido e tentando esconder a dor. — Você passou de vadia para puta, Annabeth, eu quero que você morra.
– Eu não me importo de ter ficado com todo mundo dessa maldita escola, eu realmente não me importava, mas depois de ver aquilo... Garoto, você não tem mais o direito de me chamar de puta ou vadia, você é tão puto ou vagabundo quanto eu. — falei calma, me aproximando dele novamente. — Você é estúpido, é ridículo e é um canalha, acha mesmo que depois de expor isso, esse vídeo todo, vai conseguir enfiar esse pau dentro de outra garota?
– Por que acha que fui eu quem fez o vídeo?
– Porque eu estava na sua casa, no seu porão e eu realmente acreditei por alguns segundos que você era bom! Eu realmente acreditei que aquela maldita aposta era injusta com você e com os seus sentimentos! Eu inventei uma derrota para poupar você da dor, mas, olha só, eu deveria ter deixado você sofrer, eu deveria ter seguido em frente e hoje, eu deveria ter quebrado o seu coração na frente dessa escola inteira. — gritei, jogando meus braços para o alto e vendo ele se levantar com dificuldade.
– Eu nunca estive envolvido nos seus dedos, Annabeth, desde aquela noite, quando eu vi você chorando no balanço, meu foco era a aposta, não você e, olha só, eu venci. — ele disse se aproximando de mim novamente e segurando os meus braços com força, mantendo meu corpo próximo ao seu. — Mas não fui quem fiz isso! Caso não tenha visto, já que o seu ego é grande demais, eu também to sendo exposto! Meu corpo também está lá, sou eu quem está transando com você!
– E faz alguma diferença? Eu sei que não faz, me solta ou eu te chuto novamente.
– Soltem-se, os dois, na minha sala, agora. — foi tudo o que Sally disse, seria, com os braços cruzados e com o olhar severo.
...
Olhei com ódio para o Percy, vendo ele arquear a sobrancelha e sorrir para mim, com gelo nas mãos, precionando ele sobre o seu membro e sobre as suas bolas, que eu não fazia questão nenhuma de saber se estava bem ou não, se tinha condições de voltar a fazer o que antes se fazia.
Thalia e Jason também estavam ali, com os braços cruzados e as caras fechadas, olhando para a diretora, que devolvia o olhar, para todos nós, com decepção e sem nenhum pudor. Nem mesmo o próprio filho escapava desse olhar mortífero.
– Vocês sabem as regras, claramente... Mas, quatro adolescentes, no último ano, são realmente capazes de fazer uma coisa dessa? Apostar para brincar com o coração ou apenas por sexo? — Sally disse olhando para mim e em seguida para o Percy, para então olhar para os gêmeos. — Gravar seus amigos em momentos assim e divulgar para um escola inteira? Vocês tem sete ou dezessete anos?
– Nada disso teria acontecido se o Perseu usasse a educação dele comigo e, bem, é a minha imagem sendo exposta daquele vídeo. — resmunguei de queixo erguido, olhando apenas para a Sally.
– Sua imagem? Eu também estou no vídeo, Annabeth. — Percy resmungou, olhando para mim e me fazendo revirar os olhos. — Eu queria vencer a aposta e o Jason queria uma prova, nunca imaginei que ele iria fazer isso.
– E eu não imaginava que essa vagabunda fosse jogar tão baixo comigo! Eu me abri com você, seu imbecil, disse para você coisas que eu nunca havia dito nem para mim mesma! E o que você fez? Gravou um vídeo transando comigo, depois de me iludir com jantar romântico a luz de velas e algumas palavras bonitinhas. É, eu sempre soube que você não era muito diferente do Luke e eu sempre soube que você, Thalia, não era minha amiga, eu vi você pular da janela do Luke no dia seguinte e eu senti você me transformar nessa vagabunda que eu sou.
– Você mesma está se chamando de vagabunda, é um titulo merecido e, sim, eu gravei e montei o vídeo com o Jason, sim, eu não sou sua amiga, Annabeth, ser sua amiga é ser amiga da onça e sim, eu pulei da janela do Luke, mas vezes do que você é capaz de imaginar ou sonhar. — ela disse entre dentes, aproximando seu rosto do meu e, por instinto, me fazendo dar um tapa na sua cara. — Bate, pode bater mais, só que você já está no fundo do poço, Annabeth e, depois de ver o que viu, o olheiro de Yale nunca vai querer uma vadia como você na universidade dele.
