Mordi meu lábio inferior, olhando para o meu reflexo no espelho e vendo o mesmo uniforme de sempre, na mesma cor de sempre e no mesmo comprimento de sempre.
Ele não era feio, mas podia ser melhor. Azul e preto, com um top justo de mangas longas para o tempo sempre fechado de Seattle, a saia curta não chegava nem ao meio da minha coxa e eu adorava isso. Se não fosse o short minusculo que era obrigatório usar sob a saia de pregas, as coisas seriam tão mais simples, da mesma maneira que é simples erguer o top que nem na minha cintura chega.
- Annabeth, você vai se atrasar! — minha mãe gritou do lado de fora do meu quarto e eu revirei meus olhos, puxando todos os meus fios de cabelo para trás e prendendo eles em um rabo-de-cavalo.
Me sentei na minha cama e calcei os tênis brancos, amarrando eles rapidamente e levantando em um pulo.
A minha casa era sempre um caos, não em bagunça, mas sim em problemas. Meu pai passa noventa porcento do tempo atrás de ossos velhos na Africa e a minha mãe dedica cem porcento do seu tempo a grande empresa de arquitetura que ela havia construído com suor, garra e determinação, esquecendo que tinha uma filha para criar.
- Eu odeio esse uniforme — Atena disse olhando para o meu corpo.
- Você diz isso todos os dias e não faz nada para mudar. — dei de ombros, enfiando tudo o que eu precisava dentro da minha bolsa.
Peguei uma maçã e dei um adeus para a minha mãe, puxando minha bolsa com a mão livre e indo na direção da garagem.
Era rotina isso, todos os dias a minha mãe dizia a mesma coisa, todos os dias eu dava a mesma resposta e ia para o meu carro, saindo com ele da garagem junto com Percy Jackson e, na cara de pau, todos os dias eu dava meu melhor sorriso sedutor e acenava para ele.
Só que ele, ignorante como sempre, revirava os olhos e cantava o pneu da sua moto na rua.
Suspirei e sai com meu carro, repetindo a mesma rotina de sempre e o mesmo caminho de sempre na direção da escola patética, vulgo Goode High School.
Parei em um Starbucks e pedi meu cappuccino com muito chantili e essência de chocolate, para depois ir para a Goode e deixar o meu carro na vaga de sempre, a tempo de ver Percy Jackson sair da moto dele e caminhar, no estilo Edward Cullen da vida, para o lado de dentro da escola.
- Amiga, limpa os lábios, você está babando de novo — Thalia disse colocando o dedo no canto dos meus lábios, me fazendo encará-la com ódio. — O ano vai acabar e ele vai ser a única figurinha que você não vai ter no seu álbum.
- Annabeth Chase nunca deixa um espaço em branco no álbum. — dei um sorriso gelado para ela e bati a porta do meu carro, colocando o copo do Starbucks sobre o capô e arrumando meus seios no top azul. — Eu consigo ele, só preciso me empenhar mais.
- Está dizendo isso, a tipo, uns três anos — ela arqueou uma sobrancelha, com um sorriso incrédulo. — Esse é o último ano, ele vai ir para Stanford e você vai para Yale.
- Já disse que a sua voz é maravilhosa, Thals?
- Não.
- Então é porque ela não é — empurrei a porta de entrada e coloquei um sorriso nos lábios, olhando para as diversas pessoas, algumas sentadas nos degraus da escada, outras encostadas nos armários conversando com as amigas ou em seus grupinhos comuns.
Balancei minha cabeça, sentindo o meu rabo-de-cavalo bater nas minhas costas e, ainda sorrindo como se fosse a dona do mundo — que, no caso do mundo da Goode, eu era — caminhei na direção do meu armário, bebericando algumas vezes o meu cappuccino quente.
Mordi o interior da minha bochecha e peguei tudo o que eu tinha que pegar, trocando os materiais da minha bolsa pelos materiais das primeiras aulas, para então ver a minha adorável vítima virar o corredor e se trancar toda quando nossos olhares se encontraram.
- Olá, Rachel — sorri para a ruiva com algumas sardas nas bochechas. Ela respirou fundo, piscou e deu um sorrisinho amarelo e sem graça, dando meia volta e me acompanhando para o próximo corredor. — Fez minha redação de história?
