Wrapped Around Your Finger
8 Independence Day
I'm over this, I'm over you. I'm not gonna waste my life away. I'm moving on, there's no excuse. And I can't take away your pain.
Meu pai havia comprado um apartamento no centro da cidade, mas eu não havia ido embora junto com ele, pelo menos não ontem de noite, pelo contrário, eu tinha assuntos para resolver com a minha mãe e não conseguiria seguir em frente enquanto não dissesse tudo, literalmente tudo, o que se passava na minha cabeça nos últimos anos.
Eu havia faltado na aula hoje, ficado em casa andando de um lado para o outro, indo diversas vezes até o porão pegar caixas e colocando todas as minhas coisas dentro delas, recebendo diversas mensagens da Thalia — na qual que não respondi nenhuma, da Silena e até mesmo do Percy.
Eu fiz algumas pausas, uma delas para almoçar a lasanha congelada e me lembrar do porque eu odiava massa, só que era aquilo o que eu teria para hoje e, acho eu, que para até o final do semestre ou do verão, dependeria de qual escola eu entrasse e em qual curso eu passasse.
Enquanto eu almoçava, aproveitei para fazer a minha inscrição no concurso da academia de New York, vendo algumas fotos do interior do prédio e alguns vídeos com as aulas dos professores dos diversos cursos — todos ligados a dança e teatro — que a universidade disponibilizava.
Foi impossível não admitir que era ali, naquele momento, onde eu queria estar, nem que tivesse que passar o dia usando meia fina e maio rosa, mas estava ali o curso que eu queria fazer. Estava ali a apresentação de Romeu e Julieta, de Orgulho E Preconceito, de Cisne Negro, todos em forma de teatro e de dança, principalmente com o ballet.
Era o meu sonho diante dos meus olhos e, pela primeira vez na vida, eu iria dar duro para conquistar algo que realmente fosse me fazer feliz no final. Não me importava mais com o olheiro de Yale na sexta, ou com o boletim repleto de notas A+, eu só queria ir para aquela universidade, mesmo que a cidade não fosse lá muito diferente de Seattle no inverno, mesmo que eu tivesse mais uma cidade inteira concorrendo junto a mim e mesmo que eu corresse o risco de não fazer parte do casal vencedor, era lá que eu queria estar. Custe o que custar.
Eu apenas havia me dado conta das horas perdidas em frente a um laptop vendo diferentes coreografias e pensando em uma só minha, original, para apresentar no próximo sábado, quando minha mãe apareceu com uma aparência cansada e com os braços cheios de pastas, se assustando com a minha presença ainda ali.
– Achei que já havia ido para a casa do seu pai. — ele murmurou deixando as pastas sobre o balcão e se aproximando de mim.
– Eu perdi a noção do tempo, estava vendo algumas coisas. — respondi de maneira baixa, fechando o meu laptop a tempo dela ver o que eu via.
– Referente a academia de New York.
– É, darei meu máximo para entrar lá. — murmurei indo na direção da porta da cozinha.
Era visível no seu olhar que ela não estava contente com nada daquilo, nem mesmo com nada que estava relacionado a aquilo. O simples fato dela chegar com a aparência derrotada em casa, cheia de pastas — a última vez que me lembro de ver ela trazer tanto trabalho pra casa foi bem antes do meu pai ir para a África atrás de ossos, entregava a sua infelicidade ou desgosto com tudo aquilo.
Mas a pergunta que não quer calar é: por quê tanto desgosto e infelicidade se todo o teatro do meu pai na África, era para manter o casamento e, ops, manter-me longe da empresa dela — o que não funcionou nem um pouquinho.
– Não quer conversar?
– Não venha tentar ser a minha mãe quando eu estou prestes a ir embora, pois tenho certeza que se eu não tivesse, você não estaria nem ai para mim, para como eu me sinto ou para como foi o meu dia, para qual são meus sonhos ou para qual universidade eu quero entrar. — falei seria para ela, detestando ser aparentemente parecida com ela. Nós duas eramos como um espelho uma da outra, apesar dela ser um espelho bem mais velho e cansado de mim. — Se eu não estivesse prestes a ir embora, você não estaria nem ai. Você não liga e nem adianta tentar ligar agora, eu sei que por baixo desse teatrinho que você está fazendo, a única coisa que você quer, é que eu desista e continue sendo a sua subordinada... Devia ter tido mais filhos, vai que algum deles quisesse assumir essa droga de empresa.