– Lógico, era para o olheiro. — revirei meus olhos, me virando para frente de novo e vendo Sally com a sobrancelha arqueada. — Vai demorar? Respirar o mesmo ar que os três está me dando claustrofobia.
– Você e o Percy estão suspensos dos próximos jogos e...
– O que?! — nós dois gritamos juntos, mas ele deixou o gelo cair e inclinou seu tronco para frente, continuando: — E Stanford? Se eu não me destacar, eu não vou para Stanford.
– Não pensou em Stanford quando essa bagunça começou. — Sally disse sem muita emoção, continuando. — Os dois estão suspensos dos próximos jogos e estão de detenção nos próximos dias, a partir de agora. Irão passar a noite na escola limpando a bagunça do jogo... Enquanto vocês dois, a polícia está a caminho e provavelmente irão ser julgados por exposição de imagem, tendo que devolver o dinheiro dos dois e, provavelmente, tendo que fazer trabalho voluntário também.
– Sem detenção?
– Já lidei com exposição de imagem antes, sr. Grace, posso garantir que seu castigo será bem duro no trabalho voluntário. Não é nada parecido com os filmes que você assiste. — Sally disse fazendo o garoto resmungar. — Percy e Annabeth já podem começar a ir atrás das coisas que vão precisar, será uma longa noite nessa escola e, vocês dois. — ela disse se dirigindo para os gêmeos. — Irão esperar seus pais e a polícia. O diretor de imagem do colégio irá testemunhar, mas ele garantiu que foi você, Thalia, quem entregou o dinheiro e o pendrive para que ele fizesse isso.
– Ele é um babaca. — ela resmungou olhando para as unhas. Sally liberou o Percy e eu, só que, quando estava prestes a sair, ela voltou a soltar o seu veneno. — Uh, devo dizer para o Luke te procurar amanhã? Eles disse que está com saudades de você.
– Vai se foder, Thalia. — resmunguei virando para frente e passando reto pelo Percy, indo na direção do campo novamente.
O jogo havia continuado enquanto estávamos confinados na sala da diretora, e, depois de quase uma hora trancafiados lá, nós finalmente havíamos sido liberados e consequentemente perdido o segundo tempo do jogo. Mas eu não me importava com isso no momento, quem havia perdido de verdade era o Percy, não eu, eu fiz a minha apresentação maravilhosamente bem.
Não tinha mais ninguém ali, o campo estava aceso, todavia, vazio, branco e um tanto quanto sombrio. O painel havia sido retirado e as arquibancadas estavam vazias, sujas e eu ainda me lembrava da expressão de cada um que havia se sentado ali para assistir futebol e, de brinde, ganharam uma dose extra de pornografia.
Eu estava me sentindo tão suja a ponto de não querer mas ficar com o meu próprio corpo.
...
Respirei fundo, tirando mais um floco de neve da minha bochecha e finalmente colocando o saco com o lixo das arquibancadas no lixo. Minha respiração estava pesada e curta e, meus dedos estavam congelando mesmo sob as luvas que eram para esquentá-los. Eu queria a minha cama, chá e um cobertor quentinho, me afundar la e apagar a data de hoje do calendário, mas isso não iria acontecer, eu iria virar a noite trancafiada dentro da escola por causa da aposta.
O pior de tudo: eu estava trancafiada junto com a Percy Jackson.
Caminhei até o prédio da biblioteca, esfregando uma mão na outra com a tentativa falha de esquentá-las, enquanto sentia o vento jogar meus fios de cabelo para trás e ao mesmo tempo me arrepiar até a alma. Sim, cama, cobertor e chá são uma ótima combinação em uma noite como essa, vídeos, Percy Jackson e acampar na escola, não.
Os corredores estavam mórbidos e mal iluminados, dando a escola aquela visão de filme de terror. A única luz realmente acesa, era no final do corredor, onde as portas da biblioteca estavam abertas e iluminavam parte do corredor, enquanto o som do meu coturno ecoava pelo mesmo, meu corpo tremia por causa do frio e aquele vapor branco saia dos meus lábios.
– Eu vou ficar com o sofá. — anunciei puxando um dos cobertores que a Sally havia trago para nós dois, literalmente, havia uma pilha deles com alguns travesseiros. Seria uma longa noite.
– Seus lábios estão roxos.
