Wrapped Around Your Finger
5 Weakness
Deixei meu corpo deslizar até que a minha bunda estivesse no chão, com os meus olhos fixos no céu acinzentado de Seattle, enquanto a minha mente estava uma completa bagunça, me causando dores de cabeça e me deixando putamente irritada.
Essa bagunça tinha nome e sobrenome, mas a maioria do tempo eu a chamava de "mãe". E essa mãe havia passado de todos os limites possíveis da ignorância nos meus dezessete anos de vida, tudo porque ela era orgulhosa demais para admitir que não era capaz de amar alguém, nem mesmo a mim ou ao meu pai.
Frederick havia voltado para casa, definitivamente e para sempre. Só que não imaginávamos que seria do jeito que foi, com Atena fazendo o escândalo que ela fez porque era orgulhosa. Eles brigaram o dia todo e eu não pude fazer nada para impedir, porque meu pai queria uma recepção calorosa de boas vindas e a minha mãe queria discutir com ele o meu futuro, no qual eu não estava nem um pouco interessada em saber qual era.
Meu pai me entendia, sabia que eu não queria ir para Yale, mas ele também sabia o que Atena era capaz de fazer caso eu não fosse para Yale e, assim como eu, ele odiava essa pose dela de rainha do mundo e definitiva das decisões. Mas, fazer o que? Foi o modo que meus avós educaram ela, para ser alguém poderosa e inabalável.
Para ser fria.
O sinal da segunda aula tocou, e eu sabia que eles iriam ligar para Atena avisando que eu não havia comparecido ao primeiro período, o que poderia me deixar suspensa da apresentação do próximo jogo, mas, hoje, eu realmente não me importava com isso. Era a primeira vez no semestre que eu estava burlando aula, não iria ser tão grave assim.
– Bem vinda ao mundo real, Annabeth — sussurrei para minha mesma, puxando a minha bolsa e abrindo todos os bolsos a procura de uma coisa que a tempos eu não usava, ou mexia.
Meus dedos primeiramente encontraram o isqueiro gelado, para depois eu conseguir finalmente capturar sem olhar o maço de cigarros no fundo da minha bolsa. Até hoje eu me lembrava da primeira vez que havia fumado, a pouco mais de um anos atrás, quando eu havia tido a pior discussão de toda a minha vida com a minha mãe, sempre apertando a mesma tecla: Yale.
Coloquei o cigarro entre os meus lábios e acendi ele, tragando profundamente e, ao mesmo tempo, encostando a minha cabeça na parede de um dos prédios da escola, enquanto sentia a nicotina, aos poucos, fazer efeito no meu organismo e levar a tensão do meu corpo.
...
Bati a porta do armário da Rachel com força, causando um forte estrondo no corredor vazio e vendo a ruiva se assustar com o ato, me encarando logo em seguida, com o medo no olhar.
Sorri de maneira maligna, arqueando a minha sobrancelha e vendo a garota a minha frente se encolher de medo, dando pequenos passos para trás, na tentativa de se afastar de mim. Encostei minhas costas no armário, bebericando o meu café na tentativa de tirar o cheiro da nicotina do meu alito.
– Fez o que eu pedi?
– Sim, não quero tomar outro banho de café essa semana — ela murmurou abrindo a mochila e tirando dali um trabalho escolar. Receosa, ela se aproximou de mim e me entregou o trabalho com várias folhas, se afastando assim que peguei ele. — E foi fácil fazê-lo, talvez você devesse se empenhar um pouco mais nos seus estudos, a escola inteira sabe que quer passar em Yale.
– Que? Garota, a escola inteira sabe que quero passar em Yale e a escola inteira não está nem ai para a sua opinião... Na realidade eles tem é dó de você, coitadinha da Rachel, gente, ela tem medo até da própria sombra! — falei me aproximando dela, com uma carranca brava. — Se você contar para alguém sobre o trabalho, ou sobre os deveres, você já sabe o que seus queridos papais vai descobrir, não é?
Ela balançou a cabeça rapidamente, fazendo seu rabo de cavalo balançar junto enquanto ela arregalava os olhos verdes. Isso era o bom de saber alguns segredos das pessoas, principalmente os mais tenebrosos, você pode passar a usá-los contra ela para conseguir coisas.
– Ótimo — me virei de costas para ela, segurando o café em uma mão e o trabalho em outra, indo na direção do refeitório fingir que nada disso havia acabado de acontecer, como fazia quase todos os dias. Mas ela me parou antes que eu pudesse virar o corredor.
– O Percy é uma pessoa legal, Annabeth, tente não magoá-lo, ele não merece.