– Eu estava pensando no seu futuro, Annie! — ela exclamou me seguindo para o andar de cima. — Eu sempre ouvia o que me dizia, o quanto odiava o fato de ter que ir para Yale ou então o quanto queria estar em Hollywood... Mas isso, a dança, o teatro e a música são coisas que, se você não for realmente bom, nunca vai dar certo.
– E se eu for realmente boa? Você nem sequer me deu o benefício da dúvida em relação a isso! — exclamei me voltando para ela. — Você sempre dizia que eu não era boa e nunca aceitou meus acordos! Lembra? Um ano tentando em Hollywood, se não conseguisse, eu ia para Yale? Você nem pensou no assunto, antes que eu terminasse de argumentar você disse não e deu atenção para o seu celular! Agora sou eu quem está dizendo não sem te dar a chance de argumentar, de fazer acordos, passei a minha vida acreditando que não era boa o suficiente para nada e para ninguém, só que agora eu percebi: eu sou boa! Eu sou alguém! Não tente passar por cima de mim, por cima de quem eu sou, como se eu não existisse, porque eu estou aqui e estou cansada de ser a sua boneca!
Me virei novamente e segui até o fim do corredor, onde eu entrei em um quarto que em toda a minha vida foi meu e que, nesse momento, estava quase vazio. As paredes continuavam com o papel de parede de penas caindo com o fundo roxo pastel e o meu armário branco ainda estava encostado em uma das paredes, assim como a minha cama alta que continuava com os costumeiros lençóis brancos.
Fora os móveis que estavam ali, vazios, não existia mais nenhum sinal de que eu havia passado dezessete anos morando ali, todas as minhas coisas já estavam no meu carro e a única coisa minha que ainda estava naquele cômodo, era Cookie e a sua gaiola.
– Eu te vejo na sexta de noite, se achar tempo na sua agenda para ir ver a minha apresentação. — sorri sem humor para Atena, desviando dela e indo na direção do andar de baixo novamente.
– Eu vou cancelar com o olheiro de Yale.
– Não... Quero apresentar uma pessoa para ele e, bem, você já sabe o resto — disse tranquila, empilhando o resto das minhas poucas coisas que estava na sala, inclusive o meio laptop que, provavelmente, ainda estava com a página da academia de New York aberta.
Peguei as chaves do meu carro com dificuldade e olhei uma última vez para minha mãe, vendo ela parada com a sua postura ereta de sempre, com as suas roupas sociais de sempre, mas com o olhar partido, diferente de sempre. Talvez, tudo o que ela tenha feito para que eu me tornasse o menos sentimental possível com as pessoas, tenha dado certo, pois ao vê-la daquela maneira, não me abalou em nada, em sentido nenhum.
Sussurrei um adeus quase mudo e fui na direção do meu carro, colocando as coisas no banco do passageiro e dando a volta nele, para finalmente entrar e respirar fundo, antes de colocar a chave e ligar o motor.
Eu sabia, eu sempre soube, que a partir do momento em que eu fizesse as minhas malas e ligasse o motor do meu carro, mesmo que sem destino, para longe dessa casa, definitivamente longe, eu sempre soube que nunca mais voltaria a pisar ali novamente.
Pelo menos não pisaria da mesma maneira que sai.
...
– Então, como estamos a um dia da apresentação, eu coloquei a Drew no lugar da Katie, já que ela está com o ligamento rompido e a Drew iria ficar no banco, mesmo sabendo toda a coreografia. — Silena disse caminhando ao meu lado, em direção a sala de inglês avançado, me colocando a par das notícias que eu havia perdido ontem. — Espero que não se importe, fiz pensando na equipe.