– Sério? Não diga! Eu imaginei que eles estivessem rosados e maravilhosos com a temperatura muito boa que está fazendo essa noite. — disse irritada, passando reto por ele e indo me sentar no sofá desconfortável que tinha na biblioteca. Ele me encarou incrédulo, enquanto o máximo que eu fiz foi me envolver no cobertor e me encolher o máximo possível.
– Acho melhor nós dormimos juntos, porque...
– Nem termina o que você começou, acho melhor eu aqui e você bem ai, estou bem, obrigada.
– Vai pegar hipotermia.
– O problema é de quem? Ah, é meu. — sorri sem humor para ele, abraçando meus joelhos e apoiando meu queixo ali. Ele se aproximou de mim e se sentou ao meu lado, apoiando os cotovelos nos joelhos e virando o rosto na minha direção, totalmente confortável com o clima tempestuoso. — Mandei você ficar lá.
– Eu sei, mas agora você vai me escutar. — ele disse sereno, com o olhar pidão. Eu fui obrigada a olhar para o outro lado, na janela, vendo a neve se acumular ao seu redor e embaçar o vidro.
– Eu não sou obrigada a te escutar, você destruiu a minha vida, agora, se eu não passar na companhia de dança, nem Yale eu tenho de reserva. — respondi sem dar tanta importância para ele. — Eu sei que muito daquele vídeo destruiria minha reputação por si só, mas, o sexo, toda aquela coisa fofa que você fez para me animar, todas as coisas que eu te contei... A última coisa que eu quero é ter que te escutar agora, Percy.
– Annie, eu sei que eu errei com você entregando o vídeo para o Jason, só que eu nunca iria imaginar que ele pudesse fazer tal coisa, fui tão vítima quanto você nessa história, é a minha vida naquele vídeo também, tudo bem, não tinha um olheiro de Stanford aqui, mas, de qualquer forma, no final, tudo conta. — ele disse calmamente, enquanto eu ainda fingia que a neve caindo na janela era mais interessante que ouvir tudo aquilo. Mas na realidade, eu apenas não queria me deixa levar, porque, de alguma forma, eu havia me deixado levar por ele.
– Erá só isso que você queria falar? — questionei olhando para ele de soslaio, não me importando qual expressão ele tinha. — Ótimo, pode voltar para o seu lado da biblioteca.
Mordi meu lábio inferior, passando ele no superior logo em seguida e olhando de estante em estante, vendo as lombadas dos livros de diferentes temas e tentando, ao máximo possível, ignorar a presença dele ao meu lado. Eu ainda estava com frio, toda arrepiada e morrendo de medo de dormir nessa escola com esse temporal, além do mais, eu ainda tinha a apresentação amanhã e isso apenas me deixava ainda mais apavorada.
Nenhum de nós dois disse mais alguma coisa, depois de sei lá quanto tempo em silêncio, ele finalmente se levantou e saiu do meu lado, indo para o lado de fora da biblioteca e me deixando ali sozinha, com a neve e com a massa de frio que não parecia me deixar nunca.
Puxei um dos travesseiros e o joguei no sofá, deitando a minha cabeça ali em seguida e puxando o cobertor até o meu queixo, enquanto encarava o teto e repassava na minha mente os passos da apresentação de amanhã, tentando não voltar para o acontecimento dessa noite e guardando a imensa vontade de chorar dentro de mim.
Não, Perseu Jackson não iria me ver chorar mais uma vez. Não, eu não queria piedade dele. Não, eu não queria mais saber da vida dele.
A partir de amanhã, ele se tornaria um fantasma na minha vida, da mesma forma que Luke havia se tornado. Eu sabia que ele existia, eu sabia que ele havia me causado algo, mas também sabia que não teria importância dele estar ao meu lado ou em Marte, não iria fazer diferença, eu não iria me importar mais. Eu já havia me importado demais em ter títulos na escola, em ganhar coroas de plástico em bailes e de me pagar de vadia para todo mundo, eu não iria deixar ninguém brincar com a minha mente e com o meu coração mais uma vez, pela segunda vez.
– Quer chá?
– Vindo de você? Não. — resmunguei me virando para o outro lado e encarando o encosto do sofá, quase me escondendo sob o cobertor que, depois de séculos, começava a me aquecer.