Revirei meus olhos, ignorando aquilo que ela havia falado e continuando a caminhar de maneira firme e rápida. Não havia burlando o primeiro período inteiro, apenas as duas primeiras aulas e havia passado e resto da manhã bebendo o café ruim da cantina da escola, agora, pelo menos, eu poderia comer alguma coisa e acabar de vez com isso.
Eu tinha cafeína demais no meu organismo para apenas um dia, mas valia a pena esconder o cheiro dos três cigarros que havia fumado, até porque o meu corpo e a minha mente estavam bem mais leves.
Me joguei ao lado de Thalia, vendo a garota se acabar com um pedaço de pizza enquanto eu enfiava o meu trabalho dentro da minha bolsa, depois de checar página por página para ver se a Rachel não havia feito uma brincadeira sem graça que, algumas vezes, ela fazia.
Puxei minha bandeja com massas e uma lata de Diet Coke, olhando de maneira fixa para a mesa do outro lado do refeitório, onde os meninos do time estavam comendo com algumas líderes de torcida, menos ele.
– Ele está na biblioteca terminando o trabalho de literatura — Thalia respondeu olhando na mesma direção que eu. — Pelo menos ele se esforça para fazê-lo.
– Cala a boca — resmunguei mexendo na minha macarronada, para então enrolar o macarrão no garfo e levá-lo até os meus lábios. Céus, a comida era horrível.
– Você só tem quatro dias, docinho, e eu sei que ele ainda não está no seu papo, então, me diga, o que pensa em fazer? — ela arqueou a sobrancelha, me desafiando e realmente trazendo a minha raiva de novo.
– Me diga você. — me virei para ela, fazendo a mesma se afastar rapidamente por causa do susto. — O que Annabeth Chase não consegue? Fica tranquila e prepara o seu bolso, eu vou ganhar.
– Em quatro dias?
– Eu já consegui a atenção dele em três, não consegui? Então senta e espera com o dinheiro na mão. — respondi pegando a Diet Coke e as minhas coisas, para então sair andando pelo refeitório na direção das portas duplas.
Eu iria conseguir os mil dólares.
Os próximos períodos passaram como um borrão para mim, porque eu realmente não me lembro de como consegui suportar as aulas de álgebra, ou a de literatura e até mesmo a de inglês. Nem sequer me lembro de ter entregado o meu trabalho de literatura, apenas acordei desse borrão quando quase caí, novamente, da pirâmide no treino.
Eu pensei em gritar, mas simplesmente fiz melhor que isso, respirei fundo e me virei para o grupo de adolescentes que estavam ali, todos perdidos com a coreografia. Inclusive eu estava, não era como Hellcats ou As Apimentadas, não iria acontecer um milagre no final.
– Quer saber? Eu desisto, vamos voltar a ensaiar a antiga coreografia... E deixar essa para o jogo final, esse é só o primeiro da temporada, só precisamos ser melhores que a outra equipe — respondi olhando para eles, vendo alguns resmungarem e outros soltaram alguns palavrões. — Fala sério, se eu cair na sexta feira a coisa realmente vai ficar feia para nós.
– Então está fazendo esse teatrinho todo para falar que não pode cair? Seja menos egoísta, Annabeth.
– Eu estou sendo egoísta? Pelo contrário, estou dando a chance da gente se dar bem, Silena! — gritei, realmente explodindo. — A gente treinou a outra coreografia o inverno todo, com as nossas pernas quase congelando e quase ficando todos gripados, ai um dia eu chego aqui e como sou a capitã eu mudo a coreografia e dou um dane-se para vocês, obrigando vocês a aprenderem... Não entendem, eu estou mudando de novo para fazer valer a pena todas as vezes que quase congelamos nesse campo, para fazer valer a pena todas as vezes que ficamos doentes.
As lágrimas caiam e deslizavam pelas minhas bochechas, enquanto eu olhava todos da equipe, vendo Silena a frente de todos, e apenas uma reação na face de todos: surpresa.
Acho que era isso que eu precisava desde o início. Não era fumar um maço inteiro de cigarros, ou gritar com a Rachel e muito menos ignorar a Thalia, eu precisava chorar.
E eu odiava chorar.
– Eu poderia desistir de tudo agora mesmo, mas eu também tenho sonhos, eu também estou no último ano de ensino médio, eu também preciso passar em uma faculdade! — gritei atraindo a atenção de todos eles, até mesmo dos garotos que estavam correndo pelo campo. — Então nós vamos voltar a antiga coreografia e vamos arrasar, deixando a volta ao Mundo para uma apresentação realmente importante.