– Tudo bem, as duas tem altura parecida e a Drew sabe perfeitamente a coreografia. — dei de ombros, procurando no meio de vários papéis, aquele que iria justificar a minha falta de ontem. — Algo a mais?
– Nós combinamos de ficar treinando até mais tarde, para colocar a sincronia e precisamos fechar o passo final, os meninos estão parados demais e eu tentei colocar um passo simples, mas que se destacasse, para encaixar no final da apresentação.
– Estrela dupla seguida de um mortal, sustentando uma das garotas em uma pirâmide pequena? — arqueei minha sobrancelha, parando na porta da sala de aula e olhando a garota com os lábios crispados, pensando sobre o assunto. — Eu não sei, tentarei pensar em algo melhor até o final da aula e tentar passar, mas estamos aos quarenta e cinco do segundo tempo, Silena, não há muito o que nos possamos fazer.
– Eu sei que há! — ela deu um sorriso confiante, otimista. — Admite, Annabeth, nós temos as nossas diferenças, mas no fundo somos parecidas e, eu quero me desculpar pelo o que eu disse outro dia... Você é a capitã do nosso time, você tem todo o direito de mudar quando você quiser...
– Silena...
– Não, deixe-me dizer! Você só estava pensando na apresentação de amanhã e, olha só, você conseguiu nos fazer pegar uma coreografia inteira e super difícil em apenas quatro dias, eu tenho certeza que se tivéssemos continuado, teríamos acertado aquele final! — ela disse e eu concordei com a cabeça, vendo o velho professor virar o corredor com seu passo de lesma. — O que eu quero dizer é que, você consegue pensar em algo e em vinte e quatro horas nos fazer aprender! Esse é o seu talento, Annie, você se estressa, fica irritada, mas é orgulhosa e cabeça dura demais para desistir de tentar! Olha, ainda temos algumas meninas no banco, meninas que sabem toda a coreografia, podemos fazer pequenas mudanças e, se você continuar com esse espírito, tendo fé em nós, tenho certeza que conseguimos pegar em algumas horas.
– Tudo bem, obrigada. — sorri sem jeito para ela, sentindo seus braços me envolverem em um abraço rápido para, enfim, ela me soltar e entrar na sala de aula, indo na direção de um dos dois lugares vagos. Olá, Percy Jackson.
Mordi meu lábio e me sentei ao lado dele, abaixando o rosto e dando um sorriso discreto para o mesmo, vendo ele retribuir com os olhos brilhando, me deixando cada segundo mais arrependida de estar mentindo, ainda estar mentindo, para ele, afinal, Rachel, como sempre, estava certa: ele é um bom garoto.
– Psiu. — Nico me chamou, fazendo com que eu saísse do meu denaveio e me virasse para o lado, vendo ele sério e me estendendo um pedaço dobrado de papel.
"Somos vizinhos agora?"
"Sim, nós somos... Obrigada por me ajudar ontem."
Dobrei o papel após ler e responder, me esticando para devolver para ele, com um leve sorriso sincero nos lábios, vendo ele sorrir de volta e pegar o papel, não tendo a chance de ler ou responder, os passos arrastados e o som de rodinhas anunciou que, finalmente, o Sr. Q. havia chegado a sua sala de aula.
– Senti a sua falta hoje de manhã... Me acostumei em ver você parada na saída da sua garagem, arrumando sua maquiagem no retrovisor do seu carro e, quando me via...
– Eu sorria e acenava... Você ignorava e saia cantando os pneus da sua moto no asfalto. — murmurei olhando para ele e dando um sorriso seco, puxando o meu caderno e passando a copiar a matéria de inglês avançado, para depois tentar entender o que o professor dizia.
– O que foi?
– O que foi é que, a minha vida está uma bagunça, literalmente no avesso e eu tenho mais problemas do que dedos, então, não quero que ter que voltar para a sala da sua mãe seja um deles. — resmunguei mal humorada, colocando um ponto final naquela conversa. Eu tinha meus motivos para estar brava com ele, mas não iria admitir que isso me incomodava, porque realmente incomodava.
No final, ele não era tão diferente dos outros garotos, nem muito diferente do Luke Castellan.