- Não... Annabeth, eu tinha a minha redação e os meus deveres de casa para fazer, não tive tempo! — ela se justificou rapidamente, enquanto eu balançava o copo na minha mão, sentindo o líquido quente.
- Você tem noção do que isso significa para mim? — me virei para ela, travando o meu maxilar — Se eu não tirar um B+ em história, Rachel Elizabeth Dare, eu estou fora do campeonato das líderes de torcida e, se eu estou fora do campeonato...
- Você perde a bolsa para Yale.
- Bingo! — exclamei vendo ela morder os lábios. Respirei fundo e encarei o teto, contando até cinco e depois olhando para os olhos verdes da menina. — É boa em física, queridinha?
- Sou...
- Qual é mesmo a terceira lei de Newton? — mordi meu lábio, indecisa.
- Ação e reação...
- Ah! É mesmo... Toda ação gera uma reação contrária e de maior força. — sorri olhando para o copo com o líquido quente.
Tirei a tampa dele e bebi mais um pouco, me degustando do sabor e da quentura dele com gosto. Rachel me encarou inquieta e, quando ela abriu a boca para dizer algo, eu sorri de maneira maléfica e ergui o copo sobre a cabeça dela, virando todo o líquido sobre seu cabelo e corpo, fazendo o grito ficar preso na sua garganta.
- Se alguém ficar sabendo disso, você está morta — sussurrei no seu ouvido, jogando o copo no lixo ao seu lado e me afastando para a minha primeira aula.
Antes de virar o corredor dei uma olhada na Rachel por cima do ombro e sorri satisfeita, vendo ela olhar para si mesma e depois para o seu material.
E dai que eu era a vadia má? Rachel tinha um acordo comigo e não era a primeira vez que ela quebrava ele. Uma eu aceito, duas eu considero, mas na terceira a conversa acabou.
Caminhei de queixo erguido até a minha sala, no terceiro andar, aula de inglês avançado, onde o Sr Q. ainda não havia chegado e quase todos os lugares bons, estavam ocupados.
Sorri ao ver o garoto no fundo da sala, olhando despreocupadamente para o nada e, sem dúvida, fingindo escutar o que a Piper McLean falar tagarelamente.
Caminhei até ele decidida a tornar a vida do louro mais interessante e, de maneira inocente, me aproximei e o abracei por trás, dando um beijo no seu pescoço.
- Olá, louro. — sorri vendo ele deitar a cabeça no meu peito. Os olhos azuis glaciais de Jason pareciam estar mais brilhantes hoje. — Viu um passarinho verde?
- Não, vai vir um anjo chamado Annabeth Chase — ele falou pegando a minha mão e me puxando para o colo dele.
Me sentei ali, colocando a minha bolsa sobre a dele e então me surpreendendo com as suas mãos no meu rosto, puxando ele na direção do seu rosto. O único problema do Jason era que o beijo dele era lento demais, romântico demais, detalhista demais, como se menos realmente fosse mais.
Unhei a nuca dele, prendendo seu lábio inferior entre os meus dentes, puxando ele com força e soltando logo em seguida, com um leve sorriso nos lábios.
Dei um leve beijo dele e me levantei do seu colo, pegando a minha bolsa e rebolando propositalmente até a mesa do lado, que por sorte do destino era ao lado do Percy Jackson.
- Oi, bonitinho — sorri para ele, vendo o mesmo me olhar pelo canto do olho e bufar, voltando a olhar para o Sr Q. que estava entrando. Qual era o problema dele? — A lei básica da educação diz que, quando alguém fala com você, é obrigatório responder.
- Mas eu prefiro fingir que a minha mãe não me deu educação — ele deu um sorriso seco e relaxou as costas na cadeira, de maneira ignorante.
Respirei fundo, para não cometer algum erro e colocar o que restava de chance de ter um caso, por menor que fosse, com o moreno dos olhos verdes ao meu lado.
As aulas sempre eram uma droga, principalmente no inverno, onde mal podíamos sair de dentro da escola por causa da chuva, vulgo neve. Era por isso que queria ir para a Califórnia, para a Academia de Artes de Hollywood, mas esse era o último destino da minha lista de universidades, já que, segundo a minha mãe, eu ia para Yale e fim de papo.