Respirei fundo, limpando o meu rosto com as costas da mão e vendo Silena parada de braços cruzados, indiferente a tudo aquilo que eu havia acabado de dizer. Eu queria ser capaz de ligar o foda-se e deixar aquilo quieto, mas, infelizmente, não era do meu feito deixar qualquer coisa passar.
– O que foi?
– Você deveria ir para Hollywood, seria uma ótima atriz... Principalmente se tentar o tema da pornografia. — ela puxou um sorriso maldoso, se aproximando de mim. — Afinal, você já brincou com todos os corações dessa escola, não é?
– É isso que te incomoda? É isso que faz você tentar ser melhor do que eu? Nossa, Silena, parabéns, o seu nível de inveja está quase explodindo o termômetro — falei dando de ombros para ela, indo pegar as minhas coisas. — Vocês estão liberados, amanhã voltamos a coreografia do inverno.
– Ei, Percy, só quero avisar que já vi a Annabeth destruir muitos corações, ela realmente não tem dó... Se eu fosse você caia fora antes que seja tarde demais e você acabe juntando os cacos do que restar do seu coração. — Silena soltou seu veneno para cima do garoto, enquanto eu sentia as lágrimas voltarem a cair nas minhas bochechas, a caminho do vestiário feminino.
– Ainda bem que somos pessoas completamente diferentes, Silena, não preciso me aproveitar de um momento vulnerável para me sentir maior do que a outra pessoa. — foi a última coisa que eu ouviu antes de me fechar dentro do vestiário e ir direto para a ducha.
...
Vem aqui em casa agora.
– Percy
Era apenas isso que a mensagem do Percy dizia, me despertando do mar profundo de decepções e mágoas que eu havia me enfiado desde o momento que havia chegado em casa. Frederick estava no escritório organizando as suas coisas e Atena ainda não havia chegado do trabalho — o que eu achei uma benção e subi direto para o meu quarto.
Levantei da minha cama e coloquei Cookie na gaiola dela, fechando a portinha e indo na direção do meu armário, basicamente arrastando meus pés na direção do mesmo. Abri ele e puxei uma calça jeans escura, trocando a de moletom que eu usava por ela e, em seguida, troquei a blusa do pijama que eu usava por uma camiseta cinza escrita Broken Heart, para então colocar meu par de all star e prender meu cabelo em um coque frouxo.
Desci as escadas pulando alguns degraus, com meu celular no meu bolso e um casaco nas mãos, afinal, havia voltado a nevar.
Passei reto pela sala e fui na direção da cozinha, decidida a sair pela porta dos fundos, que me dava um melhor acesso a frente da casa do moreno, mas me arrependi no mesmo momento e dei meia volta, vestindo o casaco e tentando não chamar a atenção dos dois. O que pareceu impossível.
– Aonde pensa que vai? — Atena questionou com seu tom rude, o mesmo tom rude de sempre. — Está quase na hora do jantar.
– Eu vou sair, fim. — respondi me virando e encarando os dois. Atena estava ficando vermelha de raiva, enquanto Frederick me encarava com a sobrancelha arqueada. — Não quero sentar em uma mesa e brincar de família feliz... Afinal, essa está mais para a Família Addams.
– Annabeth! — meu pai me repreendeu, mas era visível que ele tentava esconder o riso. — Deixe-a ir, Atena, ela não deve voltar tarde.
– Não, ela não vai ir a lugar nenhum, irá ficar aqui, jantar e estudar para que consiga a bolsa em Yale — minha mãe respondeu enquanto eu repetia as suas palavras de maneira muda, para então revirar meus olhos. — Você não vai.
– Tarde demais, tchau pai, te amo — mandei um beijo para ele e me virei, caminhando rapidamente e capturando as minhas chaves na mesa da sala, para então sair pela porta da frente e sentir a neve caindo no meu rosto e nas minhas mãos.
Abracei meu próprio corpo e caminhei até a casa ao lado rapidamente, respirando fundo diversas vezes e, assim que toquei a campainha da casa ao lado, comecei a bater meus pés no chão, desejando que o imbecil abrisse logo a porta, o que não demorou para acontecer.
Analisei ele rapidamente, vendo que o mesmo usava uma calça de moletom preta caída nos quadris e uma blusa da mesma cor com as mangas longas demais, já que as mesmas cobriam suas mãos e dedos. Ele estava usando apenas uma meia branca e, por incrível que pareça, não usava o gorro na cabeça.
Ele me puxou para dentro da casa rapidamente e me abraçou, batendo a porta e fazendo um barulho horroroso ecoar pela mesma. Correspondi seu abraço rapidamente, envolvendo meus braços na sua cintura e escondendo meu rosto no seu pescoço, ficando naquela posição por algum tempo.