– O que eu fiz para você? — ele questionou meio minuto mais tarde, me fazendo olhar para o seu rosto e ver o desconforto ali.
– Na realidade, é o que você não fez, Perseu. — falei olhando para sua mão que apertava o meu braço, com a sobrancelha arqueada. Respirei fundo e olhei para ele de novo, controlando a minha voz o máximo possível, em um tom baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse. — Você tem vergonha de mim, não? Mal fala comigo na escola, espera todos irem embora para agir como se nada tivesse acontecido, é todo certinho e o orgulho dos professores, toda vez que alguém importante se aproxima você ignora a minha existência e todas as vezes que me chamou para sair, foi para lugares distantes e desertos... Quantas pessoas sabem sobre o nosso "relacionamento"? — fiz aspas com os dedos, puxando o meu braço e juntando o meu material, mesmo que a aula não tivesse acabado. — Estou cansada de me humilhar para você.
Peguei a minha bolsa e agarrei meu material sem olhar na cara dele de novo, olhando uma vez para o professor distraído e aproveitando a deixa para sumir de dentro daquela sala de aula, com passos mudos e rápidos, sem direção. Eu podia ir para a biblioteca, mas no estado de pavor que eu estava, me enfiar entre os anuários não iria ajudar em nada, nem mesmo se eu lesse todos os livros sobre terapia daquele lugar.
Eu não queria admitir tanta coisa, coisas que talvez, se eu admitisse em voz alta, realmente se tornasse um problema com solução, não um beco sem saída, um labirinto com mais paredes do que portas... Se eu admitisse que queria muito mais do que apenas ter ele envolvido nos meus dedos, desde o início, afinal.
Silena estava errada, eu não era orgulhosa demais e cabeça dura demais para desistir de algo, eu passei dezessete anos guardando minha coragem dentro de uma gaveta trancada e, agora que ela estava aberta, aquela coragem simplesmente havia decidido ficar ali. Todos estavam errados, afinal, eu não era tudo aquilo que aparentava ser.
Parei no meio do corredor vazio e respirei fundo, mordendo o meu lábio inferior e dando meia volta, com um sorriso nos lábios. Qual é, quando as coisas não saem por vontade própria, você puxa o mais forte possível, até que um dos lados desista, certo? Acho que estava na minha hora de começar a puxar e ser realmente forte.
O que não te mata, te fortalece, não é mesmo?
Entrei na sala de aula novamente, dando o mesmo sorriso que eu sempre dava para o Percy antes dessa ridícula apostar começar, vendo que o Sr. Q. nem sequer havia percebido a minha pequena ausência e, novamente, me sentando ao lado do moreno, com a postura ereta, com o queixo erguido e parecendo aquela antiga Annabeth que ele apenas sabia o nome e que ele chamava de vadia.
Acho eu que, aquele sorriso não saiu dos meus lábios tão cedo, eu me lembro de sair conversando com Nico, ainda sorrindo, da aula de inglês avançado e que havia passado o almoço discutindo com a Silena os passos que melhor se encaixariam na nossa performance, que eu descobrir que iria acontecer no intervalo do jogo dos meninos.
– Nós podíamos tentar algo comum, popular, sabe? — Silena disse me fazendo cruzar as penas e morder a caneta, pensando seriamente no que ela disse. — No filme das Apimentadas, aquele em que tem a Ashley Benson...
– Sei de qual está falando... Mas não sei onde quer chegar. — soltei um suspiro, colocando uma mexa do meu cabelo atrás da minha orelha.
– Naquele passo delas, imitando a montanha russa, sabe? Ele é popular, comum desde o lançamento do filme, mas é pouco feito por causa da sua complexidade, mas ai é que está: nos duas somos ágeis, habilidosas e podemos treinar apenas com o Mike e com o Trevor, não interfere em nada e eles estão se mexendo, assim como nós.
– É uma boa ideia, de verdade. — sorri anotando aquilo o que ela havia dito e já imaginando em como aderir ele na coreografia sem alterar o ritmo da música que eu havia escolhido para aquela apresentação. — No final, o problema de ambas as apresentações, é o final e os meninos parados.