– Deixa de infantilidade pelo menos uma vez? Eu já admiti meu erro e eu já pedi desculpas, mas, se vamos passar a noite trancafiados dentro desse prédio, podemos pelo menos socializar? Fica difícil tentar puxar assunto e ter como resposta uma ironia ou um sarcasmo, ou até mesmo ser ignorado por uma garota fútil que, querendo ou não, também é culpa sua nós dois estarmos aqui. — ele falou sem aquela calmaria de antes, fazendo o meu termômetro de paciência estourar e, quando eu dei por mim, eu já estava a um passo dele com o dedo no seu peito.
– Quem você pensa que é para falar sobre ironia, sarcasmo ou até mesmo sobre como é ruim ser ignorado? Quem você pensa que é para jogar a culpa dessa porcaria toda sobre os meus ombros? — falei elevando minha voz nas oitavas, vendo ele dar passos para trás e seguindo ele, ainda com o dedo apontado na sua direção. — Entenda uma coisa: A culpa dessa porcaria toda é sua! De ninguém mais do que sua, nos fomos vizinhos por quase quatro anos e quando você se mudou para essa porcaria de cidade, eu não era o que eu sou hoje e, desde que você se mudou para essa porcaria de cidade a única forma na qual você me tratou foi com ignorância, ironia e sarcasmo! Não venha tentar reclamar da forma que eu estou te tratando agora porque eu simplesmente estou cansada de fazer parte desse jogo no qual eu me meti. Eu errei apostando com a Thalia? Errei. Você errou apostando com o Jason? Errou. Mas nenhuma das apostas teriam acontecido se você tivesse usado o pouco de educação que eu sei que a sua mãe te dá comigo! Eu também sou humana, eu também erro, mas detalhe, eu não gravei um vídeo transando com você e dei para a minha melhor amiga eu, outro detalhe, esse vídeo não rodou para a escola inteira durante um jogo. Você é tão errado quanto eu e, se formos medir nossos erros e começar a pagar pelos nossos pecados, uma noite em uma biblioteca é muito pouco e eu realmente não quero mais pensar em você. Para mim, você não passa de um estranho, continuo não sabendo nada sobre você, prefiro acreditar que o que eu sei é mentira e vou fazer o máximo possível para te reduzir a ninguém na minha lista de pessoas importantes.
– Claro, até porque você tem um álbum.
– Sim, eu tenho um álbum e você não tem mais nada haver com a minha vida, afinal, você ganhou, eu perdi e você ainda acaba como o gostoso da história, enquanto vai sobrar para mim o posto de coitadinha e de vadia. — me afastei dele de novo, indo na direção do sofá e me enfiando sob o cobertor mais uma vez, olhando para ele e deixando transparecer toda a minha raiva no olhar.
Ele se jogou na poltrona, segurando a xícara com uma das mãos e arqueando a sobrancelha na minha direção, me provocando. Só que, eu estava acostumada com esse tipo de provocação e mal sabia ele que isso havia parado de funcionar, que tudo, até o mínimo de respeito que eu tinha por ele, havia acabado junto com a minha apresentação.
Puxei o cobertor até meu queixo mais uma vez e sustentei o olhar dele, não dando ao moreno de olhos verdes a vantagem de me derrotar. Nós dois ficamos assim por algum tempo, até que o mesmo cansou e desistiu, me fazendo esticar os lábios em um sorriso vitorioso e, ao mesmo tempo, cínico. Ele abriu a boca diversas vezes para me dizer algo, até que desistiu e foi procurar um livro para ler no meio das prateleiras.
Eu provavelmente acabei caindo no sono enquanto ele lia, porque eu realmente estava cansada, com frio e segurando as lágrimas dentro de mim. Eu odiava ele, odiava o fato dele ter me enganado tão bem na última semana e odiava o fato do meu corpo ter sido exposto graças a ele, mas eu tinha que admitir: eu também me odiava por ter me tornado isso, essa pessoa egocêntrica, fútil e metida, que pensa mais em si mesma do que nos outros, que gosta de ver os outros sofrerem.
Era essa pessoa que se sentia muito bem com o sofrimento alheio, se sentia para cima quando os outros estavam para baixo e que detestava, mais do que tudo, ser manipulada por pessoas. Eu havia, por muitos anos, sido manipulada pela minha mãe e pela Thalia, mesmo tendo consciência de que ambas me manipulavam, mas era como se eu estivesse presa dentro de uma jaula, com as minhas asas amarradas.
Eu era essa pessoa que agora estava livre e com as asas soltas, que finalmente podia voar.
E eu era essa pessoa que ficou nas mãos de Percy Jackson, um anjo disfarçado a luz da lua.
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