– Está melhor? — ele questionou baixinho, se afastando de mim e colocando ambas as mãos envolta do meu rosto. — Não parecia muito bem hoje no colégio.
– É... Papai volta e tudo vira de cabeça para baixo — revirei meus olhos, me deleitando com o seu toque. — Mas não me tirou do meu quarto para me perguntar se estou bem, não é?
– Não, mas antes. — ele disse aproximando nossos lábios e selando eles, para então pedir passagem e um beijo de verdade começar. Um beijo que não durou muito, mas durou o suficiente para que eu esquecesse meus problemas nos limites da minha casa. — Agora vamos ao que interessa.
Ele segurou minha mão e me entrelaçou nossos dedos, me puxando para um lado da sala, na direção de uma porta sob a escada. Tirando o som dos nossos passos indo na direção do porão escuro, nada mais se ouvia na casa inteira, era um silêncio confortável, totalmente diferente do silêncio que eu estava acostumada a presenciar.
– Para ai — ele me pediu no último degrau, eu acho, da escada. Não conseguia enxergar nada, então fiz o que ele pediu e fiquei parada no meu lugar, tentando entender o que ele estava tentando fazer, até que o primeiro sinal de claridade apareceu, sendo seguido por vários outros.
Demorei um pouco para perceber algumas velas espalhadas pelo porão, iluminando o lugar incrivelmente bem arrumado e, ao mesmo tempo, deixando o lugar um tanto quanto... Romântico.
Tinha alguns armários brancos espalhados pelo porão, todos fechados e com uma vela redonda sobre eles, além de ter uma cama convidativa com um edredom aparentemente fofo e azul jogado desajeitosamente por cima dali. Tinha alguns posters na parede e também uma caixa de som em um canto da mesma, além de ter também uma televisão na parede e um aparelho de vídeo game.
Mas, o que realmente me chamou a atenção, foi a mesa arrumada para duas pessoas, com duas velas longas e com um jantar preparado, todavia coberto.
– O que é tudo isso? — perguntei sorrindo e ao mesmo tempo impressionada, descendo os últimos degraus e olhando mais uma vez para todo o lugar, abismada.
– Você não teve um bom dia, mas, se permitir, eu posso deixar a sua noite um pouco agradável. — ele disse se aproximando de mim novamente. — O que achou?
– Incrível! Na realidade, Perseu, você é incrível — me joguei em cima dele, envolvendo meus braços no seu pescoço e tomando seus lábios para os meus. O beijo foi diferente do anterior, mais intenso e com segundas intenções realmente visíveis, só que ele não iria deixar aquilo para aquele momento. — O que mais preparou para me surpreender?
– Não acho que você irá gostar muito, mas... O que você vai comer, é segredo, vai estar vendada. — ele disse se afastando novamente e tirando a venda do bolso da calça.
– E se eu for alérgica a alguma coisa?
– Eu olhei a sua ficha na escola, não tem alergia a nada do que eu preparei para o nosso jantar — ele disse me puxando na direção da mesa e então puxando uma das cadeiras para que eu me sentasse. Assim fiz, de bom grado, ainda impressionada com tudo isso.
Percy era uma verdadeira caixinha de surpresas.
Ele arrumou os fios da minha franja e colocou a venda nos meus olhos, fazendo tudo ficar escuro mais uma vez. Eu ouvi alguns barulhos e tentava entender o que ele estava tentando fazer, até que uma música suave começou a tocar e pouco depois eu senti sua mão na minha coxa, me assustando e tirando uma gargalhada dele.
– Calma, ninguém vai te matar — ele disse acariciando a minha coxa e em seguida tirando a mão dali, infelizmente. Houve alguns outros barulhos, até que finalmente ele me pediu para que abrisse a boca.
Ele colocou alguma coisa na minha boca que, no início, eu não soube o que era, mas que realmente era bom, era. Sentia o gosto de alguns legumes e de arroz, suave e com a quantidade certa de tempero. Era realmente muito bom e cremoso.
– O que é isso? — questionei com os dedos na frente da boca, querendo olhar para ele e ver a sua expressão. — É muito bom.
– Eu sabia que você iria gostar — ele disse e eu pude sentir que ele sorria, me fazendo sorrir com a imagem que surgiu na minha mente. — Nem pense em tirar essa venda, Annabeth Chase.
– Por que? Eu já provei, já aprovei e quero muito te olhar.
– Eu sei que sou lindo, mas só vai me olhar na hora da nossa dança, no final.
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