– Sim, mas ainda não estamos em fases eliminatórias, temos algumas apresentações antes do outono começar, então, podemos aperfeiçoar melhor essa apresentação e deixá-la para a primeira eliminatória, tenho algumas ideias, até bem básicas perto das suas, mas que, podem nos ajudar a chegar nas eliminatórias tranquilamente. — ela sorriu gentilmente. — Se me permitir...
– Não vou te permitir. — disse séria, fazendo o sorriso dela desaparecer. — Mas, eu acho que podemos montar juntas as coreografias a partir de agora, não?
Silena sorriu e concordou rapidamente companhia cabeça, para então voltar a discutir comigo outros diferentes passos que podiam ser inseridos no final da nossa coreografia com facilidade, sem que precisassemos mexer com outras posições e focando principalmente nos meninos que, apesar de não serem tão habilidosos e ágeis como as meninas quando se trata de mexer o corpo, era essencial para uma equipe de torcida.
O segundo período passou rapidamente e eu mal tive tempo de respirar depois que começamos a colocar em prática nossas ideias, vendo que tanto nós duas quanto os meninos havíamos nos adaptado muito bem e com facilidade em todas elas, tornando mais fácil conseguirmos definir apenas um e recomeçar a apresentação desde o início, finalizando ela e, como sempre, falhando no final, mas depois de algumas outras tentativas, nos dançavamos e apresentavamos como se nunca tivéssemos errado ou deixado algo incompleto, terminando o passo da Montanha-Russa bem no momento em que a música acabava.
Quando eu sai do vestiário feminino, dessa vez bem humorada e conversando com a Drew sobre coisas que eu nunca havia conversado com a Thalia, coisas simples sobre moda e as cores de esmalte que ficariam bem para a apresentação de amanhã. Ela até havia me dado algumas ideias sobre um novo uniforme para nós, prometendo que iria fazer croquis e trazer diferentes ideias para que juntas, até mesmo com a Silena que havia se infiltrado na conversa, tentassemos chegar a uma conclusão.
– Temos que ter um uniforme novo até as finais. — Silena falou olhando para nós duas.
– Você também é ótima com moda e desenho, também pode trazer as suas ideias e nós misturamos, se for possível. — Drew disse com um sorriso sincero.
E, pela primeira vez, a neve não estava me incomodando como havia incomodado nos últimos meses. Eu não estava bem, sabia que assim que chegasse na minha casa, na minha nova casa, as coisas seriam diferentes do que são agora e, toda aquela preocupação de antes, iria voltar como um balde de água fria.
Eu não havia me libertado de uma prisão que eu havia me autocolocado, porque dizer aquelas para o Percy não era nada perto de tudo o que eu queria dizer para tantas pessoas, mas de alguma forma, se eu parasse de me preocupar tanto com tudo, com o que pensam de mim, de como eu devo agir sempre e como as pessoas vão reagir se eu fizer tal coisa, talvez eu realmente fosse mais livre.
– Vocês virão a Rachel? — questionei olhando para o prédio da escola.
– Não, não desde o final do período, mas ela costuma ficar na biblioteca depois do período por causa do grupo de estudos. — Drew respondeu. — Se correr, é capaz de encontrar ela lá.
– Obrigada. — disse acenando para as duas e indo na direção do prédio, tentando me lembrar do acesso mais rápido e fácil para a biblioteca.
Eu deveria conhecer melhor a minha escola, mas no final, correr pelo primeiro andar e passar a sala do zelador, para então virar no segundo corredor da direita, era o caminho que eu conhecia e, por estar afobada por correr pelos corredores, recebi um olhar severo da secretária quando escancarei as portas da biblioteca, vendo a mesma praticamente vazia e, como sempre, silenciosa.
– A Rachel já se foi, não? — disse soltando um suspiro.
– Está na sessão de história. — ela disse clara e simples, voltando a olhar para a tela do seu computador e, provavelmente, jogar algum tipo estranho de jogo de velhos. Baralho online, talvez.