- Tudo bem, eu tenho uma coreografia nova para o próximo jogo — disse após todos se calarem, no final do período. Os meninos do time de basquete corriam de um lado para o outro, se aquecendo e, eu tinha que admitir, eu amava ser líder de torcida e ter essa visão maravilhosa dos músculos deles.
- O próximo jogo é daqui oito dias — Silena cruzou os braços, me olhando incrédula e me fazendo revirar os meus olhos — Nem nos matando vamos aprender essa coreografia.
- Ela é básica e a parte mais difícil, vai ficar para mim... Então cale a boca e preste atenção em uma coisa, porque se você e se todos vocês estão aqui hoje, é graças a mim, porque eu vi talento em vocês. Se vocês não se acham capazes de aprender uma coreografia em sete dias, a porta é logo ali e, eu não me importo, existe mais trezentas pessoas que se matariam para ter um lugar aqui. — respirei fundo colocando o meu pendrive no aparelho de som e procurando o remix da música. — Trevor e Mike, vocês vão me ajudar a fazer a volta ao mundo.
O remix começou a tocar alto e eu comecei a gritar e explicar os passos para todo o pessoal, parando a música algumas vezes e recomeçando ela, até chegar o final, onde eu ficarei com o topo da pirâmide e daria a volta ao mundo.
Era fácil fazer a volta ao mundo. Eu subia no topo da pirâmide, me jogava e dava um giro duplo no ar, caia em pé nos ombros dos meninos e pegava o maior impulso possível para cima, dando um salto e virando um mortal perfeito, para cair no topo da pirâmide de novo, em pé.
Simples assim.
- Silena, são três estrelas, não duas estrelas e uma cambalhota ridícula! — gritei com ela, voltando a música no início mais uma vez, estava tudo um desastre. — Clarisse, por favor, é o impulso, a estrela e o giro no ar, seguidamente. Esse é o passo mais simples do mundo!
- Só que você quer que a gente faça isso no ritmo da música e a música é acelerada!
- Se eu conseguir fazer de primeira você vai pagar vinte estrelas até o fim do treino.
Dei o play na música e respirei fundo, fechando os meus olhos e pegando impulso e saindo na direção da minha estrela perfeita. Ela saiu perfeita, o meu giro saiu perfeito, mas o que não saiu perfeito foi a minha finalização, porque eu acabei caindo em cima de um idiota.
- Você por acaso é cego e não viu que essa é a área de treino das líderes de torcida?
- Não sou cego e muito menos surdo, sua louca, você que não sabe fazer uma finalização sem se jogar em cima de um homem, vadia — Percy disse se afastando de mim e caminhando pela pista de corrida.
- Clarisse as vinte estrelas. Silena continua o treino de onde paramos — gritei para elas, seguindo o Jackson, vermelha de raiva. — E você, seu idiota, toma mais cuidado com as suas palavras porque quem invadiu a minha área de treino foi você! Eu nem percebi que você estava passando perto quando comecei o passo.
- Conta outra — ele revirou os olhos, parando na porta do vestiário masculino — Quer entrar para brincar com os meninos enquanto eles tomam banho?
- Não, eu tenho uma torcida para liderar, ignorante — dei de ombros, voltando para a área de treino. — Aliás, Percy Jackson, pelo menos eu não vou terminar o ensino médio virgem.
- Acho que a minha vida sexual não é assunto para estar na boca de uma vadia, não é?
Dei um sorriso para ele e me aproximei de novo, ficando na ponta dos pés e, de maneira sedutora e ao mesmo tempo inocente, sussurrei no seu ouvido:
- Posso até ser vadia, mas eu sei que até mesmo você, que se faz de dono do mundo, já me desejou, não importa de que maneira.
Mordi o seu lóbulo e me afastei dele, voltando para as minhas meninas, rebolando de propósito porque eu sabia que ele estava me olhando.
Eu podia não ter o Percy na minha cama, me fazendo gemer em três idiomas diferentes ou então me fazendo conhecer A Terra do Nunca, mas eu conseguia fazer o ignorante repensar, mesmo que fosse por alguns segundos, sobre a minha pessoa.
- Ele nunca vai ser seu — Thalia disse, sentada na arquibancada.
- Vocês estão liberados, amanhã treinamos mais e quem sabe no final de semana também — dispensei eles com a mão, indo me sentar ao lado da morena e olhando para o outro lado do campo — Por que ele é tão difícil?
- Ele te acha...
- Vadia, já sei, ele vive me chamando disso.
- Não é isso, Annabeth, ele gosta de meninas que se prezam... Que não sejam vulgares e oferecidas, como você — ela encolheu os ombros, me encarando de soslaio.
Suspirei e me virei para ela, dando uma sorriso seco e me perguntei porque a idiota sabia disso e eu não.
Me levantei em um pulo e sorri melhor, passando a me alongar na sua frente, vendo os seus fios pretos espetados e os seus olhos azuis eletrizante, que no momento estavam sérios demais.
- Eu consigo ele, eu sei que sim.
- Diz isso desde o primeiro ano do ensino médio e, tudo o que ele sempre fez e, eu acho que sempre vai fazer, é te ignorar.
- Aposto mil dólares que consigo.
- Aposto mil dólares que não consegue.
- Thalia Grace, eu aposto mil dólares que, em sete dias, eu tenho o sr. Jackson totalmente envolto nos meus dedos — estiquei a minha mão para ela, vendo a mesma se levantar e apertar ela.
- E eu aposto que você não consegue. Teria que virar outra pessoa, ou nascer de novo, para que isso acontecesse, Annabeth.
- Veremos.
...
Bati com força a porta dos fundos da minha casa, batendo o pé até o balanço e me sentando ali, visivelmente irritada com a minha vida.
Frederick Chase está na Africa atrás de ossos velhos e ainda sim quer que eu seja a filha perfeita. Atena só se importa com a reputação dela e da empresa dela e quer que eu vá para Yale, cursar arquitetura e administração.
Mas e eu? Como eu ficava nessa história toda? Eu quero ir para a Califórnia, cursar artes cênicas na maior universidade que tinha em Hollywood, mas a minha mãe não entendia, Frederick não se importava com o que eu queria.
Atena sempre dizia que ser atriz não é emprego de gente, que é coisa de quem não tem nada para fazer.
- Está tudo bem com você? — Percy perguntou, se ajoelhando na minha frente com o cenho franzido.
- Sim, é que o céu está tão estrelado e tão a lua está tão brilhante que até me deu vontade de chorar — disse olhando para o céu negro, até a lua estava coberta pelas nuvens. — Essa é a pergunta mais idiota de se fazer para alguém que está chorando.
- Você fica no modo irônico o dia todo?
- Não, só ligo ele para pessoas ignorantes… Alias, o que você está fazendo aqui? Achei que não se importava com vadias.
- E eu achei que vadias não choravam — ele falou se sentando ao meu lado — Eu detesto ver mulheres chorando, é por isso que estou aqui, Annabeth.
Olhei para ele, com uma sobrancelha arqueada e, provavelmente com uma expressão muito incrédula, porque o moreno soltou uma gargalhada nada contida voltando o seu olhar para a rua.
Ele provavelmente estava correndo, os fones estavam pendurados no seu pescoço e alguns fios do seu cabelo estavam grudados na sua testa, por causa do suor. Ele, desde o primeiro dia que eu o vi, ele era a definição de deus grego, tinha os lábios médios, com o inferior um pouco mais cheio do que o superior — que me deixava ainda mais louca para beijá-lo, seus olhos cada hora era um tom de verde, um mais lindo que o outro e o seu nariz era fino, levemente arrebitado.
- Quer conversar?
- Quer me ouvir?
- Deve existir um motivo muito serio para fazer a indestrutível Annabeth Chase chorar e eu, curioso como sou, quero descobrí-lo e...
- E contar para a Goode inteira, então não, não quero conversar com você.
- Eu ia dizer que quero te ajudar.
Notas finais
Ela é um presente para mim mesma de aniversário de Unconditionally, que é hoje gente!!! Então, ela é um presente de mim para mim mesma porque Unconditionally marcou a minha vida não só na categoria de PJO, mas também me fez melhorar a minha maneira de escrever e ser mais criativa, então Wayf é um presente para mim e para todas vocês que estavam com saudades!
Então digam o que acharam okay?
Beijos amores ♥
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