Eu não fazia a mínima ideia de onde a maldita sessão de história ficava, apesar de me dar bem em qualquer matéria que envolva a área de humanas, frequentar a biblioteca não era uma das virtudes para se adicionar a maravilhosa lista de coisas que Annabeth Chase sabe fazer bem — que, até agora, eu havia chegado a conclusão de que eram poucas.
Eu passei por diversas prateleiras até ouvir burburinhos de vozes, uma feminina e a outra masculina, alguns metros de mim, se misturando em uma discussão baixa sobre alguma coisa, ou sobre alguma. Passei por duas prateleiras, ainda ficando meio distante da voz das pessoas, mas ficando perto o suficiente para reconhecer elas. Uma era da Rachel e a outra, a que me surpreendeu, era do Perseu.
– Eu prometo que, quando isso tudo acabar, você não vai mais precisar fazer tudo isso! — ele disse, fazendo com que eu parasse onde estava e olhasse entre os livros, vendo os dois, próximos demais, com ele inclinado sobre ela. — Eu prometo, Rach.
– Você costuma não cumprir as suas promessas, Percy, então não faça-as. — ela disse transparecendo a raiva na voz. — Além do mais, eu não pedi que fizesse isso, não pedi que voltasse a correr atrás de mim e nem que acabasse com a sua vida dessa maneira. Eu estudo bem sem você e, você devia entender isso, já faz um ano e, eu sei sobre você e ela.
– Ela não é ninguém para mim!
– Não só ela, Percy, todas as outras! — Rachel exclamou levantando sua voz nas oitavas, para depois controlá-la de novo. — Você vive chamando a Annabeth de vadia, oferecida e puta, mas já olhou para você? Acho que deveria olhar, você já está sem opção na escola, ficou em segredo com todas as meninas dessa escola, abusando do posto da sua mãe... No final das contas, Perseu, você e a Annabeth não são muito diferentes um do outro, se merece, só que, a única diferença entre vocês dois, é que ela não tem vergonha de mostrar, diferente de você.
– Você já viu a desculpa dela? A desculpa que ela usa para ser do jeito que é, para ser uma... Vadia? — ele disse tudo com descrença, me dando os nervos.
Respirei fundo, olhando para os lados e vendo aquela sessão completamente vazia. Olhei para as lombadas dos livros, mordendo o meu lábio inferior com a maior força possível, não me importando com o sangue que passou a escorrer dele, porque ele estava seco e eu havia forçado demais.
Não me importava de sangrar, não mesmo, era mais fácil parar o sangue da minha boca do que o da ccicatriz no meu coração que, a cada momento, parecia se arrebentar mais, multiplicando seu tamanho e a dor. Até quando eu iria quebrar a minha cara por causa de garotos? Fala. sério, eu disse tudo para ele, contei para ele que nem eu mesmo sabia que sabia, para no final, fazer parte do jogo dele e ele do meu?
Eu não havia mentindo então, não havia mentindo quando disse para Percy que ele não era muito diferente do Luke.
– Sim, eu sei a desculpa dela... Que não é bem uma desculpa, o Luke realmente acabou com a vida dela e, acho eu, que essa foi a melhor e mais fácil maneira que ela conseguiu para seguir em frente. — ela disse, me tirando da minha massa de pensamentos insanos e me fazendo olhar entre os livros novamente, tendo agora a visão do rosto do Percy, vendo ele com uma expressão incrédula. — Os motivos dela são mil vezes melhores do que o seu.
– Como você sabe dos motivos dela? — ele arqueou a sobrancelha, mudando seu semblante e o assunto.
– Eu sei de muita coisa sobre ela, Percy. Da mesma maneira que avisei você para que tivesse cuidado com a Annabeth, com os sentimentos dela, eu avisei ela para ter cuidado com você, porque você era uma boa pessoa...
– Era?
– Sim, depois de descobrir essa sujeira em relação a você, eu retiro tudo de bom que eu disse. — ela falou se afastando dele. — Hoje, eu tenho nojo de você.
– Ei, Rachel, posso falar com você? — falei saindo do meio dos livros, assustando os dois e vendo Percy se transformar em outra pessoa. Até eu fiquei com nojo.
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